sábado, 29 de outubro de 2016

Quem ganhou o debate da Globo? (Crivella x Freixo, 28/10/2016)

Um debate que tinha tudo para ser espetacular, mas foi fraquíssimo. Analiso a seguir as estratégias de oratória adotadas pelos dois candidatos, e seus impactos possíveis nas urnas.



Marcelo Freixo
Infelizmente, Freixo não foi muito feliz no plano estratégico, ou seja, no arranjo de sua participação no conjunto do debate. Também falhou no plano tático, escolhendo mal suas intervenções no primeiro e no último bloco.

Freixo atacou demais. Obviamente era necessário cobrar de Crivella explicações e esclarecimentos sobre as graves acusações que pesam sobre sua pessoa e sua candidatura. O cidadão carioca merece saber quem é realmente Marcelo Crivella. Infelizmente, para muitos eleitores, pareceu sujeira e baixaria. Apenas no último bloco Freixo expressou com clareza não estava acusando Crivella, apenas fazendo perguntas e pedindo esclarecimentos. Acho que foi muito tarde: a essa altura, muitos eleitores já deviam ter desligado a TV. Outros já deviam estar muito irritados com a impressão inicialmente causada. Pior ainda, o bispo sabe aproveitar muito bem esse tipo de ataque, fazendo seu costumeiro papel de santinho injustiçado, que convence muitos eleitores desavisados.

Como sempre, Freixo foi impecável em sua argumentação. Freixo é um candidato sensato: suas falas costumam destoar da "estética da indignação" e do estereótipo de "esquerdista raivoso", mas ele não conseguiu passar essa imagem no debate. Queria ter visto mais o Freixo alegre, simpático e sereno dos encontros e comícios. Freixo deveria talvez ter concentrado suas forças na discussão de propostas, uma vez que o programa de Crivella é fraquíssimo: 50 propostas (mal) explicadas em 8 páginas. Freixo deveria ter batido NO PROGRAMA do adversário, mas preferiu bater no bispo. Seria fácil para ele desmantelar as ralas propostas de Crivella.

Por fim, Freixo entrou no debate com a faca nos dentes. Atacou o adversário desde a primeira pergunta, sobre as mulheres. Por sinal, como apontou um amigo evangélico, a pergunta foi muito mal elaborada. Qualquer pastor minimamente preparado saberia se desvencilhar da questão de modo convincente para muitos eleitores - o que Crivella conseguiu fazer. A pergunta ficava numa zona cinzenta entre política e religião, e o bispo transita muito bem por essa zona cinzenta. Há também aí certo despreparo. Dado o panorama desse segundo turno, Freixo precisaria ter se preparado melhor junto a especialistas em religião. A questão emergiria naturalmente, e Crivella sabe usar bem de noções do senso comum que ocultam a intolerância e o fanatismo de seu campo. Há muitas reflexões oportunas no campo do ecumenismo e do diálogo interreligioso, das quais Freixo poderia se apropriar com proveito. A campanha de Freixo foi muito bonita nessa área, reunindo representantes de inúmeras crenças em defesa da pluralidade, do convívio e da tolerância, mas não soube aproveitar todo o potencial desse trunfo. A mistura entre política e religião é o calcanhar de Aquiles de Crivella, mas acho que Freixo abordou esse ponto fraco por um ângulo pouco produtivo.

Começar atacando também é um erro crasso de oratória. Qualquer bom orador sabe que no começo de um debate é necessário captar a benevolência do auditório. Na minha opinião, Freixo deveria ter iniciado com alguma questão menos polêmica, no campo das propostas. Em seguida, aproveitaria as oportunidades de bater em Crivella conforme elas aparecessem espontaneamente no curso do debate. Por fim, deixaria o ataque frontal para o terceiro bloco. Apenas quando já tivesse angariado a simpatia do público partiria para o confronto, tendo uma posição mais confortável para a ofensiva.

Marcelo Crivella
O bispo estava visivelmente desconfortável. Não me recordo de tê-lo visto tão nervoso em qualquer outra ocasião. A tensão de Crivella transparecia em sua linguagem corporal e expressões faciais: movimentos impacientes dos pés, pancadinhas nervosas com as mãos sobre o púlpito, rigidez no maxilar. Não chegou a gaguejar como aconteceu no debate da Rede TV, mas sua fala apresentou inúmeros descarrilamentos de raciocínio que não lhe são habituais.

Forte nas pesquisas, Crivella adotou nitidamente uma postura defensiva, numa estratégia de redução de danos. No debate da Rede TV o bispo chegara a perder o controle, xingando o adversário de modo pouco sutil: "Eu poderia chamar o senhor de canalha, safado, vagabundo... mas não vou chamar". No mesmo debate recorreu ao ineficiente artifício de repetir 4 ou 5 vezes que não governaria com Garotinho - algumas pessoas consideraram ridículo e até infantil.

Dessa vez, Crivella não veio disposto a ganhar votos, apenas a perder o mínimo possível. Por isso mesmo, evitou sistematicamente ataques contra Freixo. Quando atacado, preferiu a evasiva. Não mostrava a MÍNIMA preocupação em apresentar argumentos convincentes às incômodas perguntas do adversário. Crivella sabia que não haveria argumentos convincentes, então persistiu em fazer o papel de vítima caluniada. Por vezes debochava desses questionamentos com piadinhas pouco agressivas, quase "inocentes": "Acho que o Freixo quer virar meu biógrafo" e que tais. Calculo mesmo que essas piadinhas, pouco contextualizadas no debate, já estavam ensaiadas de antemão: o bispo só teve o trabalho de encaixá-las quando julgou oportuno. Vale salientar que Freixo usou, com muita eficiência, outro tipo de humor: mordaz, ácido, satírico. "Zorra Total" contra "Porta dos Fundos"...

Por outro lado, a imagem de bom moço foi reforçada com estratégias típicas de oratória rasteira: elogios rasgados ao adversário, demonstrações exageradas (e falsas) de simpatia. Repetiu ad nauseam que Freixo baixava o nível do debate, enquanto ele levantava. Outra técnica rasteira, usada por qualquer bom vendedor, martelando uma ideia na cabeça dos espectadores pela mera repetição.

Afinal, quem ganhou o debate?
Qualquer orador de bom senso sabe que é impossível "ganhar" um debate: os eleitores fanáticos de Crivella devem ter achado que ele venceu, enquanto os eleitores militantes de Freixo também devem ter achado que foi ele o vencedor.

Assim sendo, cabe destacar que Freixo tinha, nitidamente, os melhores argumentos: coerentes, coesos, consistentes. Por outro lado, Crivella foi muito bem sucedido em manter as aparências. E, infelizmente, muitos eleitores prestam mais atenção às aparências que aos argumentos.

Cada um dos candidatos chegou a esse debate com objetivos distintos. Crivella queria minimizar a perda de votos, para conservar uma margem suficiente para a vitória. Freixo, por sua vez, queria tirar votos do bispo (mesmo que por anulação) e convencer eleitores indecisos a sair do nulo para o 50. Creio que Crivella agiu de modo eficiente para alcançar seu objetivo. Freixo, pelo contrário, talvez tenha tirado muitos votos de Crivella, mas não sei se conseguiu conquistar muitos indecisos.

Quem "ganhou" o debate? Somente as urnas dirão...

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