quarta-feira, 28 de março de 2018

A intensidade do vazio

Acabo de assistir o trailer de lançamento do jogo "Kirby Battle Royale".

O vídeo apresenta uma edição frenética e psicodélica. Tomadas e tomadas se sucedem em poucos décimos de segundo: suponho que para lidar com um público cujo "attention spam" (sic) se torna cada vez mais curto, como tanto enfatizam os "teóricos" (sic) do marketing digital: 8 míseros segundos, dizem, é o máximo que um espectador atual consegue acompanhar atentamente.

Fico com a sensação de que o tiro sai pela culatra. Depois do primeiro minuto, não consegui prestar atenção ao trailer. Imagens, efeitos sonoros e música hiperexcitante se sucediam numa cadência tão intensa que, antes que eu pudesse sequer decodificar a cena apresentada, já havia outra a se desenrolar diante de meus aturdidos olhos e ouvidos.

Me lembrou o famoso episódio, lá se vão duas décadas, das criancinhas japonesas tendo ataques epilépticos em escala industrial diante de seus televisores - singular ocasião nos anais da neurologia humana e, possivelmente, da psicopatologia social. Separados no espaço, juntos no momento, milhares de cerebrozinhos infantis impiedosamente (e acidentalmente) torturados através de seus aparatos eletrônicos domésticos: uma imagem pungente da contemporaneidade. Laranja Eletrônica...?

Ao término do super-ultra-mega-estimulante trailer, precisei de apenas um Rivotril, uma Maracugina, um Frontal sublingual e meia-hora de meditação para me sentir um pouco menos aflito - embora verborragicamente desesperado para verter fora adjetivos e advérbios.

A edição do trailer em apreço tenta espremer tanto conteúdo em menos de 5 minutos de vídeo que todo esse conteúdo se torna ininteligível - e irrelevante; "insignificante", no sentido etimológico. Tão barulhento, que chega a ser inaudível: 5 minutos de psicodelia visual e sonora que, no fundo, não significam quase nada.

Assim parece nosso mundo: tão absurdamente cheio, que parece cada vez mais estupidamente vazio. Ofuscantemente silencioso, apesar de seu inquietante barulho; ruidosamente escuro, apesar de suas luzes deslumbrantes. Tudo tão feérico, tudo tão prosaico.

Talvez a mídia digital consiga em breve realizar aquilo que milênios de Budismo não conseguiram: "esvaziar" a cabeça de toda a sociedade. "Ceci tuera cela". Confesso que nada disso lembra aquilo que imagino como nirvana...

P.S.: Pouco antes, recebera o anúncio do jogo "Detective Pikachu". Maiores comentários podem ser dispensados.



Mais importante que a transformação da sociedade seria, talvez, sua transfiguração...


quarta-feira, 21 de março de 2018

Entre real e ideal

A política deveria ser a arte de articular vontades para que o real se torne um pouquinho (apenas um pouquinho) menos distante do ideal. Não é pedir muito... Ou é?


domingo, 18 de março de 2018

Por que mataram Marielle Franco?

Pretendia não falar nada, mas não consegui.

Posso estar muito enganado, mas acho que Marielle não morreu porque era negra, mulher ou favelada - morreu, antes de tudo, enquanto vereadora. Não creio que haja qualquer motivação de ordem identitária relacionada ao crime em questão. Acredito que ela morreu exatamente pelo mesmo motivo que o Freixo precisa andar com seguranças: ameaçar os interesses de setores do crime organizado. Não me parece conveniente misturar alhos com bugalhos numa situação delicada como essa.

Lamentar a morte dela enquanto representante dessas categorias não é um problema, mas nos últimos dias li VÁRIAS afirmações de que ela morreu PORQUE era negra, mulher e favelada - o que é muito diferente: seria a mesma coisa que dizer que o Freixo é ou foi ameaçado por ser homem, hetero ou branco, para ficar num exemplo próximo e concreto. Acho improvável.

Também penso que um dos grandes problemas de todo o debate político no Brasil e no mundo hoje é justamente a confusão desordenada entre opiniões e "fatos". Os termos de cada debate precisam ser definidos com clareza, assim como as circunstâncias específicas de situações igualmente específicas precisam ser devidamente examinadas em suas particularidades - não misturar alhos com bugalhos, enfim.

Cada caso é um caso; uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como diz a sabedoria popular. O assassinato de Marielle é um caso muito peculiar, irredutível a categorias mais gerais e amplas. Acho complicado, inconveniente e mesmo perigoso que o caso em questão, com toda sua singularidade, seja banalizado e veja seus contornos mais específicos diluídos em pautas dessa ou daquela militância identitária.

De qualquer forma, a morte de Marielle é lamentável em muitos sentidos - ainda assim, não convém traçar conexões falaciosas entre esses múltiplos sentidos.

E, é claro, eu posso estar (muito) enganado, como afirmei desde o princípio.



quarta-feira, 14 de março de 2018

Modelo e devir

Só existe exemplo quando enxergo no modelo alguém que eu também posso vir a ser. O ser exemplar é alguém cujas qualidades eu não apenas admiro, mas que de alguma forma pressinto ou reconheço potencialmente presentes em mim mesmo.


sexta-feira, 9 de março de 2018

A cereja do Boulos

Não sou afiliado nem militante do PSOL; minha opinião é apenas a de um eleitor que (ainda) vê o PSOL como uma opção no meio da podridão partidária que assola o país. Confesso, aliás, que simpatizo mais com o Freixo e com o Chico Alencar e outros membros que com o partido propriamente dito.

Indo direto ao ponto, a candidatura de Guilherme Boulos me parece um grave equívoco, um verdadeiro tiro no pé.

Antes de tudo, porque o próprio Boulos me parece apenas mais do mesmo: outra figura com discurso criptopetista.

Também acho muito desgradável ver uma candidatura montada de forma tão artificial, estruturada em torno de uma figura que sequer era filiada ao partido. Tenho profunda aversão a "criaturas" políticas forjadas de maneira arbitrária e oportunista.

E oportunismo é exatamente o problema aqui. A candidatura Boulos parece fabricada sob medida para captar votos dos órfãos de Lula.

Também acho incoerente ver um partido fundado basicamente em oposição ao PT-PMDB adotar assim uma figura tão comprometida com a defesa do PT nos últimos anos. Me soa como uma capitulação ao chantagismo emocional articulado pelo PT a partir da eleição de 2014 e reforçado desde o impeachment de 2016, uma rendição ao discurso de paranoia persecutória da claque luleana. Há aí certa dimensão de submissão tácita a um discurso petista que sempre exigiu vassalagem do PSOL.

Não menos importante, o PSOL se associa assim a uma figura cujas atitudes e discursos só tenderão a acentuar a imagem do partido de "esquerda raivosa", num momento nada favorável a isso.

A meu ver, essa candidatura apequena o PSOL. Não vencerá eleição e queimará o filme do partido em eventuais candidaturas estaduais e ao legislativo. No Rio de Janeiro, especificamente, em lugar de se formular uma candidatura viável no atual contexto estadual (o que seria realista), perde-se tempo forjando uma quimérica, estéril e polêmica campanha presidencial, que já está dividindo um partido cujas tensões internas são habitualmente intensas.

O PSOL mira o alvo errado, no momento errado, com a arma errada.

Me entristece ver Freixo como idealizador e principal articulador dessa sandice.

Mas triste mesmo é ver o tal vídeo do Lula apoiando a candidatura em questão.

É ou não é a cereja do Boulos...?





Tienda del Chávez

A Venezuela está em pandarecos, mas Chavéz foi um dos maiores governantes latinoamericanos - "foi sem querer querendo". O Brasil cai aos pedaços, mas "nunca antes na História desse país" (NANHDP) houve um governo melhor que o do PT.

Sartre, filosofastro maior do século das ideologias, tinha razão: o inferno são os outros - o Temer, a elite do atraso, a mídia golpista, o Moro, o imperialismo ianque, a crise mundial, a classe mérdia, os energéticos, os energúmenos, os aerolitos, o gato, o Quico e o outro gato. Por sinal, o próprio Sartre achava que o Stalin era um bom camarada: gulag na Sibéria dos outros é refresco - de limão, que parece de tamarindo e tem gosto de abacaxi Maduro.

E, é claro, superada a ressaca da "Copa das Copas", o Brasil ganhará a Copa de 2018: só falta combinar com os russos... Dios es Fidel.

A burguesia colonizada pelo imperialismo não suporta o sucesso da gentalha...

quarta-feira, 7 de março de 2018

O tolo toma a própria ignorância como medida do conhecimento alheio; o sábio toma o conhecimento alheio como medida da própria ignorância. Às vezes.