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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Meros dados...

Meros dados não são fatos.

Meros fatos não são informação.

Mera informação não é conhecimento.

Mero conhecimento não é sabedoria.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Me engana, que eu gosto!

"Se o Bolsonaro agradou o mercado, nós do PT temos que desagradar o mercado".


Lula - depois de anos agradando o mercado, fazendo lobby para empresas privadas, recebendo favores questionáveis de empresários etc etc etc...



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Veja contra Bolsonaro

Só comprei a revista Veja duas vezes em minha vida. Uma foi em 2016, quando saiu aquela matéria com capa-bomba do Crivella. A outra foi na última semana: confesso que não me aguentei de curiosidade para ler o que a publicação dizia sobre "A ameaça Bolsonaro".

Essa capa, cerca de um ano antes das eleições de 2018, me parece muito significativa: parece que Bolsonaro enfrentará fogo cerrado de todos os lados durante o processo eleitoral. Se isso é bom ou ruim, eu já não sei - especialmente em se tratando de um candidato que faz a linha "falem mal, mas falem de mim".

De resto, o texto traz o costumeiro estilo "vejático", repleto de insinuações nem-tão-sinuosas e uma retórica bem chinfrim. Enfim, não gosto de Bolsonaro, assim como não gosto da Veja...

Deixando de lado a publicação, acho precipitado considerar Bolsonaro como um dos favoritos para 2018 com base apenas na tal pesquisa Datafolha que apresenta 35% de intenções de votos para Lula e 17% para Bolsonaro. Em primeiro lugar, como se sabe, essas pesquisas nem sempre valem grande coisa. Em segundo lugar, creio que até lá Lula estará na cadeia - e não me parece que Bolsonaro tenha muitas chances de captar o potencial eleitoral do petista, que provavelmente será canalizado em favor de um terceiro candidato. Last, but not least, como diz um amigo, os holofotes costumam fazer muito mal à família Bolsonaro. Enfim, na política, ni jamais, ni toujours...

Por enquanto, minhas apostas para o segundo turno de 2018 são Marina e Dória, com vitória da Rede. De qualquer modo, meu voto vai para Chico Alencar...



sábado, 7 de outubro de 2017

Reizinhos mandões

Reflexão do psicólogo Vitor de Moraes:

Uma sociedade em que todos só querem seus direitos é tal como um aglomerado de reis que quer fazer dos seus iguais os serviçais.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Quem é "incompetente"?

Quando Lula qualifica Temer e os seus como "incompetentes", eu me pergunto: por que ele só "descobriu" isso agora? Estaria ele mentindo em todos aqueles comícios em 2010, 2014...?!

Se Lula já sabia que Temer era um "incompetente", apoiá-lo como vice-presidente seria uma fraude. Por outro lado, se Lula não sabia, isso significaria um gesto leviano ("incompetente", talvez).

Lula enche a boca com palavras vazias, como qualquer outro político. Por isso mesmo, não é mito,  lenda ou salvador: é apenas mais um político como outro qualquer.

A não ser que alguém me convença que há algo de sólido em seu incansável palanfrório...

Seria o cosplay do Lula melhor que os de Dória...?! Ou vale só para um lado?!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Transgressão e obediência

A transgressão gratuita é tão perigosa quanto a obediência cega. Muitas vezes uma conduz diretamente à outra.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Utilitarismo, Romantismo ou Vanguardismo?

Extrato de A Nova Ordem Ecológica, do filósofo Luc Ferry

Por trás desse debate [sobre a governança da União Europeia], que todos deveriam poder julgar por si mesmos, uma autêntica questão filosófica ressurgiu: a do estatuto da cultura em uma sociedade de onde as tradições religiosas e, com elas, a transcendência do sagrado por assim dizer se evaporaram. Mas, para avaliar finalmente a questão, seria necessário sair das oposições binárias nas quais querem com frequência nos encerrar: alta cultura literária contra subcultura técnica, tradição contra modernidade, obscurantismo romântico contra universalismo das Luzes, etc. Para muitos de nós, com efeito, o drama da cultura se desenrola nessas alternativas impossíveis.

Primeiramente, não são duas, mas três concepções filosóficas da cultura que não param de se enfrentar, cada uma pretendendo suplantar as outras duas em uma luta de morte. Podem-se, com os utilitaristas, considerar as obras como sendo "produtos", "mercadorias" que cumprem sua destinação quando, consumidas por um público, elas lhe dão satisfação. É essa visão consumista que os intelectuais críticos denunciam, em parte com razão, como sinal de uma "americanização do mundo". Pode-se em seguida, com os românticos, ver na obra de sucesso a expressão do gênio próprio de cada povo. Cada nação possui seu "espírito", sua "vida", e a língua, as instituições jurídicas e políticas, mas também a cultura em geral são suas manifestações especialmente perfeitas por não deixarem dúvidas quanto a seu rosto imanente. Pode-se por fim, contrariamente ao romantismo, atribuir à obra a tarefa heróica de subverter as formas estéticas do passado, de sair fora, assim como queriam os revolucionários franceses, dos códigos determinantes que constituem as tradições nacionais. Consumo, arraigamento, desprendimento: eis aí as três palavras mestras, as três bandeiras sob as quais se enfrentam ainda hoje os novos cruzados pós-religião. Três perversões possíveis, também: a demagogia do "tudo cultural", que ameaça sempre o utilitarismo, uma vez que o único critério se torna o sucesso, o efeito produzido sobre o público, excluindo qualquer outra unidade de valor. A quada no nacionalismo e no folclore, que espreitam um romantismo estreito. Ele oscila, então, entre a arrogância fascistizante e a falsa humildade do artesanato local. Quanto à ideologia da inovação, ela possui também seu reverso: no vanguardismo, que tanto caricaturou o gesto da liberdade, rebaixando-o à categoria de abstração nua. O conteúdo da arte reduziu-se então a ser tão somente encenação de símbolos da ruptura e da subversão pela subversão.

Os grandes debates sobre a a cultura a que assistimos desde a morte das vanguardas na metade dos anos 1970 nascem com frequência do fato de essas três visões da vida do espírito parecerem inconciliáveis: o vanguardismo, que dominou a "alta cultura" desse século, se opõe de maneira tão decidida ao amor romântico da tradição quanto ao reino cínico do mercado. Quanto ao romantismo, seu ódio ao desarraigamento inerente à cultura moderna só se iguala ao da plutocracia insolentemente exibida pelo mundo liberal. Sem se preocupar com um conflito que opõe a seus olhos o elitismo à desuetude, os defensores da indústria cultural prosseguem tranquilamente a produção de variedades e divertimentos mercantis. Seria preciso, pois, escolher o próprio campo, e como bons intelectuais que somos, com o vigor do desespero separar finalmente o joio do trigo. Uns nos convidam a optar pela inovação, pelo apoio fervoroso à "cultura difícil", mas "corajosa"; outros nos recomendam os valores seguros do patrimônio e dos autores clássicos.

Entre os três momentos da cultura, o desprendimento, o arraigamento e o consumo, é preciso de fato escolher? Não acredito. Pois a mais simples descrição fenomenológica das obras, por nós ditas "grandes", indica claramente serem elas as articuladoras das três instâncias: ao se emanciparem de um contexto que conservam até na inovação, elas conciliam de maneira cada vez mais original o desprendimento e o arraigamento que o vanguardismo e o romantismo isolam e tematizam de modo unilateral. É nessa articulação e somente por causa dela que elas provocam, para nossa maior alegria, a paixão de um espectador - esse prazer estético sem o qual mesmo a cultura mais elevada não valeria sequer uma hora de esforço. Para essa afirmação eu não vejo contraexemplo. Vale para a música como para a pintura, para a grande mesquita de Kairuan como para a Notre-Dame de Paris. Tanto uma quanto a outra pertencem a um contexto histórico e geográfico particular, tanto uma como a outra o transcendem para alcançar um público que ultrapassa de muito longe o dos fiéis aos quais o monumento parecia inicialmente destinado. E é nesse alargamento de horizontes, impossível fora da articulação dos aspectos que se queria separar por motivos ideológicos, que reside a verdadeira grandeza. O cosmopolitismo não se opõe mais aqui ao nacionalismo - mesmo que seja preciso afirmar a supremacia do momento de desprendimento dos códigos herdados sobre o momento da tradição: sem ele não haveria criação nem inovação, e é o rastro do propriamente humano que se evaporaria. É aí, me parece, que reside o verdadeiro perigo ao qual nos exporia uma vitória do ecologismo radical na opinião pública: ao considerar a cultura, à maneira da sociobiologia, um simples prolongamento da natureza, o mundo inteiro do espírito estaria sendo posto em perigo. Entre a barbárie e o humanismo, é à ecologia democrática que compete agora decidir.

domingo, 17 de setembro de 2017

Drone Warfare

Guerra sem guerreiros: teremos chegado ao ápice da civilização?


Iconoclastia como prisão

A rejeição sistemática do passado não é verdadeira liberdade, tornando-se meramente reativa. É, na verdade, uma forma ainda mais perversa de submissão. A iconoclastia como finalidade é tanto autodestrutiva quanto opressiva, atirando sementes esterilizadas ao vazio.
É fácil pensar em termos de uma ruptura com o passado, mas seria possível conceber uma ruptura com o futuro?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Os impostos no Brasil são muito altos?

Trecho do livro Caminhos da Esquerda - Elementos para uma reconstrução, do filósofo Ruy Fausto; grifos meus

Antes de mais nada, eu insistiria, em primeiro lugar sobre o que existe de mistificador no argumento utilizado à saciedade para justificar políticas neoliberais, o de que o nível dos impostos no Brasil é muito alto. Isso é pontualmente verdade, a porcentagem dos impostos sobre o PIB é uma das mais altas do mundo. Porém, se isso é verdade - como diria um trágico grego -, essa verdade é má. É má porque não se precisa que tipo de imposto é responsável pelo nível dessa carga. Na realidade, se o índice geral foi de 33,4% em 2014, o que é muito, ver-se-á que, ao contrário do que acontece na maioria dos outros países (pelo menos tomando como base os países da OCDE), o peso maior recai não sobre impostos diretos e progressivos, mas sobre impostos indiretos e não progressivos. Assim, segundo os dados de Sérgio Wulff Gobetti e Rodrigo Octávio Orair, na publicação do IPEA "Progressividade tributária: A agenda negligenciada", 8,1% de impostos incidem "sobre a renda e a propriedade, 9,6% sobre folha de pagamento (incluindo contribuições sociais) e 15,7% [...] sobre bens e serviços. A média dos países da OCDE equivale a mais ou menos 34%do PIB", mas "tributa em 13,1% a renda e a propriedade, 9,3%" correspondem à "folha salarial e apenas 10,5% nos bens e serviços".

O sistema tributário brasileiro é brutalmente injusto, se o compararmos com as normas vigentes na maioria dos países, desenvolvidos ou em desenvolvimento. Eis os pontos em que a nossa legislação fiscal é particularmente injusta, e em que urge introduzir uma correção (indico ordens de grandeza): 1) A progressão do imposto de renda é muito desfavorável às camadas médias, beneficiando os mais ricos. A alíquota mais alta é de 27,5%. Na França, por exemplo, utilizando uma tabela simplificada, haveria mais dois níveis além do de 30%, que se aproxima da alíquota máxima no Brasil: 41% e 45%. Mas em outros países, e em outras situações, o imposto de renda pode ser ainda mais alto. 2) O imposto de transmissão intervivos, no Brasil, também é muito baixo. Da ordem de 3%. Na França, ele pode chegar a 45% ou até 55%. 3) O imposto sobre herança também é comparativamente baixíssimo: 3,9% é a alíquota média. A alíquota francesa vai de 5% até 40%. 4) A Constituição de 1998 previa um imposto sobre grandes fortunas, como existe na França. Quando era senador, FHC apresentou uma proposta nesse sentido, em 1989, mas ela ficou perdida nas gavetas do legislativo, e quando presidente ele não parece ter se mobilizado para que a proposta fosse definitivamente aprovada. Deputados do PSOL apresentaram outra proposta em 2008, que prevê alíquotas de 1% a 5%. Ela foi aprovada pela Câmara e pelo Senado, mas, pelo que sei, não foi até aqui implementada. 5) Not least, o imposto sobre lucros advindos da propriedade de ações é taxado, no Brasil, em... 0%. De fato, os lucros provenientes de ações de pessoas físicas são isentos de taxação. A acrescentar a sonegação e a evasão do imposto de renda.

 

Sofismas e paixões costumam caminhar unidos.

Brasileiros vão à Europa ver museus; europeus vêm ao Brasil ver bundas...

Provocação do historiador Fred Oliveira:

A constatação pode levar a pensar que nós é que somos os civilizados, os cultos ou ao menos os interessados em conhecer, afinal vamos à Europa ter contato com cultura, conhecimento, arte. 

Mas pensando sobre o que esperamos lá encontrar e desfrutar e (nem falo no montante de divisas) na reprodução sazonal do mesmo impulso não é bem assim. 

Eles sabem o valor de seus museus, sua arte, sua ciência, sua história e vem aqui se divertir. E nós... 

Bem, nós lemos com algumas décadas de atraso tudo que eles já testaram, refutaram e jogaram na sarjeta, mastigamos o mastigado, repetimos um eco que já emudeceu e nos sentimos inteligentes, originais e, alguns, ainda se acham "vanguarda". 

Eles também tem problemas. Mas isso é problema deles. 

E por isso também é que eles vem ao Brasil ver bundas e nós, que nunca resolvemos os nossos problemas, vamos à Europa ver museus, parques, cafés, monumentos, etc.

"Vênus do Espelho", de Vélasquez (detalhe)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Absolutas patéticas

Para quem nada tem, qualquer coisa parece um mundo.

Para quem tudo tem, nada vale coisa alguma.

Para quem nada quer, tudo é demais.

Para quem tudo almeja, nada é suficiente.

Para quem tudo parece suficiente, nada falta.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Episode V - The Teacher strikes back

Há pouco tempo, numa galáxia não muito distante, ouvi um economista (especialista em educação, portanto) afirmando numa entrevista de rádio que o problema da educação no Brasil hoje é que temos "uma escola do século XIX, professores do século XX e uma garotada do século XXI". Mais uma vez, nossos fracassos educacionais recaem sobre as costas do - adivinham?- professor. Bravo!

Há cerca de um ano li outra entrevista com outro economista que ocupa cargo administrativo numa fundação "sem fins lucrativos" voltada à educação (a qual fatura uma pequena fortuna oferecendo serviços a secretarias estaduais e municipais de educação), que afirmava que o papel da família consiste apenas em manter as crianças bem alimentadas e indo dormir na hora certa, ficando o resto (ou tudo, talvez) sob responsabilidade -tchans!- da escola (e, imagino, dos professores). Bravissimo!

Assim sendo, eu - professor do século XX nesse nosso país do século XVIII - me atrevo a passar uma atividade educativa do século XIX para esses especialistas em educação do século XXI. Duzentas cópias, com letra bonita:

1 -Economista não é especialista em Educação!
2 -Economista não é especialista em Educação!
3 -Economista não é especialista em Educação!
4 -Economista não é especialista em Educação!
5 -Economista não é especialista em Educação!
6 -Economista não é especialista em Educação!
7 -Economista não é especialista em Educação!
8 -Economista não é especialista em Educação!
9 -Economista não é especialista em Educação!
10 -Economista não é especialista em Educação!
11 -Economista não é especialista em Educação!
12 -Economista não é especialista em Educação!
13 -Economista não é especialista em Educação!
14 -Economista não é especialista em Educação!
15 -Economista não é especialista em Educação!
16 -Economista não é especialista em Educação!
17 -Economista não é especialista em Educação!
18 -Economista não é especialista em Educação!
19 -Economista não é especialista em Educação!
20 -Economista não é especialista em Educação!
21 -Economista não é especialista em Educação!
22 -Economista não é especialista em Educação!
23 -Economista não é especialista em Educação!
24 -...


Precisamos continuar...?!


sábado, 9 de setembro de 2017

"Lula 2018" e "Bolsonaro 2018" - Ainda

Acho que preciso explicar melhor minha provocação. Não estou falando dos políticos Lula e Bolsonaro, mas dos "programas" [sic] eleitorais "Bolsonaro 2018" e "Lula 2018" - entre aspas, notem bem. O que quero salientar é que tanto a retórica soterológica dos "bolsominions" quanto os anúncios do retorno messiânico de Lula em 2018, a meu ver, refletem nossa conjuntura política em que, à ausência de alternativas palpáveis, partes do eleitorado se entregam a essas duas quimeras, esperando que os dois "líderes" tragam, de uma maneira ou de outra, uma solução (mágica?) para os impasses políticos, econômicos e sociais do momento presente. "Bolsonaro 2018" e "Lula 2018", a meu ver, são respostas fáceis e preguiçosas a problemas muito complexos - e é nesse sentido que são duas faces da mesma moeda. Creio que um mandato 2019-2022 de Lula ou de Bolsonaro, por razões distintas, seria um verdadeiro Inferno - desse modo, me pergunto: não seria melhor vendermos nossas almas de uma vez por todas e partirmos logo para "Capeta 2018"...?

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

"Lula 2018" e "Bolsonaro 2018" seriam duas faces de uma mesma moeda?!

A Era PT segundo o filósofo Ruy Fausto

Trecho do livro Caminhos da Esquerda - elementos para uma reconstrução, do filósofo Ruy Fausto; grifos meus:

A terceira figura patológica é a que se designa pelo termo genérico de "populismo". Mas a que, precisamente ela corresponde? Como definir o populismo? E, pergunta particularmente importante, como definir a situação do partido de esquerda até aqui hegemônico no Brasil - o PT - em relação ao populismo? O PT é um partido populista?

Muito se discutiu a respeito do populismo (refiro-me ao populismo de esquerda, pois há também um de direita). Seus traços principais parecem ser uma liderança carismática autoritária, uma política que une, pelo menos na aparência, interesses de classes mais ou menos antagônicas, e certo laxismo na administração da riqueza pública. A meu ver, mesmo quando falta algum desses traços é possível falar em populismo, desde que os outros sejam suficientemente marcados. Por exemplo: no modelo Getúlio Vargas, há os dois primeiros fatores, mas não exatamente o último (Getúlio não enriqueceu no poder, embora tenha havido corrupção no seu governo). No caso de Adhemar de Barros, duas vezes governador de São Paulo, entre 1940 e 1960, se os dois últimos aspectos são visíveis, o primeiro o é só imperfeitamente: ele tinha certo carisma, mas não de tipo autoritário. Creio, entretanto, que Ademar e Getúlio, cada um a seu modo, podem ser considerados líderes populistas. No caso do PT, também falta o elemento autoritarismo. O carisma está lá, ainda que menos pronunciado do que no caso de Perón, Chávez ou Vargas. Mas houve certamente laxismo - é o mínimo que se poderia dizer - nas suas práticas administrativas.

Saber se o PT pode ser chamado de populista não é, entretanto, o mais importante. Pelo menos do ponto de vista prático, o essencial é insistir sobre o fato - indiscutível, a meu ver - de que o partido não "errou" simplesmente, como pretendem alguns. O partido não se limitou a "cometer certos erros" (erros, aliás, se reconhecem até da mãe). O que houve foi um sistema errado de poder e administração. A prática petista foi e é uma prática patológica comparável, mutatis mutandis, à política dos neototalitários e dos reformistas-adesistas. Isso não quer dizer que os governos do PT não tenham feito nada de positivo, que o balanço global da sua trajetória seja puramente negativo. Na realidade, o PT pôs em prática uma política de redistribuição de renda cujos pontos principais foram o Bolsa Família e outros projetos, a valorização do salário mínimo e certas facilidades de crédito para setores não privilegiados. Além de ter garantido, pelo menos na cidade, uma atmosfera democrática (ainda que, durante a preparação de dois grandes eventos esportivos internacionais, o governo petista tenha sido brutal com certos núcleos da população urbana), e de ter assegurado, o que governos anteriores não fizeram, a independência da Polícia Federal e do Ministério Público. O programa redistributivo, ou parte dele, teve um êxito considerável, o que é reconhecido mesmo pelos adversários. No entanto, este não veio ligado apenas a uma política "de aliança de classes", o que em si mesmo poderia ser tolerado sob certas condições, mas veio também associado ao uso abusivo da máquina do Estado em benefício do partido e de particulares ligados a ele. É esse o lado intolerável. Um partido que faz essas coisas deve ser chamado de populista?

Já discuti os termos da questão. Na minha opinião, se deveria falar num populismo sui generis pelas razões indicadas. Mas, já que se admite que houve um lado positivo na trajetória petista, impõe-se a pergunta, a qual, implícita ou explicitamente, recebe uma resposta positiva por parte de muitos dirigentes, teóricos ou simpatizantes: valeu a pena a "operação", isto é, foi correto corromper deputados, desviar dinheiro público, vender cargos públicos etc para se sustentar no poder e, assim, implementar medidas redistributivas? É isso que está por trás do raciocínio de muita gente ligada de algum modo ao PT. Fizemos o que tinha de ser feito, dizem eles, e o resultado está aí. Pelo menos o Bolsa Família ninguém pensa em liquidar inteiramente. No entanto, esse raciocínio é falso. O impasse a que o PT conduziu a esquerda brasileira não paga o preço de parte dos resultados obtidos pela sua política redistributiva. Não só o partido perdeu o poder, mas, queiramos ou não - e apesar de a esquerda independente não ter sido em nada responsável por aqueles desvios -, a esquerda em geral saiu desmoralizada, enquanto a direita, incluindo a extrema direita, levantou a cabeça.

Não basta dizer que a corrupção é endêmica na política brasileira. Isso é verdade, mas não justifica. O PT nasceu como um partido que, precisamente, visava romper com esse tipo de prática, ao mesmo tempo que se manifestava como estranho ao modelo leninista ou stalinista - apoiava o Solidarnosc polonês - e também ao modelo social-democrata (ver os documentos originais do partido). Que o sistema político brasileiro seja visceralmente corrupto não absolve o PT. Poderíamos até mesmo dizer: é normal que a direita nade na corrupção, mas toda esquerda séria é infensa a esse tipo de coisa. O que não signifique que o fato de a corrupção ser generalizada não desmascare a política da direita. Em outras palavras, é necessário criticar a fundo o modelo petista, mas ao mesmo tempo desmascarar a jogada da direita segundo a qual só o PT rouba. (Voltarei, mais adiante, tanto ao PT como ao episódio do impeachment).

Mas, insistem alguns - e isso não é simples hipótese, o argumento está na boca de muita gente - , sem as práticas corruptas não teríamos chegado ao poder. E, portanto, nada de medidas de redistribuição. Nesse plano, o país estaria no mesmo ponto que no início do século, ainda que se conservando um partido de esquerda hegemônico irreprochável. Esse caminho que não foi seguido pelo partido e que parece irrealista por estar ligado a algo como uma "ética da convicção", é o único aceitável. O que teria acontecido nessa hipótese?

Talvez o PT tivesse maior dificuldade para chegar ao poder. Talvez tivesse obtido só poderes executivos estaduais ou municipais. Mas, ainda assim - e se trata da hipótese mais pessimista -, o ganho teria sido considerável. O PT apareceria como um grande partido de esquerda independente, que, sem dúvida, a direita tentaria derrubar, mas sem dispor dos mesmos meios para levar a cabo esse projeto. O prestígio nacional e internacional do partido seria imenso. Mesmo sem todo o poder governamental, projetos como o Bolsa Família poderiam ser implementados através de medidas de iniciativa dos estados ou municípios, impulsionadas pela pressão que se exerceria dentro e fora do Congresso. Não tenho dúvida de que, apesar de tudo, essa opção seria de longe preferível àquela pela qual enveredou o petismo e cujo resultado catastrófico estamos vivendo no presente: uma direita em plena ofensiva, uma esquerda golpeada e, de certo modo, desmoralizada, um país em amplo retrocesso político.

Mais ainda: o PT não enveredou apenas pela corrupção. Infelizmente, houve coisas piores. Ele esteve envolvido de algum modo, que fosse o da responsabilidade moral ou política - há alguém que ainda duvide disso? -, em pelo menos um caso escabroso de morte violenta (acompanhado de meia dúzia de vítimas "colaterais"): o assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André, em 2002. Quaisquer que sejam as responsabilidades, esse "acidente de percurso" se torna necessário sempre que um partido tolera procedimentos mafiosos ou os pratica. Provavelmente não foi o único caso no Brasil e, como se sabe, houve outros semelhantes sob governos populistas estrangeiros. Se não nos interessa levar mais lenha para a fogueira - infelizmente, essa fogueira tem lenha suficiente para continuar ardendo por muito tempo -, seria bom deixar claro que a esquerda independente não pode ser refém do PT nem pagar por seus graves erros e extravios. Erros e extravios que a direita explora à saciedade. Digamos sem ambiguidade: interessa-nos que tudo seja apurado e revelado.

Mas, a propósito de casos escabrosos, seria bom não esquecer, embora isso não justifique nada, que eles existem também "do lado de lá". Ainda que muitos irão dizer que são coisas diferentes, não podemos perder de vista as centenas de "mortos sem sepultura" que a ditadura militar produziu. Num momento em que é de bom-tom justificar o pior, invocando os erros graves da resistência (eles existiram) e também a ideologia duvidosa de muitos dos seus principais líderes (em geral, as convicções destes de fato não eram propriamente democráticas), seria útil lembrar que nada explica substituir uma eventual ditadura por outra efetiva, nem realizar esse trabalho mediante a liquidação a frio de prisioneiros desarmados, a tortura sistemática e o assassinato de líderes de partidos de esquerda, quer esses partidos participassem ou não da luta armada. Houve, além disso, outras histórias tenebrosas envolvendo a direita, que não mencionarei aqui.

O petismo e os populismos em geral (sui generis ou não) representam a terceira patologia da esquerda. Certamente, a que mais nos atinge e interpela no momento. A propósito das outras duas outras patologias, mencionei suas bases teóricas e práticas no plano internacional. Com relação ao populismo petista, seria difícil encontrar um modelo externo aplicável ao caso. Restaria examinar o que dizem os intelectuais petistas mais importantes. Que me seja permitido dizer alguma coisa sobre intervenções recentes e menos recentes de minha colega Marilena Chauí, a figura intelectual mais conhecida da família petista. Para além dos velhos laços de amizade e lealdades acadêmicas, seria preciso, afinal, afirmar com todas as letras: o discurso político de Marilena Chauí tem representado uma verdadeira catástrofe para a esquerda.

Vejamos. Por ocasião do mensalão, ela tomou a defesa do PT - e praticamente não fez nenhuma crítica ao partido ou à sua direção. Agora, com a operação Lava-Jato e os escândalos sucessivos envolvendo não só o PT, mas também o PT, a sua atitude não foi diferente. Tivemos uma defesa intransigente do partido - não se ouviu por parte dela praticamente nenhuma crítica à legenda - e, o que é pior, a defesa se fez na base de uma enxurrada verbal arbitrária. Assim, contra todas as evidências, ela continua insistindo no caráter "fascista" da pequena burguesia. Na realidade, uma parte da pequena burguesia é, digamos, fascistizante, outra hesita, e uma terceira, constituída sobretudo por intelectuais e semi-intelectuais, está afinada com a esquerda e, frequentemente, com o melhor da esquerda. Quanto à operação Lava-Jato - fenômeno complexo, ao qual não se pode deixar de atribuir, em princípio, efeitos positivos, apesar dos erros e desmandos de alguns dos seus "operadores" -, Chauí a desmistifica: afirma, sem se dar ao trabalho de provar o que diz, que o juiz Moro teria sido treinado pelo FBI para levar adiante um projeto de entrega do pré-sal aos americanos.

Uma intervenção recente de Marilena Chauí me interessou particularmente. Por ocasião de um debate outros intelectuais, e porque se falasse da necessidade de reconhecer os erros do partido, Chauí fez questão de deslegitimar a noção de "autocrítica" (ela disse que, felizmente, ninguém teria empregado a expressão durante o debate, mas o termo fora sim expresso por um dos participantes). E explicou que "autocrítica" era coisa da política totalitária, política terrível, como se sabe, que era preciso recusar a todo custo. Pôs-se então a falar longamente da autocrítica em regime totalitário, ou dentro de um partido totalitário. Com esse tipo de discurso, Marilena Chauí não apena saiu do tema (de fato, discutia-se o PT, não o regime e os partidos totalitários), mas foi além. Com seu discurso contra a autocrítica em regime totalitário, ela lançou uma cortina de fumaça sobre o que se passa no seu partido. A autocrítica em regime totalitário se tornou a mesma coisa que qualquer outra, o mesmo que a autocrítica em geral. Ou, preferindo, o mal-estar que se pode sentir, efetivamente, diante da palavra "autocrítica" - pelo que evoca, ela se tornou de fato horrível - passou a ser uma arma para impedir qualquer explicação autocrítica por parte do PT. Acontece que, se a palavra é ruim, a "coisa" pode ser boa (embora na não versão stalinista, é óbvio). E a autocrítica bem exposta não enfraquece, mas fortalece a luta emancipatória.

O que quer dizer Marilena Chauí quando exorciza a autocrítica no presente contexto? Quer dizer, por acaso, que, mutatis mutandis, a situação dos acusados do mensalão e investigados pela Lava-Jato seria análoga à dos acusados nos processos stalinistas? Dirceu seria, assim, uma espécie de Bukharin, líder bolchevique falsamente acusado, perseguido por Stálin e condenado à morte? Antonio Palocci, por sua vez, seria uma espécie de Lev Kamenev, outro líder bolchevique descartado por Stálin? Os juízes que atuaram no mensalão ou que atuam na Lava-Jato seriam os herdeiros de Andrei Vichinski, encarregado pelo ditador "soviético" de levar a cabo o julgamento de seus inimigos? Isso significaria que as acusações que lhes são feitas, de maneira análoga ao que aconteceu nos processos de Moscou, remeteriam ao mais puro delírio, e que, inversamente, os protestos de inocência dos acusados exprimiriam as razões verdadeiras de gente inocente, injustamente acusada?

Quaisquer que sejam as críticas que podem ser feitas ao encaminhamento dos atuais processos por corrupção no Brasil - não me refiro à questão do impeachment, que é de outra ordem -, a situação real, guardadas as proporções, é mais ou menos inversa à dos processos stalinistas. Apesar das reservas que se pode fazer a tal ou tal iniciativa dos procuradores e juízes do mensalão e da Lava-Jato, em linhas gerais - pelo menos até o show lamentável do promotor Deltan Dallagnol -, a acusação não foi delirante. Contudo, insustentáveis, se não delirantes, foram os protestos de inocência dos acusados e o que vinha por trás deles: a total inocência do PT. A ficção está aí. Marilena Chauí toma alhos por bugalhos. Pior, mistura tudo e nos oferece um mundo de cabeça para baixo.

Intervenções desse tipo revelam-se peças de pura retórica. O problema com Marilena - não se trata de fazer carga de forma gratuita contra Chauí, mas ela dá o tom para os seus pares -e é que, lamentavelmente, ela é seduzida pelo aplauso dos auditórios. Ora, não há nada mais funesto, para a esquerda, do que esse tipo de sedução. Porque, para ser brutalmente claro, não há beócios somente no campo da direita. No nosso, é preciso reconhecer, eles também existem e costumam frequentar os anfiteatros. Para eles, quanto mais retórico, no mau sentido, for um discurso, e quanto mais afetado for o modo pelo qual é pronunciado, mais aplausos merecerá. Ilusão funesta da oradora.

É preciso distinguir com clareza a defesa de uma posição de esquerda e a defesa de um partido. As duas coisas não vão sempre juntas. Entre os interesses do PT e os interesses da esquerda - e isso vale para qualquer partido de esquerda - há diferenças e pode haver oposição. Defender os interesses gerais da esquerda implica às vezes condenar a política da direção de um partido. Os partidos envelhecem e até apodrecem. Isso aconteceu com os antigos partidos social-democratas, com os partidos comunistas, com muitos partidos populistas. Lembremos do dito "mensalão". A direção do PT estaria pagando parlamentares para que votassem a favor dos seus projetos. Marilena Chauí saiu a público dizendo que a culpa era do sistema, não do PT. Mais precisamente, que a culpa era da ditadura militar, que instituíra o sistema. O PT, pobre coitado, fora obrigado a obedecer às regras para poder aprovar as suas propostas. Sofisma. O PT nasceu com o projeto de recusar essas práticas, que eram bem conhecidas. Depois, ele mudou. Passou a atuar como todos os outros partidos, sob pretexto de que essa seria a única saída. Só que isso significou liquidar o seu próprio programa. A acrescentar que, se as práticas ilícitas enriqueceram o partido, elas também encheram os bolsos de alguns dirigentes. Segundo Chauí, isso tudo seria culpa de Golbery e companhia, que instituíram as regras do jogo. Ora, seria bom lembrar que houve, na época, gente de esquerda que não reagiu assim, e que entendeu que, inscritas ou não na corrupção crônica do sistema, aquelas práticas eram absolutamente condenáveis e que delas resultaria finalmente a derrocada do partido. Desculpe o leitor, mas, entre aqueles críticos, permito-me incluir a mim mesmo. Eis o que eu escrevia em 2004, por ocasião do início do escândalo do mensalão: "Ou o PT procede a uma verdadeira análise de consciência, e, mais do que isso, a uma limpeza geral das suas práticas, ou a gangrena, é preciso dizer, será inevitável. Assim, é inadmissível que para evitar uma CPI, a qual, apesar dos riscos, deveria ser aceita, ele se amarre, de pés e mãos, a Sarney, a ACM, a Calheiros (e até a Roriz). O tipo de compromisso que se anuncia a partir do episódio da corrupção do assessor de Dirceu é extremamente perigoso para o PT. O PT chega ao limite do que pode, ou antes, do que não pode um partido de esquerda. Lula não tem alternativa senão a da substituição de Dirceu. Só essa medida pode provocar um 'sobressalto' no partido". Um ano depois, em 2005, num artigo publicado na revista Lua Nova intitulado "Para além da gangrena", depois de evocar o artigo anterior e analisar o desenvolvimento da crise do PT, no contexto do affaire do "mensalão", eu escrevia o seguinte: "É difícil dizer no momento em que escrevo [final de agosto de 2005] se o PT irá sobreviver. E qual será o seu destino. Também não sabemos se o governo Lula sobreviverá. A melhor perspectiva seria a de que o PT se salvasse, com a expulsão dos corruptos e uma reorganização do centro e da esquerda menos fanatizada, na base de um novo programa econômico e político. Um programa definido, sem retórica inútil, sem concessões aos poderes dominantes, e absolutamente intransigente em relação à corrupção. Nesse caso, o ideal seria buscar um candidato que não fosse o Lula para as próximas eleições presidenciais, e aceitar a ideia de uma possível derrota. Uma cura de oposição não seria mal para a esquerda. Mas se não houver uma reorganização do partido, sucedendo necessariamente a um processo de expulsões, o PT apodrecerá; e o melhor do PT abandonará o partido. Infelizmente, no momento em que escrevo, essa é a perspectiva que me parece a mais provável. Para onde iriam então os dissidentes?". Depois de dizer que havia "bastante gente séria e honesta no PT", levanto três hipóteses: ou eles se dispersariam "em uma série de legendas sem muita expressão"; ou tomariam "o caminho da extrema esquerda" - e comento: "A extrema esquerda acertou e acerta ao denunciar o processo de corrupção do partido, mas suas perspectivas políticas são irrealizáveis ou nefastas" -; ou formariam "um novo partido de esquerda democrática", o que me parecia ser "o mal menor caso o PT apodreça irremediavelmente".

Assim, os interesses de um partido de esquerda, mesmo hegemônico, e os interesses da esquerda em geral não coincidem nem convergem necessariamente. O fenômeno vale tanto para os partidos totalitários e neototalitários como para os partidos populistas e "quase populistas". Que se substitua por um momento as declarações e justificativas do tipo das que profere Chauí pelo que diziam os dirigentes e intelectuais dos antigos partidos comunistas. Ver-se-á que argumento e retórica são do mesmo tipo. Se um daqueles velhos líderes stalinistas voltasse ao Brasil de hoje, que diria ele sobre os investigadores? Certamente o mesmo que disse Chauí: são agentes do imperialismo que querem entregar as nossas riquezas. Retomo mais adiante as considerações sobre os ganhos que têm tido a direita e a extrema-direita com pronunciamentos desse tipo. Mas uma coisa é clara: se o discurso predominante na esquerda não mudar, perdemos hoje e perderemos sempre. A fala (quase) populista, irresponsável diante da verdade, nos condena à derrota. Os aplausos dos ingênuos ou dos fanáticos não são, certamente, uma compensação suficiente.



 

Ilusões Revolucionárias

"Quanto menos a inteligência adere ao real, mais devaneia com revoluções. [...] Há revolucionários por ódio do mundo ou por aspirarem à catástrofe, mas, em geral, os revolucionários pecam por otimismo. Todos os regimes conhecidos são condenáveis se comparados a um ideal abstrato de igualdade ou de liberdade. Apenas a revolução, por ser uma aventura, ou um regime revolucionário, por consentir o uso permanente da violência, parece ser capaz de atingir a meta sublime. O mito da revolução serve de abrigo para o pensamento utópico, se torna o intercessor misterioso e imprevisível entre o real e o ideal. A própria violência atrai e fascina mais do que causa aversão. [...] Homem nenhum é insensato a ponto de preferir a guerra à paz. Essa observação de Heródoto devia se aplicar às guerras civis. [...] Podemos às vezes nos perguntar se o mito da revolução não se junta, afinal, ao culto fascista da violênca".

Raymond Aron


"A Revolução [Francesa] não adotou igreja alguma. Por quê? Porque era, ela própria, uma igreja".

Jules Michelet
A má notícia é que todos estamos errados (em alguma coisa). A péssima notícia é que todos achamos que temos razão (em tudo). A boa notícia é que podemos dialogar (ainda que seja muito difícil). A ótima notícia é que conseguimos até mudar de ideia (de vez em quando).
Nunca confie nas suas próprias intenções - especialmente se elas parecerem muito boas. Todos somos muito mais egoístas do que imaginamos.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

sábado, 29 de julho de 2017

A chegada dos bárbaros

Roma está saqueada,
Éfeso escravizada,
Persépolis arruinada.

Queimam papiros em Alexandria,
Caem muros em Uruk.

Sangra Atenas,
Geme Sídon,
Chora Jerusalém,
Soluça Cartago,
Grita Tenochtitlán,
Cala-se Delfos.

Mudas estão as paredes de Tikal,
Silenciosas as ruas de Harapa,
Arrombadas as portas de Corinto.

Jaz Tebas amortalhada,
Murmura Constantinopla enlutada.

A barbárie chegou,
Eis os bárbaros,
Nós...

sábado, 1 de julho de 2017

Vita Magistra Vitae

Às vezes é necessário mostrar o que há de pior em nós para descobrir o melhor que há em nosso semelhante. Em nossos piores momentos podemos encontrar apoio e compreensão nos lugares onde menos esperamos. Nos pequenos e grandes tormentos do cotidiano podemos encontrar as misérias, mas também as grandezas da condição humana. Eis o que a vida tem me ensinado ultimamente.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Videogame na Escola 7 - Projeto História em Jogo 2017

Dando continuidade ao projeto do ano passado, eu e meus alunos do 7º ano viemos nos últimos meses desenvolvendo um jogo cujo objetivo é criar um mundo de fantasia inspirado nas Idades Média e Moderna, especialmente nas sociedades e culturas da América, África e Europa. O andamento do projeto está bastante atrasado, em grande parte por inúmeros problemas disciplinares que levam à perda de muito tempo durante as aulas - e até de aulas inteiras... Outro grande desafio é estimular o uso de representações menos eurocêntricas. Nessa primeira etapa, os estudantes, divididos em grupos, vêm criando ambientes interiores que serão incorporados ao jogo. Seguem algumas das primeiras imagens do projeto...






























segunda-feira, 5 de junho de 2017

Laços

Viver sem laços é viver perdido. Todo Teseu precisa de um fio a guiá-lo nos labirintos da vida. Nossos laços nos fazem humanos: o ser humano é, basicamente, um animal que cria laços; a qualidade desses laços determina a própria qualidade de nossa humanidade...


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Reflexões de um suposto coxinha

Excelente coluna de Artur Xexéo:

Ando sensível. Acho que já contei isso aqui. Choro à toa. Antes era com comercial de margarina, cenas de novela, trechos do filme. Agora, é lendo jornal. Cada notícia da Lava-Jato, de início, me enche de indignação. Em seguida, fico triste. É aí que choro. Ando tendo vontade de chorar também em discussões com amigos. Gente que tempos atrás dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta como inimiga. Ou sou eu o inimigo? De qualquer maneira, num mundo que derrubava muros, de repente, um muro foi erguido para me separar desses amigos. Tento explicar como vejo o trabalho de Sergio Moro e nunca consigo terminar o raciocínio. No meio da discussão, me emociono, fico com vontade de chorar e prefiro interromper o pensamento. “Coxinha”, me xingam nas redes sociais. Bem, se o mundo está obrigatoriamente dividido entre coxinhas e petralhas, não tenho como fugir: sou coxinha!

Leio na internet que “coxinha” é uma gíria paulista cujo significado se aproxima muito do ultrapassado “mauricinho”. Mas, desde a reeleição de Dilma, esse conceito se ampliou. Serviu para definir de forma pejorativa os eleitores de Aécio Neves. Seriam todos arrumadinhos, malhadinhos, riquinhos e votavam em seu modelo. Isso não tem nada a ver comigo. Mas, nesta briga de agora, estou do lado que é contra Lula, logo sou contra os petralhas, logo sou coxinha. 

Gostaria de falar em nome da democracia. Mas não posso. A democracia agora é direito exclusivo dos meus amigos que estão do outro lado do muro. Só eles podem falar em nome dela. Então, como coxinha assumido, deixo uma pergunta. Vocês acharam muito normal o ex-presidente Lula incentivar os sindicalistas para os quais discursou esta semana a irem mostrar ao juiz Sergio Moro o mal que a Operação Lava-Jato faz à economia brasileira? Vocês acreditam sinceramente nisso? O que a Operação Lava-Jato faz? Caça corruptos pelo país. Não importa se são pobres ou ricos. Não importa se são poderosos. Não era isso o que todos queríamos, quando estávamos todos do mesmo lado, quando ainda não havia um muro nos separando, e fomos às ruas pedir Diretas Já? Não era no que pensávamos quando voltamos às ruas para gritar Fora Collor? E, principalmente, não era nisso que acreditávamos quando votamos em Lula para presidente uma, duas, três, quatro, cinco vezes!!! Não era o Lula quem ia acabar com a corrupção? Ele deixou essa tarefa pro Sergio Moro porque quis.

Como, do lado de cá do muro, me decepcionei com o ex-líder operário, o lado de lá deu pra dizer que sou de direita. Se for verdade, está aí mais um motivo para eu estar com raiva de Lula. Foi ele quem me levou pra direita. Confesso que tenho dificuldades de discutir com qualquer petralha que não se irrita quando Lula diz se identificar com quem faz compras na Rua 25 de Março. Vem cá, já faz tempo que os ternos de Lula são feitos pelo estilista Ricardo Almeida. Será que Ricardo Almeida abriu uma lojinha na rua de comércio popular de São Paulo? Por mim, Lula pode se vestir com o estilista que quiser. Mas ele tem que admitir que o discurso da 25 de Março ficou fora do contexto. A gente não era contra discursos demagógicos? O que mudou?

Meus amigos petralhas dizem que é muito perigoso tornar Sergio Moro um herói. Que o Brasil não precisa de um salvador da pátria. Mas, vem cá, não foi como salvador da pátria que Lula foi convocado para voltar ao governo? Não é ele mesmo quem diz que é “a única pessoa” que pode incendiar este país? Não é ele mesmo quem diz que é a “única pessoa” que pode dar um jeito “nesses meninos” do Ministério Público? Será que o verdadeiro perigo não está do outro lado do muro? Não é lá que estão forjando um salvador da pátria?

Há muitas décadas ouço falar que as empreiteiras brasileiras participam de corrupção. Nunca foi provado. Agora, chegou um juiz do Paraná, que investigava as práticas de malfeito de um doleiro local, e, no desenrolar das investigações, botou na cadeia alguns dos homens mais poderosos do país. Enfim, apareceu alguém que levou a sério a tarefa de desvendar a corrupção que há muitos governos atrapalha o desenvolvimento do país. E, justo agora, quando a gente está chegando ao Brasil que sempre desejamos, Lula e seus soldados querem limites para a investigação. Pensando bem, rejeito a acusação de ser coxinha, rejeito ser enquadrado na direita, rejeito o xingamento de antidemocrata, só porque apoio o juiz Sergio Moro e a Operação Lava-Jato. Coxinha é o Lula que se veste com Ricardo Almeida e mantém uma adega de razoáveis proporções no sítio de Atibaia. E, para encerrar, roubo dos petralhas sua palavra de ordem: sinto muito, mas não vai ter golpe. Sergio Moro vai ficar.


Método não democrático


Os estudiosos de humanidades existem, basicamente, para ser ignorados.

A gritaria dos surdos loucos

Ensaio melancólico sobre a indigesta logofagia brasileira que nos ensurdece, sufoca e engasga:

"Coxinha!"

"Petralha!"

"Reaça!"

"Esquerdopata!"

"Bolsomito 2018!"

"Bolsonaro fascista!"

"Imprensa golpista!"

"Blogueiro petista!"

"Fora, Dilma!"

"Primeiramente, fora Temer!"

"É golpe!"

"Não é golpe!"

"Não vai ter Copa!"

"Não vai ter Golpe!"

"Não passarão!"

"Crivella é 10!"

"Fecho com Freixo!"

"Lula ladrão!"

"Lula, guerreiro, do povo brasileiro!"

"Dilma piranha!"

"Dilma sapatão!"

"Dilma, guerreira, da pátria brasileira!"

"Esquerdomacho!"

"Feminazi!"

"Cultura do estupro!"

"Bandido bom é bandido morto!"

"Desmilitarização da PM!"

"Nenhum direito a menos!"

"Grevista atrapalha trabalhador!"

"Alienado!"

"Analfabeto político!"

"Massa de manobra!"

"Homem branco, heterossexual, de classe média!"

"Não existe racismo no Brasil!"

"Racista!"

"Apropriação cultural!"

"Vai ter branca de turbante, sim!"

"Lugar de fala!"

"Bicha!"

"Homofóbico!"

"Viado!"

"Fanático religioso!"

"Cristofobia!"

"Espaços seguros!"

"Livre debate!"

"Legalização das drogas!"

"Armamento dos cidadãos!"

"Moralista!"

"Corrupto!"

"Puta!"

"Machista!"

"Piranha!"

"Sexista!"

"Ideologia de gênero!"

"Escola sem partido!"

"Doutrinação marxista!"

"Manipulação midiática!"

"Legalização!"

"Criminalzação!"

"Culpado!"

"Inocente!"

"Certo!"

"Errado!"

"Bom!"

"Mau!"

"Burro!"

"Ignorante!"


"Na maioria dos casos, provas cabais só existem em filmes"

Comentários do historiador Fred Oliveira sobre post de ontem.


dos dois lados do Moro - digo, do muro". O autor do artigo não poderia ter definido melhor o ponto no qual estamos. O barão de Itararé aplaudiria. Eu concordo com boa parte do texto.

Juridicamente o Lula ainda é inocente... No entanto, como qualquer pessoa, em caso de suspeita, está sendo investigado e deverá responder às acusações. Para isso tem competentes e caros advogados. Ele não foi condenado.

Tampouco é aceitável (afinal somos ou não somos todos cidadãos, gozando dos mesmos direitos?) uma inimputabilidade vitalícia, como alguns parecem querer lhe atribuir. Há um processo. Há instâncias. Há publicidade dos atos e fatos e há a vigilância de inúmeras instituições atores. Ponto. Mais do que isso é querer tumultuar a normalidade. Uma normalidade que até então havia sido conveniente aos queixosos de hoje... somente agora foi posta em dúvida. Lembremos disso.

Lula foi presidente. Tem responsabilidades. Não sobre tudo ao tempo de seu governo mas sobre aquilo que possivelmente tenha favorecido seu partido, seus aliados e sua manutenção no governo. Provas? Alguns querem "provas cabais", mas antes (creio) deveriam definir o que seriam as tais provas cabais. Uma confissão de culpa? Batom na cueca? Uma selfie reveladora? Um vídeo confessional com o autor enumerando ilícitos? Na maioria dos casos, provas cabais só existem em filme. A maior parte das provas são indiciárias, circunstanciais... O goleiro Bruno que o diga. Até hoje não encontraram o corpo da moça e, no entanto, o conjunto probatório levou à conclusão, pelo juiz, de sua culpa.

Ora... Levar ao pé da letra a ideia de "provas cabais" (depois que se tenha pensado nas suas implicações, para além do caso em discussão) colocaria a própria História numa saia justa, pois muitas de suas conclusões sobre eventos importantes não se dão por "provas cabais" ("cabais" para quem?) e sim pelo encadeamento de indícios que no final tornam possível a produção de um razoável consenso sobre seu significado. Não basta dizer: “as provas são insuficientes!” Qualquer um pode simplesmente dizer isso. Qualquer um pode dizer: “não reconheço tal coisa como prova cabal”.

Hitler e Stalin, não tem nenhum vídeo de confissão de seus crimes. Temos, no entanto, muitos documentos que encadeados e lidos na teia das circunstâncias daqueles contextos específicos tornam o convencimento de sua culpa um "fato", uma interpretação amparada em amplo consenso entre os estudiosos do assunto. Mas mesmo isso não é prova suficiente para algumas pessoas, ainda que afirmemos que são. Não há unanimidade.

E aqui esbarramos num problema que está para além do direito: o reconhecimento da suficiência da prova depende de cada juízo. Ou seja, não se pode obrigar quem não quer aceitar a suficiência da prova a mudar seu entendimento sobre a questão. Nesse caso, o foro é íntimo.

Com relação ao Lula não chegamos a esse ponto mas percebemos uma resistência a reconhecer nele o possível responsável, direto ou indireto, por ilicitudes. Paixão? Também. Mas também um cálculo. Um cálculo que parece querer aproveitar da própria democracia para sabotá-la colocando em dúvida todo aquele que pretenda julgar um determinado homem.

Afinal, uns são melhores que outros, e portanto merecem direitos especiais diante da Lei, ou devemos todos ser tratados da mesma forma ao responder a ela?

Há pouco diálogo quanto a isso. Há torcidas, com muita gente desinformada ou mal intencionada dos dois lados do muro. Democracia é um processo em eterna elaboração e jamais deve pretender ser a realização de um pensamento único que queira ganhar no grito uma discussão.

Lula ainda é inocente. No entanto ao questionar todo o processo de maneira tão leviana (em alguns casos) alguns parecem não ter para todos os demais uma alternativa de "democracia" digna desse nome. Enfim, Lula é inocente... por enquanto. Que tenha o tratamento de um cidadão... comum.

The Klencke Atlas

De Anakin a Vader - O nascimento de um monstro

Transcrição dos comentários em áudio de George Lucas no DVD de Star Wars - Episódio III: A Vingança dos Sith - um guia para a torturada jornada de Darth Vader

Cena 1 - A indicação forçada de Anakin ao Conselho Jedi
"Quando comecei a fazer o filme, estávamos na Guerra do Vietnã. Num período em que Nixon se candidatou ao terceiro mandato. Ou tentou obter uma mudança na constituição para permitir um terceiro mandato. Isso me fez pensar em como democracias se tornam ditaduras. Não como são tomadas em golpes, ou coisa assim. Mas como a democracia se vira em direção a um tirano. Então eu voltei e estudei como, após o Senado ter matado César na Roma Antiga, eles virão e entregam o Império ao sobrinho dele e o fazem imperador. O mesmo aconteceu com a Revolução Francesa. Após tanto esforço para fazer a revolução, para se livrar do rei e de todos no poder, eles eventualmente entregam a democracia a Napoleão, e o fazem imperador. Isso tem mais a ver com precedentes históricos, e isso acontece muito. Mais do que se imagina. Geralmente, você imagina que um grupo assume o poder - e no moderno século XX, era a realidade comum da "república de bananas", onde um general assume o poder à força. Mas é mais interessante quando ele é realmente entregue, para compensar o fato de que os representantes eleitos não conseguem concordar em nada e são corruptos. Portanto, para limpar a bagunça, se permite a alguém chegar ao poder para consertar tudo. [...] Nessa cena específica, com Obi-Wan e Anakin, estabelecemos o fato de haver uma tensão entre os Jedi e Palpatine, o Chanceler Supremo. E essa tensão entre os dois faz Anakin ficar preso no meio. Palpatine sabia disso quando o colocou no Conselho Jedi, pois sabia que o Conselho se ressentiria. E até Anakin sabia que o Conselho se ressentiria. Mas quando ele é realmente posto naquela posição começa a criar efetivamente uma enorme tensão entre o Conselho e Anakin. E mesmo que Anakin ainda seja leal ao Conselho, está numa posição difícil.

Cena 2 - Anakin e Padmé discutem sobre Palpatine
Esta cena serve para estabelecer que a pressão sobre Anakin está começando a dividir Anakin e Padmé. Ela tem valores sobre a democracia, sobre como as coisas deveriam ser, que estão começando a ficar confusas para Anakin. Você começa a ver a lealdade de Anakin ao Chanceler e não ao Senado, nem necessariamente à democracia. Ela questiona o que Palpatine faz e isso o aborrece muito, pois está atacando seu amigo e seu mentor, e ele entra num estado de confusão com as pressões que sofre de vários lados.

Cena 3 - Anakin e Palpatine conversam na Ópera
Há duas cenas de sedução e essa é uma delas. [...] A intriga política que acontece ao longo de todos os filmes, ou ao menos nos três primeiros, é bem opaca nos dois primeiros. Tem a ver com interesses comerciais, realidades corporativas e as tramas do Senado. Também é a ascensão de Palpatine de um simples senador a Chanceler, e agora de Chanceler a Imperador. Então as maquinações políticas tinham a intenção de ser bem "políticas" - você não entende muito bem o que está acontecendo, nem quais são realmente os problemas, mas agora você vê onde tudo isso leva. [...] O que acontece nos dois primeiros filmes fica muito mais aparente, pois foi realmente planejado que tudo conduzisse a esta cena onde revelamos os segredos sobre a situação política. Mas foi progredindo por toda a história e você verá nos episódios IV, V e VI, que os resquícios dessa situação política também aparecem nesses filmes. Então é um círculo completo que atravessa toda a história e é também uma cena que dá a ideia de onde isso levará após o Episódio VI, que é quando o Senado retorna e volta a ser uma democracia, pois agora sabemos que começou como uma democracia no Episódio I, mesmo não sendo muito eficiente, graças à corrupção e às brigas mesquinhas.

Cena 4 - Despedida de Anakin e Obi-Wan
Mas também é aqui que começamos a ver que embora Anakin finja não ter problemas no relacionamento com Obi-Wan, ele os tem. Está preocupado com o que pensam dele. Veremos na próxima cena que está preocupado com suas próprias motivações e sua confusão, e está aborrecido porque o Conselho e Obi-Wan não confiam nele.

Cena 5 - Anakin e Padmé discutem novamente
Como Anakin passava por problemas com Obi-Wan, isso serve para indicar que seu pesadelo sobre Padmé também começa a envolver Obi-Wan, como se houvesse um certo ciúme entre eles por causa de Padmé. Ele sente [através da Força?] que Obi-Wan esteve lá, falando com ela, e luta contra essa confusão e contra o fato de estar emocionalmente desequilibrado. Palpatine o confundiu. O Conselho o confundiu. Está confuso, pois não quer perder Padmé. Ele acha que tem como descobrir novos poderes que podem talvez salvar a vida dela, mas, no fundo, ele sabe que isso é provavelmente errado. Então há vários sentimentos embaralhados nesta cena.

Cena 6 - Palpatine revela sua verdadeira identidade
Originalmente, Anakin devia ser seduzido nesta cena, e tornava-se um Sith nesta mesma cena. Ao final dessa tomada, ao encarar a realidade, ele permanece um Jedi e diz: "Eu investigarei isso e vou entregá-lo". Mas originalmente não era assim. Ele foi envolvido pela ideia de se tornar um lorde Sith e salvar a esposa e essa rápida conversão dele não funcionava bem. Então fazia mais sentido ele permanecer leal aos Jedi o máximo possível e posteriormente, na cena da luta com Mace. Então, nós refizemos a cena. Não havia a parte em que o Imperador [aqui ainda Chanceler - sic] cede. Ele diz: "Você me pegou, você me pegou". Era a cena sem isso. Acabou ficando mais intensa e finalmente Anakin cede e o salva. Mas não tinha essa mesma pausa onde você pensa que... Assim o Imperador fica mais repugnante. É algo dramático e divertido de fazer.

Cena 7 - Anakin entrega Palpatine a Mace Windu
Essa cena também foi adicionada após eu mudar a cena no gabinete, pois como Anakin diz que vai contar aos Jedi, eu precisava de uma cena dele contando. Várias coisas boas aconteceram quando eu fiz a mudança. Reforça a cena quando Mace entra. Significa que quando Mace encontra Palpatine, ele sabia que ele era um lorde Sith. Funciona melhor, pois quando Mace entra, sabe que irá prendê-lo. Sabe que é o vilão, e isso funciona melhor.

Cena 8 - Anakin se angustia na torre do Conselho Jedi
Depois dessa cena, eu precisava de algo para relembrar que a questão real é que ele quer salvar Padmé e esse é o seu conflito. É por isso que está num vai-e-vem emocional. É fácil fazer o público achar que Anakin está ofendido por não pegar a missão, que está com raiva por não ser um mestre e essa cena foi planejada para relembrar que o problema real é que ele não quer perdê-la. E ele sabe que se o Imperador for morto, suas chances de salvá-la estão perdidas. O imperador é a única esperança de salvá-la, o que o faz voltar ao escritório do Imperador.

Cena 9 - Anakin e Palpatine matam Windu
Essa sequência sempre começou com Mace subjugando Palpatine e depois Palpatine usa seus poderes para destruir Mace, que desvia os raios com seu sabre-de-luz. E era sempre Anakin que cortava o sabre de sua mão. Mas essa parte em que ele finge perder seu poder e ficar fraco foi algo que acrescentei depois. Mudou o ponto da virada de Anakin para esse momento aqui. Fica muito claro que ele quer que ele vá a julgamento, para conseguir a informação sobre como obter esses poderes.

Cena 10 - Anakin cruza o limite e se torna Darth Vader
Nessa sequência baixamos a voz do Imperador para a transição ser mais forte e arrepiante. Agora, quando está com uma aparência estranha também queríamos uma voz estranha e lentamente nós retornamos à voz normal de Imperador que é um pouco diferente de sua voz como Palpatine. Mas aqui é mais representação. Tecnicamente, adicionamos um pouco de reverberação para soar mais assustador. Queríamos uma cena mais arrepiante, porque é, "Erga-se, Lorde Vader". É um dos momentos-chave do filme, em que você quer ter algo mais teatral que tudo. [...] É aqui que ele faz o pacto com o Diabo. Esse é o pacto faustiano para tentar fazer algo que ele não deveria. Ele passou dos limites. A morte de Mace... Ele queria impedi-lo de matar Palpatine, que, no fundo, era a coisa certa a ser feita. Ele não percebeu que Palpatine mataria Mace, então agora quer fazer a coisa certa, mas percebe, com a morte de Mace, que passou do limite e então ele sucumbe diz, "Sim. Farei tudo que pedir se deixar que minha esposa viva". [...] Então ele diz, "Eu farei isso, mas você precisa fazer essas coisas. Precisa matar todos os Jedi, porque se não o fizer, se deixar um só vivo, mesmo uma das crianças, eles voltarão e serão um problema para sempre". Nenhum podia sobreviver. É a mesma coisa com os Sith. O problema com os Sith é que sempre há dois e até se livrar de ambos, não se livrou de nenhum, pois sempre podem criar mais. Então precisa se livrar do Imperador e de seu aprendiz. Uma das questões é que os vilões se acham bonzinhos. Lorde Sidious acha que está trazendo paz à galáxia, pois há muita corrupção, confusão e caos. Agora ele poderá colocar tudo em ordem, o que pode ser verdade, mas o preço que a galáxia pagará é muito alto.

Cena 11 - A Ordem 66 e a matança no Templo Jedi
A narração da história de Anakin entrando no Templo Jedi e os outros Jedi morrendo pela Ordem 66 dos clones é feito como um daqueles desfechos inevitáveis em que ele se livra de todo mundo, o Imperador se livra de todos os inimigos. Mas há uma certa inevitabilidade e tristeza nisso. Sempre me preocupei que o Episódio II revelava muita coisa, com as pessoas perguntando de onde vinham os clones. Eles mencionam o fato que Lorde Tyranus e Conde Dooku são a mesma pessoa, e que foi Darth Tyranus quem deu início aos clones. Então, se prestou atenção, é fácil descobrir o que acontecerá aos clones. Eles trairão todo mundo. É difícil preparar isso sem fazer nenhuma revelação.  [...] A situação com as crianças era necessária para estabelecer o quão longe ele foi para fazer algo tão brutal e bárbaro. Tinha de estar ali, mas eu não queria mostrar. E foi na edição que a ideia de entrecortar ela [Padmé] com ele em seu pior momento, com ela se preocupando com ele. A justaposição funciona bem, pois reflete tanto a matança das crianças quanto a preocupação dela por ele, mesmo que ela não saiba da morte das crianças. Mas cria um forte vínculo emocional quando essas duas sequências são conjugadas.

Cena 12 - Anakin se despede de Padmé
Gosto dessa cena porque ele mente para ela e está racionalizando ao mesmo tempo, dizendo que é tudo por ela. Ele é leal ao Senado, ao Chanceler e a ela. Mas ele torce todos os fatos para justificar seu raciocínio, para parecer que tudo está bem, mas enquanto mente para ela, está mentindo para si mesmo e racionalizando seu comportamento. Ele sabe que está errado, mas não admite. Essa é a cena que diz que ela nunca o amaria. É claro que ela está apaixonada, mas nunca poderia viver com ele, pois foi longe demais quando assassinou crianças e depois justificou isso dizendo que apenas fazia seu trabalho.

Cena 13 - Palpatine discursa no Senado enquanto Vader mata a liderança separatista
Eis uma referência a O poderoso chefão. É quando em O poderoso chefão, ele está batizando um bebezinho e ao mesmo tempo matando todos os seus inimigos. É o que acontece aqui. Enquanto o imperador declara o Império, ao mesmo tempo está eliminando seus últimos aliados. O contraste entre os dois eventos, um contra o outro, sempre funciona. É legal ter um cara fazendo algo relativamente benigno e o outro sendo muito físico e ativo. O verdadeiro horror da situação, a parte realmente horrível da situação é ele declarar o Império em contraste com Anakin eliminando todo mundo, cortando as pessoas ao meio e fazendo coisas terríveis. Mas nada tão terrível quanto o que o imperador faz- e ele faz isso apenas com palavras. Isso foi escrito há muito tempo e foi baseado em História. Star Wars é todo razoavelmente político. A maioria das pessoas nunca notou até este Episódio completar o quebra-cabeças. Às vezes a política é meio confusa e nebulosa na perspectiva das pessoas, que é como as pessoas encaram a política. Mas por ser confusa e nebulosa as pessoas não querem se envolver. É claro, se elas não querem se envolver na política, é quando entregam tudo a alguém para dar um jeito. Então, a participação aqui da Federação de Comércio, das Guildas de Comércio e de todas as corporações que basicamente têm muita influência sobre o Senado e não lhe permitem cumprir sua função, é o que realmente começa toda essa confusão. Palpatine consegue utilizar essa corrupção e ganância por parte da Federação de Comércio para avançar seus objetivos. É óbvio que ele está encorajando a Federação de Comércio a se separar da República e levar um monte de sistemas junto, sobre os quais tem influência. Mas nada disso se torna aparente até ver que ele está usando a tudo e a todos para obter o poder supremo.

Cena 14 - Obi-Wan visita Padmé
Adoro a atuação de Ewan [McGregor] nestas sequências finais, pois ele é atraído inevitavelmente a uma realidade terrível da qual tem de participar. E não há nada que ele possa fazer. Ele não quer, mas precisa continuar naquela direção, pois é o destino dele, já que ele jurou ser um Jedi e trazer justiça à galáxia. Agora a única maneira de fazer isto é enfrentando seu amigo que também decidiu trazer justiça à galáxia. Ambos tentam fazer a mesma coisa, só que um faz com poder e vigor, realizando atos que ele sabe que são errados e o outro está realizando o ato inevitável que tem de fazer e ele não quer, que é se livrar de seu amigo. Nesta cena com Padmé, quando ela não quer contar a ele, ele percebe que a primeira ação dela será correr para Anakin e que, em vez de forçar uma resposta, ele pode simplesmente segui-la.

Cena 15 - Anakin pensativo em Mustafar
Coloquei esse pequeno momento poético aqui, de todos os mortos da Federação e Anakin na varanda meditando sobre o que fez. É a primeira vez que ele tem a chance de pensar por si no que aconteceu. A lágrima aqui diz que ele sabe o que fez, mas agora ele se comprometeu com um rumo do qual discorda, mas no qual vai prosseguir mesmo assim. É o momento que mostra que ele está ciente de ter racionalizado seu comportamento. Está fazendo coisas horríveis, mas ele sabe da verdade. Ele sabe que é mau, e não pode fazer nada. Esse é realmente o momento em que o fato de ele estar preso naquele traje é real. Se ele pudesse voltar atrás, seria diferente, mas agora não pode parar. Ele vê o desenrolar do filme. Não que ele vai ser derrotado por Obi-Wan, mas que seu caminho não pode ser seguido por Padmé, e ele vê as consequências e o fato de que terá de lutar contra Obi-Wan. Ele sabe que tudo terminará em uma luta entre ele e Obi-Wan. Ele sabe que Padmé talvez não a aceitará essa nova realidade e que fatalmente ela descobrirá a verdade. Ele fez um pacto com o Diabo e transformou-se nele. Mas não é algo prazeroso para ele, é triste. O que ela diz no final é, "Sei que ele ainda é bom por dentro". Luke diz depois em O Retorno de Jedi, "Sei que há bem em você". É algo que se repete... Porque há. O que vai retornar o equilíbrio à Força é que há uma gota de bem nele, e é seu filho que o faz entender que tomou a decisão errada e que a hora de racionalizar passou, e que precisa fazer a coisa certa, que é se livrar dos Sith e restaurar o equilíbrio da Força.

Cena 15 - Padmé confronta Anakin
A história de fundo que foi feita em 1973 só descrevia fatos gerais de Anakin no lado sombrio, e ela não podendo segui-lo. Ao descobrir que ele se interessa mais por poder que em salvá-la, ela passa a não querer mais nada com ele. Era tudo que tínhamos para essa cena, quando eles se confrontam. É sobre ela percebendo que ele mudou, que está interessado em ser o imperador do universo e que não é o homem por quem se apaixonou. Ele virou um monstro. E devido à possessividade e à ganância, ele fica extremamente irritado porque ela não o acompanha e quando vê Obi-Wan, é a gota final. Anteriormente, e em várias versões do roteiro havia mais ciúme pessoal entre ele e Obi-Wan, mas eu retirei isso. Agora ela o traiu porque o trouxe para matá-lo.

Cena 16 - O duelo de Anakin e Obi-Wan
Um dos problemas com os Sith é que eles são rápidos para a raiva. Nesta cena com ela era muito importante chegar ao ponto em que ele a estrangula como faz com um dos generais no Episódio IV. Mas mesmo assim ele não a mata. Ele só a faz desmaiar. Mas você vê o lampejo de raiva que ele agora não consegue mais controlar. [...] A qualidade principal de um Jedi é que ele consegue controlar sua raiva. Ele chegou a um ponto em que não controla nada. É pela necessidade de controle e poder e por ficar irritado quando não tem isso. Obi-Wan inevitavelmente tentará impedi-lo. Agora ele acha que ela está ligada a Obi-Wan. Não necessariamente algo romântico, mas mais pelo fato de ambos estarem do mesmo lado, seguindo o mesmo rumo, enquanto ele segue outro. [...] Há muita discusão sobre arrogância, tanto por parte do Imperador quanto dos outros. Então a última coisa real que Anakin fala além de "Eu odeio você" é "Você subestima meu poder", o que é o cúmulo da arrogância. Esta sequência dele se arrastando pela lateral do vulcão e depois pegando fogo é uma das imagens principais que permanecem desde o comecinho. A história original, antes de eu escrever o roteiro do Episódio IV tinha esse momento em que ele se arrasta pela parede do vulcão e pega fogo após Obi-Wan cortar seus braços e pernas. Era essa imagem de como ele se transformou em Dath Vader. É bem aqui, nesta tomada. [...] É meio repulsivo, mas necessário para colocá-lo naquele traje e também é trágico. E precisava ser feito de forma que Obi-Wan pense que o matou, mas não realmente. Eu queria que as chamas durassem até Obi-Wan partir e depois se apagassem e fossem desligadas, por assim dizer. Há várias ocasiões nos filmes, em todos os seis episódios em que pessoas diferentes dizem as mesmas falas em situações diversas, com significados diversos ou não, ou por ironia. Eis uma, que é dentro desse filme, onde a única coisa que ela diz é "Anakin está bem?" Depois passamos a Anakin e ele diz "Padmé está bem?", o que é uma técnica repetitiva que permeia os filmes. Em parte é uma piada, como "Estou com um mau pressentimento" e em parte é pura ironia ou tem outra razão, mas a mesma fala é repetida de propósito.


Cena 17 - O Imperador resgata Darth Vader
Nesta cena, originalmente, o Imperador estava muito escuro e eu tive de clareá-lo, para ele ficar parecendo a Morte. Ele é uma figura quase branca. Uma figura de rosto branco, que é uma versão menos realista do que uma muito escura, que seria sua aparência nessas circunstâncias [de iluminação]. Mas eu queria que ele tivesse um ar fantasmagórico da figura da Morte.

Cena 18 - A cirurgia de Darth Vader e o parto de Padmé
Essa sequência dela dando à luz e Anakin se transformando em Darth Vader originalmente estava dividida em duas cenas separadas. Na edição, eu comecei a entrecortá-las cada vez mais e tirei parte de outro material que não era relevante e acabei cortando só dele para ela e vice-versa. Continuei refinando até acabar com essa versão final onde as transições são principalmente dele para ela. Foi bem entrecortada, pois originalmente ela dava à luz e ele se tornava Darth Vader. Um acontecia após o outro.  [...] É difícil fazer isso num pedaço de papel, mas quando põe as mãos no filme, começa a ver certas coisas e a trabalhar com elas e finalmente elas evoluem naquilo que parece certo para o filme. Em no momento em que ele nasce, ela morre. Então temos o momento em que ele começa a respirar como Darth Vader como símbolo do seu renascimento, seguido da cena dela dizendo que ele ainda é bom, e então morrendo. [...] Aqui, eu me senti muito indeciso em termos de quanto diálogo eu usaria. Quanto seria suficiente para essa cena. Queria que ele se sentisse como o monstro de Frankenstein que fora criado ao se levantar da maca, sem escancarar muito, mas dando a sensação de que o Imperador criou um monstro, e que Anakin tornou-se realmente um monstro, não só fisicamente, mas também em sua alma.

domingo, 14 de maio de 2017

LULA: Culpado ou Inocente? 3 respostas CUIDADOSAMENTE PONDERADAS

O ex-presidente Lula é culpado ou inocente? A questão parece simples, mas as respostas podem ser bastante complicadas.

Depois de alguns dias ponderando calmamente sobre o assunto, chego a algumas conclusões provisórias. Em primeiro lugar, convido o leitor a interrogar sinceramente seus próprios sentimentos, perspectivas, posicionamentos e desejos em relação ao caso:

Quero condenar Lula a qualquer preço? Quero inocentar Lula a qualquer preço? Quero que a Justiça seja feita, independentemente de convicções políticas? Lula é inocente até que se prove em contrário? Lula é inocente mesmo que se prove em contrário? Preferimos sacrificar a lei para prender o Lula? Preferimos sacrificar a lei para inocentar o Lula?

Após refletir devidamente sobre nossas perspectivas acerca do caso, podemos avançar para a seguinte reflexão: o julgamento em questão possui 3 dimensões interligadas, mas autônomas: uma dimensão, política, uma dimensão moral e uma dimensão jurídica.

Adianto minhas conclusões, que explicarei melhor ao longo do texto: em minha opinião, Lula é politicamente culpado, moralmente culpado e juridicamente inocente. Obviamente, cada uma dessas conclusões conduz a consequências políticas, morais e jurídicas particulares, que explorarei a seguir.

Lula: Culpado ou Inocente?


1 - Dimensões jurídicas - O "fator Marisa"

Como já apontei, considero (ao menos provisoriamente) que Lula é JURIDICAMENTE inocente.

Não compro a interpretação de que a Operação Lava-Jato (doravante OLJ) seja uma grande conspiração antilulista e antipetista. Apesar de inúmeras dificuldades, ambiguidades, deslizes e tropeços que passam necessariamente pelo campo da política, não creio que a OLJ seja um grande e maquiavélico "julgamento político".

Pelo que já li sobre Sérgio Moro e alguns dos integrantes do MP envolvidos, minhas convicções políticas são diametralmente opostas às deles, o que não desmerece sua competência jurídica. Por sinal, é o tipo de julgamento em que só poderíamos esperar plena e idealizada "imparcialidade" se nosso aparato jurídico fosse operado por anjos descidos do Céu ou por aliens vindos de Júpiter. Como o processo é conduzido no Brasil, por participantes terrícolas, seria quimérico esperar condições "ideais".

Ao contrário de muita gente dos dois lados do Moro - digo, do muro - eu me dei ao trabalho de ler quase integralmente a denúncia apresentada pelo Ministério Público, e de assistir praticamente toda a arguição de Lula conduzida por Moro (perdi dois dias inteiros de minha preciosa existência fazendo isso). Da mesma forma, pretendo ler a sentença do juiz em seu inteiro teor, assim que for divulgada, antes de emitir qualquer opinião. Obviamente meu parecer é de leigo, embora conheça um pouquinho de nosso ordenamento jurídico, bem como do manuseio de evidências documentais (o feijão-com-arroz do historiador).

Em primeiro lugar, a denúncia é clara, objetiva e bem delimitada: Lula é acusado dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, dentro dos marcos legais do Código Penal. Como se sabe, lavagem de dinheiro é um crime muito sofisticado, difícil de rastrear e ainda mais difícil de comprovar. Todos nós sabemos que laranjas, testas-de-ferro, doleiros e outras figuras desse jaez existem justamente para impedir ou dificultar a detecção e identificação de fluxos de dinheiro, bens etc, dentro e fora do país. Sabendo disso, é difícil imaginar que Lula (que de bobo não tem nada) teria muita coisa em seu próprio nome.

Tudo isso nos leva à questão das provas. Ao contrário daqueles que só viram o famoso Power Point, a denúncia apresenta vasta e diversificada gama de evidências documentais. Algumas dessas evidências são fortes, e outras mais fracas. Não há, realmente, provas materiais (uma escritura com a assinatura de Lula, p. ex.), mas existem muitas provas circunstanciais (contrato com assinatura de Dona Marisa, mensagens de texto para o filho de Lula, a declação de imposto de renda do próprio Lula etc). Reunidas e conjugadas, essas provas circunstanciais compõem um conjunto que deixa muito claro que havia coisas estranhas (estranhíssimas, até) acontecendo em torno dos famosos triplex do Guarujá, sítio de Atibaia e depósitos da Granero. Na melhor das hipóteses, o casal Lula mantinha relações muito promíscuas com grandes agentes do poder privado, recebendo presentes e favores milionários com certa regularidade - tema ao qual voltaremos na segunda e terceira parte desse texto.

Além dessas provas documentais circunstanciais, temos os relatos fornecidos através de acordos de delação - que alguns, para efeitos de retórica política, preferem chamar de delações "premiadas". Esses relatos complementam as evidências circunstanciais, e ajudam a elaborar uma explicação razoavelmente coerentes sobre o conjunto documental em questão. As delações, em si mesmas, não constituem provas suficientes para a condução do processo, mas apresentam testemunhos relevantes corroborados com verossimilhança pelos documentos encontrados. Isolar documentos e delações é falacioso, além de falsear a denúncia encaminhada pelo MP.

Temos um outro problema sério: juntar as duas pontas do processo. Sem a devida comprovação de indicações de má-fé a cargos de confiança, fica difícil provar a corrupção passiva (o que não significa que ela não aconteceu). Sem boas provas de corrupção passiva, a defesa pode (e irá) alegar que não houve lavagem de dinheiro: Lula e família teriam apenas recebidos presentes e favores milionários, em condições um tanto obscuras. E receber certos presentes, embora moralmente questionável, não é crime... A fragilidade nessa ponta do processo é que há provas da corrupção de pessoas indicadas por Lula a cargos comissionados; as indicações propriamente ditas são fatos públicos e notórios, mas é muito difícil comprovar que Lula sabia de antemão o que essas pessoas fariam (ou poderiam fazer) nesses cargos. Podemos (e devemos) julgar Lula responsável política e moralmente por aqueles que ele indicava a cargos públicos, mas responsabilizá-lo juridicamente por isso é questão muito mais complexa. Abordaremos o reverso dessa moeda nas partes posteriores do texto.

Até aqui nos alongamos apenas acerca da denúncia. Ufa! Ainda temos um longo caminho pela frente, explorando a arguição conduzida pelo juiz Moro a partir da denúncia recebida do Ministério Público.

Apesar de alguns momentos de tensão exacerbada, me pareceu que Moro conduziu a dita arguição de modo bastante objetivo e respeitoso. Quem tentou politizar o momento de modo fortíssimo foram o próprio Lula, o PT e seus aliados. Não digo que essa percepção seja correta, mas, enfim, é a minha percepção.

Uma parte considerável da arguição - a primeira a ser divulgada publicamente, por sinal - foi conduzida quase exclusivamente em torno das evidências documentais coligidas e catalogadas pela acusação. Moro fez perguntas claras e objetivas cuidadosamente escoradas em evidências documentais individuais, assim como sobre as possíveis relações existentes entre elas. Dessa forma, o juiz tentou obter de Lula uma argumentação plausível ou verossímil acerca da documentação - enquanto conjunto e enquanto peças individuais. Grande parte das questões poderiam ser respondidas com um "sim" ou um "não", o que não impediu Lula de tergiversar em diversas delas.

Lula respondeu a boa parte dessas questões afirmando que não sabia, não se lembrava ou que "parecia que". Vale lembrar que o ex-presidente exercia assim seu direito de não produzir provas contra si mesmo, embora pareça estranho para alguém que se diz sempre tão disposto a esclarecer a situação. Na minha opinião, os supostos "esclarecimentos" de Lula não se mostraram nada elucidativos. Até aí, nenhum problema para o ex-presidente, uma vez que o ônus da prova cabe à acusação, e não a defesa - ou seja, é o Ministério Público quem deve provar a culpa de Lula, mas ele não precisa provar sua inocência. Em suma, Lula é JURIDICAMENTE inocente até que o Ministério Público prove em contrário, além de qualquer DÚVIDA RAZOÁVEL.

Quanto ao problema das indicações para cargos de confiança, Lula e sua defesa seguiram uma estratégia óbvia: afirmar que o então presidente não tinha motivos prévios para suspeitar daqueles que indicava. Com efeito, Lula atribuiu sistematicamente as indicações a terceiros, sustentando que "apenas assinava" os papéis, confiando plenamente na idoneidade de seus aliados que faziam as indicações. É juridicamente plausível, por mais que seja politicamente incrível. Incrível especialmente quando essa atitude vinha de alguém com décadas de vida política (no Brasil!!!) e, mais ainda, passou toda a década de 90 bradando contra a corrupção que grassava no sistema político-partidário de nosso país. É necessário imaginar que, após eleito, Lula teria sofrido uma estranha metamorfose, tomado por um inconcebível surto de confiança nas pessoas que transitam por um ambiente que todos sabemos recheado de intrigas, traições e desonestidade. A crer no depoimento de Lula, ele seria uma estranha aberração política: um inocente e ingênuo cordeirinho, perdido no meio de uma alcateia esfomeada. Por mais absurdo que isso pareça, creio que há pouca margem jurídica para condená-lo por isso. Mais uma vez, inocente até que se prove o contrário. Se Lula indicou essas pessoas de boa-fé, não há crime de corrupção passiva - e, consequentemente, não há crime de lavagem de dinheiro.

É aqui que entra um argumento-chave elaborado pela defesa de Lula com grande senso de oportunidade. Boa parte das evidências circunstanciais se ligam à falecida primeira-dama Marisa Letícia, e até algumas provas materiais. Dona Marisa seria peça central nesse julgamento: haveria provas materiais envolvendo-a, estreitando a vinculação de Lula ao caso. As explicações que ela fosse capaz (ou não) de fornecer acerca da documentação em questão seria essencial para a definição da sentença de Moro. A morte de Marisa Letícia era um fato com o qual o Ministério Público não podia contar, e que vira o jogo em favor da defesa de Lula. Agora contamos apenas com a versão de Lula sobre os fatos, que pôde assim atribuir à falecida esposa boa parte das responsabilidades, ao mesmo tempo que alegando seu desconhecimento ou esquecimento sobre as circunstâncias em que parte dos documentos foi produzida. Esse movimento de esquiva não seria possível - ou, pelo menos não tão fácil - caso Dona Marisa ainda estivesse entre nós.

Sem o depoimento dela, a denúncia apresentada pelo Ministério Público fica gravemente desarticulada, tornando a situação muito favorável à defesa do ex-presidente. Resta, todavia, um ponto fraco na linha defensiva, que ficou muito claro durante o depoimento. A linha de argumentação apresentada por Lula durante essa semana entra em flagrante contradição com nota divulgada pelo Instituto Lula em janeiro de 2016, assim como com o depoimento do próprio Lula à Polícia Federal, no famoso episódio de condução coercitiva (ou despertar da jararaca). Nessas versões anteriores, Lula é o protagonista da história, e não sua esposa. Resta saber que interpretação (se alguma) Moro atribuirá a essas contradições; só saberemos disso quando tivermos a sentença à nossa disposição - se nos dermos ao trabalho de ler a sentença, é claro...

Concluindo essa primeira parte, deixo claro que, do MEU ponto de vista NÃO-JURÍDICO, Lula é, com muita verossimilhança, culpado das acusações de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. No entanto, havendo margem para qualquer dúvida razoável acerca do conjunto do processo, LULA PERMANECE INOCENTE, DO PONTO DE VISTA ESTRITAMENTE JURÍDICO. Resta à acusação, em suas alegações finais, argumentar de modo convincente para dirimir essas dúvidas, cabendo por sua vez à defesa destacar de modo convincente todos os pontos em que é possível estabelecer dúvidas razoáveis acerca da acusação. Finalmente, com base nessas alegações finais das duas partes, o juiz Moro emitirá sua sentença - e caberá então, a nós, cidadãos, examinar e discutir essa sentença em seu inteiro teor - e não apenas com base nos memes que circulam pela Internet.

2 - Dimensões morais - Os dilemas da consciência

Acabamos de examinar os aspectos jurídicos do caso. Em suas facetas jurídicas, o caso envolve critérios objetivos (a letra da lei) e interpretações subjetivas acerca da mesma lei - quase nunca é fácil separar esses aspectos. A boa notícia é que eu e você, caro leitor, não somos juiz nem partes do processo! Ao contrário do que afirma com sua habitual lábia, quem está no banco dos réus é o ex-presidente Lula, e não "o povo brasileiro". De minha parte, ao menos, Lula não me representa moral ou politicamente desde 2014.

Isso, todavia, não me exime de ponderar a questão sob um ponto de vista moral, e até, dolorosamente, do dever moral de defender Lula caso considere que seu julgamento não foi conduzido de forma justa.

Vale lembrar dois episódios fundadores da cultura ocidental, da qual nós e nosso presente ordenamento jurídico somos herdeiros, para o bem e para o mal. Ambos episódios, ocorridos há muitos séculos, se situam na curiosa zona de penumbra entre a História e o Mito.

Um desses episódios é o julgamento de Sócrates, onde o eminente filósofo foi acusado de corromper a juventude da cidade de Atenas, induzindo-a à impiedade contra os deuses da pólis. Em sua Apologia de Sócrates, Platão retrata o filósofo apresentando seu ponto de vista com humildade, simplicidade e honestidade. Em sua defesa, Sócrates se apresenta apenas como alguém que busca implacavelmente a Verdade. O filósofo, todavia, já se sabia condenado desde o princípio, e entre o exílio e a cicuta, prefere a execução, entregando-se sem resistência às mãos de um júri faminto por vingança.

O outro episódio, muito mais famoso, nos fala de outro julgamento, ocorrido na cidade de Jerusalém. Um homem da Galileia, conhecido como Jesus de Nazaré, foi condenado (em "primeira instância", digamos assim) pelas autoridades judaicas ligadas ao Templo, após uma captura e um processo noturnos e questionáveis. Conduzido a Pilatos, representante do Senado romano na região, Jesus foi entregue à multidão frenética, que gritava "Barrabás, Barrabás"!

Guardados os devidos distanciamentos culturais e as numerosas reinterpretações desses episódios que emergiram através dos séculos, as figuras de Sócrates e Jesus constituem imagens-exemplos-modelos-símbolos-mitos-arquétipos-etc que estão nas bases de nossa cultura, de nossa organização social e do esquema geral de nossos valores. O filósofo grego e o profeta judeu representam a figura do Justo Culpabilizado, do Inocente Condenado - imagens que, independentemente de nossas crenças filosóficas e/ou religiosas, nos lembram que o Poder das leis pode muitas vezes ser deturpado, desviado e usurpado para a satisfação de apetites políticos bárbaros e cruéis.

Nesse sentido, temos um duplo dever moral: se a sentença de Sérgio Moro nos parecer justa, devemos permitir o cumprimento da pena dentro dos marcos da lei, por mais que simpatizemos politicamente com Lula; por outro lado, se a mesma sentença nos parecer injusta, temos o dever de cobrar sua retificação, por mais que Lula nos provoque aversão. Caso contrário, como o povo que outrora gritava "Barrabás", nos tornaremos cúmplices de um julgamento injusto, sujando assim nossas mãos.

Como já deixei claro, Lula me parece culpado, e nem de longe creio que ele se compare em alguma medida a Sócrates ou Jesus (por mais que ao longo de sua carreira, Lula tenha articulado um fortíssimo messianismo político, calcado em imagens profundas do imaginário ocidental, do qual muitos cidadãos brasileiros, inclusive nas cátedras universitárias, não conseguem se livrar).

A questão, aqui, todavia, não é essa. A questão diz respeito à decisão sobre o que é mais importante para nós: a preservação de nossas leis e de nosso ordenamento jurídico ou a condenação de Lula a qualquer custo? Essa escolha diz respeito à consciência de cada um, mas é um claro indicativo daquilo que desejamos (consciente ou inconscientemente) para nossa nação: um país de arbitrariedade jurídica sem limites, ou uma terra onde todo cidadão seja realmente inocente até que prove em contrário, além de qualquer dúvida razoável?

Em suma, de um ponto de vista estritamente moral, como já disse, considero que Lula é culpado; por outro lado, ao fim do processo, precisarei decidir se, de uma perspectiva igualmente moral, devo ficar satisfeito ou insatisfeito com os resultados do processo, e se quero ou não assumir a culpa por um julgamento injusto.

Como já disse, nos cabe agora aguardar as alegações finais da acusação e da defesa, bem como a sentença do juiz, para aquilatar devidamente se é um julgamento do qual, enquanto cidadãos, podemos nos orgulhar ou se é um processo do qual, enquanto cidadãos, devemos nos envergonhar. Aguardemos.

3 - Dimensões políticas - Lula, Dilma e PT no banco dos réus

Para além das questões puramente jurídicas ou morais envolvidas, nós, cidadãos brasileiros, temos o dever civil de emitir um juízo político acerca da conduta de Lula, Dilma e PT no poder.

Fui eleitor vagamente esperançoso de Lula em 2002, anulei meu voto no segundo turno de 2006, votei em Dilma no segundo turno de 2010, com medo do Serra e, finalmente, me abstive de votar no segundo turno de 2014, embora torcesse por Dilma como candidata "menos pior". Desse modo, sou parcialmente responsável por tudo aquilo que o PT fez no poder, especialmente durante os primeiros mandatos de Lula e Dilma, respectivamente.

Os "pactos de governabilidade" forjados pelo PT desde 2002 e até antes sempre me incomodaram, o que se agravou durante o escândalo e julgamento do Mensalão - embora discorde de muitas decisões judiciais ao longo desse processo.  Os acontecimentos políticos de 2013 e 2014 me afastaram irremediavelmente do PT, à medida que deixaram muito claro - ao menos para mim - que os pactos de governabilidade do PT-PMDB, essa monstruosidade bicéfala, estavam acima da vontade da população, ainda que manifesta com grande barulho: os anos no poder haviam tornado o PT inteiramente surdo aos clamores populares...

Nesse sentido, meu veredicto político acerca do PT já foi emitido há muito tempo, e isso não será alterado, apesar de quaisquer resultados do julgamento em curso. Inocente ou culpado, Lula não será meu candidato em 2018, e não deve contar com meu voto ou com minha presença em seus comícios. Tampouco me deixarei envolver pela estranha mistura de tribunal-palanque que Lula e seus aliados vêm tentando articular em torno da Operação Lava-Jato. Minha eventual defesa moral de Lula será sempre pautada por um cuidadoso e deliberado afastamento político, pois não desejo ser usado como massa de manobra por essa gente.

Conclusões

Devemos permanecer atentos a essas três dimensões presentes nesse julgamento, para além de nossas paixões ideológicas, posicionamentos partidários ou convicções políticas. Há nessa conjuntura imenso espaço para variadas interpretações subjetivas e, nesse sentido, minha mensagem principal ao fim desse longuíssimo texto é a seguinte: não transformemos esse julgamento em causa de divisões irremediáveis entre nós. Estamos todos no mesmo barco chamado Brasil, independentemente de nossas opiniões. Os conflitos e divergências são naturais, mas tentemos escutar uns aos outros e entender (ou ao menos respeitar) os pontos de vista alheios, por mais que discordemos deles. Não existe democracia sem diálogo, e nesse momento de amargas transições nosso país precisa desesperadamente que construamos pontes e derrubemos muros. Nosso futuro enquanto coletividade depende disso a curto, médio e longo prazo...