Siga a Oficina no seu e-mail!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tempo e morte

Outra passagem interessantíssima de Menino de lugar nenhum, de David Mitchell

"Como cemitérios são recheados de corpos em decomposição, é meio óbvio que sejam lugares assustadores. Pelo menos um pouco. Mas poucas coisas são uma coisa só quando você pensa nelas por tempo suficiente. Nos dias de sol do verão passado, eu ia de bicicleta até os lugares mais distantes que meu mapa 150 da Ordnance Survey permitia. Uma vez fui até Winchcombe. Quando eu encontrava uma igreja normanda (arredondada) ou saxônica (atarracada) sem ninguém por perto, escondia a bicicleta nos fundos e deitava na grama do cemitério. Ouvia pássaros invisíveis, de vez em quando achava uma flor num pote de geleia. Nunca cheguei a ver Excalibur cravada numa pedra, mas encontrei uma lápide de 1665, que foi o ano da peste. Esse foi meu recorde. Lápides geralmente se desmancham depois de alguns séculos. Até a morte meio que morre. Num cemitério de Bredon Hill, li a frase mais triste de todos os tempos. SUAS VIRTUDES ABUNDANTES TERIAM ADORNADO UMA VIDA MAIS LONGA. O jeito de enterrar pessoas também tem alguma relação com a moda, como usar calças de boca larga ou estreita. Teixos são plantados em cemitérios porque o diabo odeia cheiro de teixo, de acordo com o sr. Broadwas. Não sei se acredito nisso, mas sei que a brincadeira do copo é coisa séria. Tem um montão de histórias em que o copo vai formando coisas tipo 'S-A-T-A-N-A-S-C-O-M-A-N-D-A' e depois explode. Aí o pessoal tem que chamar um padre. (Uma vez o Grant Burch ficou possuído e disse pro Philip Phelps que ele ia morrer em 2 de agosto de 1985. Agora Philip Phelps nunca dorme sem colocar uma Bíblia debaixo do travesseiro.)

Sempre enterram as pessoas com a cabeça pro oeste, pra que quando soar a Última Trombeta no fim dos tempos todos os defuntos saiam das tumbas e caminhem na direção oeste até chegarem ao Trono de Jesus, onde vão ser julgados. Isso significa que, saindo de Black Swan Green, o Trono de Jesus vai estar em Aberystwyth. Mas os suicidas são enterrados com a cabeça pro norte. Esses aí nunca vão conseguir encontrar Jesus, porque gente morta só caminha em linha reta. Eles vão acabar parando em John o`Groats. Aberystwyth é meio que um fim de mundo, mas, segundo meu pai, John o`Groats é só um punhado de casinhas que ficam onde a Escócia termina de repente.

Nenhum deus não seria melhor que um deus que faz isso com as pessoas?"

domingo, 27 de outubro de 2013

Tempo e medo

Interessante passagem do romance Menino de lugar nenhum (Black Swan Green) de David Mitchell, situado na Inglaterra em 1982, que nos lembra que até nossos medos são datados. Também nos lembra o quanto adolescentes ocidentais do sexo masculino costumam ser idiotas...

"Por algum motivo, o assunto mudou e virou 'a pior maneira de morrer'.

Ser mordido por uma mamba verde - opinou Gilbert Swinyard. - É a cobra mais mortal do mundo. Os órgãos explodem e o mijo se mistura com o sangue. Pura agonia.

-Pura agonia, sim - fungou Grant Burch -, mas você morre bem rápido. Quer saber o que seria pior? Ter a pele arrancada como se fosse uma meia. É isso que os índios apaches fazem com você. Os melhores levam uma noite inteira pra fazer isso.

Pete Redmarley contou que tinha ouvido falar de um tipo de execução vietcongue. - Eles tiram sua roupa, amarram você e enfiam queijo processado no seu rabo. trancam você num caixão que tem um cano.  botam uns ratos esfomeados dentro do cano. Os ratos comem o queijo todinho e depois continuam mastigando você por dentro.

Todo mundo olhou pro Tom Yew, esperando uma resposta. - Tem uma coisa que eu sempre sonho - ele demorou um século pra dar uma tragada no cigarro. - Eu estou com o último grupo de sobreviventes depois de uma guerra atômica. A gente está caminhando por uma estrada. Não tem carro nenhum, só mato. Toda vez que olho pra trás vejo menos gente. A radiação vai pegando um por um. - Deu uma olhada pro Nick, o irmão dele, e depois pro lago congelado. - Não é morrer que me incomoda. O problema é saber que eu vou ser o último.

Ninguém falou nada por um tempinho.

Ross Wilcox chegou perto da gente. Levou um século pra dar uma tragada no cigarro, cheio de pose. - Se não fosse o Winston Churchill, todos vocês iam estar falando alemão.

Ah, claro. Como se Ross Wilcox tivesse alguma chance de evitar ser capturado e liderar um grupo de resistência. Morri de vontade de falar pra aquele tapado que, na verdade, se os japoneses nunca tivessem bombardeado Peal Harbour, os Estados Unidos nunca teriam entrado na guerra, a Grã-Bretanha teria passado fome até se render e Winston Churchill teria sido executado como criminoso de guerra. Mas eu sabia que não podia fazer isso. Tinha uma coleção inteira de palavras traváveis nisso tudo e naquele janeiro o Carrasco andava bem impiedoso. Aí eu falei que ia dar uma volta pra mijar, me levantei e caminhei um pouco pela trilha que levava até a vila. -Ei, Taylor! - berrou Gary Drake. - Se você sacudir o pinto mais de duas vezes, já virou sacanagem! - Isso fez Neal Brose e Ross Wilcox morrerem de rir. Fiz um sinal da vitória com os dedos sem nem me virar pra trás. Esse papo de sacudir o pinto é a mania do momento. Não confio em ninguém a ponto de perguntar o que significa".

sábado, 12 de outubro de 2013

Imaginários partilhados

Trecho de Histoire de Lynx de Claude Lévi-Strauss


“As semelhanças entre as narrativas do Velho e do Novo Mundo que nos detiveram no capítulo anterior são de outra natureza. Elas datam de uma época recente, sua origem não tem mistério. No decorrer do século XIx, os “viajantes”, como eram chamados então, canadenses empregados pela Companhia da Baía de Hudson, tinham com os índios relações muito próximas.

À noite, ao redor das fogueiras, os “viajantes” contavam, provavelmente em jargão chinook[1], várias histórias tiradas do folclore francês. Encontramos o nome Ti-Jean (Petit Jean) de um herói particularmente popular no Canadá em versões recolhidas muito mais tarde da boca de contadores de história indígenas: Butcetca em shuswap, Laptissán em nariz-furado, Ptciza em kalapuya, Kicon em cree, Ticon em ojibwa...

Entre tantas outras ideias fecundas, Boas teve aquela de incitar jovens pesquisadores canadenses a recolher em suas campanhas os restos de um folclore francês pelo qual, localmente, ninguém se interessava. A coleta foi fabulosa. Ela certamente não oferece uma imagem estática do que era o folclore francês no século XVII. Transplantado para um novo solo, ele recebeu contribuições, sofreu influências; ele também evoluiu de modo autônomo. Mas seu material era muito mais rico que aquele que subsistia na memória dos contadores franceses na mesma época. Imagina-se que os índios tenham sido seduzidos pela verve, pelo maravilhoso, pelos detalhes pitorescos ou fantásticos de contos que, sob esses aspectos, não perdiam em nada para os seus próprios, e onde encontravam um modelo de herói feio e desprezado que lhes era familiar. Nada de espantoso então se eles atribuem a Snánaz, depois de sua vitória sobre o vento, aquela sobre a besta de sete cabeças. A versão shuswap imputa a Snánaz, ainda obscuro e ridicularizado por sua ingenuidade, os mesmos enganos que aqueles dos quais, entre os índios Thompson, era culpado um personagem chamado Jack, prova de sua extração europeia. Entre as narrativas francesas e as suas, os índios rapidamente perceberam as semelhanças, e incorporaram diversos incidentes das primeiras a suas próprias tradições”.



[1] Espécie de língua franca empregada entre os indígenas norte-americanos ao longo da costa do Pacífico.

domingo, 6 de outubro de 2013

Viva sua história

Trecho inspirador do livro Onde as árvores cantam, de Laura Gallego García

"-Contam-se muitas coisas acerca da Grande Floresta - sussurrou Viana.

Oki assentiu; seus olhos brilhavam, delatando a paixão que sentia por todo tipo de histórias. A moça entendeu que, agora sim, estava falando o idioma dele.

-Pode-se acreditar nelas ou não - acrescentou ela, cuidadosamente -, mas suponho que não seja isso o que importa, não?

-Não é o que importa. - Oki concordou com a cabeça e seus cabelos pretos e hirsutos se agitaram sob seu chapéu. - O essencial é a história em si.

-Compreendo - disse Viana.

E era verdade que compreendia. No entanto, aquilo não solucionava sua dúvida, e não sabia como perguntar de novo a Oki sem que ele se ofendesse.

-Você deseja saber se vale a pena, não é? - disse então o menestrel. - Se você deve assumir o risco e sair ao encontro da lenda.

-Sim - respondeu Viana, agradecida. - Sim, é isso mesmo.

-Porque pode ser que você descubra o mistério ou encontre a morte certa. Quem sabe? Moça, vou dizer uma coisa: o mundo está cheio de histórias. Todas as pessoas e todas as coisas têm histórias para contar. A algumas delas se chega por meio de gente como eu, que as relata para que não sejam esquecidas. Outras se vivem. Entende?

Viana fez que sim, embora não estivesse certa de compreender tudo.

-Agora você deve decidir - concluiu Oki - se continuará sendo uma ouvinte ou, ao contrário, se sairá em busca da própria história.

-É possível que tenha relação com a fonte da eterna juventude?

-...com a busca da fonte da eterna juventude - corrigiu o menestrel. - Mas só se você se arriscar a viver essa história saberá como ela termina. A não ser, evidentemente, que espere que outra pessoa a viva por você. Então, é possível que, daqui a um tempo, conheça o final pela boca de alguém como eu.

Viana assentiu de novo. Dessa vez entendeu efetivamente.

-Posso ser uma espectadora - resumiu - ou a protagonista da minha história. E isso implica riscos."

sábado, 5 de outubro de 2013

Maravilhas ocultas

Hoje seguia eu em minha peregrinação semanal a Niterói, cruzando nossa belíssima Guanabara na minha tão querida (?) barca. Uma viagem que já se tornou mais que rotineira após dois anos de mestrado e quatro de doutorado na UFF.

No entanto, hoje tive uma companhia de viagem pouco comum. Na fileira de assentos atrás de mim sentou-se um grupo composto por uma família vinda de São Paulo, acompanhados por uma parente ou amiga carioca.

Pelo que percebi, era sua primeira visita ao Rio. Mal deixamos a Praça XV, eis que surge no horizonte algo que provoca viva admiração entre os turistas: a ponte Rio-Niterói. Os visitantes ficaram simplesmente extasiados, exclamando comentários entusiasmados a respeito da grandiosidade da obra. De fato, é um notável feito de engenharia. É titânica, colossal, incrível!

Fiquei chocado ao perceber o quanto a magnífica ponte, enterrada sob meu olhar rotineiro e cansado, não despertava mais minha atenção, tornando-se um banal detalhe da paisagem. E olha que a ponte é grande! Sacudido pelo inesperado entusiasmo dos companheiros de viagem, me dei ao trabalho de olhar pela janela, contemplando a estrutura com renovado interesse.  

Quantos espetáculos cotidianos não perdemos em nosso olhar viciado? Fiquei pensando no quanto é importante compartilhar perspectivas com nossos semelhantes; enxergando o mundo através de outros olhos, reencontramos as maravilhas ocultas sob a fadiga, reencantamos nossa realidade...