quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Cientificismo e fanatismo

Cientificismo barato é mais perigoso que fanatismo religioso.

As teorias racistas e eugenistas do século XIX e do início do XX são bom exemplo disso. A devastação ambiental cometida pelo "homem-poderoso-pela-razão-e-mestre-da-natureza" é outro resultado dessa postura. Sem falar nos desvarios cometidos em nome da "ciência" marxista pelos regimes comunistas, ou, no mundo capitalista, por uma "ciência" econômica excessivamente confiante em seus números e modelos. Há, inclusive, certa ciência econômica tão fervorosa em suas convicções que chega a falar, um tanto religiosamente, em "ortodoxia econômica".

O fanático religioso ao menos sabe que obedece a uma fé orgulhosamente cega, enquanto o "esclarecido" cientificista acredita ser guiado pela mais pura, insofismável e incontestável razão. O fanatismo científico se baseia em "certezas" melhor mascaradas pela ilusão de "ter razão" e pela fé numa reificada compreensão da "Ciência" - essa misteriosa dama cujo endereço nunca descobri, muito embora conheça inúmeros cientistas...

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A tragédia já está consumada. Mais importante que encontrar culpados é buscar soluções. Bola pra frente.

Mais um conselho

Não adianta criticar o ódio pregado por Bolsonaro se nós mesmos odiarmos os eleitores dele. Controlemos, antes de tudo, o nosso próprio ódio - pois muito ajudamos se não atrapalharmos...

domingo, 28 de outubro de 2018

Juramento Amoroso

Seja essa nossa sagrada bandeira, senhora de nossa lealdade, dona de nossos corações, alicerce de nossos sonhos, âncora de nossas esperanças, objeto de cuidadosa devoção. Seja ela nosso abrigo, proteção, refúgio, escudo, porto seguro. VIVA A CONSTITUIÇÃO!!!


No mesmo barco

Queridos amigos (incluindo os que, infelizmente, votaram no dito-cujo), vou me recolher. Alguns, como eu, lamentam; outros, comemoram. Assim é a vida. Acabou o período eleitoral mais tenso da história da 5ª República no Brasil. Agora é o momento de acalmar os ânimos, guardar a serenidade, refletir, refletir e refletir muito. Que os "vencedores" respeitem os "perdedores", e que os "perdedores" não se deixem contaminar pela raiva e pelo ódio contra os "vencedores". O primeiro imperativo, agora, é preservar nossos corações e mentes de todos os sentimentos e pensamentos venenosos que nos impeçam de agir com sabedoria. Sejamos prudentes, mas não medrosos. Corajosos, mas não temerários. Medo e temeridade são péssimos conselheiros. Unidas, Prudência e Coragem constituem o caminho da grandeza: prudentes e corajosos, somos mais fortes. Saibamos reconhecer os momentos oportunos para falar e guardar o silêncio. Evitemos palavras violentas, rancorosas e ofensivas. Sejamos gentis, independentemente das circunstâncias, pois "gentileza gera gentileza" - e "violência gera violência". Cultivemos em nossa alma a paz que desejamos ver em nosso país. Estamos todos no mesmo barco: se o barco naufragar, nos afogamos todos juntos! Podemos (e devemos) ter divergências, mas não precisamos ver ou tratar como inimigos aqueles que pensam (e votam) diferentemente de nós. Sejamos generosos uns com os outros. Tenhamos a grandeza de perdoar sempre que necessário, quantas vezes for necessário. De resto, permaneçamos TODOS vigilantes - pois "o preço da liberdade é a eterna vigilância". Sejamos exigentes, MUITO exigentes. Cobremos muito de TODOS os políticos eleitos, do deputado estadual ao presidente. Mantenhamos os olhos e ouvidos abertos, e o pensamento crítico sempre alerta. Prestemos atenção a tudo que se faz e a tudo que se fala, especialmente àquilo que se esconde nas entrelinhas.


Coragem, Amigos

Nós estamos aqui. Nós resistiremos. Nós sobreviveremos. Não nos calaremos. Seremos a muralha. Estamos juntos, e juntos seguiremos. Somos grandes, somos muitos e seremos mais. Não haverá silêncio que calará nosso barulho. Não haverá mordaça que feche nossa boca. Não haverá ódio que envenene nosso coração. Não haverá corrente que aprisione nossos pensamentos. Não haverá porrete que fira nossas almas. Não haverá balas que matem nossos valores. Não haverá bombas que explodam nossos sonhos. Não haverá coturnos que pisem nossas esperanças. Não haverá tirano que nos roube a coragem. Do fundo do abismo, nossa voz ressoará. Unidos, nós somos a democracia. Unidos, somos a liberdade. Coragem, amigos, coragem. Nenhuma noite é eterna, e nós seremos o amanhecer!


Raiva+Politização superficial+Desinformação=Lambança

Amor como dever

O Amor tolera.
O Amor perdoa.
O Amor age.
O Amor espera.
O Amor vê.
O Amor ouve.
O Amor fala.
O Amor cala.
O Amor cura.
O Amor sustenta.
O Amor fortalece.
O Amor sabe.
O Amor lembra.
O Amor esquece.
O Amor ilumina.
O Amor aquece.
O Amor refresca.
O Amor purifica.
O Amor liberta.
O Amor constrói.
O Amor cultiva.
O Amor une.
O Amor aceita.
O Amor compreende.
O Amor respeita.
O Amor plenifica.
O Amor realiza.
O Amor vivifica.
O Amor dá.
O Amor pede.
O Amor recebe.
Somente o Amor apazigua as tempestades de Ódio.
Em tempos de Ódio, amar é um dever.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Quem questiona os questionadores?

Para encontrar boas respostas, é necessário formular boas perguntas - daí a necessidade de uma atitude questionadora, em sentido amplo, profundo e pleno. A qualidade do conhecimento deriva diretamente da qualidade dos questionamentos que direcionam sua busca.

Indagações ingênuas engendram respostas ingênuas, questões falaciosas geram respostas falaciosas, perguntas superficiais induzem respostas superficiais. Por outro lado, conhecimento profundo, derivado de questionamentos bem formulados, tende a estimular perguntas igualmente instigantes, configurando assim um círculo virtuoso que convém cultivar cuidadosamente.

Para tanto, é também imprescindível questionar sempre os próprios questionamentos: "esta é uma pergunta pertinente? Como melhorar sua formulação? Por que é importante perguntar isso? Por que indagar isso, e não aquilo? Que motivos me levam a elaborar essa questão?"

É por isso mesmo que convém sempre desconfiar de questionadores que não se questionam, nem toleram ser questionados, beirando a desonestidade intelectual.

O verdadeiro espírito crítico significa questionar as respostas, mas também questionar vigorosamente as próprias perguntas: perguntar melhor, para responder melhor, sempre.

O verdadeiro questionador é aquele que questiona, antes de tudo, a si mesmo.

Pesadelos 6

A cidade estava animada. Risos frouxos e raivosos ecoavam, saindo de mentes embriagadas. Tresloucadas bacantes, bobas alegres, dançavam em torno de uma imensa fogueira. As labaredas subiam, subiam, subiam. Uma densa fumaça empesteava os ares. Livros, livros e mais livros queimavam, queimavam e queimavam, sem cessar. Bibliotecas inteiras alimentavam as chamas. Era papel que queimava, mas o cheiro era de carne humana. Me afastei dali, nauseabundo.

Nos limites do ódio

Se não me engano, estamos entrando no que o filósofo René Girard chamava de "rivalidade não-objetal" - a fase de um conflito onde o ódio entre rivais já se tornou tão intenso que o objeto inicial da disputa (um processo eleitoral, por exemplo) perde a relevância e a única coisa realmente importante passa a ser o crescente desejo de derrotar, humilhar, espezinhar - ou até eliminar - o "inimigo". É a antessala do caos, quando nossa própria fúria sai de controle e fazemos coisas das quais nos arrependeremos, desencadeando uma espiral crescente de retaliações mútuas cada vez mais agressivas. A única saída é evitar o ódio, a começar pelo ódio que habita em nós mesmos. Como extinguir o ódio do adversário se não conseguimos controlar o ódio dentro de nós mesmos? Evitemos palavras, gestos e até pensamentos raivosos. Não, não é nada fácil; mas é necessário.


"Buscar dentro o que não vem de fora. Reformar-se primeiro, sempre" - me disse um grande amigo.

Marina triunfante

Nunca votei em Marina, mas acho que ela sai engrandecida dessas eleições, pois conseguiu ser humilde e altiva ao mesmo tempo, manifestando seu apoio a Haddad de modo digno, sem rancor, nem subserviência. Grandeza moral não se mede por votos.

Pesadelos 5

Havia um poço. Sinistro, sombrio, profundo. Uma fila se formava à beira do poço. Uma fila longa, com milhões de homens e mulheres. Tentei ver onde acabava a fila, mas ela ia além, muito além do horizonte. As pessoas da fila traziam o semblante irritado. Chegando à beira do poço, cada pessoa olhava para o fundo, estampava no rosto um sorriso feroz, se atirava de cabeça e desaparecia dentro do poço. Uma por uma, cada pessoa se atirava, chegando sua vez. Algumas emitiam histéricas gargalhadas, enquanto caíam. Eu tentava alerta-las: argumentava, falava, implorava, gritava. Não adiantava. Se faziam de surdas. Queriam se atirar no poço. E estavam felizes assim.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Pesadelos 4

Eu era um tucano. Voava livre, num céu repleto de araras, papagaios, garças, tuiuius, sabiás, curiós. Voávamos e cantávamos alegremente. Subitamente, de todos os lados, fomos cercados por sombrios urubus, carregando vastas redes. Todos nós caíamos aprisionados. Com ágeis tesouras os raivosos urubus mutilavam nossas asas. Amordaçavam nossos bicos e nos trancavam em apertadas gaiolas. Não havia mais vôo, canto ou liberdade. Apenas lágrimas, sangue e um silêncio esmagador. Foi então que ressoou a gargalhada sinistra e demente do Urubu-Rei...

domingo, 21 de outubro de 2018

Transtorno Obsessivo Compulsivo

Interessante crônica de Antônio Prata publicada hoje na Folha de São Paulo


— Ele disse numa entrevista que fechava o Congresso no dia em que tomasse posse.

— Rapaz... Sou contra fechar o Congresso. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Ele também disse que tinha que matar 30 mil pro Brasil dar certo.

— Feio matar 30 mil. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Aqui ele fala que prefere filho morto a filho gay.

— Qualquer filho é melhor do que a roubalheira do PT.

— Sua frase não tem muito sentido.

— Melhor não ter muito sentido do que a roubalheira do PT.

— Aqui ele falando que é a favor da tortura.

— Sou contra tortura. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Será? Aqui, 2018, ele falando que o livro de cabeceira dele é do Brilhante Ustra, o torturador que levou duas crianças de 5 e 4 anos, pelas mãos, para verem o pai e a mãe torturados numa sala do DOI-Codi. A mãe estava nua e vomitada, presa à cadeira do dragão.

— Melhor levar criança pra ver pais torturados do que pra ver a roubalheira do PT.

— Frase da mãe torturada: “Minha filha perguntava: ‘Mãe, por que você ficou azul e o pai verde?” Ela continua: “Meu filho até hoje lembra do momento em que eu falava ‘Edson’ e ele olhava para mim e não sabia que eu era a mãe dele. Estava desfigurada”.

— E quem desfigurou o Brasil? A roubalheira do PT!

— Se só roubalheira conta... Ele tinha uma funcionária fantasma na Câmara, paga com dinheiro do povo para dar água aos cachorros dele, na casa de praia em Angra dos Reis.

— O que é uma funcionária fantasma perto da roubalheira do PT?

— Ele e os filhos, que se dedicam unicamente à política, têm 13 imóveis no valor de R$ 15 milhões de reais. Não é estranho?

— Muito mais estranho é a roubalheira do PT.

— Em um só ano, um dos filhos dele gastou R$ 40 mil reais de verba parlamentar com passagens pro Rio Grande do Sul, onde morava a namorada e para Santa Catarina, onde tem amigos.

— O importante é acabar com a roubalheira do PT. Tudo menos a roubalheira do PT!

— Não é o que acham os principais órgãos de imprensa do mundo. Olha essa lista de jornais e revistas alertando pro perigo desse cara ser eleito. The Economist, New York Times, The Guardian, Deutsche Welle.

— Tudo mídia comunista comprada com dinheiro da roubalheira do PT.

— Ué, por que a roubalheira do PT comprou toda a mídia internacional e se esqueceu da brasileira, que continua tratando o cara como um candidato normal e um risco à democracia igual ao de Haddad?

— Tática de guerrilha da roubalheira do PT. A mídia brasileira está como os vietcongs, escondida debaixo da terra, disfarçada de arbusto para atacar de surpresa no final e garantir a boquinha na roubalheira do PT.

— Sei. Mas vamos supor só por um momento que a imprensa global não esteja comprada pelo dinheiro da roubalheira do PT. Vamos supor que eles estejam certos em apontar o abismo que ele representa. Vamos supor que ele ganhe e ponha em prática o que vem dizendo que porá desde que começou na política. Vamos supor que ele persiga minorias ou faça vista grossa para quem perseguir. Que ele censure. Torture. Mate.

— Importante é acabar com a roubalheira do PT.

— E se for você o torturado? Você na cadeira do dragão.

— Enquanto eu tiver meu crânio esmagado pelo menos não vou pensar na roubalheira do PT.

— E se você for morto?

— Estarei livre, finalmente, da roubalheira do PT.

Apoio, Solidariedade, União, Sobrevivência

Mais importante que o resultado das urnas é formar laços de apoio e solidariedade para enfrentar os próximos 4 anos. Unidos, sobreviveremos!


sábado, 20 de outubro de 2018

Pesadelos 3

Crepúsculo. Uma planície coberta com as cinzas de uma floresta calcinada. Até onde a vista alcança, milhares de cruzes feitas de pau-brasil; milhares de índios crucificados; crianças, mulheres e homens crucificados em milhares de cruzes feitas de pau-brasil. Quem fez isso? Tento gritar, mas minha boca foi costurada. Quem fez isso? Tento fechar os olhos, mas minhas pálpebras foram arrancadas. Quem fez isso? Me resta apenas contemplar silenciosamente o horror que tortura minha alma.

Pesadelos 2

Caminho numa floresta sombria. Por todos os lados me vejo cercado por armadilhas: laços, redes, alçapões. Quem preparou todas essas armadilhas? Quem deseja me capturar? Quem deseja me prender? Quem deseja tirar minha liberdade?
***
Torrencial tempestade inunda o Rio de Janeiro. Uma grande caravana tenta fugir da cidade, em busca de um lugar seguro. Assustadores drones sobrevoam a multidão, lançando bombas e disparando projéteis contra os fugitivos. A tempestade segue rugindo.

Caloteiros de bem

O ônibus para. Dois homens entram furtivamente pela porta de trás - o conhecido calote carioca. O motorista grita para que desçam. Começa uma viva altercação entre os três. Um dos caloteiros brada ao motorista que quando Bolsonaro for eleito e ele tiver sua arma, matará o motorista que fizer com ele essa "palhaçada". Note-se: uma ameaça de morte em nome do sagrado direito de cometer uma infração. Ao fim e ao cabo, o motorista desistiu da discussão, talvez intimidado, e os dois "caloteiros de bem" sentaram-se num banco perto do meu. Ao longo da viagem, conversavam indignados sobre o aumento da criminalidade no Rio de Janeiro. Cada um tire suas conclusões do surreal episódio... Eu, francamente, não consigo compreender!

Pesadelos 1

Baratas. Baratas. Muitas, muitas baratas. Invadem minha casa, inexoravelmente, marchando em fileiras cerradas. "Elas estão organizadas!", grito. "Quem está organizando isso?". Tremo, impotente, sem saber quem comanda esse asqueroso exército de insetos, nem de qual esgoto ele saiu.
***
Estou seminu e descalço, vestindo apenas um short, cercado por uma multidão hostil e raivosa. "Queria ter pelo menos um chinelo", penso, desalentado. Gritam, berram, bradam, vociferam, contra a minha nudez. Indefeso, abandonado, mudo, não sei como reagir.
Vou dormir. Me acordem em 2022 - se houver eleições.

Alerta aos servidores

Você gosta de expressar sua opinião, amigo servidor público? Pois bem, comece a se preocupar. Em sua maioria, os estatutos dos servidores municipais, estaduais e federais foram redigidos durante a ditadura e NÃO foram revisados após a Constituição de 1988. Seus textos ainda mantém artigos que permitem à entidade empregadora punir de várias maneiras, inclusive com exoneração, o servidor que se expresse publicamente de modo desabonador a respeito do órgão que serve. Tais situações se tornaram raras devido a certo fair-play democrático do novo pacto republicano. Mas os dispositivos legais permanecem lá, prontos para serem usados por um presidente, governador ou prefeito com tendências autoritárias - uma postagem no Facebook poderá ser usada contra você; poderá até custar seu emprego. E eles nem precisarão fazer um golpe institucional para amordaçar você. Pense bem.

Diretas Já 2022

Lutemos pelo melhor até o último instante, mas estejamos bem preparados para o pior. Na dúvida, já podemos ir articulando um movimento "Diretas Já 2022", se for necessário. Não, não estou brincando. É muito sério. Mesmo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Les Choses et les Mots

Conheço muitas Coisas-sem-Palavras, mas conheço poucas Palavras-sem-Coisas, como cachemopos ou perintilias. Consigo inventar muitas Palavras-sem-Coisas (zalibungas e maralineos, por exemplo), mas no fundo não vale tanto a pena, pois são apenas Palavras que não significam lá muita Coisa.

Posso estar pentagonalmente enganado, mas creio que as Coisas precedem as Palavras e provavelmente importam muito mais que elas, até para aquelas pessoas estranhas que escrevem livros - exceto, talvez, para alguns pensadores pós-modernos (menos, é claro, quando se trata de contracheque, que é Coisa séria). Molière tinha uma ou duas Palavras a dizer sobre esse tipo de Coisa.

No que me diz respeito, prefiro escrever uma Palavra-Revólver a encarar uma Coisa-Revólver - diferenciar as duas Coisas é bom sinal de sanidade mental, pois qualquer pessoa de tino sabe que ser atingido por uma Coisa-Bala de qualquer calibre dói muito mais que dizer "fui ferido por uma Palavra-Bala", por mais alto que se grite isso (é uma daquelas Coisas que soam esquisitamente em voz alta).

É bem verdade, por outro lado, que, a seu fabuloso modo, Palavras também são Coisas - de uma natureza muito peculiar, evidentemente. Palavras são Coisas poderosas e perigosas, inclusive, capazes de mobilizar e movimentar outras Coisas, que ferem e matam, literalmente: Palavras atiram pedras, acendem fogueiras, puxam gatilhos e atam nós corrediços.

As Coisas-Palavras e as Palavras-Coisas se complementam, moldam e movimentam. São vento, moinho, mó, trigo e farinha. São serpentes mordendo suas próprias caudas. Verbo e Carne, talvez.

De qualquer forma, um homem sem Palavra se faz Coisa: não sabe o que diz. Mas mesmo os homens de Palavra devem permanecer sempre atentos às Coisas que nos deixam sem Palavras. Conheço muitas Palavras que valem mil Coisas, mas poucas Coisas que valham mil Palavras.

Acabamos voltando ao começo, se não for o avesso, o começo do avesso, ou até, quem sabe, o avesso do começo. Confuso, me pergunto se comecei mal e terminei pior, ou se terminei mal e comecei pior - embora uma Coisa seja menos pior que a outra; nem tudo é questão apenas de Palavras.

Como logobundo que me faço, admito que, no fim das contas, tudo isso pode soar um tanto contabuloso...

domingo, 14 de outubro de 2018

A boa notícia é que ainda temos um arsenal nuclear suficiente para destruir 5 vezes a humanidade inteira em estado de prontidão. Cortesia: China, Rússia, EUA e outros amigos.
Alexandre Frota não será um deputado, mas um sintoma...

Regra de Ouro das redes sociais

"Quem fala o que quer, pode ouvir o que não quer".

Liberdade de expressão é isso. Todo mundo (eu, você ou o seu vizinho), de vez em quando, é grosseiro, sarcástico ou se expressa mal. Às vezes magoamos, com ou sem intenção de magoar. Faz parte do jogo, faz parte da vida. De vez em quando precisamos desculpar ou pedir desculpas. Não machuca.

Terminológica

Não sou especialista em História Contemporânea, mas na minha opinião, Bolsonaro não é fascista. A Ditadura Militar também não era fascista. Autoritarismo não é sinônimo de fascismo. Mas autoritarismo já é uma coisa suficientemente ruim. Péssima. Abominável. Ele não.
Nada mais imprudente que subestimar uma ameaça. A prudência excessiva reserva arrependimentos menores que aqueles trazidos pela confiança exagerada. "O seguro morreu de velho".

Além dos noticiários

No domingo passado, na ida para minha zona eleitoral, presenciei pessoas berrando agressões verbais sobre candidatos. Voltando, presenciei outra altercação similar. Nunca tinha visto cenas desse gênero nos arredores de minha ZE.

Na semana imediatamente anterior um amigo meu que nem é muito politizado fez uma crítica jocosa sobre Bolsonaro e quase foi agredido fisicamente por um vizinho de 73 anos. Felizmente meu amigo é um sujeito controlado e não revidou; acalmando o exaltado vizinho ainda o alertou para o perigo dessa conduta: idoso, de compleição frágil, esse senhor se arriscava seriamente se fizesse a mesma coisa com uma pessoa menos serena que meu amigo.

No decorrer do último mês, uma amiga minha foi convidada para falar sobre o tema "Paz" em um centro espírita. Sua fala evitava quaisquer conotações políticas, mas no meio da preleção foi interrompida por um homem que se levantou aos berros, dizendo que não admitia propaganda política contra Bolsonaro dentro de uma instituição religiosa. Muito paciente, minha amiga aguardou que ele extravasasse sua raiva, esclareceu que sua fala não tinha qualquer conotação política, mas que oferecia o microfone ao cavalheiro caso ele desejasse se manifestar ao fim da palestra. Menos exaltado, ele se sentou e não pediu a palavra ao fim da reunião; depois, mais calmo, foi pedir desculpas à minha amiga pelo momento de descontrole.

Nenhum desses casos saiu nos noticiários. Imagino que haja outros semelhantes por aí. Os ânimos e emoções estão muito exaltados nessa eleição e os episódios de violência se multiplicam de modo assustador. Não estamos à beira de uma guerra civil, mas mesmo assim é preocupante.

Parte da responsabilidade se deve, sem dúvida, à constante exaltação da violência pelo candidato Bolsonaro, de longa data. O atentado sofrido por ele também deixou os ânimos superexcitados. Talvez o próprio ataque derive dessa exaltação - até onde a Polícia Federal investigou, o atacante é apenas um doente mental; há poucos indícios de uma conspiração.

No entanto, a responsabilidade não cabe apenas a Bolsonaro. Desde 2013 temos visto uma terrível agressividade verbal entre grupos de opiniões divergentes, acompanhada de rótulos pejorativos como "coxinha", "petralha", "reaça", "mortadela", "esquerdopata", "bolsominion", entre outros - sem falar na redução de termos complexos como "fascista" e "comunista" a meros xingamentos.

Passamos quase meia década cultivando tensões sociais insuportáveis e agora ficamos chocados ao vê-las desencadeadas em episódios violentos, por vezes trágicos.

Precisamos TODOS, JUNTOS, desarmar essa bomba relógio, enquanto é tempo. Um bom começo é controlar a agressividade em nossa linguagem. Chega de rótulos, apelidos e xingamentos. Tratemos respeitosamente aqueles que divergem de nossa opinião. Esse seria apenas o começo de um longo caminho para a desintoxicação de nossas relações sociais.

Paz para todos nós!

Pessoal

Como FILHO DE MÃE SOLTEIRA, não posso votar no candidato cujo vice diz que o lar onde cresci é uma "fábrica de desajustados".

Como PROFESSOR, não posso votar no candidato que pretende destroçar a educação formal no país, pregando absurdos como ensino a distância nas classes iniciais.


Como HISTORIADOR, não posso fechar os olhos ante o perigo que representa um presidente com escancaradas posturas antidemocráticas e autoritárias.

Como PÓS-DOUTORANDO EM ANTROPOLOGIA não me permito votar no candidato que promete acabar com as terras indígenas onde alguns de meus colegas e alunos vivem.

Como PESQUISADOR DO MUSEU NACIONAL não tenho como votar num candidato presidencial que simplesmente se mostrou omisso diante da maior catástrofe cultural da história de nosso país.

Como TRABALHADOR, não há como apoiar gente que fala levianamente em extinguir meus direitos.

Como suado CONTRIBUINTE, não consigo eleger alguém que publicamente se afirma sonegador de impostos e ainda recomenda a terceiros que sigam seu exemplo.

Como CRISTÃO, não aceito votar num candidato que deturpa a mensagem cristã e tenta usar a sublime figura de Jesus como se fosse reles cabo eleitoral para angariar votos.

Como ESPÍRITA, sou minoria, não posso me fazer de surdo e votar em alguém que diz que devo me curvar ou "desaparecer".

Finalmente, como DEMOCRATA CONVICTO, não posso votar num candidato que passou as três últimas décadas espezinhando as instituições e valores democráticos de nosso país.

Não, simplesmente não posso. Tal voto seria uma aviltante afronta contra todas as dimensões de minha pessoa.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

2 pratos, 1 escolha

Há dois pratos na mesa. Ambos são desagradáveis, produzidos por péssimos cozinheiros. Um deles, todavia, está envenenado. Não tenho dúvidas: prefiro o prato ruim, mas que não tem veneno... Da mesma forma, prefiro o candidato ruim que não defende a tortura ao candidato ruim que quer tirar meu 13º. Entre dois males, prefiro sempre o menor. Preferia Marina ou Ciro, mas terei que ir de Haddad, por mais que isso me desagrade.

P.S.: Recomendo a leitura de mais um excelente texto de Eliane Brum, desta vez sobre nosso segundo turno e o que ainda vem pela frente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Adultos e crianças

O antônimo de "infantil" não é "adulto", mas sim "pueril". Nada mais "pueril" que a necessidade de se afirmar como "adulto". E há quem perca a vida inteira nessa puerilidade... Como diria talvez Lévi-Strauss, certo vigor infantil, uma potência imaginativa quase primeva, é imprescindível para ser um adulto plenamente pensante.

sábado, 6 de outubro de 2018

Abaixo do Equador

Lula é um santo-do-pau-oco. 
Bolsonaro é um Bezerro de Ouro. 
"Não existe pecado abaixo do Equador".

O gato ou o Ciro?

Ciro tem um monte de defeitos. No entanto, estamos votando para presidente, não canonizando um santo. Um presidente imperfeito, mas uma alternativa viável para superar a presente crise política, econômica e social de nosso país. E, como se sabe, "quem não tem cão, caça com gato".

Votar e vigiar

Cada um vote em quem quiser amanhã. O mais importante é que todos estejamos juntos para cobrar - e muito - de quem for eleito. Para 1 dia de eleição são necessários 4 anos de vigilância.

Idealismo e eleições

Tenho muitas ressalvas quanto a Ciro. Mesmo assim, voto nele por um ideal muito maior que Ciro ou qualquer partido: a DEMOCRACIA. Voto em Ciro pois ele é a única alternativa viável às duas forças antagônicas e complementares que atualmente ameaçam e corroem nossa Democracia: o fanatismo petista e o fanatismo antipetista, representados por Haddad e Bolsonaro. Ciro é o imperfeito instrumento de que dispomos para preservar o ideal democrático. Que seja.

Pessoas fascinantes e sofridas

-Oi, amigo, você gosta de piada? - me perguntou um morador de rua, quando eu passava.

Tenho costume de falar com moradores de rua, quando não me parecem perigosos. A pergunta era tão atípica que achei que tinha ouvido mal:

-O que o senhor disse?
-Perguntei se você gosta de piada.
-Sim, gosto.
-Então escolhe aí um livro e leva, de presente, tô te dando.

No banco, ao lado, havia uma pilha de surrados livros de piadas. Como recusar presente é desfeita, escolhi um livro do "Casseta & Planeta".

Conversando, ele contou que é técnico em enfermagem formado, mas o desemprego prolongado o forçou a morar na rua. Hoje ele é catador de lixo. Me disse que sempre adorou ler, e guarda todos os livros que encontra pelo lixo. Ao seu lado, havia um grande saco de plástico bem grosso e uma pasta "de carteiro", ambos repletos de livros. Explicou que quando sua biblioteca fica pesada demais para transportar em seu nomadismo urbano ele oferece alguns de presente aos passantes.

Nas horas de tristeza lê a Bíblia ou então livros de humor, para dar boas gargalhadas. Me contou uma piada que lera na véspera. Rimos juntos.

Ao me despedir, rogou que não jogasse o livro fora, que o guardasse como lembrança: "pra quando você pegar esse livro, dizer: 'ih, foi aquele neguinho que me deu esse livro'".

Nos despedimos com um aperto de mão. Virando a esquina, derramei lágrimas de gratidão ao universo por esse inusitado e tocante encontro.

Esse mundo está cheio de gente fascinante e sofrida - que Deus o abençoe!


A cartada petista

A nova cartada da militância petista é dizer que virar voto do Haddad pro Ciro é "divisivo" e elegerá Bolsonaro no 1º turno. Ora, bolas, para vencer no 1º turno, Bolsonaro precisaria ter garantidos pelo menos metade dos votos. Se assim for, tanto faz votar 12 ou 13. Conquanto migrem entre outros candidatos, os votos não elegem Bolsonaro no 1º turno. 

O que está realmente em jogo é o medo do PT não ir para o segundo turno. 

É o mesmo jogo sujo que eles fizeram contra a Marina em 2014, investindo no medo e na polarização contra o PSDB. Repito: votar no Haddad agora é entregar o 2o turno à paixão antipetista e uma vitória tranquila a Bolsonaro. Ainda em 2016 vimos a força do antipetismo nas eleições municipais. O próprio Haddad foi atingido por esse fenômeno em São Paulo. Não nos deixemos fazer mais uma vez reféns da retórica petista do medo. 

É triste ver agora o PT fazendo o papel de Regina Duarte...

Antes que vire crime

Um amigo mais velho que eu, cujo pai foi preso na Ditadura por escrever o que pensava, me contou que mal tem dormido nas últimas noites, com pesadelos sobre suas memórias do pai encarcerado. 

Triste demais. Escrevo isso com lágrimas nos olhos. 

Me lembra também uma outra história, sobre um amigo de minha mãe, que era militar: dizia ele que um dos momentos mais tristes de sua vida foi quando teve de conduzir Ziraldo para prestar depoimento. O cartunista, culpado do grave crime de desenhar, atendeu a porta de pijama. Dizia ele que diante do cartunista vulnerável, inofensivo, desarmado, se sentiu um lixo. 

Escreva, desenhe, pense. Enquanto pode. Antes que volte a ser crime.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

"O problema é que o pessoal que veio colonizar o Brasil era envolvido com política".
Ouvi por aí...

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Acabei de ver uma pessoa citando GANDHI para justificar voto em Bolsonaro. Gandhi! Devo estar com alucinações. Vou dormir.

"Eu sou fascista"

"Meu nome é Adam Susan. Eu sou o líder.

Líder dos perdidos. Governante das ruínas.

Eu sou um homem como qualquer outro.

Eu conduzo o país que amo para fora da desolação do século vinte. Acredito na sobrevivência. No destino da raça nórdica. Eu acredito no fascismo.

Oh, sim. Eu sou fascista. O que é fascismo? Uma palavra. Um termo cujo significado se perdeu no resmungo dos fracos e traidores.

Os romanos inventaram o fascismo. Um feixe de gravetos era seu símbolo.

Um graveto sozinho podia ser partido. O feixe resistiria. Fascismo... Força da União.

Eu acredito na força. Eu acredito na união.

E se a força, a união de propósitos, exige uniformidade de pensamentos, palavras e feitos, que assim seja.

Eu não ouvirei súplicas por liberdade. Sou surdo aos apelos por direitos civis. Eles são luxos. Eu não acredito em luxos.

A guerra escorraçou os luxos. A guerra escorraçou a liberdade.

A única liberdade que resta ao povo é passar fome. A liberdade de morrer... de viver num mundo caótico.

Devo conceder a eles tal liberdade?

Creio que não.

Reservo a mim a liberdade que nego aos outros? Não. Eu me restrinjo à minha cela e sou apenas um servo. Eu, que sou mestre de tudo que posso ver.

Eu vejo a desolação. Contemplo as cinzas. Possuo tanto e tenho tão pouco.

Eu não sou amado, nem de corpo nem de alma. Jamais conheci o murmúrio da ternura. Nunca senti a paz que reside por entre as coxas de uma mulher.

Mas eu sou respeitado. Sou temido. E isso é o bastante..."

Monólogo mental do personagem Adam Susan, da ficção distópica V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd - originalmente publicada em 1981, no Reino Unido, mas sinistramente atual...


Eis que um aluno me entrega um trabalho com diversas cópias toscas da minha rubrica feitas na margem, a lápis. Temos um falsário em formação?