quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sabedoria política

Tenho trabalhado com uma fonte muito interessante, a Memória político-econômica sobre o Maranhão, escrita por volta de 1798 por Joaquim José Sabino de Rezende Faria e Silva, bacharel que exercera o cargo de Secretário do Governo da Capitania do Maranhão e Grão-Pará.

O texto era endereçado à coroa portuguesa e, obviamente, apresenta muitos pontos de vista pertinentes à época. Não obstante, apresenta muitas noções interessantes e que, até hoje, poderiam ser ouvidas com proveito - ficaria muito contente que nossos atuais governantes seguissem essas ideias. Selecionei alguns trechos para partilhar aqui:

"O cuidado da conservação humana merecer ser o primeiro cuidado de quem governa os homens".

"O padecer da humanidade é sempre horrível aos olhos do homem. E quem, pelo estro político, se esquece do ser humano, tão longe está de merecer glória, que lhe deve ser riscado o seu [sic] nome na memória do mesmo homem".

"Assim como o ator somente alcança apupadas do espectador quando se não domina do papel que representa, assim o homem público atrai a si o desprezo e o ódio dos povos, quando, no teatro civil, em vez de desempenhar o seu cargo, obra somente ações de homem particular, em tudo diferentíssimas, e, talvez, contrárias aos representantes deveres".

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Confissão

Tenho alergia a relativismos incapazes de relativizarem a si mesmos. Pode existir frase mais paradoxal que "tudo é relativo"? Afinal de contas, nesse caso, a frase deveria ser reescrita com maior clareza: "tudo é relativo, menos essa própria afirmação". No fundo, me parece que todo relativista radical é apenas um pequeno totalitarista ranzinza (embora aparentemente bem humorado), incapaz de dialogar e pôr em jogo seu próprio eu; enfim, uma triste antítese secreta de tudo aquilo que alardeia na fachada...

terça-feira, 23 de julho de 2013

Receita para uma saborosa democracia

Ingredientes:
-Generosas porções de educação pública e gratuita de primeira qualidade em todos os níveis;
-Fartas doses de liberdade de expressão;
-Uma intelectualidade criativa e participativa;
-Centenas de dúzias de organizações civis independentes e atuantes;
-Milhões de cidadãos críticos, conscientes e vigilantes;
-Um governo transparente e aberto à participação dos cidadãos, previamente temperado com muita laicidade;
-Tolerância, compreensão, respeito à opinião alheia, empatia, fraternidade e amor ao próximo a gosto (quanto mais, melhor);

Modo de preparo:
Misturar todos os ingredientes numa grande panela. Cozinhar com muita paciência durante décadas, em forno brando. Periodicamente elevar a temperatura até levantar fervura, para apurar o sabor.

Rendimento:
Alimenta um país inteiro.

Observações importantes:
-A educação pública de qualidade é o ingrediente mais importante; com ela, todo o resto fica melhor;
-Atenção ao preparar a liberdade de expressão; deve ser pulverizada de modo adequado, evitando a concentração de oligopólios ou monopólios midiáticos;
-Um pouco de fervura é importante para o prato, mas o excesso de ebulição pode deixar um sabor amargo;
-São necessários muitos cidadãos para vigiar a receita, tomando cuidado com o oportunismo de cozinheiros manipuladores...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Cães, lobos e homens - Histórias entrelaçadas

Extratos de Os cães sonham?, de Stanley Coren

"Existem mais lobos do que cães?

Atualmente o planeta Terra é dominado por seres humanos. Para que uma espécie animal sobreviva, precisa não apenas se reproduzir com êxito, mas se relacionar e talvez conquistar a proteção dos seres humanos. Considerando esse fato, a resposta para a pergunta acima é óbvia.

É difícil imaginar que em algum momento os lobos já tenham sido os mamíferos mais populosos do planeta. Eles podiam ser encontrados nos ambientes mais extremos, do calor do deserto à tundra gelada do Ártico. Eram numerosos nas savanas e nas pradarias, assim como nas selvas e florestas. No entanto, como lobos e humanos competiam pelo mesmo tipo de comida - carne -, e os lobos viam os animais domésticos como alvo legítimo, os seres humanos tomaram medidas contra os lobos; nos últimos quinhentos anos, as populações de lobos foram massivamente reduzidas. Há mais de quatrocentos anos os lobos desapareceram das Ilhas Britânicas, e muitas áreas da Europa Ocidental estão sem lobos há vários séculos. Avalia-se que a população total de lobos na França, Alemanha e Itália seja inferior a quinhentos indivíduos.

Além da pressão exercida pelos humanos, o padrão de reprodução típica dos lobos contribui para manter os números baixos. Na matilha de lobos, o acasalamento geralmente ocorre apenas entre os líderes - o macho e as fêmeas alfas. Eles se reproduzem apenas uma vez por ano, e a fêmea raramente tem a primeira ninhada antes dos dois ou três anos de idade. O tamanho médio da ninhada é de quatro a seis filhotes. A taxa de mortalidade entre esses filhotes gira em torno de 50%, o que significa que todo ano cada matilha tem mais dois ou três novos membros, ficando muito pouco acima do necessário para substituir aqueles que morrem.

As consequências são inevitáveis. Mesmo que juntássemos todas as espécies de lobos de todos os países do mundo, teríamos cerca de 400 mil indivíduos, enquanto o número de cães chega a 525 milhões. Em outras palavras, para cada lobo vivo atualmente, há mais de 1300 cães vivendo no mundo.

[...]

Por que existem tantos cães no mundo?

Quando Charles Darwin falou a respeito da sobrevivência do mais apto, não estava se referindo às espécies maiores e mais fortes. Estava falando da sobrevivência das espécies mais bem-sucedidas na reprodução e sobrevivência de seus descendentes para se reproduzirem. Ele diria que a medida do sucesso de uma espécie é a quantidade de indivíduos vivos e capazes de se reproduzir. Para alcançar esse sucesso, os indivíduos precisam 'adaptar-se' ao seu ambiente.

O ambiente em que vivem os cães é o mesmo em que vivem os humanos. Por isso os cães têm êxito como espécie, pois se encaixam bem nosso nicho. Os cães se saíram muito bem na tarefa de adaptar-se. Eles se adequaram tão bem às nossas vidas que nós os alimentamos, cuidamos deles e nos preocupamos tanto com sua saúde e cuidados médicos que vivem vidas longas e muitos deles têm a oportunidade de se reproduzir. Além disso, os cães não têm predadores naturais (embora os carros e caminhões possam desempenhar esse papel nas regiões em que os cães podem correr livremente).

Como a procriação e a reprodução são as medidas do sucesso, é interessante observar que, como um subproduto da nossa domesticação dos cães, nós mudamos seus padrões de procriação de maneira decisiva. Entre os caninos selvagens, como os lobos, as fêmeas entram no cio (quer dizer, ovulam e se tornam férteis) apenas uma vez por ano. Com exceção de algumas raças mais primitivas (como o basenji), os cães entram no cio duas vezes por ano, o que lhes permite produzir o dobro de descendentes em relação aos seus primos selvagens.

Agora está montado o cenário para explicarmos porque a população de cães é tão grande. Começaremos pelo fato de que a fêmea pode ter sua primeira ninhada com apenas cinco a dezoito meses de idade (dependendo da raça). Demora 58 a 65 dias para dar à luz os filhotes. O número de filhotes em uma ninhada varia de acordo com a raça e o tamanho da cadela, mas a média geral fica em torno de seis a dez filhotes. A maioria das fêmeas pode ter duas ninhadas por ano. Se a metade for formada por fêmeas, elas também poderão ter filhotes quando estiverem com cinco a dezoito meses de idade. Faça as contas e você descobrirá que uma fêmea e seus filhotes podem produzir 4372 filhotes em sete anos! Os machos não têm sequer a limitação das duas ninhadas por ano, pois podem procriar sempre que encontram uma cadela no cio.

O lado negativo de tudo isso é que os cães estão tendo êxito demais e em alguns lugares sofrem com a superpopulação. A maioria das pessoas não parece entender o tamanho desse problema. Nos Estados Unidos, por exemplo, entre 4 a 6 milhões de cães estão sendo sacrificados todos os anos simplesmente por falta de pessoas para adotá-los e de espaço em abrigos para animais. Por isso, os seres humanos devem se tornar agentes da seleção natural para manter as populações de cães sob controle".

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Peps, Fips e Wagner

Extrato de Os cães sonham?, de Stanley Coren

"Richard Wilhelm Wagner, mais conhecido como o compositor das quatro óperas que compõem O anel do Nibelungo, valorizava bastante o gosto musical dos cães. Em seu estúdio havia um banco especial para Peps, seu cavalier King Charles spaniel. Enquanto compunha, Wagner tocava piano ou cantava passagens nas quais estava trabalhando. O compositor ficava de olho no cão e modificava frases musicais de acordo com sua reação. Wagner reparou que Peps reagia de modo diferenciado às melodias, de acordo com os tons musicais. Certas passagens em um tom poderiam provocar um suave balanço da cauda, enquanto passagens em outros tons poderiam causar uma reação agitada. Esse fenômeno semeou na mente de Wagner o germe da ideia que o levaria a adotar o "motivo musical" [leitmotiv].

Os motivos associam tons musicais específicos a determinadas emoções ou estados de espírito no drama operístico. Na ópera Tannhäuser, por exemplo, o tom do mi bemol maior está ligado ao conceito de amor sagrado e salvação, enquanto o mi maior está ligado à notação de amor sensual e devassidão. Em todas as suas óperas posteriores, Wagner fez uso de motivos musicais para identificar personagens importantes e outros aspectos do drama. Quando Peps morreu, Wagner ficou arrasado e teve dificuldade para se concentrar na composição até conseguir outro cão da mesma raça. Fips logo ocupou seu lugar em um banquinho especialmente estofado próximo do piano de Wagner, de onde podia colaborar com seu conhecimento musical e crítico sempre que necessário".

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sexualidades ibéricas

Extrato de O espelho enterrado, de Carlos Fuentes

"A pretensão de ser algo distinto parece ser uma das marcas das sociedades urbanas barrocas, divididas entre ricos e pobres, ordens eclesiásticas em disputa, namoros apaixonados e rejeições igualmente apaixonadas do sexo e do corpo. Ao que parece, coexistiram na época colonial um estrito puritanismo e uma explosão de libertinagem. Roland Barthes escreveu que o sadismo prevalece sobretudo nas regiões subdesenvolvidas. A crueldade sexual pode exercer-se facilmente em sociedades de estritas delimitações sociais, em que o parceiro sexual pode ser facilmente recrutado (nas legiões de criados), o objeto de prazer facilmente desprezado, e a impunidade desfrutada, ainda que praticamente em lugares escondidos. As cidades da América colonial espanhola possuíram todos esses atributos, a que se acrescentou a dimensão - de impunidade e esconderijo - do mundo religioso, de conventos e mosteiros.

O escritor mexicano Fernando Benítez, num livro delicioso chamado Los demonios en el convento, relata muitas das 'alucinantes ficções' que deram às sociedades da América Latina, junto com as suas práticas libertinas, o correspondente erotismo repressivo. O arcebispo do México nos tempos de sóror Juana, Aguiar y Seixas, tinha tamanho ódio às mulheres que não as permitia em sua presença e, se acidentalmente defrontava uma, logo cobria o rosto com as mãos. Seu horror à água (outra fobia hispânica e católica) era igualmente cáustico e, em sua fúria, havia ainda o fato de que caminhava ajudado por muletas, e as usava com violência, como o ficou sabendo o poeta Carlos de Sigüenza y Góngora, amigo e protetor de sóror Juana, quando o arcebispo lhe quebrou os óculos e lhe cortou o rosto no meio de uma contenda teológica. Aguiar y Seixas também conseguiu reprimir as brigas de galo, o jogo, os romances e, obviamente, sempre que possível, as mulheres.

Numa época dominada por prelado tão implacável, responsável pelo aniquilamento de sóror Juana, outros puritanos, inferiores ao arcebispo, mas igualmente zelosos, atuaram com presteza. Um certo padre Barcia, ao redor do final do século XVII, decidiu reunir todas as mulheres da cidade do México e encerrá-las no convento de Belém, onde jamais seriam vistas por nenhum homem. Certamente, o padre Barcia logrou apenas reunir um grande número de prostitutas, atrizes e artistas de circo. Tão logo, porém, pôde trancá-las no convento, os amantes dessas mulheres tentaram libertá-las e matar Barcia. Sitiaram o local, e quando as mulheres se rebelaram, dizendo ao bom padre que, se era aquele o céu, bem preferiam o inferno, Barcia enlouqueceu e tentou suicidar-se mediante a introdução, no reto, de supositórios de água benta.

Num tempo assinalado pela tríplice tensão do sexo proibido, do ideal de esposar Cristo e ideal da maternidade virginal, muitas freiras mexicanas, horrorizadas com seus próprios corpos, vedavam-se os olhos, transmitindo assim o seu desejo de serem cegas e surdas; lamberam o piso de suas celas até formar uma cruz com a saliva; foram açoitadas por suas próprias criadas; e se lambuzaram com o sangue dos seus próprios mênstruos. Paralelamente, os monges e sacerdotes, diz Benítez, também teriam sido chicoteados e golpeados como são Juan de la Cruz, pois viam nisso uma compensação pelos sofrimentos de Cristo no calvário".

sábado, 6 de julho de 2013

"Não há tormento maior do que ser cego em Granada"

Texto de Carlos Fuentes em O espelho enterrado



"Ao se iniciar o declínio do poder árabe na Espanha, depois da derrota de Navas de Tolosa em 1212, e depois da queda de Sevilha ante o ataque de Fernando III de Sevilha - são Fernando - em 1247, apenas uma terceira grande cidade sobreviveu para conservar esta herança: Granada. Foi este o reino final, que presidiu o crepúsculo da Espanha árabe, entre 1248 e 1492. Mas quando, hoje, nos aproximamos da cidade, devemos imaginar que um dia, ali, não houve nada além do vale, do rio e das montanhas da Serra Nevada. Ali encontraram repouso os povos errantes do deserto, e ali decidiram construir um jardim cuja beleza não pudesse comparar-se com nada deste mundo. É como se houvessem ouvido a voz de Deus, lhes ordenando: construí aqui, à luz das tochas, um palácio, e chamai-o Alhambra, que significa 'a cidadela vermelha'.






Talvez somente um povo que houvesse conhecido a sede do deserto pudesse ter inventado esse extraordinário oásis de água e sombra: uma sucessão de portas e torres, salas e pátios conferem à Alhambra um sentido tanto de recolhimento como de recreio, como se todos os prazeres do mundo pudessem estar ali representados, ao alcance da mão. Rodeada por um cinturão de muralhas - muro da Justiça, muro do Vinho - e vigiada pelas torres da Cativa e da Homenagem, de Comares e de Alcazaba, a Alhambra é um labirinto de nobres aposentos, onde até as sombras são douradas. A sala de audiências do Mexuar, com seu desenho de azulejos que parece seguir a assombrosa regularidade, harmonia e surpresa de uma fuga de Bach; o sentido íntimo alcançado pelo luxo na graça da alcova das duas irmãs; a perspectiva cinzelada do salão dos embaixadores; a sensação de estar preso num cárcere doce como um favo de mel, de onde ninguém quereria fugir - ali há tanto um harém como um serralho - subitamente se defrontam com sua própria essência num dos poemas escritos nos arcos do mirante, o belvedere que dá para os jardins do palácio: "Creio que a lua cheia tem aqui seu lar..."











Finalmente, chega-se à conclusão de que esta rede de filigrana, estuque, favos dourados, azulejos e inacreditáveis perspectivas  tem somente um propósito, que é o de proteger a água, capturar um sorvo de líquido na palma da mão, rodear o elemento da vida com uma defesa acariciante, protetora e, no entanto, aberta. Os pátios incomparáveis da Alhambra são como templos da água: as esbeltas colunas do pátio de murtas são tão protetoras quanto os 12 leões que circulam nele; mas, durante o dia, e mesmo de noite, chega-se a compreender que é a fusão e a coexistência constante de todas as gradações do tempo e da natureza - luz, sombra, ar, terra, sol, lua - o que realmente protege o coração da Alhambra: seus lagos, suas fontes, seus desaguadouros.










Não apenas a água murmura nos jardins da Alhambra. Uma vez que o Corão desaprova a representação do corpo humano, a Alhambra se converteu num edifício escrito, um corpo revestido de literatura, contando suas histórias e recitando seus poemas conforme as inscrições de suas paredes. Uma espécie de grafite celestial, em que a voz de Deus volta a ser líquida e onde os prazeres da arte, da inteligência e do amor podem ser desfrutados. Não é de admirar que um poema do escritor mexicano Francisco de Icaza haja penetrado no mundo anônimo dos provérbios que descrevem esta cidade: 'Não há tormento maior do que ser cego em Granada'".