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sábado, 31 de agosto de 2013

Impressões sobre a Bienal do Livro

1) Minha casa fica menor a cada Bienal...

2) Tenho achado cada Bienal mais fraca que a anterior. A quantidade de editoras com estande diminui sempre mais. Também achei o movimento de público muito reduzido, comparado a outros anos.

3) Me impressionou a quantidade imensa de estandes de editoras religiosas, dos mais variados credos. No terceiro pavilhão, eram esmagadora maioria. Não acho isso muito positivo...

4) Achei curioso o significativo aumento das obras de referencial marxista expostas nessa Bienal. É interessante perceber que no atual contexto mundial, na falta de alternativas novas, muita gente vem buscando orientação em antigas referências. Mesmo não sendo marxista e recusando o rótulo de "esquerdista", acho muito positivo.

5) Paralelamente à impressão anterior, é igualmente interessante observar o quanto as críticas à "economia ortodoxa" vêm ganhando espaço no pensamento econômico desde 2009. Me parece que vêm se fortalecendo ricos e plurais questionamentos entre economistas, oferecendo novas alternativas, no sentido de um saber econômico mais crítico e menos ideológico.

domingo, 25 de agosto de 2013

"Retire a torta!" - Chaves e a greve dos professores

Um pouquinho de bom humor, para aliviar a tensão...

Desde sexta-feira venho me sentindo um pouco como o Chaves no famoso episódio em que Dona Neves promove uma manifestação trabalhista no restaurante de Dona Florinda. Vejamos.

Dona Florinda, assim como Eduardo Paes, Cláudia Costin e companhia, se mostraram irredutíveis desde o começo - mas agora começam a ceder.

Dona Neves equivale à atual direção do SEPE - tenta estabelecer uma parceria com Chaves, mas há muitos ruídos na comunicação.

Nós, professores, somos o Chaves.

Os alunos e a comunidade escolar são o Jaiminho.

Nos encontramos agora diante de um dilema: servimos a torta, ou retiramos a torta? Assim como Chaves, todos nós desejamos profundamente servir a "torta" da Educação de qualidade. Mas que torta? Nesse momento, só temos uma tortinha mixuruca, com massa ruim e recheio podre. Não satisfaz a fome dos nossos alunos. Faz até mal, provoca indigestão.

Por enquanto, nos próximos dias, acho melhor para os "jaiminhos" de nossas escolas, retirar a torta. Se avançarmos em nossas reivindicações, eles e seus filhos terão uma torta MUITO melhor para comer depois...

Por outro lado, precisamos cuidar melhor do diálogo entre a categoria e a direção do SEPE, para evitar o desentendimento e prosseguirmos juntos até o final, ao contrário do que acontece entre Chaves e Dona Neves!

O que não podemos deixar é acabar como o episódio de Chaves, cuja mensagem é conservadora - no fim das contas, não há conquistas do jovem trabalhador, mas concessões patronais "espontâneas" derivadas de uma conscientização da Dona Florinda. Até porque já vimos que não podemos esperar nada nesse sentido...

Por isso, colegas professores, meu grito na segunda-feira será: "Retire a torta"!

Por uma Educação libertadora e humanista

Texto do Prof. Moysés do Carmo

Nós, educadores do Rio de Janeiro e do Brasil, há centenas de anos lutamos por uma educação verdadeira, que tenha como pilar principal o ser Humano. Temos hoje uma educação enganosa, maquiada com números falsos e corrompidos. Os que determinam as regras e metas claramente não se preocupam com as pessoas que na e da educação vivem.

Há instituições internacionais condicionando o envio de verbas às prefeituras à progressiva privatização dos serviços públicos, afim de garantir a circulação de capitais e transferências crescentes de verbas do público para o privado. Aí está a essência das já conhecidas PPPs (Parcerias Público-Privadas).

Pois bem, sabemos que as instituições privadas funcionam em função do privado, dos lucros e seu acúmulo em poucas mãos. O Estado, que deveria ter o papel de garantir a igualdade entre os cidadãos no acesso aos serviços básicos (saúde, educação, segurança etc.), além de moradia adequada, lazer, trabalho, tem agido em favor daqueles interesses privatistas.

Em se falando da Educação, que é a premissa para a formação de indivíduos autônomos e conscientes de seu papel perante o conjunto social, não podemos aceitar que a ideologia da competição capitalista seja usada para tais fins, pois coloca o indivíduo em primeiro lugar, afetando a coletividade; e comprometendo a coesão social, principalmente nas classes oprimidas, as quais necessitam se organizar e vir a conquistar melhores condições de vida, livres das atuais formas de dominação exercidas pelas elites políticas e econômicas.

Nas escolas públicas percebemos que os alunos são tratados como presos. São encaixotados aos montes em salas monótonas, sendo impedidos muitas vezes de fazer suas necessidades básicas quando precisam, pois assim fazendo “causarão problemas na escola”. A falta de profissionais hoje nas escolas explica em parte tal comportamento repressivo. Não tendo alguém para vigiá-lo, não é permitido que esse aluno transite pelos corredores.

Estando os alunos depositados em massa pelas escolas, ficam o professor e os demais funcionários acuados, reprimidos pela grande massa. Seu trabalho não se desenvolve, suas horas dentro daquele recinto vão se tornando momentos de tortura. Os gritos, o agito natural dos jovens, presos num ambiente que em nada permite o dispêndio de energia e a criatividade, passam a afetar a saúde dos funcionários, que se frustram cada vez mais.

E desta forma tais alunos vão se formando sem ter realmente acesso ao conhecimento (teórico e prático) de que necessitam para viver em sociedade. Vemos o individualismo nas atitudes e pensamentos, a falta de preparo para o mercado de trabalho, sendo mão-de-obra barata; apenas alguns conseguem vaga em cursos técnicos ou alguma posição um pouco melhor. Mas a grande maioria segue escravizada pelo trabalho precário ou informal. A cada ano, vão em massa às filas de empregos que tomarão todo o seu dia e energia, impossibilitando que continuem buscando conhecimento ou participem de maneira efetiva da cultura e demais obras humanas.

Sendo esses grandes problemas inconcebíveis para a Educação, nós profissionais deste “setor” temos o compromisso pedagógico e político com a mudança radical dessas condições. Vivemos um momento de uma generalizada tomada de consciência social e de classe. Temos a internet a nosso favor. Tudo agora mostra suas diversas faces. A ditadura da televisão passa a ser quebrada. Sabemos dos nossos direitos e da legitimidade do nosso movimento. Talvez o mais legítimo de todos. Falamos aqui da Educação. Educação!

A greve continua! À vitória!

Sobre acasos, escolhas e greves...

Belo texto da Prof.ª Thalita Maia. Uma nota de esperança nas horas que antecedem a assembleia de segunda-feira...

Sobre acasos, escolhas, greves, insonias e mais outras coisas que me vierem à cabeça enquanto escrevo...

Em menos de três décadas de vida aprendi, na porrada, que nem sempre as coisas saem como a gente quer, por maior que seja o esforço. Aprendi, de forma igualmente dolorosa, a aceitar que frustração e derrota não são sinônimos. Aprendi também a esperar, a recuar quando necessário e aceitei a ideia de que 'o tempo é o senhor da razão', embora nesse caso o clichê seja inevitável. Enquanto eu aprendia, a vida corria, e me proporcionava experiências únicas, colocava em meu caminho pessoas definitivamente especiais e que exerceram e exercem uma importância imensa naquilo que sou, como pessoa e também como profissional.

Vida profissional: escolha polêmica, esta que fiz. Escolhi, graças a uma bela dose de acaso, trabalhar na Educação, talvez por ter minha mãe como espelho, mas também por acreditar que de alguma forma eu transformaria a sociedade e o mundo em que vivo... Sonhadora? Fato que sim! Idealista? Sempre. O destino, depois de eu ter até me esquecido dele, me permitiu colocar isso em prática lá pelas bandas de Quintino... Mais que isso, quis a vida me mostrar nas últimas semanas que minha escolha pela área de educação, feita de forma temerosa há menos de 10 ano atrás - e que a escolha daquele bairro da Zona Norte, feita quase que num jogo de azar - têm de verdade o poder de transformar. Ter a oportunidade de dividir com meus colegas de trabalho angústias, desejos e objetivos comuns me fez novamente acreditar que eu, PROFESSORA, posso SIM mudar o mundo; vivenciar a experiência de lutar por algo em que se acredita ao lado de determinadas 20 mil pessoas foi, sem dúvida, um dos maiores momentos da minha vida!

Memorável está sendo nossa luta, embora as conquistas ainda pareçam pequenas. Memoráveis foram as últimas duas semanas. Memóravel viver a dor e a delícia de ser (e resistir) um educador. Memorável dividir isso com pessoas como vocês. Obrigada, gente!

"Tudo isso é uma questão de saber
Saber viver
Tudo isso é uma questão de amar
Pra entender
Tudo isso é uma questão de querer
Reconhecer
Que quem sabe tudo
nada há de ser, nesse compasso
Há espaço pra quem quiser viver

Muito obrigado
Muito obrigado
Muito obrigado
Por tudo o que eu tenho passado"

Continuar a greve - riscos e oportunidades

Creio que não devemos parar a greve na segunda-feira. Esboço abaixo uma breve análise do que está em jogo caso aceitemos o (pré) acordo firmado na sexta-feira.

O que ganhamos efetivamente: nada de concreto.

O que perdemos até agora: nada.

O que arriscamos perder futuramente: alguns dias de salário. É tão trágico assim?

Qual é nosso trunfo: os dias que já ficamos (e ficaremos) parados. A SME precisa fechar os 200 dias letivos e sabe que não conseguirá cortando o ponto!

Reitero: não houve vitória. Estamos tão desmoralizados a ponto de achar que o prefeito fazer o MÍNIMO, negociar conosco, já é uma vitória?

Acabar a greve na segunda não é vitória. É derrota, e dos piores tipos: rendição sem luta.

Ninguém nos feriu ainda, e já vamos nos render? Não sacrificamos efetivamente NADA, e já vamos nos render? Nosso medo é tão grande assim?! Nosso egoísmo é tão grande assim?! Nossos ideias são tão superficiais?! Espero que não!

Não há verdadeira vitória sem verdadeiros sacrifícios, sem verdadeiras ansiedades e sem verdadeira coragem.

Como inspiração, esses trechos do filme Gandhi, retratando bastante fielmente a corajosa luta dos indianos por igualdade perante a lei na África do Sul...

sábado, 24 de agosto de 2013

8% e só?

Texto da Prof.ª Isabelle Vieira

Sobre a Greve dos Profissionais da Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro

O Prefeito finalmente negociou: ofereceu 8% e uma promessa de plano de cargos e salários daqui a 30 dias! Isso é um grande avanço! A categoria comemorou e está cogitando terminar a greve na segunda-feira. 


Eu não gosto da greve, preferia estar trabalhando em sala: cansa muito mais participar dos atos.

Mas 8% e só?
Minha greve não é por salário! É por condições de trabalho! Mas todas as questões pedagógicas foram deixadas de lado, talvez porque, para o SEPE e o Prefeito a questão salarial seja mais simples de resolver do que uma série de problemas pedagógicos criados pelas políticas em vigor. Talvez, para a Cláudia Costin - que não é pedagoga, mas administradora - seja mais fácil falar em dinheiro do que em educação. Pra nós, que estamos em sala de aula, a questão salarial é a menos grave.
É claro que seria ideal que ganhássemos um bom salário para estarmos menos tempo em sala e em apenas uma escola - que tivesse estrutura física, tecnologia, valorização moral, funcionários suficientes, com funções claras e tempo de descanso e de aperfeiçoamento suficientes. Para isso teria que ser revisto todo o sistema educacional que permite que o professor se divida em várias escolas para conseguir um salário razoável, e é claro que para isso teríamos que rever as leis e o salário base, a quantidade de investimentos, concursos, e todo o resto. Além disso, seria demandado um enorme esforço político, que colocaria a educação nos primeiros lugares em prioridade. E isso seria perfeito!
Nós, professores, sabemos que ainda não temos maturidade política para pressionar tanto. Sabemos que os nossos governantes ainda não estão tão interessados em fazer tanto. Sabemos que esse é um caminho muito longo e árduo. Sabemos que isso será fruto de uma mobilização permanente e que não podemos ficar em greve até que a educação seja, de fato, perfeita.
Mas a greve está aí! Estamos parados para exigir que, mesmo que com a consciência da imperfeição, acreditamos que, mesmo com a estrutura que temos, a educação pode melhorar e muito, com medidas simples e alcançáveis.

- Tentamos negociar com o prefeito, um aumento razoável, que talvez fizesse alguns professores pensarem em abandonar outras escolas (quem já é de 40hs, por exemplo, porque não?).

- Tentamos negociar com o prefeito que houvesse um plano de cargos, com progressão por tempo de serviço e capacitação, para que os professores experientes e capacitados, com especialização, mestrado e doutorado, não abandonassem a carreira e, pelo contrário, pudessem se dedicar a fazer da escola o lugar de ensino e pesquisa que tanto sonhamos.

- Tentamos negociar maiores investimentos rápidos em infraestrutura básica, como a climatização, por exemplo, porque em algumas escolas o calor é insuportável, a instalação elétrica está precária, os espaços para educação física são inapropriados, faltam carteiras ou as mesmas que já temos estão danificadas. Bebedouros e banheiros não têm manutenção, porque a verba enviada é insuficiente e burocratizada.

- Tentamos negociar a desburocratização e a maior autonomia das escolas, para que setores como direção e coordenação pedagógica tenham mais liberdade e disponibilidade para agir no que é mais importante para a escola: a educação.

- Tentamos negociar o cumprimento da lei que diz que o professor deve ter 1/3 da carga horária voltada para planejamento e estudos, para que tenhamos mais tempo para preparar nossas aulas e nos aperfeiçoarmos.

- Tentamos negociar para que o Prefeito se esforce em construir novas escolas ou que torne adequadas as já existentes, para que as salas fiquem menos lotadas, porque entendemos que um professor para 40 alunos é uma proporção inviável e absurda.

- Tentamos negociar que projetos como o “Autonomia Carioca” sejam repensados, pois colocam um professor formado em uma disciplina para lecionar todas e muitas vezes sem nenhuma capacitação ou instrução por parte da Secretaria de Educação.

- Tentamos negociar que a verba desviada para a manutenção desses projetos junto a fundações, instituições e empresas como a Fundação Roberto Marinho, o Instituto Ayrton Sena, a Cultura Inglesa e muitas outras, fossem repassadas diretamente para as escolas, que, com muito menos dinheiro (já que esses convênios são milionários e ineficazes), poderiam fazer muito mais.
- Tentamos negociar que o material enviado pela prefeitura como as apostilas e provas fossem de melhor qualidade, melhor elaborados, ou mesmo que não fossem enviados, uma vez que os professores que estudaram (e estudam) para lecionar (e portanto tem domínio de técnicas de didática e avaliação), podem elaborar seu próprio material com autonomia e de maneira adequada à realidade de cada turma.

- Tentamos negociar o fim do sistema de meritocracia, que pode ser muito bem visto em empresas, mas que é inadequado à realidade escolar por incentivar a competitividade enquanto é consenso que valores como a colaboração sejam mais proveitosos no contexto escolar.

- Tentamos negociar que a avaliação externa não exista ou seja repensada e melhor elaborada, de forma que possa estar de acordo com a realidade escolar e não seja simplesmente para produzir números enganosos sobre a qualidade da educação.

- Tentamos negociar que o sistema avaliativo e de promoção seja repensado, pois o atual é, no fundo, muito semelhante à aprovação automática e é isso que acontece na prática, pois um aluno pode ser promovido mesmo sem ter domínio de conteúdos essenciais como os de Língua Portuguesa e Matemática.

- Tentamos negociar que a Secretária pare de pressionar a direção, a coordenação e os professores para atingir metas de aprovação que não condizem com a realidade das escolas e que tornam o processo de aprendizagem falho.

 Mas o prefeito nos ofereceu 8% de aumento e comemoramos.
Talvez porque no fundo já estejamos emocionalmente cansados por conta das ameaças de corte de ponto, da demissão dos profissionais em estágio probatório, das contas para pagar sem que tenhamos a certeza de que o salário virá. Talvez estejamos desacreditados de que temos força suficientes para levar essa greve adiante. Talvez porque estejamos acostumados a não conseguir dos governantes tudo aquilo que acreditamos ser necessário.
Mas 8% de reajuste e uma mera promessa de plano de cargos me faz pensar que tudo era mesmo apenas por dinheiro... Aceitar a proposta do Prefeito é vender todas as nossas reivindicações. Aceitar a proposta do Prefeito significa atestar que os professores só estão mesmo preocupados com o próprio bem-estar e não com nossos alunos e com a educação.

Eu não aceito os 8%.
Eu troco meus R$ 115,11 por TODAS as outras reivindicações.

E enquanto o Prefeito Eduardo Paes, a Secretária de Educação Cláudia Costin e o Sindicato dos Profissionais da Educação (SEPE) não entenderem isso, pretendo sim, continuar fora da sala de aula.

Isabelle I. Vieira,
Professora de História

A greve é nossa!

Texto do Prof. Moysés do Carmo
 
Nós entramos nessa greve divulgando a toda a sociedade (inclusive pais dos nossos alunos) que "não é uma greve só por salários. Essa greve é por uma educação pública de qualidade". Essas são as palavras repetidas inúmeras vezes pelos integrantes do SEPE frente às câmeras e nas assembleias.
 
E agora, após uma única reunião com o prefeito (a única em seus dois mandatos), voltam em clima de "vitória", por 8% de aumento, e a redução para um mês para discutir e votar (nada garantido) o plano de carreira.
 
Agora eu pergunto ao sindicato:
 
Não foram colocados na reunião a questão pedagógica; a climatização das salas de aula (o que afeta diretamente a saúde, nossa e de nossos alunos); um mínimo comprometimento com uma progressiva redução da quantidade de alunos por turma (o que igualmente afeta nossa qualidade de vida e do ensino); a questão do 1/3 da carga horária para planejamento (o que já é uma lei federal e não cumprida pelo município - nem estado); novos concursos para funcionários; a questão da meritocracia, etc !? Se foram questões colocadas em discussão, por que não constam na ata?

 Desta forma, entendo que, COM O FIM DA GREVE, QUEM SAIRÁ VITORIOSO É O GOVERNO. Os profissionais da Educação permanecerão por tempo indeterminado com condições desumanas de trabalho, adoecendo periodicamente pela psiquiatria, com as cordas vocais massacradas, enfim, com problemas de saúde sérios. Os alunos, tratados como massa, depositados e acumulados nas salas de aula, em escolas que se parecem com presídios.

 Repudio completamente a posição do SEPE. Sindicato Governista. Se aliou, se rendeu ao autoritarismo e indiferença deste governo com a Educação (e demais serviços públicos). Portanto, IREI À ASSEMBLEIA DEFENDER A CONTINUIDADE DA GREVE, POIS NÃO ENTREI NESSA LUTA EM VÃO. NÃO ME DESGASTEI, CORRI ESCOLAS PARA MOBILIZAR COMPANHEIROS EM VÃO. ABAIXO O PELEGUISMO DO SEPE. NÃO NOS ILUDAMOS ! ESSA LUTA É NOSSA!
 

A greve dos professores não pode parar agora...

...porque os termos do acordo do SEPE com a Prefeitura são muito vagos, deixando brechas para futuras "traquinagens".

...porque o mesmo acordo não menciona precisamente as questões pedagógicas a tratar.

...porque também não estabelece prazos rigorosos a servir de referência para futuras cobranças.

...porque enfatiza apenas questões salariais.

...porque não muda nossas medonhas condições de trabalho.

...porque não beneficia efetivamente os alunos.

...porque não é uma vitória de verdade!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Das trevas, a luz

Belo texto do Prof. Tiago Ribeiro
 
Quero deixar aqui meu relato sobre tudo que está acontecendo graças aos maus tratos da prefeitura. Mas não é um relato que mostra os pontos negativos, já tão conhecidos de todos nós. Escrevo sobre a luz gerada na treva.

O movimento começou brando e aos poucos pudemos, sempre de maneira tranquila e ordeira, contagiar vários outros membros que a princípio mostravam-se desconfiados com a greve. E não nos limitamos a nossa escola. Também nos unimos a outras, tão carentes de atenção e cuidado como a nossa!

 Essa luta vem sendo, antes de tudo, emocionante. De forma criativa, organizamos várias ações que legitimam nossa postura como professores. Pusemos em prática todo o intelecto e tudo que aprendemos na teoria. Percorrendo escolas (encarando direção tirana em uma delas), participando de assembleias, passeatas, divulgando material na internet, conversando com pais e alunos, estamos, sim, marcando a nossa escola como referência positiva. E esse exemplo ficará para o corpo docente, discente e administrativo.

A união alcançada neste momento jamais seria possível em outra ocasião. Mais do que ganhos salariais ou estruturais, conseguimos perceber a nossa força. A amizade aumenta e os laços se apertam. Mas um aperto bom, que aproxima, não o que tenta nos sufocar, como aquele imposto pelo governo.

Fico muito feliz de fazer parte de uma equipe como essa. Obrigado pelos ensinamentos, amigos da Quintino.

4ª carta aberta à Sr.ª Cláudia Costin - Orçamento participativo

Cara Sr.ª Secretária,

inicio essa carta pedindo a gentileza de desculpar algum arroubo de agressividade, sarcasmo ou arrogância em meus textos anteriores ou nos próximos. Não desejo com essas cartas ofender, mas provocar - não há democracia sem provocação (no sentido etimológico do termo). Isto esclarecido, prossigo ao tema da presente missiva.

Como deixei claro até aqui, desejamos maior poder de decisão em nossa rede - poder para professores, funcionários, diretores, alunos, responsáveis e cidadãos em geral. Sem sombra de dúvida, boa parte desse poder passa pela gestão financeira. Parafraseando Bismarck, o dinheiro é o nervo do poder.

Não se trata de questão simples e não tenho a pretensão de esgotá-la aqui. Tampouco pretendo ensinar economia a uma economista. Contudo, ouso esboçar alguns questionamentos e considerações gerais a partir de minha própria experiência, esperando colaborar nesse importante debate. Me parece interessante pensar no problema a partir de duas categorias, o quanto e o como. Comecemos pela questão mais simples.

Quanto investir em educação pública?

A priori podemos estabelecer limites legais inquestionáveis, um máximo e um mínimo. Como limite máximo, temos a legislação de responsabilidade fiscal. Qualquer excesso nesse sentido seria indefensável, podendo comprometer terrivelmente as finanças municipais. Como limite mínimo, temos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que estipula um investimento mínimo de 25% do orçamento municipal para educação.

Ora, 25% me parece muito pouco para Educação, o mais importante investimento público de longo prazo. Aliás, afirmo sem medo de errar: a educação de baixa qualidade (como temos hoje em nossa rede) custa muito caro, comprometendo gravemente as finanças públicas em outros setores, atingindo aos níveis administrativos municipal, estadual e federal. Vejamos alguns exemplos.

Quem educa um jovem, tira um criminoso da rua. Economizamos em Segurança Pública e gastamos menos em nosso já sobrecarregado e ineficiente sistema correcional.

Uma educação sexual competente contribuiria para o controle de natalidade responsável e consciente por parte dos jovens cariocas, reduzindo a insustentável pressão demográfica sobre nossa cidade, com consequências em vários setores, como recursos hídricos e energéticos, mercado imobiliário, abastecimento alimentar, transporte, Saúde, Previdência Social e até - veja só - Educação...

A educação sanitária é essencial, tanto no que tange à propagação de epidemias quanto na propagação de práticas e hábitos preventivos de saúde. Uma população mais saudável, reduziria drasticamente a demanda sobre nosso combalido sistema público de saúde. Quanto não teríamos economizado nos últimos anos se a conscientização para o combate à dengue fosse mais eficiente em nossa cidade? A falta de cidadania é a mãe de muitas epidemias. E somente educação pública de alta qualidade cura essa terrível doença social...

Boa educação também redunda em formação de capital humano de maior qualidade para nossa cidade, melhorando a qualidade de produtos e serviços, aumentando o dinamismo econômico no município e, consequentemente, ampliando o potencial de arrecadação de impostos para benefício da coletividade. Atualmente ocorre o contrário: formamos muitos alunos competentes, mas uma parcela significativa de nossos estudantes chega ao 9º ano sem ler, escrever, somar, subtrair, multiplicar ou dividir com desenvoltura. Quando temos notícias desses jovens, descobrimos tristemente que estão desempregados ou subempregados, sem qualquer perspectiva de ascensão social ou estabilidade financeira. Eles e seus futuros filhos serão mais uma geração de cariocas dependentes de auxílios governamentais para sobreviver, em lugar de encontrar plena autonomia.

Repito: não existe educação mais cara que a educação ruim!

Passemos agora ao ponto nevrálgico: como investir as verbas disponíveis? A questão é essencial, pois a esmagadora maioria dos professores e funcionários da rede não aprova o modo como nosso dinheiro tem sido empregado em sua gestão. Qual o valor de nossa opinião sobre o tema? Imenso, uma vez que vivenciamos o cotidiano escolar "no campo". Sabemos melhor que qualquer um no nível central ou nas CREs do que nossas escolas e nossos alunos necessitam.

O orçamento precisa ser mais flexível. O uso das verbas deveria ser decidido principalmente pela comunidade escolar; cada unidade tem suas necessidades específicas em cada momento - muitas vezes, necessidades prementes. Frequentemente a destinação dos recursos, definida unilateralmente, atende a propósitos supérfluos no contexto daquela unidade, enquanto urgências ficam pendentes. Por exemplo, neste ano minha escola necessitava de reparos em alguns banheiros, mas recebemos uma verba exclusivamente destinada à compra de material didático. Apesar de negociações, nossa CRE se mostrou irredutível. Resultado: dinheiro gasto com material desnecessário, enquanto os tais banheiros continuam impraticáveis. Pior ainda: nossa unidade está com problemas sérios na rede elétrica, que já provocaram dois incêndios de equipamento em sala de aula, mas não há recursos disponíveis para os reparos. Investimento bom é aquele que corresponde às reais necessidades dos usuários dos recursos em questão; só há bom investimento quando há deliberação autônoma.

Outro problema a sanar é assimetria de distribuição dos recursos financeiros entre as diferentes escolas da rede, fruto da tão criticada meritocracia. Algumas unidades recebem o quádruplo das verbas que chegam a outras. A situação é particularmente incômoda porque as escolas que mais recebem são aquelas que já têm os melhores desempenhos, aumentando as discrepâncias da rede. Em minha humilde opinião, os recursos deveriam ser iguais ou, melhor ainda, privilegiar os que mais precisam, reduzindo as assimetrias. Ou não queremos promover a igualdade?

Nesse sentido, talvez fosse útil maior participação dos diretores das escolas no planejamento orçamentário das CREs e do nível central. Por sinal, durante o período em que trabalhei no nível central pude constatar que há ali abundância de material (necessária para o bom funcionamento da rede), mas também grande desperdício. Saliento que não se trata de má-fé, simplesmente de descuido, talvez provocado justamente pela fartura.

Também é necessário falar de uma opinião unânime entre professores: o gasto com projetos e iniciativas questionáveis e muito questionados que nos vêm sendo impostos há alguns anos, como Educopédia, os cadernos de apoio (em cuja elaboração cheguei a trabalhar), Rio Cidade de Leitores (do qual falarei futuramente), Escola 3.0, o programa de aceleração (e o material fornecido pela Fundação Roberto Marinho), entre outros. Sem dúvida nossa rede necessita de projetos abrangentes, mas eles precisam ser concebidos com participação de todos.

Por fim, é importante pensar em outras formas de capital que extrapolem o financeiro. É o caso do capital social, aquele originado na formação de redes de contatos, troca de saberes e experiências. Os fluxos de comunicação em nossa rede, excessivamente centralizados, não favorecem o desenvolvimento do riquíssimo potencial de inteligência coletiva disponível entre nossos profissionais, altamente qualificados.

Peço desculpas pelo texto longo e, provavelmente, enfadonho.

Cordialmente,
Prof. Luiz F. F. Tavares

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Professor não é coitadinho!

Texto da Prof.ª Isabelle Vieira

Não, professor não é coitadinho, não passa fome, não ganha salário mínimo! Eu não estou em greve porque quero que a sociedade sinta pena de mim e da minha classe.

Eu estou em greve para que a sociedade e os atuais governantes saibam que:

- Eu só consigo sustentar a minha casa porque trabalho em 3 escolas, porque o salário de uma não dá.
- Eu trabalho muito mais horas do que qualquer trabalhador assalariado comum, porque minha profissão (e o amor que sinto por ela) exige dedicação em tempo integral.
- Eu não mudo de profissão, porque apesar dos baixos salários eu AMO o que faço.
- Eu tenho direito de reclamar e reivindicar melhorias para a minha classe porque trabalho bem, trabalho muito e mereço, como qualquer outro bom profissional.
- A greve é um direito constitucional, emergencial, garantido à TODOS os trabalhadores.
- Eu acredito que os alunos que tanto amo merecem o que há de melhor.
- Eu acredito que um país que se diz rico tem que ter dinheiro para investir na educação.
- Eu acredito que políticas pedagógicas devem ser elaboradas por educadores, com a sua participação e direção e não por economistas e administradores.
- Eu acredito que só uma educação pública, gratuita, igualitária e de qualidade pode fazer o povo brasileiro crescer em dignidade.

Eu acredito que não estou sozinha.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

3ª carta aberta à Sr.ª Cláudia Costin - As manifestações

Cara Sr.ª Secretária,

peço mil desculpas pela demora em escrever mais uma carta. Nos últimos dias estive muito ocupado, envolvido com as atividades de nossa greve - enfim, cumprindo meus deveres de cidadão e educador consciente, preocupado com o futuro da educação em nossa cidade.

Gostaria de compartilhar com a senhora as alegrias que vivi na última quarta-feira, 14 de agosto. Foi um dos dias mais emocionantes de minha vida. Creio que a senhora ficará satisfeita em ler um relato em primeiro mão.

Nos reunimos para a assembleia no Largo do Machado e seguimos até o Palácio da Cidade, passando por grandes vias da Zona Sul. Éramos milhares: nossos brados subiam aos céus em uníssono! Fechamos a Praia de Botafogo! Foi lindo demais ver tantos educadores unidos e comprometidos em lutar pela melhoria da educação do povo carioca.

Ainda mais belo foi ver a maneira pela qual fomos recebidos pela população. Aplaudidos por famílias debruçadas nas janelas dos prédios, banhados em gloriosa chuva de papel picado! Aclamados por trabalhadores, desde humildes pedreiros aos engravatados profissionais dos prédios empresariais!

Foi lindo ver estudantes de escolas particulares de elite sensibilizados com nossa luta, exibindo adesivos de "Educação em greve". Foi lindo ver comerciantes e comerciários reabrindo as portas de suas lojas em solidariedade. Foi lindo ver o discreto apoio de alguns Policiais Militares e Guardas Municipais em sorrisos, acenos, cumprimentos e apertos de mão.

Foi um momento histórico na trajetória da educação pública em nossa cidade. Como disse uma colega minha, a Prof.ª Thalita Maia, daqui a trinta anos contaremos a nossos filhos que ali estivemos, que em agosto de 2013 milhares de educadores cariocas foram às ruas por uma justíssima causa.

O povo do Rio de Janeiro está conosco.

Mesmo a grande mídia, com todos os seus graves problemas, tem dado espaço ao movimento: nossa greve não será esquecida ou varrida para baixo do tapete.

Justamente por isso, creio que a atitude mais democrática por parte do governo seria atender aos professores e aos milhares que nos apoiam, promovendo uma negociação horizontal com nossos representantes - ao contrário do que tem acontecido nos últimos dias. A senhora não concorda?

Por sinal, devo confessar que suas atitudes em relação ao movimento grevista têm me deixado bastante decepcionado.

Em primeiro lugar, só tenho visto o prefeito e a Casa Civil se pronunciando a respeito da greve perante a mídia. Não vi a senhora conceder uma entrevista, publicar uma notinha... nada. Me parece uma omissão bastante grave. Creio que nesse momento seria imprescindível que a senhora estivesse presente e se manifestasse. Por acaso a senhora também tem sido reprimida em seu direito de expressão, por parte do prefeito? Caso isso aconteça, conte conosco. Sou um defensor incondicional da democracia e do direito à expressão de absolutamente todos, incluindo os governantes.

Contudo, acompanhando suas postagens no Twitter, devo confessar que me sinto realmente incomodado. Me perdoe a franqueza, mas acho simplesmente lamentável ver uma secretária de Educação usando táticas tão baixas de intimidação aos seus servidores, com veladas ameaças de corte de ponto e outras práticas para instilar o medo nos grevistas. Ao menos a senhora teve a dignidade de tranquilizar os servidores em estágio probatório e aqueles que fazem dupla regência.

Com toda sinceridade, tal atitude me parece lastimável por parte de alguém que se encontra à frente de um órgão de Estado cuja função precípua é a formação de cidadãos e incentivá-los ao exercício da democracia. A senhora, entre todos secretários, deveria dar o exemplo do que é agir democraticamente. Espero que minha ponderação surta algum efeito e a senhora possa se conscientizar, mudando sua conduta nos próximos dias. Nunca é tarde demais para corrigir equívocos.

Na terça-feira estaremos à sua porta e esperamos ser muito bem recebidos, como merecemos.

Por sinal, tomo a liberdade de lhe oferecer um conselho. A senhora se encontra diante de uma escolha decisiva, que pesará sobre a memória de sua gestão no futuro. Poderá ser lembrada como aquela que, num momento crucial, agiu sabiamente e resolveu dialogar com os profissionais da educação, procurando encontrar juntos os rumos de um futuro melhor para a maior secretaria municipal de educação da América Latina. Ou poderá ser simplesmente esquecida como mais uma no rol dos administradores municipais que se fizeram surdos à voz dos educadores. Tenho certeza de que a senhora pensará nisso com carinho.

Cordialmente,
Prof. Luiz F. F. Tavares

sábado, 17 de agosto de 2013

O pior pesadelo de Paulo Freire

Texto do Prof. Antônio Carlos Dutra

Venho trazer palavras humildes, pequenas, singelas. Num mundo de som e fúria, ainda acredito no poder da palavra.

Que elas sejam acanhadas diante de eventos cuja magnitude não conseguimos medir eu posso entender e aceitar, humildemente calar e aguardar as palavras. Mas diante do mal eu tenho de achar as palavras, as que puder, encontrar a rebelião em cada uma, o espírito de liberdade e de amor, olhar as palavras e ver pontes possíveis entre mim e o outro e não ter pudor de revelar minha alma, como seja.

Tive medo hoje. Estive no "modelo" de escola que nosso alcaide deseja a todas as nossas crianças. Um lugar bonito, mas senti frio; havia silêncio, mas o tipo de silêncio de mármore e morte, aquele que temos prazer de romper, onde medo é confundido com respeito, onde diálogo é motivo de fúria e repelido como inimigo da ordem. O ofício de historiador é muitas vezes de lembrar o que todos querem esquecer. O diálogo não é inimigo da ordem. Tiranos demais disseram isso; um educador deveria cair fulminado ao dizer tal descalabro. 

A escola modelo é uma vitrine cuidadosamente arranjada, só que há crianças nela fazendo o papel de manequins, há famílias imaginando que seus filhos recebem a melhor educação, há profissionais vendedores de conhecimento e educadores acuados em meio a um arranjo infernal que, de tão bem azeitado, parece inquebrável. Como todas as cadeias que ruíram, todo tirano cai, toda cadeia quebra.
A maior prova disso foram os incontáveis olhares que recebemos, a resposta com mímica, de um professor, confirmando que ali onde nenhum educador aderiu ao movimento grevista havia perseguição, ameaça e assédio moral, na "escola modelo" "não há ninguém insatisfeito", bradou uma velha senhora, "não ponho correntes nos tornozelos de ninguém". Não, põe na alma (de quem tem) ou no bolso (dos agnósticos). Alguém disse que Deus não morreu, se tornou dinheiro - acho que não, ele se tornou o medo.

Não há educação sem amor, e o amor não habita onde há medo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Amar é agir"

Em seus últimos dias de vida, Victor Hugo, o colosso da poesia, escreveu essas palavras num pedaço de papel:

"Aimer, c`est agir".

Foram as últimas palavras que redigiu. Nessa curta sentença condensou todo o sentido de sua obra e de sua vida; aí estão La légende des siècles, Les misérables, Hernani, o exílio, a ação política...

É um testamento ético para todos nós, um imperativo ideológico, um convite moral profundo. O ser que ama, age no mundo. Não existe verdadeiro amor sem ação. Amor sem ação é apenas uma palavra vazia, uma pieguice sem substância.

Se você ama sua família, aja.

Se você ama seus amigos, aja.

Se você ama seu povo, aja.

Se você ama a humanidade, aja.

Ame sempre, aja sempre!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Vamos viver essa utopia!

Apelo do Prof. Tiago Ribeiro, de Língua Portuguesa

Professores, saiamos da posição cômoda de meros espectadores! Não adianta reclamar de tudo e, na hora de se mexer, justificar a não adesão com ...histórias de décadas passadas. Cada momento é único e quem faz a greve somos nós, pois quem compõe o Sepe somos nós!

Vamos à luta. Mobilizando nossos alunos, estaremos ensinando muito mais que conceitos abstratos e lições que servem apenas para maquiar índices falsos que o governo usa para enganar a população. Esses jovens de quem tanto reclamam verão como é buscar seus ideais, de maneira ordeira, honesta e legítima.

Vamos, sem divisões de idade, credo ou tempo de docência, em busca de melhores condições de trabalho. Se é utopia, vamos viver essa utopia. Chega da massacrante realidade crua, que nos transforma em bonecos. Para que escolhemos ser professores? Lembremo-nos disso!

2ª carta aberta à Sr.ª Cláudia Costin - Autonomia e participação

Cara Sr.ª Secretária,

pretendo aqui desenvolver um tema já esboçado em minha carta anterior e que, creio, seja um aspecto crucial para o desenvolvimento democrático da educação carioca.

Como já adiantei, um de nossos principais anseios é a autonomia político-pedagógica em nossas escolas e, principalmente, a efetiva participação no processo de construção das políticas públicas de educação em nosso município. Infelizmente, nossa realidade atual se encontra muito distante desses legítimos desejos.

No entanto, por que isso ocorre? Que obstáculos afastam os professores desse processo tão importante? Arrisco algumas hipóteses. Comecemos pela esfera dos discursos. Nesses cinco anos em que tenho lecionado no Rio tive oportunidade de entrar em contato com funcionários dos mais variados níveis administrativos da SME, desde a 5ªCRE ao nível central.

Através desses contatos, pude perceber alguns padrões de pensamento reproduzidos de modo mais ou menos consciente. Como já explicitei na carta anterior, existe certa lógica de desqualificação do professor que está em sala de aula, visto como um profissional pouco capacitado, insuficientemente dedicado e, principalmente, necessitado de orientação superior em suas escolhas.

Obviamente não podemos fazer generalizações. Trata-se de uma matriz discursiva elementar, declinada de diversas maneiras de acordo com aqueles que a reproduzem. Alguns se mostram condescendentes: o professor é um "coitadinho", bem intencionado, mas desorientado - uma abordagem um tanto paternalista. Outros têm uma visão ainda mais deprimente, afirmando explicitamente que a maioria dos docentes é descompromissada ou indolente. Há um verdadeiro gradiente de opiniões, desde as mais indulgentes às menos respeitosas, assumindo diversos matizes.

Curiosamente, os profissionais que emitem esse gênero de opinião são geralmente professores que gradativamente se afastaram das escolas, assumindo cargos administrativos na CRE ou no nível central. Dos que conheci, raríssimos escapam dessa perniciosa concepção. Por sinal, muitos empregam correntemente curioso jargão, através do qual nos designam como "o professor que está no campo" ou "o professor no campo". Essa terminologia não me parece nada inocente, traindo concepções muitas vezes inconscientes através das quais se consolida uma visão dual do magistério público carioca. Esses profissionais não se percebem como pertencentes à mesma categoria que nós, sedimentando uma mentalidade que nos vê como castas distintas.

Esse é, em grande medida, o resultado de continuado afastamento da realidade escolar, por parte de funcionários que durante anos se dedicam a carreiras administrativas. Quinze minutos de conversa com alguns deles são suficientes para revelar ideias completamente distantes do que é o cotidiano de uma escola municipal de verdade, indo desde a utopia à distopia, passando pelo mais delirante surrealismo.

Numa evidente distorção do bom senso, a opinião daqueles envolvidos diretamente com a atividade-fim da SME conta menos que a daqueles que, à distância, executam atividades-meio...

Essa mentalidade difusa se faz perceber na prática, na esfera comunicacional ou na esfera representativa. Os fluxos de comunicação na SME denotam claramente essa concepção da rede, uma vez que praticamente todas as decisões partem do nível central ou da CRE e são simplesmente transmitidas como fatos consumados, sem margem para discussões, negociações ou alterações. Aos "professores no campo" cabe simplesmente acatar. As ordens e imposições chegam às escolas e respostas e ações imediatas são cobradas; em compensação, quando procuramos travar contato com os órgãos "superiores" os canais são tortuosos e obscuros e, pior ainda, não há qualquer compromisso em responder adequadamente a nossas solicitações. Ficamos à mercê da "boa vontade" do setor administrativo...

Por outro lado, os mecanismos de representação e participação dos professores nas principais deliberações de nossa rede são escassos, pouco ativos, ineficientes, e frequentemente aleatórios. As instâncias representativas são esvaziadas e desconectadas da realidade escolar, tendo mais função legitimadora que fundamento legítimo. Existem de jure, mas não de facto. Em suma, nossos anseios e valores se vêm fracamente representados na prática administrativa municipal.

Tal estado de coisas fere gravemente a gestão democrática da coisa pública. O futuro de nossa juventude é responsabilidade grande demais para não ser partilhada equanimemente entre todos nós.

Repito: queremos voz na administração da SME!

Cordialmente,
Prof. Luiz F. F. Tavares

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Gotas d`água no oceano...

Trecho final do romance Cloud Atlas, de David Mitchell*

"Se nós acreditarmos que a humanidade pode transcender dente e garra, se nós acreditarmos que diversas raças e credos podem dividir esse mundo tão pacificamente quanto os órfãos dividem sua nogueira**, se acreditarmos que líderes podem ser justos, que a violência pode ser amordaçada, o poder responsabilizado, e as riquezas da Terra e seus Oceanos partilhados equitativamente, tal mundo se tornará realidade. Eu não estou enganado. É o mais difícil dos mundos para se fazer real. Torturantes avanços conquistados durante gerações podem ser perdidos pelo simples traço da pluma de um presidente míope ou pela espada de um general vanglorioso.

Uma vida gasta dando forma a um mundo que eu queira que Jackson herde, não uma que eu tema que Jackson herde, isso me parece uma vida digna de ser vivida. Em meu retorno a San Francisco, dedicar-me-ei à causa Abolicionista, porque devo minha vida a um escravo que libertou a si mesmo, e porque devo começar em algum lugar.

Imagino a resposta de meu sogro: 'Oh, ótimo, sentimentos progressistas, Adam. Mas não me fale de justiça! Cavalgue a Tennessee num asno e convença os caipiras de que eles são apenas pretos pintados de branco e que seus pretos são brancos pintados de preto! Veleje para o Velho Mundo, diga-lhes que os direitos de seus escravos imperiais são tão inalienáveis quanto os da rainha da Bélgica! Você ficará rouco, pobre e grisalho em debates! Você receberá escarros, tiros, será linchado, pacificado com medalhas, desprezado pelos conservadores! Crucificado! Ingênuo, sonhador Adam. Aquele que quiser batalhar contra a hidra de muitas cabeças da natureza humana irá pagar um mundo de dor e sua família irá pagar isso junto com ele! E apenas quando você emitir seu último suspiro irá entender que sua vida não contou mais que uma gota num infinito oceano!'

No entanto, o que é qualquer oceano senão uma infinidade de gotas?"



*Essa canhestra tradução é fruto de meu esforço.
**No original, "candlenut tree", Aleurites Moluccana, em Português, nogueira-de-iguape, árvore associada à paz e à concórdia no imaginário havaiano (especificamente entre os nativos de Maui).

1ª carta aberta à Sr.ª Cláudia Costin - Quem somos nós?

Cara Sr.ª Secretária,

no gozo de meus direitos como cidadão, servidor público e professor da rede municipal, tomo a iniciativa de escrever-lhe para discutir algumas questões que me parecem relevantes quanto à gestão (democrática) de nossa rede de ensino.

Antes de tudo, quero deixar claro: não a tenho por inimiga, apesar de minhas profundas discordâncias quanto à maior parte das medidas administrativas que vem implementando desde que assumiu o cargo em 2009. Pelo contrário, não creio que a verdadeira democracia se faça através de inimizades, mas do diálogo sincero, do mútuo respeito e de acordos honestos entre todas as partes interessadas.

Por sinal, gosto de ser justo em todas as minhas relações, e devo dizer que sempre fui bem tratado pela senhora em nossos diálogos pelo Twitter, assim como fui muito bem atendido por uma de suas assessoras quando precisei resolver um problema administrativo de ordem pessoal, referente a uma licença.

Além disso, quando desempenhei a função de coordenador da elaboração dos cadernos de apoio de História, durante apenas um bimestre, tive a impressão de que a senhora tem boas intenções quanto à educação municipal. Não tivemos contato pessoal durante o período em questão, mas era essa imagem que me transmitiam outros colegas no nível central. Contudo, boas intenções não são suficientes para a gestão democrática da coisa pública - é necessário diálogo multilateral para alcançar a melhor governança possível, articulando saberes, opiniões e valores de todos os profissionais envolvidos nesse processo. Em minha humilde opinião, não é o que vem acontecendo em nossa rede: as decisões partem de cima, unilateralmente, dispensando nossa participação no processo deliberativo.

Todos nós, professores da rede municipal do Rio de Janeiro, desejamos participar desse processo.

Mas quem somos nós?

Parece-me necessário apresentar melhor o corpo docente de nossa secretaria. Por vezes, tenho a impressão de que boa parte dos servidores que ocupam cargos de chefia em nossa rede - incluindo a senhora - não têm uma ideia correta da composição de nosso magistério público. Me refiro particularmente ao altíssimo nível de capacitação dos professores do município do Rio, que parece passar ignorado nesses altos escalões administrativos.

Permita-me oferecer uma breve amostra desse corpo docente. Começo por mim mesmo que, por razões óbvias, conheço muito bem.

Sou professor da disciplina História na Escola Municipal Quintino Bocaiúva e na Escola Técnica Estadual Visconde de Mauá; durante quatro anos também lecionei na Universidade Castelo Branco. Sou mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense e dentro de poucos meses serei doutor pelo mesmo programa (um dos melhores do Brasil e da América Latina), onde sou ligado à Companhia das Índias, núcleo de pesquisa de excelência. Também fiz estágio como pesquisador convidado no Centre Roland Mousnier, da Universidade de Paris IV - Sorbonne.

Desde que me graduei, em 2006, venho desenvolvendo uma produção acadêmica razoável, tendo publicações em periódicos acadêmicos ou de divulgação científica, como a Revista de História da Biblioteca Nacional - aliás, meu artigo "Guerra santa na Guanabara" (publicado neste periódico em 2009) foi selecionado pela assessoria de imprensa da Presidência da República para figurar no site Portal Brasil, dedicado à divulgação nacional e internacional da imagem de nosso país. Além disso, tenho três livros publicados - um dos quais premiado - como a senhora poderá verificar neste blog.

Deixando de lado esses títulos, posso dizer que sou um professor dedicado, procurando sempre trabalhar com meus alunos de forma criativa e significativa, buscando proporcionar-lhes as melhores oportunidades possíveis para o desenvolvimento de sua consciência crítica, de sua ética pessoal e de comprometimento com o bem-estar da sociedade.

Assim como eu, temos muitos outros profissionais altamente capacitados em nossa rede. Apenas em minha escola, posso lhe falar da Profª Rosiane Dourado, de Artes Visuais, mestra em História da Arte pela PUC-RJ, onde também ministra cursos de extensão. A Profª Rosiane demonstra grande sensibilidade artística, mobilizando nossos alunos para belíssimos projetos, como a produção de animações; o recente "Mentes que voam" se encontra atualmente em exibição no festival Anima Mundi.

Poderia lhe falar ainda do Prof. Tiago Ribeiro, de Língua Portuguesa, doutor em Linguística pela PUC-RJ, onde leciona em cursos de pós-graduação. Ele desenvolve sofisticadas pesquisas em torno dos usos da linguagem em ambientes virtuais. Também tem sido um incansável inovador nos usos criativos da tecnologia em sala de aula, produzindo ricos trabalhos com nossos alunos.

Ou, quem sabe, o Prof. Vinicius Borges, de Geografia, que também leciona no Colégio Santo Alberto Magno, escola particular de elite. Como sempre afirma, ele faz questão de oferecer ensino da mesma qualidade a todos seus alunos, não importando a classe social dos mesmos ou a diferença de remuneração entre os dois empregos. Pelo contrário, incentiva sempre seus estudantes a pensar criticamente o espaço geográfico em suas variadas articulações geopolíticas, através de estimulantes atividades, mobilizando corações e mentes para o conhecimento da Geografia.

Esses são apenas alguns exemplos de nossas "pratas da casa". Poderia citar muitos, muitos, muitos outros excelentes profissionais que conheço, tanto na Escola Quintino quanto em outras; não o faço simplesmente porque tão extensa enumeração tornar-se-ia logo cansativa...

Como creio ter demonstrado, somos profissionais capazes e comprometidos com a educação pública. Queremos ter voz ativa nos processos deliberativos relativos a nossa rede. Somos intelectuais e, mais que isso, somos os verdadeiros especialistas em ensino fundamental, realidade com a qual lidamos cotidianamente. A voz das salas de aula deve contar tanto - ou mais - quanto a voz dos gabinetes.

Em minhas próximas cartas pretendo desenvolver melhor inúmeras temáticas aqui esboçadas.

Cordialmente,
Prof. Luiz F. F. Tavares

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Educação: Black Bloc do futuro

Texto do colega e amigo Antônio Carlos Dutra, professor da Escola Municipal Quintino Bocaiúva
 
Sou professor de História no magistério público em primeira opção, em sala desde 2002, na SME/Rio desde 2009, e o que tenho vivenciado é assustador, ninguém destruiu tanto em tão pouco tempo. Lendo os relatos de colegas e amigos queridos aqui vejo pessoas acuadas, amedrontadas, sem rumo, e me desculpem, mas não são pessoas sem "tutano", é uma turma que marchou na Rio Branco contra as múltiplas barbaridades do FHC, de quem Costin é cria, Leilão das Teles, Leilão da Vale do Rio Doce, quase entrega da Petrobrás e do BB e da CEF, sucateamento e aviltamento dos hospitais e das universidades federais. Um leitor apressado diria: "vocês perderam!" - perdemos as teles e a Vale do Rio Doce, mas o que mais teria virado fumaça se não tivéssemos sido espancados, perseguidos e sufocados nas ruas ?

Aqui, nestes últimos anos, esta mesma corja destruiu "guerreiros"...
Quando sumimos?
Massacrados na meritocracia, no bônus, na dupla?
Atordoados nas receitas azuis e amarelas para sobreviver ?
Perdemos batalhas, tantas, muitas vezes caímos e tantas vezes fomos derrubados mas quando paramos de levantar?
Paramos de levantar?

Não, estamos de pé!
Estamos na rua e vamos lutar mais uma vez !
E não se iludam, somos infelizmente a última trincheira, a última linha de defesa !
De que?
De tudo que vale a pena, do amanhã!

Somos o Black Bloc do futuro, e por isso temos apanhado tanto e de forma tão cruel e baixa, mas nossa fileira resiste ainda uma vez!!!

Sou Professor, estou em greve e estou na rua!

CHAMADO À GREVE: POR UMA NOVA REDE PÚBLICA DE ENSINO

Texto de autoria do colega e amigo Vinicius Borges, professor de Geografia na Escola Municipal Quintino Bocaiúva e no Colégio Santo Alberto Magno

Sou professor da rede municipal do Rio de Janeiro há 6 anos. Desde então, iniciei uma grande história de amor com a escola onde leciono. Lá, com todos os problemas, com todas as deficiências estruturais e conceituais tão características à rede, consegui estabelecer uma prática cotidiana onde finalmente pude dar vasão a muitos de meus ideais pedagógicos em relação ao ensino da geografia nas escolas públicas.

Desde que ali cheguei, tive por princípio básico romper com os parâmetros consagrados e estabelecidos como hegemônicos em sala de aula. Tirar os alunos da zona de segurança, desenvolvendo neles a capacidade crítica e autoral, estabelecidas a partir da percepção da geografia como algo vivo e essencial para que pudessem melhor entender o mundo em que vivemos, tornou-se meu norte. Modéstia à parte, com muitos sucessos e poucos fracassos, tenho muito orgulho do trabalho que construí ao longo desse tempo.

Entretanto, muita coisa mudou nesses últimos 6 anos. A cada ano que se inicia, maiores e mais numerosos são os obstáculos colocados no caminho dos professores que buscam uma prática docente realmente libertadora.

Seja por meio de burocracias maravilhosamente complexas em suas inutilidades, seja por meio de mecanismos mirabolantes de avaliação externa, o que temos é o agravamento de um contexto onde a mecanização e deslegitimação da prática docente, alijando-a de sua face essencialmente intelectual, tem sido utilizada como clara e evidente estratégia de controle e imobilização.

Soma-se a isto a vergonhosa continuidade da aprovação automática - mascarada por índices, normas e conceitos absolutamente vazios de significados -, e o que temos são alunos cada vez mais apáticos e desmotivados, formando uma verdadeira legião de acomodados, completamente alienados da situação a que estão submetidos.

São por questões tão sérias e urgentes como essas que faço esse apelo a todos os colegas da rede municipal: não negligenciem ao chamado à greve. A hora urge, e outro momento tão propício para que nossas tão importantes e legítimas reivindicações sejam atendidas talvez não se apresente tão cedo.

Ainda que as divergências e desconfianças em relação ao nosso sindicato sejam grandes, ainda que o descrédito e o cansaço torne tudo mais difícil, existe algo maior em jogo: o próprio sentido de nossa profissão. Está mais do que na hora de revertermos esse jogo, tomando as rédeas da situação, e fazendo valer nossa força e relevância dentro de nossa sociedade.

Conto com todos nessa jornada...