Siga a Oficina no seu e-mail!

sábado, 31 de dezembro de 2016

Carta de despedida ao ex-prefeito Eduardo Paes

Sr. Eduardo Paes,

soube através da imprensa que o senhor se emocionou às lágrimas ao se despedir dos servidores do município do Rio de Janeiro na última sexta-feira. Uma cena comovente para quem não conheceu de perto sua gestão.

Não sei quanto às demais secretarias, mas os servidores da Educação foram continuamente massacrados pela sua gestão durante os últimos oito anos, como comprovam fartamente as greves de 2013 e 2014.

Em 2013, por sinal, o senhor fez questão de nos empurrar goela abaixo um plano de cargos e salários que prejudicava imensamente os servidores, especialmente os professores de 16 horas. Graças a esse plano, por exemplo, eu hoje detenho o título de doutor, mas não tenho direito a progressão salarial, ao contrário dos professores de 40 horas.

Caso o senhor tenha esquecido, gostaria ainda de lhe lembrar que esse mesmo plano foi passado sob uma monstruosa e iníqua votação na câmara dos vereadores, ao som de explosões e cheiro de lacrimogênio, num episódio que os servidores da Educação já se acostumaram a chamar de "Massacre da Cinelândia".

Ainda durante a greve de 2013, o senhor e a então secretária de Educação, Claudia Costin, se recusaram terminantemente a cumprir a LEI federal que determina 1/3 de horário de planejamento para os professores. Lei essa que, passados mais 3 anos continua a ser descumprida pela prefeitura.


Já em 2014, o senhor cortou ILEGALMENTE o ponto de inúmeros servidores da Secretaria de Educação que exerciam seu direito CONSTITUCIONAL à greve - entre os quais me incluo. Tudo isso sugere que o senhor mostra pouca inclinação ao cumprimento de leis - o que parece um comportamento estranho para um chefe do Executivo. Os meses de julho e agosto de 2014 foram sofridos para nossas famílias, e não imagino que o senhor tenha derramado qualquer lágrima ao tomar essa arbitrária medida.

Por sinal, embora tenhamos ganho a causa contra o senhor na Justiça, nossos salários daqueles meses foram depositados em embargo, e ainda passarão muitos anos até que recebamos os valores que nos são devidos. Muitos colegas contraíram dívidas que ainda não terminaram de pagar.

Vale ainda lembrar que durante seus dois mandatos o preço das passagens de ônibus subiu de modo exorbitante, prejudicando o orçamento familiar de todos os usuários de transporte público em nossa cidade, o que me deixa confuso sobre sua declaração: "Saio de cabeça erguida sabendo que fizemos o máximo pelo nosso povo, pelas pessoas que necessitavam" - a não ser, é claro, que os donos das empresas de ônibus sejam as pessoas necessitadas às quais o senhor se refere.

Também soube que o senhor orou, cantou músicas religiosas e falou muito em Deus durante sua despedida. Podia ter aproveitado e incluído em suas orações as pessoas que morreram no trágico e evitável desmoronamento da Ciclovia Tim Maia, vítimas de sua gestão negligente.

De resto, tomo a liberdade de recomendar sinceramente que o senhor se afaste em definitivo da vida política de nossa cidade - para seu próprio descanso e para maior benefício do povo carioca. Ouvi dizer que Maricá é um ótimo lugar para aposentadoria, por sinal. Já que o senhor anda tão religioso, outra sugestão interessante é aproveitar seu tempo livre para visitar seu amigo Sérgio Cabral - Jesus dizia que visitar pessoas na prisão é uma obra meritória.

Cariocamente,
Prof. Luiz Fabiano Tavares
(Sobrevivente de seus últimos dois mandatos)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Telemarketing: como deveria ser e como é

Como deveria ser:

1 - O cliente deseja uma informação sobre forma de pagamento aceita em uma loja física.

2 - O cliente liga para a central de atendimento e comunica sua dúvida.

3 - O atendente responde à dúvida de modo claro e objetivo ("Sim, aceitamos" ou "Não, não aceitamos").

4 - Fim.

Como é:

1 - O cliente deseja uma informação sobre forma de pagamento aceita.

2 - O cliente liga para a central de atendimento e comunica sua dúvida.

3 - O atendente pede informações para cadastrar o cliente (para captura de dados, obviamente).

4 - O cliente diz que não quer se cadastrar, deseja apenas uma informação simples e objetiva.

5 - O atendente desliga na cara do cliente.

6 - O cliente liga novamente, é atendido por outro atendente que também deseja fazer cadastro e desliga na cara do cliente.

7 - O cliente liga novamente e seleciona a opção "fazer reclamações".

8 - O cliente informa que ligou duas vezes solicitando uma informação simples e suas ligações foram derrubadas.

9 - O atendente do serviço de reclamações quer cadastrar o cliente.

10 - O cliente diz que não quer fazer cadastro nenhum, deseja apenas uma informação simples e objetiva.

11 - O atendente diz que vai buscar a informação e deixa o cliente na linha por alguns minutos.

12 - O atendente retorna e pergunta se o cliente deseja receber informações sobre promoções.

13 - O cliente afirma que não quer saber sobre promoções, que apenas deseja uma informação sobre formas de pagamento.

14 - O atendente pergunta tudo de novo, diz que vai buscar a informação e deixa o cliente na linha.

15 - O atendente retorna sem uma informação objetiva: talvez aceite, talvez não aceite. Recomenda ligar para uma loja física.

16 - O cliente, se esforçando para manter a polidez, informa que não encontrou o telefone da loja física no site.

17 - O atendente diz que vai procurar, deixa o cliente na linha por mais alguns minutos, e retorna com o número da loja física.

18 - O cliente liga para a loja física e é imediatamente atendido.

19 - O atendente da loja física não sabe esclarecer a dúvida do cliente.

20 - O atendente transfere a ligação.

21 - A ligação cai.

22 - O cliente liga novamente.

23 - Ninguém atende.

24 - O cliente continua sem a informação simplíssima que desejava.

25 - Fim.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ondas curtas e fibra ótica

Lá pelo fim dos anos 80, meu avô chegou em casa com um curioso pacote. Era um rádio compacto Philips, capaz de captar ondas curtas. Fiquei fascinado ao saber que o aparelho poderia sintonizar com rádios do mundo inteiro, embora àquela época eu tivesse apenas uma vaga ideia do que seria o "mundo inteiro". Por sinal, ainda hoje, embora tenha uma ideia um pouquinho melhor sobre o tamanho do mundo, estou longe de ter uma noção adequada do que seria o "mundo inteiro" - como qualquer outro ser humano, aliás.

O aparelho prometia mais que entregava. Sua sintonia era melhor à noite (menos interferência solar) e ao ar livre. Me lembro de algumas noites passadas na varanda, tentando, com muita dificuldade, ajustar os botões do aparelho para captar rádios de outros continentes. A sintonia, quando conseguida, costumava ser muito frágil, repleta de interferências e rapidamente perdida. Era um trabalho de tentativa, erro e paciência, realizado quase às cegas. Ainda assim, por breves momentos, era como se uma janela se entreabrisse, permitindo que vozes misteriosas nos chegassem em línguas estrangeiras. Às vezes espanhol, outras inglês. De quando em quando, alguma língua asiática soterrada sob violento chiado.

Havia um quê de imprevisível, fascinante e mágico nesses efêmeros contatos estabelecidos com terras distantes. Por sinal, meu conhecimento de línguas estrangeiras não me permitia compreender grande coisa. O importante, me parece hoje, não era entender nada; era o deleite no próprio contato.

Hoje à tarde descobri, quase por acaso, o interessante site Radio Garden, que permite sintonizar via Internet com rádios do mundo inteiro. Embora hoje seja fácil acessar conteúdo do mundo inteiro, senti como se fosse um fascinante retorno à infância. Por quê? Talvez seja a impressão de imprevisibilidade, de ir navegando aleatoriamente pelo mapa, experimentando, buscando não-se-o-quê, de não-se-sabe-onde. Ir clicando ao acaso, às cegas, ouvindo sons muito mais nítidos, em tantas línguas desconhecidas, indecifráveis. Músicas soando estranhas ou familiares a um e outro tempo. Quem disse que a globalização seria chata...?

Radio, someone still loves you...

Sobre automação, computadores, linguagem e plenitude humana

"Um historiador de tecnologia que morreu no ano passado, Thomas Hughes, falava sobre o conceito de momento [momentum] tecnológico: que a tecnologia, uma vez instalada em nossas estruturas e processos sociais ganha impulso próprio e nos puxa com ela. Então talvez a trajetória já esteja definida, que continuaremos seguindo pelo caminho em que estamos, sem questionar a direção tomada. Eu não sei. O melhor que posso fazer é tentar pensar com a máxima clareza possível sobre essas coisas, porque elas parecem tão complicadas e confusas.

Espero que, como indivíduos e sociedade, mantenhamos uma certa consciência sobre o que se passa, e certa curiosidade sobre isso, para que possamos tomar decisões que atendam a nossos interesses a longo prazo, em vez de ir cedendo a conveniência e velocidade e precisão e eficiência.

Creio que deveríamos solicitar de nossos computadores que eles enriqueçam nossa experiência de vida; que eles nos abram novas oportunidades, em vez de nos tornarem passivos olhadores de telas. E, no fim, penso que nossas últimas tecnologias, se pedirmos mais delas, podem fazer o que tecnologias e ferramentas fizeram através da história humana, que é tornar o mundo um lugar mais interessante para nós, e nos tornar melhores pessoas. No fundo, isso é algo que depende de nós".
Nicholas Carr

"Uma objeção é que, mesmo que você não compre a hipótese de que meu smartphone é efetivamente um pedaço de minha mente carregado na mão, é difícil ignorar as cumulativas evidências em torno das vulnerabilidades da cognição humana. Não somos apenas criaturas de hábitos; também somos criaturas de escrutínio consciente limitado e facilmente exausto. Distraia ou canse alguém - dê-lhe uns poucos problemas de cálculo mental a resolver e publicidade relâmpago nos cantos de sua visão e sua força de vontade é esgotada. "Cutucar" nossas decisões é agora uma ciência alimentada por bilhões de bits de dados. E que mecanismo melhor para cansar mesmo o mais atilado pensador que o incansável zumbido do hardware em nossos bolsos e software em sua nuvem circundante?


É esse exponencial impacto da tecnologia da informação que propõe o maior problema para tudo que costumávamos pensar como normal, equilibrado, autoconsciente e autorregulado. Vivemos em uma era de infiltração generalizada, e nossas patologias são aquelas do excesso. Junk food, projetada para um deleite que não conseguimos parar de engolir. Junk media, junk information, junk time - espasmos algorítmicos exigindo atenção, buscando se tornar parte de nossos padrões mentais".
Tom Chatfield

"Como aconteceu com o reino das finanças [na crise de 2008], pode acontecer com a tecnologia. Se as grandes edificações digitais vierem despencando abaixo - mesmo temporariamente - aqueles que mais deslumbradamente tiverem entregue suas pessoas às ferramentas smart ficarão com mais cara de bobos. Ainda assim, todos nós carregamos o risco de uma abordagem acrítica do "smart living": um tecido social tramado a máquina, que ao apertar de um botão ou arrebentar de um cabo, poderia se desmanchar inteiramente".
Tom Chatfield

"Como computadores não podem vir até nós e conhecer-nos em nosso mundo, devemos continuar ajustando nosso mundo e nos levando até eles. Definiremos e regularemos nossas vidas, incluindo nossas vidas sociais e nossas percepções sobre nós mesmos, de maneiras que conduzam ao que um computador pode 'entender'. A sua estupidez se tornará a nossa".
David Auerbach

"Em termos computacionais, fazer as coisas de modo que o sistema não 'entende' é não fazer absolutamente nada. É tornar-se incompreensível, absurdo, como tentar introduzir uma banana numa impressora, em lugar de papel. O que conta é sinônimo do que é contado [contabilizável]".
Tom Chatifield

"O que nos traz de volta ao futuro do autocorrect e autocomplete: nos encorajando a não pensar profundamente demais sobre nossas palavras, a tecnologia preditiva pode mudar sutilmente o modo pelo qual interagimos uns com os outros. À medida que a comunicação se torna um ato menos intencional, oferecemos aos outros mais algoritmos e menos de nós mesmos. Por isso argumentei em Wired no ano passado que a automação pode ser ruim para nós; pode nos fazer parar de pensar. ~[...] Quando algoritmos estudam nossa comunicação consciente e subsequentemente nos repetem para nós mesmos, eles não identificam o ponto em que essa reciclagem se torna degradante e unidimensional. (E perversamente, a frequência de uso de palavras costuma receber peso positivo quando algoritmos calculam relevância). [...] Quando nos conectamos uns com os outros, deveríamos lembrar que, embora sejamos consistentes em várias maneiras, não somos produtos uniformes, produzidos em massa e condenados a conversas redutoras, insossas e sem inspiração. Temos coisas espontâneas a dizer que nunca havíamos antecipado; declarações e questões que exigem expressão cuidadosa, nuançada e formulada de modo inédito".
Tom Chatfield

"Ao reprojetar sua versão online, o LA Times fez com que cada matéria comece com três resumos tuitáveis. E eles fazem isso acima do artigo, assim você pode tuitar sem mesmo lê-lo e decidir o que você pensa sobre o assunto. Tweeters de sucesso usarão isso? Provavelmente não. Mas me preocupa o fato de que isso vem se tornando cada vez mais infundido na arquitetura dos sistemas. [...] Exceto que predizer você é predizer um você previsível. O que por si só subtrai algo de sua autonomia. E encoraja você a ser previsível, a ser um facsimile de si mesmo. Então é previsão e indução ao mesmo tempo [...] Eu acho que o slogan que responde isso seria algo como 'esforço é o preço do cuidado'. E por esforço quero dizer uma presença deliberadamente focada. Quando abdicamos disso, injetamos menos cuidado em uma relação. É o que penso que a automação faz. É o que acho que essas pessoas [desenvolvedores] deixam fora da equação".
Evan Selinger

"O QG do Google, em Mountain View, California - o Googleplex - é a alta igreja da Internet, e a religião praticada entre suas paredes é o Taylorismo. Eric Schmidt, executivo chefe da empresa, diz que o Google é 'uma companhia fundada em torno da ciência da mensuração', e busca intensamente 'sistematizar tudo' o que faz. Usando os terabytes de dados comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, conduz milhares de experimentos por dia, segundo a Harvard Business Review, e usa os resultados para refinar os algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e dela extraem sentido. O que Taylor fez pelo trabalho manual, Google vem fazendo pelo trabalho mental. [...] No mundo do Google, o mundo em que entramos quando ficamos online, há pouco espaço para a confusão da comtemplação. A amibguidade não é uma abertura para o insight, mas um bug a ser consertado. O cérebro humano é apenas um computador obsoleto que precisa de um processador mais rápido e um HD maior. [...] Quanto mais rápido navegamos na Web - quanto mais links clicamos e páginas vemos - mais oportunidades Google e outras companhias encontram para coletar informação sobre nós e nos apresentar anúncios. A maioria dos proprietários da Internet comercial têm interesse financeiro em coletar as migalhas de dados que deixamos enquanto pulamos de link em link - quanto mais migalhas, melhor. A última coisa que essas companhias querem é encorajar a leitura tranquila ou o pensamento lento e concentrado. É de seu interesse econômico nos levar à distração. [...] No mundo de 2001, as pessoas se tornaram tão mecânicas que o personagem mais humano acaba sendo uma máquia. Essa é a essência da sombria profecia de Kubrick: quanto mais dependemos de computadores para mediar nosso entendimentos sobre o mundo, é nossa própria inteligência que se aplaina em inteligência artificial".
Nicholas Carr

A universidade brasileira, as línguas estrangeiras e a "inserção internacional"

Comentários recortados de uma conversa no Facebook


Certos cursos de graduação exigem alguns períodos de língua estrangeira instrumental e talvez todos devessem fazer a mesma exigência, mas não ao longo de todos os períodos, creio. Seria até mais produtivo, por exemplo, que se exigisse 2 e até 3 línguas diferentes - em lugar de apenas uma durante o curso inteiro.

Por outro lado, discordo da obrigatoriedade do inglês. Seria mais produtivo, me parece, que tivéssemos bons leitores em várias línguas, capazes de trazer contribuições estrangeiras mais plurais, aumentando nossa "superfície de diálogo", por assim dizer.

Além disso, interesses variados requerem ferramentas diferenciadas. O francês foi e é muito mais importante que o inglês para mim. Na graduação fiz dois semestres de latim instrumental que me foram de grande valia. Na verdade, acho que se houvesse a exigência de uma língua obrigatória na graduação em História, deveria ser o latim! Pode parecer preciosismo, mas o conhecimento do latim dá outra espessura à percepção das relações entre tempo e linguagem; é quase como enxergar a "planta baixa" da cultura ocidental. Ok, agora exagerei...!

Enfim, tendo a pensar a questão por outro viés, mais intelectual que acadêmico. O aprendizado de línguas estrangeiras oferece insights sobre a linguagem e a construção de conhecimento que me parecem muito mais importantes que a "internacionalização da universidade" propriamente dita.

Acho que esse aprendizado desempenha uma função muito mais significativa que o mero acesso à bibliografia acadêmica x ou y. No meu caso, o francês foi o mais importante para a minha formação; para outra pessoa pode ser o italiano, o russo, o japonês... A questão, me parece, é o encontro com a língua estrangeira enquanto outro código cultural para pensar a realidade, ampliar horizontes. 

Nesse sentido, até um aprendizado parcial ou incompleto tem seu valor. Durante a adolescência tentei por muitos anos aprender árabe, mas nunca consegui assimilar grande coisa; ainda assim, o contato com a língua teve um papel "interessante" em minha formação, especialmente na percepção da codificação da língua escrita. A própria compreensão de minhas dificuldades em penetrar nesse outro universo linguístico me ajudou a compreender (um pouco) melhor as distâncias entre trajetórias culturais distintas. 

A distinção fundamental, me parece, é se queremos formar um acadêmico capaz de ler, escrever etc em uma língua estrangeira ou se tencionamos formar um intelectual com certa sensibilidade às nuances da linguagem. São propósitos muito diferentes, e o último me parece muito mais importante que o primeiro.

Por outro lado, penso que a questão da língua é secundária em relação a nossa "inserção internacional". Temos poliglotas suficientes para ler, falar e publicar em línguas estrangeiras, mas sofremos de certo "provincianismo temático" que me parece letal nesse sentido. Basta olhar as dissertações e teses defendidas em nossos programas de pós. Quase todos os trabalhos são centrados em História do Brasil, da América Latina ou do mundo ibérico - o que redunda numa esfera de diálogo bastante estreita. Basta uma olhada nos grandes centros europeus de produção historiográfica (declinantes ou ascendentes) para perceber que há uma variedade imensa de recortes geográficos e cronológicos. Frequentando seminários no Centre Roland Mousnier (Sorbonne) e na EHESS ficava evidente o amplo leque de regiões e períodos estudados pelos jovens pesquisadores.

Uma comparação parece sugestiva: a antropologia brasileira se tornou imensamente relevante no plano internacional nas últimas décadas em grande medida porque encontrou um meio de romper com essa lógica. Como vi há pouco tempo um grande antropólogo brasileiro falando, ganhou muito espaço certa tendência a pensar o índio "no Brasil" em lugar de uma tradição mais arraigada que pensava o índio "do Brasil" - a coisa muda de figura. Há antropólogos no Museu Nacional de quem se diz, por exemplo, que é "a forefront actor in the inquiry on what it is to be human" - e não estamos falando aqui de Eduardo Viveiros de Castro, que é "apenas" a estrela mais brilhante de uma grande constelação. Claro reflexo disso é que hoje o Museu Nacional atrai significativa quantidade de pós-graduandos estrangeiros, inclusive da Europa.

Além de tudo, nosso ensino básico, mesmo nas melhores escolas particulares, é muito fraco. Muitos estudantes chegam à graduação com dificuldades básicas de interpretação de texto, hábitos de leitura e estudo deficientes, buracos de formação imensos e por aí vai. A falta de domínio de línguas estrangeiras é um mal, mas provavelmente o menor dos males. Há pouco tempo fiz um parecer a um artigo de um mestrando que mais parecia um texto de estudante secundarista - e não é um ponto muito afastado da curva. 

Há pouco tempo um professor de certa universidade federal me dizia que cerca de 50% de seus estudantes de primeiro período não se mostravam aptos a decifrar um texto acadêmico. Outro conhecido, que leciona numa prestigiosa universidade particular também se queixava de situação semelhante.

Acho que algumas críticas de Tolstói à Rússia dos czares caem como uma luva ao Brasil de hoje: investimos mundos e fundos em pesquisa e pós-graduação enquanto o ensino básico está entregue às baratas e depois nos espantamos com o resultado final da coisa. Gastamos muito com verniz, mas investimos pouco em madeira, por assim dizer. Por alguma estranha razão, agimos como se bolsas de mestrado e doutorado fossem capazes de transubstanciar anos de incúria educacional em brilhantismo acadêmico. Um pesquisador de alto nível não se faz em meros dez anos de graduação e pós. Nos preocupamos mais com o telhado que com os alicerces, e depois simplesmente fingimos que as métricas de produtividade científica retratam fielmente a realidade.

A bem dizer, o ensino básico anda em crise no mundo inteiro, mas aqui o panorama se torna muito pior pelo simples fato de que nunca foi grande coisa. 

Sad, but true.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

"Natal dos Covardes", de Marcelo Freixo


Texto publicado por Marcelo Freixo na Folha de São Paulo em 22/12/2015

O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

Hoje, quase todos os brasileiros, inclusive os cônscios moralistas da violência que amarram adolescentes em postes para linchá-los, se reunirão com suas famílias para celebrar mais uma vez o nascimento desse homem.

Sujeito, aliás, que respondeu à provocação: está com pena? Então, leva para casa! Pois, é. Jesus Cristo prometeu levar o ladrão para casa. "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso", diz o evangelho de Lucas.

Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: "quando vier, que venha armado".

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, no próximo Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

Feliz Natal.

Sobre crianças, fósforos e "revolucionários"

O fogo é lindo e atraente. É luz, calor e vida. O fogo é perigoso por três motivos: ele é necessário, sedutor e, principalmente imprevisível.

Quando criança, gostava de brincar com fósforos, até o dia em que quase incendiei a casa de minha tia e sofri uma queimadura dolorosa...

Muitos grandes incêndios começam com a imprudência daqueles que possuem a ilusão de controlar o fogo.

É fácil riscar fósforos, mas os resultados nem sempre satisfazem as previsões...

 

domingo, 25 de dezembro de 2016

Problemas e "problemas" do Brasil

Cultivamos alguns mitos com muito carinho. 

Esse ano fiz um curso com um professor alemão e ele comentou que ficou muito surpreso ao ver o Fundão lotado numa sexta-feira; segundo ele, as universidades alemãs ficam às moscas nas sextas, quase todos os estudantes preferem matar aula. 

Mas qual povo leva fama de preguiçoso?

Como diz Otávio Velho, um de nossos maiores antropólogos, adoramos ser "mais realistas que o rei". Idealizamos demasiadamente os outros países e depois ficamos escandalizados ao perceber que nossa realidade não corresponde a esses ideais - que não existem tal como os imaginamos em lugar nenhum. 

Queremos ser mais democráticos que os americanos, mais republicanos que os franceses, mais organizados que os suíços, mais disciplinados que os japoneses e por aí vai...

As pessoas simplesmente se recusam a aceitar que nas ruas menos turísticas de Paris também se encontram bitucas de cigarro, pichações ou paredes urinadas ou que alguns parisienses dão calote nas roletas do metrô ou que os carros do metrô ficam imundos na sexta-feira à noite, quando os jovens franceses vão pra night.

Claro que o Brasil tem MUITOS problemas, mas o modo que pensamos esses problemas é, por si só, um dos problemas.

Sobre a "reação do oprimido"

Réplica a um comentário no Facebook

1- Não concordo que quem "governa o planeta" sejam apenas os oligopólios econômicos. Acho que há aí uma interpretação muito reducionista, tendente ao marxismo "clássico" que vê como importante apenas a "infraestrutura" econômica e o resto como mero subproduto. Acho que os jogos de poder são mais complexos que isso; nem tudo cabe no economicismo.

2- Acho que o argumento de que cobrar dos governantes seja completamente inútil deriva muito do primeiro. Por mais que saibamos que certos grupos são muito importantes, não significa que o Estado seja um agente político insignificante e que exercer pressão sobre o Estado seja de todo irrelevante. Concordo que tuitar, espernear, bater panela, soltar rojões e pombas brancas e distribuir rosas não sejam métodos muito eficazes; essas não são exatamente as melhores táticas de desobediência civil, embora povoem o imaginário coletivo.

3- Não me parece que sequestrar os "detentores do poder econômico" em troca de exigências resolva grande coisa. Acreditar que isso seria possível sem descambar para grandes episódios de violência ou guerra civil me parece um tanto ingênuo e romântico. A luta violenta é uma caixa de Pandora e a ideia de uma violência "controlada" apenas contra os "alvos certos" raramente se mostra viável. A violência é por definição incontrolável e imprevisível. Isso falando apenas de um ponto de vista meramente pragmático.

4-De um ponto de vista ético, moral e espiritual, não acredito que nenhum fim, por nobre que pareça, justifique o uso de meios violentos. Na minha opinião, os meios importam mais que os fins. Ao contrário do dito que corre mundo, a "reação do oprimido" pode ser tão cruel quanto a "violência do opressor". Penso como Gandhi: estou disposto a dar minha vida por inúmeras causas, mas não tiraria a vida de ninguém por causa alguma. Acho que Nietszche tinha bastante razão quando dizia que aqueles que combatem monstros acabam também se tornando monstros. Por fim, vejo muita gente defendendo a luta armada e táticas semelhantes, mas não vejo essas pessoas REALMENTE partindo para a prática; há aí alguma contradição ou incoerência... Quem está disposto a puxar o gatilho?! Onde acabam as convicções e começam as bravatas?!

sábado, 24 de dezembro de 2016

História Pública e onde habita

Há poucos dias me peguei pensando: no Brasil há mais gente publicando textos acadêmicos e "refletindo" sobre História Pública que produzindo a História Pública propriamente dita. Codiloco.

A banalização da indignação e um testemunho de sua história

Acabo de ler um texto de 11 anos atrás com críticas veementes a um clipe (já esquecido) de uma cantora pop (já esquecida). Requiescat in pace.

O clipe supostamente seria uma brutal violência da cultura imperialista etc etc etc. Logo abaixo seguia-se uma longa salva de comentários recheada de réplicas e tréplicas, onde inúmeras pessoas "engajadas" e devidamente "escandalizadas" discordavam visceralmente entre si.

Apenas um comentário sensato destacava que era apenas uma obra artística de baixa qualidade chocada entre tantas outras de teor semelhante e que, provavelmente, não seria a referência cultural decisiva apontada pelo autor do texto e demais leitores. 

Mais de uma década depois, sabemos quem tem razão. 

Por sinal, é curioso lembrar que dez anos atrás as pessoas já discutiam loucamente na Internet por coisas absolutamente inexpressivas. Vivemos a era das polêmicas efêmeras e indignações banais. Pior ainda, estamos em pleno processo de banalização da indignação. 

Touché.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

"Ninguém merece ser pobre"

"Ninguém merece ser pobre. Ninguém merece ser arbitrariamente rico. Sociedades ricas podem encontrar maneiras de justificar sua grande riqueza relativamente a outras: seus membros podem contar a si mesmos histórias sobre as grandes coisas que eles fizeram que outros não poderiam ter feito que os fizeram ricos além da imaginação. Por outro lado, eles poderiam reconhecer a forte contingência de sua riqueza, cultivar empatia humana e fazer o que pudessem para estender essa riqueza para todos".


Ryan Avent

Sobre ilusões, participação e inteligência artificial

Nos últimos anos tenho lido e refletido muito sobre inteligência artificial. Recentemente venho fazendo alguns experimentos participativos de "engenharia reversa", ou como diria Walter Benjamin, venho tentando "escovar a inteligência artificial a contrapelo".

Os resultados podem ser curiosos. Ando jogando Assault Horizon Legacy no Nintendo 3DS. É um jogo de combate aéreo com um fiapo de narrativa, onde o jogador pode pilotar inúmeros modelos de caça desde aeronaves dos anos 70 a alguns aviões experimentais atuais. Meu favorito, por sinal, é o já clássico Rafale M, desenvolvido para as forças armadas francesas - mas isso é assunto para outra conversa.

O jogo possui gráficos bastante elaborados e a interface é espetacular, parecendo (suficientemente) realista usando os parcos recursos do 3DS. A modelagem das aeronaves parece muito boa. Os terrenos são gerados usando imagens reais de satélite; sobrevoados de grandes altitudes passam uma impressão de realismo quase cinematográfico ou fotográfico. A inteligência artificial dos pilotos inimigos e aliados funciona bem quando tentamos realizar as missões. E aqui está o "pulo do gato".

O que acontece quando o jogador não tenta cumprir a missão proposta? O que acontece quando o usuário evita deliberadamente participar da ilusão?



Há cerca de uma hora realizei um experimento nesse sentido, na missão "Acid Rain", onde o jogador deve abater diversos bombardeiros que ameaçam a fictícia cidade de Anchorhead, escoltados por caças de modelos variados. Os ataques acontecem em ondas: a primeira delas conta com apenas dois bombardeiros; conforme o jogador os vai abatendo, as sucessivas ondas são compostas por números cada vez maiores de inimigos, e a última imprime um ritmo frenético ao jogo. Caso a cidade seja pesadamente bombardeada... game over.

Em lugar de cumprir a tarefa dada, disparando mísseis e voando freneticamente atrás dos inimigos, resolvi apenas acompanhar e observar a ação dos bombardeiros. Em quanto tempo eles seriam capazes de destruir completamente os bairros de Anchorhead? Descobri algumas coisas interessantes.

Primeiramente, o padrão de voo dos bombardeiros inimigos é bastante caótico. Se deixados em paz, eles passam muito tempo ziguezagueando aleatoriamente, largando algumas bombas apenas esporadicamente. Deixados à própria conta, os inimigos não fazem grande estrago. Em condições normais de jogo, obviamente, não é o que se passa. O jogador, enredado na trama avança rapidamente contra as ameaçadoras aeronaves, abatendo-as e fazendo com que venham outras.

Os bombardeiros, pilotados pela IA, normalmente se esquivam dos ataques, mas não esboçam "reação" quando acompanhados pacificamente. De fato, eles se comportam como se o usuário/inimigo sequer "estivesse" ali. O mesmo pode ser dito das aeronaves de escolta, que seguem fielmente os bombardeiros, sem reagir veementemente ao intruso no cortejo; apenas eventualmente disparam alguns mísseis ou saraivadas de metralhadora. A mira deles também é curiosamente ruim, o que leva a concluir que seu objetivo real é mais assustar o jogador que causar danos - como acontece numa montanha russa.

Pior ainda, descobri que, na verdade, não há gráficos do lançamento das bombas - apenas os efeitos sonoros de explosões. O jogador não percebe isso porque, normalmente, ele está olhando para outro lugar: disparando contra um caça ou evitando um míssil. Mesmo que esteja de frente para o bombardeiro que está efetivamente "atirando", o usuário pensará que as explosões ouvidas aconteceram em outro lugar. Excessivamente envolvido com a partida, ele não conferirá o radar para verificar que apenas aquele bombardeiro sobrevoa a área alvejada naquele momento específico. Estamos diante de certa forma de alienação - no sentido etimológico do termo.

Devo acrescentar ainda que isso tudo se passava no nível Hard - ou seja, a ação da inteligência artificial deve ser ainda mais anêmica nos níveis mais fáceis. Além disso, a modelagem 3D das aeronaves, que parece tão bonita e detalhada durante o uso normal do jogo, revela toda sua grosseria quando o jogador voa em baixa velocidade, dando-se ao luxo de contemplar, em lugar de atirar.

Ao fim e ao cabo, fica a pergunta: como caímos na ilusão? Por que nos deixamos enredar em aparências tão grosseiras?

O antropólogo Alfred Gell (num texto que não li) propõe a obra de arte como armadilha. É um ponto de partida interessante; tomo aqui a ideia num vago empréstimo.

Muitas armadilhas, como um anzol, requerem a presença de uma isca. E, de fato, o jogo emprega inúmeras iscas para fisgar o usuário. Em primeiro lugar, o jogador recebe um briefing introdutório, onde seu comandante afirma que a cidade e seus habitantes se encontram ameaçados etc etc.

Iniciamos a missão ao som de uma trilha sonora orquestral que lembra todos os filmes de ação vistos recentemente, recorrendo a uma percussão discreta, cordas sincopadas e metais estridentes - alguém mais pensou em Hans Zimmer? Da narrativa propriamente dita somos jogados no terreno da convenção musical. George Lucas sabia o que queria quando pediu a John Williams que compusesse uma trilha romântica, com todos os artifícios acumulados desde Wagner e Verdi, capaz de tornar familiar o estranho universo de Star Wars.

Espaços e distâncias também são meticulosamente planejados em Assault Horizon: o jogador inicia a missão numa das extremidades do mapa, enquanto a cidade se encontra no centro. Uma breve olhada no radar mostra que o ataque é iminente e será necessário correr para alcançar os bombardeiros.

Como se não bastassem esses elementos, o jogo ainda conta com a voz do comandante ao rádio, devidamente acompanhada por efeitos de estática e um tanto abafada. O hábil dublador avisa, em tom cada vez mais alarmado: "Phoenix, the bombers are approaching the city!!!" - "The city is taking dammage, take out those bombers!!!" - "The city is taking heavy dammage, shoot out those bombers!!!". O artifício é muito inteligente, e as sugestivas falas nos induzem a "ver" uma cena que não está efetivamente "lá". Como não pensar na lendária encenação radiofônica de A Guerra dos Mundos, com que Orson Welles teria ludibriado a população nova-iorquina?

Com efeito, os sons tapam inúmeros buracos da parte gráfica do jogo, que mal conseguimos perceber em situação normal - o que me leva a citar, pela enésima vez, o romance Cloud Atlas, de David Mitchell. Em certa passagem do romance o músico Robert Frobisher menciona as cartas repletas de impressões sonoras enviadas pelo irmão do front na Bélgica, durante a I Guerra Mundial:

Adrian's letters were hauntingly aural. One can shut one's eyes but not one's ears. Crackle of lice in seams; scutter of rats; snap of bones against bullet; stutter of machine guns; thunder of distant explosions, lightining of nearer ones; ping of stones off tin helmets; flies buzzing over no-man's-land in summer. Later conversations add the scream of horses; cracking of frozen mud; buzz of aircraft; tanks, churning in mud holes; amputees, surfacing from the ether; belch of flametrowers. squelch of bayonets in necks. European music is passionately savage, broken by long silences.

O que é mais interessante nessa passagem é que o próprio narrador também se vê enredado na ilusão literária do irmão, à medida que ele mesmo, que nunca foi à guerra, apenas imagina esses sons; o mesmo se passa com os próprios leitores do romance, que, em sua maioria, não foram à guerra - bem como o próprio romancista! Personagens e leitores se veem assim sutilmente "embrulhados" pelo hábil autor.

Retornando ao jogo, o único lugar onde a cidade de Anchorhead se encontra efetivamente ameaçada por bombardeiros é a própria imaginação do usuário, que costura todas as pistas sonoras, visuais e narrativas num todo coerente. O mesmo sucede no cinema, onde uma série de imagens e sons fragmentários se reúnem como um todo coeso - quando o diretor domina suas técnicas, obviamente.

Com efeito, é preciso pouco para desmanchar catastroficamente a ilusão. É o que se passa, por exemplo, com X-Men Destiny, um dos piores jogos que já experimentei. O gráfico é passável e até os numerosos bugs de programação são toleráveis. O problema irremediável do game é a inépcia com que seus detalhes foram amarrados.

Curiosamente, um dos defeitos que mais me incomodou era a paupérrima programação de efeitos sonoros. Qualquer bom jogo traz efeitos sonoros encadeados. Por exemplo, em Assault Horizon, quando se dispara um míssil, ouvimos o som do projétil lançado; se ele acerta o alvo, ouvimos o som da explosão. Zelda: Twilight Princess no Wii leva essa dinâmica à perfeição: quando atiramos uma flecha, o alto-falante do controle remoto emite o som do disparo, que é suavemente continuado pelo televisor, como se uma flecha realmente se afastasse do jogador. X-Men Destiny comete o crasso "erro" de empregar sons genéricos para os golpes dos protagonistas, sem outros feedbacks que sugiram ao jogador sobre seus efeitos e impactos.


No entanto, como vimos, mesmo um jogo habilmente dirigido como Assault Horizon vê suas ilusões ruírem quando o jogador não lhe oferece seu consentimento - quando o usuário não morde a isca. A ilusão só funciona quando o usuário efetivamente participa da dinâmica proposta - ou seja, ele aceita tomar parte, fazer parte, ser parte. Ao se tornar parte do jogo ele ingressa no todo imaginado e sugerido pelos produtores, e então a magia da arte acontece: estamos no cockpit de um Rafale M, tentando salvar os cidadãos de Anchorhead de um terrível ataque. Basta sair do papel de participante e inventar uma imprevista posição de observador para escapar do feitiço - o véu de maya foi rasgado, como diriam talvez os místicos hindus.

Uma vez tomada a decisão e o caminho da ruptura com a ilusão, os artifícios empregados pelos produtores do jogo se desmancham em cascata. Destes, o que se desfaz mais dramaticamente, me parece, é a inteligência artificial programada. Quando o usuário se comporta de modo inesperado, os bots se mostram incapazes de reagir de modo satisfatório - é um padrão que venho observando em outros jogos.

É particularmente curioso perceber que o usuário se torna virtualmente invisível para o programa a partir do momento que não age segundo o acordo tacitamente estabelecido - as regras do jogo. Ele está paradoxalmente dentro, mas também fora do jogo. Por exemplo, um experimento interessante é deixar o carrinho absolutamente parado em Mario Kart, jogando no modo "Batalha". Os adversários passam constantemente ao lado do jogador, sem "perceber" que ele está ali ou empreender qualquer forma de ataque. Jogando em modo multiplayer online, com outros seres humanos de diversos cantos do planeta a coisa muda de figura: um carrinho parado se torna presa fácil.


Os bots de Mario Kart ou Assault Horizon estão evidentemente programados para captar e reagir a movimentos em determinadas condições e velocidades específicas - oferecendo ao jogador níveis cuidadosamente balanceados de dificuldade (uma arte dificílima). Em suma, essas inteligências artificiais foram preparadas para interagir com participantes que aceitaram tacitamente certas condições de interação, mas se encontram completamente "desorientados" perante um observador. Paradoxalmente, nesse caso, agir implica uma postura passiva, enquanto não agir implica uma postura ativa - o que lembra o sábio conselho taoísta de "agir pela não-interferência".

Com efeito, a "não-interferência" abre as vias da metacognição - o pensamento que pensa a si mesmo - conseguindo promover um processo de desidentificação com o avatar do jogo (uma palavrinha que parece muito apropriada nesse caso). O usuário, liberto das regras arbitrariamente impostas pelos produtores, sai do reino de samsara. Estar simultaneamente dentro e fora do jogo, participar sem se tornar mera parte - talvez isso seja nirvana.



Tudo isso me lembra as palavras de Mestre Yoda para Luke Skywalker em O Império Contra-Ataca:

You will know (the good from the bad) when you are calm, at peace. Passive. A Jedi uses the Force for knowledge and defense, never for attack. [...] Yes, a Jedi’s strength flows from the Force. But beware of the dark side. Anger, fear, aggression; the dark side of the Force are they. Easily they flow, quick to join you in a fight.


Enfim, há aqui ainda algumas considerações possíveis, estabelecendo paralelos com o trabalho do historiador e do antropólogo. O historiador com suas fontes, que são, em muitos sentidos, armadilhas; o antropólogo com seu método de "observação participante", que também tem suas aporias. Mas essa também é outra conversa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

3 pensamentos e 1 imagem

"As leis que não protegem nossos adversários não podem nos proteger".
Rui Barbosa

"Se não quiser que os outros saibam, é melhor não fazer".
Provérbio chinês

"É perigoso estar certo quando o governo está errado".
Voltaire


Escola "sem" partido

Semana passada, numa das escolas onde trabalho, flagrei uma curiosa lição deixada na lousa à véspera. A atividade, proposta numa aula de Língua Portuguesa, ordenava a interpretação de um trecho de texto sobre a Graça e a Providência, sem autor identificado. Doutrinação religiosa pode...?!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Videogame na Escola 6 - Nasceu!

A Viagem do Pegasus, ao contrário da II Estrela da Morte, está completo e inteiramente funcional!!!

O blog oficial já se encontra online, com link para download, e o trailer se encontra no Youtube:


domingo, 4 de dezembro de 2016

Videogame na escola 5 - criando protagonistas

Concluímos essa semana a criação dos protagonistas. Cada turma criou coletivamente uma heroína e um herói.

Acho que foi, de longe, a tarefa mais complicada do projeto. Houve muitos desentendimentos e tumultos em todas as decisões, especialmente quanto a definir a aparência de cada personagem. Muitos alunos apresentaram imensa dificuldade em aceitar e reconhecer a decisão da maioria, e queriam que fossem realizadas novas votações. Parecia reunião de condomínio ou assembleia sindical!

Um grupo de meninas (excelentes alunas, por sinal) me abordou DEPOIS das votações propondo que ELAS pudessem refazer a heroína de sua turma, a pretexto da qualidade ruim da personagem definida pela turma. Expliquei a elas que isso não seria honesto e que numa democracia as coisas nem sempre acontecem do jeito que desejamos, mas nem por isso podemos "consertar" (e concertar) as coisas por baixo dos panos; acho que elas entenderam.

Os nintendistas de plantão também perceberão que tive de convencê-los a alterar o nome de um personagem, para evitar problemas de direitos autorais. De qualquer forma, não gostaria de ter um gorila enfurecido jogando barris na minha cabeça...

Enfim, seguem abaixo os resultados dessa encrenca toda!







O jogo também já tem título (definido por mim, sem democracia nenhuma) e uma imagem de abertura - ilustrada por Hokusai, que é de domínio público...

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

domingo, 27 de novembro de 2016

Labirintos da domesticação

Dedicado ao pequeno Gandalf, em seu oitavo aniversário
 
Como se sabe, o período Neolítico foi marcado pela domesticação de inúmeras espécies de animais, entre as quais o lobo, transformado em "melhor amigo do homem". Como tenho registrado por aqui, venho produzindo um jogo eletrônico com meus alunos de 6º ano, recém-saídos da infância. Nesta sexta-feira ajudei dois alunos a produzirem o seguinte diálogo, imaginado entre os heróis da narrativa e um lobo feroz que devora os animais de um fazendeiro. Conforme eles me ditavam o texto, ia sugerindo pequenos aperfeiçoamentos; a pontuação, obviamente, é minha. Tentei traduzir, de alguma forma, as entonações e meneios que eles expressavam, a começar pelo uivo entoado mais de uma vez...

-AAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUU!!!!
AAAAAAAAUUUUUU!
-Lobo, saia desse território e pare de perturbar o fazendeiro, senão quem morre é você! Sua família já morreu!
-Vou sai no dia de São Nunca! Até eu comer um cavalo! A carne dele é muito boa!
-Se não vai por bem, vai por mal!!!
-O que vocês vão fazer comigo?
-Você vai ver!
[Pausa: "Peraí, Professor... São dois heróis contra um lobo sozinho? Isso é covardia!" - "Na verdade, são quatro heróis..." - "Ah, não! Quatro contra um é muita covardia! Vamo mudar isso aí!"]
-Tá bom, vou sair...
-O fazendeiro quer um cachorro, e não um lobo...
-Peraí... Eu POSSO ser um cachorro! Não vou comer mais nenhum animal dele... Também vou ajudar a cuidar da fazenda... E se vier um ladrão, dou uma mordida no bumbum dele... E a cueca dele vai aparecer! Vou ser um herói pro fazendeiro!

Depois disso, o lobo vira amigo do fazendeiro e passa a cuidar de seu gado. Me parece um bom mito. Por outro lado, é curioso que essa narrativa tenha partido de dois dos alunos mais problemáticos da turma - um dos quais responsável pelo banzé que relatei poucos dias atrás. No fundo, talvez todo lobo sonhe em se tornar cachorro e ser um herói para o seu fazendeiro. Há, evidentemente, algumas recompensas, como um bolinho de cenoura (receita canina exclusiva) para comemorar 8 anos de idade...

4 heróis e um lobo.

O Marinheiro de Triste Figura

Meu avô era militar. Serviu na Marinha do Brasil durante a II Guerra Mundial. Se alistou voluntariamente em 1942, aos 16 anos, pois achava (talvez embalado pelas matinês) que defender a pátria e combater o nazismo eram deveres. O único super-herói que conhecera nos cinemas catarinenses, sugestivamente, era o Capitão América. Com menos de 20 anos de idade havia matado gente e perdido o movimento de um dos dedos operando uma peça de artilharia.

Ao contrário de sua mãe e de seu irmão, "getulistas" convictos, dizia que Getúlio era apenas um homem frio, calculista e manipulador. Com meu avô aprendi a desconfiar de todos os políticos e líderes, de direita ou de esquerda; sempre me alertou contra políticos e agiotas - se é que existe diferença. Também com ele aprendi a reverenciar figuras como Gandhi e Luther King. Era um homem de guerra que se curvava humildemente perante os homens de paz - talvez como o publicano que se sabe pecador, retratado nos Evangelhos. Ele sempre foi um fã de cinema, e mencionava muitas vezes um filme dos anos 50, cujo título esquecera, que narrava a história de uma prostituta de bom coração; o sabor evangélico me parece emblemático.

Suspeito que em grande medida seu precoce alistamento também fosse motivado por razões afetivas: meu bisavô, então marinheiro do Lloyd Brasileiro, fora convocado à guerra contra sua vontade e participava de comboios. Um bom filho segue voluntariamente o pai por rotas estranhas - e meu bisavô, ao que tudo indica, era um ótimo pai.

Meu avô sempre falou muito do cotidiano militar e tinha hilariantes histórias de caserna, mas nunca gostou de falar sobre situações de combate, e sempre evitava o assunto. Apenas uma vez, com a insensibilidade típica dos adolescentes, consegui arrancar um breve comentário: "Era terrível". Recebeu uma medalha que ainda guardo aqui em casa - uma daquelas peças de bronze que supostamente recompensam a bravura, mas nunca o vi se gabando daquele pedaço de metal. Uma medalha e um ferimento para o resto da vida - eis o que meu avô trouxe de tangível da guerra. Ajudou a sepultar italianos e alemães no fundo do Atlântico, mas jamais o vi proferindo qualquer palavra de ódio aos povos da Itália e da Alemanha. Pelo contrário, admirava o povo da Alemanha reunificada, que sobrevivera à devastação da I Guerra, à tirania de Hitler e à divisão pela Cortina de Ferro, reconstruindo seu país inúmeras vezes.

Às vezes acho que ele trazia uma grande melancolia por conta disso - e, por isso mesmo, me ensinou sempre o valor incomensurável da vida humana, como apenas aqueles que viveram sob a sombra do canhão sabem aquilatar. Meu avô, ao contrário de muitos outros companheiros de armas, era radicalmente contrário à pena de morte e abominava o slogan "bandido bom é bandido morto". Tinha ojeriza aos abusos da Polícia Militar.

Jamais teve armas, embora soubesse manejá-las, pois considerava a posse pessoal de armas uma ameaça à sociedade e, em primeiro lugar, ao próprio dono da arma. "Nunca reaja a um assalto: sua vida vale mais que qualquer dinheiro" - sempre me ensinou desde criancinha. Sempre evitou andar fardado pela rua; hoje é um perigo, mas naquela época era apenas exibicionismo barato. Também criticava o hábito inveterado de dar "carteirada", tão difundido entre os militares de outrora. Ao contrário do Gandola de Jô Soares, meu avô nunca mandou ninguém a canto nenhum. De certo modo, o Waldo militar e o Waldo civil não se confundiam - um equilíbrio difícil de atingir, especialmente naqueles tempos em que a farda trazia prestígio social quase ilimitado.

Aos 16 anos, num daqueles estúpidos momentos de rebeldia adolescente, eu disse (meio brincando, meio sério) que ele era um assassino - minha avó ficou indignada, enquanto ele apenas abaixou a cabeça com uma indecifrável tristeza, retirando-se da sala minutos depois. "Para chorar?" - hoje me pergunto. Essa imatura e inoportuna piada é provavelmente um dos maiores arrependimentos de minha vida; ainda não consegui me perdoar. Aquele sentido silêncio ainda me dói. Ele poderia ter reagido, recorrido à senioridade. Até um tapa seria aceitável diante de tamanha insolência. Mas ele, definitivamente, não era uma pessoa desse tipo - pelo menos à altura da vida em que o conheci.


Ao contrário de Bolsonaro, que nunca deve ter puxado o gatilho, meu avô jamais comemoraria a morte de Fidel Castro ou de qualquer outro ser humano. 

Meu avô venerava a Marinha do Brasil enquanto "irmandade", e falava do Cruzador Barroso, que buscara nos Estados Unidos com um entusiasmo infantil e um orgulho juvenil. Descrevia o Barroso como uma cidade flutuante. Não digo que o Cruzador tenha sido seu primeiro amor apenas porque já então namorava minha avó. O Barroso representou a Marinha do Brasil na coroação de Elizabeth II, e de seu convés ele saudou a rainha, durante a tradicional cerimônia de revista da frota nas águas de Portsmouth.


Revista da Frota em Portsmouth, 1953; possuo um exemplar desse mapa aqui em casa.

Gostava de histórias de piratas e acho que ficou tão encantado quanto eu quando minha tia me deu uma bela caravela Playmobil; me recordo nitidamente de nós dois brincando sentados no chão. Suas memórias sobre a importante expedição hidrográfica do José Bonifácio mapeando o litoral nordestino eram empolgantes. Dizia com indisfarçável orgulho que conhecia toda a costa brasileira do Maranhão ao Paraná, assim como as tempestades do Golfo do México. Viajara pelo antigo Caribe dos piratas, e talvez tivesse gostado de conhecer a atração imaginada por Walt Disney - gostava de lembrar que assistira Branca de Neve no cinema. Crescera soltando pipas ao vento do mar, nadando na praia e acompanhando o biso em pequenas viagens - algumas das últimas navegações veleiras de longa distância da marinha mercante em nosso litoral. Testemunhei mais de uma vez previsões meteorológicas acuradas proferidas com dias de antecedência, apenas usando o olhar atilado desde a infância.

Meu avô passara quase um ano nos EUA, onde recebera treinamento da marinha americana para atuar como fiel de navio (responsável por armazenagem e estocagem de gêneros variados). Ao contrário de muitos outros fiéis, meu avô nunca se envolveu com corrupção e sempre fez questão de que os praças fossem bem alimentados em "seus navios". Ele conhecia muitas histórias de cambalacho nas forças armadas (algumas delas MUITO engraçadas) e nunca se iludiu acerca da "honestidade" do regime militar. Cresci ouvindo curiosos relatos acerca de fraudes, "pistolões", contrabandos, desvios de verbas e materiais, entre outros comportamentos pouco valorosos. Uma das melhores histórias era sobre um sujeito que reformou a casa inteirinha com material de construção desviado de um estaleiro, levado na surdina, aos domingos (até os gatos pardos acordam tarde no final de semana). Meu avô sabia muito bem que muitos corruptos usam farda e sempre me lembrou disso. Fosse meu avô menos honesto, eu talvez tivesse crescido em algum bairro mais nobre, em lugar de gozar a doce infância que apenas as vilas da Zona Norte garantem.

Ele também tinha verdadeiro horror aos abusos de poder cometidos por muitos oficiais e às estúpidas separações estabelecidas entre "praças" e "oficiais" em diversos ambientes militares - por exemplo, nos serviços de saúde da Marinha, onde ainda hoje existem enfermarias e salas de espera separadas (tirando a morgue, pois a morte nivela). Às vezes, quando encontrávamos com velhos conhecidos na rua, eles sempre lembravam que a administração honesta de meu avô garantia boa mesa a TODOS que serviam em "seus navios", ao contrário da maioria das embarcações, onde a mesa dos oficiais sempre era mais farta. Meu avô sabia o que era igualdade e sempre lutou por ela de várias maneiras, com os meios a seu alcance, dentro e fora da Marinha - ao contrário de muitos "esquerdistas" que olham o garçom de cima e regateiam o preço da diarista. Waldo Luiz conhecia os antigos garçons do Amarelinho pelo nome.

Meu avô também era cavalheiro no mais alto grau. Desde pequeno me ensinou a respeitar e admirar as mulheres. Nunca o vi proferindo uma piada sexista ou me induzindo a comportamentos machistas. Nunca mostrou medo de que eu me tornasse "mariquinha" ou me pressionou para ser "machão". Qual Timur, nunca temeu Turandot e seus decretos ao "popolo di Pechino". Aos 4 anos de idade, em plena época dos Super Amigos, ganhei uma Mulher Maravilha de presente dele, o que escandalizou muita gente em minha escola - embora ele ficasse, a seu turno, escandalizado quando minha mãe me deixava lambuzar a cara de maquiagem para brincar de palhaço. Era um romântico em muitos sentidos, como apenas os guerreiros e trabalhadores do mar podem ser - aqueles que, como dizia Jorge Amado, nunca sabem se retornarão vivos da próxima jornada de trabalho. Aqueles que se despedem com beijos demorados que sempre podem ser os últimos. "Sua avó ainda é uma mulher muito bonita, mas ela era ainda mais linda quando jovem". Rio ao me recordar de uma cena que vi sem querer, em certo 1º de Janeiro: um beijo com direito a dentaduras enganchadas!

Com efeito, meu avô foi o último de uma longuíssima linhagem de marinheiros, cujas memórias se perdem na noite dos tempos. Marinheiros de cabotagem, que vagavam entre as vagas e vagalhões de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Ainda em 2004 pude conhecer um velhinho em Laguna que se lembrava do "Paranaguá Velho" - apelido pelo qual meu bisavô era conhecido naqueles portos. O mais antigo testemunho que persiste dessa gente brava e temerária é uma pequena imagem setecentista de Nossa Senhora dos Navegantes, passada de mão em mão entre as gerações de mulheres do clã Tavares, tão acostumadas a rezar por seus homens submetidos aos caprichos de Iemanjá, Poseidon e todas as forças que, como dizia Homero, sacodem os muros da Terra. Reza a lenda familiar que uma de nossas matriarcas teria chegado de Portugal a Santa Catarina agarrada a um barril, como sobrevivente de um naufrágio. Quando li o Silmarillion não pude deixar de ouvir o eco mítico do mar que banhava as belas proas dos Teleri de Alqualondë como ainda banha os barcos de Laguna. Proas em forma de cisne, diz Tolkien. Sempre choro quando ouço o Cisne Branco. Sempre.

Fui iniciado muito cedo nos remos, no Parque de São Lourenço e no mar de Guarapari. Há dez anos não pego nos remos, mas tenho certeza que bastará sentar e estender as mãos, e os movimentos virão espontaneamente, pois brotam do sangue, dos nervos dos músculos. Deve estar em algum de nossos cromossomos. Sempre percebi que minha escolha por Clio em detrimento de Poseidon foi uma decepção para meu avô, embora ele jamais tenha verbalizado isso, respeitando minha liberdade, sem onerá-la com o peso esmagador de uma antiga tradição familiar. Se o Divo Posido requisitar um de meus filhos ou netos para suas proas, ficarei feliz por restituir o que lhe pertence.



Como muitos brasileiros de sua geração, meu avô tinha pavor do "Comunismo". Movido por esse pavor, temia (um tanto ingenuamente) uma revolução liderada por Jango: Cuba projetava uma longa sombra sobre o imaginário brasileiro daquela época, que apenas agora começa a se deitar. Achando que cumpria um dever, participou do Golpe de 64, "em defesa da democracia", e só tomou consciência da imprudência após a morte de Castello Branco - um atentado, tinha "certeza". 

Mesmo apesar desse arrependimento - ou talvez por conta dele - tinha também "certeza" de que Jango instauraria uma ditadura comunista no Brasil. Jânio - dizia ele - nunca fora comunista, mas também pensara em estabelecer uma ditadura. Ouvi muitas vezes as pessoas de minha família discutirem a natureza das famosas "forças ocultas" - assunto verdadeiramente teológico. Ao fim e ao cabo, meu avô sempre ressaltou que o Golpe fora, na verdade, uma "Contrarrevolução" que salvara o Brasil do perigo vermelho, e que uma ditadura comunista teria sido bem pior que a Ditadura Militar. As culpas e arrependimentos muitas vezes nos induzem ao exercício da História "contrafactual", suponho. Por outro lado, percebo que as conspirações permeavam o imaginário anterior e posterior a 64. Minha avó muitas vezes mencionava em tom cético os muitos boatos que corriam desde o Estado Novo; costumava terminar com uma pausa dramática, complementando com uma frase breve e enfática: "Dizem".

Cresci vendo meu avô berrar "Caudilho! Caudilho!" para a televisão sempre que Brizola aparecia na tela. Acusava o político gaúcho de ser um "demagogo", mas jamais o vi reproduzir o famigerado "Brizola defende bandido" (cuja recente reedição bem conhecemos). Tampouco me recordo de ouvir acusações infundadas sobre corrupção contra o cunhado de Jango. Como Lancelot ou Gauvain, Gernot e Giselher, ele sabia respeitar seus "adversários" na medida certa.

Apesar de todo esse pavor, quando lhe revelei, aos 14 anos de idade, minhas inclinações socialistas, sempre adotou uma postura respeitosa e jamais tentou me demover desse posicionamento. Somente depois de adulto compreendi a grandeza verdadeiramente democrática dessa atitude. Meu avô amava a liberdade, ao contrário de muitos que hoje gritam "golpe" enquanto lamentam a morte do "grande" Fidel. 

Ele realmente amava a democracia, com um amor romântico à la folie, como o Don José de Bizet, que ele tanto apreciava. Como todo romântico, amava platônica e idealmente: uma imagem brilhante e um tanto desencarnada da democracia americana. Afinal de contas, ele morou oito meses em Filadélfia (hoje tombada pela UNESCO), à sombra de William Penn e de Benjamin Franklin, de dois Congressos Continentais e da Constituição Americana, que ele muito admirava. Uma mitologia como tantas outras, comparável àquela que paira em torno de Havana - talvez, quem sabe, até mais real. Acabo de descobrir, graças ao Google, que o nome Philadelphia deriva do grego philos e adelphos, traduzível como "amor fraternal" ou "amizade fraternal". Meu avô provavelmente sabia disso, e imagino que devia apreciar esse nome. Ele também sonhava com um mundo repleto de fraternidade, como ex-católico-"não-praticante" e espírita-"não-praticante" - era um homem bastante espiritual, embora evitasse frequentar instituições religiosas.

Ben Franklin, imagino, teria apreciado a companhia de meu avô, que foi um homem muito "moderno", nos vários sentidos da palavra. Em 1951 trouxera dos EUA uma avançadíssima máquina de escrever portátil Royal (o notebook da época) e uma vitrola e muitos LPs quando a tecnologia ainda nem era comercializada no Brasil. A vitrola se foi muitas décadas atrás, e os discos foram doados à Rádio MEC - quando ouvir Caruso, Callas ou Sumac, talvez seja um desses. A máquina Royal permanece aqui em casa, e ainda uso um belíssimo grampeador Swingline forjado em aço - uma peça brutal, onde se adivinham talvez Le Corbusier e um Streamline tardio.

Liberdade, igualdade, fraternidade - sem saber, acho que meu avô me fez "jacobino". Sem a guilhotina, a seu modo, também ele era um jacobino.

Meu avô era um homem muito corajoso, amoroso, inteligente e generoso, de índole um tanto quixotesca. Contraditório, como todos nós. Errar é humano, e meu avô sempre agiu de modo coerente com suas convicções, equivocadas ou não; de certa maneira, em muitos momentos agiu certo pelos motivos errados. Não era ingênuo, nem cínico, embora tenha sido muitas vezes temerário. Nunca se furtou a participar da vida política de nosso país, e nunca deixou de assumir a responsabilidade por seus equívocos - ao contrário de muitos políticos que nunca sabem ou se lembram de nada. Pouco cedia à tentação do esquecimento. Sempre se posicionou com coragem e sinceridade, e nunca se esquivou covardemente de seus atos ou de suas consequências. A seu modo, meu avô foi um cidadão exemplar. Eu certamente não faria as mesmas escolhas que ele fez, mas certamente tento escolher como ele fez: com dignidade.

Muita gente chorou em seu velório, o que, segundo os chineses, é sinal de uma vida bem vivida. Um velho amigo, residente em São Paulo, veio para o Rio de Janeiro quando soube que ele "baixou enfermaria" no Marcílio Dias, delirante devido à violenta metástase cerebral. Esse velho companheiro de caserna dizia: "Só vou embora quando meu amigo sair desse hospital, saudável ou no caixão". Com efeito, ele só partiu do Rio depois do sepultamento. Acho que essa anedota diz muito sobre quem foi Waldo Luiz Tavares.

Meu avô sempre teve ojeriza a figuras como Castrou ou Médici: apenas ditadores cruéis, embora de lados diferentes das muralhas ideológicas. Apesar de socialista, concordo plenamente com ele. A imagem de todos os tiranos se torna pálida ao lado de pessoas vívidas e vividas como meu avô. Gosto de crer que ele hoje descansa na paz de Deus; se sua alma realmente ainda existir ou for em algum lugar, tenho certeza de que ele deseja o mesmo para Fidel Castro - que Deus o tenha.

A romancista Lian Hearn sugere que atingimos a verdadeira maturidade quando aprendemos a honrar e amar nossos pais embora sejamos capazes de enxergar claramente seus defeitos. Meu avô faleceu há exatamente dezesseis anos e um mês; a cada dia descubro, retrospectivamente, novos motivos para amá-lo. 

De certo modo, acho que esse texto testemunha minha entrada definitiva no mundo dos adultos, saindo finalmente do porto da infância para singrar esse mar aberto que fazia sonhar meus ancestrais. Parece que Ray Bradbury tinha razão: as digitais de nossos antepassados estão marcadas na argila de nosso cérebro...

sábado, 26 de novembro de 2016

Autoconhecimento com Star Wars

Em muitos momentos sou como Luke Skywalker: sonhador, nobre, intuitivo e vagamente hiperativo.

Outras vezes sou como Leia Organa: sabichão, impetuoso, Rebelde, sarcástico e secretamente inseguro.

Às vezes exercito meu lado Han Solo: mal humorado, sacana, um tanto cínico.

Também há a vertente Anakin Skywalker: agressivo, talentoso, vaidoso, ambicioso e tentado pelas sombras. Felizmente, o Jedi sempre retorna...

Também tenho minhas facetas C-3PO, Wicket e R2-D2: resmungão, fofo, infantil e barulhento.

Vivo em busca do meu Yoda anterior, mas me contentaria em chegar a Obi-Wan Kenobi (ou mesmo Qui Gon Jinn).

Na maior parte do tempo sou como Chewbacca: peludo, leal e cheio de vontade de arrancar braços... AAAAAHHHRRRR!!!!

Executando a célebre "Defesa de Tatooine" no Holochess.

Sobre a morte de Fidel Castro

Não vou dizer nada sobre a morte de Fidel Castro, por um bom motivo: não tenho nada a dizer. Mas só isso já é dizer alguma coisa...

Sofrimento e estatísticas

É fácil mentir usando estatísticas, especialmente quando a própria estatística parte de estimativas duvidosas.

Por exemplo, acabo de ler que talvez 1 milhão de mulheres francesas sejam vítimas de violência sexual ou doméstica por ano. Acho que está muito majorado. Se fosse verdade, em 30 anos TODAS as mulheres francesas teriam sido vitimadas. Tendo a duvidar.

Enfim, UMA única mulher violentada ou agredida já é grave suficiente para mim; não vejo necessidade de recorrer a exorbitâncias estatísticas para ficar indignado com a situação. Pelo contrário, tentativas de quantificar o sofrimento humano muitas vezes me escandalizam. Para uma mulher estuprada, pouco importam os números. A dor infinita, multiplicada por 2, 5, 10 ou um milhão, permanece infinita em qualquer caso. É questão de intensidade, não de quantidade. Os historiadores nunca chegaram a uma estimativa confiável dos mortos no massacre de São Bartolomeu - ainda assim, não há dúvidas sobre sua monstruosidade.

Por sinal, "gravis" em latim significa "pesado". De fato, acho que a oposição peso versus quantidade sugere uma maneira relevante para pensar o problema - ou "ponderar" sobre ele.

Enfim, um país onde apenas uma mulher fosse estuprada por ano seria certamente menos pior que um país onde isso ocorresse com um milhão; ainda assim, seria uma insuportável dose de sofrimento.
 
Está lançada a polêmica...

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Videogame na Escola 4 - O peso da indisciplina estudantil

Hoje, pela manhã, dava prosseguimento ao projeto com uma das turmas envolvidas. Estamos na fase criação coletiva dos protagonistas. O cronograma de hoje previa a elaboração dos gráficos de dois protagonistas, uma votação para decidir o título do jogo e atividades independentes em grupos.

Doce ilusão.

Tudo correu bem durante os primeiros 15 ou 20 minutos: a turma participava interessada e motivada. Nesse momento entrou (atrasado, como sempre) um estudante bastante problemático e indisciplinado, que faz de tudo em sala de aula - excetuando participar das atividades propostas. Vindo de outra escola, apresenta sérios problemas de convivência desde o início do ano letivo, desrespeitando cotidianamente colegas e professores. Ao que tudo indica, ele não apresenta quaisquer transtornos psiquiátricos ou distúrbios cognitivos: é apenas um jovem mal educado e largado pela família.

Enfim, a entrada do garoto feriu de morte a minha aula. Gritos, batuques, provocações a colegas, brincadeiras inoportunas. As constantes interrupções que se fizeram necessárias quebraram completamente o ritmo da atividade proposta, ao mesmo tempo que três outros estudantes aderiam ocasionalmente ao tumulto, agravando a situação.

As atividades planejadas não foram desenvolvidas; sequer conseguimos concluir a primeira delas! UM aluno conseguiu prejudicar cerca de 20 colegas, inutilizando dois tempos de aula (custeados pelo contribuinte carioca, convém lembrar).

O caso - tristemente comum - ilustra os apuros do professor da rede pública. Ao que tudo indica, o único pleno sujeito de direitos na atual escola pública é o mau aluno. Seu direito de estar na escola (para quê?) está acima do bem e do mal. Acima, inclusive, do direito de seus colegas a uma educação de qualidade. Acima também do dever do professor de oferecer atividades pedagógicas consistentes e construtivas.

Obviamente não digo que esse aluno deve ser sumariamente expulso da educação pública. No entanto, de nada adianta tê-lo na escola APENAS como fator de perturbação, prejudicando a aprendizagem de inúmeros colegas. Alunos como esse, de fato, precisam de muitas coisas:

1) Limites - o que se torna difícil com um regimento escolar leniente, baseados em questionáveis e rasas interpretações do Estatuto da Criança e do Adolescente, que parecem esquecer que também o estudante interessado tem direito à educação - direito esse que lhe é cotidianamente usurpado. Também se torna difícil com um conselho tutelar completamente ausente e ineficiente.

2) Recursos humanos - mais inspetores e coordenadores pedagógicos, para começar; uma escola com mais de mil alunos não tem como funcionar satisfatoriamente com menos de 10 profissionais de apoio - que dirá com 6...

3) Atendimento especializado - psicólogo e, principalmente, assistente social que atue CONTINUAMENTE junto à família.

4) Reprovação -  exatamente, a "palavrinha com R". É simplesmente inadmissível que um aluno de 12 anos chegue ao 6º ano analfabeto funcional e sem qualquer noção de regras de convívio; a vinculação das taxas de aprovação ao cálculo do IDEB é evidentemente parte do problema (cortesia do governo Lula).

5) Incentivos sociais adequados - que tal se benefícios como Bolsa Família (muito necessários, por sinal) não fossem condicionados apenas à presença do estudante na escola; por exemplo, se a família tivesse obrigação de comparecer periodicamente à escola?

Por outro lado, esse tipo de situação joga por terra clichês como "o aluno é indisciplinado porque a escola não é divertida, estimulante etc". O que mais seria possível fazer para "estimular" e "divertir" esse estudante?

Em suma, a escola precisa ser uma solução para esse tipo de aluno. Enquanto faltarem aos professores e demais profissionais da educação recursos como os mencionados, esses estudantes permanecerão como um estorvo para a escola e um empecilho à educação dos colegas, fragilizando o direito universal à Educação.

E aí, nem o mais inovador projeto pedagógico dá conta do recado...

"Tô chegando pra acabar com a aula!!!"

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Para que servem os estereótipos?

Estereótipos podem ser bem usados pelo escritor, desde que se saiba bem com que finalidade. Usar estereótipos abre possibilidades muito interessantes no campo da narrativa propriamente dita. Me parece que o problema todo é: o escritor usa os estereótipos ou os estereótipos "usam" o escritor? Quem está "no comando" da situação? Para narrativas cômicas ou satíricas, por sinal, o estereótipo pode ser uma ferramenta maravilhosa.

Os já clássicos filmes da franquia De volta para o futuro são um ótimo exemplo de narrativa brilhante elaborada a partir de estereótipos. Doc Brown é apenas um "cientista maluco" e Marty McFly é o clássico "adolescente inseguro que tenta parecer descolado". Os personagens secundários são apenas valentões, garotas românticas, nerds, o inspetor durão da escola, o bandido do Velho Oeste... e tudo funciona maravilhosamente! 

Por outro lado, essa obsessão recente por "personagens profundos" muitas vezes se torna uma receita para a "xaropada"...

domingo, 20 de novembro de 2016

Roleta bizantina

Toda semana uma mão invisível gira a roleta para decidir qual polêmica nos ocupará como questão de vida ou morte nos dias seguintes.

Nesses momentos, me pego gritando incansável e desesperadamente: "Playstation! Playstation! Playstation!"...

Constantinopla é aqui...

Fim de festa

Texto do amigo Fred Oliveira

Um ano atrás tava todo mundo junto: PMDB, PT, PP, entre outros. Se fingir de desentendidos agora e falar da crise e da roubalheira como algo que surgiu nos últimos meses é endossar patifaria. Basta passear pela net que nas fotos e reportagens estavam todos juntos rindo dos bobos que os aplaudem enquanto sangravam dinheiro público para particulares e propina lavada para políticos e dirigentes partidários. Sem falar da incompetência e da má gestão da coisa pública, cuja evidência mais eloquente está aí por todos os lados! Mas tem gente nesse país de torcida que ainda aplaude e cria inimizades para defender político... Triste tudo isso!

Lula e Cabral - Para não esquecer

"Votar em Sérgio Cabral é quase uma obrigação moral, ética, política. É um compromisso de honra pra quem quer garantir um futuro melhor para os nossos filhos, para os nossos netos, para aqueles que a gente ama, porque esse homem já provou que é um homem de bem, que é um homem que gosta do Rio e que é um homem que tem competência pra fazer as coisas que outros não fizeram. Por isso, meu companheiro Sérgio, se eu não tivesse que votar em São Paulo, eu iria transferir o meu título pra votar em você pra governador do Rio de Janeiro".

Lula, em comício na Cinelândia em 16 de julho de 2010 (transcrição e grifos meus).

Dilma, Temer, Picciani, Paes, Lindbergh: ótimas companhias...

sábado, 19 de novembro de 2016

Barbárie, sensacionalismo e mídia

Em 2011, escrevi um texto lamentando as comemorações em torno da morte de Osama Bin Laden. Alguns meses depois, tétricas imagens do cadáver de Gaddafi correram o mundo e a Internet, usadas até em piadas e memes.

Guardadas as devidas proporções, nos últimos dias a prisão de Garotinho e Cabral se tornou centro de um grande circo midiático. A patética (nos dois sentidos) imagem de Garotinho arrastado de uma maca pela polícia se tornou objeto de riso escarninho e, obviamente, muitos memes. Embora seja uma pessoa muito debochada e ainda mais raivosa, não conseguir ver graça. As lágrimas e gritos de Clarissa Garotinho não me alegram, não quitam as dívidas do Estado do Rio, nem pagam as minhas contas.

A decadência humana normalmente não me faz rir. Não rio de um menor infrator amarrado a um poste, e não vejo tampouco razões para rir de um ex-governador arrastado pela polícia. Opressor e oprimido são seres humanos, e a compaixão não deve, ou não deveria, conhecer limites. Há que se permanecer sensato, mesmo em tempos de insensatez.

Em épocas passadas, execuções eram espetáculos públicos e os cadáveres de criminosos eram esquartejados e seus pedaços expostos em ruas e praças. Na França, a gordura de "hereges" chegou a ser leiloada durante as Guerras de Religião. Na Inglaterra, até meados do século XIX, a pele de condenados era usada para fabricar carteiras, vendidas a bom preço como souvenirs. Durante a Revolução Francesa, cabeças cortadas eram exibidas como troféus e bijuterias em forma de guilhotina eram vendidas por comerciantes espertos.

Desde o século XVI gravuras de execuções e cordéis com histórias sanguinolentas sempre constituíram êxitos editoriais, sucessivamente transpostos para todo tipo de mídia consumida com volúpia. As mídias digitais são apenas a parte mais recente dessa história.

Mas a História mostra que, felizmente, o que outrora foi costume, às vezes se torna barbárie. Tenho esperanças...

Achei essa imagem no Google; não descobri data ou autoria, mas aparenta vir do mundo anglófono, entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do XX.