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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

1ª Carta Aberta ao Sr. César Benjamin, Secretário de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro

Caro Sr. Benjamin,

soube pela imprensa que o senhor foi indicado pelo prefeito Marcelo Crivella como novo secretário de Educação, Esporte e Lazer da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Confesso que não compreendi essa curiosa fusão de secretarias. De um ponto de vista puramente conceitual a ideia de integrar educação, esporte e lazer é interessante, mas me parece muito problemática em termos administrativos. Afinal de contas, a rede municipal do Rio de Janeiro já era a maior da América Latina, e funcionamos no limite do aceitável. Não percebo claramente quais seriam as vantagens imediatas dessa medida que talvez gere uma secretaria mais inchada e sobrecarregada do que já é.

Por outro lado, sua indicação ao cargo me causa espécie. Durante a campanha eleitoral, Crivella insistira que comporia um secretariado técnico. Pesquisando seu currículo, percebi que o senhor não tem carreira na área educacional; sua experiência no setor editorial talvez o qualificasse melhor para a Secretaria de Cultura, me parece.

Enfim, ouvi a entrevista que o senhor concedeu recentemente ao site SRzd, onde afirmava que sua prioridade seria dialogar com os professores. Se isso se concretizar, será realmente bom. Infelizmente ficamos escaldados pela gestão de Claudia Costin, que entrou na secretaria em 2009 com a mesma proposta, mas na prática conduziu uma administração extremamente autoritária, onde as decisões mais relevantes vinham unilateralmente do nível central da SME. Durante as greves de 2013 e 2014, curiosamente, a secretária que tanto desejava dialogar se recusava sistematicamente a negociar com os grevistas da Educação. Espero que com o senhor, as coisas corram de modo diferente.

Confesso que achei muito bonita a sua carta divulgada no site Rio Educa. Espero que essas belas palavras se tornem realidade durante sua gestão.

Como professor da rede, tomo desde já a iniciativa de começar a dialogar com o senhor. Nesse sentido, gostaria de apresentar-lhe algumas de nossas principais demandas e reivindicações. Apesar da deselegância, prefiro organizar em tópicos, para maior clareza:

-cumprimento da lei federal do 1/3 de carga horária semanal para planejamento de atividades;

-mudança do sistema de avaliação da rede, que quase todos os professores consideram um método velado de aprovação automática;

-contratação de profissionais de apoio para as escolas;

-revisão do Plano de Cargos e Salários, que nos foi arbitrariamente imposto em 2013;

-redução do quantitativo de alunos por turma, para evitar as salas de aula superlotadas;

-fim das provas da SME, que só existem para facilitar a aprovação de alunos, desqualificando o trabalho dos docentes de Matemática, Ciências e Língua Portuguesa.

Essas são apenas algumas demandas existem muitas outras. Ficaremos satisfeitos se o senhor se mostrar realmente disposto a discuti-las conosco. Estaremos vigilantes a cada passo de sua gestão.

Cordialmente,
Luiz Fabiano de Freitas Tavares
Professor de História da Escola Municipal Quintino Bocaiúva
Servidor municipal desde 2008

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Seu Pezão

Pezão parece até o Seu Madruga. Daqui a pouco vai até propor aos servidores trocar algumas parcelas de salário por uma fazenda de casimira inglesa "made in Taubaté". Meu medo é que ele resolva pagar "tudinho de uma vez no fim do ano". Nenhuma servidora por aí disposta a bancar a Dona Florinda...?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Limites e diferenciações do humano

Interessante trecho do já clássico Pureza e perigo, de Mary Douglas:

Radin interpreta o mito Trickster dos índios Winnebagos em linhas que servem para iluminar este ponto [a autoconsciência e a procura consciente da objetividade]. Aqui está um paralelo primitivo ao tema de Teilhard de Chardin de que o movimento de evolução tem sido em torno de uma crescente complexidade e autoconhecimento.

Estes índios viviam em condições técnicas, econômicas e políticas as mais simples e não-diferenciadas. Seu mito contém suas profundas reflexões sobre toda a questão da diferenciação. O Trickster começa como um ser amorfo e sem autoconsciêntica. Com o desenvolvimento da história, ele descobre, gradualmente, suas próprias partes anatômicas; oscila entre feminino e masculino, mas termina por fixar seu papel sexual masculino; e, finalmente, aprende a avaliar seu ambiente pelo que este é. Radin diz em seu prefácio:

Ele não deseja nada conscientemente. A todo momento é obrigado a se comportar da maneira como se comporta, devido a impulsos dos quais não tem controle... está à mercê de suas paixões e apetites... não possui nenhuma forma definida e bem fixada... acima de tudo, um ser incoado de proporções indeterminadas, uma figura prenunciando a forma de homem. Nesta versão, ele possui intestinos enrolados em volta de seu corpo e um pênis igualmente comprido enrolado em seu corpo, com seu escroto na ponta.

Dois exemplos de suas estranhas aventuras ilustrarão esse tema. Trickster mata um búfalo e está abatendo-o com uma faca na mão direita:

No meio de todas estas operações, seu braço esquerdo agarrou repentinamente o búfalo. "Dê-me isto de volta, é meu! Pare ou usarei minha faca em você!" Assim falou o braço direito. "Cortarei você em pedaços, isto é o que farei com você", continuou o braço direito. Nisso o braço esquerdo desprendeu sua presa. Mas pouco após o braço esquerdo agarrou novamente a presa do braço direito... e isto repetiu-se muitas vezes. Desta maneira, Trickster fez seus dois braços lutarem. Esta luta transformou-se logo numa luta feia e o braço esquerdo ficou muito machucado...

Em outra história, Trickster trata seu próprio ânus como se pudesse agir como um agente e aliado independente. Ele tinha matado alguns patos e antes de ir se deitar manda seu ânus vigiar a carne. Enquanto está dormindo, algumas raposas se acercam:

Quando elas chegaram perto, para surpresa delas, foi expelido um gás de algum lugar. "Pum", ouviu-se. "Cuidado! Ele deve estar acordado", e elas fugiram. Depois de algum tempo uma delas disse: "Bem, acho que agora ele está dormindo. Aquilo era um blefe. Ele está sempre usando alguns truques". Então, elas se aproximaram novamente do fogo. O gás foi expelido de novo e elas novamente fugiram. Isto aconteceu três vezes... Então o barulho de gás expelido foi mais alto, ainda mais alto. "Pum! Pum! Pum!" Porém, elas não foram embora. Pelo contrário, começaram a comer as partes assadas do pato...

Quanto Trickster acordou e viu que o pato não estava lá:

..."Oh! Você também, objeto desprezível, isto é coisa que se faça? Não lhe disse para que vigiasse o fogo? Você se lembrará disto! Como punição pelo seu descuido, queimarei sua boca e você não a usará a mais!" Então pegou um pedaço de madeira em chamas e queimou a boca de seu ânus... e gritou de dor pois estava castigando a si próprio.

Trickster começa isolado, amoral, inconsciente, desajeitado, ineficaz, como um animal bufão. Vários episódios podam e colocam corretamente seus órgãos corporais, e, assim, ele termina se parecendo com um homem. Ao mesmo tempo, ele começa a ter um conjunto mais coerente de relações sociais e a aprender duras lições sobre seu ambiente físico. Num importante episódio, ele confunde uma árvore com um homem e responde-lhe como faria a uma pessoa, até que, finalmente, descobre que ela é uma coisa meramente inanimada. Assim, aprende, gradualmente, as funções e limites do seu ser.

Considero esse mito como uma bela afirmação poética do processo que leva desde os primeiros estágios da cultura à civilização contemporânea, diferenciados em várias maneiras. O primeiro tipo de cultura não é pré-lógico, como Lévy-Bruhl, infortunadamente, intitulou-o, mas pré-copernicano. Seu mundo gira ao redor do observador que está tentando interpretar suas experiências. Gradualmente, ele se separa de seu ambiente e percebe suas limitações e poderes reais. Este mundo pré-copernicano é, acima de tudo, pessoal. Trickster conversa com as criaturas, coisas e partes de coisas, sem discriminação, como se fossem seres animados, inteligentes. Este universo pessoal é o tipo de universo que Lévy-Bruhl descreve. É também a cultura primitiva de Tylor e a cultura animista de Marett e o pensamento mítico de Cassirer.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O problema não é viver na gaiola; o verdadeiro problema é amar as grades...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Star Wars antes de STAR WARS

Interessante vídeo lembrando que Star Wars nem sempre foi o que conhecemos - sob vários aspectos... Mais ainda, o vídeo lembra que o planeta Terra era um tanto diferente algumas décadas atrás. Os comentários racistas de David Prowse feitos na mais perfeita ingenuidade (ou não) são particularmente reveladores.

"A storm is coming"



Interessante diálogo de The Dark Knight Rises, de Chris Nolan

Bruce: Não parece feliz de me ver.

Selina: Você não era inválido?

Bruce: Senti vontade de tomar um pouco de ar fresco...

Selina: Por que não chamou a polícia?

Bruce: Tenho um amigo poderoso que cuida dessas coisas para mim. É um disfarce audacioso para uma ladra.

Selina: É? Quem você está fingindo ser?

Bruce: Bruce Wayne, bilionário excêntrico. Quem é seu par?

Selina: A esposa está em “Ibitsa”. Deixou os diamantes. Medo de roubo.

Bruce: É “Ibiza” que se fala. Não vai querer que saibam que é ladra, não alpinista social...

Selina: Acha que me importo com o que pensam de mim aqui?

Bruce: Duvido de que se importe com o que pensam de você em qualquer lugar.

Selina: Não me subestime, Sr. Wayne. Não sabe nada sobre mim.

Bruce: Bem, Selina Kyle, sei que veio do seu prédio sem elevador. Modesto para uma grande ladra de jóias. Ou está economizando para sua aposentadoria ou... está envolvida com as pessoas erradas.

Selina: Não pode me julgar porque nasceu na suíte Master da Mansão Wayne.

Bruce: Na verdade, eu nasci na suíte Regência.

Selina: Eu comecei fazendo o que tinha de fazer. Uma vez que começa, nunca mais pode fazer o que quer.

Bruce: Recomece do zero.

Selina: Não há recomeço no mundo de hoje. Qualquer adolescente com um celular descobre o que fez. Tudo que fazemos é registrado, quantificado e usado contra nós.

Bruce: É assim que justifica seus roubos?

Selina: Pego o que preciso de quem tem sobrando; não me aproveito de quem tem pouco.

Bruce: Robin Hood?

Selina: Eu faria mais para ajudar alguém do que a maioria aqui. Mais do que você.

Bruce: Não está supondo coisas demais?

Selina: Talvez VOCÊ suponha demais quanto ao que tem dentro da calça além da carteira...

Bruce: Ai!

Selina: Acha que isso tudo pode durar? Há uma tempestade chegando, Sr. Wayne. Você e seus amigos deviam se preparar, pois quando ela chegar vocês se perguntarão como podiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós.

Bruce: Parece estar ansiosa por isso.

Selina: Sou adaptável...

Jutaí, 2016 - "The fire rises"

Em 2015 o povo do município amazonense de Coari depredou inúmeros edifícios públicos e privados, revoltado com a situação do funcionalismo público local, que não recebia salário havia 5 meses.

Em 28 de dezembro de 2016, apenas alguns dias atrás, episódio semelhante ocorreu em outro município amazonense, Jutaí, onde os servidores não recebem há três meses. A casa da ex-prefeita e uma loja de seu marido foram incendiados.

Nossos governantes deveriam assistir alguns filmes recentes, como The Dark Knight Rises, de Chris Nolan. Como diz Selina Kyle, "uma tempestade está chegando". Ou, como diz o personagem Bane, mais enfaticamente, "the fire rises"...



domingo, 1 de janeiro de 2017

Luz: entre pintores e cientistas

"Antes dos trabalhos de Newton, os pintores ignoravam certas propriedades da luz, o que não os impedira de desenvolver um savoir-faire espantoso. [...] os dados obtidos [pela arqueologia molecular] sublinham a que ponto o artista [Nicolas Poussin] realizou cada uma de suas obras segundo uma unidade de conjunto com uma precisão notável que o conduziu a se tornar teórico da cor e das práticas pictóricas. [...] O procedimento de Nicolas Poussin certamente não foi muito distante daquele que conduziu Isaac Newton a arranjar um prisma e decompor a luz branca: um procedimento que associa observação e experiência, seguidos de raciocínio".

Philippe Walter

A tempestade (c. 1651), Nicolas Poussin, óleo sobre tela

Apologia de Jar Jar Binks

"Sua função é se dirigir às crianças e ser insuportável para todos os demais. A moral da história é que, às vezes, você tem de aturar essas pessoas insuportáveis. Ainda assim é preciso tratá-las com dignidade e respeito. Toda vida tem valor"

Bryan Young, apud Chris Taylor, Como Star Wars conquistou o universo.


Rogue One não precisava de Star Wars (e vice-versa)

Muita gente gostou de Rogue One; algumas pessoas até o consideraram o melhor filme de Star Wars. Eu achei a produção ao mesmo tempo medíocre (enquanto filme) e péssima (enquanto filme da série Star Wars).

Em primeiro lugar, o universo de Star Wars não precisava de Rogue One, que se dedica a explicar (mal) o que não precisava de explicações.

O filme narra o roubo dos planos da Estrela da Morte pela Aliança Rebelde, mencionado no início do Episódio IV, e vai semeando um bocado de contradições e inconsistências pelo meio do caminho. Aponto apenas algumas delas. Logo no início de Uma nova esperança, a princesa Leia censurava Darth Vader por sua violenta abordagem à Tantive IV, uma nave diplomática, enquanto Rogue One mostra a nave recebendo as plantas diretamente, no meio de uma grande batalha espacial. A discreta brecha de segurança na Estrela da Morte sugeria que mesmo os mais poderosos equipamentos possuem seu acidental calcanhar de Aquiles, uma noção bem afinada com a crítica de Lucas à sociedade industrial e à fragilidade dos impérios, enquanto o novo filme "explica" essa falha como algo propositalmente planejado por um cientista dissidente.

Em suma, Rogue One pretende explicar demais, o que pode ser fatal a qualquer fantasia, como bem observava David Mazzuchelli acerca dos quadrinhos: quanto mais realismo se deseja instilar na obra, mais evidentemente irreal parece a premissa original. George Lucas também sabia disso. Conforme nota o cineasta, ninguém precisa saber como "realmente" funciona um hyperdrive - é apenas um equipamento que permite viajar à velocidade da luz, possibilitando que os personagens percorram as distâncias entre planetas. Qualquer explicação (pseudo)científica adicional tornaria hyperdrives, blasters, sabres de luz etc cada vez menos críveis - e não o contrário.


Desde o início, Lucas deu a Star Wars um fundo mitológico, inspirado pela (não muito boa) obra do "mitólogo" Joseph Campbell. Star Wars funciona como um conto de fadas - "A long time ago, in a galaxy far, far away"... O universo criado por Lucas tinha inúmeras e interessantíssimas referências históricas, mas sempre refratadas pelo prisma lendário - "História ouvida à soleira da Lenda", como diria talvez Victor Hugo. Um breve comentário de Gareth Edwards, diretor de Rogue One, mostra sua fatal dificuldade em compreender a premissa: "It's the reality of war. Good guys are bad. Bad guys are good. It's complicated, layered; a very rich scenario in which to set a movie" ["É a realidade da guerra. Caras bons são maus. Caras maus são bons. É complicado, em camadas; um panorama muito rico em que situar um filme"].

Ao contrário do que muita gente fala, o universo criado por Lucas não é tão maniqueísta quanto parece à primeira vista, embora trate a ambiguidade moral de maneira sutil. Afinal de contas, todo mundo sabe que Han atirou primeiro... As próprias mudanças e remendos que Lucas fez em sua obra servem como comentário metalinguístico a essa ambiguidade original. Edwards, pelo contrário, parece pregar essa ambiguidade na testa do espectador a cada instante do filme (com uma marreta).

Han Solo é um personagem "complexo, em camadas" - e, como todas as coisas realmente complexas, isso não fica evidente à primeira vista. Na verdade, Han foi gradativamente evoluindo segundo rumos imprevistos ao longo da produção da trilogia original; descobrimos e desembrulhamos suas "camadas" conforme ele enfrenta inúmeros problemas. Por outro lado, os personagens supostamente complexos de Rogue One querem entregar sua "complexidade" ao espectador embrulhada para viagem desde as primeiras cenas; as tais "camadas" aqui parecem transparentes. O único personagem realmente interessante e intrigante no filme é K-2SO, um robô - e isso diz quase tudo. De resto, como já explorei em outro texto, a obra de Edwards padece do mesmo mal que tantos outros filmes recentes: excesso de personagens e caracterização demasiadamente veemente, resvalando na caricatura.

Tudo isso nos leva à questão inicial: Rogue One não precisava de Star Wars. É apenas um filme de guerra espacial "realista" [sic] que poderia ser situado em qualquer outra galáxia distante. Nesse sentido, é uma obra que reúne os piores "erros" encontrados em outras obras do chamado "universo expandido". Em outra ocasião posso enumerar alguns deles; por aqui, basta uma síntese: o grande equívoco é achar que Star Wars é apenas um universo ficcional, e não um determinado cânone estético.

Há pouco tempo li as primeiras histórias em quadrinhos de Star Wars, produzidas nos anos de 1977 e 1978, logo depois do lançamento do primeiro filme, desenhadas por Howard Chaykin, um dos artistas mais populares da época. Os criadores visivelmente não haviam compreendido a proposta de Lucas - desenvolveram apenas uma série de narrativas protagonizadas por Luke, Han e Leia, mas estritamente aparentadas a outras tantas ficções científicas da época. Não perceberam, por exemplo, que os figurinos de Star Wars tendiam mais ao "histórico" que ao "futurista", assim como não entenderam que o design das naves e tecnologias do filme se afastava significativamente de outras obras do gênero.

É exatamente o que se passa com Rogue One: os personagens, temas, tramas, padrões narrativos e a própria trilha sonora destoam do cânone estético de Star Wars. A abordagem, principalmente, destoa das melhores obras de Star Wars produzidas em inúmeras mídias. Rogue One pretende - pretensiosamente, por assim dizer - ser um filme "sério", enquanto a obra de Lucas tangencia inúmeros temas relevantes, sem jamais se levar excessivamente a sério. O riso é parte vital de Star Wars. C-3PO, R2-D2, Chewbacca e até o recente BB-8 são carismáticos e cativantes porque são engraçados. O riso rompe barreiras entre universos, dando vida àquela galáxia distante. Não à toa o engraçadíssimo pastiche-paródia William Shakespeare's Star Wars é delicioso, enquanto muitos dos livros "sérios" do universo expandido são soporíferos. É claro que isso nem sempre dá certo, como comprova o tão odiado Jar Jar Binks.

Um contraponto pode ser interessante aqui. Em 2015 os irmãos Wachowski lançaram a curiosa fantasia espacial Jupiter ascending, que descreveram como uma mistura de Star Wars com O Mágico de Oz. Embora a aventura não se situe no universo de Lucas, traz uma abordagem muito mais fiel a sua estética que Rogue One. Nesse sentido, vale notar que uma tensão mal resolvida percorre todo o filme de Edwards: por um lado, contém um excesso de referências à saga, piscando para o espectador como se sofresse de um tique nervoso; por outro, busca ostensivamente romper com a estética de Lucas, se afirmando como algo novo. Isso fica muito claro na cena em que, para efeito cômico, a protagonista Jyn ordena silêncio ao droid K-2SO, interrompendo o bordão repetido em todos os filmes anteriores por personagens variados, "I have a baaaad feeling about this".

Obviamente é válido e legítimo produzir diversas abordagens sobre o universo de Star Wars, como já acontece há décadas no universo expandido; há muito tempo passei da idade de ser purista com esse tipo de coisa. Toda a questão consiste em avaliar quão satisfatórios são os resultados - o que, evidentemente, depende de gostos e perspectivas. Minha opinião sobre Rogue One é simplesmente que "the Force is not strong with this one".

Concluindo, há quem diga que George Lucas seguia uma receita de bolo. Na minha opinião, isso diz menos sobre a obra do cineasta que sobre a ignorância culinária daqueles que endossam esse parecer. Qualquer pessoa experimentada em forno e fogão sabe que a receita é apenas o ponto de partida. Alterações sutis na quantidade e proporção dos ingredientes, no movimento de mistura ou na temperatura e tempo de cozimento trazem resultados significativamente diferentes. É por isso que cada um dos episódios produzidos por Lucas tem sabor próprio. Mesmo O Império contra-ataca e A vingança dos Sith são agridoces de maneiras muito diferentes. Rogue One precisava de mais açúcar e menos carbonite...

sábado, 31 de dezembro de 2016

Carta de despedida ao ex-prefeito Eduardo Paes

Sr. Eduardo Paes,

soube através da imprensa que o senhor se emocionou às lágrimas ao se despedir dos servidores do município do Rio de Janeiro na última sexta-feira. Uma cena comovente para quem não conheceu de perto sua gestão.

Não sei quanto às demais secretarias, mas os servidores da Educação foram continuamente massacrados pela sua gestão durante os últimos oito anos, como comprovam fartamente as greves de 2013 e 2014.

Em 2013, por sinal, o senhor fez questão de nos empurrar goela abaixo um plano de cargos e salários que prejudicava imensamente os servidores, especialmente os professores de 16 horas. Graças a esse plano, por exemplo, eu hoje detenho o título de doutor, mas não tenho direito a progressão salarial, ao contrário dos professores de 40 horas.

Caso o senhor tenha esquecido, gostaria ainda de lhe lembrar que esse mesmo plano foi passado sob uma monstruosa e iníqua votação na câmara dos vereadores, ao som de explosões e cheiro de lacrimogênio, num episódio que os servidores da Educação já se acostumaram a chamar de "Massacre da Cinelândia".

Ainda durante a greve de 2013, o senhor e a então secretária de Educação, Claudia Costin, se recusaram terminantemente a cumprir a LEI federal que determina 1/3 de horário de planejamento para os professores. Lei essa que, passados mais 3 anos continua a ser descumprida pela prefeitura.


Já em 2014, o senhor cortou ILEGALMENTE o ponto de inúmeros servidores da Secretaria de Educação que exerciam seu direito CONSTITUCIONAL à greve - entre os quais me incluo. Tudo isso sugere que o senhor mostra pouca inclinação ao cumprimento de leis - o que parece um comportamento estranho para um chefe do Executivo. Os meses de julho e agosto de 2014 foram sofridos para nossas famílias, e não imagino que o senhor tenha derramado qualquer lágrima ao tomar essa arbitrária medida.

Por sinal, embora tenhamos ganho a causa contra o senhor na Justiça, nossos salários daqueles meses foram depositados em embargo, e ainda passarão muitos anos até que recebamos os valores que nos são devidos. Muitos colegas contraíram dívidas que ainda não terminaram de pagar.

Vale ainda lembrar que durante seus dois mandatos o preço das passagens de ônibus subiu de modo exorbitante, prejudicando o orçamento familiar de todos os usuários de transporte público em nossa cidade, o que me deixa confuso sobre sua declaração: "Saio de cabeça erguida sabendo que fizemos o máximo pelo nosso povo, pelas pessoas que necessitavam" - a não ser, é claro, que os donos das empresas de ônibus sejam as pessoas necessitadas às quais o senhor se refere.

Também soube que o senhor orou, cantou músicas religiosas e falou muito em Deus durante sua despedida. Podia ter aproveitado e incluído em suas orações as pessoas que morreram no trágico e evitável desmoronamento da Ciclovia Tim Maia, vítimas de sua gestão negligente.

De resto, tomo a liberdade de recomendar sinceramente que o senhor se afaste em definitivo da vida política de nossa cidade - para seu próprio descanso e para maior benefício do povo carioca. Ouvi dizer que Maricá é um ótimo lugar para aposentadoria, por sinal. Já que o senhor anda tão religioso, outra sugestão interessante é aproveitar seu tempo livre para visitar seu amigo Sérgio Cabral - Jesus dizia que visitar pessoas na prisão é uma obra meritória.

Cariocamente,
Prof. Luiz Fabiano Tavares
(Sobrevivente de seus últimos dois mandatos)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Telemarketing: como deveria ser e como é

Como deveria ser:

1 - O cliente deseja uma informação sobre forma de pagamento aceita em uma loja física.

2 - O cliente liga para a central de atendimento e comunica sua dúvida.

3 - O atendente responde à dúvida de modo claro e objetivo ("Sim, aceitamos" ou "Não, não aceitamos").

4 - Fim.

Como é:

1 - O cliente deseja uma informação sobre forma de pagamento aceita.

2 - O cliente liga para a central de atendimento e comunica sua dúvida.

3 - O atendente pede informações para cadastrar o cliente (para captura de dados, obviamente).

4 - O cliente diz que não quer se cadastrar, deseja apenas uma informação simples e objetiva.

5 - O atendente desliga na cara do cliente.

6 - O cliente liga novamente, é atendido por outro atendente que também deseja fazer cadastro e desliga na cara do cliente.

7 - O cliente liga novamente e seleciona a opção "fazer reclamações".

8 - O cliente informa que ligou duas vezes solicitando uma informação simples e suas ligações foram derrubadas.

9 - O atendente do serviço de reclamações quer cadastrar o cliente.

10 - O cliente diz que não quer fazer cadastro nenhum, deseja apenas uma informação simples e objetiva.

11 - O atendente diz que vai buscar a informação e deixa o cliente na linha por alguns minutos.

12 - O atendente retorna e pergunta se o cliente deseja receber informações sobre promoções.

13 - O cliente afirma que não quer saber sobre promoções, que apenas deseja uma informação sobre formas de pagamento.

14 - O atendente pergunta tudo de novo, diz que vai buscar a informação e deixa o cliente na linha.

15 - O atendente retorna sem uma informação objetiva: talvez aceite, talvez não aceite. Recomenda ligar para uma loja física.

16 - O cliente, se esforçando para manter a polidez, informa que não encontrou o telefone da loja física no site.

17 - O atendente diz que vai procurar, deixa o cliente na linha por mais alguns minutos, e retorna com o número da loja física.

18 - O cliente liga para a loja física e é imediatamente atendido.

19 - O atendente da loja física não sabe esclarecer a dúvida do cliente.

20 - O atendente transfere a ligação.

21 - A ligação cai.

22 - O cliente liga novamente.

23 - Ninguém atende.

24 - O cliente continua sem a informação simplíssima que desejava.

25 - Fim.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ondas curtas e fibra ótica

Lá pelo fim dos anos 80, meu avô chegou em casa com um curioso pacote. Era um rádio compacto Philips, capaz de captar ondas curtas. Fiquei fascinado ao saber que o aparelho poderia sintonizar com rádios do mundo inteiro, embora àquela época eu tivesse apenas uma vaga ideia do que seria o "mundo inteiro". Por sinal, ainda hoje, embora tenha uma ideia um pouquinho melhor sobre o tamanho do mundo, estou longe de ter uma noção adequada do que seria o "mundo inteiro" - como qualquer outro ser humano, aliás.

O aparelho prometia mais que entregava. Sua sintonia era melhor à noite (menos interferência solar) e ao ar livre. Me lembro de algumas noites passadas na varanda, tentando, com muita dificuldade, ajustar os botões do aparelho para captar rádios de outros continentes. A sintonia, quando conseguida, costumava ser muito frágil, repleta de interferências e rapidamente perdida. Era um trabalho de tentativa, erro e paciência, realizado quase às cegas. Ainda assim, por breves momentos, era como se uma janela se entreabrisse, permitindo que vozes misteriosas nos chegassem em línguas estrangeiras. Às vezes espanhol, outras inglês. De quando em quando, alguma língua asiática soterrada sob violento chiado.

Havia um quê de imprevisível, fascinante e mágico nesses efêmeros contatos estabelecidos com terras distantes. Por sinal, meu conhecimento de línguas estrangeiras não me permitia compreender grande coisa. O importante, me parece hoje, não era entender nada; era o deleite no próprio contato.

Hoje à tarde descobri, quase por acaso, o interessante site Radio Garden, que permite sintonizar via Internet com rádios do mundo inteiro. Embora hoje seja fácil acessar conteúdo do mundo inteiro, senti como se fosse um fascinante retorno à infância. Por quê? Talvez seja a impressão de imprevisibilidade, de ir navegando aleatoriamente pelo mapa, experimentando, buscando não-se-o-quê, de não-se-sabe-onde. Ir clicando ao acaso, às cegas, ouvindo sons muito mais nítidos, em tantas línguas desconhecidas, indecifráveis. Músicas soando estranhas ou familiares a um e outro tempo. Quem disse que a globalização seria chata...?

Radio, someone still loves you...

Sobre automação, computadores, linguagem e plenitude humana

"Um historiador de tecnologia que morreu no ano passado, Thomas Hughes, falava sobre o conceito de momento [momentum] tecnológico: que a tecnologia, uma vez instalada em nossas estruturas e processos sociais ganha impulso próprio e nos puxa com ela. Então talvez a trajetória já esteja definida, que continuaremos seguindo pelo caminho em que estamos, sem questionar a direção tomada. Eu não sei. O melhor que posso fazer é tentar pensar com a máxima clareza possível sobre essas coisas, porque elas parecem tão complicadas e confusas.

Espero que, como indivíduos e sociedade, mantenhamos uma certa consciência sobre o que se passa, e certa curiosidade sobre isso, para que possamos tomar decisões que atendam a nossos interesses a longo prazo, em vez de ir cedendo a conveniência e velocidade e precisão e eficiência.

Creio que deveríamos solicitar de nossos computadores que eles enriqueçam nossa experiência de vida; que eles nos abram novas oportunidades, em vez de nos tornarem passivos olhadores de telas. E, no fim, penso que nossas últimas tecnologias, se pedirmos mais delas, podem fazer o que tecnologias e ferramentas fizeram através da história humana, que é tornar o mundo um lugar mais interessante para nós, e nos tornar melhores pessoas. No fundo, isso é algo que depende de nós".
Nicholas Carr

"Uma objeção é que, mesmo que você não compre a hipótese de que meu smartphone é efetivamente um pedaço de minha mente carregado na mão, é difícil ignorar as cumulativas evidências em torno das vulnerabilidades da cognição humana. Não somos apenas criaturas de hábitos; também somos criaturas de escrutínio consciente limitado e facilmente exausto. Distraia ou canse alguém - dê-lhe uns poucos problemas de cálculo mental a resolver e publicidade relâmpago nos cantos de sua visão e sua força de vontade é esgotada. "Cutucar" nossas decisões é agora uma ciência alimentada por bilhões de bits de dados. E que mecanismo melhor para cansar mesmo o mais atilado pensador que o incansável zumbido do hardware em nossos bolsos e software em sua nuvem circundante?


É esse exponencial impacto da tecnologia da informação que propõe o maior problema para tudo que costumávamos pensar como normal, equilibrado, autoconsciente e autorregulado. Vivemos em uma era de infiltração generalizada, e nossas patologias são aquelas do excesso. Junk food, projetada para um deleite que não conseguimos parar de engolir. Junk media, junk information, junk time - espasmos algorítmicos exigindo atenção, buscando se tornar parte de nossos padrões mentais".
Tom Chatfield

"Como aconteceu com o reino das finanças [na crise de 2008], pode acontecer com a tecnologia. Se as grandes edificações digitais vierem despencando abaixo - mesmo temporariamente - aqueles que mais deslumbradamente tiverem entregue suas pessoas às ferramentas smart ficarão com mais cara de bobos. Ainda assim, todos nós carregamos o risco de uma abordagem acrítica do "smart living": um tecido social tramado a máquina, que ao apertar de um botão ou arrebentar de um cabo, poderia se desmanchar inteiramente".
Tom Chatfield

"Como computadores não podem vir até nós e conhecer-nos em nosso mundo, devemos continuar ajustando nosso mundo e nos levando até eles. Definiremos e regularemos nossas vidas, incluindo nossas vidas sociais e nossas percepções sobre nós mesmos, de maneiras que conduzam ao que um computador pode 'entender'. A sua estupidez se tornará a nossa".
David Auerbach

"Em termos computacionais, fazer as coisas de modo que o sistema não 'entende' é não fazer absolutamente nada. É tornar-se incompreensível, absurdo, como tentar introduzir uma banana numa impressora, em lugar de papel. O que conta é sinônimo do que é contado [contabilizável]".
Tom Chatifield

"O que nos traz de volta ao futuro do autocorrect e autocomplete: nos encorajando a não pensar profundamente demais sobre nossas palavras, a tecnologia preditiva pode mudar sutilmente o modo pelo qual interagimos uns com os outros. À medida que a comunicação se torna um ato menos intencional, oferecemos aos outros mais algoritmos e menos de nós mesmos. Por isso argumentei em Wired no ano passado que a automação pode ser ruim para nós; pode nos fazer parar de pensar. ~[...] Quando algoritmos estudam nossa comunicação consciente e subsequentemente nos repetem para nós mesmos, eles não identificam o ponto em que essa reciclagem se torna degradante e unidimensional. (E perversamente, a frequência de uso de palavras costuma receber peso positivo quando algoritmos calculam relevância). [...] Quando nos conectamos uns com os outros, deveríamos lembrar que, embora sejamos consistentes em várias maneiras, não somos produtos uniformes, produzidos em massa e condenados a conversas redutoras, insossas e sem inspiração. Temos coisas espontâneas a dizer que nunca havíamos antecipado; declarações e questões que exigem expressão cuidadosa, nuançada e formulada de modo inédito".
Tom Chatfield

"Ao reprojetar sua versão online, o LA Times fez com que cada matéria comece com três resumos tuitáveis. E eles fazem isso acima do artigo, assim você pode tuitar sem mesmo lê-lo e decidir o que você pensa sobre o assunto. Tweeters de sucesso usarão isso? Provavelmente não. Mas me preocupa o fato de que isso vem se tornando cada vez mais infundido na arquitetura dos sistemas. [...] Exceto que predizer você é predizer um você previsível. O que por si só subtrai algo de sua autonomia. E encoraja você a ser previsível, a ser um facsimile de si mesmo. Então é previsão e indução ao mesmo tempo [...] Eu acho que o slogan que responde isso seria algo como 'esforço é o preço do cuidado'. E por esforço quero dizer uma presença deliberadamente focada. Quando abdicamos disso, injetamos menos cuidado em uma relação. É o que penso que a automação faz. É o que acho que essas pessoas [desenvolvedores] deixam fora da equação".
Evan Selinger

"O QG do Google, em Mountain View, California - o Googleplex - é a alta igreja da Internet, e a religião praticada entre suas paredes é o Taylorismo. Eric Schmidt, executivo chefe da empresa, diz que o Google é 'uma companhia fundada em torno da ciência da mensuração', e busca intensamente 'sistematizar tudo' o que faz. Usando os terabytes de dados comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, conduz milhares de experimentos por dia, segundo a Harvard Business Review, e usa os resultados para refinar os algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e dela extraem sentido. O que Taylor fez pelo trabalho manual, Google vem fazendo pelo trabalho mental. [...] No mundo do Google, o mundo em que entramos quando ficamos online, há pouco espaço para a confusão da comtemplação. A amibguidade não é uma abertura para o insight, mas um bug a ser consertado. O cérebro humano é apenas um computador obsoleto que precisa de um processador mais rápido e um HD maior. [...] Quanto mais rápido navegamos na Web - quanto mais links clicamos e páginas vemos - mais oportunidades Google e outras companhias encontram para coletar informação sobre nós e nos apresentar anúncios. A maioria dos proprietários da Internet comercial têm interesse financeiro em coletar as migalhas de dados que deixamos enquanto pulamos de link em link - quanto mais migalhas, melhor. A última coisa que essas companhias querem é encorajar a leitura tranquila ou o pensamento lento e concentrado. É de seu interesse econômico nos levar à distração. [...] No mundo de 2001, as pessoas se tornaram tão mecânicas que o personagem mais humano acaba sendo uma máquia. Essa é a essência da sombria profecia de Kubrick: quanto mais dependemos de computadores para mediar nosso entendimentos sobre o mundo, é nossa própria inteligência que se aplaina em inteligência artificial".
Nicholas Carr

A universidade brasileira, as línguas estrangeiras e a "inserção internacional"

Comentários recortados de uma conversa no Facebook


Certos cursos de graduação exigem alguns períodos de língua estrangeira instrumental e talvez todos devessem fazer a mesma exigência, mas não ao longo de todos os períodos, creio. Seria até mais produtivo, por exemplo, que se exigisse 2 e até 3 línguas diferentes - em lugar de apenas uma durante o curso inteiro.

Por outro lado, discordo da obrigatoriedade do inglês. Seria mais produtivo, me parece, que tivéssemos bons leitores em várias línguas, capazes de trazer contribuições estrangeiras mais plurais, aumentando nossa "superfície de diálogo", por assim dizer.

Além disso, interesses variados requerem ferramentas diferenciadas. O francês foi e é muito mais importante que o inglês para mim. Na graduação fiz dois semestres de latim instrumental que me foram de grande valia. Na verdade, acho que se houvesse a exigência de uma língua obrigatória na graduação em História, deveria ser o latim! Pode parecer preciosismo, mas o conhecimento do latim dá outra espessura à percepção das relações entre tempo e linguagem; é quase como enxergar a "planta baixa" da cultura ocidental. Ok, agora exagerei...!

Enfim, tendo a pensar a questão por outro viés, mais intelectual que acadêmico. O aprendizado de línguas estrangeiras oferece insights sobre a linguagem e a construção de conhecimento que me parecem muito mais importantes que a "internacionalização da universidade" propriamente dita.

Acho que esse aprendizado desempenha uma função muito mais significativa que o mero acesso à bibliografia acadêmica x ou y. No meu caso, o francês foi o mais importante para a minha formação; para outra pessoa pode ser o italiano, o russo, o japonês... A questão, me parece, é o encontro com a língua estrangeira enquanto outro código cultural para pensar a realidade, ampliar horizontes. 

Nesse sentido, até um aprendizado parcial ou incompleto tem seu valor. Durante a adolescência tentei por muitos anos aprender árabe, mas nunca consegui assimilar grande coisa; ainda assim, o contato com a língua teve um papel "interessante" em minha formação, especialmente na percepção da codificação da língua escrita. A própria compreensão de minhas dificuldades em penetrar nesse outro universo linguístico me ajudou a compreender (um pouco) melhor as distâncias entre trajetórias culturais distintas. 

A distinção fundamental, me parece, é se queremos formar um acadêmico capaz de ler, escrever etc em uma língua estrangeira ou se tencionamos formar um intelectual com certa sensibilidade às nuances da linguagem. São propósitos muito diferentes, e o último me parece muito mais importante que o primeiro.

Por outro lado, penso que a questão da língua é secundária em relação a nossa "inserção internacional". Temos poliglotas suficientes para ler, falar e publicar em línguas estrangeiras, mas sofremos de certo "provincianismo temático" que me parece letal nesse sentido. Basta olhar as dissertações e teses defendidas em nossos programas de pós. Quase todos os trabalhos são centrados em História do Brasil, da América Latina ou do mundo ibérico - o que redunda numa esfera de diálogo bastante estreita. Basta uma olhada nos grandes centros europeus de produção historiográfica (declinantes ou ascendentes) para perceber que há uma variedade imensa de recortes geográficos e cronológicos. Frequentando seminários no Centre Roland Mousnier (Sorbonne) e na EHESS ficava evidente o amplo leque de regiões e períodos estudados pelos jovens pesquisadores.

Uma comparação parece sugestiva: a antropologia brasileira se tornou imensamente relevante no plano internacional nas últimas décadas em grande medida porque encontrou um meio de romper com essa lógica. Como vi há pouco tempo um grande antropólogo brasileiro falando, ganhou muito espaço certa tendência a pensar o índio "no Brasil" em lugar de uma tradição mais arraigada que pensava o índio "do Brasil" - a coisa muda de figura. Há antropólogos no Museu Nacional de quem se diz, por exemplo, que é "a forefront actor in the inquiry on what it is to be human" - e não estamos falando aqui de Eduardo Viveiros de Castro, que é "apenas" a estrela mais brilhante de uma grande constelação. Claro reflexo disso é que hoje o Museu Nacional atrai significativa quantidade de pós-graduandos estrangeiros, inclusive da Europa.

Além de tudo, nosso ensino básico, mesmo nas melhores escolas particulares, é muito fraco. Muitos estudantes chegam à graduação com dificuldades básicas de interpretação de texto, hábitos de leitura e estudo deficientes, buracos de formação imensos e por aí vai. A falta de domínio de línguas estrangeiras é um mal, mas provavelmente o menor dos males. Há pouco tempo fiz um parecer a um artigo de um mestrando que mais parecia um texto de estudante secundarista - e não é um ponto muito afastado da curva. 

Há pouco tempo um professor de certa universidade federal me dizia que cerca de 50% de seus estudantes de primeiro período não se mostravam aptos a decifrar um texto acadêmico. Outro conhecido, que leciona numa prestigiosa universidade particular também se queixava de situação semelhante.

Acho que algumas críticas de Tolstói à Rússia dos czares caem como uma luva ao Brasil de hoje: investimos mundos e fundos em pesquisa e pós-graduação enquanto o ensino básico está entregue às baratas e depois nos espantamos com o resultado final da coisa. Gastamos muito com verniz, mas investimos pouco em madeira, por assim dizer. Por alguma estranha razão, agimos como se bolsas de mestrado e doutorado fossem capazes de transubstanciar anos de incúria educacional em brilhantismo acadêmico. Um pesquisador de alto nível não se faz em meros dez anos de graduação e pós. Nos preocupamos mais com o telhado que com os alicerces, e depois simplesmente fingimos que as métricas de produtividade científica retratam fielmente a realidade.

A bem dizer, o ensino básico anda em crise no mundo inteiro, mas aqui o panorama se torna muito pior pelo simples fato de que nunca foi grande coisa. 

Sad, but true.