terça-feira, 27 de novembro de 2018

O passado como fábula

"Lembro-me das histórias antigas que me contavam na infância... Histórias de guerreiros e lutas nas montanhas de Ueno... De como era a cidade antigamente... Memórias da Era Edo [1603-1868]... Muitas narrativas e até encenações sobre como meu avô lutou contra Saigo Takamori... E hoje eu estou aqui, lutando numa guerra. Será que um dia eu vou poder contar tudo isso pros meus netos? Sentado sob o sol numa bela varanda... 'Sabia que o vovô já pilotou caças numa guerra?' Quando esse dia chegar, como será que o Japão vai estar? Para mim, aquelas histórias da Era Edo sobre o  meu avô pareciam contos surreais. Talvez nossos netos, ao ouvirem nossas histórias, também irão achar que são coisas de um passado distante..."
Naoki Hyakuta


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quando superabundam os santos-do-pau-oco, fazem-se mais que necessários os advogados do Diabo...

domingo, 12 de agosto de 2018

Esvaziando Bolsonaro

Hoje [10/08] peguei um taxista eleitor de Bolsonaro. "A gente precisa de alguém que bote ordem nesse país" - disse ele.

Nesse momento eu poderia ter entrado em acalorado debate, atacando o candidato de um ponto de vista ideológico, rotulando-o como fascista e similares. O taxista provavelmente sairia ainda mais convicto de seu voto. Optei por outra via, afirmando calmamente que vejo Bolsonaro como a pior opção nestas eleições presidenciais. "Por quê?"

Comecei então a analisar detalhes da carreira do presidenciável, enfatizando suas inconsistências e incongruências. Toda minha linha de argumentação caminhava no sentido de simplesmente esvaziar o BolsoMITO, "desencantado-o", apresentando-o como o reles político carreirista e oportunista que ele de fato é. Em lugar de causar rejeição, minhas ponderações despertaram curiosidade, e seguimos dialogando cordialmente.

Lá pelas tantas, presos na Linha Amarela, mudamos de assunto. Mais adiante, contudo, fui surpreendido: "Me fala mais aí dessas coisas que você tava me contando sobre o Bolsonaro", pediu ele. Retornamos ao assunto. Em dado momento, ele fez um curioso e significativo comentário: "Eu não conhecia esses detalhes todos sobre ele, não..."

Aí temos uma questão relevante: boa parte do potencial eleitorado do Bolsonaro não sabe quem ele realmente é; apresentá-los ao "verdadeiro" Bolsonaro pode ser mais eficaz que fazer sibilinas críticas ideológicas que, para a maior parte do eleitorado brasileiro, não passam de ininteligível blablabla.

Continuamos conversando sobre política, desta vez sobre eleições passadas. Novas surpresas. Ele me disse que gostou muito dos governos de Lula. Em 2010 votou em Dilma, esperando que o novo mandato fosse tão bom quanto os anteriores. Decepcionado, anulou em 2014, pois jamais votaria no Aécio "traficante" [sic]. Essa anamnese eleitoral mostra claramente que não se trata de um cidadão com grande consistência ideológica, mas tampouco corresponde ao estereótipo de fanático fascistoide de extrema-direita que tentam aplicar indiscriminadamente a todos os eleitores do candidato. O fenômeno Bolsonaro é muito mais complexo do que isso.

Em momento algum de nossa demorada (e cara) viagem sustentei a vã intenção de convencê-lo a não votar em Bolsonaro pela simples força de meus argumentos, o que provavelmente só o deixaria mais firme em sua resolução. Por sinal, sinto pouca inclinação a manipular a consciência alheia. Me limitei a plantar as sementes da dúvida, conseguindo, com muita paciência, abalar suas convicções acerca do candidato. Já considero isso uma pequena vitória.

Talvez ele acabe mesmo votando em Bolsonaro (é um direito dele, inclusive). No entanto, ele saiu de nossa conversa melhor informado sobre seu candidato, e isso talvez abra espaço para que ele repense seu posicionamento. Essa, evidentemente, é uma decisão que cabe somente a ele, durante os próximos meses.

Concluindo, HÁ espaço para dialogar com os eleitores de Bolsonaro - ao menos com alguns deles. Em suma, me parece que a melhor estratégia para manter Bolsonaro longe do poder seja esvaziar serenamente o "mito", e não combate-lo ardorosamente. A primeira atitude tende a abalar seu pedestal, enquanto a outra tende a consolida-lo. Gritando contra Bolsonaro, emprestamos-lhe legitimidade; por outro lado, nada melhor para expor um louco que deixa-lo berrar sozinho. Não precisamos permanecer calados, mas não podemos ceder à gritaria...


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Se cada um fizer sua parte... a situação do Brasil continuará péssima. Cada um de nós precisa fazer pelo menos um pouco mais que sua parte, para que tudo fique um pouquinho menos pior...

domingo, 5 de agosto de 2018

Nada a estranhar

Lúcida constatação do historiador Roger Marques

Acho curioso certas pessoas estarem chocadas com a popularidade de candidatos estúpidos. Há décadas que as pessoas mais imbecis e desprezíveis são as que mais fazem sucesso no Brasil. Há décadas que infelizes sem talento são campeões de audiência e vendas de discos. Há décadas que mercenário(a)$ prostituto(a)$ de fama fútil são os modelos de comportamento. O brasileiro, no geral, com diploma ou sem diploma, com dinheiro ou sem dinheiro, não tem nenhum senso crítico, não tem memória e nem padrões de referência.

O jenial Jair Bolsonaro com o multitalentoso modelo, ator pornô e influenciador digital Alexandre Frota.

Equilíbrio como caminho

Reflexão do historiador Roger Marques

Equilíbrio é o melhor caminho. A maior parte das pessoas sente-se mais forte e segura quando aliada a grupos. Os grupos tendem a se isolar e se acham donos da verdade. A ilusão da verdade cria os fanatismos. O indivíduo equilibrado e centrado é atacado e incompreendido pelos que estão na esquerda, pelos que estão na direita e pelos que estão no fundo do poço.

Capitalismo e desencanto

Mais uma do filósofo Thales de Oliveira

A marca distintiva do capitalismo não é a desigualdade. Até porque o feudalismo e o socialismo também a produziram e de um modo ainda mais opressivo e insano. A verdadeira marca do capitalismo é o desencanto. Ao transformar tudo em mercadoria, o capitalismo mata o fascínio e o mistério de todas as coisas. Esse é o dilema da espécie humana: o único sistema que ela comporta sem utopias é aquele que destrói a sua própria humanidade. É aquele onde até mesmo a religião, o sexo, a amizade, as crianças e as coisas mais puras são totalmente negociáveis.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Os fanatismos de esquerda e de direita são igualmente perigosos, inclusive porque se alimentam mutuamente, tendendo a crescer juntos.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Acho que nunca li o termo "Foro de São Paulo" numa frase que não me soasse delirante...

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Hino à Verdade

Amo-te, adoro-te e busco-te, Verdade, mesmo não te conhecendo, mesmo sabendo que és Musa misteriosa, caprichosa e inacessível, oculta dos olhos mortais por milhares de véus.

Farejo ansiosamente teu perfume, na brisa ou na tempestade, mesmo sem saber reconhece-lo. Fecho meus olhos para ver-te melhor; em meio à balbúrdia, tento ouvir o silêncio de tua voz.

Por ti, Verdade, descerei à caverna mais profunda, subirei a mais alta montanha, afogar-me-ei nas mais densas trevas de meu coração.

Verdade, ó Verdade, mostra-me apenas tua máscara, já que não posso ver teu rosto!

Recebe-me, ó Verdade, em teu santuário: prefiro ser o mais humilde entre teus servos, a ser o sumo-sacerdote da Mentira, tua sombra funesta.

Verdade, ó brilhante Verdade, quantos tormentos já passei, passo e ainda passarei para aproximar-me de ti, Musa adorada.

Doce é a sede que provocas, ainda que torturante; suave é a fome que induzes, mesmo que aterradora. Finos são teus manjares e delicados teus néctares, que nunca provei, encantadora tua companhia, que nunca experimentei.

Musa, ó Musa, compadece-te desse ínfimo mortal!


domingo, 1 de julho de 2018

Rio e mar

Poética reflexão do filósofo Thales de Oliveira:

A corrida da vida é como um rio. Um rio caudaloso atravessando o deserto, buscando algum oceano, para além das areias do tempo, que apazigue suas águas em seu colo imenso, antes que suas últimas gotas tenham se esvaído em alguma fenda oculta e esquecida no mundo.


As duas barbáries e a fábula da Cigarra e da Formiga

Fabulosa reflexão do filósofo Thales de Oliveira:

Barbárie é algo tão violento que sequer é praticado pelas feras da Natureza. 

Ora, duas ideias sempre me pareceram barbárie. Uma delas é destruir a liberdade humana, a noção básica de propriedade ("o ser humano só ama e cuida zelosamente daquilo que pode chamar de seu", como lapidarmente sentenciou Aristóteles) e as bases da competitividade, e assim lançar por terra também todo o desenvolvimento, evolução, aprimoramento vital e excelência que somente a liberdade e o risco competitivo podem proporcionar. 

A outra barbárie é a crença de que aqueles membros da espécie menos aptos para a competição devem ser deixados à própria sorte para morrer, juntamente com seus descendentes pequenos e genitores idosos, mesmo quando há alimento suficiente para todos. 

A primeira ideia pertence ao marxismo tradicional. A segunda, ao liberalismo dogmático. É por isso que ambas as doutrinas são ameaças brutais à civilidade humana. 

Os gregos antigos, principalmente Platão e Aristóteles, jamais apoiariam nenhuma dessas ideias absurdas. Mas nem precisamos ir tão longe: qualquer um que conheça a fábula da cigarra e da formiga jamais embarcará em nenhuma dessas loucuras inumanas. 

A cigarra ficou sem comida, pois enxergou o mundo com os óculos cor-de-rosa semelhantes aos do utopismo socialista. Mas a cigarra não foi dogmaticamente liberal com sua amiga. Não disse que ela merecia morrer porque não fez por merecer o alimento, mas a alimentou zelosamente. E elas sequer usaram a desculpa de não serem da mesma espécie, desculpa essa que socialistas e liberais (envergonhados pela simples leitura da fábula) jamais poderiam usar.


O Brasil no espelho

Excelente provovação do geógrafo Vinicius Borges:

Permitimos, muitas das vezes até incentivamos, que nossos jovens se desenvolvam cotidianamente bombardeados por valores individualistas, egoístas, hedonistas, além de politicamente desinteressados e consumidores compulsivos, enquanto acusamos os jovens jogadores da Seleção de serem individualistas, egoístas, hedonistas, politicamente desinteressados e consumidores compulsivos. 

Sei não, mas, cada vez mais, eu vejo no incômodo que o modo de ser dos únicos astros verdadeiramente globais nascidos no Brasil causa em muitos de nós o reflexo de nosso incômodo com o revelar de nossas enormes falhas enquanto sociedade para todo o planeta. 

E não tem muito jeito... Ou nos esforçamos para, coletivamente, nos organizarmos ao redor da ideia de construção de uma realidade outra - menos insensível, desigual e desumana - ou estaremos eternamente condenados à vergonha diante de nossa imagem no espelho quando revelada ao mundo. 

Cachorro correndo atrás do próprio rabo, em looping contínuo de autodepreciação imobilista...