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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Carta aberta a certo pastor "de direita"

Caro pastor,

há alguns meses suas postagens pagas vêm aparecendo com certa frequência em minha linha do tempo no Facebook, a ponto que não consegui ignorá-las. Ninguém sabe exatamente como funcionam os algoritmos das redes sociais, mas o fato é que seus textos - bastante longos - apareceram em meu mural e eu os li. Considerando que o senhor se deu ao trabalho de escrevê-los e ainda pagou por sua divulgação, creio que seja apropriado apresentar minha opinião a respeito deles. Sou cristão, espírita e historiador, mas pretendo aqui dialogar com o senhor de cristão para cristão, para além de fronteiras confessionais.

Confesso que seus textos são de leitura agradável. O senhor é dono de uma eloquência serena, simples, culta e elegante e me transmite a impressão de ser sinceramente zeloso em relação à religião e honestamente preocupado com os rumos do Brasil, embora lendo seus textos e visitando sua página não tenha sido capaz de determinar com clareza sua denominação, exceto que o senhor mostra pouca simpatia quanto ao neopentecostalismo; concordo, inclusive, com suas acertadas críticas à "teologia da prosperidade". Aqui, inclusive, já vai minha primeira crítica: uma vez que o senhor apresenta suas opiniões enquanto pastor, creio que em benefício da clareza seria necessário que declarasse mais explicitamente seus vínculos institucionais e/ou confessionais, especialmente quando seus textos atingem leitores que, como eu, sequer são protestantes. Nesses tempos de acaloradas discussões virtuais é prudente evitar os efeitos do "fogo amigo".

Por outro lado, me causa algum incômodo perceber a constância com que o senhor insiste sobre temas políticos, especialmente em suas publicações pagas, deixando a impressão de que apresenta mais empenho em participar de polêmicas políticas que em pregar o Evangelho. Entendo perfeitamente que o senhor é pastor e também cidadão, mas me parece que o senhor comete certo equívoco no modo como se expressa sobre a política, que se encontra, até onde entendo, fora da alçada de seu ministério. Creio que antes de falar em política, seja sempre bom descer do púlpito, e não se pronunciar de cima dele. A crer no texto dos Evangelhos, quando tentaram envolver Jesus nas querelas políticas de seu tempo ele pronunciou um alerta aos cristãos de todos os tempos que viriam depois: a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Por sinal, concordo com o historiador católico Christopher Dawson quando afirma que a mistura entre religião e política costuma ser mais danosa à religião que à política. A política, como bem sabemos, é recheada de armadilhas e voltada para disputas amargas, lidando muitas vezes com interesses e alianças sórdidas, que pouco contribuem para o objetivo maior da religião, que é (ou deveria ser) o encontro com o divino. Há que se guardar o devido distanciamento entre essas duas esferas da vida, para bem de ambas.

Nesse sentido, me preocupa uma temerária e categórica afirmação que encontrei em um de seus últimos textos: "o Cristianismo é de direita". A afirmação é questionável em vários sentidos, tanto políticos, quanto históricos e religiosos/teológicos. Em primeiro lugar, cabe questionar o que seriam "direita" e "esquerda". Como historiador, não gosto muito desses termos, que me parecem binários e anacrônicos demais, e pouco acrescentam à política atualmente. Vejo-os como um refugo da Revolução Francesa que mais nos atrapalha que ajuda.

Por outro lado, esses termos são demasiadamente vagos e ambíguos. O senhor mesmo critica com veemência a dois partidos que considera como "de esquerda", PT e PSDB (pelos quais, diga-se de passagem, não nutro atualmente qualquer simpatia) - uma interpretação muito questionável, à medida que a maioria dos membros e eleitores do PSDB se identifica como "de direita"; muitos deles, por sinal, também se dizem cristãos. Tudo isso só indica quão subjetivos são todos os critérios envolvidos em qualquer taxonomia política. A empregar o duplo critério sugerido pelo senhor, poderíamos afirmar, por exemplo, que um eleitor do PSDB católico, presbiteriano, batista ou metodista que se considera "de direita", na verdade, é "de esquerda" e, mais ainda, não é cristão (visto que "o Cristianismo é de direita"). Confuso, não?


Temos ainda outro grave problema: ao afirmar que "o Cristianismo é de direita" empreendemos uma esquisita reificação dessas categorias políticas, como se elas representassem modelos atemporais, válidos em todas as épocas, lugares e sistemas políticos. Ora, o binômio esquerda-direita sequer existia à época de Jesus... Há quem diga que esse binômio surgiu na França, no âmbito da Assembleia Constituinte, exatamente no dia 11 de setembro de 1789 (depois de Cristo). Esses termos só fazem algum sentido dentro do ambiente político que emerge da Revolução Francesa, e não iríamos muito longe se tentássemos analisar a política dos tempos de Jesus através dessa ótica. Pilatos e Herodes, por exemplo, seriam "de esquerda" ou "de direita"?! Pelas mesmas razões, embora me considere cristão e socialista, discordo completamente daqueles que dizem que Jesus era "de esquerda" ou que ele foi "o primeiro socialista", entre outras pérolas anacrônicas.

Concordo ainda com o anglicano C.S. Lewis quando diz que esse tipo de enquadramento ideológico, para um lado ou para o outro, tende a diminuir a mensagem cristã, reduzindo-a à condição de mero apêndice a uma ou outra ideologia, contrariando talvez as palavras que os Evangelhos atribuem a Jesus: "Meu Reino não é deste mundo".

Enfim, fica uma dúvida importante: ao afirmar num texto divulgado publicamente através de propaganda paga que "o Cristianismo é de direita", o senhor fala como cidadão ou como teólogo? Caso fale como teólogo, ouso dizer que o faz de modo um tanto leviano, à medida que não apresenta qualquer argumentação de ordem teológica ou bíblica para validar essa opinião. Pelo que pude perceber de seus textos e de sua página, o senhor é um pastor sério, então tomo a liberdade de convidá-lo fraternalmente, como recomendava Paulo, a refletir melhor sobre essa conduta específica.

Concluindo, assim como o Pastor Martin Luther King Jr., eu tenho um sonho. Sonho que, apesar de diferenças religiosas, políticas, partidárias ou ideológicas, nós brasileiros possamos aprender a dialogar de modo respeitoso, proveitoso e construtivo. Sonho que nossas diferenças de pontos de vista possam nos enriquecer, e não nos tornar inimigos. Sonho que juntos possamos ouvir uns aos outros, encontrar pontos em comum e avançar na construção de um Brasil melhor para todos nós, homens e mulheres de todas as orientações sexuais, assim como para nossos filhos, netos e bisnetos, um Brasil melhor para as pessoas "de direita" e "de esquerda", para católicos e neopentecostais, ateus e umbandistas, espíritas e presbiterianos, batistas e candomblecistas, agnósticos e metodistas, judeus e testemunhas de Jeová, islâmicos e luteranos, anglicanos e budistas, adventistas e hinduístas...

Em sua linguagem poética e enigmática, Jesus teria afirmado que somos o sal da terra. Já ouvi muitas interpretações interessantíssimas acerca dessa passagem, mas ao escrever esse texto me ocorre mais uma camada de interpretação: o sal bem dosado realça o sabor dos alimentos, enriquece a diferença entre eles, enquanto usado de modo inadequado pode deixar os manjares intragáveis para todos os paladares. Termino esse texto citando uma das passagens mais belas da Bíblia:

E eis que um legista se levantou e disse para experimentá-lo: "Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" Ele disse: "Que está escrito na Lei? Como lês?" Ele, então, respondeu: "Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo". Jesus disse: "Respondeste corretamente; faze isso e viverás". Ele, porém, querendo se justificar, disse a Jesus: "E quem é meu próximo?" Jesus retomou: "Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes, que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu. Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo: 'Cuida dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei'. Qual dos três, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" Ele respondeu: "Aquele que usou de misericórdia para com ele". Jesus então lhe disse: "Vai, e também tu, faze o mesmo" (Lucas, 10:25-37).

Oro para que todos nós, movidos de compaixão como o Bom Samaritano da parábola, aprendamos a enxergar em cada um nosso próximo, digno de amor, misericórdia e cuidado, para além de quaisquer diferenças ou divergências.

Fraternalmente,
Luiz Fabiano de Freitas Tavares


11 verdades e 1 mentira sobre o Prefeito Crivella

1 - Em menos de três meses como prefeito do Rio ele indicou o próprio filho como Secretário da Casa Civil.
2 - Crivella nomeou sócio da própria filha como subsecretário da Casa Civil.
3 - O projeto de blindagem das escolas municipais proposto por Crivella apresenta sérios problemas técnicos e operacionais, segundo críticas de professor do IME.
4 - Para se proteger de violência, Crivella não compareceu a cerimônia em homenagem à estudante Maria Eduarda, morta em sua própria escola.
5 - Assumindo a Prefeitura, Crivella paralisou inúmeras obras públicas de grande porte.
6 - Crivella indicou (e depois, sob pressão da opinião pública, "desindicou") um subsecretário que defendia prisão perpétua para crianças.
7 - Crivella também indicou (e "desindicou" ainda) para cargo comissionado uma pessoa que responde a processo criminal por ter ferido uma pessoa dando tiros a esmo.
8 - Crivella mentiu sobre os motivos da anulação da nomeação de acadêmico para a CET-RIO.
9 - Crivella pretende reduzir impostos de operadoras de cartões de crédito e empresas de ônibus no Rio.
10 - Ao contrário do que prometeu nas eleições, Crivella pretende implementar aumentos no IPTU.
11 - Crivella planeja aumentar os descontos nos salários dos servidores do Rio para contribuição previdenciária e taxar servidores inativos.
12 - Crivella vai cuidar das pessoas.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Attention, teens!

Certezas absolutas podem conduzir à estupidez absoluta.

(Pensamento absolutamente certo do historiador Fred Oliveira).

Desmascarando niilistas

Para desmascarar um niilista basta oferecer-lhe um prêmio. Nunca conheci um niilista que não fosse extremamente vaidoso...

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tempos perdidos

"O texto/vídeo era tão absurdo/ridículo/estúpido/etc que não consegui ler/assistir até o final" pode muitas vezes ser traduzido como "não tolero contato prolongado com ideias e/ou opiniões diferentes das minhas e da minha panelinha". Embora, obviamente, existam textos e vídeos que são pura perda de tempo - inclusive alguns com opiniões semelhantes às nossas...
Desagradar a gregos e troianos é muito fácil: basta pensar com a própria cabeça.

DIY - Como fabricar subcidadãos em massa

PARA EXECUTAR ESSE PROJETO VOCÊ NECESSITARÁ APENAS DE VÁRIOS BANCOS, AGÊNCIAS DE PUBLICIDADE, VEÍCULOS MIDIÁTICOS VARIADOS, COMERCIANTES VAREJISTAS, EMPRESAS DE TRANSPORTE URBANO, PREFEITOS, GOVERNADORES, PRESIDENTES, LEGISLADORES, PARTIDOS POLÍTICOS, MINISTROS E SECRETÁRIOS DE EDUCAÇÃO VARIADOS. QUANTO MAIS, MELHOR.

1 - Pague aos pais do subcidadão menos que o mínimo necessário para subsistir dignamente.

1a - Faça com que os pais trabalhem até a beira da exaustão.

1b - Prenda os pais em engarrafamentos intermináveis.

2 - Ofereça incentivos culturais variados para que os pais não se preocupem com a educação de seus filhos. Estimule-os direta ou indiretamente a pensar as escolas públicas como grandes viveiros onde eles deixam seus filhos para poder trabalhar.

3 - Garanta que os pais saibam tacitamente qual é seu lugar na sociedade e tenham baixas expectativas e poucas perspectivas sobre o futuro do projetado subcidadão. Deixe essas fronteiras muito bem demarcadas. ESSE É UM DOS PASSOS MAIS IMPORTANTES.

4 - Dê aos pais um cartão de crédito (ou vários) com limites totalmente desproporcionais à renda familiar. Eles ficarão facilmente enredados em dívidas.

4a - Ofereça aos pais cheque especial e/ou empréstimos pessoais a juros extorsivos, também desproporcionais à renda familiar. Eles ficarão ainda mais enredados em dívidas.

5 - Ofereça ao subcidadão publicidade comercial abundante desde a mais tenra idade.

5a - Estimule direta ou indiretamente os pais a comprar o afeto do subcidadão com produtos de consumo. Melhor ainda, incentive os pais a realizar suas próprias fantasias infantis de consumo por procuração, através do subcidadão. Induza os pais do subcidadão a sentirem peso na consciência por privá-lo de seus menores caprichos.

6 - Ofereça ao subcidadão apenas produtos culturais de baixíssima qualidade, desde desenhos animados a filmes, passando pela música e pelos jogos eletrônicos. ESSE PASSO TAMBÉM É MUITO IMPORTANTE.

6a - A cada geração tente articular um vocabulário cada vez mais empobrecido através da indústria cultural em todos os seus setores.

6b - Empregue linguagens audiovisuais barulhentas, sincopadas, explosivas, repetitivas e freneticamente editadas, para que ele desenvolva baixa tolerância ao silêncio, limitado tempo de concentração, superficial capacidade de reflexão e raciocínio pouco coerente e coeso.

6c - Encareça os livros.

7 - Crie um ambiente de erotização precoce para o subcidadão. Insira insinuações sexuais completamente gratuitas e descontextualizadas em todos os meios de comunicação. A música pode ser um meio particularmente efetivo, uma vez que a memória auditiva é extremamente persistente. Conceda amplo espaço midiático a figuras "artísticas" cujo principal (talvez único) atrativo seja a exposição erotizante ostensiva e insistente. Os impulsos reprodutivos são uma das forças biológicas mais atuantes sobre o ser humano, mas estímulos hormonais sozinhos não são suficientemente fortes para causar o mais profundo desinteresse pelos estudos. Garanta que chegando à adolescência o subcidadão não consiga pensar em nada além de copular. Quanto menos ele conseguir pensar em outras coisas, melhor.

7a - Estimule o subcidadão do sexo masculino a objetificar a figura feminina; transforme-a em produto de consumo.

7b - Estimule a subcidadã do sexo feminino a aceitar passivamente esse tipo de objetificação como algo extremamente natural. Faça com que ela busque a atenção erótica masculina como razão de sua própria existência.

7c - Deixe difuso no ar um vago moralismo sobre a prática sexual, para que toda a estimulação gere certa dose de conflito e inquietação que contribuirão para transformar o impulso em compulsão e a compulsão em obsessão. Entendida como prazer impuro, a sexualidade habilmente reprimida reforçará sua presença em todos os setores da vida social e cultural, tornando-se quase onipresente; muitas pessoas mal conseguirão falar (e consequentemente pensar) sobre outros temas. Quanto mais seus subcidadãos estiverem confusos e atormentados sobre sua própria sexualidade, mais fácil será dominá-los.


7d - Estimule os adolescente a pensar ininterruptamente em sexo, mas evite a todo custo que eles reflitam de modo autônomo e consciente sobre sua própria sexualidade, o que tornará o passo 7c ainda mais poderoso. Os impulsos reprodutivos são poderosos demais para serem deixados sob controle dos indivíduos, se você quiser exercer domínio pleno sobre eles e manter suas mentes distraídas de todo o resto. Venda a repressão como se fosse liberdade.

7e - Se possível, promova a conversão do idioma da sexualidade e da impureza sexual em idioma preferencial da política. Isso pode ser particularmente útil para qualificar ou desqualificar mulheres na vida política, conforme for oportuno ou necessário.

8 - Garanta um ambiente cultural onde o subcidadão adolescente tenha o mínimo de responsabilidades e cultive uma displicência genuinamente infantil. Ele deve ter diversão sem limites durante a adolescência, pois trabalhará como um condenado na idade adulta.

9 - Garanta que os pais do subcidadão não tenham qualquer condição de pagar mensalidades em uma escola particular.

9a - Se o passo 9 não for possível, garanta que as escolas particulares mais baratas tenham baixíssima qualidade. Reduza ao máximo a fiscalização pública sobre as instituições particulares de ensino; seja omisso quanto ao emprego de estudantes de graduação como docentes - cedo ou tarde eles terão diplomas, afinal de contas...

9b -Permita (veladamente) que as instituições particulares de ensino desrespeitem frequentemente a legislação trabalhista.

9c - De preferência, evite que o subcidadão consiga cursar o ensino fundamental completo em instituição privada de ensino.

10 - Indique ministros e/ou secretários de Educação que nunca lecionaram ou estão há muitos anos afastados de sala de aula em cargos burocráticos.

11 - Imponha metas de aprovação desavergonhadas nas escolas públicas.

11a - Estabeleça índices de qualidade da educação pública que privilegiem direta ou indiretamente os índices de aprovação estudantil.

11b - Estabeleça estímulos financeiros aos professores das escolas públicas segundo sua adesão às metas de aprovação supramencionadas.

11c - Estipule represálias mais-ou-menos-veladas para os diretores cujas escolas não conseguirem atingir as metas impostas.

12 - Retire toda autonomia das comunidades escolares e transfira todo o poder de decisão aos órgãos centrais da educação municipal, estadual ou federal.

13 - Ofereça benefícios sociais vinculados EXCLUSIVAMENTE à presença do subcidadão na escola. Você não quer que ele aprenda nada, apenas diminuir os índices de evasão escolar, ao mesmo tempo beneficiando indiretamente o comércio varejista e aquecendo a economia.

14 - Mantenha a remuneração dos profissionais do magistério tão baixa quanto possível.

14a - Crie todo tipo de empecilho para que os professores busquem formação adicional. Um plano de cargos e salários pouco convidativo deve ser o suficiente, mas garanta também que seja quase impossível obter uma licença com ou sem vencimentos, integral ou parcial, para aperfeiçoamento do pessoal docente. Crie normas que impeçam profissionais com vínculo empregatício de receber bolsas de pesquisa em agências de fomento. Você não quer mestres ou doutores lecionando em escolas públicas ou em escolas particulares baratas.

14b - Culpabilize sutilmente o professor por todos os fracassos da educação pública, através de todas as mídias onde isso for possível.

15 - Reduza o pessoal administrativo e de apoio pedagógico das escolas públicas ao mínimo possível.

15a - Mantenha remuneração do pessoal administrativo e de apoio pedagógico tão baixa quanto possível. Você não deseja inspetores escolares motivados.

16 - Exija que todos os estabelecimentos escolares sejam obrigados a oferecer um quantitativo de vagas muito superior à real capacidade de seus respectivos espaços físicos.

17 - Exija que todas as turmas tenham um quantitativo de alunos muito superior ao que tornaria viável um ensino de qualidade.

17a - É particularmente importante que as classes de alfabetização sejam superlotadas, visto que um estudante bem alfabetizado terá maiores dificuldades em se tornar um subcidadão.

18 - Implemente regimentos escolares lenientes mesmo com as faltas disciplinares mais graves. Faça com que nem agressões físicas a colegas e profissionais sejam suficientes para que um aluno seja imediatamente encaminhado a outra unidade escolar.

19 - Estimule seus burocratas da educação a distorcer gravemente propostas pedagógicas sérias. Por exemplo, empregando o pensamento de Paulo Freire de modo suficientemente deturpado você poderá sustentar com boa consciência que não existem subcidadãos analfabetos ou semianalfabetos, apenas "pessoas com uma relação diferenciada com o mundo da língua escrita".

20 - Não torne obrigatório o ensino médio.

20a - Reduza a oferta de vagas no ensino médio.

21 - Reduza a oferta de ensino médio noturno e de educação de jovens e adultos; dificulte quanto possível o acesso à educação para o subcidadão que já ingressou no mercado de trabalho.

22 - Feche quantas escolas for possível.

23 - Dificulte ao subcidadão o acesso ao ensino superior público. Se as pressões sociais forem suficientemente fortes, empregue medidas paliativas variadas, mas evite veementemente a melhoria do ensino básico.

24 - Permita que as instituições privadas de ensino superior tenham qualidade muito inferior às universidades públicas; a maioria delas aproveitará todas as brechas para reduzir seus custos operacionais às custas da qualidade do ensino. Também aqui a chave é fiscalização insuficiente.

24a - Permita que as instituições privadas de ensino superior sejam extremamente flexíveis em seus processos de seleção estudantil. O subcidadão não precisa ser plenamente alfabetizado para frequentar um curso de graduação.

24b - Permita que essas mesmas instituições implementem processos de avaliação pouco rigorosos. O subcidadão semianalfabeto tem pleno direito de gastar suas economias e se endividar adquirindo um diploma pouco condizente com sua efetiva formação, mesmo que isso restrinja seu posterior acesso ao mercado de trabalho especializado.

25 - Crie diversos métodos de financiamento público para oferta de vagas em instituições privadas de ensino superior; quanto menos criteriosos, melhor. Qualquer tipo de parceria entre poder público e iniciativa privada é bem vinda, especialmente quando o dinheiro público gere benefícios privados.

26 - Facilite a criação de turmas superlotadas em instituições privadas de ensino superior. Uma turma com 160 alunos não é empecilho para uma educação de qualidade, e os professores obviamente poderão se dedicar profundamente à correção de todas as provas e trabalhos acadêmicos, acompanhando devidamente a formação de inúmeros estudantes que não chegaram plenamente alfabetizados à graduação.

27 - Em algum momento do processo seu subcidadão chegará ao mercado de trabalho. Repita com ele os passos 1, 1A e 1B do mesmo modo que fez com seus pais.

27a - Melhor ainda, garanta que ele permaneça muito tempo desempregado.

28 - Deixe a especulação imobiliária completamente descontrolada e galopante, para que o subcidadão tenha dificuldades em adquirir casa própria.

28a - Caso se mostre politicamente conveniente ou oportuno, implemente um programa habitacional voltado à construção de imóveis populares; garanta que esse programa seja especialmente benéfico para as empreiteiras de grande e médio porte.

28b - Seu subcidadão já foi programado para acreditar que a posse de um carro novo ou usado é o supremo bem. A primeira aquisição de veículo, as trocas subsequentes e os gastos de manutenção tornarão a aquisição de um imóvel cada vez mais distante de seu horizonte de realização. Você só terá o trabalho de reforçar essa crença ao longo de toda sua vida adulta.

29 - Caso tudo dê certo até aqui, seu subcidadão viverá pagando um aluguel exorbitante que drenará sua renda familiar ou viverá em setores urbanos periféricos.

30 - Garanta que seu subcidadão tenha acesso a um sistema público de saúde extremamente precário e pouco confiável. Quanto mais imprevisível, melhor.

31 - Estimule o subcidadão a pagar por plano privado de saúde.

31a -Seja leniente quanto à fiscalização dos planos privados de saúde. Quanto mais precária for a cobertura, melhor. A maioria dos subcidadãos tem dificuldades de acesso à Justiça e graças à morosidade dos processos os planos poderão operar durante muitos anos com poucos embaraços judiciais.

32 - Mantenha uma presença extremamente precária do poder público em áreas urbanas periféricas ou em zonas rurais, locais típicos de habitação do subcidadão.

33 - A maioria dos subcidadãos levará uma vida honesta, por convicção moral ou por medo. Todavia, uma parcela relativamente pequena deles optará por aderir à criminalidade, após um cálculo intuitivo de oportunidades, riscos e benefícios. Faça parecer que essa parcela é bem maior que suas reais dimensões.

33a - O subcidadão que ingressar na criminalidade eventualmente passará pelas malhas da Justiça penal e do sistema carcerário. Garanta que o cárcere lhe ofereça poucas chances de reabilitação social.

33b - Quando o subcidadão egresso do cárcere retornar ao convívio social crie inúmeros obstáculos à sua reintegração na sociedade e no mercado de trabalho, de modo que ele retorne à criminalidade tão cedo quanto possível.

33c - Através da mídia, estimule o conjunto da população a ignorar ou esquecer a execução dos passos 1 a 32, de modo que toda a criminalidade seja atribuída à falta de caráter de alguns subcidadãos, eximindo todos os demais setores da sociedade de qualquer dose de responsabilidade. Capriche no sensacionalismo.

33d - Caso necessário, use a violência urbana provocada por subcidadãos para promover a carreira de políticos e/ou partidos com tendências autoritárias.

34 - Hoje em dia a maioria dos subcidadãos possui título de eleitor. Garanta que a maioria deles seja absolutamente desinteressada de todos os processos políticos e até se orgulhe de não entender nada de política.

34a - Quanto menor for a consciência social e política do seu subcidadão, melhor. Convença-o de que política é sinônimo de dinâmica partidária e de que a democracia se exerce apenas através do voto.

34b - Convença o subcidadão de que qualquer mudança social é impossível, para que ele se mantenha em constante estado de apatia. Ele já está tão acostumado a apanhar da vida que raramente ergue a cabeça para reivindicar alguma coisa.

34c - Estimule todo tipo de divisão ideológica entre os poucos cidadãos e subcidadãos que se interessarem por política. Isso é igualmente útil para políticos de esquerda e de direita, que na mesma gamela se nutrem habilmente de querelas ideológicas estéreis.

34e - O subcidadão em geral prefere políticos carismáticos com propostas paternalistas. Aproveite!

34f - Caso necessário, atire algumas migalhas ao subcidadão para atenuar as tensões sociais mais acentuadas e/ou perigosas.
 
35 - Convença o cidadão de classe média, especialmente de classe média baixa, de que o subcidadão é o maior obstáculo ao bem comum. Designá-lo como "vagabundo", "ignorante", "marginal" e outras poéticas figuras de linguagem pode ajudar bastante. Quanto menos solidariedade houver entre esses estratos sociais, mais sólido será o resultado de seu projeto.

35a - O cidadão médio de classe média gosta de acreditar em meritocracia e será facilmente convencido da irrelevância social dos passos 1 a 34. Para o cidadão médio de classe média tudo é sempre questão de "caráter".

35b - Pressionado por inúmeros fatores sociais como desemprego ou inflação o cidadão médio de classe média sabe, ao menos em seu subconsciente, que não está muito longe da subcidadania e tem um medo inconfessável de despencar para a condição de subcidadão. Em geral o cidadão de classe média já visitou a Europa, mas tem dificuldades em pagar a fatura do cartão de crédito, o aluguel ou o financiamento da casa própria. Use isso a seu favor.

Considerações finais - Alguns poucos subcidadãos conseguem ascender socialmente, então não se preocupe demasiadamente com esse problema. Cedo ou tarde os subcidadãos morrem, e isso pode ser um problema a longo prazo, mas em algum momento desse processo seu subcidadão atingirá a puberdade e gerará futuros subcidadãos. Também não é muito difícil transformar cidadãos de classe média baixa em subcidadãos. Recomece o ciclo quantas vezes for necessário e terá um suprimento de subcidadãos garantido por muitas gerações para servir a você e a seus filhos, netos e bisnetos.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Invejas

Às vezes invejo os cegos, porque são poupados de ver certas coisas.

Outras vezes, invejo os surdos, porque são poupados de ouvir certas coisas.

Também invejo os mudos, porque são poupados de falar certas coisas.

E, acima de tudo, invejo os analfabetos, porque são poupados de ler e, principalmente, escrever certas coisas.

Todavia, sigo vendo, ouvindo, falando, lendo e escrevendo os absurdos alheios e os meus próprios.

Somos tão tolos que precisamos ser muito pacientes uns com os outros...

Nesse sentido, invejo também aqueles mais tolos ou mais sábios que eu, que menos se importam com tudo aquilo que vêm, ouvem, falam, lêem ou escrevem...

E ainda mais invejo aqueles suficientemente sábios para reconhecer suas próprias tolices.

O caminho para o buraco

Texto do historiador Sanger Nogueira

O caminho para o buraco: as delações que envolvem o político de que eu gosto são pura invenção dos adversários. Já as delações contra os meus inimigos são a verdade ganhando a luz do dia. 

A política, se bem compreendida, é um instrumento fundamental para a vida em sociedade. Ela conseguiu transformar a violência física em um debate de ideais. Contudo, a política traz um veneno: ela pode transformar as outras categorias da realidade (ciência, cultura, economia) em subproduto. 

Nesse sentido, a política promove uma sociedade de hipócritas: bastante empáticos com a suas preferências e totalmente incapazes de perceber o Outro.

[In]Coerências e frituras

Algumas pessoas tentam ser coerentes e outras tentam parecer coerentes - a diferença entre esses dois tipos de pessoa costuma ser muito pequena, embora uma coisa seja bem mais fácil que a outra.
***
Hoje ouvi uma conversa absurda "de esquerda", e pouco mais tarde escutei uma conversa "de direita" mais absurda ainda. Conclusão: estamos fritos de todos os lados...

domingo, 16 de abril de 2017

A lenda do Pezão

Era uma vez um monstro comedor de carne humana conhecido como Pezão, que virou lacaio de outro monstro comedor de carne humana. Usando palavras encantadas e a ajuda de um mago barbudo eles iludiram os habitantes do reino, conseguiram votos, votos e mais votos e passaram a reinar.

A cada dia eles assavam um súdito num espeto e convidavam muitos outros monstros para o banquete. Comiam até as tripas e os miolos, e depois lambiam os beiços. Quando sobravam guardanapos limpos (o que era raro, sendo gente muito suja), adornavam com eles suas cabeças.
Usavam o sangue das vítimas para fazer argamassa e assim realizaram muitas obras, inclusive uma grande arena, fazendo a fortuna de inúmeros pedreiros e arquitetos do reino.

O povo do reino aplaudia e aplaudia, e mal se lembrava dos pavorosos banquetes. O mago barbudo subia nos coretos, para dizer ao povo que o monstro maior tinha um brilho nos olhos, mas não falava nada sobre a baba que lhe escorria dos lábios, faminto que sempre estava por carne humana. E assim todos viviam felizes para sempre.

Certo dia, porém, se abateu sobre o reino uma violenta tempestade. Escorregando na lama, o monstro maior caiu num calabouço de onde não conseguia sair.

O monstro Pezão assumiu o governo do reino. Olhando bem o baú do tesouro real, viu que ele e o monstro maior, embriagados que estavam de sangue humano, tinham gasto até a última moeda. Foi até a torre mais do castelo e gritou para todos os súditos que o reino estava em crise.

No entanto, lá embaixo, os convivas da mesa real continuavam com o mesmo apetite voraz, clamando por mais e mais carne humana. Revoltados, pegaram o monstro Pezão, cortaram sua garganta e o assaram no mesmo espeto onde dia após dia após dia haviam assado tantos súditos, por tantos anos.

Mas e agora, quem iria governar?

Resolveram organizar um sorteio. Botaram todos os ossos do Pezão num caldeirão, e cada monstro enfiou sua mão ali dentro, para ver quem tirava o osso maior.

Um monstrinho jovem e ambicioso, filhote de uma monstra velha e velhaca, tirou um fêmur. Onde estava o outro fêmur, ninguém sabia, nem quis saber, porque os sorteios entre esses monstros sempre eram meio esquisitos mesmo.

O fato é que depois de muitos acordos, todos concordaram que aquele monstrinho era um bom candidato. Era jovem, não muito feioso e ainda tinha poucas carnes presas entre os dentes, então o povo ainda poderia acreditar que ele era mais ou menos inocente.

E assim, ao fim e ao cabo, o povo, satisfeito e esperançoso, elegeu o monstrinho para governar o reino, e os banquetes puderam continuar, como sempre fora costume naquela terra.

E viveram felizes para sempre, pois aquele era um povo muito alegre, simpático e festivo.

sábado, 15 de abril de 2017

Um culpado útil vale mais que um inocente útil?

O útil e/ou o agradável

Unir o útil ao agradável costuma ser muito difícil. A sociedade ideal seria aquela que equilibrasse o máximo de utilidade coletiva com o mínimo de desagrado individual.

Teoricamente isso seria possível em uma sociedade capitalista, mas na prática costuma ocorrer justamente o contrário. A teoria capitalista não está ao lado das probabilidades. A "alocação ótima de recursos" por obra e graça da "mão invisível" (e mais-ou-menos-cega) do mercado é uma miragem perseguida há cerca de 200 anos. Quem sabe não se realize nos próximos 200? Até lá, como bem dizia Keynes, todos estaremos mortos... 

Por outro lado, a ideia de um Estado capaz de tudo planejar pelo bem comum é uma quimera paternalista. As vertentes socialistas que pregam um Estado tutor da sociedade não passam de um desejo infantil por uma poderosa figura protetora, que facilmente degenera em um amoroso Papai Stalin enviando seus filhos peraltas para reeducação em algum gulag. Tomar os interesses do Estado pelos interesses da sociedade é uma grotesca distorção do que seria um SOCIAL-ismo.

Enfim...

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Analfabetismos

Brilhante texto do amigo Vinicius Borges sobre as angústias culturais e sociais da hora presente

Enquanto vejo acaloradas discussões referentes à urgente necessidade de inserção das questões de gênero em nossa base curricular nacional pipocando em minha taimelaine, muitas (certamente a maioria) de nossas unidades de ensino seguem seus trágicos destinos em avançado processo de precarização estrutural e conceitual, formando de maneira sistemática - com as sempre muitas, louváveis, brilhantes e admiráveis exceções - verdadeiros exércitos de analfabetos funcionais terrivelmente incapacitados de lidar com algumas das mais simples questões quando postas em discussão em uma sala de aula... 

Eu tenho plena noção de que a educação pública não faz parte da agenda revolucionária facebookiana, mas, como professor da rede municipal do Rio de Janeiro, entendo que, com toda a relevância que o tema possui, esse debate tem sido trabalhado desde o início de forma um tanto equivocada por parte de nosso "campo progressista"... 

De que adianta tamanha luta para alinhar nossas diretrizes curriculares às vanguardas do século XXI em um contexto onde não conseguimos oferecer aos nossos estudantes nem mesmo o que já seria considerado apenas o mínimo nos séculos XIX e XX para as sociedades que realmente entendem a educação como um bem estratégico para o seu desenvolvimento? 

Documentos modernos e cheios de boas ideias não têm faltado na história recente da educação no Brasil... Mais do que qualquer coisa, precisamos lutar para que nossas crianças tenham direito a uma alfabetização plena, para que nossos adolescentes possam desenvolver a partir da escola pública uma consciência crítica e cidadã a respeito da realidade que os cerca, que todos possam fazer isso em ambientes seguros e confortáveis... 

Façamos isso e nossos jovens terão todo um mundo para problematizar e transformar...
A desconfiança sem limites é uma das formas mais perversas de ingenuidade - e muitas vezes se mostra facilmente manipulável...