terça-feira, 27 de novembro de 2018

O passado como fábula

"Lembro-me das histórias antigas que me contavam na infância... Histórias de guerreiros e lutas nas montanhas de Ueno... De como era a cidade antigamente... Memórias da Era Edo [1603-1868]... Muitas narrativas e até encenações sobre como meu avô lutou contra Saigo Takamori... E hoje eu estou aqui, lutando numa guerra. Será que um dia eu vou poder contar tudo isso pros meus netos? Sentado sob o sol numa bela varanda... 'Sabia que o vovô já pilotou caças numa guerra?' Quando esse dia chegar, como será que o Japão vai estar? Para mim, aquelas histórias da Era Edo sobre o  meu avô pareciam contos surreais. Talvez nossos netos, ao ouvirem nossas histórias, também irão achar que são coisas de um passado distante..."
Naoki Hyakuta


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Junho, 2013...

Esse século tinha 13 anos, dado aos exuberantes arroubos da puberdade.

Tudo era possível, nada parecia inalcançável.

Um êxtase febril, délfico, se inalava das nuvens de lacrimogênio. Entre lágrimas e gargalhadas, a greve rugia alegremente. O futuro havia chegado, com ofuscantes sonhos de renovação.


As ruas eram a casa do povo; seu grito estremecia os palácios. Das trevas da Inglaterra seiscentista, via quadrinhos, tela, Wall Street, como otimista pesadelo, o espectro de Guy Fawkes assombrava as cidades brasileiras.
 
Que dizer? Que fazer? Que pensar? Ninguém sabia. Apenas os mal informados tinham certezas. Não havia promessas ou premissas naquela sensata loucura. Tudo era imprevisto; tudo era imprevisível. O inesperado trazia esperança; o desejo nascia do indesejável.

O Corcovado era Vesúvio. O mar virou sertão. Os índios, finalmente, devoraram Cabral.Ninguém estava vacinado contra a revolta.

Maracanã, Maracanã!

Prometeico 2013. Ano dionisíaco. Ano satírico. Ano titânico e olímpico a um só tempo. Ano-milênio-era. Alfa, Ômega e Jânus.

Que nos sobrou de 2013?!


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O saldo da I Guerra Mundial - Uma amostra



Estatísticas da I Guerra Mundial na França

Perdas humanas:
-1.700.000 mortos
-3.595.000 feridos
-56.000 amputados
-65.000 mutilados
-930ha de cemitérios militares

Perdas materiais:
-11 departamentos [circunscrições administrativas francesas] devastados
-2.907 cidades e aldeias devastadas
-485.600ha de florestada devastados
-194.040 edifícios residenciais destruídos
-9.332 fábricas destruídas
-58.967 km de estradas destruídas
-8.333 obras de arte destruídas ou extraviadas
-780km de front (trincheiras) – 330.000.000 de metros cúbicos de terra necessários para terraplenagem
-2,5 bilhões de francos em despesas (suficientes para construir uma casa de quatro cômodos para cada habitante da Europa na época)

Fonte: TARDI. Era a guerra de trincheiras




quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Que queres?

Que queres, amigo?
Que queres, meu caro?
Um prato de lentilhas?
Uma sarça ardente?
Trinta dinheiros de lata?
Uma flecha no calcanhar?
Uma cabeça em bandeja de prata?
Um bezerro de ouro?
Uma sabina raptada?
Um cálice de vinho?
Um cálice de sangue?
Quatro cravos?
Um flanco ferido?
Uma lança ensanguentada?
Um cavalo de madeira?
Uma espada na pedra?
Um almirante defenestrado?
Uma cabeça de rei da Escócia?
Um crânio de bobo da Dinamarca?
Uma conspiração em março?
Uma rainha envenenada?
Uma virgem imaculada?

Que queres?
Que queres, camarada?

Um caminho para o céu?
Um caminho para as Índias?
Cinquenta anos em cinco?
Um barco para Utopia?
Um pacto demoníaco?
Uma arca de aliança?
Um ato institcional?
O ouro do Reno?
Um anel de nibelungo?
Uma valquíria adormecida?
Um doge morto em Veneza?
Uma dama entre camélias?

Que queres, meu irmão?

Uma catedral em Paris?
Uma mesquita em Constantinopla?
Um túmulo em Jerusalém?
Um espetáculo circense?
Uma migalha de pão?
Uma hóstia consagrada?
Uma pedra filosofal?
Um elixir de longa vida?
Um telegrama da Crimeia?
Uma carta de Verdun?
Um incêndio em Quioto?
Uma bomba em Nagasaki?
Um Fokker vermelho?
Uma divisão Panzer?
Um telefonema de Moscou?
Um rifle em Stalingrado?
Um canhão em Canudos?
Uma vitória em Riachuelo?
Um Abelardo castrado?
Uma Heloísa enclausurada?
Um tapete de Ítaca?
Um cão fiel?
Uma Capuleto apaixonada?
Um Montecchio ensanguentado?
Um corcunda no campanário?
Uma cigana enamorada?
Uma lâmpada maravilhosa?
Um trono em Lisboa?
Uma missa em Paris?
Um palácio em Granada?
Um corvo na janela?
Uma máscara escarlate?
Um barril de amontilado?
Um tesouro em Montecristo?
Uma casa em Santa Helena?
Uma noite em Varennes?
Uma festa em Rouen?
Um tratado em Versalhes?

Que queres?
Que queres, amigo?
Que queres, meu caro?


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O sabor do saquê

"A primavera tem as cerejeiras da noite.

O verão tem as estrelas do céu que iluminam os olhos.

O outono tem a lua cheia refletida na água.

O inverno tem a neve que flui na relva.

Bastam essas coisas simples para que o saquê seja delicioso.

Se, mesmo assim, o gosto do saquê não for bom...

Então quer dizer que há alguma coisa de errado dentro de você".

Hiko Seijurou [Watsuki Nobuhiro]


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Cultura, cérebro, percepções

Trecho de A outra face da Lua - Escritos sobre o Japão, de Claude Lévi-Strauss

O japonês talvez não seja uma língua de tons, ou talvez o seja mal e mal; mas eu diria de bom grado que a civilização japonesa me apareceu como uma civilização de tons, em que cada coisa se refere simultaneamente a vários registros, e me pergunto se essa ressonância, essa faculdade evocadora das coisas não é um dos aspectos que a enigmática expressão mono no aware conota. O despojamento vai junto com a riqueza, as coisas significam mais. Relatos me ensinaram que um neurologista japonês, o dr. Tsunoda Tadanobu, demonstrou num livro recente que seus compatriotas, à diferença de todos os outros povos, asiáticos inclusive, tratam os gritos dos insetos no hemisfério esquerdo do cérebro, não no hemisfério direito; o que leva a pensar que, para eles, os gritos dos insetos, mais que ruídos, são da ordem da linguagem articulada. E, de fato, imagina-se que o herói de um romance ocidental faça, como Genji, transportar de charnecas distantes para seu jardim insetos a fim de se alegrar com seu canto?


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Vida, liberdade, ossos

Somos o que a vida faz de nós. A liberdade vem depois - se vem, quando vem, onde vem, quanto vem, como vem.

Apenas a morte nos liberta da vida. Mas as marcas da vida continuam lá, para quem sabe lê-las.

As marcas de esforço muscular nos ossos do braço direito deste cavalheiro sugerem que ele foi um arqueiro. Os atrofiados dentes desta senhora sugerem que ela viveu numa sociedade industrial. A porosidade incomum nos ossos dessa moça contam a história de uma enfermidade, enquanto esse senhor de crânio espatifado nos lembra algum episódio de violência.

Nossa história e nossa cultura nos dominam durante toda a vida e depois dela. Estão marcadas em cada neurônio, em cada osso, em cada brônquio tingido de ar poluído, em cada fibra cardíaca atormentada pelo estresse. Cada sociedade, como cada corpo, tem sua constituição - e toda constituição conta uma história.

Quem conta um conto aumenta um ponto; quem vive uma vida aumenta a Vida.

Somos o que a vida faz de nós, mas também o que fazemos da vida.

...mas o que fazemos da vida?

Hamlet e Horácio no cemitério (1859) de Eugène Delacroix; Museu do Louvre

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Gotas: a cara do Rio e do Brasil em novembro de 2017

Pelo andar da carruagem, acusar algum partido de esquerda de ter menos realizações [sic] que o PT soa quase como um elogio.
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O problema do Brasil é que o governo sustenta um monte de vagabundo que nunca trabalhou na vida... como os filhos do Bolsonaro, por exemplo. Isso sim é um verdadeiro bolsa FAMÍLIA. Por sinal, se for mesmo verdade que pobre gosta de "botar um monte de filho no mundo", a família Bolsonaro deve ser pobre pra caramba. Diga-se de passagem que Bolsonaro deve mesmo adorar a família tradicional brasileira, caso contrário não teria casado 3 vezes! Um mito, realmente: só vendo pra crer!
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Não contentes em ter ótimo gosto musical, meus vizinhos ainda me obrigam a partilhar dessa maravilha... É realmente inspirador viver num país tão repleto de refinados cultivadores das artes e tão ardorosos adoradores das musas. Que fiz eu, ó deuses, para merecer tão subido e valioso privilégio? Seria suficiente receber em êxtase esses cânticos que me chegam do Parnaso? Nem a lira de Orfeu seria capaz de expressar o indescritível júbilo que ora me arrebata!
Acho fantástico ver o Crivella vetando projeto de lei que obriga as concessionárias do BRT a colocar seguranças em todas as estações. Cuidando das pessoas... que são empresárias do transporte.
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E as vigas da Perimetral, hein, gente? Magneto continua foragido?
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Primeiro a gente tira a Dilma, depois a gente...
...deixa pra lá.
OU
...fica bem quietinho.
OU...
...vai ver o filme do Pelé.
OU
...evita a fadiga.
OU
...
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E a tal da argamassa importada à prova de balas para blindar as escolas que o Crivella disse que já tinha até encomendado nos EUA, por onde anda? Esquisito, né?!
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É o cúmulo da cara de pau ver o Lula, que tanto apoiou Cabral e Pezão, vir ao Rio para protestar contra o desmantelamento da UERJ. É como se o açougueiro fosse protestar em defesa do boi...!

"Socorro, Açougueiro! Venha nos salvar!"

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Conquistadores do Ar

Cenas dos primórdios da aviação e da RAF na deliciosa prosa de T.E. Lawrence em A matriz:

Nós somos de muita utilidade aos olhos de todos aqueles que aceitam nossas premissas, isto é, que a conquista do ar é o primeiro dever da nossa geração.

Uma parcialidade cara da natureza que, através dos tempos, reservou para nós a conquista do seu último elemento! Nossa época será admirada pelo modo como desempenhamos essa tarefa única de uma nova e grande conquista. Para aqueles de visão curta ou política, há nisto só um aspecto de patriotismo: é o impulso a ser dado aos nossos sucessores, que dependerão das técnicas de aviação para a reforma do nosso exército do século XVIII e dos nossos navios ridículos.

Não imaginem que nós sentimos todos a mesma coisa e no entanto sentimos ainda mais do que isso. Estamos diante de algo que domina e ultrapassa a nossa imaginação. Cada um sabe que cem mil homens, seus semelhantes, trabalharão nisto com toda a força, durante gerações, e ainda longe do fim entrevisto. Meu espírito vivo tem limite para as suas palavras. O extremo cuidado que temos no nosso trabalho vai mais além. Não é trabalho mercenário nem feito por obrigação. A aviação e o soldo são pulgas para coçar no nosso entusiasmo.

Não pensem também que estou querendo dizer que somos pretensiosos; pecamos como todo mundo, orientados para um ponto extremo, por um único motivo: estamos preocupados com uma coisa maior do que a gente. Traduzimos isto em termos de roscas e cilindros, para uso diário. Se um de nossos ferros-velhos não pode voar por culpa nossa, a esquadrilha baixa a cabeça, sentindo-se desonrada.

Se você disser a Tug que, na regulagem dele, ficou alguma coisa por acabar, ou a Pitaine, que o motor não está tão bem conservado como deveria, corra depois, porque se eles acreditarem que você está dizendo a verdade, vão matá-lo.

Lawrence e seus companheiros teriam se orgulhado do clássico Harrier "Jump Jet", uma das obras-primas da aviação militar britânica...

domingo, 26 de novembro de 2017

Lula é uma escolha pragmática?

Botar Lula mais uma vez no poder não me parece uma escolha "pragmática". Por quê?

É apostar perigosamente num esgarçamento da atual crise. Mais 4 anos de polarização política acentuada, temperada com uma reedição cada vez mais ineficaz dos velhos conchavos. Teríamos um executivo acossado, desesperado para se sustentar em acordos ainda mais torpes, provavelmente disposto a conceder o inaceitável em busca de um apoio vendido a alto preço. Um executivo à mercê dos mais vorazes apetites partidários. Uma versão piorada da era PT-PMDB, com o agravamento de seus vícios mais lastimáveis. 4 anos de instabilidade política aguda, com consequências posteriores imprevisíveis. Me parece ingênuo esperar o contrário disso; não é razoável contar com o improvável. Seria pensar com um otimismo difícil de justificar com argumentos palpáveis.

Sejamos realistas: o que se pode racionalmente esperar de bom de um terceiro mandato de Lula?

Não há no presente indícios razoáveis que permitam esperar algo de positivo de tal aposta: Lula no poder não será solução, será problema. Não tenho bola de cristal, posso estar errado; mas não pretendo pagar pra ver...

O verdadeiro pragmatismo aconselha a evitar as apostas mais arriscadas, e não a abraçar temerariamente o perigo. Lula é uma carta que não deve permanecer no nosso baralho. Eleger Lula em 2018 pode nos trazer resultados muito desagradáveis para 2022... De um ponto de vista meramente pragmático, não seria talvez mais razoável pensar em Ciro ou Marina? Se for pra errar, que pelo menos se cometam erros novos, em lugar da eterna repetição de erros antigos...

P.S.: Se Chico Alencar vier, meu primeiro turno é com ele. Não sou muito pragmático.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Quando uma pessoa se diz "empoderada em Jesus" vemos a quantas anda a montanha-russa do pensamento pós-moderno...

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Quem libertou Picciani?

Os deputados corruptos do Rio de Janeiro? Claro que sim.

Mas eles fizeram isso SOZINHOS...?

Qual é a SUA responsabilidade nisso tudo?

Em quem VOCÊ votou para deputado estadual em 2014? Já esqueceu? Você se informou bem antes de votar? Você comparou candidatos? Você PENSOU direito antes de escolher? Você sabe o que é e o que faz um deputado estadual? Você sabe pelo menos o partido do seu candidato? Você se interessa por política ou não está nem aí? Você é dessas pessoas que "detesta" política e ainda se orgulha disso?

Qual é a SUA responsabilidade, como ELEITOR e CIDADÃO? VOCÊ ajudou OU atrapalhou Picciani e companhia a fugir da cadeia?

As eleições de 2018 estão a caminho; dessa vez, se informe cuidadosamente, pense MAIS e MELHOR antes de votar! Não mantenha no poder quem não merece estar lá!

Não eleja nem REeleja os cúmplices de Picciani... ou adianta continuar reclamando E repetindo OS MESMOS erros? Como dizem, errar é humano, mas insistir no erro é tolice.

O caminho da CONSCIENTIZAÇÃO é longo e trabalhoso, mas é o único caminho para uma democracia PLENA e verdadeira...


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Tempos e laços

"Mitusha, Yotsuha, vocês sabem o que é musubi?

Numa língua antiga, o deus que protege nossas terras é chamado de Musubi.

Mas essa palavra tem um significado mais profundo.

Atrelar os fios é musubi. As ligações entre as pessoas também. Inclusive, o fluxo do tempo é musubi.

Tudo isso é o poder divino. Por isso, os fios trançados que fazemos são uma obra divina.

Eles representam o próprio fluxo do tempo.

Eles vão se juntando e ganham forma. Eles se torcem, embaraçam e, às vezes, voltam ao normal. Eles acabam se rompendo e voltam a se ligar.

Isso é musubi. Isso é o tempo".

Your Name, de Makoto Shinkai e Ranmaru Kotone