segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Queridos amigos, 2019 começa pouco promissor. Nossa jovem democracia passará por duros testes nos próximos 4 anos, como navio que atravessa longa tempestade. As condições de nosso navio-república para tal travessia não são as melhores - mas poderiam ser piores, bem piores. Cabe a cada um de nós fazer o possível e o impossível para evitar o naufrágio. O desafio é grande, mas o dever nos convida a perseverar com coragem e esperança. O fantasma da tirania nos ronda, mas não sucumbamos ao desespero. Que a tirania nos cerque de fora, mas não brote de nossos próprios corações. Que o medo não nos cale nem nos imobilize. Sejamos vigilantes, cautelosos e lúcidos a cada passo, evitando as armadilhas de ódio e intolerância dentro e fora de nós mesmos; principalmente dentro de nós mesmos. Que 2019 nos encontre à altura de seus desafios. Grande e republicano abraço a todos!
Cada República tem o Palpatine que merece.
Feliz 2019! Que em 2022 haja "Uma Nova Esperança"... May the Force be with us!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Explicadinho



-Isso são horas? Onde o senhor estava?

-Depois eu respondo isso, por favor.

-E esse batom na cueca?

-Sobre isso eu vou falar com o MP.

-Ok, estou convencida. Está tudo explicado. Mas o PT?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Caso encerrado?

É o cúmulo da ingenuidade dizer que o "Caso Queiroz" está resolvido depois de uma breve entrevista onde não foram especificados valores nem apresentados documentos de qualquer espécie. Tal expressão de alívio dos eleitores de Bolsonaro parece demasiadamente precoce: ainda há muito que esclarecer e muitas inconsistências por elucidar. Até aqui, as explicações apresentadas são bem menos que satisfatórias. Percebe-se que os bolsonaristas seguem o mesmo caminho outrora trilhado pelos lulistas. Assim como Lula, os Bolsonaros serão inocentes mesmo que se prove em contrário. Toda idolatria conduz à cegueira...

As mulheres de chifres

Um conto folclórico irlandês, adaptado para meus alunos cariocas:


Uma rica mulher estava sentada, tarde da noite, cardando e preparando a lã, enquanto toda a família e os criados dormiam. Ouviu uma batida na porta, e uma voz chamou: “Abra! Abra!” – “Quem está aí?”, disse a dona da casa. “Eu sou a Feiticeira de um Chifre”, foi a resposta. A dona da casa abriu a porta, e uma mulher entrou, levando nas mãos um par de cardadores de lã e tendo na testa um chifre. Sentou-se junto ao fogo e começou a cardar a lã com violenta pressa.

Então se ouviu uma segunda batida na porta, e uma voz chamou, como antes: “Abra! Abra!” A dona da casa abriu a porta, e imediatamente outra feiticeira entrou, com dois chifres na testa e uma roca de fiar lã nas mãos. “Eu sou a feiticeira dos dois chifres”, disse ela, e começou a fiar veloz como um raio. E assim as batidas na porta prosseguiram e as feiticeiras iam entrando, até que finalmente havia doze mulheres cantando e tecendo lã ao redor da lareira, a primeira com um chifre e a última com doze.

Era estranho de se ouvir e assustador de se ver essas doze mulheres, com seus chifres e suas rocas. A dona da casa quase desmaiou, tentou levantar-se para chamar ajuda, mas não conseguiu se mover nem pronunciar uma palavra, pois as feiticeiras haviam-na enfeitiçado.

Então uma delas a chamou e disse: “Levante-se, mulher, e faça um bolo para nós”. Ela foi até o poço buscar água, mas uma voz lhe disse “Volte para casa e grite: ‘A montanha das mulheres fenianas está pegando fogo!” Foi o que ela fez. Quando as feiticeiras ouviram o grito, correram para fora soltando gritos estridentes e fugiram para Slievenamon, sua morada.

Mas o Espírito do Poço pediu à dona da casa que entrasse e preparasse a casa contra os feitiços das bruxas, caso elas voltassem. Para romper o encantamento, ela borrifou a porta da casa com a água na qual lavara os pés de seu filho. Depois, pegou um bolo que as feiticeiras haviam feito com sangue e farinha em sua ausência, cortou-o e colocou um pedaço na boca de cada um dos adormecidos, e eles recuperaram a saúde. Então pegou o pano que elas haviam tecido e trancou com cadeado num baú e, finalmente, travou a porta com uma grande tranca presa aos batentes, para que as bruxas não pudessem entrar. Ao terminar de fazer essas coisas, ficou aguardando. Não demorou muito para que as feiticeiras voltassem, com muita raiva, pedindo vingança.

“Abra, abra, água de lava pés!”, gritaram. “Não posso, estou toda esparramada pelo chão”, disse a água.

“Abram, abram, madeira, árvores e tramela!”, gritaram elas para a porta. “Não posso, a tranca está pregada e não tenho força para movê-la”, disse a porta.

“Abra, abra, bolo que fizemos e misturamos com sangue!”, gritaram elas de novo. “Não posso, estou quebrado e macerado, e meu sangue está nos lábios das crianças adormecidas”, respondeu o bolo.

Então as feiticeiras voaram pelos ares dando gritos estridentes, e fugiram para Slievenamon, lançando estranhas maldições ao Espírito do Poço que desejara sua destruição. A mulher e a casa foram deixadas em paz, e um xale perdido por uma das feiticeiras em sua fuga foi guardado pela dona da casa como lembrança daquela noite; esse xale permaneceu na mesma família, passando de geração em geração, durante mais de quinhentos anos.

Adaptado de Joseph JACOBS. Contos de fadas celtas. Tietê: Landy, 2002.

Francisco de Goya, O Sabá das Bruxas (1821-23)



sábado, 22 de dezembro de 2018

"Apertem os cintos, o motorista sumiu! "
Imperdível neo-chanchada brasileira. Melhor que Mazzaropi.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O coração comido

Um conto medieval adaptado para meus jovens alunos:

Pam, pam, pam... Batidas insistentes abalavam a porta do meu quarto. “Frei Adalbert, abra! Depressa! Oh, meu Deus!” Quando abri a porta, uma mulher assustada entrou no quarto. Me puxou pela manga; percebendo a gravidade da situação, a segui até o pátio iluminado pelas tochas. As pessoas formavam um semicírculo em volta de um corpo. Uma velhinha rezava, ajoelhada. Quando cheguei, a aglomeração se dispersou. Senti um aperto no peito quando olhei para o corpo inanimado. A moça estava deitada, imóvel, no chão. Apesar do sangue que manchava os cabelos, Béatrice ainda era bonita.

Lembrei-me de nossos primeiro encontro, 7 meses antes. Eu havia sido mando por meu superior ao senhor Giraud de Valgaillard para completar a educação de sua filha Béatrice. O barão ambicionava elevar o nome da família, casando-a com o melhor partido possível, nas cortes da França ou da Inglaterra.

Voltei a mim. Um guarda me relatava: "Ela saiu correndo pelas galerias superiores; depois, sem um grito, jogou-se no vazio. Não pude fazer nada”. Por pouco não desmaiei. Por que motivo Béatrice decidiu pôr fim a seus dias? Esse pensamento me revoltava. “Onde está o senhor Giraud? Por que não está aqui?”, exclamei, sacudindo o rapaz. “Ele se trancou em seus aposentos... Ninguém tem coragem de perturbá-lo...”

Pedi que levassem a defunta para seu leito e mandei que a lavassem. Notei a ausência de um anel de esmeralda do qual ela nunca se separava. Examinei atentamente suas mãos e descobri debaixo das unhas fragmentos de carne e um fio púrpura que não provinha da sua roupa. Tudo aquilo era estranho, muito estranho: concluí que a morte da minha aluna ocultava um terrível segredo. Prometi-me descobri-lo.

Desci a escada que levava à grande sala senhorial. A porta estava aberta. A sala estava como a deixáramos desde o jantar. Uma poltrona derrubada quebrava a bela ordem do lugar. Inspecionei cada canto, cada móvel, começando pela mesa. Fora posta para três convidados, mas somente duas taças haviam sido utilizadas – a do senhor e de sua filha. Béatrice e seu pai teriam esperado em vão uma visita? Outro detalhe me perturbava: uma só fatia de pão estava embebida de molho – um molho igual ao que eu tinha encontrado na túnica da morta. No chão, perto da poltrona derrubada, notei sinais de vômito. Debaixo da mesa, descobri o anel de esmeralda perdido.

Pensei na dama de companhia de Béatrice: Agnès. Será que ela sabia de alguma coisa? Na manhã seguinte, fui conversar com Agnès, que tinha os olhos inchados de tanto chorar. Era evidente que ela não queria falar comigo. Mostrei-lhe a joia: “Agnès, reconhece este anel?” Ela desmaiou em meus braços! Quando voltou a si, começou a chorar, agitada: “Santa Mãe misericordiosa! O anel de... Eu sabia que aquilo acabaria mal...” Eu disse a ela: “Vamos, minha filha... Você tem que se controlar e contar-me tudo que sabe. Preciso saber a verdade.”

Com uma voz frouxa, ela revelou-me que Béatrice conhecera pouco tempo antes um rapaz, trovador, nobre, mas sem dinheiro. Seus versos impressionaram muito Béatrice, seu encanto a conquistou: a moça ficou loucamente apaixonada. Nas semanas que se seguiram, encontraram-se às escondidas. Para selar um amor eterno, Béatrice deu ao jovem cavalheiro seu precioso anel de esmeralda. Mas o barão, que não tinha nada de bobo, ficou a par dos encontros. O barão e seus guardas espancaram o rapaz na frente de Béatrice e depois o arrastaram para fora. “Por que não me contou nada?”, perguntei-lhe. “Eu estava aterrorizada... O barão é um homem violento. Eu não tive coragem...”

Tentei reconstruir os últimos instantes de Béatrice. Na última ceia, feita em companhia de seu pai, ela parece ter perdido toda esperança de rever o amado. Uma ideia teimava na minha cabeça: o barão não era homem de deixar viva uma pessoa capaz de arruinar seus projetos matrimoniais.

Entrei escondido no quarto do barão, onde descobri uma porta oculta atrás de uma tapeçaria. Uma escada de pedra mergulhava nas trevas; reinava um silêncio mortal. Acendi uma tocha e desci. Tinha a impressão de entrar num túmulo. Encontrei um longo e estreito corredor de pedra úmido e mofado. No fundo, percebi uma forma encostada na parede, sentada, imóvel, silenciosa: um corpo banhado numa poça de sangue. Tinha um enorme buraco no lado esquerdo do peito. Tinham arrancado seu coração! No chão, havia uma viola e um pergaminho de poemas rasgado. A verdade revelou-se, terrível: eu havia encontrado o namorado de Béatrice! Subi correndo, saindo no quarto do barão. Nesse instante, uma voz sonora me fez estremecer: “Ora, vejam só, frei Adalbert! Visitando o castelo, irmão?” Giraud de Valgaillard me encarava. Percebi minha imprudência. Fiquei petrificado, imóvel. Passado o primeiro instante de espanto, recobrando o controle, encarei-o e acusei: “Eu sei de TUDO, senhor Giraud! O senhor é um ASSASSINO!”

“Bravo, frei Adalbert! Chegou na hora certa. Eu queria mesmo me confessar... Frei Adalbert, confesse-me! O senhor não pode recusar...” Impotente, sentei-me diante dele, pronto para ouvir a longa lista dos seus pecados.

“O senhor certamente sabe que um fazedor de versos seduziu minha querida filha. O amor é cego e imprudente... Será que acreditavam mesmo que sua paixão nunca seria descoberta? Que eu permitiria um casamento tão descabido? Anteontem, peguei em flagrante os dois pombinhos e mandei meus homens levarem o rapaz para os subterrâneos do castelo. Matei-o e, com minhas próprias mãos, arranquei-lhe o coração. Ontem, fui ver minha filha em seu quarto; disse a ela que os havia perdoado, e que naquela mesma noite os receberia em um jantar. Enquanto os preparativos do banquete iam de vento em popa, chamei no canto meu cozinheiro e entreguei-lhe o coração do moço, para fazer um prato saboroso, digno de uma rainha. Na hora do jantar, Béatrice espantou-se ao não ver o amado. Eu disse que ele estava atrasado e logo chegaria. De ótimo humor, minha filha provou um pouco de cada prato. Adorou o coração ensopado, que repetiu até acabar o prato. Esquecendo-se das boas maneiras, lambeu os dedos úmidos de molho, e disse: ‘Pai, que delícia estava essa carne!’, então respondi: ‘Não me espanta que tenha apreciado esse prato. Você não podia deixar de saborear, assado e temperado, o que você adorava vivo e palpitante. Minha filha, esta carne que tanto lhe agradou, outra coisa não era que o coração do seu namorado. O lindo coração lhe serviu de alimento. Aqui está a prova do que digo: o anel que tirei do cadáver do seu trovador. Ó delícias do amor!’ Ela se curvou para o chão e vomitou. Depois, enfurecida, precipitou-se sobre mim, unhas à mostra. Uma saraivada de socos e arranhões se abateu sobre meu rosto e meu peito, mas continuei a zombar: ‘Ele não queria lhe dar o coração? O desejo dele foi satisfeito! Melhor ele não podia esperar. Agora vocês estão reunidos. Você consumiu o seu amor. Devorou-o com apetite!’ De repente, ela se acalmou; seus punhos pararam de me bater. Presa do delírio, fugiu da sala, correu para as galerias superiores e atirou-se no vazio. Morreu louca e amaldiçoada. Pronto! Agora o senhor sabe de toda a história, frei Adalbert. Mas para que servirá saber, se não pode contar nada a ninguém? O segredo da confissão condena o senhor ao silêncio. Quem irá cobrar por meus atos?”

Nenhuma palavra de arrependimento, nenhum remorso saiu dos lábios do senhor Giraud. Ele até se orgulhava do seu feito! Apavorado, fugi do castelo, deixando o barão impune.

Dez anos se passaram desde esses terríveis acontecimentos. Soube recentemente que o Senhor Giraud de Valgaillard multiplicara suas peregrinações, antes de morrer combatendo na oitava cruzada. Ele teria entrado no corpo a corpo berrando como um possesso: “Béatrice! Deus! Perdão!” Não era um grito de guerra. Eu, Adalbert, frade, sei da falta da qual ele tentava redimir-se, em vão. Que Deus, Nosso Senhor Onipotente, tenha piedade da sua alma!

Adaptado de Gilles MASSARDIER. Contos e lendas da Europa Medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Castelo de Vincennes, Paris. O simpático gorducho à esquerda é o autor deste blog.


O motorista do Bolsonaro abre uma oficina. Qual é o nome do filme?

R: "Laranja Mecânica"
Será que no depoimento de amanhã o MP espreme a laranja ou acaba em pizza?
Pizza combina com laranjada?

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A vergonha é laranja

Nova turnê de acompanhamento nos perfis de amigos bolsonaristas. O motorista ainda não apareceu por lá. O mesmo silêncio, excetuando uma única piada dizendo ser hipocrisia votar no PT e cobrar honestidade do Bolsonaro. Paradoxal. De resto, com poucas exceções, a maioria dessas pessoas se "desinteressou" inteiramente das ações de Bolsonaro e sua claque nas últimas semanas. Não há notícias, memes, nada. Parece que o "Mito" simplesmente se apagou de suas memórias. Vai ver andam laranja, digo, vermelhos de vergonha... Como crianças que abandonam seus brinquedos, aposto que daqui a alguns meses muitos deles até negarão ter votado em 2018. "Político é tudo a mesma coisa, eu anulo sempre". Se (ou quando) tal momento chegar, sentir-me-ei até inclinado a acreditar que realmente havia fraude nas urnas eletrônicas...

sábado, 15 de dezembro de 2018

Mea culpa

Se for verdade o que tem sido dito sobre a pastora Damares ter sido vítima de abuso sexual na infância, retiro minhas piadas sobre sua possível mentira, alucinação ou experiência mística. Na dúvida, me abstenho de julgamento, retiro minhas piadas sobre o assunto e lamento muito que algo assim possa ter ocorrido com ela.

No entanto, o fato de ter sido vítima de abuso na infância não a isenta de críticas em seu cargo ministerial, nem da nefasta mistura de política e religião que a mesma representa. Que as funções de pastora e ministra não se confundam. Do ponto de vista político, especialmente em relação à política indigenista, sigo criticando a maior parte dos posicionamentos até agora avançados pela futura ministra.

Ofereço a ela minha solidariedade enquanto possível vítima de uma terrível experiência de vida, mas me oponho fortemente a seus projetos ministeriais. Uma coisa não exclui a outra.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Hora Sombria

Eis aqui,
Segundo a segundo,
Minuto a minuto,
A hora sombria:
Triste, dura, vazia
Dura séculos ou um dia?
Quem sabe?
Eis a hora sombria

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O silêncio dos bolsonaristas

Por mórbida curiosidade passei um pente fino na timeline de TODOS os meus amigos bolsonaristas no Facebook. Deu um pouco de trabalho. Não encontrei nenhuma - repito, NENHUMA menção ao caso das suspeitas transações financeiras do motorista do clã Bolsonaro. Nenhuma notícia compartilhada, nenhuma argumentação defensiva e, principalmente, nenhum tipo de expressão de cobrança ou ao menos preocupação com o assunto. NADA. Apenas um silêncio sepulcral, retumbante, ensurdecedor. Um silêncio encabulado, talvez. Queria saber onde foi parar toda aquela indignação contra a corrupção e os ardorosos clamores por honestidade... Eram só bravatas?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

índios cercados

As imagens de satélite abaixo ilustram tanto a importância das Terras Indígenas como espaço de proteção ambiental quanto exibem de maneira dramática o assédio às TIs, em alguns casos. Um verdadeiro cerco,  quase no sentido militar da coisa. Fica mais fácil entender porque a manutenção e demarcação adequada das Terras Indígenas incomodam tanta gente, inclusive nos poderes Executivo e Legislativo, em esferas federais e estaduais. O Parque do Xingu, particularmente, parece uma ilha cercada de motosserras por todos os lados... Dizer que essas terras são improdutivas é um gravíssimo equívoco: talvez elas não produzam dinheiro, mas produzem oxigênio, que é muito mais valioso para todos nós que respiramos...










A fragilidade da democracia

A defesa do autoritarismo é relativamente simples e fácil: dentro de certa medida, tal defesa pode lançar mão da força, da violência e tipos diversos de coerção, sem por isso se tornar incoerente. Ocorre o contrário com a defesa coerente da democracia, a qual exige grandeza de espírito, astúcia, generosidade, criatividade, sutileza e muita serenidade.

Defender a democracia com truculência, ainda que apenas verbal, já é ceder ao autoritarismo - até porque o autoritarismo não está apenas "lá fora"; antes de tudo, ele brota de dentro de nós mesmos, especialmente quando nos deixamos dominar pela raiva ou pelo ódio. É triste, mas cada um de nós possui seu próprio "Führer interior" - e é muito perigoso ignorar isso. Quando cedo às minhas próprias tendências autoritárias, já derrotei os valores democráticos dentro de mim mesmo, tornando-me, ainda que involuntariamente, um agente do autoritarismo.

Quando um suposto defensor das liberdades democráticas, por mais nobres que sejam suas intenções, se dispõe a calar e silenciar seus adversários, ele mesmo já trabalha pelo apequenamento da democracia, essa flor tão frágil, que exige tanta delicadeza em seu cultivo...


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Às vezes não sei se sou eu que brinco com as palavras, ou se são as palavras que brincam comigo.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

O passado como fábula

"Lembro-me das histórias antigas que me contavam na infância... Histórias de guerreiros e lutas nas montanhas de Ueno... De como era a cidade antigamente... Memórias da Era Edo [1603-1868]... Muitas narrativas e até encenações sobre como meu avô lutou contra Saigo Takamori... E hoje eu estou aqui, lutando numa guerra. Será que um dia eu vou poder contar tudo isso pros meus netos? Sentado sob o sol numa bela varanda... 'Sabia que o vovô já pilotou caças numa guerra?' Quando esse dia chegar, como será que o Japão vai estar? Para mim, aquelas histórias da Era Edo sobre o  meu avô pareciam contos surreais. Talvez nossos netos, ao ouvirem nossas histórias, também irão achar que são coisas de um passado distante..."
Naoki Hyakuta


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Sem anos de perdão

Fico impressionado com as posturas e atitudes autoritárias de algumas pessoas que andam por aí se apresentando como antifascistas! Dariam inveja ao Salazar... Dragão que combate dragão tem cem anos de perdão?


domingo, 18 de novembro de 2018

Sobre médicos cubanos e responsabilidades

Nosso mais recente embaraço diplomático é complexo. Há várias questões imbricadas. Não adianta apontar heróis e vilões, mas entender as distintas responsabilidades no assunto e suas respectivas consequências. Como não tenho qualquer simpatia pelo regime cubano, pelo PT ou por nosso presidente recém-eleito, me sinto à cavaleira para falar sobre o assunto.

1) O Brasil, como se sabe, é um país de rincões isolados e, historicamente, o Estado brasileiro tem dificuldade em fazer profissionais de serviços básicos chegarem a esses rincões, mesmo com eventuais incentivos. No caso das Forças Armadas uma alternativa é alterar a contagem do tempo de serviço. Por exemplo, um ano de serviço de um militar nesses locais conta como 3. 5 anos contam como 15, permitindo se "aposentar", ou melhor, reformar, mais cedo. No caso dos médicos parece que medidas nesse sentido nunca surtiram o efeito desejado.

2) O programa "Mais Médicos" foi implementado para suprir essas carências. Como não sou especialista em Saúde, não entro nos méritos ou deméritos do programa, que não tenho a devida competência para avaliar. Assinalo apenas o fato de que alguns milhões de brasileiros dependem hoje do programa para atendimento médico básico. O futuro presidente do Brasil deveria estar, antes de tudo, preocupado em garantir e assegurar o devido atendimento a esses cidadãos, de um ponto de vista estritamente pragmático, por uma razão muito simples: ele foi eleito presidente do Brasil, e não de Cuba. Seria legítimo se preocupar com os médicos cubanos, contanto que isso não viesse a comprometer o atendimento aos cidadãos brasileiros.

3) A participação cubana no programa Mais Médicos resulta de um acordo BILATERAL livremente firmado entre dois Estados soberanos, Brasil e Cuba, sob condições que, à época, pareciam legítimas aos mandatários de ambos Estados. Como todo acordo internacional, ele depende que ambas as partes envolvidas respeitem as condições estipuladas. Estando o futuro presidente do Brasil interessado em mudar as presentes condições do acordo, ele deveria faze-lo via NEGOCIAÇÕES com a outra parte, ou seja, resolver o assunto DIPLOMATICAMENTE, através do DIÁLOGO com o Estado cubano.

4) O método de remuneração dos profissionais cubanos no programa realmente é controverso e parece ferir princípios de isonomia da legislação trabalhista brasileira. Nesse sentido, caberia ao futuro presidente questionar a validade do acordo por vias JURÍDICAS. Conforme as autoridades JUDICIÁRIAS brasileiras se posicionassem em relação ao caso ele teria o devido respaldo LEGAL para renegociar o acordo pelas vias DIPLOMÁTICAS, recorrendo inclusive a instâncias de arbitragem internacional, conforme fosse necessário. Deveria, de preferência, fazer isso DEPOIS de tomar posse, de modo CRITERIOSO e com a devida PRUDÊNCIA.

5) Em lugar de agir com a prudência conveniente a um chefe de Estado responsável, o presidente eleito optou por fazer prematuras provocações EXTRA-OFICIAIS a um Estado soberano, ANTES mesmo de tomar posse, gerando assim um incidente internacional desnecessário, sem passar pelas devidas vias jurídicas e diplomáticas. Ao fazer semelhantes bravatas, não pensou devidamente nos milhões de cidadãos brasileiros que dependem do programa Mais Médicos e dos profissionais cubanos envolvidos no programa. Em suma, agiu de forma pouco RESPONSÁVEL em relação às necessidades objetivas de cidadãos brasileiros que governará a partir de 2019. Ao agir dessa maneira demonstrou inadequado senso de prioridade: seu dever primeiro deveria ser assegurar o atendimento médico à população brasileira, dando à política doméstica a devida primazia sobre a política internacional - DEPOIS de tomar posse, de preferência.

6) Como pode acontecer em incidentes internacionais semelhantes, o Estado soberano de Cuba reagiu de modo duro às imprudentes provocações do futuro presidente do Brasil. Cuba perdeu uma excelente oportunidade de agir com magnanimidade e adotar uma postura conciliatória, o que talvez trouxesse ganhos à sua imagem internacional. No entanto, como Estado soberano, reagiu como lhe aprouve. Podemos questionar ou criticar, mas é um gesto legítimo do ponto de vista da diplomacia, embora questionável do ponto de vista humanitário.

7) A diplomacia é uma arte sutil, e a prudência exige atenção à correlação de forças em jogo em qualquer questão internacional. No caso em apreço, o futuro presidente do Brasil não percebeu (ou não quis perceber) que Cuba detém a vantagem no jogo, pois aparentemente o Brasil necessita dos médicos cubanos mais do que Cuba necessita do dinheiro brasileiro.

8) Restariam ao futuro presidente duas opções. Um pedido de retratação ao Estado cubano, seguido de uma rodada de negociações diplomáticas conciliadoras ou alimentar a tensão, rumo à ruptura definitiva. A primeira alternativa seria aquela mais pragmática e prudente no sentido de assegurar a curto prazo as necessidades dos brasileiros que dependem dos serviços prestados pelos médicos cubanos. Isso exigiria que o presidente eleito pusesse o bem-estar desses brasileiros acima de seu ego.

9) Na prática, o presidente eleito apostou na via conflituosa, oferecendo asilo político aos médicos cubanos - decisão que, além de questionável, teria efeitos práticos incertos para a população que precisa desses médicos. Quantos médicos aceitariam tal asilo? Que medidas práticas o governo brasileiro precisaria tomar para viabilizar isso? Qual seria o impacto orçamentário de tal decisão a curto, médio e longo prazos?

10) O presidente eleito poderia, em se confirmando a ruptura unilateral do acordo por parte de Cuba, recorrer a instâncias de arbitragem internacional, mas tais processos costumam ser tortuosos e demorados - assunto para muitos anos. E a população precisa de médicos AGORA.

11) O futuro presidente tem algum Plano B caso suas arriscadas apostas não se concretizem? Como ele poderá remediar tal inconveniente em seus primeiros meses de governo?

CONCLUSÃO: em minha opinião, o Estado de Cuba reagiu de forma mesquinha, brusca e desproporcional às provocações do futuro presidente do Brasil, no entanto este demostrou pouca responsabilidade ao desconsiderar as consequências que suas provocações poderiam ter sobre o bem-estar de uma porção significativa da população brasileira. Não é o tipo de atitude que se espera de um chefe de Estado cônscio de seus deveres. Em todo caso, há que se aguardar atentamente os próximos capítulos da história.

P.S.: Sugiro algumas leituras relacionadas ao caso, com apreciações distintas do mesmo: uma reportagem do New York Times; uma coluna de Leonardo Sakamoto e as análises dos fact-checkers Lupa e Aos Fatos.
 

sábado, 17 de novembro de 2018

Stan, o Semeador de Mundos

Stan Lee criou os X-Men, mas não o Wolverine. 

Inventou o Homem-Aranha, mas não escreveu A última caçada de Kraven

Reinventou Thor e o imaginário popular sobre a mitologia germano-escandinava como apenas Wagner antes dele. 

Criou o Demolidor, mas o "Homem-sem-medo" alcançou sua plenitude dramática e estética nas mãos de Frank Miller. 

Mais que criar personagens e aventuras, Stan Lee semeou ideias que inúmeros artistas cultivaram laboriosamente até darem seus frutos mais maduros e saborosos. Essa é sua verdadeira grandeza: o divino Galactus é o Devorador de Mundos, mas Stan Lee é ainda maior: um Semeador de Mundos. 

A ponte de Bifrost está aberta: boa jornada, Stan, e muito obrigado!

Galactus e o Surfista prateado no traço do francês Moebius, em Parábola, uma das melhores aventuras escritas pelo próprio Stan Lee - que, não à toa, dizia que o Surfista Prateado era sua criação com a qual mais se identificava, embora nunca tenha se tornado um dos personagens mais populares do universo Marvel.

Doutrinação Consumista

As pessoas estão preocupadas com uma doutrinação comunista que não existe, mas deveriam se preocupar com a "doutrinação" consumista - esta sim, muito real - que produz uma juventude mimada, cínica e egocêntrica, incapaz de ouvir "não" e respeitar limites, com valores duvidosos, um hedonismo doentio e um imediatismo patológico, virtualmente incapaz de tolerar frustrações e manter esforços e compromissos de longo prazo. 

Jovens que, cada vez mais, usam pessoas e amam objetos. Enfim, uma juventude barulhenta por fora e acabrunhada por dentro, que comete suicídio com uma frequência cada vez mais assustadora. 

Essa é a "doutrinação" que me preocupa...


Acho o marxismo tedioso, mas o antimarxismo consegue ser ainda mais insípido...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Tiroteio de cegos

Cegos brigando com cegos pelo direito de guiar outros cegos. Existem pessoas que sofrem uma necessidade patológica de atrair atenção, e existem outras pessoas com uma tendência igualmente patológica de conceder a atenção reclamada pelas primeiras. Melhor ficar longe desse tipo de gente. Em terra de cego, quem tem um olho é inimigo...

Cegos guiando cegos, de Pieter Brueghel (1568)

domingo, 11 de novembro de 2018

Dados econômicos curiosos

Achei essa tabela interessante. Como não sou economista, contador, estatístico ou matemático, não devo ter compreendido muito bem.

Enfim, ela compara dados de endividamento público e privado em proporção ao PIB entre diversos países do mundo entre 2007 e 2014 (no caso brasileiro, entre o segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma).

O Brasil ocupa a 34ª posição na tabela (dívidas em torno de 128% do PIB anual), o que já é curioso: o endividamento global brasileiro nesses 7 anos ficou abaixo de inúmeras outras economias do mundo, com um aumento de apenas 27%. No entanto, podemos observar nas colunas à direita, que esse aumento no endividamento se distribui da seguinte maneira: 3% no setor governamental; 15% no setor empresarial; 9% no setor familiar.

Ou seja, no período em questão, o governo (do PT-MDB!) foi o setor econômico que menos se endividou no Brasil. Por outro lado, o endividamento familiar subiu consideravelmente e, mais importante, o setor empresarial se endividou CINCO VEZES mais que o governo.

Em suma, em que pese toda a funesta corrupção da Era PT-MDB, todos os gastos públicos mal direcionados e n outros fatores que me levam a criticar o PT (e seu siamês MDB), me parece difícil sustentar que o PT (sozinho) "destruiu o Brasil", "quebrou o Brasil" etc.

Em suma, fica evidente que, em termos orçamentários, a conduta do setor empresarial foi muito mais temerária que a do governo, e as famílias brasileiras também não cuidaram de suas finanças com muita prudência. No que tange especificamente às finanças familiares, posso afirmar que vi muita gente nos últimos anos gastando como se não houvesse amanhã, esquecendo que a fatura um dia chega e os juros são impiedosos. Vi muita gente viajando mais do que podia, adquirindo automóveis que nitidamente não condiziam com sua renda familiar, trocas de aparelhos eletrônicos demasiadamente frequentes etc.

Enfim, o PT-MDB tem sua parcela de responsabilidade na crise econômica que hoje vivemos, mas não estão sozinhos nessa lambança. É muito fácil conduzir suas finanças pessoais e/ou corporativas de modo pouco responsável por anos e depois jogar TODA a culpa no governo (embora o governo também tenha imensa responsabilidade, obviamente).

Minha avó usava um ditado que se aplica maravilhosamente à presente situação do Brasil: "Em 
casa onde falta pão, todo mundo está errado e todo mundo tem razão" - todo mundo tem direito de reclamar, mas todo mundo tem sua parcela de responsabilidade na situação.

Nunca fui petista, nem pretendo aqui defender o PT, apenas convidar cada um a refletir mais serenamente sobre a situação do Brasil em toda sua complexidade. Cada um tire suas próprias conclusões e vista a carapuça que lhe couber.

De resto, peço aos economistas, contadores, estatísticos ou matemáticos de plantão que me esclareçam nos pontos onde meu raciocínio for inválido ou incompleto.


Ironia eleitoral

Durante o século XIX, as correntes políticas de direita defendiam com unhas e dentes o voto censitário: nada de ralé votando por aí. Por outro lado, o sufrágio universal era uma bandeira levantada por correntes de esquerda (não marxistas). Mais ainda, as sufragistas feministas lutaram muito para estender o direito do voto às mulheres. Resumindo, se você hoje pode votar no Kataguiri, no Frota [!], no Crivella, no Witzel ou no Bolsonaro, agradeça às esquerdas e feministas do passado. 

Não é irônico? 

MORAL DA HISTÓRIA: não demonize a esquerda (ou a direita). Uma democracia saudável depende da diversidade e da variedade de pontos de vista em contínuo diálogo, trazendo suas respectivas contribuições e perspectivas à construção da vida em sociedade. Achar que existem heróis e vilões, que o lado X ou o Y é um mal que precisa ser radicalmente eliminado é matar a própria democracia.


Laura de Mello e Souza poderia lançar uma continuação de "O Diabo e a Terra de Santa Cruz" - "O Diabo e a República Federativa do Brasil"...

Preferências políticas

Fascismo e comunismo são coisas de europeu. A América Latina gosta é de caudilhismo.
Todo o rigor que uso contra meu semelhante, cedo ou tarde, se volta contra mim mesmo.
"O Lula tá preso, babaca"* é uma frase sobre a qual tanto petistas quanto antipetistas deveriam meditar atentamente. Como dizia Carlos V, não se faz guerra aos mortos...

[*pérola de oratória da lavra de Cid Gomes durante o segundo turno das eleições]

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sobre "vencedores" de debates

A qualidade dos argumentos sempre importa mais que os compromissos ideológicos de seu autor.

A honestidade intelectual - mercadoria tão escassa nos dias correntes - exige que eu reconheça os bons argumentos de meus "adversários" e os maus argumentos de meus "aliados". Esse é o caminho, necessariamente dialético, para a busca da verdade; fora disso, existe apenas o dúbio reinado das falácias, sofismas e eufemismos.

Aquele que deseja unicamente "vencer" debates - e duvido que alguém realmente vença debates - nunca chegará perto de qualquer verdade, até porque, no fundo, não se importa com verdade alguma.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Paradoxo armamentista

"Se o presidente vai armar todo mundo e o governador vai matar quem está armado, finalmente vamos conseguir o fim dos cariocas para o bem do país" - reflexão de um amigo.

domingo, 4 de novembro de 2018

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Ornitológicas

Quero ser valente como o condor, canoro como o rouxinol, sábio como a coruja, sutil como o colibri e manso como a pomba.
Cuidemos de nossos jardins. A primavera sempre volta.

Democracia exemplar

Usemos palavras sensatas, firmes e mansas. Para governantes autoritários, a oposição deve exemplificar a democracia e seus valores.
É tempo de dar tempo ao tempo. Deixemos a poeira baixar, para enxergar melhor.
Cada um de nós é apenas uma gota; juntos, somos um oceano.
A democracia de Atenas acabou quando Sócrates foi condenado por "corromper a juventude".

Faz sentido?

1-Professores fazem doutrinação comunista há décadas.
2-Bolsonaro foi eleito por milhões.
CONCLUSÃO: Bolsonaro é COMUNISTA.
Há poucos fascistas e comunistas de verdade no Brasil. Em compensação, há MUITA gente paranoica: ESSAS pessoas são MUITO perigosas...
Quem alimenta monstros acaba virando alimento de monstros. Cuidado!

Democracia mínima

O Twitter é a plataforma perfeita para um político se expressar. O limite de caracteres permite deixar tudo sempre vago e incerto. A democracia não cabe em 140 caracteres.

O tempo voa

2014: "Não é culpa minha, eu votei no Aécio".

2018: "Pô, gente, precismos nos unir e torcer pelo melhor para o Brasil!"

O elogio da ignorância

Os entusiastas de Bolsonaro estão me ensinando que um presidente não precisa entender nada de assunto nenhum, pois indicará especialistas para seus ministérios. Mas qual é o critério para escolher um bom especialista se você não sabe absolutamente nada sobre o assunto em questão? Aqueles que tanto acusavam Lula de ser um despreparado agora defendem com unhas e dentes o despreparo de seu próprio ungido. Coerência zero. "Vamos mudar tudo isso aí, tá ok?"

Por sinal, um legislador delibera sobre todos os assuntos importantes para o país, como Educação, Saúde, Economia etc. É simplesmente inaceitável ver que o sujeito passou quase 30 anos legislando sem entender ou aprender nada sobre os assuntos sobre os quais legislava. Podia pelo menos ter se cercado de assessores especializados nos assuntos mais relevantes: não sei o que ele pode ter aprendido com a "Wal do Açaí". Talvez um pouco de poesia: "Açaí, guardiã..." Vai que, na verdade, elegemos um grande entendedor da iniciática obra de Djavan? Enfim, já que agora é pra "torcer pelo Brasil", vamos torcer pro nosso futuro presidente conseguir aprender em 4 anos tudo aquilo que não conseguiu aprender em 30. Caso contrário, em 2022, vamos mudar tudo isso aí, tá ok?

Oposição

-O governo nem começou e você já está na oposição?!

-Minha oposição é aos valores defendidos pelo presidente eleito.

Torcidas

-Não torça pro avião cair porque não gosta do piloto!

-Eu só torço pro piloto não me torturar nem me jogar do avião...

Enfrentado o espelho

As esquerdas brasileiras, independentemente de partidos, para além mesmo do plano político-partidário, precisam realizar urgentemente sua autocrítica. Não apenas uma revisão de estratégias e táticas, mas uma profunda e radical ponderação sobre seus valores, referências e ideias. Tal esforço exige também uma aguda crítica de seu passado recente e remoto, no Brasil e no mundo. Precisamos exorcizar inúmeros fantasmas e quebrar numerosos ídolos: Marx, Engels, Lenin, Trotski, Stalin, Che, Castro, Mao, Prestes, Marighella, Lamarca, Brizola, Lula e tantos outros. Precisamos supera-los, sem demonização ou idolatria. Por outro lado, há que se recuperar importantes figuras do século XIX, eclipsadas pelo marxismo e pela Revolução Russa, a começar por personagens do calibre de Victor Hugo, Jean Jaurès, William Morris, entre outros. Há que se reescrever a história dos socialismos, para além das gaiolas do marxismo, para além das utopias delirantes e das escatologias revolucionárias. Tais esforços são desconfortáveis, dolorosos e aflitivos, mas imprescindíveis. Não há Fênix que se erga sem arder nas chamas renovadoras.

Novos Tempos

Eis que chegaram novos tempos, dias sombrios. Tempos de semear esperança, dias de acender luzes. Desespero? Nunca! Ódio? Jamais! Nossa frustração não pode virar raiva cega. Precisamos renovar olhares, repensar estratégias, abrir novos caminhos. Sair do conforto de nossas bolhas para a fria, hostil e complexa realidade. Não é mais o tempo das lacrações superficiais, dos slogans vazios e repetitivos, dos memes exaustivamente ecoados. Xingamentos, rótulos e ofensas não ajudarão. O jogo não é mais futebol, com a gritaria das torcidas; é xadrez, com o silêncio das jogadas cuidadosas - mover as peças certas nos momentos certos, evitando armadilhas e provocações. Precisamos de olhar atento, reflexões profundas, argumentos sólidos, ponderação serena e diálogo paciente. É hora de repensar e viabilizar programas políticos, e não de perpetuar rotinas estéticas.

O conforto do derrotado

A derrota eleitoral me traz apenas um consolo; mesquinho, mas um consolo: como quer que decorram os próximos 4 anos, quaisquer que sejam as glórias ou misérias, erros ou acertos, dos respectivos mandatos de Bolsonaro e Witzel, eu não tenho nenhuma responsabilidade por eles, ao contrário daqueles que neles votaram, ou que anularam seus votos. Não devo explicações a ninguém. Minha consciência permanecerá inabalavelmente tranquila. Por outro lado, espero que aqueles que os fizeram presidente e governador tenham a hombridade de assumir sua responsabilidade perante todos nós, na alegria ou na tristeza. Espero, sinceramente, que não "desapareçam" misteriosamente como os milhões de eleitores encabulados de Crivella. Enfim, que não ajam segundo o velho ditado: "filho feio não tem pai"... Estamos de olho.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Cientificismo e fanatismo

Cientificismo barato é mais perigoso que fanatismo religioso.

As teorias racistas e eugenistas do século XIX e do início do XX são bom exemplo disso. A devastação ambiental cometida pelo "homem-poderoso-pela-razão-e-mestre-da-natureza" é outro resultado dessa postura. Sem falar nos desvarios cometidos em nome da "ciência" marxista pelos regimes comunistas, ou, no mundo capitalista, por uma "ciência" econômica excessivamente confiante em seus números e modelos. Há, inclusive, certa ciência econômica tão fervorosa em suas convicções que chega a falar, um tanto religiosamente, em "ortodoxia econômica".

O fanático religioso ao menos sabe que obedece a uma fé orgulhosamente cega, enquanto o "esclarecido" cientificista acredita ser guiado pela mais pura, insofismável e incontestável razão. O fanatismo científico se baseia em "certezas" melhor mascaradas pela ilusão de "ter razão" e pela fé numa reificada compreensão da "Ciência" - essa misteriosa dama cujo endereço nunca descobri, muito embora conheça inúmeros cientistas...

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A tragédia já está consumada. Mais importante que encontrar culpados é buscar soluções. Bola pra frente.

Mais um conselho

Não adianta criticar o ódio pregado por Bolsonaro se nós mesmos odiarmos os eleitores dele. Controlemos, antes de tudo, o nosso próprio ódio - pois muito ajudamos se não atrapalharmos...

domingo, 28 de outubro de 2018

Juramento Amoroso

Seja essa nossa sagrada bandeira, senhora de nossa lealdade, dona de nossos corações, alicerce de nossos sonhos, âncora de nossas esperanças, objeto de cuidadosa devoção. Seja ela nosso abrigo, proteção, refúgio, escudo, porto seguro. VIVA A CONSTITUIÇÃO!!!


No mesmo barco

Queridos amigos (incluindo os que, infelizmente, votaram no dito-cujo), vou me recolher. Alguns, como eu, lamentam; outros, comemoram. Assim é a vida. Acabou o período eleitoral mais tenso da história da 5ª República no Brasil. Agora é o momento de acalmar os ânimos, guardar a serenidade, refletir, refletir e refletir muito. Que os "vencedores" respeitem os "perdedores", e que os "perdedores" não se deixem contaminar pela raiva e pelo ódio contra os "vencedores". O primeiro imperativo, agora, é preservar nossos corações e mentes de todos os sentimentos e pensamentos venenosos que nos impeçam de agir com sabedoria. Sejamos prudentes, mas não medrosos. Corajosos, mas não temerários. Medo e temeridade são péssimos conselheiros. Unidas, Prudência e Coragem constituem o caminho da grandeza: prudentes e corajosos, somos mais fortes. Saibamos reconhecer os momentos oportunos para falar e guardar o silêncio. Evitemos palavras violentas, rancorosas e ofensivas. Sejamos gentis, independentemente das circunstâncias, pois "gentileza gera gentileza" - e "violência gera violência". Cultivemos em nossa alma a paz que desejamos ver em nosso país. Estamos todos no mesmo barco: se o barco naufragar, nos afogamos todos juntos! Podemos (e devemos) ter divergências, mas não precisamos ver ou tratar como inimigos aqueles que pensam (e votam) diferentemente de nós. Sejamos generosos uns com os outros. Tenhamos a grandeza de perdoar sempre que necessário, quantas vezes for necessário. De resto, permaneçamos TODOS vigilantes - pois "o preço da liberdade é a eterna vigilância". Sejamos exigentes, MUITO exigentes. Cobremos muito de TODOS os políticos eleitos, do deputado estadual ao presidente. Mantenhamos os olhos e ouvidos abertos, e o pensamento crítico sempre alerta. Prestemos atenção a tudo que se faz e a tudo que se fala, especialmente àquilo que se esconde nas entrelinhas.


Coragem, Amigos

Nós estamos aqui. Nós resistiremos. Nós sobreviveremos. Não nos calaremos. Seremos a muralha. Estamos juntos, e juntos seguiremos. Somos grandes, somos muitos e seremos mais. Não haverá silêncio que calará nosso barulho. Não haverá mordaça que feche nossa boca. Não haverá ódio que envenene nosso coração. Não haverá corrente que aprisione nossos pensamentos. Não haverá porrete que fira nossas almas. Não haverá balas que matem nossos valores. Não haverá bombas que explodam nossos sonhos. Não haverá coturnos que pisem nossas esperanças. Não haverá tirano que nos roube a coragem. Do fundo do abismo, nossa voz ressoará. Unidos, nós somos a democracia. Unidos, somos a liberdade. Coragem, amigos, coragem. Nenhuma noite é eterna, e nós seremos o amanhecer!


Raiva+Politização superficial+Desinformação=Lambança

Amor como dever

O Amor tolera.
O Amor perdoa.
O Amor age.
O Amor espera.
O Amor vê.
O Amor ouve.
O Amor fala.
O Amor cala.
O Amor cura.
O Amor sustenta.
O Amor fortalece.
O Amor sabe.
O Amor lembra.
O Amor esquece.
O Amor ilumina.
O Amor aquece.
O Amor refresca.
O Amor purifica.
O Amor liberta.
O Amor constrói.
O Amor cultiva.
O Amor une.
O Amor aceita.
O Amor compreende.
O Amor respeita.
O Amor plenifica.
O Amor realiza.
O Amor vivifica.
O Amor dá.
O Amor pede.
O Amor recebe.
Somente o Amor apazigua as tempestades de Ódio.
Em tempos de Ódio, amar é um dever.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Quem questiona os questionadores?

Para encontrar boas respostas, é necessário formular boas perguntas - daí a necessidade de uma atitude questionadora, em sentido amplo, profundo e pleno. A qualidade do conhecimento deriva diretamente da qualidade dos questionamentos que direcionam sua busca.

Indagações ingênuas engendram respostas ingênuas, questões falaciosas geram respostas falaciosas, perguntas superficiais induzem respostas superficiais. Por outro lado, conhecimento profundo, derivado de questionamentos bem formulados, tende a estimular perguntas igualmente instigantes, configurando assim um círculo virtuoso que convém cultivar cuidadosamente.

Para tanto, é também imprescindível questionar sempre os próprios questionamentos: "esta é uma pergunta pertinente? Como melhorar sua formulação? Por que é importante perguntar isso? Por que indagar isso, e não aquilo? Que motivos me levam a elaborar essa questão?"

É por isso mesmo que convém sempre desconfiar de questionadores que não se questionam, nem toleram ser questionados, beirando a desonestidade intelectual.

O verdadeiro espírito crítico significa questionar as respostas, mas também questionar vigorosamente as próprias perguntas: perguntar melhor, para responder melhor, sempre.

O verdadeiro questionador é aquele que questiona, antes de tudo, a si mesmo.

Pesadelos 6

A cidade estava animada. Risos frouxos e raivosos ecoavam, saindo de mentes embriagadas. Tresloucadas bacantes, bobas alegres, dançavam em torno de uma imensa fogueira. As labaredas subiam, subiam, subiam. Uma densa fumaça empesteava os ares. Livros, livros e mais livros queimavam, queimavam e queimavam, sem cessar. Bibliotecas inteiras alimentavam as chamas. Era papel que queimava, mas o cheiro era de carne humana. Me afastei dali, nauseabundo.

Nos limites do ódio

Se não me engano, estamos entrando no que o filósofo René Girard chamava de "rivalidade não-objetal" - a fase de um conflito onde o ódio entre rivais já se tornou tão intenso que o objeto inicial da disputa (um processo eleitoral, por exemplo) perde a relevância e a única coisa realmente importante passa a ser o crescente desejo de derrotar, humilhar, espezinhar - ou até eliminar - o "inimigo". É a antessala do caos, quando nossa própria fúria sai de controle e fazemos coisas das quais nos arrependeremos, desencadeando uma espiral crescente de retaliações mútuas cada vez mais agressivas. A única saída é evitar o ódio, a começar pelo ódio que habita em nós mesmos. Como extinguir o ódio do adversário se não conseguimos controlar o ódio dentro de nós mesmos? Evitemos palavras, gestos e até pensamentos raivosos. Não, não é nada fácil; mas é necessário.


"Buscar dentro o que não vem de fora. Reformar-se primeiro, sempre" - me disse um grande amigo.

Marina triunfante

Nunca votei em Marina, mas acho que ela sai engrandecida dessas eleições, pois conseguiu ser humilde e altiva ao mesmo tempo, manifestando seu apoio a Haddad de modo digno, sem rancor, nem subserviência. Grandeza moral não se mede por votos.

Pesadelos 5

Havia um poço. Sinistro, sombrio, profundo. Uma fila se formava à beira do poço. Uma fila longa, com milhões de homens e mulheres. Tentei ver onde acabava a fila, mas ela ia além, muito além do horizonte. As pessoas da fila traziam o semblante irritado. Chegando à beira do poço, cada pessoa olhava para o fundo, estampava no rosto um sorriso feroz, se atirava de cabeça e desaparecia dentro do poço. Uma por uma, cada pessoa se atirava, chegando sua vez. Algumas emitiam histéricas gargalhadas, enquanto caíam. Eu tentava alerta-las: argumentava, falava, implorava, gritava. Não adiantava. Se faziam de surdas. Queriam se atirar no poço. E estavam felizes assim.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Pesadelos 4

Eu era um tucano. Voava livre, num céu repleto de araras, papagaios, garças, tuiuius, sabiás, curiós. Voávamos e cantávamos alegremente. Subitamente, de todos os lados, fomos cercados por sombrios urubus, carregando vastas redes. Todos nós caíamos aprisionados. Com ágeis tesouras os raivosos urubus mutilavam nossas asas. Amordaçavam nossos bicos e nos trancavam em apertadas gaiolas. Não havia mais vôo, canto ou liberdade. Apenas lágrimas, sangue e um silêncio esmagador. Foi então que ressoou a gargalhada sinistra e demente do Urubu-Rei...

domingo, 21 de outubro de 2018

Transtorno Obsessivo Compulsivo

Interessante crônica de Antônio Prata publicada hoje na Folha de São Paulo


— Ele disse numa entrevista que fechava o Congresso no dia em que tomasse posse.

— Rapaz... Sou contra fechar o Congresso. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Ele também disse que tinha que matar 30 mil pro Brasil dar certo.

— Feio matar 30 mil. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Aqui ele fala que prefere filho morto a filho gay.

— Qualquer filho é melhor do que a roubalheira do PT.

— Sua frase não tem muito sentido.

— Melhor não ter muito sentido do que a roubalheira do PT.

— Aqui ele falando que é a favor da tortura.

— Sou contra tortura. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Será? Aqui, 2018, ele falando que o livro de cabeceira dele é do Brilhante Ustra, o torturador que levou duas crianças de 5 e 4 anos, pelas mãos, para verem o pai e a mãe torturados numa sala do DOI-Codi. A mãe estava nua e vomitada, presa à cadeira do dragão.

— Melhor levar criança pra ver pais torturados do que pra ver a roubalheira do PT.

— Frase da mãe torturada: “Minha filha perguntava: ‘Mãe, por que você ficou azul e o pai verde?” Ela continua: “Meu filho até hoje lembra do momento em que eu falava ‘Edson’ e ele olhava para mim e não sabia que eu era a mãe dele. Estava desfigurada”.

— E quem desfigurou o Brasil? A roubalheira do PT!

— Se só roubalheira conta... Ele tinha uma funcionária fantasma na Câmara, paga com dinheiro do povo para dar água aos cachorros dele, na casa de praia em Angra dos Reis.

— O que é uma funcionária fantasma perto da roubalheira do PT?

— Ele e os filhos, que se dedicam unicamente à política, têm 13 imóveis no valor de R$ 15 milhões de reais. Não é estranho?

— Muito mais estranho é a roubalheira do PT.

— Em um só ano, um dos filhos dele gastou R$ 40 mil reais de verba parlamentar com passagens pro Rio Grande do Sul, onde morava a namorada e para Santa Catarina, onde tem amigos.

— O importante é acabar com a roubalheira do PT. Tudo menos a roubalheira do PT!

— Não é o que acham os principais órgãos de imprensa do mundo. Olha essa lista de jornais e revistas alertando pro perigo desse cara ser eleito. The Economist, New York Times, The Guardian, Deutsche Welle.

— Tudo mídia comunista comprada com dinheiro da roubalheira do PT.

— Ué, por que a roubalheira do PT comprou toda a mídia internacional e se esqueceu da brasileira, que continua tratando o cara como um candidato normal e um risco à democracia igual ao de Haddad?

— Tática de guerrilha da roubalheira do PT. A mídia brasileira está como os vietcongs, escondida debaixo da terra, disfarçada de arbusto para atacar de surpresa no final e garantir a boquinha na roubalheira do PT.

— Sei. Mas vamos supor só por um momento que a imprensa global não esteja comprada pelo dinheiro da roubalheira do PT. Vamos supor que eles estejam certos em apontar o abismo que ele representa. Vamos supor que ele ganhe e ponha em prática o que vem dizendo que porá desde que começou na política. Vamos supor que ele persiga minorias ou faça vista grossa para quem perseguir. Que ele censure. Torture. Mate.

— Importante é acabar com a roubalheira do PT.

— E se for você o torturado? Você na cadeira do dragão.

— Enquanto eu tiver meu crânio esmagado pelo menos não vou pensar na roubalheira do PT.

— E se você for morto?

— Estarei livre, finalmente, da roubalheira do PT.

Apoio, Solidariedade, União, Sobrevivência

Mais importante que o resultado das urnas é formar laços de apoio e solidariedade para enfrentar os próximos 4 anos. Unidos, sobreviveremos!


sábado, 20 de outubro de 2018

Pesadelos 3

Crepúsculo. Uma planície coberta com as cinzas de uma floresta calcinada. Até onde a vista alcança, milhares de cruzes feitas de pau-brasil; milhares de índios crucificados; crianças, mulheres e homens crucificados em milhares de cruzes feitas de pau-brasil. Quem fez isso? Tento gritar, mas minha boca foi costurada. Quem fez isso? Tento fechar os olhos, mas minhas pálpebras foram arrancadas. Quem fez isso? Me resta apenas contemplar silenciosamente o horror que tortura minha alma.

Pesadelos 2

Caminho numa floresta sombria. Por todos os lados me vejo cercado por armadilhas: laços, redes, alçapões. Quem preparou todas essas armadilhas? Quem deseja me capturar? Quem deseja me prender? Quem deseja tirar minha liberdade?
***
Torrencial tempestade inunda o Rio de Janeiro. Uma grande caravana tenta fugir da cidade, em busca de um lugar seguro. Assustadores drones sobrevoam a multidão, lançando bombas e disparando projéteis contra os fugitivos. A tempestade segue rugindo.

Caloteiros de bem

O ônibus para. Dois homens entram furtivamente pela porta de trás - o conhecido calote carioca. O motorista grita para que desçam. Começa uma viva altercação entre os três. Um dos caloteiros brada ao motorista que quando Bolsonaro for eleito e ele tiver sua arma, matará o motorista que fizer com ele essa "palhaçada". Note-se: uma ameaça de morte em nome do sagrado direito de cometer uma infração. Ao fim e ao cabo, o motorista desistiu da discussão, talvez intimidado, e os dois "caloteiros de bem" sentaram-se num banco perto do meu. Ao longo da viagem, conversavam indignados sobre o aumento da criminalidade no Rio de Janeiro. Cada um tire suas conclusões do surreal episódio... Eu, francamente, não consigo compreender!

Pesadelos 1

Baratas. Baratas. Muitas, muitas baratas. Invadem minha casa, inexoravelmente, marchando em fileiras cerradas. "Elas estão organizadas!", grito. "Quem está organizando isso?". Tremo, impotente, sem saber quem comanda esse asqueroso exército de insetos, nem de qual esgoto ele saiu.
***
Estou seminu e descalço, vestindo apenas um short, cercado por uma multidão hostil e raivosa. "Queria ter pelo menos um chinelo", penso, desalentado. Gritam, berram, bradam, vociferam, contra a minha nudez. Indefeso, abandonado, mudo, não sei como reagir.
Vou dormir. Me acordem em 2022 - se houver eleições.

Alerta aos servidores

Você gosta de expressar sua opinião, amigo servidor público? Pois bem, comece a se preocupar. Em sua maioria, os estatutos dos servidores municipais, estaduais e federais foram redigidos durante a ditadura e NÃO foram revisados após a Constituição de 1988. Seus textos ainda mantém artigos que permitem à entidade empregadora punir de várias maneiras, inclusive com exoneração, o servidor que se expresse publicamente de modo desabonador a respeito do órgão que serve. Tais situações se tornaram raras devido a certo fair-play democrático do novo pacto republicano. Mas os dispositivos legais permanecem lá, prontos para serem usados por um presidente, governador ou prefeito com tendências autoritárias - uma postagem no Facebook poderá ser usada contra você; poderá até custar seu emprego. E eles nem precisarão fazer um golpe institucional para amordaçar você. Pense bem.

Diretas Já 2022

Lutemos pelo melhor até o último instante, mas estejamos bem preparados para o pior. Na dúvida, já podemos ir articulando um movimento "Diretas Já 2022", se for necessário. Não, não estou brincando. É muito sério. Mesmo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Les Choses et les Mots

Conheço muitas Coisas-sem-Palavras, mas conheço poucas Palavras-sem-Coisas, como cachemopos ou perintilias. Consigo inventar muitas Palavras-sem-Coisas (zalibungas e maralineos, por exemplo), mas no fundo não vale tanto a pena, pois são apenas Palavras que não significam lá muita Coisa.

Posso estar pentagonalmente enganado, mas creio que as Coisas precedem as Palavras e provavelmente importam muito mais que elas, até para aquelas pessoas estranhas que escrevem livros - exceto, talvez, para alguns pensadores pós-modernos (menos, é claro, quando se trata de contracheque, que é Coisa séria). Molière tinha uma ou duas Palavras a dizer sobre esse tipo de Coisa.

No que me diz respeito, prefiro escrever uma Palavra-Revólver a encarar uma Coisa-Revólver - diferenciar as duas Coisas é bom sinal de sanidade mental, pois qualquer pessoa de tino sabe que ser atingido por uma Coisa-Bala de qualquer calibre dói muito mais que dizer "fui ferido por uma Palavra-Bala", por mais alto que se grite isso (é uma daquelas Coisas que soam esquisitamente em voz alta).

É bem verdade, por outro lado, que, a seu fabuloso modo, Palavras também são Coisas - de uma natureza muito peculiar, evidentemente. Palavras são Coisas poderosas e perigosas, inclusive, capazes de mobilizar e movimentar outras Coisas, que ferem e matam, literalmente: Palavras atiram pedras, acendem fogueiras, puxam gatilhos e atam nós corrediços.

As Coisas-Palavras e as Palavras-Coisas se complementam, moldam e movimentam. São vento, moinho, mó, trigo e farinha. São serpentes mordendo suas próprias caudas. Verbo e Carne, talvez.

De qualquer forma, um homem sem Palavra se faz Coisa: não sabe o que diz. Mas mesmo os homens de Palavra devem permanecer sempre atentos às Coisas que nos deixam sem Palavras. Conheço muitas Palavras que valem mil Coisas, mas poucas Coisas que valham mil Palavras.

Acabamos voltando ao começo, se não for o avesso, o começo do avesso, ou até, quem sabe, o avesso do começo. Confuso, me pergunto se comecei mal e terminei pior, ou se terminei mal e comecei pior - embora uma Coisa seja menos pior que a outra; nem tudo é questão apenas de Palavras.

Como logobundo que me faço, admito que, no fim das contas, tudo isso pode soar um tanto contabuloso...

domingo, 14 de outubro de 2018

A boa notícia é que ainda temos um arsenal nuclear suficiente para destruir 5 vezes a humanidade inteira em estado de prontidão. Cortesia: China, Rússia, EUA e outros amigos.
Alexandre Frota não será um deputado, mas um sintoma...

Regra de Ouro das redes sociais

"Quem fala o que quer, pode ouvir o que não quer".

Liberdade de expressão é isso. Todo mundo (eu, você ou o seu vizinho), de vez em quando, é grosseiro, sarcástico ou se expressa mal. Às vezes magoamos, com ou sem intenção de magoar. Faz parte do jogo, faz parte da vida. De vez em quando precisamos desculpar ou pedir desculpas. Não machuca.

Terminológica

Não sou especialista em História Contemporânea, mas na minha opinião, Bolsonaro não é fascista. A Ditadura Militar também não era fascista. Autoritarismo não é sinônimo de fascismo. Mas autoritarismo já é uma coisa suficientemente ruim. Péssima. Abominável. Ele não.
Nada mais imprudente que subestimar uma ameaça. A prudência excessiva reserva arrependimentos menores que aqueles trazidos pela confiança exagerada. "O seguro morreu de velho".

Além dos noticiários

No domingo passado, na ida para minha zona eleitoral, presenciei pessoas berrando agressões verbais sobre candidatos. Voltando, presenciei outra altercação similar. Nunca tinha visto cenas desse gênero nos arredores de minha ZE.

Na semana imediatamente anterior um amigo meu que nem é muito politizado fez uma crítica jocosa sobre Bolsonaro e quase foi agredido fisicamente por um vizinho de 73 anos. Felizmente meu amigo é um sujeito controlado e não revidou; acalmando o exaltado vizinho ainda o alertou para o perigo dessa conduta: idoso, de compleição frágil, esse senhor se arriscava seriamente se fizesse a mesma coisa com uma pessoa menos serena que meu amigo.

No decorrer do último mês, uma amiga minha foi convidada para falar sobre o tema "Paz" em um centro espírita. Sua fala evitava quaisquer conotações políticas, mas no meio da preleção foi interrompida por um homem que se levantou aos berros, dizendo que não admitia propaganda política contra Bolsonaro dentro de uma instituição religiosa. Muito paciente, minha amiga aguardou que ele extravasasse sua raiva, esclareceu que sua fala não tinha qualquer conotação política, mas que oferecia o microfone ao cavalheiro caso ele desejasse se manifestar ao fim da palestra. Menos exaltado, ele se sentou e não pediu a palavra ao fim da reunião; depois, mais calmo, foi pedir desculpas à minha amiga pelo momento de descontrole.

Nenhum desses casos saiu nos noticiários. Imagino que haja outros semelhantes por aí. Os ânimos e emoções estão muito exaltados nessa eleição e os episódios de violência se multiplicam de modo assustador. Não estamos à beira de uma guerra civil, mas mesmo assim é preocupante.

Parte da responsabilidade se deve, sem dúvida, à constante exaltação da violência pelo candidato Bolsonaro, de longa data. O atentado sofrido por ele também deixou os ânimos superexcitados. Talvez o próprio ataque derive dessa exaltação - até onde a Polícia Federal investigou, o atacante é apenas um doente mental; há poucos indícios de uma conspiração.

No entanto, a responsabilidade não cabe apenas a Bolsonaro. Desde 2013 temos visto uma terrível agressividade verbal entre grupos de opiniões divergentes, acompanhada de rótulos pejorativos como "coxinha", "petralha", "reaça", "mortadela", "esquerdopata", "bolsominion", entre outros - sem falar na redução de termos complexos como "fascista" e "comunista" a meros xingamentos.

Passamos quase meia década cultivando tensões sociais insuportáveis e agora ficamos chocados ao vê-las desencadeadas em episódios violentos, por vezes trágicos.

Precisamos TODOS, JUNTOS, desarmar essa bomba relógio, enquanto é tempo. Um bom começo é controlar a agressividade em nossa linguagem. Chega de rótulos, apelidos e xingamentos. Tratemos respeitosamente aqueles que divergem de nossa opinião. Esse seria apenas o começo de um longo caminho para a desintoxicação de nossas relações sociais.

Paz para todos nós!

Pessoal

Como FILHO DE MÃE SOLTEIRA, não posso votar no candidato cujo vice diz que o lar onde cresci é uma "fábrica de desajustados".

Como PROFESSOR, não posso votar no candidato que pretende destroçar a educação formal no país, pregando absurdos como ensino a distância nas classes iniciais.


Como HISTORIADOR, não posso fechar os olhos ante o perigo que representa um presidente com escancaradas posturas antidemocráticas e autoritárias.

Como PÓS-DOUTORANDO EM ANTROPOLOGIA não me permito votar no candidato que promete acabar com as terras indígenas onde alguns de meus colegas e alunos vivem.

Como PESQUISADOR DO MUSEU NACIONAL não tenho como votar num candidato presidencial que simplesmente se mostrou omisso diante da maior catástrofe cultural da história de nosso país.

Como TRABALHADOR, não há como apoiar gente que fala levianamente em extinguir meus direitos.

Como suado CONTRIBUINTE, não consigo eleger alguém que publicamente se afirma sonegador de impostos e ainda recomenda a terceiros que sigam seu exemplo.

Como CRISTÃO, não aceito votar num candidato que deturpa a mensagem cristã e tenta usar a sublime figura de Jesus como se fosse reles cabo eleitoral para angariar votos.

Como ESPÍRITA, sou minoria, não posso me fazer de surdo e votar em alguém que diz que devo me curvar ou "desaparecer".

Finalmente, como DEMOCRATA CONVICTO, não posso votar num candidato que passou as três últimas décadas espezinhando as instituições e valores democráticos de nosso país.

Não, simplesmente não posso. Tal voto seria uma aviltante afronta contra todas as dimensões de minha pessoa.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

2 pratos, 1 escolha

Há dois pratos na mesa. Ambos são desagradáveis, produzidos por péssimos cozinheiros. Um deles, todavia, está envenenado. Não tenho dúvidas: prefiro o prato ruim, mas que não tem veneno... Da mesma forma, prefiro o candidato ruim que não defende a tortura ao candidato ruim que quer tirar meu 13º. Entre dois males, prefiro sempre o menor. Preferia Marina ou Ciro, mas terei que ir de Haddad, por mais que isso me desagrade.

P.S.: Recomendo a leitura de mais um excelente texto de Eliane Brum, desta vez sobre nosso segundo turno e o que ainda vem pela frente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Adultos e crianças

O antônimo de "infantil" não é "adulto", mas sim "pueril". Nada mais "pueril" que a necessidade de se afirmar como "adulto". E há quem perca a vida inteira nessa puerilidade... Como diria talvez Lévi-Strauss, certo vigor infantil, uma potência imaginativa quase primeva, é imprescindível para ser um adulto plenamente pensante.

sábado, 6 de outubro de 2018

Abaixo do Equador

Lula é um santo-do-pau-oco. 
Bolsonaro é um Bezerro de Ouro. 
"Não existe pecado abaixo do Equador".

O gato ou o Ciro?

Ciro tem um monte de defeitos. No entanto, estamos votando para presidente, não canonizando um santo. Um presidente imperfeito, mas uma alternativa viável para superar a presente crise política, econômica e social de nosso país. E, como se sabe, "quem não tem cão, caça com gato".

Votar e vigiar

Cada um vote em quem quiser amanhã. O mais importante é que todos estejamos juntos para cobrar - e muito - de quem for eleito. Para 1 dia de eleição são necessários 4 anos de vigilância.

Idealismo e eleições

Tenho muitas ressalvas quanto a Ciro. Mesmo assim, voto nele por um ideal muito maior que Ciro ou qualquer partido: a DEMOCRACIA. Voto em Ciro pois ele é a única alternativa viável às duas forças antagônicas e complementares que atualmente ameaçam e corroem nossa Democracia: o fanatismo petista e o fanatismo antipetista, representados por Haddad e Bolsonaro. Ciro é o imperfeito instrumento de que dispomos para preservar o ideal democrático. Que seja.

Pessoas fascinantes e sofridas

-Oi, amigo, você gosta de piada? - me perguntou um morador de rua, quando eu passava.

Tenho costume de falar com moradores de rua, quando não me parecem perigosos. A pergunta era tão atípica que achei que tinha ouvido mal:

-O que o senhor disse?
-Perguntei se você gosta de piada.
-Sim, gosto.
-Então escolhe aí um livro e leva, de presente, tô te dando.

No banco, ao lado, havia uma pilha de surrados livros de piadas. Como recusar presente é desfeita, escolhi um livro do "Casseta & Planeta".

Conversando, ele contou que é técnico em enfermagem formado, mas o desemprego prolongado o forçou a morar na rua. Hoje ele é catador de lixo. Me disse que sempre adorou ler, e guarda todos os livros que encontra pelo lixo. Ao seu lado, havia um grande saco de plástico bem grosso e uma pasta "de carteiro", ambos repletos de livros. Explicou que quando sua biblioteca fica pesada demais para transportar em seu nomadismo urbano ele oferece alguns de presente aos passantes.

Nas horas de tristeza lê a Bíblia ou então livros de humor, para dar boas gargalhadas. Me contou uma piada que lera na véspera. Rimos juntos.

Ao me despedir, rogou que não jogasse o livro fora, que o guardasse como lembrança: "pra quando você pegar esse livro, dizer: 'ih, foi aquele neguinho que me deu esse livro'".

Nos despedimos com um aperto de mão. Virando a esquina, derramei lágrimas de gratidão ao universo por esse inusitado e tocante encontro.

Esse mundo está cheio de gente fascinante e sofrida - que Deus o abençoe!


A cartada petista

A nova cartada da militância petista é dizer que virar voto do Haddad pro Ciro é "divisivo" e elegerá Bolsonaro no 1º turno. Ora, bolas, para vencer no 1º turno, Bolsonaro precisaria ter garantidos pelo menos metade dos votos. Se assim for, tanto faz votar 12 ou 13. Conquanto migrem entre outros candidatos, os votos não elegem Bolsonaro no 1º turno. 

O que está realmente em jogo é o medo do PT não ir para o segundo turno. 

É o mesmo jogo sujo que eles fizeram contra a Marina em 2014, investindo no medo e na polarização contra o PSDB. Repito: votar no Haddad agora é entregar o 2o turno à paixão antipetista e uma vitória tranquila a Bolsonaro. Ainda em 2016 vimos a força do antipetismo nas eleições municipais. O próprio Haddad foi atingido por esse fenômeno em São Paulo. Não nos deixemos fazer mais uma vez reféns da retórica petista do medo. 

É triste ver agora o PT fazendo o papel de Regina Duarte...

Antes que vire crime

Um amigo mais velho que eu, cujo pai foi preso na Ditadura por escrever o que pensava, me contou que mal tem dormido nas últimas noites, com pesadelos sobre suas memórias do pai encarcerado. 

Triste demais. Escrevo isso com lágrimas nos olhos. 

Me lembra também uma outra história, sobre um amigo de minha mãe, que era militar: dizia ele que um dos momentos mais tristes de sua vida foi quando teve de conduzir Ziraldo para prestar depoimento. O cartunista, culpado do grave crime de desenhar, atendeu a porta de pijama. Dizia ele que diante do cartunista vulnerável, inofensivo, desarmado, se sentiu um lixo. 

Escreva, desenhe, pense. Enquanto pode. Antes que volte a ser crime.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

"O problema é que o pessoal que veio colonizar o Brasil era envolvido com política".
Ouvi por aí...

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Acabei de ver uma pessoa citando GANDHI para justificar voto em Bolsonaro. Gandhi! Devo estar com alucinações. Vou dormir.

"Eu sou fascista"

"Meu nome é Adam Susan. Eu sou o líder.

Líder dos perdidos. Governante das ruínas.

Eu sou um homem como qualquer outro.

Eu conduzo o país que amo para fora da desolação do século vinte. Acredito na sobrevivência. No destino da raça nórdica. Eu acredito no fascismo.

Oh, sim. Eu sou fascista. O que é fascismo? Uma palavra. Um termo cujo significado se perdeu no resmungo dos fracos e traidores.

Os romanos inventaram o fascismo. Um feixe de gravetos era seu símbolo.

Um graveto sozinho podia ser partido. O feixe resistiria. Fascismo... Força da União.

Eu acredito na força. Eu acredito na união.

E se a força, a união de propósitos, exige uniformidade de pensamentos, palavras e feitos, que assim seja.

Eu não ouvirei súplicas por liberdade. Sou surdo aos apelos por direitos civis. Eles são luxos. Eu não acredito em luxos.

A guerra escorraçou os luxos. A guerra escorraçou a liberdade.

A única liberdade que resta ao povo é passar fome. A liberdade de morrer... de viver num mundo caótico.

Devo conceder a eles tal liberdade?

Creio que não.

Reservo a mim a liberdade que nego aos outros? Não. Eu me restrinjo à minha cela e sou apenas um servo. Eu, que sou mestre de tudo que posso ver.

Eu vejo a desolação. Contemplo as cinzas. Possuo tanto e tenho tão pouco.

Eu não sou amado, nem de corpo nem de alma. Jamais conheci o murmúrio da ternura. Nunca senti a paz que reside por entre as coxas de uma mulher.

Mas eu sou respeitado. Sou temido. E isso é o bastante..."

Monólogo mental do personagem Adam Susan, da ficção distópica V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd - originalmente publicada em 1981, no Reino Unido, mas sinistramente atual...


Eis que um aluno me entrega um trabalho com diversas cópias toscas da minha rubrica feitas na margem, a lápis. Temos um falsário em formação?

domingo, 30 de setembro de 2018

Alternativa final: Ciro

Desde ANTES do atual processo eleitoral, uma coisa estava muito clara para mim: a pior alternativa para o Brasil nessas eleições seria Bolsonaro; a segunda pior alternativa seria um QUINTO mandato do PT (com Lula, Haddad ou quem quer que fosse).

Minha única certeza desde o princípio era que, no segundo turno, votaria em QUALQUER UM contra Bolsonaro - é imprescindível para a República e a Democracia manter esse homem longe da Presidência.

De resto, não gosto de nenhum dos candidatos disponíveis nessa eleição presidencial, então meu voto fatalmente iria para o "menos pior".

Para todos os efeitos, minhas cartas para o primeiro turno eram Ciro, Marina ou Nulo. Após longa avaliação, cheguei à conclusão que Marina seria a alternativa "menos pior" - infelizmente, as chances de Marina passar para o segundo turno parecem cada vez mais remotas.

Assim sendo, resta-me uma última alternativa VIÁVEL: votar em Ciro, na esperança de tirar Haddad ou (com muita sorte) Bolsonaro do segundo turno.

Tenho muitas ressalvas quanto a Ciro, mas ao menos ele tem um programa de governo consistente e vasta experiência política, inclusive no Executivo. Voto com pouco entusiasmo, mas me parece o menor dos males.

CONCLUSÃO: No primeiro turno, voto em Ciro; no segundo turno, voto em qualquer um contra o Bolsonaro - até no Haddad, se necessário for.


Haddad - Aposta de risco

Todo voto é uma aposta; algumas apostas são mais arriscadas que outras. 

Votar em Haddad é aposta de alto risco, considerando a conjuntura eleitoral: há grande aversão ao PT, e isso favoreceria Bolsonaro contra Haddad no 2o turno. 

Caso eleito, Haddad provavelmente enfrentará forte oposição: governará com grande dificuldade, teremos 4 anos de grave instabilidade e talvez o Brasil chegue a 2022 ainda pior. Haddad será refém do "centrão" mais do que Dilma o foi em seu segundo mandato (que sabemos como terminou) - sem contar que é impossível imaginar qual será a configuração do Congresso após essas tumultuadas eleições. 

A não ser que Haddad no poder opere milagres, as eleições de 2022 tenderão a ser ainda mais marcadas por candidaturas de viés autoritário: Bolsonaro pode voltar ainda mais forte...

P.S.: Caso o segundo turno infelizmente venha a ser Haddad x Bolsonaro, obviamente fico com o menor dos males - voto em Haddad. Mas apenas no segundo turno, fique bem claro.


Bolsonaro: Eterna gratidão

Devemos ser eternamente gratos ao Capitão Jair Bolsonaro pelos serviços que presta à República Federativa do Brasil. Bolsonaro escancarou à luz do dia, com clareza e nitidez, as tremendas limitações da democracia no Brasil. Graças a ele podemos ver com absoluta acuidade os espectros de autoritarismo que ainda nos rondam e ameaçam nossa frágil democracia. Fica o desafio para todos os cidadãos, instituições, partidos e políticos: o que podemos e devemos fazer nas próximas DÉCADAS para consolidar, aprofundar e plenificar nossa democracia? Supondo, é claro, que nossa democracia sobreviva à presente conjuntura...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Equações brasileiras

Versão petista (Ensino Médio):

Prosperidade coletiva (2002/2012) = PT+Lula+Dilma

Versão completa (Universidade):

Prosperidade coletiva (2002/2012) = (Mercado internacional favorável × 1.000)+ efeitos tardios do Plano Real+Lula+PT+PMDB+centrão fisiológico+Mensalão+"pactos de governabilidade"+Dilma+Temer+máfia de empreiteiras+Cabral+Paes+"legado da Copa"+"legado olímpico"+etc+etc+etc

Diagnóstico

Você percebe que a educação pública vai mal quando um dos MELHORES alunos de uma turma de oitavo ano escreve "América Centrau".

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Azul contra azul

Tudo que digo tem múltiplos sentidos.
Teço meus tapetes apenas para puxá-los depois.
Sou mosca-aranha, capturada na própria teia.
Sou como o macaco que devora onças.
Meu rosto sempre esconde uma máscara.
Minhas mentiras são absolutamente verdadeiras, e minhas realidades inteiramente sonhadas.
Sujeito, porque objeto; objeto porque suspeito.
Sou nuvem e rio; bota e estrada; sol, chuva e arco-íris.
Azul contra azul, vejo as estrelas atrás do sol.
Vejo apenas o nascer do sol que se põe.
Todos os meus sentidos têm múltiplos dizeres.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Indexando

Coisas que se lê na Internet: "Não li o livro, pois não sou obrigada. Leio apenas o que me agrada, ao contrário dessa gente que elogia autores consagrados mesmo sem ter lido". Como se houvesse mérito maior em criticar uma obra sem lê-la que em elogiá-la sem lê-la.

O direito de não ler qualquer livro é incontestável, mas seria uma gentileza poupar a terceiros o dissabor de ler uma crítica literária politicamente engajada sobre uma obra não-lida - sem qualquer fundamento, portanto.

"Não li, não gostei, mas acho inaceitável que tal livro exista, pois supostamente viola os sacrossantos preceitos de nossa iluminada militância". Alguns grupos ditos "progressistas" possuem uma lógica realmente inquisitorial...

domingo, 16 de setembro de 2018

Tempos indecentes

É difícil ser uma pessoa decente em tempos tão indecentes. É difícil proteger o coração das emoções violentas que nos assediam e proteger nossa mente de todos os pensamentos de ódio que nos assaltam. Que não nos faltem as forças morais para resistir ao turbilhão que nos arrasta. Que nenhum de nós se torne apenas mais um no meio das multidões enfurecidas. Que coração e mente se preservem serenos, generosos, fortes e esperançosos. Que nessa caótica maré possamos ser rochedos seguros para aqueles que precisam de nosso apoio.