sábado, 26 de setembro de 2015

O carpinteiro e as bombas atômicas

Extratos de O visconde partido ao meio, de Italo Calvino:

"Mestre Pedroprego, albardeiro e carpinteiro, foi encarregado de construir a forca: era um trabalhador sério e inteligente, que se empenhava com firmeza em toda obra. Com grande dor, porque dois dos condenados eram parentes dele, construiu uma forca ramificada feito uma árvore, cujas cordas subiam juntas acionadas por um único guindaste; era uma engrenagem tão grande e engenhosa que dava para enforcar de uma só vez mais gente que o grupo condenado, tanto que o visconde aproveitou para enforcar dez gatos alternando com dois réus. Os cadáveres mirrados e as carcaças de gato balançaram durante três dias e no início ninguém aguentava olhar para eles. Mas logo nos demos conta da visão imponente que ofereciam, e até o nosso julgamento se dividia em sentimentos díspares, a ponto de causar desagrado a decisão de retirá-los e desmontar a grande máquina.

[...]

Nessa trágica conjuntura, mestre Pedroprego havia aperfeiçoado bem a sua arte de construir forcas. Tinham se tornado verdadeiras obras-primas de carpintaria e de mecânica, e não só as forcas, mas também os cavaletes, os guindastes e os demais instrumentos de tortura com os quais o visconde Medardo arrancava as confissões dos acusados. Eu ia frequentemente à oficina de Pedroprego, pois era um grande prazer vê-lo trabalhar com tanta habilidade e paixão. Mas uma aflição pesava sempre no coração do albardeiro. O que ele construía eram patíbulos para inocentes. 'Como posso', pensava, 'aceitar construir algo tão engenhoso mas que tenha um objetivo diferente? E quais poderão ser os novos mecanismos que construirei com mais boa vontade?' Mas não obtendo respostas para tais questões, tratava de expulsá-las da mente, esforçando-se em fazer as instalações mais bonitas e engenhosas que podia.

-Tem de esquecer o fim para o qual servirão - dizia também a mim. - Olhe-os só como mecanismos. Vê como são bonitos?

Eu olhava para aquelas arquiteturas de traves, aquele sobe e desce de cordas, aquelas ligações de guindastes e de roldanas, e me esforçava para não ver em cima delas os corpos dilacerados, porém quanto mais me esforçava mais era obrigado a pensar, e dizia a Pedroprego:

-Como posso?

-E eu então, rapaz - replicava ele -, como eu posso?

[...]

E o carpinteiro era assaltado pela dúvida sobre se construir máquinas boas não estaria além das possibilidades humanas, ao passo que as únicas que de fato podiam funcionar com eficácia e exatidão seriam os patíbulos e as torturas.

[...]

O mestre se angustiava:
-Quem sabe esteja em minha alma esta maldade que só me deixa produzir máquinas cruéis? - Entretanto, continuava a inventar, com zelo e habilidade, novos tormentos".

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Rio - Dias de um presente esquecido

Excelente texto do amigo Vinicius Borges:

"Bandido bom é bandido morto!! Mataremos, espancaremos, acobertaremos... Ao mesmo tempo, para que nenhum mal nos ameace novamente, cercaremos as favelas e esterilizaremos todas as mulheres com mais de 15 anos após o nascimento de seus primeiros filhos, que deverão ser devidamente marcados, microchipados e entregues à tutela do estado até que ganhem seu destino como mão-de-obra barata para os cidadãos de bem de nossa cidade. Saciada nossa sede de vingança e com as mãos ainda cobertas de sangue, ajoelharemos em círculos na areia da praia e faremos uma grande oração pela graça alcançada. Pouco tempo depois, transformaremos esse dia, o Dia da Libertação, em feriado municipal. Transmitida ao vivo pelo RJTV, a sessão de votação, iniciada com um culto da bancada da bíblia e encerrada com uma salva de tiros da bancada da bala, se eternizará em nossas memórias e em nossos corações. Pois desse dia em diante, finalmente, o Rio de Janeiro será um bom lugar para se viver..."

domingo, 20 de setembro de 2015

Falácias e sofismas

Todo homem é um estuprador em potencial.

Todo negro é um bandido em potencial.

Todo muçulmano é um terrorista em potencial.

Todo professor é um doutrinador político em potencial.

Todo refugiado é um parasita em potencial.

Todo favelado é um traficante em potencial.

Toda afirmação é uma mentira em potencial.

sábado, 19 de setembro de 2015

Falácias da meritocracia

Oferecido à amiga Lorraine Janis

"Pedreiro que pedalava 42km para estudar se forma em Direito"

O exemplo de vida é respeitável; o que não dá para aturar é o modo como a mídia se apropria desses casos para justificar o ideal meritocrático. Segundo essa lógica, há pessoas que "merecem" viver com um salário mínimo de miséria porque não "quiseram" estudar ou não se "esforçaram" para "conquistar" uma posição "melhor" na vida.

Aliás, a reportagem em questão não discute de maneira crítica quais são as deficiências do sistema público de transporte que fazem com que uma pessoa prefira pedalar 42km para ir à universidade a pagar uma passagem de valor provavelmente exorbitante. Por outro lado, quem não tem dinheiro para pagar a passagem nem disposição ou saúde para pedalar 42km para estudar, deve ser um tremendo preguiçoso que merece mesmo ganhar esse salário mínimo. Por sinal, alguém tem ideia do que é pedalar 42 km? É quase um quarto de etapa do Tour de France ou qualquer outra competição ciclística de alto nível!!! Nenhuma pessoa deveria passar por algo assim para exercer seu direito constitucionalmente garantido de estudar.

Voltando ao problema da meritocracia, todo trabalhador realiza uma atividade útil e importante para a coletividade, e merece ganhar um salário digno. Não há "estudo" ou "esforço" que justifique as disparidades salariais vexaminosas que existem na sociedade brasileira. Adoramos elogiar as sociedades europeias (ocidentais), mas não estamos nem de longe dispostos a pagar o salário de um lixeiro holandês ou a diária cobrada por uma diarista francesa.

Pior ainda, esse tipo de discurso escamoteia o sucateamento do sistema escolar público, transformando o "sucesso" ou o "fracasso" em meros resultados da "força de vontade" individual - como se não existissem salas de aula superlotadas, violência escolar, pressões políticas e até mesmo salariais para aprovação compulsória de alunos (beirando a intimidação), desvalorização salarial e social do professor, falta de profissionais de apoio nas escolas... Etc, etc, etc.

É particularmente irônico enaltecer esse tipo de exemplo num momento em que algumas redes públicas de ensino de nossa Pátria Educadora [sic] cogitam encerrar sumariamente programas de educação de jovens e adultos ou de ensino noturno para cortar despesas.

Em suma, o discurso meritocrático troca a política pelo moralismo individualista, como se as disparidades sociais fossem um problema moral e pessoal, e não uma questão de ordem pública e coletiva.

Vale também questionar o modelo de pessoa "bem sucedida" articulado nesses discursos. Do meu ponto de vista, um faxineiro analfabeto que seja uma boa pessoa, bom amigo, bom filho, bom marido, bom pai, bom vizinho etc é uma pessoa muito bem sucedida (sem aspas) no que realmente importa. Conheço muitos bacharéis, mestres e doutores, bem estudados e remunerados, que são um verdadeiro fracasso humano...

O paraíso por R$ 15,00

Essa semana, ouvindo o primeiro livro de Prelúdios de Débussy, me veio a vívida recordação de um dos momentos mais felizes da minha vida.

Era setembro ou outubro de 2001. Por apenas R$ 15,00 comprei entradas para um recital de piano no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.  Execução integral do primeiro livro de Prelúdios: La fille aux cheveux de lin, Des pas sur la neige, Ce qu`a vu le vent d`ouest, Les collines d`Anacapri, La sérénade interrompue etc. Não lembro quem era o pianista (só caçando o programa no meio da minha bagunça), mas era excelente, daqueles que não apenas executa, mas interpreta.

Era um fim de tarde primaveril. A luz crepuscular atravessava os vitrais do foyer, compondo uma espectral penumbra luminosa. Uma catedral profana. As peças seguiam, me transportando para todos aqueles lugares mágicos sonhados por Débussy. Um desses momentos estranhos em que todos os detalhes casuais parecem delicadamente arranjados.

Me sentia ligeiramente sonolento, entregue, no sentido mais profundo, à fruição da música. Uma experiência única de êxtase contemplativo. O tipo de experiência tão única que não se repete outra vez na vida. Nunca. O gênero de vivência cuja descrição será sempre superficial, e cujo significado profundo será sempre impossível de comunicar. Algo que transcende a expressividade dos poemas, a eloquência das imagens e mesmo, paradoxalmente, o próprio êxtase musical. Naquele dia, eu escutava algo além da música, algo que transcendia e atravessava o próprio Débussy que compusera aquelas peças....

Nenhuma outra execução dos Prelúdios, em qualquer outra luz crepuscular, fosse mesmo um lindo crepúsculo veneziano, me levaria da mesma maneira ao encontro da moça de cabelos de linho, sentir aquele cansaço de um andarilho na neve ou a força arrebatadora do vento do oeste.

Tudo isso por R$ 15,00...

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Cidadão de Bem

O cidadão de bem espanca (supostos) criminosos até a morte.

O cidadão de bem não gosta de arrastão na praia.

O cidadão de bem ataca o ônibus dos "cidadãos de mal".

O cidadão de bem fuma em espaços para não-fumantes.

O cidadão de bem joga guimbas de cigarro na rua.

O cidadão de bem dirige em alta velocidade e reclama da "indústria da multa".

O cidadão de bem avança os sinais.

O cidadão de bem faz bandalha no trânsito.

O cidadão de bem dirige alcoolizada (só para ir "ali pertinho").

O cidadão de bem puxa arma em briga de trânsito.

O cidadão de bem paga a cervejinha do guarda.

O cidadão de bem é trabalhador, mas ameaça as pessoas em qualquer discussão.

O cidadão de bem desrespeita os professores do filho.

O cidadão de bem mexe com as mulheres na rua, tirando as "moças de família".

O cidadão de bem compra DVD pirata.

O cidadão de bem traz muamba de Miami.

O cidadão de bem sonega impostos.

Tendo o cidadão de bem, quem precisa de criminosos?

Desobediência Civil - o que é, para que serve, como funciona

Quando uma lei ou uma autoridade é injusta e atenta contra nossa consciência, ela deve ser desobedecida. Isso é Desobediência Civil.

Henry-David Thoreau (1817-1862), um dos primeiros pensadores da desobediência civil, era radicalmente contrário à escravidão, e pregava que todo cidadão norte-americano que fosse contrário a essa vil instituição tinha o dever moral de desobedecer ao governo e às autoridades que mantinham essa ordem injusta.

Para Thoreau, só existe verdadeira liberdade quando as pessoas botam suas consciências acima das leis e se recusam terminantemente a obedecer cegamente as leis, uma vez que sabemos que, em sua maioria, as leis são elaboradas pelos poderosos, como forma de defender seus interesses. Assim, o exercício da verdadeira cidadania e da democracia plena passa, necessariamente, pela desobediência civil, ou seja, pela firme disposição a não obedecer às injustiças.

A obediência constitui os fundamentos do poder governamental e, em sentido inverso, a desobediência consciente, que se recusa a aceitar ordens injustas e imorais, constitui a base do poder e da soberania do povo. Nesse sentido, a prática da desobediência civil exige sabedoria e reflexão; precisamos saber o que vamos desobedecer, por que vamos desobedecer e como vamos desobedecer.

A desobediência civil se pauta pelo princípio de não-violência, ou seja, a oposição de uma força moral contra a força bruta. Como dizia Gandhi, a verdadeira força da desobediência civil reside na legitimidade e na justiça da causa defendida, assim como na firme decisão de não descer ao mesmo nível que o agressor, respondendo à violência com uma resistência serena, mas inexorável. Do ponto de vista da não-violência, os fins não justificam os meios; pelo contrário, tanto os fins quanto os meios precisam ser justos.

À medida em que a desobediência civil parte de um imperativo de consciência, não são necessárias muitas pessoas para praticá-la. Basta a atitude firme e consciente de uma única pessoa que se recusa a obedecer a ordens injustas. Foi o caso de Rosa Parks, que em 1954 se recusou a obedecer às leis racistas do estado do Alabama, que exigiam que ela cedesse lugar no ônibus aos passageiros brancos. Um gesto simples de desobediência, sem nenhum manifesto grandioso ou discurso eloquente. Rosa Parks foi encarcerada, mas seu gesto de coragem foi o principal estopim para o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, que em apenas 14 anos inspirou milhões de negros a lutar pela igualdade de direitos nos EUA e, nesse período relativamente curto de tempo conseguiu fazer com que fossem extintas todas as leis baseadas na discriminação racial que existiam nos EUA. Não é preciso muito para começar, apenas a força de um exemplo, um único exemplo oferecido por uma pessoa que se recusa a ceder diante da injustiça.



A desobediência civil bota as autoridades diante de um impasse. Só existem três atitudes que o poder instituído pode tomar em relação àquele que desobedece: ignorar, punir ou ceder. No começo, muitas vezes, os gestos de desobediência são simplesmente ignorados.

Depois, quando se tornam incômodos demais, são punidos de diversas formas: agressão verbal, difamação, represálias financeiras (como descontos ou cortes salariais), força bruta (lacrimogênio, spray de pimenta, bala de borracha, cassetete, bala de chumbo etc), encarceramento e, eventualmente, execução. Nessas horas, é difícil se manter fiel ao princípio de não-violência, mas é necessário, caso não desejemos nos tornar algo pior do que aqueles que enfrentamos. É preciso lembrar que aqueles que lutam contra monstros muitas vezes também se tornam monstros, se não tiverem fidelidade a seus princípios. Isso é ainda mais complicado quando consideramos que, às vezes, se faz necessário persistir na resistência firme e não-violenta durante semanas, meses ou até anos. No entanto, como dizia Gandhi, por mais que a violência às vezes pareça rápida, os ódios que ela gera podem se prolongar por décadas ou séculos, criando malefícios que duram muito mais tempo que seus supostos benefícios imediatistas.

Por fim, a desobediência civil eventualmente atinge uma massa crítica em que o número de pessoas unidas pela causa e se torna tão grande e tão forte em sua firme determinação de continuar lutando apesar das represálias, fazendo com que a justiça da causa se torne evidente para todos, que só resta uma alternativa às autoridades injustas: ceder.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A "exquerda" que a direita gosta


Para a "exquerda" (ops, esquerda), a Dilma e/ou o PT sempre estão prestes a executar um brilhante xeque-mate daqui a muitas, muitas, muitas... muitas jogadas...

Os líderes sempre sabem o que fazem, não é verdade? Caso contrário, eles não seriam líderes. O Führer, digo, o líder (eu aqui trocando as línguas, vejam só - deve ser porque eu sou um poliglota elitista da Zona Norte) sempre sabe o que faz.

PMDB? Eduardo Cunha? Alianças estranhas? "Cidadania pelo consumo"? Joaquim Levy? Kátia Abreu? Não, essas coisas não existem, claro que não. Nem pensar! Nem que a vaca tussa! Tudo invenção da imprensa golpista, obviamente, sempre. Apesar da crise. Que crise?

Toda aliança é boa, principalmente quando o líder de infinita sabedoria escolhe. O líder sabe. O líder vê coisas que nós não vemos. Claro que não. O líder sabe que precisa ceder agora, e depois ceder de novo, e então ceder mais um pouquinho - e aí seremos cobertos por aquela gloriosa chuva de bênçãos e conquistas sociais, como o maná que cai dos céus. Porque as soluções sempre vêm de cima. Aleluia!

Os banqueiros gostam do governo? Qual é o problema? Agradar agora é crime?! Você é golpista?! Você é coxinha? Seu golpista! Batedor de panelas de inox! Confesse: você é um racista, homofóbico, que não gosta de ver pobres no aeroporto. Essa é única razão possível para criticar o governo. Não existem outras. Não, não. Você não passa de um cretino preconceituoso que gosta de bater panelas de inox na sua varanda gourmet. Aposto que você é um homem-branco-heterossexual-de-classe-média. Um estuprador em potencial! O seu problema é que você não percebe que esse governo ERRADICOU a miséria em nosso país, excetuando uns poucos mendigos nas grandes cidades. Você não aceita que agora um pobre pode comprar uma televisão de 170 polegadas em 348 parcelas no cartão de crédito. É claro que é isso, só pode ser! Pensa que me engana?!

Somos um país socialista, você ainda não percebeu? É que os líderes são tão espertos que ninguém percebeu ainda a implantação de nosso regime socialista-stalinista-bolivariano-pós-neo-ultra-liberal. Tirando a imprensa golpista.

Na verdade, os líderes são tão estupidamente-puxa-brilhantes que eles manipulam a imprensa golpista, que denuncia de mentirinha o nosso regime socialista-stalinista-bolivariano-pós-neo-ultra-liberal de vanguarda. É tudo um grande teatrinho, seu bobo!

Sábio é o homem que segue seu líder, pois ele é ainda mais sábio. Precisamos do líder para dizer o que é melhor para nós. Amém!

Já tivemos a "Copa das Copas". Em breve, teremos a "Olimpíada das Olimpíadas". Viva! Muda mais! Uau! Puxa! Caramba! Re-uau! Dilmãe!

Ninguém segura esse país. Ele é um país que vai pra frente, devagar e sempre. Ame-o. Ou deixe-o.

Deixe-o, principalmente, se você for da "esquerda que a direita gosta". Deixe-o, se você é um professor de ensino básico, que merece apanhar da PM do Sérgio Cabral, que merece ter seu salário descontado pelo digníssimo prefeito Eduardo Paes. Aqueles, lembra, para os quais o presidente Lula, nosso sapientíssimo salve-salve líder fez campanha eleitoral em 2000 e sempre. Violento é o Beto Richa, apenas. Violência, só do PSDB. Somos UM Rio! Ame-o ou deixe-o.

Cada um recebe o que merece, tirando aqueles que receberam, mas não mereciam, e aqueles que mereciam, mas não receberam.

Brasil. Curta-o, compartilhe-o. Ame-o ou deixe-o. Quem não votou na Dilma, votou no Aécio. É claro!

Em breve, seremos uma PÁTRIA EDUCADORA, talvez até uma pátria educada - pela boa didática do lacrimogênio, do spray de pimenta e do casse-tête (como sou poliglota, prefiro apanhar em bom francês). Vejam os americanos, que amam sua pátria. Eles respeitam sua bandeira. Cada americano é uma bandeira de seu país. A Pátria será educadora, ou não será! Ame a Pátria. Ou deixe-a.

Como dizem os bons camaradas da "vanguarda" sindical, "para ter conquistas, é preciso dar vinte passos atrás, para depois dar mais vinte passos atrás, para depois dar um passo à frente" - ou será que me enganei?! Com passinhos de formiguinha, chegaremos, obviamente, no formigueiro.

O que são 16 anos diante da Eternidade? Tudo virá no tempo de Deus, o Messias está sempre chegando. Para sempre daqui a pouco. A longo prazo, todos estaremos mortos - mas quem se importa? O importante é que temos uma liderança segura, que nos levará ao futuro, onde quer que ele esteja.

Pensando melhor, precisamos cada vez mais de uma "esquerda sem futuro", a esquerda que a direita não gosta...

domingo, 13 de setembro de 2015

Leituras - "O cachorro e seu menino", de Eva Ibbotson

Literatura infanto-juvenil é coisa muito séria. Precisamos oferecer a nossas crianças e jovens obras de boa qualidade, para a formação das pessoas sensíveis e críticas de que nosso mundo tanto necessita.

Nesse sentido, O cachorro e seu menino, da austríaca radicada na Inglaterra Eva Ibbotson, é altamente recomendável, reunindo boa história e escrita sofisticada. A trama é muito simples: Hal é um menino rico, que deseja ardentemente ter um cachorro. No entanto, sua frívola mãe não quer um animal que estrague sua impecável e luxuosa casa. O livro narra as aventuras de Hal para permanecer ao lado de Pintado, seu amigo de quatro patas. A narrativa alterna momentos cômicos, comoventes, melancólicos, irônicos ou ternos, sem jamais pender para o histriônico ou o piegas. Para maiores detalhes, leia o livro!

O que vale destacar aqui é a maestria literária com que Eva Ibbotson desenvolve essa trama tão simples. Com linguagem sutil, delicada e acessível ao público infantil, a autora traça profundas reflexões e críticas sobre a sociedade de consumo e a superficialidade e efemeridade das relações humanas no tempo em que vivemos, sem jamais soar grandiloquente ou entregar ao pequeno leitor uma moral embrulhada para viagem, deixando à criança espaço para pensar por contra própria. Essas críticas são magnificamente conduzidas através dos inúmeros personagens, nobres ou sórdidos, que aparecem ao longo da trama, sempre elaborados de modo convincente, caracterizados através de suas motivações e desejos profundos. A riqueza de caracterização dos personagens quase faz pensar num Tolstói para crianças! Vale também ressaltar que essa postura crítica e irônica da autora jamais se faz de modo cínico, ácido ou mordaz, sempre temperada por boas doses de compaixão, compreensão e bom humor.

Eva Ibbotson faleceu em 2010, aos 85 anos, deixando uma extensa e premiada obra. Fiquei interessadíssimo em conhecer outros livros da autora. Recomendo O cachorro e seu menino para todas as crianças leitoras - inclusive aquela criança que existe dentro de cada adulto!

sábado, 12 de setembro de 2015

Livros queimados e outros atos de barbárie

Extrato do discurso do Capitão Beatty no visionário Fahrenheit 451, clássico de Ray Bradbury, que em 1953 imaginava um futuro onde a função dos bombeiros (firemen) não seria apagar incêndios, mas queimar livros...

"Todo bombeiro, cedo ou tarde, passa por isso. Eles só precisam compreender, saber como as rodas giram. Precisam conhecer a história de nosso ofício. Essa história não é contada para os recrutas, como costumavam fazer. Uma grande lástima. [...] Hoje, só os bombeiros-chefes se lembram disso. [...]

Você pergunta: quando tudo começou, esse nosso trabalho, como surgiu, onde, quando? Bem, eu diria que ele realmente começou por volta de uma coisa chamada Guerra Civil, embora nosso livro de regras afirme que foi mais cedo. O fato é que não tivemos muito papel a desempenhar até a fotografia chegar à maioridade. Depois, veio o cinema, no início do século vinte. O rádio. A televisão. As coisas começaram a possuir massa. [...]

E porque tinham massa, ficaram mais simples. [...] Antigamente, os livros atraíam algumas pessoas, aqui, ali, por toda parte. Elas podiam se dar ao luxo de ser diferentes. O mundo era espaçoso. Entretanto, o mundo se encheu de olhos, cotovelos e bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. O cinema e o rádio, as revistas e os livros, tudo isso foi nivelado por baixo, está me acompanhando? [...]

Imagine o quadro. O homem do século dezenove com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século vinte, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tablóides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante. [...]

Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você finalmente pode ler todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta até o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais. [...]

Acelere o filme, Montag, rápido. Clique, Fotografe, Olhe, Observe, Filme, Aqui, Ali, Depressa, Passe, Suba, Desça, Entre, Saia, Por Quê, Como, Quem, O Quê, Onde, Hein?, Ui! Bum! Tchan! Póin, Pim, Pam, Pum! Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo! [...]

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas? [...] O zíper substituiu o botão e o homem não tem muito tempo para pensar ao se vestir pela manhã; uma hora filosófica e, por isso, melancólica. [...] A vida se torna um grande tombo de bunda no chão, Montag; tudo é pum, rá e uau! [...]

Tirar tudo dos teatros, exceto os palhaços, e instalar nas salas paredes de vidro e nelas fazer passar muitas cores alegres, como confetes, sangue, vinho tinto ou branco. Você gosta de beisebol, não gosta, Montag? [...] Mais esporte para todos, espírito de grupo, diversão, e não se tem de pensar, não é? Organizar, tornar a organizar e superorganizar super-superesportes. Mais ilustrações nos livros. Mais figuras. A mente bebe cada vez menos. Impaciência. Rodovias cheias de multidões que vão pra cá, pra lá, a toda parte, a parte alguma. Os refugiados da gasolina. Cidades se tornam motéis, as populações em surtos nômades, de um lugar para o outro, acompanhando as fases da lua, vivendo esta noite no quarto onde você dormiu hoje até o meio-dia e eu a noite passada. [...]

Agora tomemos as minorias de nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos, dos médicos, advogados, comerciantes, patrões, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, gente do Brooklyn, irlandeses, imigrantes do Oregon ou do México. Os personagens desse livro, dessa peça, desse seriado de tevê não pretendem representar pintores, cartógrafos, engenheiros reais. Lembre-se, Montag, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos. Autores cheios de maus pensamentos, tranquem suas máquinas de escrever! Eles o fizeram. As revistas se tornaram uma mistura insossa. Os livros, assim diziam os malditos críticos esnobes, eram água de louça suja. Não admira que parassem de ser vendidos, disseram os críticos. Mas o público, sabendo o que queria, com a cabeça no ar, deixou que as histórias em quadrinhos sobrevivessem. E as revistas de sexo em 3D, é claro. Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profisssionais.

-Sim, mas onde entras os bombeiros nisso tudo? - perguntou Montag.

-Ah - Beatty inclinou-se, varando a rala névoa de fumaça de seu cachimbo. - Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra "intelectual", é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente "brilhante", era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles, nem por um minuto. E assim, quando as casas finalmente se tornam à prova de fogo, no mundo inteiro [...], já não há mais necessidade de bombeiros para os velhos fins. Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação de nosso compreensível e legítimo senso de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu. [...]

Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: O que queremos nesse país, acima de tudo? As pessoas querem ser felizes, não é certo? Não foi o que você ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que diz todo mundo. Bem, elas não são? Não cuidamos para que sempre estejam em movimento, sempre se divertindo? É para isso que vivemos, não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão. [...]

Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do Pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo. [...]

Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com "fatos" que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente "brilhantes" quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido".