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terça-feira, 31 de maio de 2011

Ócio e negócio

Quase duas semanas sem post, por motivo de "força menor", preguiça! Na verdade, andei muito ocupado nos últimos finais de semana jogando Age of Empires III; para quem gosta de jogos e de História Moderna é uma grande pedida. A ação se passa entre os séculos XVI e XIX e disponibiliza diversas civilizações, inclusive a portuguesa. Mas, aproveitando o tempo de ócio, falemos sobre... ócio!

Pouco pensamos nas profundas relações que existem entre as palavras "ócio" e "negócio", etimologicamente derivadas do Latim. Para os patrícios romanos a noção de otium era extremamente importante: significava a liberdade de qualquer obrigação, o fato de não sofrer qualquer tipo de pressão; também podia designar a paz entre os cidadãos. Secundariamente tinha o sentido de lazer, sendo esse seu significado mais comum atualmente. Para muitos, o otium constituiria o supremo bem.

Por outro lado, negotium seria, literalmente, aquilo que "nega o otium", ou seja, as obrigações e deveres, sejam eles públicos ou privados. Em oposição ao ócio, o negócio seria indesejado, ao mesmo tempo que inevitável para a maioria, mesmo os patrícios, frequentemente ocupados com a vida pública e a manutenção de seus interesses. De certo modo, o otium se configurava como uma utopia, muito acalentada e almejada, mas pouco realizada.

Pierre Grimal em L`empire romain relata uma anedota curiosa, que mostra o poder desse ideal entre os antigos romanos: escolhido pelo senado romano para suceder Otávio Augusto como imperador, Tibério se mostraria relutante em aceitar, pois tal compromisso o afastaria do otium. Somente através da insistência do senado o eleito aceitaria a honra de ser imperador e o negotium que a acompanhava. Se tais sentimentos realmente animavam Tibério é impossível saber. Contudo, a história parecia crível aos cronistas da época, o que nos basta por aqui.

A noção parece bastante persistente em sua essência. Não à toa vemos Baldessare Catiglione reafirmá-la no século XVI, em O cortesão. Segundo a obra, o perfeito cortesão deveria conhecer e praticar de tudo, sem dedicar-se excessivamente a nada, o que seria digno apenas de plebeus. Fernando Bouza Álvarez lembra em Imagen y propaganda, livro que recomendo a todos, que nessa época era desejável que um nobre soubesse ler e escrever, desde que sua caligrafia fosse perceptivelmente ruim, evidenciando não usar a escrita além do adequado para sua posição social. Da mesma forma, geralmente os reis, príncipes e fidalgos mais importantes não liam muita coisa, sendo servidos por quem lhes lesse em voz alta.

A própria plebe desfrutava de largas horas de ócio nessa época, possíveis graças à frouxa disciplina de trabalho, como mostra E. P. Thompson no clássico Costumes em comum, onde aborda a cultura popular inglesa na Idade Moderna. Cita um poema satírico de 1639 que bem mostra essa tendência:

"Sabes que a Segunda é irmã de Domingo;
E Terça é outra igual;
Nas Quartas deves ir à Igreja e rezar;
Quinta é meio feriado;
Sexta é muito tarde para fiar;
Sábado é meio feriado, de novo."

A partir do século XVIII essa ética e sua estética foram gradativamente suplantadas pela  transformação social motivada pela Revolução Industrial. Começava a ditadura da produtividade e dos relógios, em que tristemente vivemos até hoje. Não podemos esquecer a hipocrisia desses novos valores, tão bem denunciada pelo provérbio popular e por sua zombeteira resposta "Deus ajuda quem cedo madruga" e "Mais vale quem Deus ajuda que quem cedo madruga". Por sinal, aproveitando o trocadilho, fiquemos com a sabedoria de Seu Madruga: "Não há trabalho ruim; ruim é ter que trabalhar"!

2 comentários:

Ana Paula disse...

Li esse texto do Thompson em "Introdução aos Estudos Históricos" no 1º período! rs

Afortunato disse...

Achei muito interessante o texto. Atualmente a palavra ócio tem uma conotação muito negativa e até por isso algumas correntes criaram o termo ócio criativo.
É engraçado que nosso código penal ainda tipifica o crime de vadiagem. Será que a vadiagem também não seria uma espécie do gênero ócio?
Acho que seria interessante um texto sobre as diversas espécies de ócio.

um abração.