quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Histórias de família - Tesouros escondidos

Quem nunca sonhou em caçar velhos tesouros esquecidos em algum lugar? Aqueles que, como eu, cresceram assistindo Os Goonies em inúmeras reprises televisivas com certeza já se imaginaram vasculhando cavernas cheias de armadilhas com mapas poeirentos nas mãos! De fato, esse tipo de história parece ter algo de muito cativante para a imaginação ocidental, desde muito antes de Robert Louis Stevenson publicar sua Ilha do Tesouro. Mesmo o povo de Laguna no início do século tinha sua cota de tesouros secretos...

Meu avô contava que em sua região natal corria a lenda de um tesouro perdido em pleno litoral catarinense. Dizia o povo de lá que escondidas em algum lugar perto de Laguna estavam as misteriosas "panelas de ouro dos jesuítas"... A historia dizia que antes de sua expulsão do Brasil, no século XVIII, os inacianos de Santa Catarina teriam deixado guardadas num lugar secreto das redondezas suas "panelas de ouro", um riquíssimo tesouro. A bem da verdade, nunca consegui entender muito bem como seria composto esse tesouro: seriam panelas feitas de ouro fundido? Ou teriam os astutos jesuítas guardado seus tesouros em panelas? No segundo caso, sempre me pareceu um lugar inusitado para se guardar uma fortuna! Por que não baús? Seria muito mais tradicional, afinal de contas... Meu avô achava mais provável a segunda opção, por razões que mencionarei adiante.

Ainda em meados do século XX as "panelas de ouro dos jesuítas" atraíam seu quinhão de aventureiros. Meu avô se lembrava de que durante sua infância houve algumas pessoas que chegaram a percorrer as matas da região em busca do cobiçado tesouro. Alguns desses Indiana Jones catarinenses vinham mesmo de cidades próximas. Apesar disso, a população de Laguna jamais viu as tão famosas panelas...

Há poucos anos encontrei um livro muito curioso, Tesouros do Morro do Castelo, de Carlos Kessel. Para minha surpresa, o livro falava sobre uma lenda muito parecida, que circulou no Rio de Janeiro até o desmanche do Morro do Castelo, em 1922. A versão carioca do "mito" falava também de um tesouro oculto pelos jesuítas antes de sua expulsão. Assim como no caso catarinense, o autor relata que muitas pessoas tentaram encontrar essa fortuna, como documentam notícias de jornais da época. Pelo visto, esses aventureiros provocavam tanta sensação no Rio quanto em Laguna, a despeito da siginificativa diferença de tamanho das duas cidades. Ainda mais instigante é que descobri, através desse livro, que histórias semelhantes sobre os supostos tesouros perdidos da Companhia de Jesus são comuns em muitos outros lugares do Brasil.

Tais lendas falam muito sobre o imaginário construído em nosso país desde a época colonial. Imaginário marcado pelo cobiçado ouro das Minas Gerais, mas também pela rica fortuna dos inacianos. Mitologia de santos do pau oco, piratas e contrabandistas, mas também de poderosos clérigos, que na sombria lenda pombalina se tornaram um "Estado dentro do Estado". Creio que uma análise aprofundada dessas histórias daria margem a um rico estudo de mitologia comparada, o que certamente escapa a nossas possibilidades aqui...

No entanto, o legendarium lagunense não vivia apenas de áureas panelas guardadas por cúpidos religiosos... Laguna escondia outros tesouros, menos feéricos, mas reais. Dizia meu avô que não era raro que durante obras nas velhas casas do lugar, construídas no século XVIII ou no XIX, fossem encontrados dentro das paredes recipientes, principalmente canecas de louça, abarrotados de antigas moedas de ouro. Essas ocasiões já eram pouco comuns quando meu avô era criança, mas meus bisavós, nascidos no final do século XIX, viram isso acontecer com maior frequência. É irônico pensar nessas economias familiares avaramente guardadas com tanto cuidado que caíram no esquecimento.

Não é difícil imaginar quanto esses acontecimentos afetavam o imaginário popular, principalmente numa pequena cidade. Creio que boa parte do fascínio pelas "panelas de ouro" vinha dessas humildes canecas; a realidade alimentava a lenda, incendiando a esperança e a ganância dos caça-tesouros de plantão... Meu avô atribuía a esses pequenos tesouros reais a opção pelas singulares panelas na invenção da lenda. Afinal, se os cidadãos comuns lagunenses haviam guardado suas pequenas fortunas em canecas, objetos cotidianos, apenas enormes panelas seriam artefatos do dia-a-dia suficientemente grandes para guardar a fabulosa riqueza da Companhia de Jesus....


6 comentários:

arthur disse...

O bisavô do meu marido achou uma panela de ouro na regia de boi preto, Palmeira das Missões, Rio Grande do Sul. Na época o velho Enricou e tinha 350 hectares de terra... Morreu na miséria e a neta, no caso a.mãe do.meu marido conseguiu herdar míseros 7 hectares e meio...

Luiz Fabiano de Freitas Tavares disse...

Que fantástico, obrigado por comentar! Mas a panela era feita de ouro ou era uma panela comum com ouro dentro?

Helio G disse...

Tais histórias sempre aguça nas pessoas o espirito aventureiro.Ou seja estes boatos tem sempre um grande fundo dede verdade

Angelo Pacheco disse...

Olá! Cheguei a esse post um pouco tarde, mas antes tarde do que mais tarde heheh. Na divisa dos estados de SC e RS também tem muitos desses "causos". E nas terras do meu falecido avô tinha essas histórias. Tanto que uma vez em 1994 um senhor apareceu lá no meu avô oferecendo muito dinheiro para comprar todas as terras dele, mas ele não vendeu. Pois bem, a uns anos atrás eu comprei um detector de metais, meu hobby é o detectorismo. E pesquisando nas terras do meu avô encontrei uma moedas de cobre de 1821. Achei incrível, estou em constante pesquisa lá.
Abraços.

Luiz Fabiano de Freitas Tavares disse...

Puxa, Ângelo, que bacana! Espero que encontre ainda mais tesouros!

Cleber disse...

Também procuro na régia gostaria de obter contato com Ângelo Pacheco