segunda-feira, 30 de julho de 2012

Camadas do sagrado

Estivemos ontem em Genebra. Devo dizer que, 500 anos depois de Calvino a cidade me parece andar mais pelo lado do "espírito do Capitalismo" que da "ética protestante"... Por sinal, definitivamente, os preços em Genebra seguem à risca o espírito do dito cujo!

Deixando essa questão de lado, foi uma oportunidade fantástica poder visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino fez seus sermões e, principalmente, um local que fez parte do cotidiano de alguns dos personagens e autores que estudo em minhas pesquisas, como Jean Crespin, Pierre Richer e, principalmente, Jean de Léry! Estar exatamente ali, na nave daquela igreja, foi indescritível...

No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios.

Se era mesmo um chefe acho difícil dizer - honestamente, sou um tanto cético quanto a certas identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C. Por sinal, a certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado também no século I a.C. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço.

É interessante observar que esses enterramentos de moedas (e outros objetos) entre algumas tribos celtas correspondia a uma forma de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas.

Logo após a conquista romana há vestígios ali também de que o local foi logo transformado num templo. Infelizmente não tirei nenhuma foto desses vestígios, principalmente elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos parcialmente preservados.

Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, que sofreu sucessivas ampliações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico.

Também é possível ver vestígios do coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica.

Ao lado da Igreja foi ainda instalado um claustro, com as celas dos monges aquecidas por um curioso sistema de calefação radial.



No fim da Idade Média o bispo ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa.

No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ostenta ainda hoje. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, abrigando ninguém menos que o célebre reformador Calvino.

O que me parece impressionante é que, ao longo de nada menos que dois milênios e sucessivas transformações religiosas, esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?

Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa. Provavelmente os próprios Alobrógios foram os autores dessa mutação, num processo corrente de assimilação de sua religião ao panteão romano.

Por outro lado, a apropriação católica posterior teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica no Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica e mesmo a conquista da América.  Nesse sentido, tratava-se de manobra religiosa proselitista "friamente calculada", como diria o Chapolim Colorado...

O mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens.

Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ticiano, Rubens e araras

Há duas semanas estive em Madri, e - obviamente - no Museu do Prado, que fica além de qualquer descrição. A bem dizer, gostei mais do Prado que do Louvre...

Entre inúmeros tesouros, achei interessantíssimo comparar duas telas reproduzindo Adão e Eva, pintadas pelo italiano Ticiano e pelo flamengo Rubens, datadas respectivamente do século XVI e XVII. A obra de Rubens é reprodução do original de Ticiano, abaixo.

Como se pode ver, a reprodução pintada posteriormente por Rubens não foi objeto de grandes transformações, excetuando-se pequenas alterações formais, mas apenas uma em relação ao conteúdo: a inclusão de uma arara na cena, sobre a árvore à esquerda...

A bem dizer, a "participação especial" da arara não deve ser considerada uma novidade; desde o século XVI Dürer já havia utilizado animais tropicais em cenas da história sacra. No entanto, o que me pareceu muito curioso nessa reprodução elaborada por Rubens foi justamente o fato de ser uma reprodução que - à exceção da arara - permaneceu intocada em seus detalhes, ou seja, de alguma forma, o pintor sentiu certa necessidade de incluir esse novo elemento na cena.

Obviamente não é fácil imaginar o que se passava na imaginação de Rubens, sua motivação íntima para a deliberada inclusão da ave americana na cena originalmente representada por Ticiano. Em todo caso, a "arara de Rubens" parece um ótimo exemplo do quanto o Novo Mundo se torna essencial à Europa ao longo da Idade Moderna, se infiltrando vigorosamente no imaginário do Velho Mundo.

Por sinal, como muitos de seus contemporâneos, Rubens parece ter ficado fascinado pela natureza da América, como o demonstra a série de quadros Os cinco sentidos, executada em parceria com Jan Brueghel. As cinco alegorias também se encontram hoje no Prado. É interessante observar que, em cada um desses quadros figuram animais do Novo Mundo, especialmente aves tropicais e um mico.

Cotejar os dois quadros é muito instigante porque, de certa forma, os dois se mostram indícios de um longo processo de construção e estabelecimento da sociedade ocidental dos dois lados do Atlântico, processo durante o qual a Europa foi central durante boa parte do tempo, mas que, desde o século passado, tem se tornado cada vez mais periférica em relação a uma América cujo papel mundial cresce incessantemente...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Fora do prumo...

Nessa semana estivemos em Rouen. Ficamos apaixonados pelos prédios da cidade construídos em "colombage", usando grandes toras de carvalho extraídas das florestas da região. É um tipo de construção típica da Bretanha e da Normandia. Como as fotos mostram, a construção ia muito de improviso...


 Essa parece que fico esprimidinha...

 Segundo meu amigo Igor, engenheiro civil, trata-se de uma patologia da edificação chamada de recalque diferencial.
 Apesar da cara medieval, esses prédios são em sua maioria dos séculos XVI, XVII e XVIII.
 Talvez ainda mais interessante seja essa igreja construída em homenagem a Joana D`Arc, no local onde ela foi queimada. Construída no século XX, o arquiteto teve a excelente ideia de se inspirar nas características arquitetônicas da cidade para construir um prédio propositadamente torto. Excelente exemplo de apropriação e "reciclagem" da História...

domingo, 1 de julho de 2012

Da arte de visitar museus

Desde bem pequeno sempre fui apaixonado por museus, uma das coisas que devo agradecer imensamente a minha família. Francamente, não lembro quando fui a um museu pela primeira vez, nem onde. Essa semana estive justamente pensando sobre o quanto essa experiência sempre renovada tem sido crucial em minha formação, e por outro lado, o quanto meu modo de visitar museus foi se transformando ao longo do tempo, conferindo sempre novos sentidos a essa vivência.

Quando criança, sentia essas visitas como algo mágico, envolto em profundo encantamento. Lembro sempre do quanto fiquei fascinado pelo barco chinês de brinquedo que pertenceu a D. Pedro II, peça de beleza inigualável, no Museu Histórico Nacional. Como descrever a inveja que à época senti do pequeno imperador por possuir um brinquedo tão fabuloso? Durante muito tempo, na minha ingenuidade infantil sonhei com a possibilidade de que alguma fábrica de brinquedos contemporânea - mais especificamente, a Estrela - tivesse a genial ideia de relançar o barquinho no mercado... Durante toda minha infância entretive essa relação de fascínio com os museus que visitava, relação muito mais empática e emotiva que intelectual, obviamente. Fico feliz de constatar que ainda hoje essa emoção não se tornou totalmente estranha: ainda sinto bater mais forte o coração ao encontrar determinadas peças, como o calendário de Coligny ou a estátua do almirante Chabot... Esses encontros, esperados ou inesperados, são sempre fascinantes.

Durante minha adolescência essa relação começou a passar por um longo processo de transformação, motivado especialmente pelo sonho de me tornar arqueólogo, lá pelos 13 anos de idade - quando desisti de ser detetive da Interpol! Com essa idade passei a consumir avidamente qualquer material sobre História que me caísse nas mãos - de livros, enciclopédias e revistas a filmes ou música clássica. Iniciava-se uma intensa fase de bricolagem intelectual, em que tentava simplesmente acumular de modo pouco crítico leituras e informações - quanto mais melhor! Obviamente os museus se tornaram um lugar privilegiado nesse sentido. Do olhar encantado, passei a um olhar fortemente analítico, conscientemente treinado, centrado em esforços de identificação, classificação (estilística, cronológica, geográfica...) e memorização. Foi nessa época que comecei a ler com rigor quase monástico todas as tabuletas que encontrava pela frente, detendo-me com atenção a literalmente cada peça: numa vitrine  com 40 artefatos, eu examinaria detidamente cada um deles! Foi nessa época que comecei a andar sozinho pela cidade, e visitar museus era uma de minhas diversões favoritas. Ia quase uma vez por mês ao Museu Nacional de Belas Artes! Não era incomum que eu visitasse duas vezes as exposições que mais me interessavam; cada visita dessas era atividade para muitas horas... As exposições permamentes se tornaram particularmente íntimas, objeto de uma contemplação longa e "vagabunda", quanto mais íntimo eu me tornava desses acervos...

Aos poucos essa experiência foi mudando de rumo, já no final de minha adolescência. Comecei a desenvolver um olhar cada vez menos classificatório e mnemônico, ao mesmo tempo mais crítico e mais sensível aos significados sociais, políticos, culturais e estéticos das peças. De certo modo, comecei a vivenciar a visita a museus como um encontro com fontes primárias, o que se acentuou muito mais com o ingresso na faculdade de História.

Desde então, meu olhar sobre os museus tem mudado muito. Creio que tenho construído uma relação mais autônoma com as exposições, à medida em que meus próprios conhecimentos me permitem hoje compreender algo consultando menos sistematicamente as placas, textos ou diagramas. De fato, atualmente me detenho muito menos sobre cada peça individualmente, mesmo porque qualquer acervo tem densidades variadas, com peças mais ordinárias, passíveis de uma apreensão em grupo, por assim dizer, e outras mais instigantes, que solicitam maior atenção - de certo modo, uma alternância entre olhar quantitativo ou qualitativo. Por outro lado, certa maturidade intelectual me dá maior segurança para decidir o que corresponde mais profundamente aos meus interesses e questionamentos pessoais - somada à óbvia constatação de que uma apreensão integral e definitiva do museu será sempre impossível. Além disso, tenho desenvolvido certa curiosidade "meta-museológica", cada vez mais aguçada: me questiono sobre a composição retórica da exposição visitada e sobre os discursos que ela subentende,  mas também sobre a própria história peculiar de cada museu, sua fundação e suas transformações, enfim, seu "devir institucional". De certo modo, agora mesmo, no momento da escrita desse post, me dou conta de que tenho tido cada vez mais uma relação dialética com os museus e seus acervos...

Peço perdão aos que tenham achado maçante essa egocêntrica digressão - enfim, aos que se interessaram suficientemente para chegar até aqui... Mas termino perguntando-lhes: e vocês, como visitam os museus? Quero ouvir seus comentários!