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quinta-feira, 31 de julho de 2014

"Protestar não é crime" - Um relato

Ontem fui com minha amiga Rosiane ao ato nacional "Protestar não é crime". Embora não tenham comparecido os quatro mil previstos, foi uma bonita manifestação. Saímos da Candelária, entrando pela Rio Branco e dobrando na Almirante Barroso, até o Tribunal de Justiça. Até a hora em que eu e Ro viemos embora, a polícia ainda não havia provocado nenhum tumulto - apesar do efetivo gigantesco do Choque. Éramos gente de todas as tribos, de todas as opiniões, de todas as categorias, de todos os posicionamentos políticos, unidos por uma causa: LIBERDADE. Éramos o povo, oceano onde se afogam todos os tiranos, como dizia Victor Hugo.

Tenho duas coisas a destacar sobre o ato. Em primeiro lugar, fiquei muito contente ao ver alguns funcionários da COMLURB participando da manifestação. É bonito ver uma categoria tão desvalorizada e geralmente associada pelo preconceito social à ignorância conquistando seu devido lugar no concerto da cidadania - principalmente depois da belíssima e magistral greve que eles conduziram esse ano. São sinais de um real despertar dos trabalhadores.

Também fiquei muito feliz ao conversar com dois jovens, mal saídos da adolescência. Cheios de dúvidas, com posicionamentos políticos hesitantes, mas cheios de entusiasmo, aprendendo na rua a ser cidadãos, buscando, aos tateios, mas cheios de coragem, os significados da cidadania.

O Brasil está repleto de amanhã.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Professores, traficantes e o mito de Prometeu

"Cuide do seu filho, antes que um professor de História ou de Filosofia o adote".

A infeliz citação reproduz (aproximadamente) o discurso de uma suposta poetisa, psicanalista e filósofa em recente debate radialístico. Como muitos devem ter percebido, trata-se de paráfrase de um slogan que saiu de moda, mas fazia muito sucesso alguns anos atrás:

"Cuide do seu filho, antes que um traficante o adote".

A comparação entre professor (de História ou Filosofia) e o traficante é triste, mas esclarecedora, à medida em que condensa de forma exemplar uma gama complexa de discursos que vêm sendo formulados desde a explosão de manifestações que ganharam as ruas do Brasil desde junho de 2013. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, temos o discurso que tende a criminalizar as manifestações e as reivindicações populares, confundindo-as propositalmente com o vandalismo, que ocorre pontualmente - geralmente num circuito de retroalimentação e interdependência com a violência policial. Aliás, embora seja professor de História, não apoio a ação violenta, nem a tática black bloc. Assim, no dizer da distinta "pensadora" brasileira o manifestante é confundido com o vândalo, que por sua vez é confundido com o traficante, criminoso por excelência no imaginário brasileiro.

Por outro lado, a fala da poetisa [sic] também traduz um velho discurso que tende a ver os professores da área de humanas como "revolucionários" e subversivos em potencial. Mais ainda, temos visto uma postura nitidamente persecutória em relação ao magistério, perceptível desde a violência policial contra professores, prisão política de diversos profissionais da área, tentativa de associar o sindicato dos profissionais da Educação aos "vândalos" fabricados pela mídia ou projetos como o famigerado "Escola sem Partido", do pequeno Bolsonaro. Assim, o professor se equipara ao manifestante, ao vândalo e, por fim, ao traficante - todos criminosos.

Talvez esse discurso seja bastante influenciado pelas grandes greves do magistério em 2013, e todo o circo midiático, político e policial montado em torno delas, com direito a Cinelândia cercada e bombardeio aéreo de lacrimogênio: tudo pela Educação! No entanto, creio que a ferida é ainda mais profunda, ligada ao movimento geral de sucateamento da educação pública e de desvalorização da profissão docente. Mais ainda, revela o pavor que os poderosos sentem contra a educação e o esclarecimento das massas.

Tudo isso nos leva ao mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, símbolo da luz do conhecimento, entregando-o aos mortais. A punição para esse grave crime é uma das mais severas e cruéis registradas pela mitologia: o titã foi acorrentado a um rochedo no alto do Cáucaso, sendo diariamente visitado por um abutre que devora seu fígado, que cresce durante a noite apenas para renovar seu sofrimento no dia seguinte, por toda a eternidade.

Na Grécia antiga, como no Brasil atual, oferecer o fogo do conhecimento ao povo é crime grave, tão grave quanto traficar drogas, praticar atos de vandalismo ou exercer pacificamente o direito democrático de reivindicar.