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sábado, 31 de dezembro de 2016

Carta de despedida ao ex-prefeito Eduardo Paes

Sr. Eduardo Paes,

soube através da imprensa que o senhor se emocionou às lágrimas ao se despedir dos servidores do município do Rio de Janeiro na última sexta-feira. Uma cena comovente para quem não conheceu de perto sua gestão.

Não sei quanto às demais secretarias, mas os servidores da Educação foram continuamente massacrados pela sua gestão durante os últimos oito anos, como comprovam fartamente as greves de 2013 e 2014.

Em 2013, por sinal, o senhor fez questão de nos empurrar goela abaixo um plano de cargos e salários que prejudicava imensamente os servidores, especialmente os professores de 16 horas. Graças a esse plano, por exemplo, eu hoje detenho o título de doutor, mas não tenho direito a progressão salarial, ao contrário dos professores de 40 horas.

Caso o senhor tenha esquecido, gostaria ainda de lhe lembrar que esse mesmo plano foi passado sob uma monstruosa e iníqua votação na câmara dos vereadores, ao som de explosões e cheiro de lacrimogênio, num episódio que os servidores da Educação já se acostumaram a chamar de "Massacre da Cinelândia".

Ainda durante a greve de 2013, o senhor e a então secretária de Educação, Claudia Costin, se recusaram terminantemente a cumprir a LEI federal que determina 1/3 de horário de planejamento para os professores. Lei essa que, passados mais 3 anos continua a ser descumprida pela prefeitura.


Já em 2014, o senhor cortou ILEGALMENTE o ponto de inúmeros servidores da Secretaria de Educação que exerciam seu direito CONSTITUCIONAL à greve - entre os quais me incluo. Tudo isso sugere que o senhor mostra pouca inclinação ao cumprimento de leis - o que parece um comportamento estranho para um chefe do Executivo. Os meses de julho e agosto de 2014 foram sofridos para nossas famílias, e não imagino que o senhor tenha derramado qualquer lágrima ao tomar essa arbitrária medida.

Por sinal, embora tenhamos ganho a causa contra o senhor na Justiça, nossos salários daqueles meses foram depositados em embargo, e ainda passarão muitos anos até que recebamos os valores que nos são devidos. Muitos colegas contraíram dívidas que ainda não terminaram de pagar.

Vale ainda lembrar que durante seus dois mandatos o preço das passagens de ônibus subiu de modo exorbitante, prejudicando o orçamento familiar de todos os usuários de transporte público em nossa cidade, o que me deixa confuso sobre sua declaração: "Saio de cabeça erguida sabendo que fizemos o máximo pelo nosso povo, pelas pessoas que necessitavam" - a não ser, é claro, que os donos das empresas de ônibus sejam as pessoas necessitadas às quais o senhor se refere.

Também soube que o senhor orou, cantou músicas religiosas e falou muito em Deus durante sua despedida. Podia ter aproveitado e incluído em suas orações as pessoas que morreram no trágico e evitável desmoronamento da Ciclovia Tim Maia, vítimas de sua gestão negligente.

De resto, tomo a liberdade de recomendar sinceramente que o senhor se afaste em definitivo da vida política de nossa cidade - para seu próprio descanso e para maior benefício do povo carioca. Ouvi dizer que Maricá é um ótimo lugar para aposentadoria, por sinal. Já que o senhor anda tão religioso, outra sugestão interessante é aproveitar seu tempo livre para visitar seu amigo Sérgio Cabral - Jesus dizia que visitar pessoas na prisão é uma obra meritória.

Cariocamente,
Prof. Luiz Fabiano Tavares
(Sobrevivente de seus últimos dois mandatos)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Telemarketing: como deveria ser e como é

Como deveria ser:

1 - O cliente deseja uma informação sobre forma de pagamento aceita em uma loja física.

2 - O cliente liga para a central de atendimento e comunica sua dúvida.

3 - O atendente responde à dúvida de modo claro e objetivo ("Sim, aceitamos" ou "Não, não aceitamos").

4 - Fim.

Como é:

1 - O cliente deseja uma informação sobre forma de pagamento aceita.

2 - O cliente liga para a central de atendimento e comunica sua dúvida.

3 - O atendente pede informações para cadastrar o cliente (para captura de dados, obviamente).

4 - O cliente diz que não quer se cadastrar, deseja apenas uma informação simples e objetiva.

5 - O atendente desliga na cara do cliente.

6 - O cliente liga novamente, é atendido por outro atendente que também deseja fazer cadastro e desliga na cara do cliente.

7 - O cliente liga novamente e seleciona a opção "fazer reclamações".

8 - O cliente informa que ligou duas vezes solicitando uma informação simples e suas ligações foram derrubadas.

9 - O atendente do serviço de reclamações quer cadastrar o cliente.

10 - O cliente diz que não quer fazer cadastro nenhum, deseja apenas uma informação simples e objetiva.

11 - O atendente diz que vai buscar a informação e deixa o cliente na linha por alguns minutos.

12 - O atendente retorna e pergunta se o cliente deseja receber informações sobre promoções.

13 - O cliente afirma que não quer saber sobre promoções, que apenas deseja uma informação sobre formas de pagamento.

14 - O atendente pergunta tudo de novo, diz que vai buscar a informação e deixa o cliente na linha.

15 - O atendente retorna sem uma informação objetiva: talvez aceite, talvez não aceite. Recomenda ligar para uma loja física.

16 - O cliente, se esforçando para manter a polidez, informa que não encontrou o telefone da loja física no site.

17 - O atendente diz que vai procurar, deixa o cliente na linha por mais alguns minutos, e retorna com o número da loja física.

18 - O cliente liga para a loja física e é imediatamente atendido.

19 - O atendente da loja física não sabe esclarecer a dúvida do cliente.

20 - O atendente transfere a ligação.

21 - A ligação cai.

22 - O cliente liga novamente.

23 - Ninguém atende.

24 - O cliente continua sem a informação simplíssima que desejava.

25 - Fim.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ondas curtas e fibra ótica

Lá pelo fim dos anos 80, meu avô chegou em casa com um curioso pacote. Era um rádio compacto Philips, capaz de captar ondas curtas. Fiquei fascinado ao saber que o aparelho poderia sintonizar com rádios do mundo inteiro, embora àquela época eu tivesse apenas uma vaga ideia do que seria o "mundo inteiro". Por sinal, ainda hoje, embora tenha uma ideia um pouquinho melhor sobre o tamanho do mundo, estou longe de ter uma noção adequada do que seria o "mundo inteiro" - como qualquer outro ser humano, aliás.

O aparelho prometia mais que entregava. Sua sintonia era melhor à noite (menos interferência solar) e ao ar livre. Me lembro de algumas noites passadas na varanda, tentando, com muita dificuldade, ajustar os botões do aparelho para captar rádios de outros continentes. A sintonia, quando conseguida, costumava ser muito frágil, repleta de interferências e rapidamente perdida. Era um trabalho de tentativa, erro e paciência, realizado quase às cegas. Ainda assim, por breves momentos, era como se uma janela se entreabrisse, permitindo que vozes misteriosas nos chegassem em línguas estrangeiras. Às vezes espanhol, outras inglês. De quando em quando, alguma língua asiática soterrada sob violento chiado.

Havia um quê de imprevisível, fascinante e mágico nesses efêmeros contatos estabelecidos com terras distantes. Por sinal, meu conhecimento de línguas estrangeiras não me permitia compreender grande coisa. O importante, me parece hoje, não era entender nada; era o deleite no próprio contato.

Hoje à tarde descobri, quase por acaso, o interessante site Radio Garden, que permite sintonizar via Internet com rádios do mundo inteiro. Embora hoje seja fácil acessar conteúdo do mundo inteiro, senti como se fosse um fascinante retorno à infância. Por quê? Talvez seja a impressão de imprevisibilidade, de ir navegando aleatoriamente pelo mapa, experimentando, buscando não-se-o-quê, de não-se-sabe-onde. Ir clicando ao acaso, às cegas, ouvindo sons muito mais nítidos, em tantas línguas desconhecidas, indecifráveis. Músicas soando estranhas ou familiares a um e outro tempo. Quem disse que a globalização seria chata...?

Radio, someone still loves you...

Sobre automação, computadores, linguagem e plenitude humana

"Um historiador de tecnologia que morreu no ano passado, Thomas Hughes, falava sobre o conceito de momento [momentum] tecnológico: que a tecnologia, uma vez instalada em nossas estruturas e processos sociais ganha impulso próprio e nos puxa com ela. Então talvez a trajetória já esteja definida, que continuaremos seguindo pelo caminho em que estamos, sem questionar a direção tomada. Eu não sei. O melhor que posso fazer é tentar pensar com a máxima clareza possível sobre essas coisas, porque elas parecem tão complicadas e confusas.

Espero que, como indivíduos e sociedade, mantenhamos uma certa consciência sobre o que se passa, e certa curiosidade sobre isso, para que possamos tomar decisões que atendam a nossos interesses a longo prazo, em vez de ir cedendo a conveniência e velocidade e precisão e eficiência.

Creio que deveríamos solicitar de nossos computadores que eles enriqueçam nossa experiência de vida; que eles nos abram novas oportunidades, em vez de nos tornarem passivos olhadores de telas. E, no fim, penso que nossas últimas tecnologias, se pedirmos mais delas, podem fazer o que tecnologias e ferramentas fizeram através da história humana, que é tornar o mundo um lugar mais interessante para nós, e nos tornar melhores pessoas. No fundo, isso é algo que depende de nós".
Nicholas Carr

"Uma objeção é que, mesmo que você não compre a hipótese de que meu smartphone é efetivamente um pedaço de minha mente carregado na mão, é difícil ignorar as cumulativas evidências em torno das vulnerabilidades da cognição humana. Não somos apenas criaturas de hábitos; também somos criaturas de escrutínio consciente limitado e facilmente exausto. Distraia ou canse alguém - dê-lhe uns poucos problemas de cálculo mental a resolver e publicidade relâmpago nos cantos de sua visão e sua força de vontade é esgotada. "Cutucar" nossas decisões é agora uma ciência alimentada por bilhões de bits de dados. E que mecanismo melhor para cansar mesmo o mais atilado pensador que o incansável zumbido do hardware em nossos bolsos e software em sua nuvem circundante?


É esse exponencial impacto da tecnologia da informação que propõe o maior problema para tudo que costumávamos pensar como normal, equilibrado, autoconsciente e autorregulado. Vivemos em uma era de infiltração generalizada, e nossas patologias são aquelas do excesso. Junk food, projetada para um deleite que não conseguimos parar de engolir. Junk media, junk information, junk time - espasmos algorítmicos exigindo atenção, buscando se tornar parte de nossos padrões mentais".
Tom Chatfield

"Como aconteceu com o reino das finanças [na crise de 2008], pode acontecer com a tecnologia. Se as grandes edificações digitais vierem despencando abaixo - mesmo temporariamente - aqueles que mais deslumbradamente tiverem entregue suas pessoas às ferramentas smart ficarão com mais cara de bobos. Ainda assim, todos nós carregamos o risco de uma abordagem acrítica do "smart living": um tecido social tramado a máquina, que ao apertar de um botão ou arrebentar de um cabo, poderia se desmanchar inteiramente".
Tom Chatfield

"Como computadores não podem vir até nós e conhecer-nos em nosso mundo, devemos continuar ajustando nosso mundo e nos levando até eles. Definiremos e regularemos nossas vidas, incluindo nossas vidas sociais e nossas percepções sobre nós mesmos, de maneiras que conduzam ao que um computador pode 'entender'. A sua estupidez se tornará a nossa".
David Auerbach

"Em termos computacionais, fazer as coisas de modo que o sistema não 'entende' é não fazer absolutamente nada. É tornar-se incompreensível, absurdo, como tentar introduzir uma banana numa impressora, em lugar de papel. O que conta é sinônimo do que é contado [contabilizável]".
Tom Chatifield

"O que nos traz de volta ao futuro do autocorrect e autocomplete: nos encorajando a não pensar profundamente demais sobre nossas palavras, a tecnologia preditiva pode mudar sutilmente o modo pelo qual interagimos uns com os outros. À medida que a comunicação se torna um ato menos intencional, oferecemos aos outros mais algoritmos e menos de nós mesmos. Por isso argumentei em Wired no ano passado que a automação pode ser ruim para nós; pode nos fazer parar de pensar. ~[...] Quando algoritmos estudam nossa comunicação consciente e subsequentemente nos repetem para nós mesmos, eles não identificam o ponto em que essa reciclagem se torna degradante e unidimensional. (E perversamente, a frequência de uso de palavras costuma receber peso positivo quando algoritmos calculam relevância). [...] Quando nos conectamos uns com os outros, deveríamos lembrar que, embora sejamos consistentes em várias maneiras, não somos produtos uniformes, produzidos em massa e condenados a conversas redutoras, insossas e sem inspiração. Temos coisas espontâneas a dizer que nunca havíamos antecipado; declarações e questões que exigem expressão cuidadosa, nuançada e formulada de modo inédito".
Tom Chatfield

"Ao reprojetar sua versão online, o LA Times fez com que cada matéria comece com três resumos tuitáveis. E eles fazem isso acima do artigo, assim você pode tuitar sem mesmo lê-lo e decidir o que você pensa sobre o assunto. Tweeters de sucesso usarão isso? Provavelmente não. Mas me preocupa o fato de que isso vem se tornando cada vez mais infundido na arquitetura dos sistemas. [...] Exceto que predizer você é predizer um você previsível. O que por si só subtrai algo de sua autonomia. E encoraja você a ser previsível, a ser um facsimile de si mesmo. Então é previsão e indução ao mesmo tempo [...] Eu acho que o slogan que responde isso seria algo como 'esforço é o preço do cuidado'. E por esforço quero dizer uma presença deliberadamente focada. Quando abdicamos disso, injetamos menos cuidado em uma relação. É o que penso que a automação faz. É o que acho que essas pessoas [desenvolvedores] deixam fora da equação".
Evan Selinger

"O QG do Google, em Mountain View, California - o Googleplex - é a alta igreja da Internet, e a religião praticada entre suas paredes é o Taylorismo. Eric Schmidt, executivo chefe da empresa, diz que o Google é 'uma companhia fundada em torno da ciência da mensuração', e busca intensamente 'sistematizar tudo' o que faz. Usando os terabytes de dados comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, conduz milhares de experimentos por dia, segundo a Harvard Business Review, e usa os resultados para refinar os algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e dela extraem sentido. O que Taylor fez pelo trabalho manual, Google vem fazendo pelo trabalho mental. [...] No mundo do Google, o mundo em que entramos quando ficamos online, há pouco espaço para a confusão da comtemplação. A amibguidade não é uma abertura para o insight, mas um bug a ser consertado. O cérebro humano é apenas um computador obsoleto que precisa de um processador mais rápido e um HD maior. [...] Quanto mais rápido navegamos na Web - quanto mais links clicamos e páginas vemos - mais oportunidades Google e outras companhias encontram para coletar informação sobre nós e nos apresentar anúncios. A maioria dos proprietários da Internet comercial têm interesse financeiro em coletar as migalhas de dados que deixamos enquanto pulamos de link em link - quanto mais migalhas, melhor. A última coisa que essas companhias querem é encorajar a leitura tranquila ou o pensamento lento e concentrado. É de seu interesse econômico nos levar à distração. [...] No mundo de 2001, as pessoas se tornaram tão mecânicas que o personagem mais humano acaba sendo uma máquia. Essa é a essência da sombria profecia de Kubrick: quanto mais dependemos de computadores para mediar nosso entendimentos sobre o mundo, é nossa própria inteligência que se aplaina em inteligência artificial".
Nicholas Carr

A universidade brasileira, as línguas estrangeiras e a "inserção internacional"

Comentários recortados de uma conversa no Facebook


Certos cursos de graduação exigem alguns períodos de língua estrangeira instrumental e talvez todos devessem fazer a mesma exigência, mas não ao longo de todos os períodos, creio. Seria até mais produtivo, por exemplo, que se exigisse 2 e até 3 línguas diferentes - em lugar de apenas uma durante o curso inteiro.

Por outro lado, discordo da obrigatoriedade do inglês. Seria mais produtivo, me parece, que tivéssemos bons leitores em várias línguas, capazes de trazer contribuições estrangeiras mais plurais, aumentando nossa "superfície de diálogo", por assim dizer.

Além disso, interesses variados requerem ferramentas diferenciadas. O francês foi e é muito mais importante que o inglês para mim. Na graduação fiz dois semestres de latim instrumental que me foram de grande valia. Na verdade, acho que se houvesse a exigência de uma língua obrigatória na graduação em História, deveria ser o latim! Pode parecer preciosismo, mas o conhecimento do latim dá outra espessura à percepção das relações entre tempo e linguagem; é quase como enxergar a "planta baixa" da cultura ocidental. Ok, agora exagerei...!

Enfim, tendo a pensar a questão por outro viés, mais intelectual que acadêmico. O aprendizado de línguas estrangeiras oferece insights sobre a linguagem e a construção de conhecimento que me parecem muito mais importantes que a "internacionalização da universidade" propriamente dita.

Acho que esse aprendizado desempenha uma função muito mais significativa que o mero acesso à bibliografia acadêmica x ou y. No meu caso, o francês foi o mais importante para a minha formação; para outra pessoa pode ser o italiano, o russo, o japonês... A questão, me parece, é o encontro com a língua estrangeira enquanto outro código cultural para pensar a realidade, ampliar horizontes. 

Nesse sentido, até um aprendizado parcial ou incompleto tem seu valor. Durante a adolescência tentei por muitos anos aprender árabe, mas nunca consegui assimilar grande coisa; ainda assim, o contato com a língua teve um papel "interessante" em minha formação, especialmente na percepção da codificação da língua escrita. A própria compreensão de minhas dificuldades em penetrar nesse outro universo linguístico me ajudou a compreender (um pouco) melhor as distâncias entre trajetórias culturais distintas. 

A distinção fundamental, me parece, é se queremos formar um acadêmico capaz de ler, escrever etc em uma língua estrangeira ou se tencionamos formar um intelectual com certa sensibilidade às nuances da linguagem. São propósitos muito diferentes, e o último me parece muito mais importante que o primeiro.

Por outro lado, penso que a questão da língua é secundária em relação a nossa "inserção internacional". Temos poliglotas suficientes para ler, falar e publicar em línguas estrangeiras, mas sofremos de certo "provincianismo temático" que me parece letal nesse sentido. Basta olhar as dissertações e teses defendidas em nossos programas de pós. Quase todos os trabalhos são centrados em História do Brasil, da América Latina ou do mundo ibérico - o que redunda numa esfera de diálogo bastante estreita. Basta uma olhada nos grandes centros europeus de produção historiográfica (declinantes ou ascendentes) para perceber que há uma variedade imensa de recortes geográficos e cronológicos. Frequentando seminários no Centre Roland Mousnier (Sorbonne) e na EHESS ficava evidente o amplo leque de regiões e períodos estudados pelos jovens pesquisadores.

Uma comparação parece sugestiva: a antropologia brasileira se tornou imensamente relevante no plano internacional nas últimas décadas em grande medida porque encontrou um meio de romper com essa lógica. Como vi há pouco tempo um grande antropólogo brasileiro falando, ganhou muito espaço certa tendência a pensar o índio "no Brasil" em lugar de uma tradição mais arraigada que pensava o índio "do Brasil" - a coisa muda de figura. Há antropólogos no Museu Nacional de quem se diz, por exemplo, que é "a forefront actor in the inquiry on what it is to be human" - e não estamos falando aqui de Eduardo Viveiros de Castro, que é "apenas" a estrela mais brilhante de uma grande constelação. Claro reflexo disso é que hoje o Museu Nacional atrai significativa quantidade de pós-graduandos estrangeiros, inclusive da Europa.

Além de tudo, nosso ensino básico, mesmo nas melhores escolas particulares, é muito fraco. Muitos estudantes chegam à graduação com dificuldades básicas de interpretação de texto, hábitos de leitura e estudo deficientes, buracos de formação imensos e por aí vai. A falta de domínio de línguas estrangeiras é um mal, mas provavelmente o menor dos males. Há pouco tempo fiz um parecer a um artigo de um mestrando que mais parecia um texto de estudante secundarista - e não é um ponto muito afastado da curva. 

Há pouco tempo um professor de certa universidade federal me dizia que cerca de 50% de seus estudantes de primeiro período não se mostravam aptos a decifrar um texto acadêmico. Outro conhecido, que leciona numa prestigiosa universidade particular também se queixava de situação semelhante.

Acho que algumas críticas de Tolstói à Rússia dos czares caem como uma luva ao Brasil de hoje: investimos mundos e fundos em pesquisa e pós-graduação enquanto o ensino básico está entregue às baratas e depois nos espantamos com o resultado final da coisa. Gastamos muito com verniz, mas investimos pouco em madeira, por assim dizer. Por alguma estranha razão, agimos como se bolsas de mestrado e doutorado fossem capazes de transubstanciar anos de incúria educacional em brilhantismo acadêmico. Um pesquisador de alto nível não se faz em meros dez anos de graduação e pós. Nos preocupamos mais com o telhado que com os alicerces, e depois simplesmente fingimos que as métricas de produtividade científica retratam fielmente a realidade.

A bem dizer, o ensino básico anda em crise no mundo inteiro, mas aqui o panorama se torna muito pior pelo simples fato de que nunca foi grande coisa. 

Sad, but true.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

"Natal dos Covardes", de Marcelo Freixo


Texto publicado por Marcelo Freixo na Folha de São Paulo em 22/12/2015

O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

Hoje, quase todos os brasileiros, inclusive os cônscios moralistas da violência que amarram adolescentes em postes para linchá-los, se reunirão com suas famílias para celebrar mais uma vez o nascimento desse homem.

Sujeito, aliás, que respondeu à provocação: está com pena? Então, leva para casa! Pois, é. Jesus Cristo prometeu levar o ladrão para casa. "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso", diz o evangelho de Lucas.

Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: "quando vier, que venha armado".

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, no próximo Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

Feliz Natal.

Sobre crianças, fósforos e "revolucionários"

O fogo é lindo e atraente. É luz, calor e vida. O fogo é perigoso por três motivos: ele é necessário, sedutor e, principalmente imprevisível.

Quando criança, gostava de brincar com fósforos, até o dia em que quase incendiei a casa de minha tia e sofri uma queimadura dolorosa...

Muitos grandes incêndios começam com a imprudência daqueles que possuem a ilusão de controlar o fogo.

É fácil riscar fósforos, mas os resultados nem sempre satisfazem as previsões...

 

domingo, 25 de dezembro de 2016

Problemas e "problemas" do Brasil

Cultivamos alguns mitos com muito carinho. 

Esse ano fiz um curso com um professor alemão e ele comentou que ficou muito surpreso ao ver o Fundão lotado numa sexta-feira; segundo ele, as universidades alemãs ficam às moscas nas sextas, quase todos os estudantes preferem matar aula. 

Mas qual povo leva fama de preguiçoso?

Como diz Otávio Velho, um de nossos maiores antropólogos, adoramos ser "mais realistas que o rei". Idealizamos demasiadamente os outros países e depois ficamos escandalizados ao perceber que nossa realidade não corresponde a esses ideais - que não existem tal como os imaginamos em lugar nenhum. 

Queremos ser mais democráticos que os americanos, mais republicanos que os franceses, mais organizados que os suíços, mais disciplinados que os japoneses e por aí vai...

As pessoas simplesmente se recusam a aceitar que nas ruas menos turísticas de Paris também se encontram bitucas de cigarro, pichações ou paredes urinadas ou que alguns parisienses dão calote nas roletas do metrô ou que os carros do metrô ficam imundos na sexta-feira à noite, quando os jovens franceses vão pra night.

Claro que o Brasil tem MUITOS problemas, mas o modo que pensamos esses problemas é, por si só, um dos problemas.

Sobre a "reação do oprimido"

Réplica a um comentário no Facebook

1- Não concordo que quem "governa o planeta" sejam apenas os oligopólios econômicos. Acho que há aí uma interpretação muito reducionista, tendente ao marxismo "clássico" que vê como importante apenas a "infraestrutura" econômica e o resto como mero subproduto. Acho que os jogos de poder são mais complexos que isso; nem tudo cabe no economicismo.

2- Acho que o argumento de que cobrar dos governantes seja completamente inútil deriva muito do primeiro. Por mais que saibamos que certos grupos são muito importantes, não significa que o Estado seja um agente político insignificante e que exercer pressão sobre o Estado seja de todo irrelevante. Concordo que tuitar, espernear, bater panela, soltar rojões e pombas brancas e distribuir rosas não sejam métodos muito eficazes; essas não são exatamente as melhores táticas de desobediência civil, embora povoem o imaginário coletivo.

3- Não me parece que sequestrar os "detentores do poder econômico" em troca de exigências resolva grande coisa. Acreditar que isso seria possível sem descambar para grandes episódios de violência ou guerra civil me parece um tanto ingênuo e romântico. A luta violenta é uma caixa de Pandora e a ideia de uma violência "controlada" apenas contra os "alvos certos" raramente se mostra viável. A violência é por definição incontrolável e imprevisível. Isso falando apenas de um ponto de vista meramente pragmático.

4-De um ponto de vista ético, moral e espiritual, não acredito que nenhum fim, por nobre que pareça, justifique o uso de meios violentos. Na minha opinião, os meios importam mais que os fins. Ao contrário do dito que corre mundo, a "reação do oprimido" pode ser tão cruel quanto a "violência do opressor". Penso como Gandhi: estou disposto a dar minha vida por inúmeras causas, mas não tiraria a vida de ninguém por causa alguma. Acho que Nietszche tinha bastante razão quando dizia que aqueles que combatem monstros acabam também se tornando monstros. Por fim, vejo muita gente defendendo a luta armada e táticas semelhantes, mas não vejo essas pessoas REALMENTE partindo para a prática; há aí alguma contradição ou incoerência... Quem está disposto a puxar o gatilho?! Onde acabam as convicções e começam as bravatas?!

sábado, 24 de dezembro de 2016

História Pública e onde habita

Há poucos dias me peguei pensando: no Brasil há mais gente publicando textos acadêmicos e "refletindo" sobre História Pública que produzindo a História Pública propriamente dita. Codiloco.

A banalização da indignação e um testemunho de sua história

Acabo de ler um texto de 11 anos atrás com críticas veementes a um clipe (já esquecido) de uma cantora pop (já esquecida). Requiescat in pace.

O clipe supostamente seria uma brutal violência da cultura imperialista etc etc etc. Logo abaixo seguia-se uma longa salva de comentários recheada de réplicas e tréplicas, onde inúmeras pessoas "engajadas" e devidamente "escandalizadas" discordavam visceralmente entre si.

Apenas um comentário sensato destacava que era apenas uma obra artística de baixa qualidade chocada entre tantas outras de teor semelhante e que, provavelmente, não seria a referência cultural decisiva apontada pelo autor do texto e demais leitores. 

Mais de uma década depois, sabemos quem tem razão. 

Por sinal, é curioso lembrar que dez anos atrás as pessoas já discutiam loucamente na Internet por coisas absolutamente inexpressivas. Vivemos a era das polêmicas efêmeras e indignações banais. Pior ainda, estamos em pleno processo de banalização da indignação. 

Touché.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

"Ninguém merece ser pobre"

"Ninguém merece ser pobre. Ninguém merece ser arbitrariamente rico. Sociedades ricas podem encontrar maneiras de justificar sua grande riqueza relativamente a outras: seus membros podem contar a si mesmos histórias sobre as grandes coisas que eles fizeram que outros não poderiam ter feito que os fizeram ricos além da imaginação. Por outro lado, eles poderiam reconhecer a forte contingência de sua riqueza, cultivar empatia humana e fazer o que pudessem para estender essa riqueza para todos".


Ryan Avent

Sobre ilusões, participação e inteligência artificial

Nos últimos anos tenho lido e refletido muito sobre inteligência artificial. Recentemente venho fazendo alguns experimentos participativos de "engenharia reversa", ou como diria Walter Benjamin, venho tentando "escovar a inteligência artificial a contrapelo".

Os resultados podem ser curiosos. Ando jogando Assault Horizon Legacy no Nintendo 3DS. É um jogo de combate aéreo com um fiapo de narrativa, onde o jogador pode pilotar inúmeros modelos de caça desde aeronaves dos anos 70 a alguns aviões experimentais atuais. Meu favorito, por sinal, é o já clássico Rafale M, desenvolvido para as forças armadas francesas - mas isso é assunto para outra conversa.

O jogo possui gráficos bastante elaborados e a interface é espetacular, parecendo (suficientemente) realista usando os parcos recursos do 3DS. A modelagem das aeronaves parece muito boa. Os terrenos são gerados usando imagens reais de satélite; sobrevoados de grandes altitudes passam uma impressão de realismo quase cinematográfico ou fotográfico. A inteligência artificial dos pilotos inimigos e aliados funciona bem quando tentamos realizar as missões. E aqui está o "pulo do gato".

O que acontece quando o jogador não tenta cumprir a missão proposta? O que acontece quando o usuário evita deliberadamente participar da ilusão?



Há cerca de uma hora realizei um experimento nesse sentido, na missão "Acid Rain", onde o jogador deve abater diversos bombardeiros que ameaçam a fictícia cidade de Anchorhead, escoltados por caças de modelos variados. Os ataques acontecem em ondas: a primeira delas conta com apenas dois bombardeiros; conforme o jogador os vai abatendo, as sucessivas ondas são compostas por números cada vez maiores de inimigos, e a última imprime um ritmo frenético ao jogo. Caso a cidade seja pesadamente bombardeada... game over.

Em lugar de cumprir a tarefa dada, disparando mísseis e voando freneticamente atrás dos inimigos, resolvi apenas acompanhar e observar a ação dos bombardeiros. Em quanto tempo eles seriam capazes de destruir completamente os bairros de Anchorhead? Descobri algumas coisas interessantes.

Primeiramente, o padrão de voo dos bombardeiros inimigos é bastante caótico. Se deixados em paz, eles passam muito tempo ziguezagueando aleatoriamente, largando algumas bombas apenas esporadicamente. Deixados à própria conta, os inimigos não fazem grande estrago. Em condições normais de jogo, obviamente, não é o que se passa. O jogador, enredado na trama avança rapidamente contra as ameaçadoras aeronaves, abatendo-as e fazendo com que venham outras.

Os bombardeiros, pilotados pela IA, normalmente se esquivam dos ataques, mas não esboçam "reação" quando acompanhados pacificamente. De fato, eles se comportam como se o usuário/inimigo sequer "estivesse" ali. O mesmo pode ser dito das aeronaves de escolta, que seguem fielmente os bombardeiros, sem reagir veementemente ao intruso no cortejo; apenas eventualmente disparam alguns mísseis ou saraivadas de metralhadora. A mira deles também é curiosamente ruim, o que leva a concluir que seu objetivo real é mais assustar o jogador que causar danos - como acontece numa montanha russa.

Pior ainda, descobri que, na verdade, não há gráficos do lançamento das bombas - apenas os efeitos sonoros de explosões. O jogador não percebe isso porque, normalmente, ele está olhando para outro lugar: disparando contra um caça ou evitando um míssil. Mesmo que esteja de frente para o bombardeiro que está efetivamente "atirando", o usuário pensará que as explosões ouvidas aconteceram em outro lugar. Excessivamente envolvido com a partida, ele não conferirá o radar para verificar que apenas aquele bombardeiro sobrevoa a área alvejada naquele momento específico. Estamos diante de certa forma de alienação - no sentido etimológico do termo.

Devo acrescentar ainda que isso tudo se passava no nível Hard - ou seja, a ação da inteligência artificial deve ser ainda mais anêmica nos níveis mais fáceis. Além disso, a modelagem 3D das aeronaves, que parece tão bonita e detalhada durante o uso normal do jogo, revela toda sua grosseria quando o jogador voa em baixa velocidade, dando-se ao luxo de contemplar, em lugar de atirar.

Ao fim e ao cabo, fica a pergunta: como caímos na ilusão? Por que nos deixamos enredar em aparências tão grosseiras?

O antropólogo Alfred Gell (num texto que não li) propõe a obra de arte como armadilha. É um ponto de partida interessante; tomo aqui a ideia num vago empréstimo.

Muitas armadilhas, como um anzol, requerem a presença de uma isca. E, de fato, o jogo emprega inúmeras iscas para fisgar o usuário. Em primeiro lugar, o jogador recebe um briefing introdutório, onde seu comandante afirma que a cidade e seus habitantes se encontram ameaçados etc etc.

Iniciamos a missão ao som de uma trilha sonora orquestral que lembra todos os filmes de ação vistos recentemente, recorrendo a uma percussão discreta, cordas sincopadas e metais estridentes - alguém mais pensou em Hans Zimmer? Da narrativa propriamente dita somos jogados no terreno da convenção musical. George Lucas sabia o que queria quando pediu a John Williams que compusesse uma trilha romântica, com todos os artifícios acumulados desde Wagner e Verdi, capaz de tornar familiar o estranho universo de Star Wars.

Espaços e distâncias também são meticulosamente planejados em Assault Horizon: o jogador inicia a missão numa das extremidades do mapa, enquanto a cidade se encontra no centro. Uma breve olhada no radar mostra que o ataque é iminente e será necessário correr para alcançar os bombardeiros.

Como se não bastassem esses elementos, o jogo ainda conta com a voz do comandante ao rádio, devidamente acompanhada por efeitos de estática e um tanto abafada. O hábil dublador avisa, em tom cada vez mais alarmado: "Phoenix, the bombers are approaching the city!!!" - "The city is taking dammage, take out those bombers!!!" - "The city is taking heavy dammage, shoot out those bombers!!!". O artifício é muito inteligente, e as sugestivas falas nos induzem a "ver" uma cena que não está efetivamente "lá". Como não pensar na lendária encenação radiofônica de A Guerra dos Mundos, com que Orson Welles teria ludibriado a população nova-iorquina?

Com efeito, os sons tapam inúmeros buracos da parte gráfica do jogo, que mal conseguimos perceber em situação normal - o que me leva a citar, pela enésima vez, o romance Cloud Atlas, de David Mitchell. Em certa passagem do romance o músico Robert Frobisher menciona as cartas repletas de impressões sonoras enviadas pelo irmão do front na Bélgica, durante a I Guerra Mundial:

Adrian's letters were hauntingly aural. One can shut one's eyes but not one's ears. Crackle of lice in seams; scutter of rats; snap of bones against bullet; stutter of machine guns; thunder of distant explosions, lightining of nearer ones; ping of stones off tin helmets; flies buzzing over no-man's-land in summer. Later conversations add the scream of horses; cracking of frozen mud; buzz of aircraft; tanks, churning in mud holes; amputees, surfacing from the ether; belch of flametrowers. squelch of bayonets in necks. European music is passionately savage, broken by long silences.

O que é mais interessante nessa passagem é que o próprio narrador também se vê enredado na ilusão literária do irmão, à medida que ele mesmo, que nunca foi à guerra, apenas imagina esses sons; o mesmo se passa com os próprios leitores do romance, que, em sua maioria, não foram à guerra - bem como o próprio romancista! Personagens e leitores se veem assim sutilmente "embrulhados" pelo hábil autor.

Retornando ao jogo, o único lugar onde a cidade de Anchorhead se encontra efetivamente ameaçada por bombardeiros é a própria imaginação do usuário, que costura todas as pistas sonoras, visuais e narrativas num todo coerente. O mesmo sucede no cinema, onde uma série de imagens e sons fragmentários se reúnem como um todo coeso - quando o diretor domina suas técnicas, obviamente.

Com efeito, é preciso pouco para desmanchar catastroficamente a ilusão. É o que se passa, por exemplo, com X-Men Destiny, um dos piores jogos que já experimentei. O gráfico é passável e até os numerosos bugs de programação são toleráveis. O problema irremediável do game é a inépcia com que seus detalhes foram amarrados.

Curiosamente, um dos defeitos que mais me incomodou era a paupérrima programação de efeitos sonoros. Qualquer bom jogo traz efeitos sonoros encadeados. Por exemplo, em Assault Horizon, quando se dispara um míssil, ouvimos o som do projétil lançado; se ele acerta o alvo, ouvimos o som da explosão. Zelda: Twilight Princess no Wii leva essa dinâmica à perfeição: quando atiramos uma flecha, o alto-falante do controle remoto emite o som do disparo, que é suavemente continuado pelo televisor, como se uma flecha realmente se afastasse do jogador. X-Men Destiny comete o crasso "erro" de empregar sons genéricos para os golpes dos protagonistas, sem outros feedbacks que sugiram ao jogador sobre seus efeitos e impactos.


No entanto, como vimos, mesmo um jogo habilmente dirigido como Assault Horizon vê suas ilusões ruírem quando o jogador não lhe oferece seu consentimento - quando o usuário não morde a isca. A ilusão só funciona quando o usuário efetivamente participa da dinâmica proposta - ou seja, ele aceita tomar parte, fazer parte, ser parte. Ao se tornar parte do jogo ele ingressa no todo imaginado e sugerido pelos produtores, e então a magia da arte acontece: estamos no cockpit de um Rafale M, tentando salvar os cidadãos de Anchorhead de um terrível ataque. Basta sair do papel de participante e inventar uma imprevista posição de observador para escapar do feitiço - o véu de maya foi rasgado, como diriam talvez os místicos hindus.

Uma vez tomada a decisão e o caminho da ruptura com a ilusão, os artifícios empregados pelos produtores do jogo se desmancham em cascata. Destes, o que se desfaz mais dramaticamente, me parece, é a inteligência artificial programada. Quando o usuário se comporta de modo inesperado, os bots se mostram incapazes de reagir de modo satisfatório - é um padrão que venho observando em outros jogos.

É particularmente curioso perceber que o usuário se torna virtualmente invisível para o programa a partir do momento que não age segundo o acordo tacitamente estabelecido - as regras do jogo. Ele está paradoxalmente dentro, mas também fora do jogo. Por exemplo, um experimento interessante é deixar o carrinho absolutamente parado em Mario Kart, jogando no modo "Batalha". Os adversários passam constantemente ao lado do jogador, sem "perceber" que ele está ali ou empreender qualquer forma de ataque. Jogando em modo multiplayer online, com outros seres humanos de diversos cantos do planeta a coisa muda de figura: um carrinho parado se torna presa fácil.


Os bots de Mario Kart ou Assault Horizon estão evidentemente programados para captar e reagir a movimentos em determinadas condições e velocidades específicas - oferecendo ao jogador níveis cuidadosamente balanceados de dificuldade (uma arte dificílima). Em suma, essas inteligências artificiais foram preparadas para interagir com participantes que aceitaram tacitamente certas condições de interação, mas se encontram completamente "desorientados" perante um observador. Paradoxalmente, nesse caso, agir implica uma postura passiva, enquanto não agir implica uma postura ativa - o que lembra o sábio conselho taoísta de "agir pela não-interferência".

Com efeito, a "não-interferência" abre as vias da metacognição - o pensamento que pensa a si mesmo - conseguindo promover um processo de desidentificação com o avatar do jogo (uma palavrinha que parece muito apropriada nesse caso). O usuário, liberto das regras arbitrariamente impostas pelos produtores, sai do reino de samsara. Estar simultaneamente dentro e fora do jogo, participar sem se tornar mera parte - talvez isso seja nirvana.



Tudo isso me lembra as palavras de Mestre Yoda para Luke Skywalker em O Império Contra-Ataca:

You will know (the good from the bad) when you are calm, at peace. Passive. A Jedi uses the Force for knowledge and defense, never for attack. [...] Yes, a Jedi’s strength flows from the Force. But beware of the dark side. Anger, fear, aggression; the dark side of the Force are they. Easily they flow, quick to join you in a fight.


Enfim, há aqui ainda algumas considerações possíveis, estabelecendo paralelos com o trabalho do historiador e do antropólogo. O historiador com suas fontes, que são, em muitos sentidos, armadilhas; o antropólogo com seu método de "observação participante", que também tem suas aporias. Mas essa também é outra conversa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

3 pensamentos e 1 imagem

"As leis que não protegem nossos adversários não podem nos proteger".
Rui Barbosa

"Se não quiser que os outros saibam, é melhor não fazer".
Provérbio chinês

"É perigoso estar certo quando o governo está errado".
Voltaire


Escola "sem" partido

Semana passada, numa das escolas onde trabalho, flagrei uma curiosa lição deixada na lousa à véspera. A atividade, proposta numa aula de Língua Portuguesa, ordenava a interpretação de um trecho de texto sobre a Graça e a Providência, sem autor identificado. Doutrinação religiosa pode...?!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Videogame na Escola 6 - Nasceu!

A Viagem do Pegasus, ao contrário da II Estrela da Morte, está completo e inteiramente funcional!!!

O blog oficial já se encontra online, com link para download, e o trailer se encontra no Youtube:


domingo, 4 de dezembro de 2016

Videogame na escola 5 - criando protagonistas

Concluímos essa semana a criação dos protagonistas. Cada turma criou coletivamente uma heroína e um herói.

Acho que foi, de longe, a tarefa mais complicada do projeto. Houve muitos desentendimentos e tumultos em todas as decisões, especialmente quanto a definir a aparência de cada personagem. Muitos alunos apresentaram imensa dificuldade em aceitar e reconhecer a decisão da maioria, e queriam que fossem realizadas novas votações. Parecia reunião de condomínio ou assembleia sindical!

Um grupo de meninas (excelentes alunas, por sinal) me abordou DEPOIS das votações propondo que ELAS pudessem refazer a heroína de sua turma, a pretexto da qualidade ruim da personagem definida pela turma. Expliquei a elas que isso não seria honesto e que numa democracia as coisas nem sempre acontecem do jeito que desejamos, mas nem por isso podemos "consertar" (e concertar) as coisas por baixo dos panos; acho que elas entenderam.

Os nintendistas de plantão também perceberão que tive de convencê-los a alterar o nome de um personagem, para evitar problemas de direitos autorais. De qualquer forma, não gostaria de ter um gorila enfurecido jogando barris na minha cabeça...

Enfim, seguem abaixo os resultados dessa encrenca toda!







O jogo também já tem título (definido por mim, sem democracia nenhuma) e uma imagem de abertura - ilustrada por Hokusai, que é de domínio público...