domingo, 30 de setembro de 2018

Alternativa final: Ciro

Desde ANTES do atual processo eleitoral, uma coisa estava muito clara para mim: a pior alternativa para o Brasil nessas eleições seria Bolsonaro; a segunda pior alternativa seria um QUINTO mandato do PT (com Lula, Haddad ou quem quer que fosse).

Minha única certeza desde o princípio era que, no segundo turno, votaria em QUALQUER UM contra Bolsonaro - é imprescindível para a República e a Democracia manter esse homem longe da Presidência.

De resto, não gosto de nenhum dos candidatos disponíveis nessa eleição presidencial, então meu voto fatalmente iria para o "menos pior".

Para todos os efeitos, minhas cartas para o primeiro turno eram Ciro, Marina ou Nulo. Após longa avaliação, cheguei à conclusão que Marina seria a alternativa "menos pior" - infelizmente, as chances de Marina passar para o segundo turno parecem cada vez mais remotas.

Assim sendo, resta-me uma última alternativa VIÁVEL: votar em Ciro, na esperança de tirar Haddad ou (com muita sorte) Bolsonaro do segundo turno.

Tenho muitas ressalvas quanto a Ciro, mas ao menos ele tem um programa de governo consistente e vasta experiência política, inclusive no Executivo. Voto com pouco entusiasmo, mas me parece o menor dos males.

CONCLUSÃO: No primeiro turno, voto em Ciro; no segundo turno, voto em qualquer um contra o Bolsonaro - até no Haddad, se necessário for.


Haddad - Aposta de risco

Todo voto é uma aposta; algumas apostas são mais arriscadas que outras. 

Votar em Haddad é aposta de alto risco, considerando a conjuntura eleitoral: há grande aversão ao PT, e isso favoreceria Bolsonaro contra Haddad no 2o turno. 

Caso eleito, Haddad provavelmente enfrentará forte oposição: governará com grande dificuldade, teremos 4 anos de grave instabilidade e talvez o Brasil chegue a 2022 ainda pior. Haddad será refém do "centrão" mais do que Dilma o foi em seu segundo mandato (que sabemos como terminou) - sem contar que é impossível imaginar qual será a configuração do Congresso após essas tumultuadas eleições. 

A não ser que Haddad no poder opere milagres, as eleições de 2022 tenderão a ser ainda mais marcadas por candidaturas de viés autoritário: Bolsonaro pode voltar ainda mais forte...

P.S.: Caso o segundo turno infelizmente venha a ser Haddad x Bolsonaro, obviamente fico com o menor dos males - voto em Haddad. Mas apenas no segundo turno, fique bem claro.


Bolsonaro: Eterna gratidão

Devemos ser eternamente gratos ao Capitão Jair Bolsonaro pelos serviços que presta à República Federativa do Brasil. Bolsonaro escancarou à luz do dia, com clareza e nitidez, as tremendas limitações da democracia no Brasil. Graças a ele podemos ver com absoluta acuidade os espectros de autoritarismo que ainda nos rondam e ameaçam nossa frágil democracia. Fica o desafio para todos os cidadãos, instituições, partidos e políticos: o que podemos e devemos fazer nas próximas DÉCADAS para consolidar, aprofundar e plenificar nossa democracia? Supondo, é claro, que nossa democracia sobreviva à presente conjuntura...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Equações brasileiras

Versão petista (Ensino Médio):

Prosperidade coletiva (2002/2012) = PT+Lula+Dilma

Versão completa (Universidade):

Prosperidade coletiva (2002/2012) = (Mercado internacional favorável × 1.000)+ efeitos tardios do Plano Real+Lula+PT+PMDB+centrão fisiológico+Mensalão+"pactos de governabilidade"+Dilma+Temer+máfia de empreiteiras+Cabral+Paes+"legado da Copa"+"legado olímpico"+etc+etc+etc

Diagnóstico

Você percebe que a educação pública vai mal quando um dos MELHORES alunos de uma turma de oitavo ano escreve "América Centrau".

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Azul contra azul

Tudo que digo tem múltiplos sentidos.
Teço meus tapetes apenas para puxá-los depois.
Sou mosca-aranha, capturada na própria teia.
Sou como o macaco que devora onças.
Meu rosto sempre esconde uma máscara.
Minhas mentiras são absolutamente verdadeiras, e minhas realidades inteiramente sonhadas.
Sujeito, porque objeto; objeto porque suspeito.
Sou nuvem e rio; bota e estrada; sol, chuva e arco-íris.
Azul contra azul, vejo as estrelas atrás do sol.
Vejo apenas o nascer do sol que se põe.
Todos os meus sentidos têm múltiplos dizeres.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Indexando

Coisas que se lê na Internet: "Não li o livro, pois não sou obrigada. Leio apenas o que me agrada, ao contrário dessa gente que elogia autores consagrados mesmo sem ter lido". Como se houvesse mérito maior em criticar uma obra sem lê-la que em elogiá-la sem lê-la.

O direito de não ler qualquer livro é incontestável, mas seria uma gentileza poupar a terceiros o dissabor de ler uma crítica literária politicamente engajada sobre uma obra não-lida - sem qualquer fundamento, portanto.

"Não li, não gostei, mas acho inaceitável que tal livro exista, pois supostamente viola os sacrossantos preceitos de nossa iluminada militância". Alguns grupos ditos "progressistas" possuem uma lógica realmente inquisitorial...

domingo, 16 de setembro de 2018

Tempos indecentes

É difícil ser uma pessoa decente em tempos tão indecentes. É difícil proteger o coração das emoções violentas que nos assediam e proteger nossa mente de todos os pensamentos de ódio que nos assaltam. Que não nos faltem as forças morais para resistir ao turbilhão que nos arrasta. Que nenhum de nós se torne apenas mais um no meio das multidões enfurecidas. Que coração e mente se preservem serenos, generosos, fortes e esperançosos. Que nessa caótica maré possamos ser rochedos seguros para aqueles que precisam de nosso apoio.

sábado, 15 de setembro de 2018

O Golpe que não era Golpe, muito pelo contrário

Depois de muita gritaria, "Não passarão!!!", "Fora, Dilma!!!", "Fica, Dilma!!!", "Não vai ter golpe!!!", "Tchau, Querida!!!", "Fora, Temer!!!", "Lula Livre!!!" e que tais, retornamos à boa e velha política do deixa-disso:

"Em 15 estados, PT se alia a partidos que apoiaram impeachment".

"Golpe é uma palavra um pouco dura".

Afinal de contas, os únicos golpeados sempre somos nós, cidadãos desse belo país tropical.




O que mais faz falta na política hoje é CRIATIVIDADE. 

Passamos muito tempo brigando por requentadas receitas do século XIX, vagamente temperadas no século XX, apegados a rótulos que mal fazem sentido nos dias de hoje. 

Quem terá a coragem de pensar alternativas para o século XXI?

O Brasil como Milagre

Hoje eu conversava com uma turma de 3º ano muito querida sobre a catástrofe do Museu Nacional e seus significados. Conversamos sobre a magnitude do acervo perdido, sobre a escarninha fleuma dos governantes, sobre a indiferença do povo brasileiro, que sempre assiste "bestializado" suas próprias tragédias.

É uma turma muito pequena, com cerca de 15 alunos, e o tom da conversa era intimista. São meninos inteligentes, curiosos e questionadores. A partir de certo momento o debate foi se tornando mais e mais angustiado, como se fôssemos coletivamente tomados por uma sensação de desesperança, descrença, desencanto. A certa altura, um rapaz, de sobrenome britânico e fisionomia muito brasileira, indagou em tom quase suplicante:

"Mas professor, o que NÓS podemos fazer? Como mudar tudo isso? Sabemos quais são os problemas, mas onde está a solução?"

O que eu poderia dizer que acalmasse semelhante inquietação? Haveria resposta honesta a dar? Meus primeiros pensamentos se dirigiram para aqueles clichês que repetimos incessantemente: votar de modo mais consciente, cobrar atitudes de nossos governantes, protestar contra os abusos e injustiças -mas eu sentia que a angústia de meu aluno exigia outro tipo de resposta.

Após breve pausa, com a voz embargada, respondi: "Aquele museu era um milagre". Os jovens me olhavam surpresos. Continuei desenvolvendo minha intuição.

Sim, é um milagre que um país constitua o quinto maior museu do mundo quase por acaso, quase sem querê-lo, quase sem incentivos substanciais, como se fosse possível fazer algo dessa monta por um feliz acidente. É realmente um milagre que uma instituição tão abandonada pelo poder público durante sucessivas décadas tenha conseguido desenvolver alguns programas de pesquisa com projeção MUNDIAL.

É facílimo entender o Louvre, mas é quase impossível explicar o Museu Nacional. É mais fácil compreender o incêndio que acreditar em tudo que aquela instituição conseguiu realizar ANTES do incêndio.

Aquele Museu era como uma tulipa cultivada no deserto. 

O milagre, ali, era o esforço somado de gerações de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, oferecendo o melhor deles mesmos apesar das circunstâncias que sempre estiveram muito longe do ideal.

Mas, aprofundando essa intuição, o próprio Brasil, tal como o conhecemos, seria também um milagre. Refletindo sobre nossa História, nosso passado de extermínio indígena, colonização, escravidão, só resta uma conclusão: somos um povo de sobreviventes. Desde 1500, 1822, 1889, somos um povo que sobreviveu a seus próprios governantes. Que sobreviveu e, em alguma medida, prosperou.

Observemos, por exemplo, nosso ainda precário sistema educacional (tanto público quanto privado). Há cerca de 100 anos, em nossa nascente República, menos de 10% da população era alfabetizada; hoje, com todos os seus defeitos, a maior parte de nossa população tem acesso à escolaridade básica. Apesar de todas as deficiências qualitativas, o avanço quantitativo é inegável. Para 100 anos, é um verdadeiro salto. Mais importante, um salto dado a toque de caixa, empurrando com a barriga, apesar do costumeiro descompromisso dos governantes e da habitual falta de cobrança e interesse da população como um todo.

Da mesma forma, nossa primeira universidade ainda não completou 100 anos, mas hoje temos universidades espalhadas por todos os cantos do país, públicas ou privadas (com nítida superioridade qualitativa das públicas). Apenas o Estado do Rio de Janeiro possui 6 universidades estaduais ou federais, formando profissionais de altíssimo nível - sem falar em nossa ampla rede de escolas técnicas públicas, que funcionam com excelência, apesar das incoerências e desvarios de nossos governantes.

Se olharmos bem, nosso país consegue e conseguiu muita coisa, em vários setores, apesar da absoluta inconsistência de nossas políticas públicas ao longo de gerações e gerações e apesar da doentia carência de espírito cívico do brasileiro médio.

Suponho que entre as razões de tais "milagres" estejam nossa grandeza territorial, nossa assombrosa riqueza de recursos naturais e nossa (moderada) pujança demográfica. Há alguma verdade na mitológica afirmação de Caminha sobre essa terra onde "se plantando tudo dá", bem como no verso de nosso hino que sustenta ser o Brasil "gigante pela própria natureza".

Nossos variados recursos são de tal modo vultosos que, mesmo mal aproveitados, empregados muito abaixo de seu pleno potencial, rendem resultados muito superiores à real proporção dos esforços coletivos mobilizados. Os frutos são magníficos, apesar da incúria dos cultivadores. O Brasil avança, devagar e sempre, aos trancos e barrancos, apesar do precário, vacilante e sinuoso empenho do povo brasileiro.

Em muitos momentos, tomados por delírios de grandeza imediata, nos embrenhamos em constantes ilusões e desilusões, sequiosos por um futuro que nunca chega. Desde o século XIX muitos brasileiros e estrangeiros enxergaram nosso evidente potencial, consagrando a imagem tardiamente eternizada pelo austríaco Stefan Zweig no título de um livro mais citado que lido: "Brasil - País do Futuro".

Ao cabo dessa longa e um tanto exaltada digressão, olhei pausadamente para a turma e, fixando o aluno que fizera a angustiada pergunta, concluí minha atabalhoada reflexão: um dos maiores desafios para nós, brasileiros, é reconhecer plenamente nosso potencial e realizá-lo - passar da simples potência ao ato, de modo consciente, empenhado, persistente, dedicado, consistente. É transfornar o Brasil no país do Presente, realizar mais "milagres" como o Museu Nacional.

E também reconhecer aquilo que temos de mais valioso antes que seja tarde demais. Infelizmente precisamos de um trágico incêndio para "descobrir" que nós - esse povo bárbaro, inculto, desvalido - éramos donos do quinto maior museu do mundo. Precisamos entender onde está nosso Passado, onde se enterram nossas raízes - pois qualquer tempestade derruba uma árvore com raízes fragilizadas.

Precisamos ser um Brasil completo, com Futuro, Presente e Passado.

A aula já tinha acabado. Era hora do recreio. Abandonamos a sala silenciosos e pensativos.

Minha última foto do Museu Nacional, tirada de uma sacada do terceiro andar, 5 dias antes da catástrofe.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Parece cada vez mais evidente: General Mourão é mais perigoso que Capitão Bolsonaro...

Viajando

"A droga é uma maravilha. Graças às drogas eu conheci muitos lugares, viajei o Brasil inteiro".

Taxista hippie que eu peguei muitos anos atrás. Lembrei dessa conversa louca agora à noite e fiquei rindo sozinho. Esse mundo tem cada figura!


Quem ri por último

Entender piadas sobre política não significa realmente compreender algo sobre política. Eis a tragédia nesses tempos de política-por-memes: acaba vencendo o circo com os melhores palhaços - que riem, eles mesmos, do respeitável público. E assim vamos, a cada eleição, transformando o Brasil no maior espetáculo da Terra...

"Why so serious?"

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Credo!

Senhor da vida e da morte, Bolsonaro está acima do bem, do mal e tudo que há no meio.
Zênite e Nadir, é dia ensolarado e noite estrelada.
Bolsonaro é Pai de Bolsonaros, raiz e fruto.
Fogo, Ar, Água, Terra e Espírito.
Bolsonaro transcende a Lei e o Rei - é fim, meio e começo.
Jair é Messias, e o Messias é Bolsonaro.
Amen!

(Antigo hino pagão encontrado nas ruínas de um império decadente)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Resumo da semana

Comecei a última semana vendo o holocausto do Museu Nacional.

Terminei a semana lendo uma frase inspiradora: "Tá chegando a hora de acabar com os bandidos e com essa galera que defende bandido".

Ainda bem que tomo Prozac...

sábado, 8 de setembro de 2018

Imagine se estivessem armados!

Uma baita briga está rolando no bar aqui da esquina da minha rua, com direito a gritaria, ameaças e pancadaria. Não é, nem de longe, a primeira vez que acontece.

Agora, imaginem: se um desses alcoolizados cavalheiros estivesse com uma arma de fogo? Haveria altas probabilidades de que alguém saísse direto pro necrotério, ou, no mínimo, pra UTI...

Até eu e minha esposa, aqui em nosso apartamento, poderíamos ser vitimados por alguma bala perdida.

Será que é tão difícil assim entender que facilitar a posse e o porte de armas para o brasileiro é uma péssima ideia?!

Que estaremos menos seguros até dentro de nossas residências?!

Liberar o uso de armas de fogo de modo atabalhoado (como certamente aconteceria, pois tudo é assim nesse país) é uma lambança que levaria meses para ser feita, e décadas para ser consertada.

Mas como tem gente apostando no caos!


Bolsonaro: Uma ponderação friamente pragmática

1) O esfaqueamento de Bolsonaro só fortalece sua posição nesse momento e endurece a convicção de seus seguidores e simpatizantes.

2) Comemorar o episódio ou fazer piadas sobre ele só aumentará o ódio generalizado à esquerda e alimentará ainda mais a paranoia anticomunista que vem crescendo nos últimos anos.

CONCLUSÃO: Para além de qualquer consideração ética, comemorar o ataque contra Bolsonaro é uma péssima escolha de um ponto de vista estritamente pragmático; é uma atitude inconsequente, que só contribui para fortalecê-lo em seu jogo eleitoral.

P.S.: Atentados à vida de quaisquer políticos, por melhores ou piores que eles sejam, são uma ameaça à democracia - e a nossa já anda muito fragilizada. Quero ver Bolsonaro derrotado nas urnas, e não morto por um doente mental que "recebeu ordens de Deus".

Pausa para reflexão

Se você se diz um convicto defensor dos direitos humanos, mas comemora ou faz piada quando um ser humano é esfaqueado, você pensa de modo muito semelhante ao pessoal dos "direitos humanos para humanos direitos" que você adora chamar de "fascista". 

Sem problema, acontece: como todo ser humano, você tem as suas contradições. Talvez, no calor das circunstâncias, você esteja revelando um lado sombrio do seu inconsciente que ainda não conhecia muito bem. Faz parte do caminho da vida. 

De qualquer forma, no seu lugar, eu iria para meu cantinho para, com muita calma, refletir melhor sobre meus discursos, valores e convicções. 

Como já dizia Sócrates, o autoconhecimento é o caminho para a plenitude humana e para a harmonização de nossas contradições interiores. Que a Força esteja com você!

O que é um Museu?

Um museu é um esforço prometeico, uma ousada guerra travada por minúsculos e frágeis primatas contra as forças cósmicas do tempo, do caos, da entropia, do esquecimento, da aniquilação. 

Um museu é uma presunçosa tentativa de tornar eterno aquilo que é efêmero e fadado à destruição. 

Um museu é uma trincheira onde gerações de intrépidos guerreiros usam de toda sua coragem e astúcia para resistir desesperadamente aos renovados e inexoráveis assaltos da impiedosa cavalaria dos séculos. 

A longuíssimo prazo, todo museu está fadado a perder sua batalha. 

No último domingo, nós, guerreiros do Museu Nacional, sucumbimos à derradeira carga do implacável inimigo. 

Tornamo-nos cativos de guerra, sem perspectivas de libertação.

Heroicos esforços de resgate.

Sem precipitação

Pessoal, vamos evitar afirmações precipitadas sobre o atentado, real ou suposto, contra o Bolsonaro. É o tipo de acusação muito grave para se fazer sem provas. Aguardemos maiores esclarecimentos e informações menos desencontradas antes de emitir juízos sobre o caso. Nada mais perigoso que o excesso de certezas mal fundamentadas, especialmente nas conturbadas circunstâncias que ora enfrentamos. O momento pede serenidade e discernimento.

Sobre o atentado contra Bolsonaro

Nem sei o que dizer sobre o atentado contra Bolsonaro. Que ele possa se recuperar bem e isso o faça refletir sobre as sementes de ódio que vem plantando - embora ache isso pouco provável.

Que esse triste episódio nos sirva de lição sobre os perigosos caminhos de polarização política que viemos trilhando nos últimos anos.

Apesar do abismo ideológico que nos separa, ofereço minha solidariedade à família Bolsonaro, na esperança de que, como cristãos que dizem ser, tenham a coragem de oferecer a outra face ao agressor.

Nesse momento convém que todos nós que nos opomos a Bolsonaro e tudo que ele representa não cedamos à tentação de nos regozijarmos com esse triste episódio.

Quanto ao agressor, que seja feita justiça, mas oro para que se restabeleça a paz em sua mente e coração perturbados.

De resto, temos muito a lamentar pelo modo com que nossa política vem se tornando foco de violência. Sem confundir as qualidades das pessoas, nem as motivações dos respectivos crimes, os atentados contra Marielle e Bolsonaro são um claríssimo sinal de alerta sobre os rumos perigosos que vem tomando a política no Brasil.

Busquemos a serenidade, a coragem e a força moral necessárias para sobreviver a essa terrível e sombria tempestade que nos envolve.

Fogo e lágrimas

Dizem que Shiva, em sua perpétua dança de criação e destruição, verte uma lágrima de tristeza por cada coisa destruída. Na noite do último domingo ele deve ter vertido dois milhões de lágrimas pelo acervo do Museu Nacional. As tempestades que açoitaram a Zona Norte nas últimas noites eram certamente esse pranto...


A Globo e os Museus

Dei uma olhada na "cobertura" descaradamente neoliberal e miseravelmente oportunista da catástrofe do Museu Nacional em "O Globo" de quarta-feira. 

Confesso que ficaria satisfeitíssimo se, em lugar de dar pitacos esdrúxulos sobre a gestão de nosso patrimônio cultural público, as empresas Globo nos fizessem o imenso favor de tirar de sua programação pérolas como "Big Brother", "Caldeirão do Huck", "Domingão do Faustão" e outros tantos desastres de valor cultural duvidoso, substituindo essas obras de entretenimento barato por emissões que contribuíssem de modo mais enriquecedor para a formação de seus telespectadores. 

De resto, já que se preocupavam tanto com nossa querida instituição, poderiam, via Fundação Roberto Marinho, ter feito alguma substancial doação ao Museu que tanto usaram como locação para sua pateticamente deseducativa novela "histórica" "Novo Mundo". 

É simplesmente revoltante ver um grupo empresarial que, ao longo de décadas, labora pela de-formação cultural do povo brasileiro, vir agora oferecer soluções milagrosas e lições de moral a nós que batalhamos arduamente para cultivar um pouco de Cultura, Educação e Ciência nesse solo pedregoso e ingrato chamado Brasil. 

Enquanto historiador, doutor, escritor e professor me sinto ultrajado pela atitude desses hipócritas mercadores de entretenimento boçal e desinformação maliciosa. 

Que todos os fantasmas do Museu Nacional assombrem suas nefastas consciências!

Plim! Plim!

Nosso povo não é culpado por tudo

Embora eu discorde em vários pontos, segue uma interessante reflexão do filósofo Thales de Oliveira.

Não suporto mais esses discursos autocríticos bonzinhos que suavizam a culpa dos políticos diluindo completamente a mácula de seus crimes em toda a população brasileira. "Somos todos culpados!", bradam esses politicamente bonzinhos, com palavras tão verdadeiras quanto vãs, rasas e úteis para aqueles canalhas que oprimem a nossa gente. 

O nosso povo pode ser culpado de muita coisa, mas não é culpado de tudo. É filisteu, mas não é silvícola. É bárbaro, mas não é vândalo. Muitas vezes fanático, mas jamais terrorista. O nosso povo é inculto, inconstante e muitas vezes grosseiro, mas quer evoluir, tem amor pelo saber e pelo cultivo das coisas boas do espírito. Somos responsáveis por muita coisa de ruim que ocorre por aqui. Mas não por tudo. 

A nossa classe política não representa o nosso povo, pois nosso sistema político, partidário e eleitoral é uma farsa secular, uma eterna política café com leite. A nossa classe política é, para o nosso país, o que um exército estrangeiro é para uma nação invadida. Não os merecemos. Eles são os selvagens, vândalos e terroristas. São usurpadores do nosso direito de governar o nosso próprio país. Nós somos uma espécie de França do Antigo Regime, mas sem forças para derrubar a Bastilha e fazer uma Revolução.


Ao longo de minha vida visitei o Museu Nacional inúmeras, incontáveis vezes, como visitante, aluno, pesquisador, mais recentemente, professor. Infelizmente não foram visitas suficiente. E não haverá outras...

Eternidade como doença

O excesso de futuro é talvez a mais grave patologia do Brasil. Temos toda uma eternidade para desperdiçar com todas as frivolidades e futilidades que tão orgulhosamente cultivamos. Os únicos ossos que nos importam são os do Neymar. Em 2022 tem Copa. Pra frente, Brasil, rumo ao Hexa!


"Ninguém segura esse país"

É incrível. Conseguimos em poucas horas de incêndio perder um patrimônio cultural maior que aquele perdido pela França durante os quatro anos da I Guerra Mundial. O slogan da Ditadura Militar estava correto: "Ninguém segura esse país" - pois, de fato, quem conseguiria segurar coisa tão corrosiva? O Brasil é tóxico. Somos, desde o berço, um abatedouro cultural: começamos estraçalhando as culturas indígenas, depois mutilando culturas africanas. Em breve nos restará apenas uma cultura: a soja.


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Bolsonaro: de bobeira

O bobo da corte era aquela figura que, por ser mentalmente debilitada, podia falar o que queria; podia inclusive ofender ao rei e a outros poderosos. Por ser louco, podia falar "verdades" impunemente, inclusive de modo grosseiro, chulo e agressivo, causando risos.

Bolsonaro age exatamente como um bobo da corte, e muitos brasileiros querem "coroá-lo" exatamente por isso... Se esquecem que as "verdades" de um histrião valem tanto quanto as mentiras de qualquer outro cortesão. O bobo sabe provocar risos, mas governar não é fazer piadas.

Quanta bobeira!


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Memento mori

"A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio. Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial".
Trecho de entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos vivos e pesquisador do Museu Nacional.

"Um museu em chamas visto por uma de suas antropólogas"

"Somos todos mais pobres hoje, mesmo os governantes e políticos que não têm noção da gravidade do que aconteceu, e ficam por aí dando entrevistas em que falam em reconstrução e recuperação, como se dependesse apenas do dinheiro que, agora, milagrosamente, começa a aparecer. Se o palácio imperial pode, quem sabe, ser recuperado, o que estava dentro dele, jamais. Nenhum dinheiro poderá comprar o nosso acervo, pois esses objetos, registros, documentos, gravações, papeis, gravuras, não existem mais em nenhum lugar do mundo".

Trecho do desabafo de Aparecida Vilaça, uma das mais renomadas pesquisadoras do Museu Nacional na área de Antropologia.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Cultura OU o quê? Falsos dilemas e verdadeira cidadania

Não se trata de ter museus OU ter hospitais, ter teatros OU escolas, ter pesquisa científica OU empregos, ter bibliotecas OU saneamento básico, ter parques OU segurança pública. Esses dilemas são falsos, falsíssimos. Precisamos ter bons museus, teatros, bibliotecas, pesquisas científicas, parques e tantas outras coisas PARA termos bons hospitais, escolas, empregos, saneamento básico e segurança pública.

Nenhuma nação decente, digna e soberana se constrói sem investir na formação humanística de seus cidadãos, sem abrir-lhes horizontes amplos e profundos de questionamento, imaginação, contemplação, deslumbramento.

Um povo sem acesso a museus, teatros, bibliotecas, ciência ou parques se torna manipulável, dócil, submisso a todo tipo de tirania, apático diante de todo abuso de poder.

E os tiranos não gostam de oferecer nada de bom a seus povos: nem museus, nem hospitais; nem teatros, nem escolas; nem ciência, nem emprego; nem bibliotecas, nem saneamento básico; nem parques, nem segurança pública.

Ruínas do Museu Nacional: um corpo cuja alma se extraviou.

Museu Nacional - O que perdemos?

É impossível aquilatar o quanto realmente se perdeu nesse incêndio.

Como disse uma amiga, perdemos mundos inteiros: o mundo da monarquia brasileira, de D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel; o mundo dos dinossauros e da megafauna brasileira e sul-americana; o mundo da fauna e da flora dos trópicos; o mundo das culturas regionais do Brasil.

O mundo que me toca mais de perto é aquele dos índios do Brasil. Ali estava o maior acervo de cultura material indígena do Brasil. Além dos artefatos indígenas propriamente ditos, havia precioso material arquivístico, incluindo registros de pesquisas de campo, fotografias, registros fonográficos, teses não publicadas etc.

Segue um levantamento informal de uma pequeníssima parte do que perdemos sobre os índios, a partir de conversa com meus amigos antropólogos:

-Toda a coleção Rondon;

-Toda a coleção Roquete-Pinto;

-Os diários de campo apenas parcialmente digitalizados de Curt Nmuendaju, um dos maiores etnógrafos do início do século XX, com dados preciosos sobre as culturas indígenas na época;

-Todos os registros do grande Projeto Brasil Central, que contou com a participação de inúmeros pesquisadores brasileiros e estrangeiros em meados do século XX, projeto que teve imensa relevância para o desenvolvimento da teoria antropológica dentro e fora do Brasil;

-Décadas de fotografias de populações indígenas, a maior parte sem cópias ou digitalização de qualquer espécie;

-Registros linguísticos INSUBSTITUÍVEIS, manuscritos, impressos ou fonográficos, de línguas indígenas que se encontram EXTINTAS;

-Enfim, centenas de artefatos indígenas raríssimos, e até exemplares únicos NO MUNDO.

Resumindo, o incêndio de ontem equivale a um segundo genocídio das culturas indígenas. Perderam-se línguas, mitologias, técnicas, legados de vidas inteiras, séculos de realizações humanas desse nosso "Novo Mundo". Matamos os índios de novo. Na primeira vez, por maldade; agora, por simples descuido.

O incêndio do Museu Nacional não rasgou apenas algumas páginas de nossa História; ele destruiu volumes inteiros.

Sinto uma mistura de tristeza e raiva ao pensar em todo o conhecimento que aquele acervo ainda reservava por explorar e que agora está irremediavelmente perdido, literalmente reduzido a pó.

Algumas cerâmicas indígenas, tristes sobreviventes de uma catástrofe; ao ver os bombeiros retirando-as cuidadosamente dos escombros, me pareceram cadáveres retirados de um campo de batalha. Pior, de uma batalha perdida.

Museu Nacional: Mundos Destruídos

Estive hoje cedo nas ruínas do Museu Nacional. Como disse uma amiga, muitos mundos foram destruídos neste incêndio.






A Comuna de Paris sabia o que queria quando destruiu as Tulherias. O Talibã sabia o que queria quando explodiu as estátuas milenares do Vale Bamiyan. Nós deixamos um de nossos maiores museus perecer num incêndio estúpido porque não sabemos o que queremos. Não consigo decidir o que é mais triste.
Pior que perder as coleções egípcia, grega etc é a perda do acervo etnográfico e arqueológico propriamente brasileiro. Perda de arquivos e acervo fotográfico. Mais um golpe irreparável contra a memória dos povos indígenas do Brasil. Não há Louvre que substitua. Já era.

Povo e público do Brasil

Brilhante síntese do historiador Roger Marques:

Como escreveu Lima Barreto: "O Brasil não tem povo, tem público". E já que o brasileiro não gosta de História e nem vai a museus, pelo menos pode assistir eles queimarem.


Triste é saber que das cinzas do Museu Nacional não se erguerá Fênix nenhuma.

O Mal da Banalização

As ruínas do Museu Nacional permanecerão como eterno testemunho do povo medíocre que somos. Não conseguimos água para apagar um incêndio. O povo brasileiro é uma farsa. O Estado do Rio é uma fraude.

Somos o cheque sem fundo de um banco falido. Somos a maior coletividade de panacas do mundo.

Ao contrário de outros povos, não temos sequer a dignidade de destruir nossos monumentos em arroubos de fúria iconoclasta. Simplesmente deixamos tudo fenecer como uma planta mal regada.

Vivemos como crianças mimadas quebrando brinquedos caros por mero descuido. E depois matamos crianças a caminho da escola, porque nem a vida humana nos é preciosa.

Todas as nossas tragédias se tornam banais, porque somos um povo banal. Pior que a banalização do mal é o mal da banalização.

Somos um povo ridículo, até em nossas tragédias; principalmente em nossas tragédias.

O que queima?

Como pesquisador do Museu Nacional desde 2015, o incêndio de hoje me afeta de uma maneira muito pessoal. Ainda na última quarta-feira estive lá dando aula; na próxima quarta, não tenho ideia do que será.

É um momento de muita tristeza, uma perda catastrófica de patrimônio cultural, científico e histórico. Mas não é o momento para apontar dedos. O descaso para com o Museu Nacional já vem de muito tempo, é problema de décadas. Não adianta dizer que a culpa é do Temer, da Dilma, do Lula, do FHC, do Itamar, do Collor, do Sarney. Alguns certamente são mais culpados que outros, mas o buraco é muito, muito, muito mais embaixo.

O buraco é que vivemos num país que despreza sistematicamente a educação formal, a cultura erudita, que idolatra imbecis e ignora quem tem algo sério a dizer. O buraco somos nós mesmos, enquanto coletividade.

O trágico e muito simbólico incêndio do Museu Nacional passa pela política e pela administração pública, mas é, antes de tudo, uma tragédia cultural, a catástrofe de uma sociedade que não valoriza o cultivo de sua própria humanidade.

O Museu Nacional arde em chamas porque o povo brasileiro simplesmente nunca fez por merecê-lo.

Descanse em paz, Museu Nacional...