quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"Morte ao povo branco"

Hoje de manhã me deparei com as seguintes palavras pichadas num banheiro da UERJ, redigidas com a mesma caligrafia:

"Morte ao povo branco

Guerrilha Negra

Racistas F.D.P.!"

Para início de conversa, tais palavras têm por trás um discurso genocida, direcionado contra o "povo branco". Não há muito que discutir - é lamentável e seria lamentável que essa frase fosse redigida contra qualquer outro "povo". Não existe muita diferença - talvez nenhuma - entre esse tipo de atitude e os valores de um jovem hitlerista ou de um adepto da Ku Klux Klan. Eu imagino, e espero, que o autor da frase não tenha intenção real de matar ninguém, mas a fala tem caráter violento, reforçado pelo termo "guerrilha".

Por outro lado, é irônico que ele xingue os "racistas F.D.P.", à medida em que o seu próprio discurso tem uma matriz racista, pregando a violência contra outras pessoas a partir de critérios raciais. É um discurso baseado no ódio. Não nego que esse ódio possa ser explicado: é provável que o rapaz que escreveu isso já tenha sofrido muita discriminação, preconceito, abuso policial, entre outras coisas. Explica, mas não justifica - ou seja, não torna esse discurso justo. Há que se lembrar a figura de Mandela, que tanto lutou contra todo tipo de racismo e contra todo tipo de ódio. Não se cura ódio com uma dose oposta de ódio. Mesmo no período em que aderiu à revolta armada, Mandela lutava contra a instituição do apartheid, não contra o "povo branco" da África do Sul.

Vale também salientar que esse tipo de discurso também desfavorece a imagem de todos os movimentos negros, que lutam por causas justíssimas. Quando o autor prega uma "guerrilha negra" para exterminar o "povo branco", depõe publicamente contra todos os outros que defendem justas causas, o que é uma pena. É uma fala que sustenta preconceitos, em lugar de desfazê-los.

São palavras violentas, e infelizmente, violência gera mais violência. Tanto é que, logo abaixo, uma outra pessoa pichou uma réplica: "Heil, Abdias!", em referência ao falecido Abdias Nascimento, importante figura do movimento negro no Brasil. A réplica é totalmente absurda e injusta, comparando Nascimento a Hitler, mas comprova o que sustento acima: tais atitudes desfavorecem o movimento negro.

Uma outra pessoa escreveu uma segunda réplica: "Vai ler Darcy Ribeiro!". São palavras mais amenas, mas revelam uma agressividade velada. Obviamente não se trata de uma simples e inocente recomendação bibliográfica; o autor dessa réplica queria certamente rotular o defensor da "guerrilha negra" como um ignorante, carente de recursos intelectuais. Ambas réplicas são lastimáveis, pois respondem à violência de modo agressivo.

Uma terceira réplica dizia: "No Brasil, todo branco é negro, e todo negro é branco", aludindo à mestiçagem brasileira. No limite, vale questionar se o defensor da "guerrilha negra" não teria ascendentes brancos. Seria ele um negro "puro"? Sendo ele um negro "puro", poderia advogar também a morte de pessoas menos "puras"? Quem poderia lutar nessa "guerrilha negra"? Qualquer discurso de pureza racial está fadado ao fracasso, pois, na verdade, todos somos mestiços, em termos biológicos ou culturais; raças não existem. Talvez essa terceira réplica represente as palavras mais sensatas escritas naquela parede.

Mas não quero atribuir um excesso de importância às palavras de um jovem revoltado por razões justas, mas orientando sua revolta em sentidos injustos. Tudo que quero lembrar é que, onde sobra agressão, falta diálogo. Lembro do célebre discurso de Martin Luther King, que sonhava com uma sociedade onde todas as pessoas se entendessem e amassem, independentemente de suas "raças". Rezo para que um dia possamos superar todos os erros e fantasmas de nosso passado escravista e racista, para tornar esse sonho realidade.

"Eu tenho um sonho" - tradução integral

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

40 centavos - Coisas grandes e pequenas

Nesta sexta-feira pretendo ir ao 5º Ato contra o aumento das passagens. Por quê? Vale o esforço e o aborrecimento? Vale enfrentar a truculência policial por isso?

40 centavos não parecem nada; em termos meramente financeiros, não são nada. Mas a questão não é financeira, é política. Trata-se de mandar uma mensagem aos senhores Eduardo Paes e Pezão.

O aumento da passagem parece uma questão pequena. No entanto, as piores usurpações geralmente começam de modo lento e gradativo, nas "coisas pequenas". Começamos abrindo mão dessas coisas pequenas, justamente porque elas são "pequenas e sem importância", e abrimos cada vez mais espaço para que os tiranos ajam tranquilamente. Vendo a apatia popular, eles se sentem encorajados a coisas piores. Terminamos abrindo mão das grandes porque perdemos a força de resistir. Quando engolimos sapos passivamente, resmungando de lado, mas obedecendo, damos aos tiranos o poder para enfiar sapos cada vez maiores em nossas goelas.

Não é por 40 centavos, é por princípios. É para mostrar aos senhores prefeito e governador que eles não podem nos esmagar sob qualquer arbitrariedade. É para reafirmar e construir o poder do povo, para defender os alicerces da democracia.

E a democracia vale muito mais que quarenta centavos...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ecos de Paris

Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.

A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.

Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.

Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.

O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.

Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.

O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O mal-estar da classe média

Dedicado a Fred Oliveira e Roger Marques

Coisa curiosa, a classe média - especialmente a classe média "de esquerda", que adora enxovalhar... a própria classe média. Ou a "classe mérdia", como gostam de dizer enquanto pregam a consciência... "de classe". Mas consciência de classe alheia - se arrogam o título de procuradores políticos do povão, enquanto os pobres, geralmente, aspiram subir à classe média - ou simplesmente querem ficar ricos, de preferência jogando futebol. Duvida? Entreviste uns 20 alunos de escola municipal.

Já dizia Joãozinho Trinta: quem gosta de pobreza é intelectual; pobre gosta é de luxo. Aliás, intelectual gosta da pobreza dos outros; morar na favela que é bom... Vista de longe, bem longe, a pobreza é uma coisa admirável.

Nesse sentido, os "pensadores" [?!] reacionários têm alguma dose de razão quando criticam a "esquerda caviar" ou a "esquerda festiva".

Quando vejo proprietários ou herdeiros de imóveis fazendo mochilão na Europa e apedrejando a "classe mérdia", penso em, sei lá... telhados de vidro?

Felizmente, vivemos numa época em que qualquer um consegue se dizer oprimido por algo ou alguém. A não ser que você seja homem, branco e heterossexual - a epítome da opressão.

Cá entre nós, acho que esse pessoal podia buscar construir uma identidade como trabalhadores de classe média...

domingo, 25 de janeiro de 2015

Oprimidos e opressores

Quem é oprimido? Quem é opressor?

Quem os separa e classifica em suas respectivas gavetas? Quem define, traça e desenha essas linhas? Quem estabelece, categoricamente, essas categorias?

Telêmaco - negro e machista. Oprimido ou opressor?

Eufrásia - mulher e homófoba. Oprimida ou opressora?

Godofredo - homossexual e racista. Oprimido ou opressor?

Entre os estereótipos e discursos de nossa maniqueísta imaginação é fácil buscar "oprimidos" e "opressores", vítimas perfeitas de perfeitos algozes; difícil é encontrar pessoas reais, em suas profundas e pulsantes contradições, onde os papéis se diluem e as opressões são imprevisíveis... Na vida real, distante das platônicas abstrações ideológicas, há algozes de manhã que se tornam vítimas à noite - e vice-versa.

Talvez, no distante mundo real, até alguns homens brancos e heterossexuais - pasmem! - sejam oprimidos por alguém...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Rio e São Paulo: água, política e oportunismo eleitoral

Durante as eleições de 2014 surgiram vários dedos apontando para a crise hídrica de São Paulo, acusando - com justiça - a incompetência e imprevidência da gestão do PSDB. Publicações pró-PT não se cansavam de abordar o assunto, para desmoralizar a candidatura de Aécio Neves. Eleitores de Dilma alardeavam o problema nas redes sociais, quase satisfeitos com a falta d`água em São Paulo.

Agora, poucos meses depois, o Estado do Rio também se encontra na iminência de uma crise. Nossos reservatórios mostram níveis de água alarmantemente baixos. Curiosamente, não tenho visto críticas tão vigorosas ou insistentes à administração fluminense. Tanta vontade de apedrejar o PSDB, tanta apatia contra o PMDB alinhado com Dilma...

O cotejo entre essas atitudes me parece emblemático de nossa imaturidade política - especialmente entre aqueles que gostam de se dizer "politizados", mas se comportam como bovina massa de manobra, empurrada ao sabor dos oportunismos eleitorais. Acima de tudo, tal atitude trai uma falta de honestidade política, um exercício seletivo de crítica e indignação que só empobrece o debate democrático. "Aos amigos, tudo; aos inimigos, as críticas".

Somos todos analfabetos políticos?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Coari, 2015: considerações sobre a revolta popular

Quem planta injustiça, colhe revolta.

Enquanto ainda lhe deixam um pouco de dignidade, o ser humano pode permanecer dócil, obediente e submisso; pode ser pisoteado com um sorriso amarelo no rosto, fazendo piada. No entanto, quando o precipitam na miséria, tudo pode acontecer.

Há cerca de cinco meses os servidores da Prefeitura de Coari, Amazonas, não vêm recebendo seus salários, devido à administração irresponsável do município; isso afeta não apenas os funcionários propriamente ditos, mas o comércio varejista da cidade.

Na última semana, cerca de 400 pessoas revoltadas atacaram a Câmara dos Vereadores, as residências de alguns vereadores, e incendiaram as residências do prefeito e de sua mãe.  Também houve saques. Felizmente ninguém saiu morto ou ferido. Me parece um fato inédito na história recente da república brasileira: ataques diretos à pessoa e aos bens dos governantes.

As imagens de Coari são ao mesmo tempo belas, tristes e preocupantes.

 
 
 


Não justifico ou aprovo essa reação popular - violência gera violência, num ciclo de dor crescente e cada vez mais difícil de romper; o ideal seria buscar estratégias pacíficas e construtivas para resolver a situação.

No entanto, é o que acontece quando pessoas são brutalmente privadas do seu sustento. Cortar o salário de alguém é uma violência muito cruel. Conheci essa dor na carne, quando o Sr. Eduardo Paes, desrespeitando a Constituição e a Lei Orgânica do município do Rio, descontou meu salário pela participação na greve de 2014. Só quem sofreu uma coisa dessas tem ideia do quanto é horrível ter seu sustento comprometido por um governo arbitrário. Imagine cinco meses nessa situação...

Como dizia Victor Hugo, só é possível existir paz quando se instauram condições objetivas de participação democrática para todos. Quando não há diálogo, quando não se criam vias de entendimento pacífico, quando os poderosos se prevalecem da violência contra o povo, o desfecho será, normalmente, mais violento.


 



Espero que as autoridades amazonenses ajam com sabedoria, procurando caminhos para conciliação, reconhecendo ao povo seus justos direitos. Espero também que os órgãos municipais de Coari sejam devidamente responsabilizados pela situação. Temo pela onda de repressão que talvez se abata sobre o povo de Coari - e torço para que esse povo valente encontre outras estratégias para fazer suas legítimas reivindicações.

A situação em Coari é um lembrete para todos os nossos governantes. Ou botamos a democracia brasileira no eixos, ou teremos situações cada vez mais difíceis - principalmente para os políticos. Nossos prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores, presidente, precisam perceber que, entre tamanhas injustiças, abusos e arbitrariedades, NINGUÉM está seguro. Que lembrem de Luís XVI e Maria Antonieta...

 
 
 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Estrelas e concursos públicos

Venho estudando para dois concursos públicos; um na semana que vem, o outro em março. Às vezes me sinto angustiado, ansioso, oprimido.

Eis que venho a minha varanda. Na noite quente e desanuviada brilha uma miríade de estrelas. De repente, tudo parece tão minúsculo: a Terra, os concursos, eu...

Essas estrelas brilham há milhares, milhões de anos. A luz de algumas delas, que hoje nos chega, foi emitida quando os mesopotâmios ainda ensaiavam seus primeiros caracteres...

"Há muito mais céus do que suspeita nossa vã filosofia"!

Os concursos passarão. Eu passarei, meus filhos, meus netos, também. E daí? As estrelas continuarão brilhando; estavam "aqui" antes de mim, continuarão depois.

Por que ficar ansioso?

sábado, 17 de janeiro de 2015

Estratégias indígenas

Extratos de As diversas formas de ser índio, de Elisa Frühauf Garcia

"O processo pelo qual os índios recontam a sua história enquanto aliados dos europeus foi demonstrado por Serge Gruzinski. Segundo a sua análise, os índios de determinados pueblos do México, ao escreverem as suas histórias em documentos destinados a proteger as suas terras comunais, realizavam uma releitura do seu passado em que era privilegiada a relação de aliança com os espanhóis e omitidas as faces mais violentas da "conquista". Desse modo, ao contrário da visão geralmente privilegiada pela historiografia, enfatizando a violência e a crueldade da conquista, estes relatos nativos se centravam nos significados, geralmente tidos como benéficos, da chegada dos espanhóis e, principalmente, outorgavam um papel de destaque aos índios dos seus próprios pueblos  na conquista e estabelecimento dos espanhóis na região. Nessa visão, os índios não se representavam enquanto vítimas dos espanhóis, mas como seus colaboradores. Para o autor, a explicação dessa abordagem era a tentativa de manutenção dos direitos dos pueblos a partir da invocação da sua participação histórica no estabelecimento dos espanhóis, embora os relatos também tivessem, ou foram escritos para ter, a intenção de manter os laços comunitários entre os habitantes dos pueblos.

[...]

Elaborar uma interpretação baseada apenas na ênfase às violências cometidas pelos portugueses contra os índios, não concedendo aos últimos nenhuma margem de manobra ou mesmo de participação nas situações de conflito, acaba por retirar dos índios a sua condição de agentes históricos. Esse tipo de abordagem considera, ainda que de maneira velada, os índios incapazes de fazerem as suas próprias escolhas, de formularem as suas interpretações e, de forma mais geral, de serem partícipes da construção dos espaços sociais que ocupavam na sociedade colonial. Esses lugares, conforme já colocado em outros momentos deste trabalho e de acordo com o apontado por alguns autores em estudos para outras regiões da América portuguesa, não foram apenas outorgados pelo Estado, mas foram também apropriados pelos índios que lá habitavam, os quais lutaram pela sua manutenção".

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Razões do povo

Só existe verdadeira democracia quando o Estado e seus centros de poder são constantemente desafiados pelo povo. Os tiranos são tecidos na obediência, nos legalismos cegos e desalmados. Quem ousa pensar "Liberdade!" já venceu a tirania, pois ela brota nas almas para dominar os corpos; toda tirania e toda liberdade nascem de dentro para fora.

O povo que obedece de bom grado a leis injustas e aos governantes que as tramam já foi massacrado e ainda não sabe. Quem se cala ante as injustiças ainda respira, mas já foi degolado.

O povo ignorante torra na Praia do Egoísmo, enquanto os governantes cozinham sua carne e seus direitos nos caldeirões da obediência. Ao sol escaldante, seus corpos são os restos do massacre cultural, a carniça no campo da batalha que não aconteceu. Respiram aliviados, contentes, bêbados e aniquilados. São cadáveres apodrecidos em vida, pendurados aos ferros do Metrô como as carnes do açougue.

A razão de Estado raramente favorece as razões do povo. É preciso desobedecer.

Os atos cumulativos de desobediência civil às leis injustas forçam as leis a se aproximarem gradativamente da esfera da legitimidade. Haverá um dia em que, pela força e vigilância do povo, todas as leis serão justas?

O presente sufoca, as sombras reinam. Os poderosos são corruptos, os corruptos são poderosos.

Quem consegue sonhar? Apenas quem sonha conseguirá. Quem estiver nas trevas, acenda ainda hoje uma luz - ou pereça na escuridão. Juntas, bilhões de velas fazem um sol, criam um dia, dois dias, cem anos.

A única esperança é ter esperança, a coragem de acreditar na coragem.

Do fundo do poço, só existe uma direção a tomar: para cima.

Vamos criar futuros, semear caminhos, buscar novos rumos. Amanhã haverá Amanhã. Sempre.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Uma liga pela esperança

Nosso mundo precisa de uma liga pela esperança, uma aliança de todas as pessoas de boa-vontade.

É preciso unir forças, reunir todos aqueles que acreditam em futuros melhores, em um mundo melhor. Aqueles que defendem o amor ao próximo, aqueles que tentam amar ao próximo e, mais ainda, aqueles que conseguem amar ao próximo.

Podemos ter qualquer crença ou descrença, mas precisamos ter fé no Amor e em nossa capacidade de amar.

É necessário conjugar os esforços de todos aqueles que desejam o bem da coletividade, que enxergam ou tentam enxergar no outro um irmão. É essencial vencer o ódio pelo amor, vencer a violência pelo diálogo.

É preciso cruzar fronteiras, construir pontes, abater muros, abrir portas, apertar mãos, estreitar laços.

A obra é imensa. Há perigos. Mas há coragem.

Vamos lá?

Charlie Hébdo: heróis, vilões ou vítimas?

Toda liberdade implica responsabilidade; liberdade política implica responsabilidade moral. Liberdade de expressão requer responsabilidade no uso dos meios de expressão.

Por outro lado, o humor muitas vezes é agressivo, e por vezes ofende. Como dizia o filósofo Bergson, o riso, muitas vezes, é usado como forma de violência, de ordem moral. A pessoa ou o grupo que é objeto do riso pode se sentir agredido em sua integridade moral. Quem vê as charges do Charlie Hébdo - que não terei o mau gosto de reproduzir - percebe que elas constituem uma violência moral contra todos os muçulmanos, fundamentalistas ou não, residentes na França ou em outros países.

Infelizmente, violência gera violência. Isso não justifica - ou seja, não torna justo - o assassinato dos cartunistas. Qualquer assassinato é injustificável. Qualquer violência, física ou moral, também é lamentável. No entanto, é difícil negar a relação de causa e consequência no caso em questão. Tem gente que "perde o amigo, mas não perde a piada"; a redação de Charlie Hébdo cultivava inimizades para não perder a piada - grosseira. Também são infelizmente previsíveis as consequências do caso para o aumento da islamofobia, como o cartunista Latuff sintetizou magistralmente:



Algumas pessoas querem transformar os cartunistas de Charlie Hébdo em heróis, mártires da "liberdade de expressão"; outras querem transformá-los em vilões, racistas e imperialistas. Acho que os dois lados estão errados. Na minha modesta opinião, o periódico tinha uma linha editorial moralmente irresponsável, de mau gosto e medíocre, usando o tipo de humor mais baixo e virulento a pretexto de crítica. Para mim, o atentado dessa semana não torna esse tipo de humor menos condenável; é arte de péssimo gosto - gosto de sangue.

Note-se também que, em momento algum, o semanário foi censurado pelo Estado francês - caso em que seriam, de fato e de direito, mártires da "liberdade de expressão". Charlie Hébdo usava dessa liberdade de modo abusivo, assim como os assassinos fundamentalistas usaram seu livre-arbítrio de modo abusivo.

Heróis ou vilões? Nem uma coisa, nem outra. O atentado à redação de Charlie Hébdo foi um crime grave e fez muitas vítimas, mas, por favor, não queiram transformar esses cartunistas em mártires.

Em tempo: parece que andam se esquecendo dos 2 policiais e do funcionário de manutenção mortos no tiroteio; esse são apenas vítimas, ninguém se dispondo a fazê-los mártires.

Em tempo 2: mesquitas na França estão sofrendo atos de vandalismo. É o círculo vicioso da violência.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cultura da miséria

Gente tirando selfies.

Marmanjos correndo atrás de pipas e catando fiapos pela rua.

Gente tirando selfies!

Professores vivendo dentro da realidade - dos outros.

Gente tirando selfies?

Muçulmanos matando cristãos.

Cristãos matando muçulmanos.

Judeus matando muçulmanos.

Gente comprando pau-de-selfie?!

Adolescentes mais preocupados com seus bonés que com seus cérebros.

Gente tirando... selfies.

Adultos hipnotizados pelo smartphone.

Selfies tirando gente.

Cartunistas agredindo crenças alheias.

Cartunistas assassinados.

Terroristas assassinados.

Gente tirando. Selfies.

Mediocridade ousada.

Ousadia medíocre.

Gente (?!) tirando selfies.

Animais políticos.

Políticos animais.

Animais.

Selfies tirando selfies.

Idotas dirigindo universidades.

Universidades dirigindo idiotas.

Gente tirando selfies...!

Miséria da cultura.

Cultura da miséria.





































Tirinha do amigo Artur Mendes

Futebol, canibais, terroristas e nuvens

Dedicado a meu sogro e minha esposa

Por que algumas pessoas matam por futebol? Porque têm fortes laços de identidade com seus respectivos clubes, passaram e passam por um radical processo de identificação (no sentido psicológico do termo). No entanto, outros torcedores – a maioria, felizmente – não seriam capazes de fazer a mesma coisa, pois não se identificam com seus respectivos clubes de modo tão extremo. Alguns torcedores, eventualmente, perdem até seus interesse pelo esporte ao longo do tempo, num processo de tendencial desidentificação – mais uma vez, no sentido psicológico.

Em cada um desses casos, temos perspectivas específicas e diferenciadas em jogo. Algumas dessas perspectivas são mais próximas ou mais distantes entre si. Mas como se forjam tais perspectivas? A partir de trajetórias específicas, tanto pessoais quanto coletivas, formuladas no tempo e no espaço – históricas, portanto. Essas trajetórias podem apontar em sentido convergente (identificação crescente) ou divergente (desidentificação crescente). Assim, a experiência de torcer (e matar) se configura a partir da trajetória pessoal e individual de cada torcedor quanto de uma trajetória coletiva e social – a história do esporte, a história do clube, a história da região, do país, do mundo, etc. Existe hoje uma Copa do Mundo e campeonatos nacionais porque a partir do século XIX tivemos tanto a emergência do esporte e do Estado-nação como os conhecemos. Assim, o torcedor assassino chega a tal perspectiva homicida através de uma trajetória que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Temos então identidade e perspectiva como processo desenvolvido no tempo e no espaço.

Nesse processo se forjam conexões mais ou menos fortes, convergentes ou divergentes, no âmbito de cada grupo. Essas identidades e alteridades se formulam em redes, de modo complementar, interdependente e dinâmico, por retroalimentação. Como uma dança complexa, onde os participantes se movimentam, determinando suas perspectivas a partir de suas posições e distâncias respectivas, sua dêixis, em perpétua mutação, às vezes imperceptível. As trajetórias se cruzam e interferem umas nas outras, momento a momento. Os ritmos da dança se alternam sem cessar. Alguns dançarinos saem, e entram outros, continuando a dança como a encontraram. Temos aí uma dimensão mereológica, fractal, onde cada dançarino é parte da dança e interfere na dança inteira. Um simples tropeço repercutirá de modo mais ou menos intenso em todo o conjunto. Como diria Sonmi-451, do filme Cloud Atlas,

“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.

Tais dinâmicas se aplicam à torcida de futebol, mas também às religiões, aos gêneros, às nações – em suma, a quaisquer identidades. Mas como se elabora no tempo uma linguagem do “nós”? Como se forma um “nós” vascaínos? Como surge um “nós” tupinambá? Como se elabora um “eles” flamenguistas ou margaiá? Por que algumas pessoas soltam pipa e outras, nascidas no mesmo bairro, fazem pós-doutorado?

No fundo, cada identidade se formula em “nuvens de probabilidades”, emergindo de situações específicas, reconfiguradas a cada compasso na melodia do tempo. Possibilidades e probabilidades se entrecruzam o tempo inteiro, gerando novas realidades potenciais, mudando trajetórias a cada interação. Esse texto mesmo emerge de vários encontros. Ele não existiria se os tupinambá não comessem carne humana, se Hans Staden não tivesse escapado da morte, se eu não fosse casado com minha esposa, se ela não fosse filha de meu sogro, se meu sogro não fosse vascaíno, se não tivessem inventado e popularizado o futebol, se não existisse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, se eu não tivesse preguiça de ir a Niterói, se eu nunca tivesse morado em Paris, se David Mitchell não tivesse escrito Cloud Atlas, se esse livro não fosse adaptado para as telas, se eu não tivesse sido covardemente reprovado em um concurso, se eu não desejasse praticar yoga, se não houvessem brigas de torcida nem atentados em Paris, se eu não sofresse de TOC. Mas esse texto emergiu dessa improvável “nuvem de probabilidades”.

Seriam todos os fatos e atos humanos o produto de uma imensa e improvável “nuvem de probabilidades” em “eterna recorrência” e mutação no tempo e no espaço, uma grandiosa e mal-coordenada coreografia de moléculas, átomos e partículas, talvez conduzidas por um regente invisível? Seria possível reunir História, Antropologia, Física, Meteorologia e Filosofia para resolver todas essas questões, para desenhar um atlas dessas nuvens?