quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O sabor do saquê

"A primavera tem as cerejeiras da noite.

O verão tem as estrelas do céu que iluminam os olhos.

O outono tem a lua cheia refletida na água.

O inverno tem a neve que flui na relva.

Bastam essas coisas simples para que o saquê seja delicioso.

Se, mesmo assim, o gosto do saquê não for bom...

Então quer dizer que há alguma coisa de errado dentro de você".

Hiko Seijurou [Watsuki Nobuhiro]


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Cultura, cérebro, percepções

Trecho de A outra face da Lua - Escritos sobre o Japão, de Claude Lévi-Strauss

O japonês talvez não seja uma língua de tons, ou talvez o seja mal e mal; mas eu diria de bom grado que a civilização japonesa me apareceu como uma civilização de tons, em que cada coisa se refere simultaneamente a vários registros, e me pergunto se essa ressonância, essa faculdade evocadora das coisas não é um dos aspectos que a enigmática expressão mono no aware conota. O despojamento vai junto com a riqueza, as coisas significam mais. Relatos me ensinaram que um neurologista japonês, o dr. Tsunoda Tadanobu, demonstrou num livro recente que seus compatriotas, à diferença de todos os outros povos, asiáticos inclusive, tratam os gritos dos insetos no hemisfério esquerdo do cérebro, não no hemisfério direito; o que leva a pensar que, para eles, os gritos dos insetos, mais que ruídos, são da ordem da linguagem articulada. E, de fato, imagina-se que o herói de um romance ocidental faça, como Genji, transportar de charnecas distantes para seu jardim insetos a fim de se alegrar com seu canto?


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Vida, liberdade, ossos

Somos o que a vida faz de nós. A liberdade vem depois - se vem, quando vem, onde vem, quanto vem, como vem.

Apenas a morte nos liberta da vida. Mas as marcas da vida continuam lá, para quem sabe lê-las.

As marcas de esforço muscular nos ossos do braço direito deste cavalheiro sugerem que ele foi um arqueiro. Os atrofiados dentes desta senhora sugerem que ela viveu numa sociedade industrial. A porosidade incomum nos ossos dessa moça contam a história de uma enfermidade, enquanto esse senhor de crânio espatifado nos lembra algum episódio de violência.

Nossa história e nossa cultura nos dominam durante toda a vida e depois dela. Estão marcadas em cada neurônio, em cada osso, em cada brônquio tingido de ar poluído, em cada fibra cardíaca atormentada pelo estresse. Cada sociedade, como cada corpo, tem sua constituição - e toda constituição conta uma história.

Quem conta um conto aumenta um ponto; quem vive uma vida aumenta a Vida.

Somos o que a vida faz de nós, mas também o que fazemos da vida.

...mas o que fazemos da vida?

Hamlet e Horácio no cemitério (1859) de Eugène Delacroix; Museu do Louvre