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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ticiano, Rubens e araras

Há duas semanas estive em Madri, e - obviamente - no Museu do Prado, que fica além de qualquer descrição. A bem dizer, gostei mais do Prado que do Louvre...

Entre inúmeros tesouros, achei interessantíssimo comparar duas telas reproduzindo Adão e Eva, pintadas pelo italiano Ticiano e pelo flamengo Rubens, datadas respectivamente do século XVI e XVII. A obra de Rubens é reprodução do original de Ticiano, abaixo.

Como se pode ver, a reprodução pintada posteriormente por Rubens não foi objeto de grandes transformações, excetuando-se pequenas alterações formais, mas apenas uma em relação ao conteúdo: a inclusão de uma arara na cena, sobre a árvore à esquerda...

A bem dizer, a "participação especial" da arara não deve ser considerada uma novidade; desde o século XVI Dürer já havia utilizado animais tropicais em cenas da história sacra. No entanto, o que me pareceu muito curioso nessa reprodução elaborada por Rubens foi justamente o fato de ser uma reprodução que - à exceção da arara - permaneceu intocada em seus detalhes, ou seja, de alguma forma, o pintor sentiu certa necessidade de incluir esse novo elemento na cena.

Obviamente não é fácil imaginar o que se passava na imaginação de Rubens, sua motivação íntima para a deliberada inclusão da ave americana na cena originalmente representada por Ticiano. Em todo caso, a "arara de Rubens" parece um ótimo exemplo do quanto o Novo Mundo se torna essencial à Europa ao longo da Idade Moderna, se infiltrando vigorosamente no imaginário do Velho Mundo.

Por sinal, como muitos de seus contemporâneos, Rubens parece ter ficado fascinado pela natureza da América, como o demonstra a série de quadros Os cinco sentidos, executada em parceria com Jan Brueghel. As cinco alegorias também se encontram hoje no Prado. É interessante observar que, em cada um desses quadros figuram animais do Novo Mundo, especialmente aves tropicais e um mico.

Cotejar os dois quadros é muito instigante porque, de certa forma, os dois se mostram indícios de um longo processo de construção e estabelecimento da sociedade ocidental dos dois lados do Atlântico, processo durante o qual a Europa foi central durante boa parte do tempo, mas que, desde o século passado, tem se tornado cada vez mais periférica em relação a uma América cujo papel mundial cresce incessantemente...

Um comentário:

Memória e História de Queimados disse...

Interessante análise! Espero em breve visitar o Prado tb! :D