Acabei de ler hoje um livro muito interessante, Uma breve história da Europa, de Jacques Le Goff. Trata-se de pequena obra, voltada para o público leigo, especialmente adolescentes; digamos que seja um "Le Goff menor".
Ainda assim, encontrei no livro em apreço alguns trechos muito interessantes sobre a função social do historiador, ainda mais valiosos justamente pelo nítido caráter formativo da reflexão desenvolvida. Cito textualmente os que mais chamaram minha atenção. É importante ter em mente o caráter especificamente europeu da obra em questão. Obviamente as preocupações do historiador brasileiro e as necessidades de nossa realidade social apontam em sentidos diferentes. Ainda assim os trechos parecem muito sugestivos.
"O conhecimento da história é muito importante para os europeus e para a construção da Europa. É preciso conhecer o passado para saber como preparar o futuro, desenvolver as boas tradições da Europa, evitar que os erros e crimes recomecem. Também é preciso evitar que se manipule a história forjando mitos nacionalistas. A História não deve ser um fardo a ser carregado ou uma má conselheira que legitima a violência. Com o tempo ela deve trazer a verdade, servir ao progresso".
"É preciso atualmente livrar as ideologias de seu caráter irracional e agressivo. É preciso transformá-las em ideais, ou seja, em bons modelos a serem alcançados ou a serem tomados como objetivos. É preciso substituir a agressividade dos conflitos de ideologias por debates de ideias pacíficas, honestas e tolerantes. A Europa deve ser um grande campo de diálogos pacíficos".
Por fim, o trecho a seguir me pareceu extremamente comovente pela sinceridade e pela sensibilidade, fechando com chave de ouro esse belíssimo livro:
"Creio que a realização de uma bela e boa Europa é o grande projeto oferecido à sua geração. Necessitamos, principalmente quando se é jovem, de um grande objetivo que seja um ideal e uma paixão. Apaixonem-se pela construção europeia, ela merece. Se ajudarem a realizá-la, ela lhes retribuirá, ainda que devam enfrentar algumas dificuldades. Nada de importante se obtém sem esforço. E não se esqueçam, por favor, que nada de bom se faz sem memória e que a história é feita para oferece uma memória justa que, pelo passado, iluminará o presente e o futuro de vocês".
terça-feira, 27 de março de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
Ser um guerreiro na Idade Média - jogando... "Aragorn`s Quest"
Depois de muito tempo adormecida, eis que a oficina volta ao trabalho! Andei afastado por cometer a maior loucura de minha vida: eu e minha esposa nos atiramos à tarefa insana de escrever um livro de 250 páginas em pouco mais de um mês... Mais detalhes em breve. Depois desse tour de force me dei umas "férias", e estou de volta.
Para o relax, me dei de presente Aragorn`s Quest para Wii. Jogo fantástico, por vários motivos, e subestimado em todas as críticas que li. Por trás de um gráfico cartunesco, um jogo interessantíssimo, com uma narrativa sofisticada e uma jogabilidade altamente intuitiva e estimulante. Por sinal, o gráfico "pobre" libera todo o potencial de processamento para que a plataforma posso botar em cena literalmente algumas centenas de guerreiros altamente diferenciados de cada lado da batalha sem lapsos excessivos de carregamento e de modo altamente funcional.
Mas, vamos à História. O jogo é baseado na trilogia Senhor dos Anéis, sem depender exclusivamente da identidade visual dos filmes de Jackson, o que por si só já significa muito. É possível perceber a apropriação criativa dos originais de Tolkien, mas também das clássicas ilustrações de Alan Lee e de David Wenzel. No entanto, o mais interessante é a possibilidade de imersão numa batalha medieval como nunca vi em qualquer outro jogo.
Ok, uma batalha "medieval", afinal de contas, se trata de um universo ficcional. Ainda assim, o jogo se mostra surpreendentemente fiel aos ritmos, táticas, comportamentos esperados em uma batalha desse período, ao contrário da pseudo-estratégia antiga costumeira nesse gênero de jogos. Arqueiros, cavaleiros, infantes, se comportam de maneira bastante fiel, especialmente considerando-se a diversidade de terrenos e combates: há pântanos, planícies, colinas e fortalezas. Desenrolam-se escaramuças, batalhas campais e sítios, no ataque ou na defesa. Enfim, o jogo proporciona grande diversidade de experiências estratégicas, com objetivos coerentes e pertinentes a cada situação.
As armas são dignas de comentário à parte. Em lugar da diversidade quase absurda, uma seleção sóbria: espada, escudo, lança, arco. O jogo oferece um belíssimo sistema de luta com espada, baseado em movimentos de corte e estoque. A lança pode ser manuseada com bastante naturalidade, a pé ou a cavalo. O arco tem um sistema de mira quase simplório, compensado pela sobriedade dos contextos em que seu uso é exigido.
Last, but not least, o jogo apresenta um sistema de liderança muito instigante: o jogador não é convidado a dar ordens a seus soldados, mas a guiá-los pelo campo de batalha através do exemplo, avançando sobre as fileiras inimigas e empregando dois recursos, o grito de guerra ou o toque de trombeta. Através dessas manobras é possível incentivar os soldados ao assalto ou reuni-los numa posição estratégica para a defesa. Não era muito diferente nas batalhas medievais, a exemplo do que vemos na Chanson de Roland, no Nibelungenlied e outros textos da época. Com efeito, o jogo me fez compreender melhor, "na prática", o que seria a liderança carismática de que fala Weber.
Paradoxalmente, Aragorn`s Quest é um jogo de fantasia que pode conduzir a uma esclarecedora experiência do que seria estar na pele (ou sob a malha) de um guerreiro medieval.
Para o relax, me dei de presente Aragorn`s Quest para Wii. Jogo fantástico, por vários motivos, e subestimado em todas as críticas que li. Por trás de um gráfico cartunesco, um jogo interessantíssimo, com uma narrativa sofisticada e uma jogabilidade altamente intuitiva e estimulante. Por sinal, o gráfico "pobre" libera todo o potencial de processamento para que a plataforma posso botar em cena literalmente algumas centenas de guerreiros altamente diferenciados de cada lado da batalha sem lapsos excessivos de carregamento e de modo altamente funcional.
Mas, vamos à História. O jogo é baseado na trilogia Senhor dos Anéis, sem depender exclusivamente da identidade visual dos filmes de Jackson, o que por si só já significa muito. É possível perceber a apropriação criativa dos originais de Tolkien, mas também das clássicas ilustrações de Alan Lee e de David Wenzel. No entanto, o mais interessante é a possibilidade de imersão numa batalha medieval como nunca vi em qualquer outro jogo.
Ok, uma batalha "medieval", afinal de contas, se trata de um universo ficcional. Ainda assim, o jogo se mostra surpreendentemente fiel aos ritmos, táticas, comportamentos esperados em uma batalha desse período, ao contrário da pseudo-estratégia antiga costumeira nesse gênero de jogos. Arqueiros, cavaleiros, infantes, se comportam de maneira bastante fiel, especialmente considerando-se a diversidade de terrenos e combates: há pântanos, planícies, colinas e fortalezas. Desenrolam-se escaramuças, batalhas campais e sítios, no ataque ou na defesa. Enfim, o jogo proporciona grande diversidade de experiências estratégicas, com objetivos coerentes e pertinentes a cada situação.
As armas são dignas de comentário à parte. Em lugar da diversidade quase absurda, uma seleção sóbria: espada, escudo, lança, arco. O jogo oferece um belíssimo sistema de luta com espada, baseado em movimentos de corte e estoque. A lança pode ser manuseada com bastante naturalidade, a pé ou a cavalo. O arco tem um sistema de mira quase simplório, compensado pela sobriedade dos contextos em que seu uso é exigido.
Last, but not least, o jogo apresenta um sistema de liderança muito instigante: o jogador não é convidado a dar ordens a seus soldados, mas a guiá-los pelo campo de batalha através do exemplo, avançando sobre as fileiras inimigas e empregando dois recursos, o grito de guerra ou o toque de trombeta. Através dessas manobras é possível incentivar os soldados ao assalto ou reuni-los numa posição estratégica para a defesa. Não era muito diferente nas batalhas medievais, a exemplo do que vemos na Chanson de Roland, no Nibelungenlied e outros textos da época. Com efeito, o jogo me fez compreender melhor, "na prática", o que seria a liderança carismática de que fala Weber.
Paradoxalmente, Aragorn`s Quest é um jogo de fantasia que pode conduzir a uma esclarecedora experiência do que seria estar na pele (ou sob a malha) de um guerreiro medieval.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
"Quem se contenta" - um apólogo de Ítalo Calvino
Pequeno texto de Calvino que parece descrever muito bem as funções sociais da bilharda no Brasil... digo, do Carnaval! Que lapso!
Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias.
E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para a avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.
Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
- Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.
Eles continuaram a jogar bilharda.
-Entenderam? - os mensageiros insistiram. - Vocês estão livres para fazer o que quiserem.
-Muito bem - responderam os súditos. - Nós jogamos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar fôlego.
Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.
-Nem uma, nem duas - disseram os condestáveis. - Proibamos o jogo de bilharda.
Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.
Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.
(Ítalo Calvino, Um general na biblioteca. Companhia das Letras, 2010)
Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias.
E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para a avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.
Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
- Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.
Eles continuaram a jogar bilharda.
-Entenderam? - os mensageiros insistiram. - Vocês estão livres para fazer o que quiserem.
-Muito bem - responderam os súditos. - Nós jogamos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar fôlego.
Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.
-Nem uma, nem duas - disseram os condestáveis. - Proibamos o jogo de bilharda.
Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.
Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.
(Ítalo Calvino, Um general na biblioteca. Companhia das Letras, 2010)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Das possibilidades em História
Ando meio atarefado para postar aqui... Só terei tempo para o blog de novo lá para março. No entanto, essa semana li um trecho muito interessante de O negócio do Brasil, de Evaldo Cabral de Mello. Achei muito interessante o modo como o autor discute uma questão tão polêmica sem recorrer aos clichês de sempre...
"Escusado aduzir que o assunto aqui versado [as negociações diplomáticas em torno do Brasil holandês], como em geral os de história política e diplomática presta-se idealmente às análises contrafatuais, visando às possibilidades alternativas dos processes históricos, ou seja, 'aquilo que poderia ter sido e que não foi', como no verso de Manuel Bandeira. A moda está sendo tão cultivada, especialmente entre os anglo-saxões, que já caberia talvez falar num novo gênero historiográfico, a 'história virtual'. Na realidade, a novidade não é tão grande assim, na medida em que a contrafatualidade é inerente a todo raciocínio historiográfico, como há muito percebeu Max Weber, embora frequentemente não seja explicitada. Na fórmula de Raymon Aron: 'Todo historiador, para explicar o que foi, se pergunta o que poderia ter sido'. A atribuição de relevância a determinados fatos é feita mediante uma operação comparativa pela qual o historiador se pergunta o que teria ocorrido na inexistência deles. Donde o apelo de Huizinga no sentido de que ele procurasse inclusive colocar-se num ponto do passado no qual os fatores conhecidos parecem permitir diferentes caminhos. Se tratar de Salamina, deve fazê-lo como se os persas ainda pudessem ganhar a batalha; se se ocupar do golpe de Estado de Brumário, como se Bonaparte ainda pudesse ser ignominiosamente repelido'. Essa capacidade da historiografia de entrever alternativas mesmo quando elas já se fecharam de todo constitui uma das razões da originalidade da sua démarche científica".
"Escusado aduzir que o assunto aqui versado [as negociações diplomáticas em torno do Brasil holandês], como em geral os de história política e diplomática presta-se idealmente às análises contrafatuais, visando às possibilidades alternativas dos processes históricos, ou seja, 'aquilo que poderia ter sido e que não foi', como no verso de Manuel Bandeira. A moda está sendo tão cultivada, especialmente entre os anglo-saxões, que já caberia talvez falar num novo gênero historiográfico, a 'história virtual'. Na realidade, a novidade não é tão grande assim, na medida em que a contrafatualidade é inerente a todo raciocínio historiográfico, como há muito percebeu Max Weber, embora frequentemente não seja explicitada. Na fórmula de Raymon Aron: 'Todo historiador, para explicar o que foi, se pergunta o que poderia ter sido'. A atribuição de relevância a determinados fatos é feita mediante uma operação comparativa pela qual o historiador se pergunta o que teria ocorrido na inexistência deles. Donde o apelo de Huizinga no sentido de que ele procurasse inclusive colocar-se num ponto do passado no qual os fatores conhecidos parecem permitir diferentes caminhos. Se tratar de Salamina, deve fazê-lo como se os persas ainda pudessem ganhar a batalha; se se ocupar do golpe de Estado de Brumário, como se Bonaparte ainda pudesse ser ignominiosamente repelido'. Essa capacidade da historiografia de entrever alternativas mesmo quando elas já se fecharam de todo constitui uma das razões da originalidade da sua démarche científica".
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Capitalismo sertanejo
Esse post está na fila há algumas semanas. Achei muito interessante essa passagem de Tristes trópicos, onde Lévi-Strauss descreve as práticas extorsivas em uma fazenda em que esteve hospedado no Mato Grosso. Como se sabe, esses mecanismos cruéis de compra, venda, crédito e remuneração eram comuns nas fazendas do interior do Brasil. No entanto, a maneira como o autor relata faz toda a diferença. Na periferia do Capitalismo, resplandece a realidade dessa economia injusta de forma tragicômica, com um exagero caricatural digno de desenhos animados...
"Em um vasto bangalô à inglesa, nossos anfitriões levavam uma vida austera, meio criadores de gado, meio donos de mercearia. Com efeito, a venda da fazenda representava o único centro de abastecimento em cerca de cem quilômetros ao redor. Os empregados, trabalhadores ou peõesm vinham aí gastar com uma mão o que tinham ganho com a outra; um jogo de escrita permitia transformar seu crédito em dívida e, desse ponto de vista, toda a empresa funcionava quase sem dinheiro. Como os preços das mercadorias eram, conforme o costume, fixados no dobro ou triplo do curso normal, o negócio poderia ser rentável se esse aspecto comercial não permanecesse secundário. Havia algo de constrangedor em ver aos sábados os trabalhadores trazer uma pequena colheita de cana-de-açúcar, espremê-la logo no engenho da fazenda - máquina feita de troncos grosseiramente aplainados onde os ramos de cana são esmagados pela rotação de três cilindros de madeira - depois, em grandes bacias de chapas, fazer evaporar o sumo ao vento antes de vertê-lo nos moldes onde ele toma forma de blocos grosseiros com consistência granulosa: a rapadura; eles guardavam então o produto no galpão adjacente onde, transformados em compradores, eles viriam na mesma noite adquiri-lo a preços extorsivos para oferecer aos filhos essa única guloseima do sertão".
Não estamos nós também condenados a "gastar com uma mão o que ganhamos com a outra", esmagados entre as engrenagens desse sistema diabólico, verdadeiro "moinho satânico", como diria Karl Polanyi? Condenados a comprar para sobreviver, ao sabor das especulações iníquas da indústria, do comércio e das finanças? Condenados a sustentar e enriquecer os tais "1%", que levam vidas nada austeras, ao contrário desses tristes fazendeiros do sertão?
"Em um vasto bangalô à inglesa, nossos anfitriões levavam uma vida austera, meio criadores de gado, meio donos de mercearia. Com efeito, a venda da fazenda representava o único centro de abastecimento em cerca de cem quilômetros ao redor. Os empregados, trabalhadores ou peõesm vinham aí gastar com uma mão o que tinham ganho com a outra; um jogo de escrita permitia transformar seu crédito em dívida e, desse ponto de vista, toda a empresa funcionava quase sem dinheiro. Como os preços das mercadorias eram, conforme o costume, fixados no dobro ou triplo do curso normal, o negócio poderia ser rentável se esse aspecto comercial não permanecesse secundário. Havia algo de constrangedor em ver aos sábados os trabalhadores trazer uma pequena colheita de cana-de-açúcar, espremê-la logo no engenho da fazenda - máquina feita de troncos grosseiramente aplainados onde os ramos de cana são esmagados pela rotação de três cilindros de madeira - depois, em grandes bacias de chapas, fazer evaporar o sumo ao vento antes de vertê-lo nos moldes onde ele toma forma de blocos grosseiros com consistência granulosa: a rapadura; eles guardavam então o produto no galpão adjacente onde, transformados em compradores, eles viriam na mesma noite adquiri-lo a preços extorsivos para oferecer aos filhos essa única guloseima do sertão".
Não estamos nós também condenados a "gastar com uma mão o que ganhamos com a outra", esmagados entre as engrenagens desse sistema diabólico, verdadeiro "moinho satânico", como diria Karl Polanyi? Condenados a comprar para sobreviver, ao sabor das especulações iníquas da indústria, do comércio e das finanças? Condenados a sustentar e enriquecer os tais "1%", que levam vidas nada austeras, ao contrário desses tristes fazendeiros do sertão?
sábado, 21 de janeiro de 2012
Em cartaz... "As aventuras de Tintin"
Nesta quinta-feira fui assistir ao filme de Tintin. Fiquei muito contente de ver o cinema lotado numa quinta-feira, numa pré-estreia de Tintin, no Rio de Janeiro, onde não temos uma forte "cultura tintinesca". Espero que o filme seja um sucesso e impulsione a divulgação da obra de Hergé no Brasil.
Recomendo fortemente o filme, e não faltam motivos. A animação é fantástica, conseguindo um difícil compromisso entre o estilo ligne claire de Hergé e uma abordagem mais compatível com uma animação em CG. O resultado são belíssimas imagens, com texturas e iluminação inigualáveis. Um dos trabalhos mais lindos que já vi em animação digital. A abertura também é um show à parte. Ao mesmo tempo, a reconstituição histórica de um período pouco definido entre os anos 30 e 50 não deixa a desejar, sendo por si só uma viagem no tempo.
Por outro lado, o roteiro é impecável, conseguindo alinhavar com sucesso as tramas de diversos álbuns diferentes num todo coeso. Embora não seja fiel especificamente a nenhuma história, consegue algo muito mais importante, ser fiel ao espírito da HQ. Ao mesmo tempo, inúmeras referências a outros álbuns e ao próprio Hergé deslizam de modo sutil pelo filme.
Por fim, trilha sonora de John Williams, fantástica como sempre. A composição foi muito feliz, capturando o clima das trilhas dos seriados de aventura das matinês da época. Algumas linhas parecem ter saído da pena de Maurice Jarre.
Pretendo assistir mais vezes!
Recomendo fortemente o filme, e não faltam motivos. A animação é fantástica, conseguindo um difícil compromisso entre o estilo ligne claire de Hergé e uma abordagem mais compatível com uma animação em CG. O resultado são belíssimas imagens, com texturas e iluminação inigualáveis. Um dos trabalhos mais lindos que já vi em animação digital. A abertura também é um show à parte. Ao mesmo tempo, a reconstituição histórica de um período pouco definido entre os anos 30 e 50 não deixa a desejar, sendo por si só uma viagem no tempo.
Por outro lado, o roteiro é impecável, conseguindo alinhavar com sucesso as tramas de diversos álbuns diferentes num todo coeso. Embora não seja fiel especificamente a nenhuma história, consegue algo muito mais importante, ser fiel ao espírito da HQ. Ao mesmo tempo, inúmeras referências a outros álbuns e ao próprio Hergé deslizam de modo sutil pelo filme.
Por fim, trilha sonora de John Williams, fantástica como sempre. A composição foi muito feliz, capturando o clima das trilhas dos seriados de aventura das matinês da época. Algumas linhas parecem ter saído da pena de Maurice Jarre.
Pretendo assistir mais vezes!
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Reflexões sobre a antropofagia
Neste domingo assisti no Esporte Espetacular uma reportagem sobre o trágico acidente áereo nos Andes que ficou marcado pelo seu episódio de antropofagia. A princípio imaginei que seria mais uma reportagem com o "padrão Globo" de pieguice e sensacionalismo de sempre, mas fui positivamente surpreendido - embora também tenha tido seus momentos de pieguice e sensacionalismo, caso contrário não seria realmente a Globo... Um dos pontos fortes da matéria foi o depoimento de um dos sobreviventes, Gustavo Zerbino. Enquanto assistia a reportagem, me ocorreram inúmeras correlações entre o triste episódio, a antropofagia ritual tupinambá e a antropofagia em geral.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a extrema ritualização do evento por parte de seus sobreviventes, como a construção de rústicos monumentos no local, bem como a realização de "peregrinações" ao lugar. Achei particularmente interessante o caso de Zerbino, que contou ter recolhido um objeto pessoal de cada um dos mortos para entregar posteriormente a seus familiares. Ele mesmo levou seus filhos a visitar o local, lá realizando um jogo de rugby em homenagem aos falecidos, (o avião transportava justamente a seleção juvenil uruguaia para um torneio no Chile). Essas particularidades me pareceram muito interessantes justamente porque em todas as sociedades onde a antropofagia é praticada há também forte carga de ritualidade, não sendo simplesmente uma prática "culinária".
Achei ainda mais interessantes as afirmações de Zerbino a respeito dos acontecimentos e a maneira com que eles atribuíram significados a sua tragédia pessoal. Segundo ele, os mortos teriam feito uma "doação" aos vivos, permitindo-lhes a sobrevivência. Mais ainda, interpreta o episódio como uma história de "amor e solidariedade". Por sinal, ele deixava muito clara sua gratidão aos companheiros que haviam perecido e lhes permitido sobreviver. De certo modo, isso tudo me lembrou bastante as práticas de endocanibalismo, ou seja, o consumo ritual dos corpos de parentes, familiares, amigos (em oposição ao exocanibalismo, onde são consumidos os inimigos, como acontecia entre os tupinambá). Em geral as culturas endoantropofágicas apresentam uma interpretação muito semelhante, como uma forma de reforçar os vínculos entre os que foram e os que ficam; o morto consumido passa a ser parte integrante do vivo, nele sobrevivendo. A relação estabelecida por Zerbino entre sua antropofagia forçada e a possibilidade da existência de seus filhos me parece muito significativa nesse sentido; de certa forma, fica implícito que, de alguma forma, os falecidos ainda vivem em seus filhos.
Por outro lado, também me chamou a atenção a constante "cristianização" do episódio. Zerbino relata que durante todos aqueles dias se mantinham constantemente em oração, rezando o terço, inclusive para se manterem acordados. Foram erigidas cruzes no local do acidente. Enfim, segundo li na Wikipédia, alguns deles teriam, ainda durante sua provação comparado a situação à eucaristia católica (mais uma vez, um ritual). A própria ideia do sacrifício que comunica a vida a outrem, garantindo sua salvação, como expressa por Zerbino, remete ainda ao imaginário cristão.
Em suma, o que me pareceu instigante foi todo o esforço dos sobreviventes em atribuir significados a sua experiência, particularmente significados metafísicos, religiosos. Achei admiráveis as convergências entre essa antropofagia forçada e "acidental" e as práticas antropofágicas altamente regradas e ritualizadas das culturas que as vivenciaram com regularidade. Parece que o canibalismo é uma experiência humana tão extrema que, onde quer que ocorra, mobiliza profundamente os recursos simbólicos e espirituais à disposição daqueles que o experimentam.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a extrema ritualização do evento por parte de seus sobreviventes, como a construção de rústicos monumentos no local, bem como a realização de "peregrinações" ao lugar. Achei particularmente interessante o caso de Zerbino, que contou ter recolhido um objeto pessoal de cada um dos mortos para entregar posteriormente a seus familiares. Ele mesmo levou seus filhos a visitar o local, lá realizando um jogo de rugby em homenagem aos falecidos, (o avião transportava justamente a seleção juvenil uruguaia para um torneio no Chile). Essas particularidades me pareceram muito interessantes justamente porque em todas as sociedades onde a antropofagia é praticada há também forte carga de ritualidade, não sendo simplesmente uma prática "culinária".
Achei ainda mais interessantes as afirmações de Zerbino a respeito dos acontecimentos e a maneira com que eles atribuíram significados a sua tragédia pessoal. Segundo ele, os mortos teriam feito uma "doação" aos vivos, permitindo-lhes a sobrevivência. Mais ainda, interpreta o episódio como uma história de "amor e solidariedade". Por sinal, ele deixava muito clara sua gratidão aos companheiros que haviam perecido e lhes permitido sobreviver. De certo modo, isso tudo me lembrou bastante as práticas de endocanibalismo, ou seja, o consumo ritual dos corpos de parentes, familiares, amigos (em oposição ao exocanibalismo, onde são consumidos os inimigos, como acontecia entre os tupinambá). Em geral as culturas endoantropofágicas apresentam uma interpretação muito semelhante, como uma forma de reforçar os vínculos entre os que foram e os que ficam; o morto consumido passa a ser parte integrante do vivo, nele sobrevivendo. A relação estabelecida por Zerbino entre sua antropofagia forçada e a possibilidade da existência de seus filhos me parece muito significativa nesse sentido; de certa forma, fica implícito que, de alguma forma, os falecidos ainda vivem em seus filhos.
Por outro lado, também me chamou a atenção a constante "cristianização" do episódio. Zerbino relata que durante todos aqueles dias se mantinham constantemente em oração, rezando o terço, inclusive para se manterem acordados. Foram erigidas cruzes no local do acidente. Enfim, segundo li na Wikipédia, alguns deles teriam, ainda durante sua provação comparado a situação à eucaristia católica (mais uma vez, um ritual). A própria ideia do sacrifício que comunica a vida a outrem, garantindo sua salvação, como expressa por Zerbino, remete ainda ao imaginário cristão.
Em suma, o que me pareceu instigante foi todo o esforço dos sobreviventes em atribuir significados a sua experiência, particularmente significados metafísicos, religiosos. Achei admiráveis as convergências entre essa antropofagia forçada e "acidental" e as práticas antropofágicas altamente regradas e ritualizadas das culturas que as vivenciaram com regularidade. Parece que o canibalismo é uma experiência humana tão extrema que, onde quer que ocorra, mobiliza profundamente os recursos simbólicos e espirituais à disposição daqueles que o experimentam.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Entrevista - Embaixador Vasco Mariz
Depois de muito prometer, finalmente nossa primeira entrevista para a Oficina de Clio, com um convidado muito especial, o embaixador Vasco Mariz. Hoje aposentado, o embaixador representou o Brasil em diversos países e organismos supranacionais. Paralelamente à diplomacia, desenvolveu rica atividade como historiador e musicólogo, granjeando reconhecimento em nosso país e no exterior, tendo várias obras traduzidas. Completando 91 anos, permanece ativo: em março de 2012 lançará o livro Depois da glória, enquanto organiza um seminário comemorativo da unificação italiana no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O embaixador nos concedeu gentilmente esta entrevista.
No Brasil temos uma longa e interessante tradição de diplomatas que se dedicaram paralelamente ao trabalho de historiador, oferecendo valiosas contribuições à nossa historiografia. É o seu caso, e também o de Oliveira Lima, Evaldo Cabral de Mello, Alberto da Costa Silva, entre tantos outros. Em sua opinião, existe tendência à renovação dessa tradição? Podemos esperar novos historiadores entre as próximas gerações do Itamaraty?
A vida diplomática tem momentos de intensa atividade em que o funcionário trabalha 24 horas por dia durante alguns dias tensos. Mas também tem períodos de calmaria, onde é possível, sem prejuízo do cumprimento de seus deveres, dedicar-se a algum hobby, como por exemplo fazer pesquisas e atuar como historiador. Foi o que fiz em minha carreira diplomática de mais de 42 anos. No momento conheço um jovem diplomata, que já publicou diversos livros de considerável interesse e agora está encarregado de organizar a exposição Rio Branco para comemorar o centenário de seu falecimento. Ele promete muito – Luis Cláudio Villafañe. Recomendei o seu ingresso no IHGB.
Ainda sobre diplomacia e História, de que maneira o senhor acha que a experiência como diplomata contribuiu para sua formação como historiador? Além disso, de que forma essa vivência afetou sua compreensão sobre a História?
A carreira diplomática nos obriga a estudar, pelo menos, a história dos países onde servimos e acredito que isso me levou a pesquisar personalidades de nossa história depois da minha aposentadoria. Daí saíram vários livros como o que espero lançar em março próximo, cujo titulo é “Após a glória”, isto é, o que aconteceu com algumas personalidades nacionais depois que ficaram famosas.
O senhor já é sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro há muitos anos. O que significa para o senhor ser sócio dessa instituição tão importante para a construção da historiografia brasileira?
Sou sócio do IHGB há quarenta anos exatamente, pois fui admitido em 1982. Creio que o IHGB me fez conhecido e respeitado nos meios intelectuais do país. Por isso tenho procurado retribuir. O seminário francês de 2009 e o seminário italiano, que se realizará em fins de março próximo foram organizados por mim por encomenda do presidente.
Muito se fala sobre o papel do IHGB para o conhecimento histórico no século XIX. Mas e o século XX? Para o senhor, que participou de boa parte dessa trajetória, quais foram as contribuições mais significativas do Instituto à historiografia brasileira no último século?
Eu destacaria a realização de congressos científicos importantes com participação internacional, a publicação ininterrupta da revista que se tornou a mais antiga das Américas, a promoção de pesquisas em arquivos portugueses e a publicação de inventários ou dos próprios documentos, a ampliação do acervo arquivístico, iconográfico e museológico e sua divulgação em exposições e publicações.
As últimas décadas foram marcadas por uma relação complicada entre a historiografia praticada em nossas universidades e o IHGB. Durante algum tempo a produção do Instituto foi tachada de antiquada, “positivista”, encarada com desconfiança. Mesmo a Revista do Instituto foi objeto de certo preconceito, como uma publicação ultrapassada. Contudo, nos últimos anos, particularmente na última década, temos assistido a uma nítida mudança: a universidade tem buscado nova aproximação ao Instituto; o preconceito contra a produção do Instituto vem diminuindo acentuadamente, passando mesmo por uma fase de revalorização, enquanto muitos professores universitários vêm se tornando sócios. Como o senhor interpreta esse processo, a que atribui essa mudança de atitude?
Toda entidade, cultural ou não, tem fases de maior ou menor atividade, segundo o dinamismo e o modelo de orientação de seu presidente. O IHGB, a entidade cultural mais antiga do Brasil, fundada em 1838 e cuja revista é publicada regularmente desde então, tem notável tradição, mas teve fases de menor ou maior atividade, de maior ou menor modernização. Sou membro do IHGB há exatamente 40 anos, desde 1982. Para lá fui convidado por Pedro Calmon, notável intelectual, que foi sucedido por outro respeitado historiador, Américo Jacobina Lacombe. Seu sucessor Vicente Tapajós sofreria do Peter principle, isto é, fora bom secretário-geral, mas desapontou como presidente. Desde 1995 o IHGB é dirigido por Arno Wehling, que tem sabido atrair para a entidade alguns dos melhores jovens historiadores do país e algumas personalidades intelectuais nacionais. O IHGB tem atuado com bastante eficiência e realizado seminários de apreciável oportunidade. Realizou um convênio com a editora do Senado Federal, que vem publicando anualmente três ou quatro números da revista, que hoje é considerada entre as melhores do país. Por tudo isso o atual presidente tem sido reeleito sucessivamente.
Ainda sobre a reaproximação entre o IHGB e a historiografia universitária, o que o senhor gostaria de ver concretizado nos próximos anos? Que frutos lhe parece possível que nasçam desse reencontro?
Nossos historiadores universitários, por melhores que sejam, estão um pouco engessados pelo excesso de trabalho. Desconfiam um pouco do IHGB, que consideram elitista e conservador. Por sua vez os sócios do IHGB tendem a minimizar o mérito dos historiadores profissionais, que tanto labutam contra fatigantes horários e remuneração modesta. Nós, os sócios do IHGB, temos por vezes a tendência de admitir o ingresso de algum figurão da política ou da diplomacia, que embora tenha considerável mérito pessoal e várias obras publicadas, não têm aquela vivência dos bancos universitários que me parece necessária para a formação do bom historiador. No momento, sinto que o corpo de sócios do IHGB está ficando um pouco idoso demais e tenho insistido com o atual presidente para estimular o ingresso de historiadores mais jovens. Temos intensificado parcerias com universidades como a realização conjunta de encontros científicos, cursos e seminários.
Como se sabe, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado num momento muito especial da história de nosso país, de estímulo à produção intelectual nunca antes visto; por sinal, no mesmo ano também foram fundados o Arquivo Imperial e o Colégio Pedro II, como parte desse esforço. Naquela época, esperava-se que o IHGB cumprisse o papel de fomentar a produção de conhecimento sobre o passado e o território do Brasil, com o fito de pensar projetos de nação para um país recentemente independente. Na sua opinião, que papel o Instituto pode ou deve desempenhar no Brasil do século XXI?
Creio que o IHGB está desempenhando no momento uma variada atividade de estudos de toda a ordem sobre as diversas fases de nossa historia e tem estimulado trabalhos e pesquisas sobre personagens importantes menos estudados e que merecem uma melhor avaliação. Eu mesmo, na minha idade avançada, vou publicar no primeiro trimestre do ano corrente um livro que reúne diversas pesquisas e estudos sobre personagens de nossa história pouco estudados ou controvertidos. O atual presidente tem procurado estreitar as relações com os institutos históricos estaduais visando uma cooperação constante para valorizar a história, a memória e a própria identidade regional.
No Brasil temos uma longa e interessante tradição de diplomatas que se dedicaram paralelamente ao trabalho de historiador, oferecendo valiosas contribuições à nossa historiografia. É o seu caso, e também o de Oliveira Lima, Evaldo Cabral de Mello, Alberto da Costa Silva, entre tantos outros. Em sua opinião, existe tendência à renovação dessa tradição? Podemos esperar novos historiadores entre as próximas gerações do Itamaraty?
A vida diplomática tem momentos de intensa atividade em que o funcionário trabalha 24 horas por dia durante alguns dias tensos. Mas também tem períodos de calmaria, onde é possível, sem prejuízo do cumprimento de seus deveres, dedicar-se a algum hobby, como por exemplo fazer pesquisas e atuar como historiador. Foi o que fiz em minha carreira diplomática de mais de 42 anos. No momento conheço um jovem diplomata, que já publicou diversos livros de considerável interesse e agora está encarregado de organizar a exposição Rio Branco para comemorar o centenário de seu falecimento. Ele promete muito – Luis Cláudio Villafañe. Recomendei o seu ingresso no IHGB.
Ainda sobre diplomacia e História, de que maneira o senhor acha que a experiência como diplomata contribuiu para sua formação como historiador? Além disso, de que forma essa vivência afetou sua compreensão sobre a História?
A carreira diplomática nos obriga a estudar, pelo menos, a história dos países onde servimos e acredito que isso me levou a pesquisar personalidades de nossa história depois da minha aposentadoria. Daí saíram vários livros como o que espero lançar em março próximo, cujo titulo é “Após a glória”, isto é, o que aconteceu com algumas personalidades nacionais depois que ficaram famosas.
O senhor já é sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro há muitos anos. O que significa para o senhor ser sócio dessa instituição tão importante para a construção da historiografia brasileira?
Sou sócio do IHGB há quarenta anos exatamente, pois fui admitido em 1982. Creio que o IHGB me fez conhecido e respeitado nos meios intelectuais do país. Por isso tenho procurado retribuir. O seminário francês de 2009 e o seminário italiano, que se realizará em fins de março próximo foram organizados por mim por encomenda do presidente.
Muito se fala sobre o papel do IHGB para o conhecimento histórico no século XIX. Mas e o século XX? Para o senhor, que participou de boa parte dessa trajetória, quais foram as contribuições mais significativas do Instituto à historiografia brasileira no último século?
Eu destacaria a realização de congressos científicos importantes com participação internacional, a publicação ininterrupta da revista que se tornou a mais antiga das Américas, a promoção de pesquisas em arquivos portugueses e a publicação de inventários ou dos próprios documentos, a ampliação do acervo arquivístico, iconográfico e museológico e sua divulgação em exposições e publicações.
As últimas décadas foram marcadas por uma relação complicada entre a historiografia praticada em nossas universidades e o IHGB. Durante algum tempo a produção do Instituto foi tachada de antiquada, “positivista”, encarada com desconfiança. Mesmo a Revista do Instituto foi objeto de certo preconceito, como uma publicação ultrapassada. Contudo, nos últimos anos, particularmente na última década, temos assistido a uma nítida mudança: a universidade tem buscado nova aproximação ao Instituto; o preconceito contra a produção do Instituto vem diminuindo acentuadamente, passando mesmo por uma fase de revalorização, enquanto muitos professores universitários vêm se tornando sócios. Como o senhor interpreta esse processo, a que atribui essa mudança de atitude?
Toda entidade, cultural ou não, tem fases de maior ou menor atividade, segundo o dinamismo e o modelo de orientação de seu presidente. O IHGB, a entidade cultural mais antiga do Brasil, fundada em 1838 e cuja revista é publicada regularmente desde então, tem notável tradição, mas teve fases de menor ou maior atividade, de maior ou menor modernização. Sou membro do IHGB há exatamente 40 anos, desde 1982. Para lá fui convidado por Pedro Calmon, notável intelectual, que foi sucedido por outro respeitado historiador, Américo Jacobina Lacombe. Seu sucessor Vicente Tapajós sofreria do Peter principle, isto é, fora bom secretário-geral, mas desapontou como presidente. Desde 1995 o IHGB é dirigido por Arno Wehling, que tem sabido atrair para a entidade alguns dos melhores jovens historiadores do país e algumas personalidades intelectuais nacionais. O IHGB tem atuado com bastante eficiência e realizado seminários de apreciável oportunidade. Realizou um convênio com a editora do Senado Federal, que vem publicando anualmente três ou quatro números da revista, que hoje é considerada entre as melhores do país. Por tudo isso o atual presidente tem sido reeleito sucessivamente.
Ainda sobre a reaproximação entre o IHGB e a historiografia universitária, o que o senhor gostaria de ver concretizado nos próximos anos? Que frutos lhe parece possível que nasçam desse reencontro?
Nossos historiadores universitários, por melhores que sejam, estão um pouco engessados pelo excesso de trabalho. Desconfiam um pouco do IHGB, que consideram elitista e conservador. Por sua vez os sócios do IHGB tendem a minimizar o mérito dos historiadores profissionais, que tanto labutam contra fatigantes horários e remuneração modesta. Nós, os sócios do IHGB, temos por vezes a tendência de admitir o ingresso de algum figurão da política ou da diplomacia, que embora tenha considerável mérito pessoal e várias obras publicadas, não têm aquela vivência dos bancos universitários que me parece necessária para a formação do bom historiador. No momento, sinto que o corpo de sócios do IHGB está ficando um pouco idoso demais e tenho insistido com o atual presidente para estimular o ingresso de historiadores mais jovens. Temos intensificado parcerias com universidades como a realização conjunta de encontros científicos, cursos e seminários.
Como se sabe, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado num momento muito especial da história de nosso país, de estímulo à produção intelectual nunca antes visto; por sinal, no mesmo ano também foram fundados o Arquivo Imperial e o Colégio Pedro II, como parte desse esforço. Naquela época, esperava-se que o IHGB cumprisse o papel de fomentar a produção de conhecimento sobre o passado e o território do Brasil, com o fito de pensar projetos de nação para um país recentemente independente. Na sua opinião, que papel o Instituto pode ou deve desempenhar no Brasil do século XXI?
Creio que o IHGB está desempenhando no momento uma variada atividade de estudos de toda a ordem sobre as diversas fases de nossa historia e tem estimulado trabalhos e pesquisas sobre personagens importantes menos estudados e que merecem uma melhor avaliação. Eu mesmo, na minha idade avançada, vou publicar no primeiro trimestre do ano corrente um livro que reúne diversas pesquisas e estudos sobre personagens de nossa história pouco estudados ou controvertidos. O atual presidente tem procurado estreitar as relações com os institutos históricos estaduais visando uma cooperação constante para valorizar a história, a memória e a própria identidade regional.
sábado, 31 de dezembro de 2011
Teatro, aparência e poder
Escrevi esse pequeno texto como parte de minha dissertação de mestrado, mas acabei não utilizando. Resolvi postar por aqui. Por sua própria natureza de trecho inutilizado, ele começa abruptamente e não se encaminha a nenhuma conclusão, mas sei que os amigos tirarão suas próprias...
Segundo Edward Thompson, uma das noções essenciais para a compreensão das sociedades de Antigo Regime é a idéia de “teatro”. De acordo com Thompson, a exibição, o espetáculo, são essenciais ao Antigo Regime na construção de hierarquias sociais, bem como na afirmação do poder.
As execuções públicas são uma apresentação teatral, assim como as procissões, as festas, os atos de coroação, as exéquias, entre muitas outras coisas. Cada ato na vida social deve se fazer perceber por signos que o façam legíveis, em geral seguindo a um script pré-determinado e escrito coletivamente. Talvez a prática teatral que nos forneça a mais fiel semelhança com essa teatralidade social seja a Comedia dell`arte italiana, onde personagens fixos e com repertório pré-definido desempenham papéis onde se misturam as suas características costumeiras e a especificidade de cada enredo. Um dos mais célebres livros de Thompson, Costumes em comum é em grande medida, um esforço para decodificar e decifrar os signos dessa teatralidade.
É interessante aproximar essa noção de uma outra, a de “representação”, apontada por Roger Chartier como conceito chave para a compreensão da lógica de Antigo Regime. A proximidade entre as duas conceituações não pode passar despercebida. Afinal de contas, representar é o que fazem os atores sobre o palco. Segundo Chartier, “representação” é um termo polissêmico, podendo significar em sua noção mais básica a substituição de algo ausente por um signo, verbal ou não, que o substitua diante de alguém. A “representação” evoca aquilo que está distante ou invisível.
No entanto, de acordo com o historiador, a noção de representação serve no Antigo Regime para articular uma lógica que qualifica como “perversa”. Dentro dessa lógica, é abolida a distância entre a representação e o representado, essência e aparência se confundem como uma só coisa: a essência se realizaria, então, na aparência que a faria perceptível, através de seus sinais distintivos. Poderíamos exemplificar muito grosseiramente que não haveria rei sem coroa, ou papa sem mitra.
A perversidade estaria no fato de que a simples aparência seria capaz de fazer pressupor a essência, criando assim uma perigosa armadilha mental, que embotaria a capacidade dos indivíduos de perceber a essência separada da aparência e vice-versa. Assim, a aparência pura e simples seria capaz de se passar pela essência inexistente, assim como a essência desprovida da aparência que a codifica socialmente tornar-se-ia imperceptível. Retomando a metáfora teatral, seria impossível dissociar o ator do papel representado.
Como se trata aqui de atores, podemos pensar na interessante noção de “ator de si mesmo” cunhada por Fernando Bouza Alvarez ao tratar de Felipe II e da construção de sua imagem, no livro Imagen y propaganda. Cabe resgatar o contexto em que o riquíssimo conceito é empregado. Alvarez relata uma interessante anedota a respeito do Príncipe Prudente. Estaria Felipe II em viagem, e, passando por uma igreja, entraria para orar; passando adiante por outra igreja, oraria de novo. Interrogado por um dos nobres de seu séquito sobre esta atitude, o monarca responderia: “Acaso os que estão aqui me viram lá?” Segundo Alvarez, não devemos ver aí uma atitude hipócrita: os testemunhos íntimos sobre a profunda devoção do rei são inúmeros. Todavia, o cultivo da aparência exporia sua verdade íntima, sua “essência” aos que o vissem. Daí a riqueza do conceito de “ator de si mesmo”: a atuação não tem em vista a representação fraudulenta de um papel, mas a exposição de um papel que corresponderia à realidade.
Segundo Edward Thompson, uma das noções essenciais para a compreensão das sociedades de Antigo Regime é a idéia de “teatro”. De acordo com Thompson, a exibição, o espetáculo, são essenciais ao Antigo Regime na construção de hierarquias sociais, bem como na afirmação do poder.
As execuções públicas são uma apresentação teatral, assim como as procissões, as festas, os atos de coroação, as exéquias, entre muitas outras coisas. Cada ato na vida social deve se fazer perceber por signos que o façam legíveis, em geral seguindo a um script pré-determinado e escrito coletivamente. Talvez a prática teatral que nos forneça a mais fiel semelhança com essa teatralidade social seja a Comedia dell`arte italiana, onde personagens fixos e com repertório pré-definido desempenham papéis onde se misturam as suas características costumeiras e a especificidade de cada enredo. Um dos mais célebres livros de Thompson, Costumes em comum é em grande medida, um esforço para decodificar e decifrar os signos dessa teatralidade.
É interessante aproximar essa noção de uma outra, a de “representação”, apontada por Roger Chartier como conceito chave para a compreensão da lógica de Antigo Regime. A proximidade entre as duas conceituações não pode passar despercebida. Afinal de contas, representar é o que fazem os atores sobre o palco. Segundo Chartier, “representação” é um termo polissêmico, podendo significar em sua noção mais básica a substituição de algo ausente por um signo, verbal ou não, que o substitua diante de alguém. A “representação” evoca aquilo que está distante ou invisível.
No entanto, de acordo com o historiador, a noção de representação serve no Antigo Regime para articular uma lógica que qualifica como “perversa”. Dentro dessa lógica, é abolida a distância entre a representação e o representado, essência e aparência se confundem como uma só coisa: a essência se realizaria, então, na aparência que a faria perceptível, através de seus sinais distintivos. Poderíamos exemplificar muito grosseiramente que não haveria rei sem coroa, ou papa sem mitra.
A perversidade estaria no fato de que a simples aparência seria capaz de fazer pressupor a essência, criando assim uma perigosa armadilha mental, que embotaria a capacidade dos indivíduos de perceber a essência separada da aparência e vice-versa. Assim, a aparência pura e simples seria capaz de se passar pela essência inexistente, assim como a essência desprovida da aparência que a codifica socialmente tornar-se-ia imperceptível. Retomando a metáfora teatral, seria impossível dissociar o ator do papel representado.
Como se trata aqui de atores, podemos pensar na interessante noção de “ator de si mesmo” cunhada por Fernando Bouza Alvarez ao tratar de Felipe II e da construção de sua imagem, no livro Imagen y propaganda. Cabe resgatar o contexto em que o riquíssimo conceito é empregado. Alvarez relata uma interessante anedota a respeito do Príncipe Prudente. Estaria Felipe II em viagem, e, passando por uma igreja, entraria para orar; passando adiante por outra igreja, oraria de novo. Interrogado por um dos nobres de seu séquito sobre esta atitude, o monarca responderia: “Acaso os que estão aqui me viram lá?” Segundo Alvarez, não devemos ver aí uma atitude hipócrita: os testemunhos íntimos sobre a profunda devoção do rei são inúmeros. Todavia, o cultivo da aparência exporia sua verdade íntima, sua “essência” aos que o vissem. Daí a riqueza do conceito de “ator de si mesmo”: a atuação não tem em vista a representação fraudulenta de um papel, mas a exposição de um papel que corresponderia à realidade.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Histórias de família - Tesouros escondidos
Quem nunca sonhou em caçar velhos tesouros esquecidos em algum lugar? Aqueles que, como eu, cresceram assistindo Os Goonies em inúmeras reprises televisivas com certeza já se imaginaram vasculhando cavernas cheias de armadilhas com mapas poeirentos nas mãos! De fato, esse tipo de história parece ter algo de muito cativante para a imaginação ocidental, desde muito antes de Robert Louis Stevenson publicar sua Ilha do Tesouro. Mesmo o povo de Laguna no início do século tinha sua cota de tesouros secretos...
Meu avô contava que em sua região natal corria a lenda de um tesouro perdido em pleno litoral catarinense. Dizia o povo de lá que escondidas em algum lugar perto de Laguna estavam as misteriosas "panelas de ouro dos jesuítas"... A historia dizia que antes de sua expulsão do Brasil, no século XVIII, os inacianos de Santa Catarina teriam deixado guardadas num lugar secreto das redondezas suas "panelas de ouro", um riquíssimo tesouro. A bem da verdade, nunca consegui entender muito bem como seria composto esse tesouro: seriam panelas feitas de ouro fundido? Ou teriam os astutos jesuítas guardado seus tesouros em panelas? No segundo caso, sempre me pareceu um lugar inusitado para se guardar uma fortuna! Por que não baús? Seria muito mais tradicional, afinal de contas... Meu avô achava mais provável a segunda opção, por razões que mencionarei adiante.
Ainda em meados do século XX as "panelas de ouro dos jesuítas" atraíam seu quinhão de aventureiros. Meu avô se lembrava de que durante sua infância houve algumas pessoas que chegaram a percorrer as matas da região em busca do cobiçado tesouro. Alguns desses Indiana Jones catarinenses vinham mesmo de cidades próximas. Apesar disso, a população de Laguna jamais viu as tão famosas panelas...
Há poucos anos encontrei um livro muito curioso, Tesouros do Morro do Castelo, de Carlos Kessel. Para minha surpresa, o livro falava sobre uma lenda muito parecida, que circulou no Rio de Janeiro até o desmanche do Morro do Castelo, em 1922. A versão carioca do "mito" falava também de um tesouro oculto pelos jesuítas antes de sua expulsão. Assim como no caso catarinense, o autor relata que muitas pessoas tentaram encontrar essa fortuna, como documentam notícias de jornais da época. Pelo visto, esses aventureiros provocavam tanta sensação no Rio quanto em Laguna, a despeito da siginificativa diferença de tamanho das duas cidades. Ainda mais instigante é que descobri, através desse livro, que histórias semelhantes sobre os supostos tesouros perdidos da Companhia de Jesus são comuns em muitos outros lugares do Brasil.
Tais lendas falam muito sobre o imaginário construído em nosso país desde a época colonial. Imaginário marcado pelo cobiçado ouro das Minas Gerais, mas também pela rica fortuna dos inacianos. Mitologia de santos do pau oco, piratas e contrabandistas, mas também de poderosos clérigos, que na sombria lenda pombalina se tornaram um "Estado dentro do Estado". Creio que uma análise aprofundada dessas histórias daria margem a um rico estudo de mitologia comparada, o que certamente escapa a nossas possibilidades aqui...
No entanto, o legendarium lagunense não vivia apenas de áureas panelas guardadas por cúpidos religiosos... Laguna escondia outros tesouros, menos feéricos, mas reais. Dizia meu avô que não era raro que durante obras nas velhas casas do lugar, construídas no século XVIII ou no XIX, fossem encontrados dentro das paredes recipientes, principalmente canecas de louça, abarrotados de antigas moedas de ouro. Essas ocasiões já eram pouco comuns quando meu avô era criança, mas meus bisavós, nascidos no final do século XIX, viram isso acontecer com maior frequência. É irônico pensar nessas economias familiares avaramente guardadas com tanto cuidado que caíram no esquecimento.
Não é difícil imaginar quanto esses acontecimentos afetavam o imaginário popular, principalmente numa pequena cidade. Creio que boa parte do fascínio pelas "panelas de ouro" vinha dessas humildes canecas; a realidade alimentava a lenda, incendiando a esperança e a ganância dos caça-tesouros de plantão... Meu avô atribuía a esses pequenos tesouros reais a opção pelas singulares panelas na invenção da lenda. Afinal, se os cidadãos comuns lagunenses haviam guardado suas pequenas fortunas em canecas, objetos cotidianos, apenas enormes panelas seriam artefatos do dia-a-dia suficientemente grandes para guardar a fabulosa riqueza da Companhia de Jesus....
Meu avô contava que em sua região natal corria a lenda de um tesouro perdido em pleno litoral catarinense. Dizia o povo de lá que escondidas em algum lugar perto de Laguna estavam as misteriosas "panelas de ouro dos jesuítas"... A historia dizia que antes de sua expulsão do Brasil, no século XVIII, os inacianos de Santa Catarina teriam deixado guardadas num lugar secreto das redondezas suas "panelas de ouro", um riquíssimo tesouro. A bem da verdade, nunca consegui entender muito bem como seria composto esse tesouro: seriam panelas feitas de ouro fundido? Ou teriam os astutos jesuítas guardado seus tesouros em panelas? No segundo caso, sempre me pareceu um lugar inusitado para se guardar uma fortuna! Por que não baús? Seria muito mais tradicional, afinal de contas... Meu avô achava mais provável a segunda opção, por razões que mencionarei adiante.
Ainda em meados do século XX as "panelas de ouro dos jesuítas" atraíam seu quinhão de aventureiros. Meu avô se lembrava de que durante sua infância houve algumas pessoas que chegaram a percorrer as matas da região em busca do cobiçado tesouro. Alguns desses Indiana Jones catarinenses vinham mesmo de cidades próximas. Apesar disso, a população de Laguna jamais viu as tão famosas panelas...
Há poucos anos encontrei um livro muito curioso, Tesouros do Morro do Castelo, de Carlos Kessel. Para minha surpresa, o livro falava sobre uma lenda muito parecida, que circulou no Rio de Janeiro até o desmanche do Morro do Castelo, em 1922. A versão carioca do "mito" falava também de um tesouro oculto pelos jesuítas antes de sua expulsão. Assim como no caso catarinense, o autor relata que muitas pessoas tentaram encontrar essa fortuna, como documentam notícias de jornais da época. Pelo visto, esses aventureiros provocavam tanta sensação no Rio quanto em Laguna, a despeito da siginificativa diferença de tamanho das duas cidades. Ainda mais instigante é que descobri, através desse livro, que histórias semelhantes sobre os supostos tesouros perdidos da Companhia de Jesus são comuns em muitos outros lugares do Brasil.
Tais lendas falam muito sobre o imaginário construído em nosso país desde a época colonial. Imaginário marcado pelo cobiçado ouro das Minas Gerais, mas também pela rica fortuna dos inacianos. Mitologia de santos do pau oco, piratas e contrabandistas, mas também de poderosos clérigos, que na sombria lenda pombalina se tornaram um "Estado dentro do Estado". Creio que uma análise aprofundada dessas histórias daria margem a um rico estudo de mitologia comparada, o que certamente escapa a nossas possibilidades aqui...
No entanto, o legendarium lagunense não vivia apenas de áureas panelas guardadas por cúpidos religiosos... Laguna escondia outros tesouros, menos feéricos, mas reais. Dizia meu avô que não era raro que durante obras nas velhas casas do lugar, construídas no século XVIII ou no XIX, fossem encontrados dentro das paredes recipientes, principalmente canecas de louça, abarrotados de antigas moedas de ouro. Essas ocasiões já eram pouco comuns quando meu avô era criança, mas meus bisavós, nascidos no final do século XIX, viram isso acontecer com maior frequência. É irônico pensar nessas economias familiares avaramente guardadas com tanto cuidado que caíram no esquecimento.
Não é difícil imaginar quanto esses acontecimentos afetavam o imaginário popular, principalmente numa pequena cidade. Creio que boa parte do fascínio pelas "panelas de ouro" vinha dessas humildes canecas; a realidade alimentava a lenda, incendiando a esperança e a ganância dos caça-tesouros de plantão... Meu avô atribuía a esses pequenos tesouros reais a opção pelas singulares panelas na invenção da lenda. Afinal, se os cidadãos comuns lagunenses haviam guardado suas pequenas fortunas em canecas, objetos cotidianos, apenas enormes panelas seriam artefatos do dia-a-dia suficientemente grandes para guardar a fabulosa riqueza da Companhia de Jesus....
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Lévi-Strauss e os estudantes brasileiros
Estou lendo Tristes trópicos, para minha tese. O livro tem várias passagens interessantes, mas uma delas me chamou bastante a atenção. No trecho em questão, Lévi-Strauss relata sua impressão sobre os estudantes universitários brasileiros, nos idos de 1934. Achei curioso perceber o quanto esse "tipo" ainda é muito comum nas nossas universidades. Acredito que não seja exclusividade nossa, mas não posso imaginar quão difundido em outros países seja esse gênero de estudante...
"Nossos estudantes queriam saber tudo; mas, em qualquer área que fosse, somente a teoria mais recente lhes parecia digna de ser retida. Cansados de todos os festins intelectuais do passado, que aliás eles conheciam apenas por ouvir dizer, pois não liam as obras originais, eles conservavam um entusiasmo sempre disponível para os pratos novos. Em seu caso, seria melhor falar de moda que de culinária: ideias e doutrinas não ofereciam a seus olhos um interesse intrínseco, eles as consideravam como instrumentos de prestígio dos quais era necessário assegurar o monopólio. Compartilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a vestir uma roupa já vista; arriscava-se a perder o rosto. Pelo contrário, uma concorrência encarniçada se fazia a grandes golpes de revistas de divulgação, de periódicos de sensação e de manuais, para obter a exclusividade do modelo mais recente no domínio das ideias. Produtos selecionados dos haras acadêmicos, meus colegas e eu nos sentíamos frequentemente embaraçados: formados para respeitar apenas as ideias maduras, nos encontrávamos ante o assalto de estudantes que ignoravam totalmente o passado, mas cujo informação estava sempre alguns meses à nossa frente. No entanto, a erudição, de que eles não tinham o gosto nem o método, lhes parecia ainda assim um dever; então, suas dissertações consistiam, não importando o tema, de uma evocação da história geral da humanidade desde os macacos antropóides para acabar através de algumas citações de Platão, Aristóteles e Comte, na paráfrase de um polígrafo viscoso cuja obra tinha tanto mais mérito quanto sua obscuridade dava uma chance de que ninguém mais tivesse tido ainda a ideia de pilhá-lo".
Também é interessante sua citação sobre a formação de séquitos em torno de alguns professores:
"Cada um de nós media sua influência pelo tamanho da pequena corte que se organizava ao seu redor. Essas clientelas mantinham uma guerra de prestígio cujos professores queridos era os símbolos, beneficiários e vítimas".
"Nossos estudantes queriam saber tudo; mas, em qualquer área que fosse, somente a teoria mais recente lhes parecia digna de ser retida. Cansados de todos os festins intelectuais do passado, que aliás eles conheciam apenas por ouvir dizer, pois não liam as obras originais, eles conservavam um entusiasmo sempre disponível para os pratos novos. Em seu caso, seria melhor falar de moda que de culinária: ideias e doutrinas não ofereciam a seus olhos um interesse intrínseco, eles as consideravam como instrumentos de prestígio dos quais era necessário assegurar o monopólio. Compartilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a vestir uma roupa já vista; arriscava-se a perder o rosto. Pelo contrário, uma concorrência encarniçada se fazia a grandes golpes de revistas de divulgação, de periódicos de sensação e de manuais, para obter a exclusividade do modelo mais recente no domínio das ideias. Produtos selecionados dos haras acadêmicos, meus colegas e eu nos sentíamos frequentemente embaraçados: formados para respeitar apenas as ideias maduras, nos encontrávamos ante o assalto de estudantes que ignoravam totalmente o passado, mas cujo informação estava sempre alguns meses à nossa frente. No entanto, a erudição, de que eles não tinham o gosto nem o método, lhes parecia ainda assim um dever; então, suas dissertações consistiam, não importando o tema, de uma evocação da história geral da humanidade desde os macacos antropóides para acabar através de algumas citações de Platão, Aristóteles e Comte, na paráfrase de um polígrafo viscoso cuja obra tinha tanto mais mérito quanto sua obscuridade dava uma chance de que ninguém mais tivesse tido ainda a ideia de pilhá-lo".
Também é interessante sua citação sobre a formação de séquitos em torno de alguns professores:
"Cada um de nós media sua influência pelo tamanho da pequena corte que se organizava ao seu redor. Essas clientelas mantinham uma guerra de prestígio cujos professores queridos era os símbolos, beneficiários e vítimas".
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
O braçal trabalho dos cientistas
Em meu primeiro semestre de graduação tive de ler "Que é História?", de E. H. Carr. O autor comentava que na Idade Moderna o trabalho dos primeiros cientistas era frequentemente visto com desdém, por ser associado aos ofícios manuais, atribuídos à plebe. Essa informação me causou grande estranhamento na época, não devido ao menosprezo pelos manopera comum ao Antigo Regime, que já me era familiar. O que então me pareceu surpreendente foi essa associação entre a pesquisa científica e o trabalho braçal, tão diferente da concepção que temos hoje do cientista, enquanto intelectual, pioneiro do conhecimento. Desde então, me tornei mais familiar à ideia, através de leituras realizadas nesses últimos anos. Contudo, essa semana, pude finalmente compreender com toda a clareza!
A noite estava estrelada, ostentando uma belíssima Lua. Me lancei às atividades de astrônomo amador. Foi então que percebi o quanto necessitava me deslocar, movimentar o telescópio para um lado e outro, mexer daqui, dali e dacolá, puxar e empilhar cadeiras, sentar no chão ou me acocorar... Tudo isso para conseguir focalizar devidamente os corpos celestes que pretendia observar. De fato, por mais intelectual que tal atividade possa parecer, me dei conta da quantidade de trabalho braçal que ela envolve!
Comecei a pensar em outros casos, imaginando os primeiros anatomistas abrindo cadáveres... Que pensaria um aristocrata vendo Vesalius com um avental imundo de sangue, como um açougueiro? Ou os primeiros microbiologistas? Certamente a figura de Spalanzani fervendo caldos para cultura de bactérias, suando esbraseado pelo calor de um fogareiro não devia parecer muito lisonjeira a um fidalgo penteado, perfumado e bem vestido! Enfim, a própria imagem de um laboratório dessa época devia parecer aos nobres uma desagradável mistura de oficina, cozinha e açougue...
A questão é ainda mais marcante se pensarmos nas concepções sobre essência e aparência comuns ao imaginário do período. Como vários historiadores apontam, para a cultura de Antigo Regime, a aparência de algo deveria expressar de modo claro e inequívoco a sua essência. Um cientista suado, sujo, esfalfado seria, naturalmente, um trabalhador braçal, com toda a carga pejorativa associada aos ofícios mecânicos.
Parece-me elucidativo citar uma curiosa passagem escrita por Da Vinci, proclamando a superioridade do pintor sobre o escultor. Embora as ideias se refiram ao campo da Arte, parecem-me facilmente transponíveis ao das Ciências, mesmo porque as artes também eram consideradas ofícios manuais.
Segundo resume a historiadora da Arte Elisa Byington no livro O projeto do Renascimento, Leonardo afirmava que a escultura seria inferior porque "fazia suar, gerava mais cansaço físico e exigia menos esforço mental na sua realização". Descrevia ainda o escultor vivendo "em uma casa suja com a cabeça coberta por pó de mármore 'feito um padeiro'" (grifo meu). O pintor, ao contrário, "podia realizar seu trabalho bem trajado e sentado com grande conforto, segurando um pincel leve e usando cores agradáveis" (grifo meu). Não é difícil imaginar o que ele diria de Galileu Galilei fazendo ginástica ao telescópio...
A noite estava estrelada, ostentando uma belíssima Lua. Me lancei às atividades de astrônomo amador. Foi então que percebi o quanto necessitava me deslocar, movimentar o telescópio para um lado e outro, mexer daqui, dali e dacolá, puxar e empilhar cadeiras, sentar no chão ou me acocorar... Tudo isso para conseguir focalizar devidamente os corpos celestes que pretendia observar. De fato, por mais intelectual que tal atividade possa parecer, me dei conta da quantidade de trabalho braçal que ela envolve!
Comecei a pensar em outros casos, imaginando os primeiros anatomistas abrindo cadáveres... Que pensaria um aristocrata vendo Vesalius com um avental imundo de sangue, como um açougueiro? Ou os primeiros microbiologistas? Certamente a figura de Spalanzani fervendo caldos para cultura de bactérias, suando esbraseado pelo calor de um fogareiro não devia parecer muito lisonjeira a um fidalgo penteado, perfumado e bem vestido! Enfim, a própria imagem de um laboratório dessa época devia parecer aos nobres uma desagradável mistura de oficina, cozinha e açougue...
A questão é ainda mais marcante se pensarmos nas concepções sobre essência e aparência comuns ao imaginário do período. Como vários historiadores apontam, para a cultura de Antigo Regime, a aparência de algo deveria expressar de modo claro e inequívoco a sua essência. Um cientista suado, sujo, esfalfado seria, naturalmente, um trabalhador braçal, com toda a carga pejorativa associada aos ofícios mecânicos.
Parece-me elucidativo citar uma curiosa passagem escrita por Da Vinci, proclamando a superioridade do pintor sobre o escultor. Embora as ideias se refiram ao campo da Arte, parecem-me facilmente transponíveis ao das Ciências, mesmo porque as artes também eram consideradas ofícios manuais.
Segundo resume a historiadora da Arte Elisa Byington no livro O projeto do Renascimento, Leonardo afirmava que a escultura seria inferior porque "fazia suar, gerava mais cansaço físico e exigia menos esforço mental na sua realização". Descrevia ainda o escultor vivendo "em uma casa suja com a cabeça coberta por pó de mármore 'feito um padeiro'" (grifo meu). O pintor, ao contrário, "podia realizar seu trabalho bem trajado e sentado com grande conforto, segurando um pincel leve e usando cores agradáveis" (grifo meu). Não é difícil imaginar o que ele diria de Galileu Galilei fazendo ginástica ao telescópio...
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Sobre a arte da pechincha e a invenção dos preços
No último domingo fui à Feira da Providência, adquirir novas quinquilharias e badulaques para minha coleção de artesanato. Acabei esbarrando no stand da Síria, onde vivi uma experiência, digamos, singular. Eu minha esposa vimos uma linda mesa em marchetaria. Perguntamos o preço a um vendedor, que respondeu em sofrível inglês. Como não demonstramos interesse e esboçamos movimento para sair, ele ofereceu um preço menor; começamos a negociar, mas tivemos dificuldade para compreender seu inglês. Perguntei se ele falava francês e - voilà! - apareceu outro vendedor, francófono. A negociação continuou, mas logo este último chamou um terceiro, e começaram a discutir entre si detalhes sobre o pagamento... em árabe. Logo havia outros ao nosso redor, e nos vimos em verdadeira Babel! No fim das contas, trouxemos a mesa por cem reais a menos. Infelizmente não sou muito versado nas artes da pechincha, pois creio que poderia tê-la comprado por muito menos!
Como todos sabem, o episódio não tem nada de muito espantoso, considerando a proverbial fama dos comerciantes do mundo islâmico, onde esse tipo de negociação é praticamente uma regra de etiqueta. Me senti num verdadeiro estereótipo de mercado árabe de filme das mil e uma noites! No entanto, essa pequena "aventura" me suscitou reflexões sobre alguns velhos e conhecidos temas, mais especialmente a "invenção" dos preços e a reificação das relações econômicas.
Uma das referências mas evidentes nesse sentido é o bom e velho Marx com seus célebres conceitos de valores de uso e troca, sobre os quais considero desnecessário tecer maiores comentários. Particularmente, minha curiosa negociação me fez pensar no quanto o processo de elaboração dessa conceituação enquanto ferramenta analítica é especificamente ocidental e contemporâneo. De fato, não me parece que Ibn Khaldun teria necessitado dela para pensar sobre as sociedades magrebinas da Idade Média,por exemplo; pelo contrário, essa diferenciação lhe seria provavelmente aparente, talvez mesmo evidente.
Por outro lado, nós necessitamos explicitar distinções desse gênero, pelas condições específicas com que nossa cultura experimenta a economia. Desde o século XVIII a sociedade ocidental tem presenciado insistentes e incessantes esforços por parte de pensadores e instituições visando à construção de uma imagem reificada da economia, onde se perde justamente a dimensão do mundo econômico como universo de relações estabelecidas entre grupos e indivíduos. A economia que vemos retratada nos periódicos, telejornais e muitos livros é um ser autônomo, dotado de vida própria e regido por princípios claramente identificados, supostamente previsíveis. Romper com a velha noção de "mão invisível" nem sempre é fácil para nós...
Justamente o que despertou minha atenção a partir dessa recente experiência é o quanto o contrário pode ser evidente em outro contexto cultural. A etiqueta oriental de negociação pressupõe justamente o contrário de nossa noção reificada de economia. Pelo contrário, a invenção do preço, suas dimensões relacionais e negociadas são por demais explícitas nesse contexto. Igualmente aparentes se tornam as relações de poder envolvidas em qualquer negociação (remetendo a Hegel e sua "dialética do senhor e do escravo"...). Nessa perspectiva, a ficção de uma economia autônoma e autorregulada se tornaria provavelmente uma ideia difícil de sustentar. Imagino com que dificuldade Aladim ou Ali Babá leriam Adam Smith...
Como todos sabem, o episódio não tem nada de muito espantoso, considerando a proverbial fama dos comerciantes do mundo islâmico, onde esse tipo de negociação é praticamente uma regra de etiqueta. Me senti num verdadeiro estereótipo de mercado árabe de filme das mil e uma noites! No entanto, essa pequena "aventura" me suscitou reflexões sobre alguns velhos e conhecidos temas, mais especialmente a "invenção" dos preços e a reificação das relações econômicas.
Uma das referências mas evidentes nesse sentido é o bom e velho Marx com seus célebres conceitos de valores de uso e troca, sobre os quais considero desnecessário tecer maiores comentários. Particularmente, minha curiosa negociação me fez pensar no quanto o processo de elaboração dessa conceituação enquanto ferramenta analítica é especificamente ocidental e contemporâneo. De fato, não me parece que Ibn Khaldun teria necessitado dela para pensar sobre as sociedades magrebinas da Idade Média,por exemplo; pelo contrário, essa diferenciação lhe seria provavelmente aparente, talvez mesmo evidente.
Por outro lado, nós necessitamos explicitar distinções desse gênero, pelas condições específicas com que nossa cultura experimenta a economia. Desde o século XVIII a sociedade ocidental tem presenciado insistentes e incessantes esforços por parte de pensadores e instituições visando à construção de uma imagem reificada da economia, onde se perde justamente a dimensão do mundo econômico como universo de relações estabelecidas entre grupos e indivíduos. A economia que vemos retratada nos periódicos, telejornais e muitos livros é um ser autônomo, dotado de vida própria e regido por princípios claramente identificados, supostamente previsíveis. Romper com a velha noção de "mão invisível" nem sempre é fácil para nós...
Justamente o que despertou minha atenção a partir dessa recente experiência é o quanto o contrário pode ser evidente em outro contexto cultural. A etiqueta oriental de negociação pressupõe justamente o contrário de nossa noção reificada de economia. Pelo contrário, a invenção do preço, suas dimensões relacionais e negociadas são por demais explícitas nesse contexto. Igualmente aparentes se tornam as relações de poder envolvidas em qualquer negociação (remetendo a Hegel e sua "dialética do senhor e do escravo"...). Nessa perspectiva, a ficção de uma economia autônoma e autorregulada se tornaria provavelmente uma ideia difícil de sustentar. Imagino com que dificuldade Aladim ou Ali Babá leriam Adam Smith...
sábado, 3 de dezembro de 2011
Histórias de família - Os fantasmas de meu avô
Tive a imensa sorte de nascer em uma família fortemente marcada pela transmissão de conhecimento de geração para geração através da tradição oral, além de inúmeros objetos passados como relíquias através de décadas. Por exemplo, tenho em minha parede um velho relógio de pêndulo com quase 150 anos de idade, importado da Alemanha sob encomenda para o casamento do avô de meu avô (seria meu tataravô?). Embora não funcione mais, já viu passar cinco gerações da família!
Cresci ouvindo meu avô e minha avó contando anedotas, episódios e casos dos mais variados tipos, desde situações cômicas a histórias tristes. Relatos de amores proibidos, guerras e revoltas, tesouros escondidos e assombrações. Enfim, fui educado numa tradição oral quase "tribal", sempre realimentada nas conversas familiares. Com toda certeza, essa vivência teve grande relevância em minha inclinação ao culto de Clio. Pretendo agora compartilhar com meus amigos esses tesouros de família...
Duas narrativas que me fascinaram quando criança foram as histórias de "fantasmas" contadas por meu avô, Waldo. Ele nasceu em Laguna, Santa Catarina, em 1925, e teve uma infância muito pitoresca. Ele contava que durante anos, em sua meninice, um cemitério da cidade fôra considerado mal assombrado... à noite as pessoas viam de longe luzes estranhas aparecendo sobre o campo santo... Não é necessário dizer que essas "aparições" provocavam medo em muitos. Até que em meados da década de 1930 andou por lá um cientista vindo da Alemanha, pesquisando alguma coisa na região (não sei exatamente o quê...). Quando soube da história, ele logo concluiu do que se tratava: fogo-fátuo, um fênômeno natural comum em lugares onde há corpos em decomposição, como brejos, pântanos ou cemitérios. A putrefação libera gase como fosfina (PH3) e metano (CH4), que entram em combustão ao contato com o oxigênio do ar. Aliás, as interpretações sobrenaturais sobre o fogo-fátuo abundam em diversas culturas da América, Europa e África. Até em Laguna... O episódio impressionou vivamente a meu avô, que o lembraria para o resto da vida. Posso imaginar a decepção que a explicação deve ter provocado em muitos habitantes da cidades, enquanto outros lagunenses devem ter permanecido céticos em relação à solução científica do fenômeno... Por sinal, me parece um episódio muito ilustrativo daquilo que Weber denominou Weltentsauberung, o famoso "desencantamento do mundo".
Outra história interessante e engraçada se passou anos mais tarde, por volta de 1942. Nessa época meu avô estudava na Escola de Grumetes, atual Colégio Naval, em Angra dos Reis. Muitos jovens grumetes estavam então impressionados com as frequentes aparições de um errante vulto branco sobre um morro próximo dos alojamentos. Obviamente, muitos pensavam que era um fantasma. Um corajoso sargento resolveu então desvendar o mistério. Munido de um revólver e um pedaço de pau subiu no morro e ficou à espreita, aguardando a aparição... Quando a assombração finalmente surgiu, o sargento saiu de seu esconderijo ao encontro do espectro, gritando: "Se for fantasma é tiro, se for homem é paulada!" O fantasma logo respondeu, apavorado: "Sou gente, sou gente!", tirando o lençol que o encobria. Era um dos grumetes, metido a engraçado, que saía escondido para assustar os colegas. Imagino que tenha se divertido bastante ao ouvir os relatos dos camaradas. Pobres rapazes, o verdadeiro fantasma que iriam enfrentar era a II Guerra Mundial! Mas essa é outra história...
Cresci ouvindo meu avô e minha avó contando anedotas, episódios e casos dos mais variados tipos, desde situações cômicas a histórias tristes. Relatos de amores proibidos, guerras e revoltas, tesouros escondidos e assombrações. Enfim, fui educado numa tradição oral quase "tribal", sempre realimentada nas conversas familiares. Com toda certeza, essa vivência teve grande relevância em minha inclinação ao culto de Clio. Pretendo agora compartilhar com meus amigos esses tesouros de família...
Duas narrativas que me fascinaram quando criança foram as histórias de "fantasmas" contadas por meu avô, Waldo. Ele nasceu em Laguna, Santa Catarina, em 1925, e teve uma infância muito pitoresca. Ele contava que durante anos, em sua meninice, um cemitério da cidade fôra considerado mal assombrado... à noite as pessoas viam de longe luzes estranhas aparecendo sobre o campo santo... Não é necessário dizer que essas "aparições" provocavam medo em muitos. Até que em meados da década de 1930 andou por lá um cientista vindo da Alemanha, pesquisando alguma coisa na região (não sei exatamente o quê...). Quando soube da história, ele logo concluiu do que se tratava: fogo-fátuo, um fênômeno natural comum em lugares onde há corpos em decomposição, como brejos, pântanos ou cemitérios. A putrefação libera gase como fosfina (PH3) e metano (CH4), que entram em combustão ao contato com o oxigênio do ar. Aliás, as interpretações sobrenaturais sobre o fogo-fátuo abundam em diversas culturas da América, Europa e África. Até em Laguna... O episódio impressionou vivamente a meu avô, que o lembraria para o resto da vida. Posso imaginar a decepção que a explicação deve ter provocado em muitos habitantes da cidades, enquanto outros lagunenses devem ter permanecido céticos em relação à solução científica do fenômeno... Por sinal, me parece um episódio muito ilustrativo daquilo que Weber denominou Weltentsauberung, o famoso "desencantamento do mundo".
Outra história interessante e engraçada se passou anos mais tarde, por volta de 1942. Nessa época meu avô estudava na Escola de Grumetes, atual Colégio Naval, em Angra dos Reis. Muitos jovens grumetes estavam então impressionados com as frequentes aparições de um errante vulto branco sobre um morro próximo dos alojamentos. Obviamente, muitos pensavam que era um fantasma. Um corajoso sargento resolveu então desvendar o mistério. Munido de um revólver e um pedaço de pau subiu no morro e ficou à espreita, aguardando a aparição... Quando a assombração finalmente surgiu, o sargento saiu de seu esconderijo ao encontro do espectro, gritando: "Se for fantasma é tiro, se for homem é paulada!" O fantasma logo respondeu, apavorado: "Sou gente, sou gente!", tirando o lençol que o encobria. Era um dos grumetes, metido a engraçado, que saía escondido para assustar os colegas. Imagino que tenha se divertido bastante ao ouvir os relatos dos camaradas. Pobres rapazes, o verdadeiro fantasma que iriam enfrentar era a II Guerra Mundial! Mas essa é outra história...
O tradicional relógio dos Tavares!
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Devaneios histórico-astronômicos
Depois de longuíssimas semanas de espera, finalmente chegou meu ansiosamente aguardado telescópio e comecei minhas atividades de astrônomo amador. Trata-se, obviamente, de um aparato para principiantes. Mas apenas para os padrões atuais, pois é superior aos primeiros telescópios empregados no século XVII pelos pioneiros da astronomia moderna. O fascínio da observação astronômica é indescritível. E, além de uma janela para o céu, também me fez ver com novos olhos a história da ciência.
Um dos aspectos que me chamou a atenção nesse sentido é a dificuldade do manuseio do instrumento; apontar o telescópio para a estrela que se quer observar (ou mesmo a Lua) não é tarefa tão fácil quanto parece... Pelo contrário, minhas primeiras tentativas de observar estrelas foram tão frustrantes que cheguei a pensar que seria impossível. Fiquei imaginando o quanto deve ter sido difícil para Galileu, Kepler e outros de sua época, afinal, ao contrário de mim, eles eram pioneiros que criaram ex nihil a arte da observação celeste. Quanta perseverança, fadiga, talvez mesmo fé, não lhes teria sido necessário? Difícil saber, difícil mesmo imaginar... Por outro lado, eles não precisavam enfrentar metade da poluição luminosa que temos hoje em dia!
Outra questão curiosa é a fragilidade dos dados empíricos obtidos através de um telescópio como esse. As interferências são inúmeras: um vento mais forte pode fazer as estrelas bailarem no céu ou água correr sobre a Lua, devido a efeitos de refração! É fácil corrigir mentalmente esses desvios, tendo uma base teórica prévia. Mas como fazê-lo sem ela? Igualmente, não é difícil perceber que uma estrela é um distante Sol, sabendo disso de antemão; sem esse conhecimento, todavia, parece muito questionável. Era exatamente nesse solo movediço, nesse terreno incerto, que os primeiros astrônomos se aventuravam. Não é à toa que muitos se mostravam resistentes ou reticentes em relação às revelações propostas pela astronomia. Não era meramente questão de fanatismo religioso. Ao contrário do que costumamos pensar na era Hubble, esses primeiros telescópios deixavam larga margem para as dúvidas.
Essa experiência só tem tornado mais evidente para mim o quanto a grande revolução do conhecimento da natureza na modernidade deve à abordagem matemática capaz de tornar inteligíveis esses dados empíricos. Mais revolucionário que o telescópio foi o olhar projetado através dele...
Um dos aspectos que me chamou a atenção nesse sentido é a dificuldade do manuseio do instrumento; apontar o telescópio para a estrela que se quer observar (ou mesmo a Lua) não é tarefa tão fácil quanto parece... Pelo contrário, minhas primeiras tentativas de observar estrelas foram tão frustrantes que cheguei a pensar que seria impossível. Fiquei imaginando o quanto deve ter sido difícil para Galileu, Kepler e outros de sua época, afinal, ao contrário de mim, eles eram pioneiros que criaram ex nihil a arte da observação celeste. Quanta perseverança, fadiga, talvez mesmo fé, não lhes teria sido necessário? Difícil saber, difícil mesmo imaginar... Por outro lado, eles não precisavam enfrentar metade da poluição luminosa que temos hoje em dia!
Outra questão curiosa é a fragilidade dos dados empíricos obtidos através de um telescópio como esse. As interferências são inúmeras: um vento mais forte pode fazer as estrelas bailarem no céu ou água correr sobre a Lua, devido a efeitos de refração! É fácil corrigir mentalmente esses desvios, tendo uma base teórica prévia. Mas como fazê-lo sem ela? Igualmente, não é difícil perceber que uma estrela é um distante Sol, sabendo disso de antemão; sem esse conhecimento, todavia, parece muito questionável. Era exatamente nesse solo movediço, nesse terreno incerto, que os primeiros astrônomos se aventuravam. Não é à toa que muitos se mostravam resistentes ou reticentes em relação às revelações propostas pela astronomia. Não era meramente questão de fanatismo religioso. Ao contrário do que costumamos pensar na era Hubble, esses primeiros telescópios deixavam larga margem para as dúvidas.
Essa experiência só tem tornado mais evidente para mim o quanto a grande revolução do conhecimento da natureza na modernidade deve à abordagem matemática capaz de tornar inteligíveis esses dados empíricos. Mais revolucionário que o telescópio foi o olhar projetado através dele...
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