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Mostrando postagens com marcador Tecnologia. Mostrar todas as postagens
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sábado, 30 de setembro de 2023

Brasil - Distopia da distopia

Ficções distópicas costumam imaginar regimes políticos opressivos onde a alta tecnologia é posta a serviço da vigilância da população sob os mais variados aspectos, estabelecendo intoleráveis sistemas de controle social.

Em uma autêntica distopia à brasileira os avançados sistemas de vigilância seriam adquiridos a preços superfaturados e apenas parcialmente instalados (fora do prazo, de preferência). O equipamento instalado seria parcamente supervisionado, por falta de pessoal, empregando mão-de-obra precarizada. Finalmente, o custoso equipamento logo deixaria de funcionar, por falta de manutenção. De resto, as autoridades em nossa distopia brasileira estariam mais interessadas em coletar propinas que em realmente vigiar a população...

Gambiarra panóptica


terça-feira, 29 de agosto de 2023

A inexorável marcha do tempo


Como meus alunos perguntando sobre um tipo de disco "velhão", supostamente da época da II Guerra, usado para passar filmes - custei a entender que o artefato em questão era o DVD...

quinta-feira, 15 de junho de 2023

A pobreza, segundo o ChatGPT

Ontem, só por curiosidade, bati um papo sobre pobreza com o ChatGPT, para ver que platitudes ele me responderia. 

As respostas tendiam sempre a caracterizar a pobreza como uma infelicidade derivada de fatores múltiplos e complexos que afetam a "alocação de recursos". Pressionei de todas as maneiras possíveis para que ele me respondesse quem é responsável por essa "alocação de recursos", e só recebi respostas evasivas e genéricas.

Em linhas gerais, a pobreza seria uma coisa muito triste e lamentável, que simplesmente acontece, sem ser responsabilidade de ninguém. Perturbador, especialmente considerando que essas respostas são apenas uma colagem de material garimpado na web. Pelo menos não culpou os pobres por serem pobres. 

Em determinado momento provoquei, perguntando se pessoas ricas são cínicas - recebi uma notificação de que aquele prompt violava os termos de uso da plataforma. A inteligência é artificial, mas não é boba...

"Auto" - O robô comprometido com a preservação do status quo na animação Wall-E.


quarta-feira, 14 de junho de 2023

Prioridades civilizatórias e o paradoxo do "progresso"

Hoje um aluno escreveu em um trabalho sobre tempo e projetos de vida que um de seus sonhos para o futuro é ter "água todo dia em casa", pois o abastecimento é irregular onde mora - uma comunidade na Zona Norte do Rio de Janeiro. 

A humanidade já foi à Lua.

Uma estação espacial tripulada orbita sobre nossas cabeças.

Durante a atual pandemia foi possível desenvolver vacinas com rapidez jamais imaginada. 

Bilhões de dólares são investidos no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. 

Utilizamos rotineiramente tecnologias que deixariam Julio Verne desconcertado - e ainda nos damos ao luxo de queimar milhões de reais em fogos de artifício no Réveillon.

Apesar de tudo isso, neste século de tantos prodígios, conseguimos a proeza de termos famílias em uma das maiores cidades do hemisfério sul sem acesso regular ao recurso mais imprescindível à sobrevivência humana. 

A grande tragédia da humanidade há muito deixou de ser sua debilidade perante a natureza; milhões de seres humanos vivem à margem do "progresso" simplesmente porque ESCOLHEMOS que assim seja. Não nos falta tecnologia; falta-nos simplesmente vergonha na cara.

Nossa grande e verdadeira miséria é a monstruosa capacidade de tolerar que tanta gente viva tão mal, com uma resignação fatalista e calhorda.

Há quem tema o fim da humanidade; de minha parte, às vezes duvido que ela tenha realmente existido algum dia...

Irrigação no Egito Antigo; milênios depois, a água continua sendo um luxo para milhões de pessoas. 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Professor, o que é personalidade?"

Encerro perplexo o dia de hoje.

Venho trabalhando imaginário e mitologia com minhas turmas de 6° e 7°ano e propus uma atividade para que meus alunos criem um monstro e um herói, orientados por uma ficha, visando a posterior elaboração de uma narrativa ficcional. 

A pergunta que mais ouvi ao longo do dia foi: "Professor, o que é personalidade?" 

Encontrei extrema dificuldade para me fazer entender por alguns estudantes. Não conseguiam perceber a diferença entre uma característica física, como "forte" e outra de ordem psíquica, como "corajoso". A maneira que melhor encontrei para tornar a diferença mais inteligível foi opondo "características do corpo" a "características do coração ou da alma".  Alguns pareciam confusos com a própria definição de "característica". 

Em dezesseis anos de magistério já vi muita coisa espantosa, mas o episódio de hoje me pareceu particularmente perturbador. 

Me pergunto quanto deve ser difícil para um ser humano conquistar o mínimo de autoconhecimento, de capacidade de reflexão sobre si mesmo e sua vida, sem dominar palavras e noções tão essenciais para isso, como "personalidade" ou "característica". 

Me parece extraodinariamente difícil avaliar o impacto de semelhante empobrecimento de vocabulário não apenas sobre os estudantes propriamente ditos, mas também sobre o ambiente social em que vivem. Soa como algo quase orwelliano.

Nos últimos meses o mundo vem se mostrando perplexo com o chatbot ChatGPT, capaz de gerar textos complexos (embora superficiais) cosendo retalhos textuais extraídos de sua imensa base de dados.

É inquietante viver em uma época em que máquinas absolutamente inconscientes sejam capazes de "redigir" textos por inteligência artificial (simulacro que sempre tem muito mais artifício que inteligência) e, ao mesmo tempo, jovens humanos mostrem tamanha dificuldade para compreender palavras e noções não apenas corriqueiras, mas imprescindíveis ao desenvolvimento de suas consciências, em suas múltiplas dimensões. Alienados de ferramentas cognitivas tão poderosas, se alienam de si mesmos e, consequentemente, do mundo. 

Mais espanto que os avanços da inteligência artificial deveriam causar as graves perdas culturais coletivas, que minam nossa capacidade de expressão, comunicação e convívio. 

Um dos grandes desafios de nossa época, mais que nunca, parece ser o de reconhecer, resgatar e cultivar nossa maravilhosa capacidade de nos fazermos plenamente humanos. Nesse tempo em  que as máquinas parecem permear tantos aspectos da experiência humana, os apelos de Erasmo de Roterdã e Pico Della Mirandola se mostram não apenas atuais, mas urgentíssimos. Precisamos humanizar nosso presente, para que o futuro valha a pena ser vivido; para que não nos tornemos pessoas controladas por máquinas controladas por outras pessoas, como diria Frank Herbert - pois é exatamente disso que se trata. 

Dentro de cada um de nós dorme um potencial tremendo; que não nos faltem a sabedoria e a coragem para desperta-lo.



domingo, 17 de julho de 2022

As redes sociais estão deformando você?

Deixei de usar assiduamente as ditas "redes sociais" em janeiro de 2019; nos últimos três anos só as tenho usado esporadicamente, com finalidades muito específicas. 

Constato que a decisão me fez um bem imenso, sob muitos aspectos. Embora ainda passe mais tempo do que gostaria navegando na Internet, esse tempo se tornou muito mais fértil. Ocupo meu tempo com temas que realmente me interessam e evito as polêmicas descartáveis que mantém as redes sociais em perpétua ebulição. 

Venho percebendo que pessoas que passam muito tempo em redes sociais tendem a se tornar caricaturas de si mesmas. Costumam se tornar monomaníacas, ou talvez "oligomaníacas", excessivamente engajadas em meia dúzia de temas sobre as quais regurgitam incessantes e repetitivas catilinárias. Observo tal tendência em pessoas à minha volta e, retrospectivamente, percebo que era exatamente o tipo de comportamento ao qual eu mesmo me via condicionado.

A arquitetura das redes sociais tende a expor seus usuários a cada vez mais do mesmo, não apenas em função do modo como seus algoritmos operam, mas também pelas dinâmicas propriamente sociais que engendram. 

O excesso de comunicação propiciado pelas redes favorece a emergência de afinidades e antagonismos doentios, multiplicando interações onde os envolvidos, dia a dia, semana a semana, vão cultivando suas neuroses. Os acalorados debates com antagonistas recorrentes fazem com que muitas pessoas embarquem em verdadeiras cruzadas, ao mesmo tempo que desenvolvem uma relação algo patológica com as pessoas com cujas opiniões se afinizam, reforçando comportamentos obsessivos e, em alguma medida, compulsivos.

Para tanto contribuem também outros elementos presentes em muitos sites, blogs e serviços de Internet, como as estratégias de "link building" e SEO ("otimização para mecanismos de busca"), entre outros, sempre estimulando os usuários a uma inquietante exposição a mais do mesmo. Tendo a crer que, para muitas pessoas, isso proporcione uma quixotesca distorção da realidade, transformando moinhos de vento em gigantes - a exposição constante a determinados temas faz com que pareçam muito mais relevantes e prementes do que realmente são. 

Outro elemento que agrava essa situação é que, via de regra, esses temas obsidentes costumam estar associados a medos e receios, induzindo a variados graus de paranoia - em certo sentido, adeptos de teorias extravagantes e conspiratórias são apenas casos extremos de uma mesma patologia coletiva.

Convém ainda lembrar que essas atitudes tendem a extrapolar e extravasar para fora das redes sociais, afetando inúmeras dimensões do convívio cotidiano. Na menos pior das hipóteses, tais comportamentos se tornam uma amolação para as pessoas à volta daqueles que se deixam enredar nessas verdadeiras armadilhas emocionais e cognitivas. Nos piores casos, emergem desavenças desnecessárias e até rupturas com conhecidos, amigos e familiares. 

Com tudo isso, não quero convencer ninguém a abandonar as redes sociais; empregadas com moderação e consciência, elas podem ser úteis, divertidas e saudáveis. Fica aqui apenas o convite à reflexão de cada um sobre o modo com que lida com essas tecnologias e de que maneira se vê afetado por elas. 


 



quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Esperanças para uma humanidade esvaziada - Pensamentos de Martin Luther King

Fábricas imensas comandadas por computadores, cidades que engolem a paisagem e atravessam as nuvens, aviões que desafiam a noção de tempo - todas essas são coisas impressionantes, mas não podem ser espiritualmente inspiradoras. Nada em nossa resplandecente tecnologia pode elevar o homem a novas alturas, porque o crescimento material foi transformado num fim em si mesmo, e, na ausência de propósitos morais, o próprio homem se torna menor à medida que suas obras se tornam maiores. Indústria e governo gigantescos, combinados num intrincado mecanismo computadorizado, deixam as pessoas de fora. O senso de participação é perdido, o sentimento de que indivíduos comuns podem influenciar decisões importantes desaparece, o homem fica excluído e diminuído.

Quando um indivíduo não é mais um verdadeiro participante, quando não se sente mais responsável por sua sociedade, o conteúdo da democracia é esvaziado. Quando a cultura é degradada e a vulgaridade entronizada, quando o sistema social não gera segurança, mas induz perigo, o indivíduo é inexoravelmente impelido a se afastar dessa sociedade sem alma. Esse processo produz alienação - talvez a característica mais disseminada e insidiosa da sociedade contemporânea.

***

Muitas vezes me pergunto se a educação está ou não atingindo seu objetivo. A grande maioria das pessoas ditas instruídas não pensa de maneira lógica e científica. Até a imprensa, a sala de aula, os palanques e o púlpito, em muitos casos não nos dão verdades objetivas e imparciais. Salvar o homem do pântano da propaganda, em minha opinião, é um dos principais objetivos da educação. A educação deve permitir que a pessoa examine e pese as evidências, tenha discernimento para diferenciar o verdadeiro e o falso, o real e o irreal, os fatos e a ficção.

A função da educação, portanto, é ensinar a pensar intensamente e a pensar criticamente. Mas a educação que se contenta com a eficiência pode se provar a maior ameaça à sociedade. O criminoso mais perigoso pode ser o homem dotado de razão, mas não de moral.

Devemos lembrar que inteligência não é o bastante. Inteligência mais caráter - esta é a meta da verdadeira educação. A educação completa dá à pessoa não somente poder de concentração, mas objetivos dignos em que se concentrar. A educação ampla transmitirá, portanto, não só o conhecimento acumulado da raça [?], mas também a experiência acumulada da vida social.

***

O progresso humano não é nem automático nem inevitável. Mesmo uma olhadela superficial na história revela que nenhum avanço social chega sobre as rodas da inevitabilidade. Cada passo rumo à meta da justiça requer sacrifício, sofrimento e luta, requer os esforços incansáveis e o interesse apaixonado de indivíduos dedicados. Sem esforço persistente, o próprio tempo torna-se um aliado das forças insurgentes e primitivas do emocionalismo irracional e da destruição social. Não é hora para apatia ou complacência. É hora para ação vigorosa e positiva.

***

Devemos trabalhar apaixonada e infatigavelmente para transpor o golfo entre nosso progresso científico e nosso progresso moral. Um dos grandes problemas da humanidade é que sofremos de uma pobreza do espírito que contrasta obviamente com nossa abundância científica e tecnológica. Quanto mais ricos nos tornamos materialmente, mais pobres nos tornamos moral e espiritualmente.

Todo homem vive em duas esferas, a interna e a externa. A interna é a esfera dos fins espirituais expressos na arte, na literatura, na moral e na religião. A externa naquele complexo de aparelhos, técnicas, mecanismos e instrumentalidades por meio dos quais vivemos. Nosso problema hoje é que deixamos o interno se perder no externo. Permitimos que os meios pelos quais vivemos suplantassem os fins para os quais vivemos.

Martin Luther King com seus filhos Yolanda e Martin


quarta-feira, 21 de abril de 2021

Da coerência sem coesão

Cada vez mais percebo que muitos de meus alunos do Ensino Médio demonstram imensa dificuldade com coesão textual. 

Percebe-se que há uma tentativa de argumentar com alguma coerência, mas as frases e os parágrafos não se conectam de modo orgânico. O leitor precisa, muito laboriosamente, reunir os cacos para entender onde o redator quer chegar. 

Venho pontuando isso para meus estudantes, e ressaltando a necessidade de que eles cultivem o hábito de ler livros inteiros, textos longos. A exposição excessiva à linguagem fragmentária das redes sociais, especialmente Twitter e WhatsApp e à comunicação pelos memes acabam condicionando a capacidade deles de ler, escrever e, consequentemente, pensar. Até os filmes agora têm uma edição cada vez mais frenética, é cada vez mais raro deparar com um plano mais longo, que permita algum repouso visual e uma contemplação mais plácida das imagens. 

Vejo esse processo com grande preocupação, e me parece cada vez mais como algo irreversível. 

Talvez nossa última esperança esteja nos videogames que, paradoxalmente, trabalham com cortes muito menos abruptos, dão uma certa permanência e continuidade ao processo de interação. Há jogos que são, praticamente do início ao fim, planos-sequência. 

Tempos loucos...

Avançando da esquerda para a direita, e terminando sempre com uma bandeira por ponto final, cada fase de Super Mario Bros. é praticamente uma frase e o jogo, uma experiência de leitura...


quarta-feira, 3 de março de 2021

Tempo e ritmo

"O ritmo cria tempo; o relógio apenas o mede. Na Idade Média, o povo vivia o tempo ritmado por festas, celebrações e rituais. Pelo ritmo de festas e rituais, o tempo estava dividido em períodos, cada um com seu sentido, que todo mundo aceitava. O tempo tinha qualidade. Não se tratava de explorá-lo, mas de se engajar em seu ritmo, a fim de assim perceber o sentido da vida. Era um ritmo cultural, que unia entre si os seres humanos. O tempo sempre era percebido como tempo social".
Karlheinz Geiszler



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Mente x Máquina - Vitória impossível?

 John Henry, well, he told his captain

“Captain, a man, he ain’t nothing but a man

Before I let your steam drill

beat me down

I’m gonna die with a hammer

in my hand, Lord, Lord

I’ll die with a hammer in my hand


A lenda do bravo trabalhador John Henry sempre me encantou desde a primeira vez em que ouvi falar dela em um gibi do Supernan, com meus 10 anos de idade. O fascinante personagem folclórico é um trabalhador negro que não aceita a supremacia da máquina e morre vitorioso em uma competição contra uma perfuratriz a vapor, usando apenas seu martelo.

Na última semana travei meu próprio duelo à la mort, com uma máquina e realizei mais de uma vez algo que sempre julgara impossível: vencer um jogo eletrônico em modo "gauntlet".

Como se sabe, o modo "gauntlet" consiste em lutar contra sucessivas ondas de adversários, com poucos recursos (ou nenhum) para recuperar os danos da batalha: o que significa um árduo confronto até a derrota, sem a menor chance de vitória - exceto uma,  como me dei conta ontem.

Embora já tivesse jogado inúmeros games em "gauntlet", me tornei um aficcionado pela modalidade com meus 13 ou 14 anos,  jogando o arquiclássico Golden Axe em meu então poderoso Pentium 166. Em minha ignorância, eu imaginava que após determinado número de ondas inimigas derrotadas, haveria algo como um final surpreendente ou um prêmio. Após inúmeras tentativas descobri que estava terrivelmente equivocado. Quanto mais longe prosseguia, mais adversários enfrentava, até a inevitável "morte" no campo de honra. Essa constatação me deixou imensamente frustrado,  especialmente após todo o esforço que dedicara à empreitada guerreira.

Nunca mais retornei a Golden Axe (exceto em exposições de games antigos), mas o modo gauntlet permaneceu em minha vida. Durante alguns anos, apenas como um passa-tempo bônus após a conclusão de algum game. No entanto, amadurecendo, percebi que enfrentar gauntlets significava enfrentar a mim mesmo e superar meus próprios limites.

Para se manter de pé onda após onda, cada vez mais longe, são necessários foco e determinação a resistir "sobrevivendo" até a derrota. O momento crucial de um gauntlet é o final da partida, em que a barra de energia (ou o que o valha) se encontra praticamente esgotada e qualquer golpe adversário significa o fim da daquela batalha. Nesse momento prevalece a clareza mental de que a derrota está próxima, mas emerge a firme determinação de resistir por quantas ondas ainda for possível. A iminência da destruição e a resolução de resistir, combinadas, levam a um paradoxal estado de espírito, serenamente tenso, em que conta apenas fazer o melhor possível pelo tempo possível. Quando o "golpe mortal" finalmente chega, é recebido com a tranquiliidade de quem fez o melhor a seu alcance em uma luta onde nunca houve a mínima chance de vitória. Chegou-se tão longe quanto possível em uma jornada infinita.

Com o passar do tempo, comecei a ver os gauntlets como uma alegoria da própria vida: um combate incessante onde o que conta é a determinação de enfrentar reoluta e graciosamente cada nova onda de desafios que chega. Cada onda vencida sem danos, ou com danos mínimos, pode ser considerada, em si, uma vitória. E, com efeito, um gauntlet consiste em uma longa sucessão de vitórias contra dezenas,  até centenas de adversários, até a queda. O mais importante é tirar o máximo proveito dos limitados recursos oferecidos no início da jornada para superar os desafios encontrados.

No entanto, para minha imensa surpresa, na última semana, após tantos anos, consegui o impossível - venci o modo gauntlet.

Em minha postagem anterior, "Acidentalmente épico", registrei o momento em que, pela primeira vez, atingira a 75ª onda de atacantes no modo gauntlet do jogo Thor - God of Thunder, um excelente "beat'em-up" retrô produzido pela Wayforward para o Nintendo DS. Adquiri o jogo em dezembro de 2012 e, desde então, tenho jogado muitas vezes, tanto no no modo "story" quanto no modo "gauntlet" (ou "survival", na terminologia própria do jogo). No entanto, no preciso momento em que superava  meus limites, a máquina encontrava os seus, e travou - o que frustrou minhas expectativas de lutar "até a morte", muito embora deixando uma bela imagem residual.

No entanto, encorajado por meus progressos e determinado a vencer ao menos 100 ondas, nos dias seguintes vim jogando e, quanto mais ondas de adversários eu conseguia superar, mais ocorriam problemas técnicos. Por mais duas ou três vezes o jogo travou e, em outras ocasiões o áudio experimentou falhas cumulativas - em geral, os efeitos sonoros de ataque e feedbacks diversos iam desaparecendo, até que sobrava apenas a trilha sonora de fundo.

Somente ontem, no mais árduo dos confrontos, me dei conta de algo: nos últimos dias eu vinha derrotando não apenas o software Thor - God of Thunder em seu modo gauntlet, mas também o próprio hardware do sistema Nintendo 3 DS - especialmente, imagino eu, sua memória RAM.

A partida de ontem foi aquela onde não apenas alcancei, mas superei minha meta, derrotando 104 ondas e sendo abatido na seguinte. Durante o confronto os efeitos sonoros se foram completamente e, em minha imaginação, comparei a situação à de um combatente ensurdecido pelo ruídos do campo de batalha. A analogia tem lá seu fundamento, uma vez que a perda do feedback sonoro durante a partida causa certo desconforto e desorientação, pela perda das costumeiras pistas auditivas.

Por volta da nonagésima onda me questionei se valia a pena seguir adiante, temeroso de que o sistema de meu DS, com seus mais de 8 anos de operação não resistisse ao esforço. Ainda assim, achei que valia a pena experimentar e a partida veio a bom termo, com minha derrota no centésimo quinto round.

Mas que pensar, efetivamente, de minha "vitória" sobre a máquina? Certamente há que se pensar em suas condicionantes. A principal delas, creio eu, é que o sistema, com oito anos de uso,  já não opera mais em sua máxima potência - afinal de contas,  cedo ou tarde a entropia se faz sentir. Nesse sentido, há que se pensar mais em derrota do sistema que em vitória do usuário.

No entanto, ainda aqui há uma curiosidade: meu "hardware", por assim dizer, tem 28 anos de "uso".a mais que meu Nintendo. Não obstante, em nossas respectivas capacidades de processamento de informação, via interface de jogo, eu permaneci funcional,  enquanto o console entrou em colapso sistêmico.

Por banal que seja esse episódio,  me parece quase alentador "vencer a máquina" em tempos em que muitos advogam a substituição do humano em tantas tarefas demasiadamente humanas. Certo contemporâneo de Ford dizia que eram necessários trabalhadores baratos para operar máquinas caras. Infelizmente notamos que a mentalidade industrial pouco mudou nesses últimos 100 anos.

Apenas tardiamente me dou conta de que tanto Thor quanto John Henry travam suas respectivas batalhas usando martelos - uma das mais arcaicas, simples e eficientes ferramentas humanas. 

Não estranha que os antigos escandinavos e os trabalhadores dos EUA tenham associado o martelo a seus heróis míticos e folclóricos - afinal de contas, há pouco de heroico nas aventuras de uma perfuratriz a vapor, mas um humano com um martelo apela à imaginação, ainda que se trate apenas do Chapolim Colorado com sua marreta biônica. Não contavam com nossa astúcia!




terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Sobre "santidades" e "religiões laicas" do século XXI

Contribuição de Rodrigo Watzl

Apesar do “choro e do ranger de dentes”, o inferno é um lugar provavelmente silencioso: na própria consciência, ninguém ouve a dor alheia.

A “deusa internet” disse o seguinte: “faça-se o som... e o som se fez”. Só que, se você pensar bem, sob esse ponto de vista, não parece haver muita diferença entre o silêncio sideral e uma enlouquecida torcida de futebol.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Tantos Mundos

Extrato de Ideia para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu? Houve um tempo em que o planeta que chamamos Terra juntava os continentes todos numa grande Pangeia. Se olhássemos lá de cima do céu, tiraríamos uma fotografia completamente diferente do globo. Quem sabe se, quando o astronauta Iuri Gagárin disse "a Terra é azul", ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver. Existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? O Antropoceno tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno.

Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo - várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados. É como se tivéssemos feito um photoshop na memória coletiva planetária, entre a tripulação e a nave, onde a nave se cola ao organismo da tripulação e fica parecendo uma coisa indissociável. É como parar numa memória confortável, agradável, de nós próprios, por exemplo, mamando no colo da nossa mãe: uma mãe farta, próspera, amorosa, carinhosa, nos alimentando forever. Um dia ela se move e tira o peito da nossa boca. Aí a gente dá uma babada, olha em volta, reclama porque não está vendo o seio da mãe, não está vendo aquele organismo materno alimentando toda a nossa gana de vida, e a gente começa a estremecer, a achar que aquilo não é mesmo o melhor dos mundos, que o mundo está acabando e a gente vai cair em algum lugar. Mas a gente não vai cair em lugar nenhum, de repente o que a mãe fez foi dar uma viradinha para pegar um sol, mas como estávamos tão acostumados, a gente só quer mamar.

Viva, a Terra vive...

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Controle incontrolável

"Nosso próprio controle parece escapar do nosso controle. Como podemos dominar nossa dominação?"
Michel Serres

"Quem vigia os vigilantes?"

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Humanos, cobaias e cientistas

"Meu caro Ido... Neste mundo existem apenas dois tipos de seres humanos... As cobaias e os cientistas que têm o direito de dissecá-las".
Dr. Desty Nova [Battle Angel Alita]

quarta-feira, 10 de junho de 2020

"Será que foi bom?" - Dilemas indígenas

"Eu pensava que era ruim amansar, mas agora vi que é bom. Será que foi bom? Uau, uma máquina grande meus filhos conseguiram! Ficam lá trabalhando, sem dormir, pensando de noite [em comboiar a madeira] quando vem a chuva. Será que são mesmo Matsés? Meus filhos ficam com sono, vão se molhar na chuva grande que vai até amanhecer. Meus filhos trabalham muito! Uau, conseguiram um motor grande! Conseguiram uma máquina grande depois de conseguir dinheiro".

Trecho de relato de um idoso da etnia indígena Matsés (Vale do Javari) registrado em 1992 pelo antropólogo Walter Coutinho. Grifos meus.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

Imprensa, liberdade e responsabilidade

"A imprensa é uma grande força, mas, assim como uma torrente descontrolada de água submerge paisagens inteiras e devasta plantações, assim também uma pena descontrolada só serve para destruir. Se o controle for exterior, ele se torna mais venenoso que a falta de controle. Só pode ser vantajoso se exercido internamente. Se essa linha de raciocínio for correta, quantos jornais do mundo passariam pelo teste? Mas quem poria fim aos inúteis? E quem deveria ser o juiz? Os úteis e os inúteis, assim como o bem e o mal de forma geral, precisam continuar a existir juntos, e o ser humano precisa fazer sua escolha".
Gandhi