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Mostrando postagens com marcador História Moderna. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

 "No entanto, muitas vezes são só a reputação e o medo que protegem os navios, e não os homens que neles estão".

Richard Hawkins (1625)

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Amor Cristão

"Uma vez que tínhamos a bandeira da cruz e lutávamos por nossa fé e pelo serviço de nossa sagrada majestade, Deus concedeu-nos tal vitória e matamos muitas pessoas".
Cortés

"Quem poderá negar que utilizar pólvora contra os pagãos é como queimar incenso para Nosso Senhor?"
Oviedo


Hermenêutica bíblica à moda colonial: "índio bom é índio morto".

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O poder das fábulas

Texto de La Fontaine, dedicado ao Sr. De Barillon, embaixador da Inglaterra (traduzido por René Ferri)

Será que a hierarquia de um Embaixador permite que ele se rebaixe a escutar contos vulgares? Posso atrever-me a dedicar-vos meus versos e suas amenidades? Não serão considerados sem sentido por vós? Com certeza tendes assuntos mais importantes com que se ocupar do que com as brigas entre a Doninha e o Coelho. Lede minhas Fábulas ou não; mas não permitais que pese toda a Europa sobre nós. Que venham inimigos de todas as partes da Terra, posso entender. Entretanto, que a Inglaterra queira romper a amizade de nossos dois Reis, isso não posso aceitar. Já não é tempo de Luís descansar? Até mesmo Hércules se cansaria se tivesse de combater essa Hidra! Sempre há de aparecer nova cabeça que se levanta para combater seu esforçado braço? Se vossa perspicácia e eloquência puderem acalmar os ânimos e evitar esse golpe, imolarei cem cordeiros em vossos altares: não é pouco para um hóspede do Monte Parnaso. Por enquanto, aceitais esses grãos de incenso; não desconsiderai meus pedidos nem o relato que a vós dedico. O assunto vos convém; não direi mais nada, não permito que insistis em vossos elogios, mesmo que sejam merecidos, pois até a Inveja os cerca.

Em Atenas, cidade frívola e caprichosa, um Orador, que via sua pátria em perigo, correu para a Tribuna. Valendo-se de um discurso tirânico para forçar as vontades de uma república, falou eloquentemente sobre a salvação comum. Não prestavam atenção nele. Apelou às imagens brilhantes que excitam os ânimos dos mais lentos. Falou aos mortos; gritou e se esforçou o quanto pôde. Suas palavras foram levadas pelo vento, ninguém se comoveu. Aquele povo frívolo estava acostumado com os discursos vazios e nem se dignava a escutar o orador. Ocupavam-se de outras coisas: havia até quem ignorasse o discurso para entender às manhas de criancinhas.

Que fez, então, o tribuno? Tomou outro caminho. "Ceres partiu em viagem com a Enguia e a Pomba. Um rio atravessou o caminho; a Enguia, nadando, e a Pomba, voando, chegaram à margem oposta do rio". "E Ceres? O que fez?", perguntou o povo a uma só voz. "O que fez? Encolerizou-se contra vocês. E com razão! Como é possível que se interessem por histórias para crianças e, entre todos os povos da Grécia, sejam o único que não reconhece o perigo que os ameaça? O que deviam me perguntar não é o que Ceres fez, mas sim o que Filipe* faz". E foi assim que a assembleia, subjugada, entregou-se por completo ao Orador, tamanha a eficácia da pequena fábula!

Somos todos atenienses nesse ponto; até eu mesmo, que estou escrevendo essa moral da história. Se vierem a contar-me agora uma fábula nova, vou ouvi-la com todo gosto. Dizem que o mundo é velho, mas temos de entretê-lo e diverti-lo como a um menino.

*Referência ao rei Filipe II da Macedônia (382 a.C-336 a.C.), cujos projetos de expansão imperial visavam à Grécia; o "Orador" mencionado por La Fontaine seria o célebre Demóstenes (384 a.C. -322 a.C.), conhecido por suas Filípicas contra a ameaça macedônia.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Religiões e Iluminismo

"Assim, quando olhamos para as origens religiosas do Iluminismo, não as descobrimos em uma única Igreja ou seita. São encontradas em ambas as Igrejas [calvinista e católica] e em várias seitas. O que é comum aos homens que expressam tais ideias é que todos são, em certo sentido, heréticos: ou seja, pertencem a grupos dissidentes dentro de suas Igrejas ou são eles próprios encarados como não-ortodoxos. As Igrejas ortodoxas - católica, luterana, anglicana, calvinista - olham de soslaio para eles. [...] O Iluminismo do século XVIII, ao vir, seria uma reunião de todos os heréticos, a reintegração de um movimento [o humanismo] que a revolução religiosa tinha interrompido e transformado, mas não podia destruir".

Hugh Trevor-Roper, historiador

domingo, 15 de novembro de 2015

"Amor", medo e violência

Extrato do artigo "To love and to fear us": Intercultural violence in the English Atlantic, de Melanie Perrault (tradução minha)

"Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII havia três categorias gerais para a justa violência: punição sancionada pelo Estado ou ação militar, ações tomadas em defesa dos padrões da comunidade (inclusive hierarquias sociais, econômicas ou de gênero), e violência em nome da religião. Obviamente, tanto os perpetrados quanto as vítimas de violência buscavam construir relatos de comportamento violento em seu favor, apresentando a si mesmos como claros exemplos de Englishness e seus oponentes como perturbadores da paz. Confrontos físicos rapidamente eram transformados em uma disputa de palavras negociadas numa corte de justiça ou em uma das inúmeras formas de divulgação da palavra impressa. Nessas disputas literárias, os americanos nativos da Virgínia ou da Nova Inglaterra se envontravam decididamente em desvantagem, não tendo a oportunidade de ditar uma resposta escrita livre de um viés inglês.

As categorias mais polêmicas de violência justificável também eram as mais fluidas - enquanto a violência sancionada pelo Estado era facilmente identificável como tal, e a violência religiosa oferecia uma distinção relativamente clara entre o status de insider e outsider, a violência para manutenção dos padrões da comunidade se baseava em um conjunto de hierarquias mutuamente acordado que se encontrava constantemente sob negociação. A questão se qualquer ato individual de violência seria considerado justificável dependia em grande medida da relação entre os participantes. Violência entre iguais, embora desencorajada, era aceita como uma parte natural da condição humana. Violência administrada por uma pessoa de status superior a seus inferiores era tida como um meio necessário de impor as normas sociais, uma responsabilidade que não deveria ser objeto de abusos através de punição excessiva. A forma mais ameaçadora de distúrbio da comunidade envolvia dependentes - criados, filhos ou mulheres - usurpando a posição de seus mestres atacando violentamente seus corpos ou bens.

Num esforço para justificar sua presença no Novo Mundo, a retórica inglesa consignava todos os índios, inclusive homens adultos, ao status de dependente, tornando qualquer ato de violência dos índios uma força potencialmente desestabilizadora com implicações para toda a missão colonial. Uma vez que os nativos americanos entendessem seu adequado papel subordinado nas terras recentemente civilizadas, a violência não seria eliminada, mas seria relegada como um aspecto menos importante da vida. [...]

Para ser legítima, todavia, a violência deveria ser usada apenas como um último recurso e tinha de ser restrita. Quando administrada adequadamente, a violência física deveria supostamente ser recebida como um castigo amoroso, destinado a restaurar a ordem no ambiente doméstico. Violência aleatória ou excessiva não era tolerada, pois minava o legítimo uso da força. Vizinhos monitoravam o comportamento uns dos outros, num esforço para assegurar que punições aceitáveis não deslizariam para o abuso, embora tal regulação informal deixasse oportunidades significativas para maus-tratos. [...]

Era desse contexto que homens e mulheres ingleses atravessaram o Atlântico em meados do século XVI. Atitudes profundamente arraigadas em relação à violência deram forma aos primeiros encontros com povos nativos de diferentes culturas, oferecendo um parâmetro para a classificação dos estranhos e um conjunto de normas para regular as interações. [...] Evidentemente, observadores ingleses acreditavam que eles eram os árbitros definitivos do que constituía violência legítima, tanto para si mesmos quanto para os nativos que eles encontravam".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eles

Eu tenho medo. Muito medo.


Eles são muito perigosos. Eles são violentos e cruéis. Eles odeiam nossa civilização, Eles odeiam nossos valores. Eles querem destroçar, esmagar e queimar tudo que amamos. Eles desejam matar nossos anciãos, estuprar nossas mulheres, escravizar nossas crianças. Eles sonham em dançar sobre nossos túmulos.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.


De dia, Eles perturbam meus pensamentos. À noite, Eles povoam meus pesadelos. Eu sei, eles estão lá, em seus esconderijos, planejando dia e noite como acabar conosco. Eles tramam suas teias como aranhas famintas e maldosas. Eu sei, eu sei. De dia, Eles pensam em nossa destruição; à noite, Eles sonham com nossa ruína.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.



Precisamos fazer alguma coisa, antes que Eles nos destruam. Temos que agir mais rápido que Eles, temos que atacar primeiro. É a única maneira de sobreviver, de evitar nosso fim, de preservar nossa civilização, nossas crenças, nossos valores. A guerra é a única solução contra Eles. É lamentável, eu sei, mas Eles não deixam outra escolha. Não é possível dialogar com Eles. Eles são irracionais, perversos, traiçoeiros. Alguns entre nós discordam... Cegos... Sonhadores... Traidores! A guerra é terrível, mas necessária. Quem não está conosco, está com Eles, está contra nós. Contra Nós!


Por que Eles nos odeiam tanto?

Imagens: Detonação da bomba de Hiroshima (1945); Massacre de São Bartolomeu (Paris, 1572); Holocausto; Cruzadas; Perdas territoriais palestinas; Atentados do 11 de Setembro (2001)

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sabedoria política

Tenho trabalhado com uma fonte muito interessante, a Memória político-econômica sobre o Maranhão, escrita por volta de 1798 por Joaquim José Sabino de Rezende Faria e Silva, bacharel que exercera o cargo de Secretário do Governo da Capitania do Maranhão e Grão-Pará.

O texto era endereçado à coroa portuguesa e, obviamente, apresenta muitos pontos de vista pertinentes à época. Não obstante, apresenta muitas noções interessantes e que, até hoje, poderiam ser ouvidas com proveito - ficaria muito contente que nossos atuais governantes seguissem essas ideias. Selecionei alguns trechos para partilhar aqui:

"O cuidado da conservação humana merecer ser o primeiro cuidado de quem governa os homens".

"O padecer da humanidade é sempre horrível aos olhos do homem. E quem, pelo estro político, se esquece do ser humano, tão longe está de merecer glória, que lhe deve ser riscado o seu [sic] nome na memória do mesmo homem".

"Assim como o ator somente alcança apupadas do espectador quando se não domina do papel que representa, assim o homem público atrai a si o desprezo e o ódio dos povos, quando, no teatro civil, em vez de desempenhar o seu cargo, obra somente ações de homem particular, em tudo diferentíssimas, e, talvez, contrárias aos representantes deveres".

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sexualidades ibéricas

Extrato de O espelho enterrado, de Carlos Fuentes

"A pretensão de ser algo distinto parece ser uma das marcas das sociedades urbanas barrocas, divididas entre ricos e pobres, ordens eclesiásticas em disputa, namoros apaixonados e rejeições igualmente apaixonadas do sexo e do corpo. Ao que parece, coexistiram na época colonial um estrito puritanismo e uma explosão de libertinagem. Roland Barthes escreveu que o sadismo prevalece sobretudo nas regiões subdesenvolvidas. A crueldade sexual pode exercer-se facilmente em sociedades de estritas delimitações sociais, em que o parceiro sexual pode ser facilmente recrutado (nas legiões de criados), o objeto de prazer facilmente desprezado, e a impunidade desfrutada, ainda que praticamente em lugares escondidos. As cidades da América colonial espanhola possuíram todos esses atributos, a que se acrescentou a dimensão - de impunidade e esconderijo - do mundo religioso, de conventos e mosteiros.

O escritor mexicano Fernando Benítez, num livro delicioso chamado Los demonios en el convento, relata muitas das 'alucinantes ficções' que deram às sociedades da América Latina, junto com as suas práticas libertinas, o correspondente erotismo repressivo. O arcebispo do México nos tempos de sóror Juana, Aguiar y Seixas, tinha tamanho ódio às mulheres que não as permitia em sua presença e, se acidentalmente defrontava uma, logo cobria o rosto com as mãos. Seu horror à água (outra fobia hispânica e católica) era igualmente cáustico e, em sua fúria, havia ainda o fato de que caminhava ajudado por muletas, e as usava com violência, como o ficou sabendo o poeta Carlos de Sigüenza y Góngora, amigo e protetor de sóror Juana, quando o arcebispo lhe quebrou os óculos e lhe cortou o rosto no meio de uma contenda teológica. Aguiar y Seixas também conseguiu reprimir as brigas de galo, o jogo, os romances e, obviamente, sempre que possível, as mulheres.

Numa época dominada por prelado tão implacável, responsável pelo aniquilamento de sóror Juana, outros puritanos, inferiores ao arcebispo, mas igualmente zelosos, atuaram com presteza. Um certo padre Barcia, ao redor do final do século XVII, decidiu reunir todas as mulheres da cidade do México e encerrá-las no convento de Belém, onde jamais seriam vistas por nenhum homem. Certamente, o padre Barcia logrou apenas reunir um grande número de prostitutas, atrizes e artistas de circo. Tão logo, porém, pôde trancá-las no convento, os amantes dessas mulheres tentaram libertá-las e matar Barcia. Sitiaram o local, e quando as mulheres se rebelaram, dizendo ao bom padre que, se era aquele o céu, bem preferiam o inferno, Barcia enlouqueceu e tentou suicidar-se mediante a introdução, no reto, de supositórios de água benta.

Num tempo assinalado pela tríplice tensão do sexo proibido, do ideal de esposar Cristo e ideal da maternidade virginal, muitas freiras mexicanas, horrorizadas com seus próprios corpos, vedavam-se os olhos, transmitindo assim o seu desejo de serem cegas e surdas; lamberam o piso de suas celas até formar uma cruz com a saliva; foram açoitadas por suas próprias criadas; e se lambuzaram com o sangue dos seus próprios mênstruos. Paralelamente, os monges e sacerdotes, diz Benítez, também teriam sido chicoteados e golpeados como são Juan de la Cruz, pois viam nisso uma compensação pelos sofrimentos de Cristo no calvário".

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Batman, a Revolução Francesa e o preço da violência

Quando vi "The Dark Knight Rises" pela primeira vez fiquei muito decepcionado com o filme, que não chegou sequer aos pés dos dois anteriores. Há duas semanas resolvi assisti-lo novamente, mas dessa vez o filme me sensibilizou de outra forma. O motivo? Nesse meio tempo visitei em Paris a "Conciergerie" - prisão onde ficaram os presos políticos da Revolução Francesa.

Numa das salas da Conciergerie é possível consultar os nomes e categoria de todos aqueles que foram condenados à guilhotina durante a Revolução Francesa e estiveram presos ali. O que mais me impressionou foi a multidão de condenados vindos das camadas mais baixas da sociedade, artesãos e camponeses. Apenas uma ínfima parte dos guilhotinados pertencia à aristocracia. A Revolução, feita em nome "dos pobres", como gostava de dizer Robespierre, matou principalmente esses mesmos pobres...

Em nome da segurança da República, a mesma República se tornava insegura para cada um de seus cidadãos, vulneráveis às denúncias maliciosas, aos processos sumários e à paranóia generalizada. No fim, como se sabe, os próprios líderes se tornaram vítimas da fúria que desencadearam.

Fiquei pensando sobre como adotar o caminho da violência para a mudança social pode ser algo realmente trágico. A tormenta logo se torna incontrolável, consumindo a tudo e todos, numa voragem insana. É justamente esse clima de pesadelo que a "revolução" conduzida em Gotham City por Bane no último filme de Batman consegue evocar. As falas do personagem ecoam justamente certo moralismo falacioso contra a corrupção que fazem pensar o quanto os discursos políticos banalizadores são perigosos. Por sinal, segundo o diretor Chris Nolan, o roteiro foi originalmente inspirado em "Um conto de duas cidades", de Charles Dicken, narrativa passada na Revolução Francesa.

Creio que o maior desafio para o nosso século será a busca de meios pacíficos para superar o marasmo político em que nos encontramos. O preço da violência é muito alto, por mais sombria que seja a situação.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Teatro, aparência e poder

Escrevi esse pequeno texto como parte de minha dissertação de mestrado, mas acabei não utilizando. Resolvi postar por aqui. Por sua própria natureza de trecho inutilizado, ele começa abruptamente e não se encaminha a nenhuma conclusão, mas sei que os amigos tirarão suas próprias...
Segundo Edward Thompson, uma das noções essenciais para a compreensão das sociedades de Antigo Regime é a idéia de “teatro”. De acordo com Thompson, a exibição, o espetáculo, são essenciais ao Antigo Regime na construção de hierarquias sociais, bem como na afirmação do poder.

As execuções públicas são uma apresentação teatral, assim como as procissões, as festas, os atos de coroação, as exéquias, entre muitas outras coisas. Cada ato na vida social deve se fazer perceber por signos que o façam legíveis, em geral seguindo a um script pré-determinado e escrito coletivamente. Talvez a prática teatral que nos forneça a mais fiel semelhança com essa teatralidade social seja a Comedia dell`arte italiana, onde personagens fixos e com repertório pré-definido desempenham papéis onde se misturam as suas características costumeiras e a especificidade de cada enredo. Um dos mais célebres livros de Thompson, Costumes em comum é em grande medida, um esforço para decodificar e decifrar os signos dessa teatralidade.

É interessante aproximar essa noção de uma outra, a de “representação”, apontada por Roger Chartier como conceito chave para a compreensão da lógica de Antigo Regime. A proximidade entre as duas conceituações não pode passar despercebida. Afinal de contas, representar é o que fazem os atores sobre o palco. Segundo Chartier, “representação” é um termo polissêmico, podendo significar em sua noção mais básica a substituição de algo ausente por um signo, verbal ou não, que o substitua diante de alguém. A “representação” evoca aquilo que está distante ou invisível.

No entanto, de acordo com o historiador, a noção de representação serve no Antigo Regime para articular uma lógica que qualifica como “perversa”. Dentro dessa lógica, é abolida a distância entre a representação e o representado, essência e aparência se confundem como uma só coisa: a essência se realizaria, então, na aparência que a faria perceptível, através de seus sinais distintivos. Poderíamos exemplificar muito grosseiramente que não haveria rei sem coroa, ou papa sem mitra.

A perversidade estaria no fato de que a simples aparência seria capaz de fazer pressupor a essência, criando assim uma perigosa armadilha mental, que embotaria a capacidade dos indivíduos de perceber a essência separada da aparência e vice-versa. Assim, a aparência pura e simples seria capaz de se passar pela essência inexistente, assim como a essência desprovida da aparência que a codifica socialmente tornar-se-ia imperceptível. Retomando a metáfora teatral, seria impossível dissociar o ator do papel representado.

Como se trata aqui de atores, podemos pensar na interessante noção de “ator de si mesmo” cunhada por Fernando Bouza Alvarez ao tratar de Felipe II e da construção de sua imagem, no livro Imagen y propaganda. Cabe resgatar o contexto em que o riquíssimo conceito é empregado. Alvarez relata uma interessante anedota a respeito do Príncipe Prudente. Estaria Felipe II em viagem, e, passando por uma igreja, entraria para orar; passando adiante por outra igreja, oraria de novo. Interrogado por um dos nobres de seu séquito sobre esta atitude, o monarca responderia: “Acaso os que estão aqui me viram lá?” Segundo Alvarez, não devemos ver aí uma atitude hipócrita: os testemunhos íntimos sobre a profunda devoção do rei são inúmeros. Todavia, o cultivo da aparência exporia sua verdade íntima, sua “essência” aos que o vissem. Daí a riqueza do conceito de “ator de si mesmo”: a atuação não tem em vista a representação fraudulenta de um papel, mas a exposição de um papel que corresponderia à realidade.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O braçal trabalho dos cientistas

Em meu primeiro semestre de graduação tive de ler "Que é História?", de E. H. Carr. O autor comentava que na Idade Moderna o trabalho dos primeiros cientistas era frequentemente visto com desdém, por ser associado aos ofícios manuais, atribuídos à plebe. Essa informação me causou grande estranhamento na época, não devido ao menosprezo pelos manopera comum ao Antigo Regime, que já me era familiar. O que então me pareceu surpreendente foi essa associação entre a pesquisa científica e o trabalho braçal, tão diferente da concepção que temos hoje do cientista, enquanto intelectual, pioneiro do conhecimento. Desde então, me tornei mais familiar à ideia, através de leituras realizadas nesses últimos anos. Contudo, essa semana, pude finalmente compreender com toda a clareza!

A noite estava estrelada, ostentando uma belíssima Lua. Me lancei às atividades de astrônomo amador. Foi então que percebi o quanto necessitava me deslocar, movimentar o telescópio para um lado e outro, mexer daqui, dali e dacolá, puxar e empilhar cadeiras, sentar no chão ou me acocorar... Tudo isso para conseguir focalizar devidamente os corpos celestes que pretendia observar. De fato, por mais intelectual que tal atividade possa parecer, me dei conta da quantidade de trabalho braçal que ela envolve!

Comecei a pensar em outros casos, imaginando os primeiros anatomistas abrindo cadáveres... Que pensaria um aristocrata vendo Vesalius com um avental imundo de sangue, como um açougueiro? Ou os primeiros microbiologistas? Certamente a figura de Spalanzani fervendo caldos para cultura de bactérias, suando esbraseado pelo calor de um fogareiro não devia parecer muito lisonjeira a um fidalgo penteado, perfumado e bem vestido! Enfim, a própria imagem de um laboratório dessa época devia parecer aos nobres uma desagradável mistura de oficina, cozinha e açougue...

A questão é ainda mais marcante se pensarmos nas concepções sobre essência e aparência comuns ao imaginário do período. Como vários historiadores apontam, para a cultura de Antigo Regime, a aparência de algo deveria expressar de modo claro e inequívoco a sua essência. Um cientista suado, sujo, esfalfado seria, naturalmente, um trabalhador braçal, com toda a carga pejorativa associada aos ofícios mecânicos.

Parece-me elucidativo citar uma curiosa passagem escrita por Da Vinci, proclamando a superioridade do pintor sobre o escultor. Embora as ideias se refiram ao campo da Arte, parecem-me facilmente transponíveis ao das Ciências, mesmo porque as artes também eram consideradas ofícios manuais.

Segundo resume a historiadora da Arte Elisa Byington no livro O projeto do Renascimento, Leonardo afirmava que a escultura seria inferior porque "fazia suar, gerava mais cansaço físico e exigia menos esforço mental na sua realização". Descrevia ainda o escultor vivendo "em uma casa suja com a cabeça coberta por pó de mármore 'feito um padeiro'" (grifo meu). O pintor, ao contrário, "podia realizar seu trabalho bem trajado e sentado com grande conforto, segurando um pincel leve e usando cores agradáveis" (grifo meu). Não é difícil imaginar o que ele diria de Galileu Galilei fazendo ginástica ao telescópio...

sábado, 15 de outubro de 2011

Leituras - "A ilha do dia anterior", de Umberto Eco

Um dos melhores romances históricos que já li. Passado no século XVII, o livro narra a história de Roberto Pozzo di San Patrizio, senhor della Griva, jovem fidalgo italiano que após um naufrágio chega a num navio abandonado numa ilha do Pacífico Sul. Ali divide seu tempo entre a busca de um intruso misterioso e as memórias de sua vida. A partir desses elementos o autor constrói uma narrativa não-linear que nos leva através de um passeio pela cultura seiscentista, passando pela infância de Roberto no Piemonte, sua participação no cerco à fortaleza de Casale, suas aventuras na Paris de Richelieu, além de uma viagem pelos oceanos entre excêntricos passageiros de um navio.

O romance adota inúmeros estilos de escrita ao longo de suas páginas mimetizando de forma curiosa e criativa as peculiaridades da literatura barroca. Através de inúmeros personagens marcantes o livro evoca as características mais variadas da época, com grande destaque para as mais diversas extravagâncias intelectuais; Eco lembra que este foi o século de Descartes e Galileu, mas também uma época de literatura exuberantemente exótica, de esoterismo delirante, de utopias mirabolantes e, principalmente, que as fronteiras a separar umas das outras eram muito tênues.

"A ilha do dia anterior" é uma verdadeira viagem pelo "Grand siècle", um livro que abre as portas para uma compreensão profunda e empática da mentalidade de uma época ao mesmo tempo muito semelhante e diferente da nossa...

domingo, 3 de julho de 2011

Le Tour de France

Ontem começou a edição 2011 do Tour de France (ou "Volta da França"), a maior prova do ciclismo mundial. Quem me conhece sabe que sou aficcionado por ciclismo, embora não pratique faz alguns anos... Acompanho o Tour religiosamente todos os anos. A bem dizer, não estava muito entusiasmado com o Tour desse ano, por várias razões. Até ontem! As reviravoltas inesperadas que fazem a magia da prova estão novamente em ação, e o que prometia ser um Tour insosso como nos dois últimos anos ganhou novo interesse.

Mas esse blog é uma oficina de Clio, e a musa é tanto exigente quanto ciumenta! Então, vamos caçar onde a História se esconde no Tour de France. A tarefa nem é das mais difíceis, já que o Tour é uma das mais antigas provas esportivas do mundo: o primeiro aconteceu em 1903, comemorando 108 anos. Em todo esse tempo, pouquíssimas edições foram canceladas, devido à partipação francesa nas duas conflagrações mundiais. O Tour acontece todo ano, durante o mês de julho. Durante 21 dias os atletas percorrem cerca de três mil quilômetros pelas estradas francesas, num percurso que muda a cada competição. Depois de 108 anos, o Tour construiu inúmeras tradições e mitos.

Nesse post veremos um aspecto muito curioso dessa tradição, não apenas do Tour, mas do ciclismo em geral. O esporte chama atenção pelo seu forte ethos cavalheiresco, que vai muito além do mero fair play. De fato, a competição mostra uma curiosa permanência dos valores nobiliárquicos do Antigo Regime; os ciclistas muitas vezes se comportam como verdadeiros membros da antiga aristocracia guerreira. Alguns exemplos ilustram melhor que qualquer explicação...

Ano de 2003, centenário do Tour. Dois ciclistas competiam pela liderança da competição, o americano Lance Armstrong e seu arqui-rival, o alemão Jan Ulrich. O pelotão se engajava numa dura etapa, de escalada ao passo de Luz Ardiden, nos Pirineus. Eis que em determinado momento, Armstrong sofre uma dura queda, quando sua bicicleta se prende na bolsa carregada por uma criança. Em lugar de se aproveitar da situação, Ulrich reduziu a velocidade, aguardando seu adversário alcançá-lo, abrindo mão da vantagem. Perdeu a etapa, perdeu o Tour; ganhou a honra de tratar o rival dignamente.

Ano de 2004. O jovem francês Thomas Voeckler vestia a camisa amarela de líder da competição. Numa etapa particularmente difícil de escalada no Maciço Central, Voeckler se encontrava em terrível desvantagem, pois não havia nenhum membro de sua equipe em condições de acompanhá-lo e ajudar a enfrentar o vento. Num rasgo de generosidade que muito o honra, seu compatriota veterano Richard Virenque, que se encontrava muito à frente de Voeckler optou por aguardá-lo e trabalhou como seu gregário (espécie de ajudante), seguindo à frente e quebrando o vento. Os dois eram de equipes diferentes. Um belíssimo gesto de Virenque, em seu último Tour de France, coroando uma carreira vitoriosa, em que foi inúmeras vezes vencedor do prêmio de melhor montanhista.

Ano de 2010. Numa etapa decisiva disputavam o luxemburguês Andy Schleck, líder da prova, e o espanhol Alberto Contador. Num infeliz momento a correia da bicicleta de Schleck se rompeu, necessitando reparos. Abrindo mão do cavalheirismo, Contador atacou, ganhando a liderança; eventualmente venceu o Tour, à covardia. Ano de 2011. Na apresentação das equipes, na última sexta-feira, Contador foi vaiado durante sete minutos... O público pune a desonra!

A título de comparação, um episódio da guerra luso-francesa pelo Maranhão, em 1615. Derrotado na batalha de Guaxenduba, o líder francês La Ravardière amigavelmente envia seu médico para cuidar dos feridos portugueses. La Ravardière ficaria orgulhoso dos gestos de Virenque, Ulrich, Vietto, Hinault, e tantos outros ciclistas que contribuíram ao longo dos anos para manter acesa a chama do cavalheirismo, como verdadeiros fidalgos.