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Mostrando postagens com marcador Natureza. Mostrar todas as postagens
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sábado, 13 de fevereiro de 2021

Uma primavera se anuncia

"Sob profunda neve na última aldeia, 

Na noite passada desabrochou um ramo de ameixeira".

Poema folclórico japonês



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Primatologia, Desigualdade e Capitalismo

Não simpatizo com Sader, mas achei essa formulação simples, direta e elegante - preciosa, enfim. Creio que Pickety aprovaria.

E faz pensar no que os índios Tupinambá visitando a França no século XVI disseram a Montaigne: não conseguiam compreender como os miseráveis franceses toleravam a opulência da nobreza, nem como uma criança (Carlos IX) podia ser o "chefe" de um povo tão numeroso. 

Não à toa é nesse mesmo ensaio que Montaigne profere uma de suas frases mais célebres: "Cada um acha bárbaro o que não é seu hábito".



sábado, 30 de janeiro de 2021

Breve crônica de uma pequena tragédia

 Após um mês de "férias" em casa de minha mãe, minha esposa e eu retornamos ontem ao lar, doce lar.

Após a rotina de higienização e desempacotamento das bagagens, reparamos que uma de nossas estantes adernava. Não seria a primeira vez que uma de nossas estantes despencaria sob o peso dos livros acumulados.

Cansados, resolvemos remover os itens frágeis, como a miniatura de urna marajoara, as cerâmicas levantinas e iranianas e, not least, boa parte da memorabilia de Harry Potter (sem falar do pequeno Wolverine de borracha, singelo presente de um aluno querido).

Evacuados os itens quebráveis, fomos cuidar do lanche.

Um tanto distraído, apanhei casualmente na última prateleira o esplêndido "Dom Quixote" comemorativo do quarto centenário e constatei a presença de certa poeirinha por baixo das páginas. Péssimo augúrio. À esquerda, a capa de "Joana d'Arc" de Mark Twain mostrava indícios semelhantes.

Já apavorado, apalpei a lombada de "O nome da rosa" e um eco sinistro sugeria que o livro andava oco. Desalojando Eco da prateleira, não havia mais dúvida: cupins, essas perversas bestíolas, haviam roído os alicerces do misterioso convento e as pernas de Guilherme de Baskerville. Um tapinha para sondar a prateleira fez com que metade dela desmoronasse. De mal a pior.

Soado o alarme, minha esposa pôs-se a resgatar os habitantes dos andares superiores, enquanto eu verificava o estado dos moradores do térreo. Poltronas iam se enchendo de livros enquanto me punha a verificar a extensão das perdas. De "Poliana Moça" sobravam apenas capa e contracapa, com um recheio poeirento e disforme. De uma barata edição de Jane Austen não ficaram o orgulho nem o preconceito. Piaget, felzmente, fora roído apenas nas margens. Uma vetusta e veneranda edição de "Formação Histórica do Brasil" foi reduzida a um compacto paralelepípedo carunchoso - o que não deixa de ser emblemático, excetuando a forma demasiadamente regular. Alceste bilíngue, comemorativo do jubileu de 2.400 anos de Eurípedes escapou  com um tolerável rombo na lombada. Um adorável "handbook" para secundaristas britânicos, anterior à I Guerra Mundial, foi quase completamente devorado. Rimbaud foi reduzido a um estado em que nem Rambo pode socorrê-lo.

Apesar dos pesares, o estrago foi muito menor do que poderia ser. "Sunt lacrimae rerum".















quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Transformação

Não existe transformação que não seja uma emergência, uma atualização de potências. Nesse sentido, toda transformação é também eliminação de possibilidades, ou ao menos alteração de probabilidades. As transformações mais intensas seriam aquelas que alterassem mais profunda e extensamente a ordem das probabilidades. Talvez haja aí um caminho promissor para se pensar as sempre escorregadias relações entre evento e estrutura.


quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Tem cabimento gastar dinheiro dando bolsa pra quem faz doutorado sobre centopeia?

(por Wagner Ricardo, farmacêutico)
TEM SIM! E Muito!!!

Foi o motorista do Uber que me perguntou, depois de levar a mãe de um pós-graduando que estuda centopeia. Mas além de explicar só pra ele, achei legal explicar pra todo mundo.

Eu não sei o que ele estuda na centopeia, mas posso começar dizendo que se elas não existissem nossas casas poderiam estar cheias de baratas e formigas. Assim como representam um belo modelo de engenharia mecânica. Olha que ser mais articulado. Sabiam que existem animais que já foram usados como modelo para desenvolvimento de veículos, civis e militares?

Sabiam que tem grupos que estudam detalhadamente os órgãos emissores de sons das baleias pra fazer sonares e coisas do tipo?

Hoje temos um arsenal de anticoagulantes pra tratar pessoas que sofrem tromboses ou preveni-las, por exemplo, porque algum dia algum pesquisador resolveu estudar a saliva da sanguessuga e descobriu uma molécula legal que depois deu ideia pra se buscar outras que faziam a mesma coisa e hoje temos a dabigatrana (Pradaxa). E também temos anticoagulantes porque um dia um outro pessoal resolveu estudar porque algumas vacas da América do Norte morriam sangrando pelas ventas ao comer uns matos lá que descobriram estavam contaminados com um fungo que produzia uma molécula que competia com a vitamina K. Esse pessoal era da universidade do Wisconsin (Wisconsin Alumni Research Foundation - WARF) e por isso deram o nome ao medicamento de WARFarina. Alguém do seu entorno toma ou tomou warfarina. Certeza.

Temos alguns remédios para controlar a pressão, muito usados no mundo todo, porque um dia um brasileiro resolveu estudar o que tinha no veneno da nossa jararaca. Não é sua colega da firma, mas a cobrona mesmo e daí saiu o captopril (Capoten), por exemplo.

Da saliva do monstro-de-gila, um lagartão antipático que nós brasileiros nem conhecemos, saiu medicamento pra diabéticos, a exenatida (Byetta).

Alguns quimioterápicos para câncer muito importantes existem porque alguém resolveu estudar os microorganismos que viviam na terra perto do próprio laboratório e descobriu que esses bichinhos produziam uma substância capaz de matar células tumorais. Esse laboratório ficava na Itália, na costa do Adriático e o medicamento é por isso chamado de Adriamicina, que quem tem alguns tipos de câncer ou é próximo de quem tem, conhece. Assim como tem um quimioterápico usado mundialmente que foi desenvolvido estudando o teixo, Taxus brevifolia, um arvorão grande assim ó!, lá das banda do Canadá.

São infinitos exemplos de estudos descritivos assim que resultaram em grandes descobertas. Eu sou farmacêutico e logo meus exemplos foram de medicamentos, mas tem taaaanta coisa além de medicamentos. Ninguém sabia o que descobriria na maioria das vezes e todos estes projetos causariam estranheza no motorista do uber, no açougue, no escritório de advocacia e por ai vai.

Quando falam da biodiversidade da Amazônia, a maioria pensa nas plantinhas e alguns até dão de ombro, porque e daí se tiver um tipo de árvore a menos no mundo? Eu só penso nas moléculas que essas plantas muito loucas que só existem por lá têm. Deve ter molécula lá que cura até burrice. Se você é religioso pode até entender que foi a salvação que Deus nos deu, mas precisa procurar. Se você não é, não muda nada. A biodiversidade continua sendo fundamental porque olha, tem cada molécula irada nessas plantas que NUNCA nenhum químico ou farmacêutico teria ideia de desenhar e sintetizar. A gente precisa ver mesmo na natureza pra depois copiar, melhorar, ajustar.

A gente não usa chá nem garrafada não. Observa na natureza, descobre as moléculas e depois sintetiza no laboratório e transforma em medicamento, estudadíssimo antes de ser usado. Não me sai comendo planta por ai, que você pode cair de quatro e ficar, intoxicado. Esse assunto é sério e melhor deixar para os especialistas.

Eu vou falar mais sobre como surgem estes estudos e porque a maioria deles parece muito sem sentido e motivo de piada para a população, mas não são. Em um próximo post porque esse já ficou muito grande.


segunda-feira, 28 de março de 2016

Weber e o passarinho de Bernie Sanders

A repercussão midiática do tal passarinho que pousou no púlpito de Sanders me parece muito curiosa. Apesar de todo "desencantamento do mundo", as imaginações ainda se mostram sensíveis aos sinais de um mundo "sacralizado", mesmo que apenas num registro humorístico ou simbólico: "Forças da Natureza também podem estar apoiando Bernie", diz uma página do Facebook. Também os antigos romanos liam augúrios nos voos dos pássaros...

domingo, 26 de julho de 2015

Chapolim, herói subversivo

Apesar de seu cada vez mais estrondoso sucesso mundial, o gênero artístico "super-herói" parece ser um fenômeno exclusivamente ianque. Raramente um super-herói sério produzido fora dos Estados Unidos obtém sucesso. Por incrível que pareça, acho que o Chapolim Colorado é o único grande êxito internacional do gênero criado fora dos EUA, ou pelo menos um dos maiores êxitos - mas, obviamente, não se trata de uma obra séria. Talvez seja, justamente, uma exceção que confirma a regra. Mas como explicar esse êxito? Uma explicação tentadoramente simples é que nós, latinoamericanos, não levamos nossos respectivos países a sério, fazendo sentido que nosso herói seja uma figura picaresca. Contudo, me parece possível explorar mais profundamente o pitoresco personagem.

Para tanto, lancemos primeiro nosso olhar sobre seus equipamentos, a começar pela famosa "marreta biônica". Um martelo de combate é uma arma de natureza violenta e brutal, destinada ao esmagamento de carnes e ossos. No caso de Chapolim, o malho representa uma imagem nitidamente inofensiva, composto de plástico em cores berrantes. Não transmite ideia de peso ou dureza. Parece um brinquedo, pois é, com efeito, um brinquedo. Provoca o riso, evoca certo distanciamento da realidade, e convida o espectador à brincadeira. Ninguém vai se machucar de verdade. Nenhum crânio será esmagado. Uma cabeça realmente contundida provoca medo, piedade, censura, mas um golpe da "marreta biônica" nos faz rir.


Por outro lado, temos a pílula de polegarina (ou nanicolina). Em geral, os heróis buscam instrumentos que os tornem mais fortes e poderosos, que os engrandeçam, ao passo que as pílulas reduzem o Chapolim, tornam-no fraco e vulnerável. Um gato ou um rato tornam-se ameaças temíveis para o encolhido herói. Outra inversão, ou subversão.


Para encerrar a questão dos equipamentos, lembremos a "corneta paralisadora", cujas aparições são raras, porém marcantes. Ao realizar seu efeito paralisante, constitui uma negação do movimento, enquanto as capacidades da maioria dos super-heróis tendem normalmente à ampliação do movimento, como a força do Hulk, a velocidade do Flash ou a capacidade de voo do Superman. Se, em grande medida, os super-heróis constituem pessoas "ampliadas", o Chapolim, pelo contrário, pode ser considerado, em sentidos tanto simbólicos quanto literais, uma pessoa "reduzida".


Os bordões do personagem também são indícios interessantes para interpretá-lo. "Meus movimentos são friamente calculados" e "suspeitei desde o princípio" são frases que geralmente pontuam situações onde se passa justamente o contrário, ou seja, quando Chapolim mostra menos destreza ou perspicácia, onde ele se mostra a antítese do super-herói, desastrado e tolo.

Em muitos episódios, Chapolim é vítima de abusos verbais ou físicos, e reage, encarando o espectador: "Se aproveitam de minha nobreza". O bordão também costuma ser empregado quando o personagem se vê pressionado a agir de determinada maneira. Ambas as situações denotam a vulnerabilidade do protagonista, bem como seu papel muitas vezes passivo, ao contrário do que normalmente se passa nas narrativas de super-heróis - por exemplo, Batman e Superman, dois dos arquétipos máximos desse universo raramente perdem o controle da situação, enquanto Chapolim parece quase sempre ser um joguete das circunstâncias. Por sinal, o herói mexicano muitas vezes não age movido por seus princípios, precisando ser insistentemente coagido, ao que responde com seus clássicos "sim, eu vou..." ou "sim, eu faço..."

Por vezes, o personagem consegue, numa reviravolta, dominar os problemas, pronunciando seu vitorioso "não contavam com minha astúcia". No entanto, é bom salientar que essa astúcia do Chapolim jamais se configura como as hábeis e meticulosas manobras do Batman, mas sempre como fruto de um feliz improviso. É uma astúcia de malandro, de pícaro, não de estrategista.

Em seus atos e palavras Chapolim parece sempre agir às avessas do que se espera de um super-herói. Talvez por isso viva confundindo a sabedoria comum articulada pelos ditados e provérbios, invertendo e distorcendo sua lógica e valores. O caráter confuso e caótico do personagem talvez se expresse em sua forma mais eloquente através do bordão "Palma, palma, não priemos cânico!", subversão extrema dos códigos linguísticos, que também revela o ambíguo código de ética do Chapolim, onde os termos se subvertem: o herói se dispõe a ajudar os vilões, ou pior ainda, põem-se a agredir as próprias pessoas que viera ajudar. Definitivamente, o Chapolim não é confiável.

Por fim, todas essas características parecem convergir para a própria emblemática do personagem. Chapulines são pequenos insetos da América do Norte.



No entanto, há que se ressaltar uma peculiaridade: trata-se de um inseto consagrado a usos culinários, geralmente cultivados para consumo. Sua forma de consumo mais comum é torrado e temperado com sal, alho e suco de lima.


A maioria dos super-heróis ou vilões de inspiração animal usa como "totem" alguma espécie grande ou ameçadora: morcego, tigre, carcaju ("wolverine"), lince, leopardo, urso, lobo, tubarão, rinoceronte, águia, falcão, gavião... Mesmo nos casos de pequenos insetos ou artrópodes, trata-se de animais relativamentes agressivos, como aranhas, escorpiões ou vespas. Em uma palavra, os emblemas no universo dos super-heróis remetem normalmente a espécies de predadores. Os chapulines são justamente o contrário, isto é, presas, animais destinados ao consumo e à alimentação humana. Animais que os seres humanos comem, não animais que temem. Retornamos, de certo modo, à imagem da "marreta biônica": uma arma inofensiva, que não inspira medo.

Mais ainda, animais criados em cativeiro, os chapulines são criaturas domésticas, inofensivas dominadas pelo ser humano, enquanto a maioria dos emblemas animais usados no mundo dos super-heróis remete a espécies selvagens, que escapam ao nosso domínio e controle. Não temos um Homem-Cachorro, uma Mulher-Vaca, um Super-Cavalo, um Garoto-Bode ou uma Menina-Ovelha. Tais figuras não inspirariam temor ou respeito, mas riso - como o Chapolim. Sob esse aspecto, a figura da Mulher-Gato parece bastante reveladora: é uma personagem perpetuamente dividida entre o mundo da lei e da justiça e o submundo do crime, tal como os gatos são animais semi-domesticados, imperfeitamente domados e controlados, imprevisíveis, divididos entre o lar e a rua, a meio caminho entre a cultura e a natureza.

Assim, esse pequeno ensaio sobre o Chapolim nos conduz a uma dupla conclusão: é um herói latinoamericano não apenas porque rimos dele, mas porque o associamos a uma série de imagens culturalmente arraigadas, cristalizadas e reificadas acerca da própria América Latina: fraco, tolo, desastrado, passivo, malandro, paralisado, vulnerável, pouco confiável. E assim, o aceitamos como nosso herói, porque consideramos a nós mesmos dignos (apenas?) do riso, da caçoada, do deboche. Parafraseando De Gaulle, não somos "países sérios".

Por outro lado, o contraste entre o Chapolim e os super-heróis "sérios" expõe melhor algumas das raízes desse gênero: o selvagem, o indomável, o  natural, aquilo que não pode ser controlado. Não seria Superman uma verdadeira força da natureza? Fruto de uma cultura industrial, os super-heróis revelam o quanto de "arcaico" ou "primitivo" ainda persiste em nosso espírito, o quanto tais emblemas ainda constituem uma mitologia apelativa a nossas sensibilidades. Como já dizia Lévi-Strauss, o "pensamento selvagem" continua presente entre nós e em nós...

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quero menos

Consumimos demais. Para isso, produzimos demais, e então trabalhamos demais, poluímos demais e vivemos de menos.

Precisamos de muito menos. Consumir menos, para produzir, trabalhar e poluir menos. E então nossa vida será muito, muito mais!

Como dizia Gandhi, "a civilização, no sentido real da palavra, não consiste na multiplicação, mas na vontade de espontânea limitação das necessidades. Só essa espontânea limitação acarreta a felicidade e a verdadeira satisfação".

Quero menos!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Estrelas e concursos públicos

Venho estudando para dois concursos públicos; um na semana que vem, o outro em março. Às vezes me sinto angustiado, ansioso, oprimido.

Eis que venho a minha varanda. Na noite quente e desanuviada brilha uma miríade de estrelas. De repente, tudo parece tão minúsculo: a Terra, os concursos, eu...

Essas estrelas brilham há milhares, milhões de anos. A luz de algumas delas, que hoje nos chega, foi emitida quando os mesopotâmios ainda ensaiavam seus primeiros caracteres...

"Há muito mais céus do que suspeita nossa vã filosofia"!

Os concursos passarão. Eu passarei, meus filhos, meus netos, também. E daí? As estrelas continuarão brilhando; estavam "aqui" antes de mim, continuarão depois.

Por que ficar ansioso?

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre professores e corujas


Repensar e recriar símbolos é sempre útil e necessário.

Um dos símbolos mais difundidos do ofício de professor é, sem dúvida, a coruja. Geralmente pensamos em corujas como aves bonitinhas, fofinhas e graciosas. De fato, o são. Mas há muito escondido sob essa simples aparência.


A relação entre a coruja e o magistério é bastante antiga, derivando do simbolismo em torno de Palas Atena, na Grécia. Como se sabe, um dos principais atributos de Atena é o patronato à sabedoria e à filosofia. A associação entre a deusa e a ave parece ter sido comum desde as mais arcaicas representações da divindade. Por quê?

Provavelmente a assimilação entre o animal e Palas se deve a uma das mais conhecidas características da coruja: ela consegue enxergar na escuridão, devido a uma série de adaptações na morfologia de seus olhos e no funcionamento de seu sistema nervoso central. Quem leu Homero sabe que também Atena recebia constantemente o epíteto de "aquela de olhos glaucos". Não é difícil perceber a analogia entre sabedoria e olhar penetrante, vinculando as duas. Daí ao magistério, vai pouca distância...


No entanto, poucas vezes pensamos no papel da coruja na cadeia alimentar. Corujas são predadores crepusculares e noturnos, temíveis aves de rapina. Há diferenças entre as variadas espécies, mas compartilham alguns traços gerais. Caçam pequenos mamíferos, peixes ou outras aves. Sua fisiologia é particularmente bem preparada para caçar e matar, indo além da visão apurada: sua audição é extremamente precisa; suas asas possuem uma aerodinâmica que permite que se abatam sobre a presa de modo silencioso; a plumagem tem cores discretas, que a camuflam no ambiente; suas garras estão entre as mais potentes das aves de rapina, aptas a esmagar e estraçalhar presas; seu bico funciona como uma tesoura, capaz de destrinchar rapidamente a carne de suas vítimas.


Também Palas Atena tinha caráter guerreiro. Representava sabedoria, mas também coragem e os aspectos estratégicos da guerra. Não à toa era frequentemente retratada armada e encouraçada, pronta para o combate, inspirando os mortais nas lides bélicas. Também aí ave e deusa se confundiam...


Nesse sentido, a coruja e a divindade podem ser símbolos para o magistério em luta, para os professores que "caçam" melhores condições de trabalho, que "batalham" por uma sociedade mais justa. Como corujas, precisamos enxergar na escuridão. Devemos ter ouvidos perspicazes, para denunciar os discursos insidiosos. Precisamos de garras fortes para estrangular a ignorância.

Que nossas palavras, como o bico da coruja, possam rasgar as iniquidades que assolam nossa profissão. Que nossas asas se abram para voar em liberdade, rumo a um futuro mais belo, mais feliz e mais harmonioso...

Seja a coruja nosso totem, símbolo e força!

sábado, 27 de abril de 2013

Leituras - "Monstro de Deus", de David Quammen

Depois de uma qualificação e dois artigos, de volta ao velho blog!

Nesse meio tempo, tive oportunidade de ler alguns livros maravilhosos em minhas horas vagas, dentre os quais o interessantíssimo Monstro de Deus, cujo esclarecedor subtítulo em Português é "Feras predadoras: história, ciência e mito". A obra constitui um excelente exemplo do quanto um bom trabalho de divulgação científica, escorado em pesquisa sólida e questionamentos criativos pode oferecer perspectivas intelectuais extremamente instigantes.

David Quammen elabora uma interessante abordagem interdisciplinar, unindo ciências humanas e biológicas para discutir as relações entre as culturas humanas e os grandes predadores ou, como os denomina, os "predadores-alfa", animais capazes de atacar e devorar sozinhos um ser humano, como leões, ursos, crocodilos, tigres, entre outros.

Sua análise explora a temática em diversos sentidos, por exemplo, discutindo as relações entre mitologia e ecologia, explorando as relações entre as feras mitológicas e as interações entre os homens e seus ecossistemas em épocas arcaicas. Para tanto, recorre a textos como a epopeia de Gilgamesh, o Nibelungenlied, a saga de Beowulf ou a Bíblia. Como bem observa Quammen, Humbaba ou Leviatã eram mais que monstros - eram a personificação da fragilidade humana ante uma natureza poderosa e incontrolável, povoada por grandes animais realmente capazes de reduzir indivíduos à condição de refeição... Como sintetiza o autor, "uma morte no trânsito é um infortúnio banal que não choca a consciência pública com a mesma força que um urso homicida, devorador de carne. Uma coisa é estar morto. Outra coisa é transformar-se em carne".

Um dos pontos altos do livro é a discussão do artigo Being Prey ("Ser presa"), da filósofa australiana Val Plumwood, sobrevivente de um ataque de crocodilo em sua juventude:

"'Se a morte ordinária é um horror, a morte nas mandíbulas de um crocodilo é o horror supremo', testemunha Plumwood. Seu horror mais profundo deriva daquelas 'quebras de fronteiras proibidas' que combinam 'decomposição do corpo da vítima com a reviravolta da vitória sobre a natureza e a materialidade que a morte cristã representa. A predação de crocodilos sobre humanos ameaça a visão dualista do domínio  humano sobre o planeta no qual somos predadores mas não podemos nunca ser presas. Podemos consumir diariamente outros animais aos bilhões, mas nós mesmos não podemos ser comida para vermes e certamente não carne para crocodilos'".

De fato, tornar-se presa é a antítese radical de nossas antropocêntricas ilusões sobre o cosmo - e nosso lugar no cosmo. É assumir um papel que há muito nos recusamos a representar, especialmente em nossa sociedade hedonista, que procura inutilmente expulsar da vida as dimensões de sofrimento. É lembrar humildemente que não somos o centro do universo.

Quammen explora magistralmente as ramificações políticas, econômicas e sociais dessa questão em vários contextos históricos, formando um complexo quadro sobre a importância dos animais em nossas vidas e em nosso imaginário. Um livro indispensável para todos aqueles que se interessam pela ecologia e por nossas relações com o mundo natural.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ticiano, Rubens e araras

Há duas semanas estive em Madri, e - obviamente - no Museu do Prado, que fica além de qualquer descrição. A bem dizer, gostei mais do Prado que do Louvre...

Entre inúmeros tesouros, achei interessantíssimo comparar duas telas reproduzindo Adão e Eva, pintadas pelo italiano Ticiano e pelo flamengo Rubens, datadas respectivamente do século XVI e XVII. A obra de Rubens é reprodução do original de Ticiano, abaixo.

Como se pode ver, a reprodução pintada posteriormente por Rubens não foi objeto de grandes transformações, excetuando-se pequenas alterações formais, mas apenas uma em relação ao conteúdo: a inclusão de uma arara na cena, sobre a árvore à esquerda...

A bem dizer, a "participação especial" da arara não deve ser considerada uma novidade; desde o século XVI Dürer já havia utilizado animais tropicais em cenas da história sacra. No entanto, o que me pareceu muito curioso nessa reprodução elaborada por Rubens foi justamente o fato de ser uma reprodução que - à exceção da arara - permaneceu intocada em seus detalhes, ou seja, de alguma forma, o pintor sentiu certa necessidade de incluir esse novo elemento na cena.

Obviamente não é fácil imaginar o que se passava na imaginação de Rubens, sua motivação íntima para a deliberada inclusão da ave americana na cena originalmente representada por Ticiano. Em todo caso, a "arara de Rubens" parece um ótimo exemplo do quanto o Novo Mundo se torna essencial à Europa ao longo da Idade Moderna, se infiltrando vigorosamente no imaginário do Velho Mundo.

Por sinal, como muitos de seus contemporâneos, Rubens parece ter ficado fascinado pela natureza da América, como o demonstra a série de quadros Os cinco sentidos, executada em parceria com Jan Brueghel. As cinco alegorias também se encontram hoje no Prado. É interessante observar que, em cada um desses quadros figuram animais do Novo Mundo, especialmente aves tropicais e um mico.

Cotejar os dois quadros é muito instigante porque, de certa forma, os dois se mostram indícios de um longo processo de construção e estabelecimento da sociedade ocidental dos dois lados do Atlântico, processo durante o qual a Europa foi central durante boa parte do tempo, mas que, desde o século passado, tem se tornado cada vez mais periférica em relação a uma América cujo papel mundial cresce incessantemente...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Leituras - "Imperialismo ecológico", de Alfred W. Crosby

Depois de algumas semanas de posts "requentados", eis um saído do forno. Li esse livro dois meses atrás, e fiquei muito impressionado pela originalidade da abordagem. Apesar do título parecer um tanto sensacionalista, é um trabalho muito sério.

Resumindo muito sua problemática, a obra discute o impacto ecológico das grandes navegações em diversos ecossistemas ao redor do mundo. Sua análise se concentra principalmente na importância para esse processo do que ele chama "biota portátil", um conjunto de espécies levadas pelos europeus ao redor do mundo, desde seres humanos, animais domésticos, plantas de cultivo e ervas daninhas, vírus e bactérias. Abordando, obviamente, aspectos biológicos, mas também culturais, políticos e econômicos, o autor mergulha profundamente no estudo dessas transformações, arrastando-nos a um passeio através de séculos e continentes, da fria Groenlândia dos vikings à exótica Nova Zelândia dos maori, passando pelas planícies e montanhas da América do Norte, pelos pampas sul-americanos, pela longínqua Austrália e muitos outros lugares.

Deve ser destacado seu trabalho com as fontes, ao mesmo tempo sólido e sutil, numa pesquisa ancorada aos mais inesperados vestígios encontrados em documentos oficiais, relatos de viagem, memórias, folclore. Em momentos, a partir de breves passagens em um relato, Crosby extrai curiosos indícios sobre as transformações da vegetação, ou de observações sobre testamentos de uma região infere perspicazmente sobre a situação da fauna local em determinada época. Trabalho de mestre.

Por fim, mas não menos importante, o livro fascina pela prosa agradabilíssima, elegante e bem-humorada. A suposta aridez do tema, que outros autores provavelmente teriam abordado de forma soporífera e cansativa, sob a pluma de Crosby ganha dimensões extremamente humanas e envolventes, através das inúmeras referências literárias, divagações curiosas, anedotas ilustrativas e uma aguda percepção do cotidiano, dimensionando de modo palpável essas titânicas mudanças que são o tema central do livro.

Obviamente discordo de algumas conclusões do autor, que me pareceram um tanto apressadas e de certa reificação de alguns temas, aliás, perfeitamente cabíveis em se tratando de uma abordagem pioneira como essa, que não teve muitos seguidores, apesar de publicada pela primeira vez há quase trinta anos.

O livro é publicado no Brasil pela Companhia das Letras, na coleção Companhia de Bolso.