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Mostrando postagens com marcador Comunicação. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Professor, o que é personalidade?"

Encerro perplexo o dia de hoje.

Venho trabalhando imaginário e mitologia com minhas turmas de 6° e 7°ano e propus uma atividade para que meus alunos criem um monstro e um herói, orientados por uma ficha, visando a posterior elaboração de uma narrativa ficcional. 

A pergunta que mais ouvi ao longo do dia foi: "Professor, o que é personalidade?" 

Encontrei extrema dificuldade para me fazer entender por alguns estudantes. Não conseguiam perceber a diferença entre uma característica física, como "forte" e outra de ordem psíquica, como "corajoso". A maneira que melhor encontrei para tornar a diferença mais inteligível foi opondo "características do corpo" a "características do coração ou da alma".  Alguns pareciam confusos com a própria definição de "característica". 

Em dezesseis anos de magistério já vi muita coisa espantosa, mas o episódio de hoje me pareceu particularmente perturbador. 

Me pergunto quanto deve ser difícil para um ser humano conquistar o mínimo de autoconhecimento, de capacidade de reflexão sobre si mesmo e sua vida, sem dominar palavras e noções tão essenciais para isso, como "personalidade" ou "característica". 

Me parece extraodinariamente difícil avaliar o impacto de semelhante empobrecimento de vocabulário não apenas sobre os estudantes propriamente ditos, mas também sobre o ambiente social em que vivem. Soa como algo quase orwelliano.

Nos últimos meses o mundo vem se mostrando perplexo com o chatbot ChatGPT, capaz de gerar textos complexos (embora superficiais) cosendo retalhos textuais extraídos de sua imensa base de dados.

É inquietante viver em uma época em que máquinas absolutamente inconscientes sejam capazes de "redigir" textos por inteligência artificial (simulacro que sempre tem muito mais artifício que inteligência) e, ao mesmo tempo, jovens humanos mostrem tamanha dificuldade para compreender palavras e noções não apenas corriqueiras, mas imprescindíveis ao desenvolvimento de suas consciências, em suas múltiplas dimensões. Alienados de ferramentas cognitivas tão poderosas, se alienam de si mesmos e, consequentemente, do mundo. 

Mais espanto que os avanços da inteligência artificial deveriam causar as graves perdas culturais coletivas, que minam nossa capacidade de expressão, comunicação e convívio. 

Um dos grandes desafios de nossa época, mais que nunca, parece ser o de reconhecer, resgatar e cultivar nossa maravilhosa capacidade de nos fazermos plenamente humanos. Nesse tempo em  que as máquinas parecem permear tantos aspectos da experiência humana, os apelos de Erasmo de Roterdã e Pico Della Mirandola se mostram não apenas atuais, mas urgentíssimos. Precisamos humanizar nosso presente, para que o futuro valha a pena ser vivido; para que não nos tornemos pessoas controladas por máquinas controladas por outras pessoas, como diria Frank Herbert - pois é exatamente disso que se trata. 

Dentro de cada um de nós dorme um potencial tremendo; que não nos faltem a sabedoria e a coragem para desperta-lo.



quarta-feira, 23 de novembro de 2022

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

"O público adota as Fábricas como lar" - Entrevista com Wesley Nunes

Há mais de uma década em funcionamento, o programa "Fábricas de Cultura", mantido pelo governo de São Paulo oferece atividades culturais variadas em diversos pontos do Estado. Wesley Nunes, que trabalha na Fábrica de Cultura de Vila Curuçá, nos conta um pouco mais sobre essa bem sucedida iniciativa.

Como funcionam as Fábricas de Cultura?

As Fábricas de Cultura são administradas pela Organização Social Catavento Cultural e Educacional e funcionam a partir de uma política pública do Estado de São Paulo. Elas estão localizadas em pontos estratégicos das periferias de São Paulo - há uma em São Bernardo do Campo e recentemente foi inaugurada outra na cidade de Santos. Este ambiente fornece cursos voltados para a formação artística - entre eles posso citar Balé, Street Dance, Circo, Capoeira, Violão, Violino, Percussão e muitos outros. O maior foco é para crianças e adolescentes, entretanto, há cursos para adultos e para o pessoal da terceira idade. Não há custo nenhum de mensalidade, nem de matrícula. Além disso, são fornecidos instrumentos para os aprendizes e um lanche. As aulas duram três horas e são realizadas duas vezes por semana para as crianças e adolescentes; há aulas em um número menor direcionadas ao público adulto no período noturno e aos sábados. O espaço também dispõe de biblioteca, teatro e promove diversos eventos. Ao pensar na Fábrica de Cultura penso em um grande polo cultural de ensino. E não posso deixar de mencionar que as Fábricas estão passando por um processo de atualização e irão fornecer cada vez mais cursos nas áreas de tecnologia.

Como você avalia o impacto das Fábricas de Cultura na vida do público participante? Você poderia citar algum caso que marcou você, nesse sentido?

O público adota as Fábricas como lar. Converso com os funcionários mais antigos da casa e a frase que mais ouço é "Eu vi essa menina e esse menino crescerem". Há o ensino das artes e o envolvimento cultural através de atividades realizadas na biblioteca e pelos ateliês de ensino e isso é maravilhoso. Porém, tenho que destacar o impacto social e a construção da cidadania. Os alunos fazem amizades, desenvolvem a empatia e passam a possuir um olhar diferenciado sobre a sociedade que os cerca. Converso com os aprendizes e é incrível como eles possuem uma visão aberta. Eles enxergam o bairro ao redor deles, mas também a cidade e o país como um todo. Até os sonhos deles são grandes. Vejo que a Fábrica de Cultura conseguiu se inserir nas periferias e demonstrar que mudanças e uma vida melhor são possíveis.

Todo dia tem um caso marcante. Já ouvi criança de oito anos com um brilho nos olhos dizendo que quer ser advogada e pedindo livros; um garoto tocando como um profissional e com os trejeitos de um guitarrista; uma garotinha com uma necessidade especial feliz por poder jogar capoeira; um aprendiz que saiu da fábrica e hoje se apresenta na Europa; as mães e pais orgulhosos ao ver uma apresentação; um garoto interessado no Balé, meninas querendo jogar xadrez e os abraços de aprendizes que não tem medo de demonstrar amor e acabam encontrando um belo caminho para serem felizes. Tudo isso é marcante.

Qual é a sua história com o programa? O que significa, para você, trabalhar na Fábrica de Cultura?        

Antes de trabalhar na Fábrica a minha relação era de expectador. Ao começar, a minha vida mudou. Sou muito grato por poder fornecer educação, reflexão e entretenimento para as pessoas. Como em qualquer trabalho, existem não só os números como também as metas. Elas são alcançadas junto com a satisfação de ver vidas sendo mudadas. Perco a conta das crianças que entram só para usar o computador e um tempo depois fazem amizades, se interessam pelos cursos, pegam livros emprestados e... elas simplesmente se soltam. Nada mais recompensador que ver pessoas leves e livres. Até mesmo eu sinto-me assim. Perdi muito da minha timidez, conheci novas artes e, principalmente, vejo esperança. Estive muito tempo esperando uma grande revolução gerada a partir de redes sociais. Hoje, ao ver a mudança florescer aos poucos no mundo real, sinto-me feliz com o meu andamento profissional e pessoal - lidar com esperança me deixou mais leve para lidar comigo mesmo e com os outros.

Na sua opinião, que lições o programa pode oferecer para se pensar as políticas públicas de Cultura no Brasil? Que contribuição iniciativas como as "Fábricas de Cultura" podem oferecer não apenas a seu público alvo, mas à sociedade brasileira, como um todo?

Primeiramente, o programa já quebra muitos estereótipos de que o brasileiro não gosta de arte; de que na periferia nada vai para frente e de que o brasileiro não tem jeito. A Fábrica de Cultura forma cidadãos que estão interessados em atuar na sociedade, ter uma profissão e exigir direitos enquanto tem a plena noção de quais são os seus deveres. É um local perfeito para complementar os estudos da escola. Aliás, vendo a Fábrica atuar, eu penso em como a escola pode ser diferente. Arte deve ser parte importante na formação do jovem: estimula a empatia, ensina sobre responsabilidade e melhora a interpretação da realidade a sua volta.

Acredito que a Fábrica como um todo pode ensinar a importância da arte na formação do jovem, do adulto e do idoso. Também pode ensinar sobre empatia; acreditar em sonhos e a não só respeitar como também exigir melhorias no bairro, na cidade e no país. Um local que acolhe, ensina e diverte provoca apego. Tendo essa relação estabelecida, o cuidado para com ele será consequência. Sonho que este apego seja multiplicado para as escolas, hospitais, tribunais, transporte público e outros setores vitais para a sociedade.

Agradeço por me dar a oportunidade de falar de um local que gosto tanto!





sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Aviso aos incautos

Na última semana circulou bastante na Internet a capa da revista Money Week, acompanhada da tradução: "Aposte no Brasil - Ele liderará a economia global". Entusiastas de Lula acolheram a novidade com grande empolgação - afinal de contas, após quatro anos ridicularizados na mídia internacional, é natural que se queira ver o Brasil em posição de destaque internacional, ainda mais "liderando" a economia global.

Mas há que se ter cautela na interpretação da dita capa - bem como da matéria correspondente.

Embora simpática, a arte de capa apresenta o Brasil basicamente como exportador de commodities e turismo - a parte que sempre nos coube no latifúndio global. Vale também observar que a frase original, "It will drive global economy" é bastante ambígua. "To drive" não necessariamente significa "liderar". Eu traduziria principalmente como "Ele movimentará a economia global". Nenhuma das definições do verbo "to drive" no Merriam-Webster se traduz bem por liderar. Há imensa diferença entre movimentar/aquecer a economia e liderar a economia. 

A própria ideia de "apostar no Brasil", no jargão financeiro, é pouco alvissareira para nós - especialmente considerando o público-alvo da revista. Apostar tem conotação muito diferente de investir. No mercado financeiro, apostar geralmente é sinônimo de alto retorno em curto prazo, com pouco compromisso. Bom pro capital especulativo; péssimo para o povo brasileiro.

Convém ainda ressaltar que a imagem do futuro presidente como vendedor ambulante acolhendo os "gringos" é bastante problemática. O entusiasmo desmedido pela simples capa de uma revista estrangeira diz muito sobre o modo como nos vemos no mundo, sempre carentes de (supostos) elogios vindos "de cima" - parte integrante de nosso famoso "complexo de vira-lata".

Não é questão de pessimismo - o grande problema é que o povo brasileiro já viu esse filme mais de uma vez e sempre termina com o Brasil endividado, quebrado e à beira do colapso social. A elite econômica nacional quase sempre enriquece no processo e, no final da festa, o "povão" é que paga a conta e fica com a ressaca. Ou a gente aprende com os erros ou fica repetindo.

O texto da matéria propriamente dito, que pouca gente parece ter se dado ao trabalho de ler, confirma parcialmente esses temores. Muito embora não encoraje o investimento especulativo de curto prazo, o texto ressalta os custos relativamente baixos de se investir no Brasil, com uma elevada relação custo-benefício - ou seja, a grande oportunidade se refere menos a questões de ordem qualitativa que aos valores de investimento comparativamente baixos que o Brasil oferece em relação outras economias emergentes. 

A "grande aposta" sugerida aos potenciais investidores estrangeiros é na velha trinca agropecuária (café, açúcar, soja, milho, carne bovina e biocombustíveis), mineração (níquel e ferro) e petróleo - mais do mesmo: os séculos passam, mas a cana-de-açúcar continua sendo um dos melhores negócios da Terra de Santa Cruz. A bem dizer, não é improvável que se trate de matéria paga pelas empresas e fundos mencionados na última página como boas opções de negócio no Brasil. Não se trata de avaliação econômica desinteressada; todo o texto é direcionado a potenciais investidores/especuladores. O entusiasmo agroexportador, por sinal, tende a desabastecer o mercado interno e não é nada bom para a gente, que só quer botar comida na mesa.

Para variar, não somos os convidados do banquete; somos o prato principal...

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

"Nada mais capitalista do que ganhar a qualquer custo"

Reflexão de um amigo que generosamente oferece sua voz a muitos através do anonimato

O mundo é muito doido. Vejo gente tentando combater bolsonaristas no Twitter, no Facebook... Enfim, na Internet. Luta, gasta energia com alguém que não conhece e que vive pela frustração e não nota que o pai, a mãe e o tio votaram no Bolsonaro. Muitas vezes essa galera só quer ser ouvida porque está com medo. 

Aqui em casa é um exemplo. O meu pai adorava o Lula e, depois de tudo que aconteceu no governo e no pós Dilma, pegou uma antipatia pelo PT. 

A conversa é constante e nunca tem um ponto final. 

Ele votou no Ciro e, se eu fosse seguir o modus operandi da Internet, já tinha a frase feita "Você está contribuindo para o fascismo". Depois do resultado ele veio com uns dados sobre o Bolsonaro e depois de alguma conversa veio a frase: "Eu voto no Lula, fica tranquilo". 

Ainda não é o suficiente porque estava fazendo por mim e não por ele. É necessário paciência e sou da opinião que primeiro é necessário arrumar a própria casa. 

Só que aí ficam as perguntas:

Por quanto tempo teremos que elucidar, explicar ou até mesmo justificar o voto no Lula?

Um novo nome ou uma nova linha é arriscado demais? 

É um risco necessário para a mudança?

Aproveito este momento para fazer um desabafo que me é muito caro.

No começo fui um dos que tive medo. A minha família é simples, tradicional. Vivi sem Internet e depois de um certo tempo no novo mundo o medo tomava conta de mim ao frequentar tudo que cercava a cultura Pop. 

Comecei a ser chamado de estuprador, racista e homofóbico pelo simples fato de existir. 

Isso me deu medo, mas o aprofundar na cultura e a procura por mentes que ensinavam através da calma e não da culpa me fizerem entender como as minorias precisam de ajuda porque nunca tiveram espaço ou incentivo. Todo este conhecimento era para ser usado nas eleições e a frustração amarga era engolida a seco. Era até a construção deste texto onde me permito confessar.

Em posição de destaque não vejo candidatos negros, LGBT ou que moram atualmente nas periferias. Para eles são dados poucos segundos. Há exceções, mas a exceção não basta. Nem como vice existe qualquer resquício da representatividade. 

A todos vocês, meu amigos desabafo:

Sinto que as leituras, o escrever e o conversar sobre a cultura é em vão, se esvai.

Ao ver mais uma eleição, sinto a voz de um ser sedento pelo poder dizer:

"Temos que ganhar! Vamos ganhar a qualquer custo e depois vamos pensar em representatividade. Depois vamos dar um jeito, depois será mais fácil, depois de tirar o burguês (Aécio), depois de tirar o fascista (Bolsonaro), depois, depois...depois". 

Nada mais capitalista do que ganhar a qualquer custo.

Se eu estiver errado, por favor, me corrijam. Posso ser um maluco, mas são tempos malucos. 

Se tivesse um preto, pobre, gay e cheio de verdade em vez de promessa, seria diferente? Se ele fosse apoiado com o mesmo entusiasmo dado ao Lula, seria diferente? 

Acho que estou sonhando demais...

domingo, 25 de setembro de 2022

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

A verdade sobre Hitler

Saindo hoje de minha escola chamei um táxi. O motorista, muito simpático, indagou se era professor e que disciplina lecionava. Quando respondi que leciono História ele disse adorar o tema e disparou uma pergunta a queima-roupa:

"Hitler morreu no bunker ou não?"

Um tanto ressabiado, respondi que, ao que tudo indica, sim, Hitler morreu em um bunker. "Isso é o que quase todo mundo pensa", retrucou o taxista, em tom sapiencial, logo encetando uma verdadeira aula sobre o tema.

Resumidamente, Hitler teria fugido através de uma passagem secreta e fugido de submarino (!) para a Argentina, tendo antes passado pela Sardenha e pela Espanha, onde teria sido temporariamente abrigado pelo regime franquista.

Um tanto constrangido, comentei que há muito tempo circulam boatos sobre uma possível fuga de Hitler para a América do Sul, ao que o motorista atalhou bruscamente - não se tratava de rumor, mas de puríssima verdade comprovada por uma série de documentários do History Channel.

Fui a seguir bombardeado por uma série de fatos bombásticos revelados pelas séries do canal. 

Os nazistas desenvolveram a bomba atômica, mas, por razões desconhecidas, não chegaram a utilizar na guerra; trazida para a Argentina (no submarino?), os nazistas refugiados na América do Sul intentavam lançar a bomba da Colômbia a Nova York, mas foram impedidos pela CIA. 

Hitler era um ocultista e enviou expedições em busca de poderosas relíquias como a Arca da Aliança (como bem sabia Indiana Jones). 

A Coca-Cola é fabricada com cocaína traficada diretamente da Bolívia (sem nenhuma relação aparente com o nazismo).

Etc etc etc.

Percebendo que nenhum argumento poderia sequer contradizer as comprovadíssimas revelações dos peritos do History Channel, me resignei a ouvir em silêncio; conter o riso já era em si um esforço colossal.

Embora cômica, a experiência foi um tanto inquietante. É perturbador perceber o modo como um verdadeiro bombardeio de informações inverossímeis e sensacionalistas leva uma pessoa articulada, escolarizada e (aparentemente) sã a crer, com imperturbável convicção, nas coisas mais estapafúrdias. Como educador, me pergunto o que podemos fazer para combater efetivamente esse pernicioso estado de coisas. Valei-nos, São Sócrates de Atenas!




domingo, 31 de julho de 2022

Da genealogia do pensamento

Dedicado aos amigos Tiago Ribeiro e Vinicius Borges, interlocutores de parte dessas inquietações


O exercício profundo da autocrítica é algo trabalhoso. 


Em primeiro lugar, devo conhecer minhas próprias ideias, o modo como elas se articulam e, tarefa sempre complicada, identificar suas contradições e paradoxos. 


Em outro nível, devo buscar os contextos, épocas e lugares em que essas ideias foram engendradas, e examinar as distâncias entre a realidade que vivo e as realidades em que as ideias que ora me habitam foram pensadas. 


Por fim, e talvez mais complicado, preciso entender de que maneira essas ideias chegaram a mim, através de que caminhos e descaminhos elas palmilharam a distância entre o presente que vivo e o passado em que emergiram, em um longo processo em que foram interpretadas, filtradas, traduzidas e modificadas por uma miríade de intermediários. 


Tais são as condições mediante as quais preciso examinar a mim mesmo, em sentido amplo e profundo. Através dessas operações intelectuais posso, talvez, chegar a superar as contradições e paradoxos que percebo em mim...

domingo, 17 de julho de 2022

As redes sociais estão deformando você?

Deixei de usar assiduamente as ditas "redes sociais" em janeiro de 2019; nos últimos três anos só as tenho usado esporadicamente, com finalidades muito específicas. 

Constato que a decisão me fez um bem imenso, sob muitos aspectos. Embora ainda passe mais tempo do que gostaria navegando na Internet, esse tempo se tornou muito mais fértil. Ocupo meu tempo com temas que realmente me interessam e evito as polêmicas descartáveis que mantém as redes sociais em perpétua ebulição. 

Venho percebendo que pessoas que passam muito tempo em redes sociais tendem a se tornar caricaturas de si mesmas. Costumam se tornar monomaníacas, ou talvez "oligomaníacas", excessivamente engajadas em meia dúzia de temas sobre as quais regurgitam incessantes e repetitivas catilinárias. Observo tal tendência em pessoas à minha volta e, retrospectivamente, percebo que era exatamente o tipo de comportamento ao qual eu mesmo me via condicionado.

A arquitetura das redes sociais tende a expor seus usuários a cada vez mais do mesmo, não apenas em função do modo como seus algoritmos operam, mas também pelas dinâmicas propriamente sociais que engendram. 

O excesso de comunicação propiciado pelas redes favorece a emergência de afinidades e antagonismos doentios, multiplicando interações onde os envolvidos, dia a dia, semana a semana, vão cultivando suas neuroses. Os acalorados debates com antagonistas recorrentes fazem com que muitas pessoas embarquem em verdadeiras cruzadas, ao mesmo tempo que desenvolvem uma relação algo patológica com as pessoas com cujas opiniões se afinizam, reforçando comportamentos obsessivos e, em alguma medida, compulsivos.

Para tanto contribuem também outros elementos presentes em muitos sites, blogs e serviços de Internet, como as estratégias de "link building" e SEO ("otimização para mecanismos de busca"), entre outros, sempre estimulando os usuários a uma inquietante exposição a mais do mesmo. Tendo a crer que, para muitas pessoas, isso proporcione uma quixotesca distorção da realidade, transformando moinhos de vento em gigantes - a exposição constante a determinados temas faz com que pareçam muito mais relevantes e prementes do que realmente são. 

Outro elemento que agrava essa situação é que, via de regra, esses temas obsidentes costumam estar associados a medos e receios, induzindo a variados graus de paranoia - em certo sentido, adeptos de teorias extravagantes e conspiratórias são apenas casos extremos de uma mesma patologia coletiva.

Convém ainda lembrar que essas atitudes tendem a extrapolar e extravasar para fora das redes sociais, afetando inúmeras dimensões do convívio cotidiano. Na menos pior das hipóteses, tais comportamentos se tornam uma amolação para as pessoas à volta daqueles que se deixam enredar nessas verdadeiras armadilhas emocionais e cognitivas. Nos piores casos, emergem desavenças desnecessárias e até rupturas com conhecidos, amigos e familiares. 

Com tudo isso, não quero convencer ninguém a abandonar as redes sociais; empregadas com moderação e consciência, elas podem ser úteis, divertidas e saudáveis. Fica aqui apenas o convite à reflexão de cada um sobre o modo com que lida com essas tecnologias e de que maneira se vê afetado por elas. 


 



domingo, 27 de fevereiro de 2022

"There is no propaganda as potent or powerful as war propaganda. It seems that one must have lived through it at least once, as an engaged adult, to understand how it functions, how it manipulates and distorts, and how one can resist being consumed by it".

Glenn Greenwald

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Kataguiri, Bolsonaro e a democracia putrefata

Na última semana a ministra Rosa Weber, do STF, recusou uma queixa-crime do deputado federal Eduardo Bolsonaro contra o colega Kim Kataguiri, por calúnia e difamação. Entre outras questões, o Sr. Bolsonaro se queixava do uso do apelido "Bananinha", que tem circulado na Internet desde uma declaração jocosa do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República Federativa do Brasil.

O insólito episódio diz muito sobre o atual estado de nossa democracia, que nunca foi muito saudável, mas parece ter piorado terrivelmente nos últimos anos.

Antes de mais, deixo claro que não tenho qualquer simpatia por Kataguiri, por Lula ou pelo clã Bolsonaro, mas acho no mínimo contraditório que o Sr. Eduardo Bolsonaro recorra à Justiça contra Kataguiri, considerando que seu próprio pai, ora presidente da República, não hesita em mentir, espalhar boatos e manter uma conduta, em linhas gerais, indecorosa. Entre outras pérolas, o Sr. Bolsonaro foi o primeiro presidente do Brasil a conjugar o pitoresco verbo "escrotizar" em um pronunciamento oficial, além de ter tratado jornalistas com palavras de baixo calão mais de uma vez. Como este blog se dá ao respeito, pouparei o nobre leitor de maior aprofundamento em torno do escatológico florilégio presidencial. 

No que tange a injúrias pessoais, no entanto, creio que Bolsonaro jamais desceu tão baixo como ao tratar repetidamente o ex-presidente Lula por epítetos como "vagabundo de nove dedos", entre outros similares, aludindo jocosamente à mutilação sofrida por Lula em seus tempos de metalúrgico. Doenças, mutilações, malformações e situações similares são o tipo de coisa com o qual gente civilizada não faz brincadeiras. E é simplesmente nauseante ter como presidente de nossa República uma pessoa que não respeita as mínimas questões de decoro que deveriam ser óbvias para qualquer cidadão educado - no sentido mais elementar da palavra.

Diante de todo o histórico de grosseria e deselegância da família, causa espanto que o sr. Eduardo Bolsonaro ainda tenha a audácia de buscar a Justiça por conta de um comportamento que lhes é tão costumeiro. Mas atitudes contraditórias e incongruentes são exatamente o que se espera de pessoas com caráter dúbio.

Uma das partes mais elementares do convívio social é a reciprocidade. O ser humano costuma esperar do semelhante atitudes semelhantes a suas próprias - bem por bem, mal por mal. Idealmente, deveríamos seguir a "regra de prata", "não fazer ao outro aquilo que não gostaríamos que nos fizessem" e, mais ainda, a "regra de ouro", "tratar ao próximo como gostaria de ser tratado". Todo ser humano adulto e sério tem esses princípios em mente em suas interações sociais e, na maioria das vezes, temos consciência de que a transgressão dos mesmos costuma redundar em algum tipo de reação.

Ao recorrer ao Supremo Tribunal Federal pedindo que regule uma questão de ofensa pessoal entre ele e um terceiro, o sr. Eduardo Bolsonaro deixa evidentes sua imaturidade e falta de seriedade. Age como uma criança mimada que se julga no direito de ofender a todos, mas que não aceita ser ofendido de volta. Como diz a sabedoria popular, "quem fala o que quer, ouve o que não quer". Seria de se esperar que um deputado federal fosse capaz de agir como uma pessoa adulta que aguenta as consequências de seus próprios atos, mas evidentemente não é o caso.

No entanto, a briga entre Kataguiri e Bolsonaro evidencia um mal-estar mais profundo, que corrói a democracia brasileira nos últimos anos. O ambiente do debate político em nosso país tem se tornado cada vez mais deletério - tanto por parte dos políticos quanto, em sentido muito mais amplo, pelos cidadãos. Ofensas e grosserias se banalizaram em diversas esferas de convívio cotidiano. Esse tipo de atitude dificulta seriamente o diálogo democrático.

A simples eleição de uma figura que se comporta como o Sr. Jair Messias Bolsonaro ao cargo de Presidente da República já sugere que há algo de muito errado com o exercício da cidadania no Brasil. Não se trata aqui de discutir santidade, pureza ou qualquer coisa semelhante. Se trata meramente da capacidade de manter a mínima compostura na esfera pública - o que, diga-se de passagem, se espera de todo servidor público. Durante décadas a total falta de decoro parlamentar de Bolsonaro enquanto legislador foi tolerada, confirmando que na república brasileira não há limites para o despudor. Eleito Bolsonaro, o problema subiu a outro patamar.

No entanto, os Bolsonaro não estão sozinhos nisso. Esta é uma tendência muito mais ampla da sociedade brasileira, que se percebe em quase todos os lugares e ambientes. A noção de que a liberdade de cada indivíduo termina onde começa a do outro nunca se consolidou na cultura brasileira e essa carência só tende a piorar com a vida em grandes cidades caóticas, reforçada por uma mídia que muitas vezes endossa esse tipo de comportamento. Parece que estamos indo muito além da informalidade e da irreverência que o povo brasileiro sempre cultivou como um traço de espontaneidade e que, até certa medida, são saudáveis.

A formalidade e a cortesia são um verniz social que nos permite interagir com o mínimo de atrito com pessoas com as quais não temos intimidade, não nos sentimos à vontade ou cujo convívio nos desagrada. No entanto, enquanto coletividade, cultivamos justamente o oposto disso. Em grande medida, a grosseria e a falta de polidez são vistas como sinais de sinceridade, espontaneidade, autenticidade e mesmo de coragem. Muitos eleitores, embora desaprovassem certos comportamentos e atitudes do sr. Jair Bolsonaro os botavam na conta da sinceridade, como algo não apenas justificável, mas positivo.

Que fique bem claro, todavia, que não se trata de problema apenas de problema dos eleitores do clã Bolsonaro. Nos últimos anos se viu todo tipo de comentário despropositado e injustificável por parte de seus opositores. Muita gente que se queixava de atitudes machistas para com Dilma Roussef não via problemas quando o alvo da piada fosse Marcela Temer, Michelle Bolsonaro, Janaína Paschoal ou qualquer outra figura do campo "rival".

Não se trata de estabelecer uma falsa simetria a pretexto de equanimidade. Bolsonaro e seus eleitores mais entusiastas ultrapassam e muito os limites do que seria tolerável e admissível - ainda mais de gente que se jacta de ser cristã, defensora da moral e dos bons costumes. Não custa enfatizar ainda uma vez: Bolsonaro não criou o problema, o elevou a outro patamar e lhe deu uma visibilidade inédita - dentro e fora do Brasil.

Não há democracia que se sustente sem respeito entre os cidadãos. Parece que Eduardo Bolsonaro sentiu isso na própria carne - sentiu tanto que precisou recorrer a arbitragem judicial. 

O que convém desde já indagar é se queremos que as coisas continuem assim ou se deixaremos que piorem ainda mais. Sanear o debate político em nosso país é tarefa que cabe a cada um de nós, não apenas na relação com o outro, mas na reflexão sobre nossas próprias atitudes. Se cada um de nós se observar com a devida atenção, constatará que ainda temos muito a melhorar em nosso trato com nossos concidadãos.



segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Não alimente os monstros!

Tião Canhão é um jovem com delírios conspiratórios, opiniões bombásticas e ideias truculentas. Certo dia, ele inicia um canal no Youtube, onde expõe seu doentio modo de pensar de maneira grosseira e grotesca, em vídeos repletos de palavrões e expressões exaltadas.

A princípio, o canal de Tião rende poucas visualizações e tem menos de cem pessoas inscritas; é apenas mais um revoltado raivoso esbravejando nos esgotos do mundo digital.

Passado algum tempo, o jovem Juquinha recebe um vídeo de Tião Canhão, compartilhado por um primo em alguma rede social. Enojado e indignado, Juquinha compartilha o abominável vídeo, devidamente acompanhado de um longo texto recriminando e refutando veementemente as sandices de Tião.

Inúmeros amigos e conhecidos de Juquinha visualizam a postagem e se manifestam concordando com Juquinha ou defendendo Tião, gerando uma acalorada discussão, que se prolonga por alguns dias.

Algumas pessoas compartilham a postagem de Juquinha (com o vídeo de Tião devidamente anexado). Outras encaminham o texto e o vídeo em grupos de aplicativos de mensagens. Outros tantos, empolgados com o exaltado discurso de Tião, se inscrevem em seu canal ou, ao menos, curtem o vídeo. 

Os algoritmos do Youtube, sempre vigilantes, percebem o pico de visualizações e começam a sugerir o vídeo a milhares de usuários que acompanham canais de conteúdo semelhante, atraindo mais inscritos para o canal.

Tião Canhão viralizou!

Agora, com uns poucos milhares de seguidores em diversas redes sociais, Tião se  tornou um "influencer" com uma audiência fiel e mais alguns milhares de visualizações e compartilhamentos flutuantes.

Burro, mas não bobo, Tião aproveita os crescentes retornos da monetização de seu canal e começa também a vender camisetas com seus slogans incendiários. 

Por outro lado, Tião virou uma subcelebridade odiada por muitos. Constantes manifestações de repúdio seguem sendo postadas contra Tião que, além disso, passa a ser ridicularizado em inúmeros memes. A hashtag #TiãoBobão se populariza.

Vendo tamanha oposição, os admiradores passam a ver Tião como um ousado pensador denunciando verdades inconvenientes, relevante defensor de elevados valores, aguerrido combatente contra os inimigos da sociedade, um incansável herói acossado por crueis perseguidores.

Tião Canhão, gradativamente, passa de mero "influencer" à condição de liderança de milhares de jovens que o defendem com unhas e dentes.

Sem grande dificuldade, Tião é eleito deputado estadual. Apesar de sua inépcia como legislador, Tião segue bombando nas redes.

Os sagazes dirigentes de seu partido veem no popular e polêmico Tião uma poderosa ferramenta eleitoral. O partido aposta em lançá-lo como candidato a prefeito de uma grande capital, mesmo sabendo que não há reais chances de vencer a eleição. 

Apesar da carência de um programa de governo consistente e da baixa viabilidade de sua campanha, Tião ganha alguma cobertura da grande imprensa, pelas absurdidades que vocifera - que, afinal de contas, rendem belas manchetes, apesar de sua irrelevância. Em dias de marasmo eleitoral, Tião tem sempre alguma nova abominação para preencher a carência de notícias relevantes e entreter leitores entediados.

Em paralelo, o turbilhão virtual em torno de Tião não cessa de crescer e crescer, com novos memes, hashtags e acalorados debates em torno de sua lastimável figura. Até pessoas relativamente sensatas, a pretexto de equanimidade, ressaltam que Tião tem algumas ideias "interessantes".

Como esperado, Tião perde as eleições para prefeito, mas consegue aumentar a bancada de seu partido na Câmara de Vereadores, piorando ainda mais o já periclitante legislativo municipal de uma grande capital. Missão cumprida, Tião retorna a seu posto de deputado e inepto e, mais importante, agitador digital.

Mas Tião não está satisfeito, tem planos grandiosos para o futuro. A vida foi generosa até aqui: fama, poder, dinheiro. Nada mal. Tião sabe que há oportunidades maiores a sua espera. Os algoritmos o amam e um imenso exército de encarniçados opositores que involuntariamente ajuda a promove-lo.

Tião começou como uma lagartixa e agora é um crocodilo. Com um pouco mais de esforço, pode virar um dragão.

Excetuando certa licença poética, esta é uma história real. "Tião" existe. Me recuso a nomea-lo diretamente porque não quero mais alimentar um monstro. Eu mesmo, admito, em alguns poucos momentos, concedi a "Tião" uma atenção que ele não merecia. 

Não desejo que "Tião Canhão" cresça ainda mais e nem que outros como ele surjam.

Aqueles que combatem monstros, muitas vezes, os alimentam sem perceber. Não alimente os monstros. Deixe que eles morram de fome.



quarta-feira, 21 de abril de 2021

Da coerência sem coesão

Cada vez mais percebo que muitos de meus alunos do Ensino Médio demonstram imensa dificuldade com coesão textual. 

Percebe-se que há uma tentativa de argumentar com alguma coerência, mas as frases e os parágrafos não se conectam de modo orgânico. O leitor precisa, muito laboriosamente, reunir os cacos para entender onde o redator quer chegar. 

Venho pontuando isso para meus estudantes, e ressaltando a necessidade de que eles cultivem o hábito de ler livros inteiros, textos longos. A exposição excessiva à linguagem fragmentária das redes sociais, especialmente Twitter e WhatsApp e à comunicação pelos memes acabam condicionando a capacidade deles de ler, escrever e, consequentemente, pensar. Até os filmes agora têm uma edição cada vez mais frenética, é cada vez mais raro deparar com um plano mais longo, que permita algum repouso visual e uma contemplação mais plácida das imagens. 

Vejo esse processo com grande preocupação, e me parece cada vez mais como algo irreversível. 

Talvez nossa última esperança esteja nos videogames que, paradoxalmente, trabalham com cortes muito menos abruptos, dão uma certa permanência e continuidade ao processo de interação. Há jogos que são, praticamente do início ao fim, planos-sequência. 

Tempos loucos...

Avançando da esquerda para a direita, e terminando sempre com uma bandeira por ponto final, cada fase de Super Mario Bros. é praticamente uma frase e o jogo, uma experiência de leitura...


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Essência de um mau roteiro - "The Force is confuse with this one..."

Um dos casos em que uma imagem explica três películas totalizando quase oito horas de duração no relógio (e uma eternidade na poltrona do cinema). Seria melhor ver o filme do Pelé. Tragam George Lucas de volta!





quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Convivendo com monstros

Como dizia o matemático e filósofo Alfred Whitehead, tudo que é perverso se arruina pelas próprias forças. Quando há briga entre as cabeças de uma hidra, a melhor coisa a fazer é se afastar dela e deixar que se mordam umas às outras - pela simples impossibilidade de convencê-las a agir de outra forma.



quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Controle incontrolável

"Nosso próprio controle parece escapar do nosso controle. Como podemos dominar nossa dominação?"
Michel Serres

"Quem vigia os vigilantes?"

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Chaves, Café e Erotismo


No primoroso livro "O diário do Chaves", Roberto Goméz-Bolaños faz insinuações bem sugestivas sobre as famosas "xícaras de café" na casa 14 da vila. O menino Chaves, narrando em primeira pessoa, se pergunta ingenuamente o que Prof. Girafales e Dona Florinda passavam tanto tempo fazendo sozinhos lá dentro. 

No próprio seriado há um episódio em que o  Professor entra na casa de Dona Florinda e logo manda Quico desligar a TV e ir brincar na vila. O garoto protesta, mas a mãe diz que ela e Girafales precisavam "descansar"...

Eu era adulto quando li "O diário do Chaves" e confesso que fiquei um tanto... abalado. Especialmente porque a obra é do próprio Bolaños, então parece que a coisa sempre foi proposital, mais que uma insinuação tardia. Talvez uma piada para os adultos, inclusive porque no México não era um programa propriamente infantil; era transmitido pela Televisa para uma audiência ampla, nas noites de sábado. 

Chaves e Chapolim foram televisionados como programas "infantis" no Brasil, por opção do SBT. No entanto, inúmeros episódios possuem insinuações de caráter sexual, geralmente sutis. Há discretas referências a pornografia (as tais revistas do Seu Madruga), homossexualidade (especialmente no episódio em que vários personagens suspeitam de envolvimento homoerotico entre Seu Madruga e Prof. Girafales) e até a sadomasoquismo (o beliscão acidental de Prof. Girafales na "Bruxa do 71").

Minha geração era criança e cresceu vendo tudo com o mesmo olhar inocente. Mas imaginar que enquanto as coisas se passavam no pátio da vila havia gente (figurativamente) "haciendo amor" nos bastidores... Perturbador.

Nos choca perceber tardiamente que a relação entre Girafales e Florinda fosse além dos platônicos buquês de flores e xícaras de café...

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Línguas, Livros, Caminhadas e Travessias

Nos últimos dias empreendi uma empolgante travessia: pela primeira vez li, de capa a capa, um livro inteiro em Alemão, 270 páginas, uma de cada vez.

Não li como quem caminha sobre uma ponte, mas como quem atravessa um rio com água até os joelhos.

O livro, obviamente era "Krabat", de Ottfried Preußler, uma de minhas obras favoritas de fantasia, que descobri quase por acaso, na Bienal de 2007, num balcão de livros encalhados.

Ainda no ônibus, retornando para casa, abri o livro e o devorei em menos de 48 horas. Assim é a prosa de Preußler. Nos anos seguintes li "Krabat" mais duas vezes, ainda na língua de Camões.

Em 2012, quando Priscila e eu partimos para nosso inesquecível verão europeu, um de meus objetivos era trazer para casa um exemplar de "Krabat" na língua original.

Iniciei minha busca desde o primeiro passo em solo germanófono, na insossa Zurique, provavelmente a cidade mais prosaica, chata e pequeno-burguesa do mundo. Em Zurique avistei quantidade de carros de alto luxo como em nenhum outro lugar, mas as livrarias eram escassas, e não havia exemplar de "Krabat"em nenhuma delas, para minha grande decepção.

Felizmente Zurique (onde jamais pretendo zurückgehen) era apenas uma escala. Dali tomamos um trem noturno para Viena com seus mil encantos. Assim que descemos na Hauptbahnhof e tomamos nosso Frühstück, procuramos a livraria da estação. Em meu sempre claudicante alemão, me dirigi à balconista:

"Guten Morgen! Haben Sie 'Krabat', bitte?"

A moça arregalou seus olhos azuis:

"'Krabat'?! Von Preußler?!"

Me senti como quem perguntasse se havia pão na padaria. Retruquei:

"Ja. 'Krabat', von Ottfried Preußler. Haben Sie es...?!"

"Natürlich!"

Sem delongas, a moça atravessou a livraria na diagonal e em poucos segundos eu tinha a relíquia em minhas mãos, como um Parsifal que houvesse encontrado seu Santo Graal:

"Danke schön! Ich liebe 'Krabat'!"

Meu Alemão era insuficiente para expressar adequadamente minha gratidão, mas imagino que o sorriso tenha sido mais que expressivo. A moça sorriu de volta, com uma longa frase, da qual pouco entendi.

Meses depois, de volta ao Brasil, finalmente tomei meu exemplar germânico de "Krabat" para, supostamente, me deleitar com a prosa de preußleriana original. Em vão. Após muitas consultas ao dicionário e à tradução brasileira, desisti da tarefa que se revelou ingrata.

Com imensa frustração entreguei "Krabat, von Preußler" a uma prateleira. Havia viajado meio mundo atrás daquele livro, mas agora que o tinha em minhas mãos, não conseguia juntar as palavras, frases, parágrafos e páginas para fazer um romance. Eu enxergava as árvores, mas a floresta escapava a meus olhos. Me senti como um Parsifal que houvesse encontrado o Santo Graal, mas permanecesse incapaz de contempla-lo em sua ofuscante luminosidade.

Sempre tive facilidade para aprender línguas - a começar pela Portuguesa. Dizem meus familiares que comecei a falar com espantosa fluência com menos de um ano de idade. Alfabetizado, logo comecei a buscar livros cada vez maiores. Aos sete anos encasquetei de ler os dois imensos volumes de "Moby Dick" que tínhamos em casa: "Chamei-me Ismael". Naufraguei como os tripulantes do Pequod; pior, parei no meio do caminho para Nantucket, antes mesmo de embarcar rumo à trágica aventura.

Como Acab, fiquei obcecado por abater Moby Dick - o livro, não o cachalote. Pouco mais tarde, com 13 anos, fortalecido pelas jornadas no Mississipi ao lado de Tom Sawyer, Huckleberry Finn e Mark Twain e por outras aventuras com Emília, Narizinho, Pedrinho e Monteiro Lobato, finalmente resolvi minha velha rixa com Melville e seu temível cachalote branco. Conheci Queequeg, embarquei no Pequod, atravessei o Cabo Horn, e sobrevivi ao naufrágio com Ismael, agarrado a um caixão. Era um livro denso para um leitor imaturo. Ainda assim, impressionante. É um clássico ao qual ainda preciso retornar (agora, na língua original).

Alfabetizado em Português, outros horizontes linguísticos me acenavam. Em criança, um de meus livros favoritos era "O Pato Poliglota" - e eu sonhava em ser como aquele pato! Me encantavam os recuerdos em diversas línguas, colecionados por meu avô em seus tempos de marinheiro globe-trotter.

Na escola primária, "aulinhas" de Inglês. No cinema e nos VHSs eu tentava (com pouco sucesso) encontrar correlações entre as legendas e as falas dos filmes. Com Collor, Itamar e FHC nosso mercado foi se abrindo cada vez mais às importações e chegavam a minhas mãos produtos com rótulos e manuais de instruções em várias línguas (era no tempo em que manuais de instruções eram longos, minuciosos e impressos; altre tempi). Às vezes passava horas e horas debruçado sobre essas preciosidases. Eram minhas pedrinhas de roseta; minha avó caçoava de meus rudimentares exercícios de linguística comparativa, mas é uma mania que ainda hoje me acompanha.

Logo mais chegavam ao Brasil os caríssimos "trading cards" de super-herois - um pequeno luxo que minha suburbana família de classe média baixa podia me conceder de vez em quando. Avidamente colecionados, me proporcionaram duradoura experiência com a língua de Shakespeare. Lia e relia os cartõezinhos coloridos como um dedicado epigrafista, acompanhado de um pesado dicionário Inglês-Português. Certa vez meu avô cometeu a insensatez, duramente censurada por minha mãe, de me satisfazer o capricho de comprar um gibi importado do Batman por R$ 40,00 - quase meio salário mínimo à época...! Os games e, mais tarde, os livros, completaram minha introdução à anglofonia. "Treasure Island", de Robert Louis Stevenson foi o primeiro livro que li em inglês (em barata edição da "Penguin Classics", must be said).

Entrei no Colégio Pedro II no tempo em que os ginasianos tinham o luxo de ter aulas de Inglês, Francês e Latim. Je suis tombé follement amoureux de la langue française. Aos 13 anos, enquanto lia Moby Dick, ingressei na Aliança Francesa, cujas mensalidades minha mãe pagava com algum aperto (mesmo depois que meu bom desempenho me garantiu um desconto de 40% nas mensalidades). Foi nessa época que descobri a Livraria Leonardo Da Vinci  (a autêntica). Com o real valorizado e o franco não-tanto, iniciei uma vasta coleção de Astérix e, mais importante, completei minha coleção das aventuras de Tintin et Milou. Logo descobri as aventuras de Arsène Lupin, que devorei na Mediateca da Maison de France.

O portunhol falamos todos de berço, e me iniciei na língua de Cervantes e Bolaños com "El Lazarillo de Tormes". Com um bom dicionário, me viro na língua do Lácio e adquiri alguma fluência na língua de Dante acompanhando o Giro d'Italia pela Internet, na Gazzetta dello Sport, especialmente o fabuloso Giro de 2004, com a inesperada conquista da Maglia Rosa pelo "Piccolo Principe" Damiano Cunego - mesmo ano da epopeia de Thomas Voeckler no Tour de France, que durante várias etapas se agarrou heroicamente ao Maillot Jaune tomado na lendária Trouée d'Arenberg.

Português, Francês, Inglês, Espanhol, Italiano e um pouco de Latim. Mas o desafio maior, a montanha mais alta, o castelo mais inexpugnável, resistia, e resiste ainda, a minhas investidas: o Alemão.

Tinha meus 15 anos quando me caiu entre as mãos um CD da "Paixão segundo João", de ninguém menos que Johann Sebastian Bach, devidamente acompanhado por um encarte bilíngue, em Alemão e Francês - era no tempo em que CDs vinham acompanhados de robustos encartes - vergangenen Zeiten. Tomei a temerária decisão de aprender Alemão fazendo uma xerox do dito encarte. Mais fácil planejar que fazer - faltou combinar com os alemães! Um recuo estratégico se fez necessário.

Anos mais tarde, em 2003, um maduro cavalheiro em seus 20 anos e graduando em História (nada mais arrogante que um graduando), resolvi empreender meu ataque definitivo contra Deutschenschloss. Munido de dicionários, um livreco de conversação para viajantes e uma pasta repleta de textos impressos da Internet, comecei a estudar Alemão com alguma seriedade e muita irregularidade.

Após alguns anos de inconstantes esforços, conseguia ao menos ler gibis em Alemão - retornando de Veneza, inclusive, passei uma agradável manhã na estação de Munique, lendo gibis (uma chuva torrencial desencorajava qualquer tentativa de passeio). Em Munique embarcamos em um trem da Deutsche Bahn que, por dentro, parecia um cenário de Star Wars; em Düsseldorf tomamos um trem da SNCF onde degustei o couscous marroquino mais saboroso de que me lembro. Só chegamos em Paris à noite, cansados, sedentos e famintos, devido a um terrível acidente ferroviário que nos reteve por horas, esgotando todo o estoque da lanchonete - quase como a bande dessinée "Le Transperceneige", exceto pela antropofagia. Tudo isso com "Krabat, von Preußler" na bagagem.

Em 2013 (re)comecei a estudar Alemão usando o excelente e gratuito aplicativo Duolingo, mas uma série de compromissos acadêmicos e problemas familiares me impediram de manter a disciplina adequada.

Iniciei 2020 firmemente decidido ao assalto definitivo contra Deutschenschloss. Estava determinado a ler em Alemão com desenvoltura até dezembro. Das oder nichts! E assim tenho feito, estudando Alemão quase diariamente, mit mein ganzen Herz.

Há alguns dias terminei de ler "Soie", tradução francesa de "Seta", de Alessandro Baricco, um delírio elsevírico magistralmente ilustrado pela maravilhosa Rébecca Dautremer, com capa artesanal impressa "a quente" num ateliê parisiense, diagramação impecável, papel de textura indescritível, impresso e encadernado numa seleta tipografia de Barcelona.

Ainda aturdido por semelhante fantasia editorial, lida em duas madrugadas, me pus a percorrer minhas estantes em busca de nova leitura.

Foi então que Krabat me chamou.

Timidamente peguei o livro. Ist mein Kraft jetzt genug? Findo o primeiro capítulo, me senti confiante, prosseguindo, com uma ou outra dificuldade, através das 270 páginas, sem recorrer a nenhum dicionário. Wunderschön! Dreimal Hurrah!

Ler "Krabat" em Alemão, apreciando a prosa de Preußler até em sua poética descrição dos tons de verde da grama primaveril foi a realização de um sonho.

Uma breve travessia, após uma longa, exaustiva e, por vezes, desanimadora caminhada. Dezessete anos de esforços foram necessários para ler estas 270 páginas. Mas esta foi apenas uma etapa de uma longa jornada, que espero prosseguir em outros anos e outras páginas.

Finalmente penetrei nos jardins de Deutschenschloss. Ainda há muitos recantos a explorar nesse castelo...


terça-feira, 16 de junho de 2020

A-KI-RA e AGOSTINHO



A-KI-RA. 

Um dos melhores mangás de todos os tempos, criado por Otomo Katsuhiro Sensei e considerado uma das obras fundadoras da estética cyberpunk. Sua adaptação cinematográfica contribuiu muito para a disseminação da cultura pop japonesa no Ocidente. 

A-GOS-TI-NHO, por sua vez, é um personagem vivido pelo ator e humorista brasileiro Pedro Cardoso no remake do seriado cômico "A Grande Família", realizado pela Rede Globo, um dos maiores conglomerados de telecomunicações da América Latina e do planeta Terra. O seriado "A Grande Família" encontrou bastante sucesso, sendo prolongado por várias temporadas. 

Um de seus protagonistas é o mencionado AGOSTINHO Carrara, taxista suburbano, de caracterização picaresca como um típico "malandro", termo da Língua Portuguesa bastante usado na região do Rio de Janeiro e adjacências para identificar pessoas com tendência a resolver problemas do cotidiano de maneira informal e, ocasionalmente, às margens do ordenamento jurídico da República Federativa do Brasil. 

Seriados são uma forma de entretenimento comum entre os primatas da subespécie Homo sapiens sapiens, que atualmente exerce sua efêmera hegemonia sobre a biosfera terrestre, correntemente ameaçada pelo vírus identificado pelos ditos primatas como "COVID-19", embora alguns dentre os mencionados primatas considerem que o fármaco denominado Hidroxicloroquina seja mais que suficiente para conter o surto do vírus supracitado (crença esta desprovida de crédito entre a seleta coletividade de primatas autoidentificada como "comunidade científica"). 

Note-se que a pandemia de COVID-19 eclodiu no ano de 2020, impedindo a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio, de maneira semelhante àquela retratada no mangá AKIRA, que prefigurava com décadas de antecedência a programação dos ditos Jogos Olímpicos para o exato ano de 2020, sendo sua realização impedida por um cataclisma (a saber, "o despertar de Akira"), o que pode levar a crer que Otomo, além de ser um dos mais talentosos mangakás da história também teria algum tipo de habilidade precognitiva como aquelas ostentadas pelos próprios personagens paranormais do dito mangá. 

Este longo texto, escrito em avançada hora, sugere que seu autor, acometido de otite, se encontra fatigado por suas penosas tarefas de docência a distância, sonolento e um tanto delirante.