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Mostrando postagens com marcador Culturas indígenas. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 3 de outubro de 2023

Guarani Taradão - Literatura pelo método confuso

-O Guarani era taradão, né, Professor?

-O Guarani...?!

-O professor de Literatura é que disse; o Guarani só pensava em sexo!

- Será que você não está falando do Macunaíma, de Mário de Andrade?

-Ah, é! Acho que era esse aí...

Errou o índio, mas pelo menos estava atento à aula de Literatura...

"Ceci n'est pas Peri".





terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Sangue indígena

Todo brasileiro tem sangue indígena nas veias; alguns também o trazem manchando as mãos. 

Imagem de Gerd Altman, via Pixabay


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Cogito, ergo...

"Se Descartes nos ensinou, a nós modernos, a dizer 'eu penso, logo existo' - a dizer, portanto, que a única vida ou existência que consigo pensar como indubitável é a minha própria -, o perspectivismo ameríndio começa pela afirmação duplamente inversa: 'o outro existe, logo pensa'. E se esse que existe é outro, então seu pensamento é necessariamente outro que o meu. Quem sabe até deva concluir que, se penso, então também sou um outro. Pois só o outro pensa, só é interessante o pensamento enquanto potência de alteridade".
Eduardo Viveiros de Castro





quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Tantos Mundos

Extrato de Ideia para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu? Houve um tempo em que o planeta que chamamos Terra juntava os continentes todos numa grande Pangeia. Se olhássemos lá de cima do céu, tiraríamos uma fotografia completamente diferente do globo. Quem sabe se, quando o astronauta Iuri Gagárin disse "a Terra é azul", ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver. Existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? O Antropoceno tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno.

Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo - várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados. É como se tivéssemos feito um photoshop na memória coletiva planetária, entre a tripulação e a nave, onde a nave se cola ao organismo da tripulação e fica parecendo uma coisa indissociável. É como parar numa memória confortável, agradável, de nós próprios, por exemplo, mamando no colo da nossa mãe: uma mãe farta, próspera, amorosa, carinhosa, nos alimentando forever. Um dia ela se move e tira o peito da nossa boca. Aí a gente dá uma babada, olha em volta, reclama porque não está vendo o seio da mãe, não está vendo aquele organismo materno alimentando toda a nossa gana de vida, e a gente começa a estremecer, a achar que aquilo não é mesmo o melhor dos mundos, que o mundo está acabando e a gente vai cair em algum lugar. Mas a gente não vai cair em lugar nenhum, de repente o que a mãe fez foi dar uma viradinha para pegar um sol, mas como estávamos tão acostumados, a gente só quer mamar.

Viva, a Terra vive...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Vozes da Terra

Extrato de  Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

O nome krenak é constituído por dois termos: um é a primeira partícula, kre, que significa cabeça, a outra, nak, que significa terra. Krenak é a herança que recebemos dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como "cabeça da terra", como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem essa profunda comunhão com a terra. Não a terra como um sítio, mas como esse lugar que todos compartilhamos, e do qual nós, os Krenak, nos sentimos cada vez mais desarraigados - desse lugar que para nós sempre foi sagrado, mas que percebemos que nossos vizinhos têm quase vergonha de admitir que pode ser visto assim. Quando nós falamos que o nosso rio é sagrado, as pessoas dizem: "Isso é algum folclore deles"; quando dizemos que a montanha está mostrando que vai chover e que esse vai ser um dia próspero, um dia bom, eles dizem: "Não, uma montanha não fala nada".

Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos".

"Não, uma montanha não fala nada"...

segunda-feira, 15 de junho de 2020

"Cocô de índio petrificado" - Um emblema

Quando mais um museu brasileiro pega fogo, é oportuno lembrar a mais que emblemática fala do Sr. Jair Messias Bolsonaro reclamando que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional "atrasa obras" por causa de qualquer "cocô de índio petrificado", como se a missão do IPHAN, instituição quase centenária, que teve Mário de Andrade como um de seus fundadores, fosse acelerar obras, e não zelar pelo patrimônio cultural do povo brasileiro.

Em que pese a característica prosa do atual presidente e guardadas as devidas nuances, a fala é fiel retrato do modo como pensamos, enquanto coletividade. 

Há alguns anos lembro de um blogueiro petista que reclamava do atraso de uma obra do apressado "Programa de Aceleração do Crescimento", que andava atrasada devido à presença de uma comunidade de anfíbios ameaçados de extinção no futuro canteiro de obras. Segundo o digníssimo publicista, seria um exagero de regulamentação ambiental - concluía que, entre tantas espécies brasileiras de batráquios, uma a mais ou a menos faria pouca diferença. Por que se preocupar com biodiversidade quando precisamos construir um viaduto?

Assim segue o Brasil: para que se "acelere" o suposto "crescimento", um sapo a mais ou um museu a menos pouca diferença podem fazer.

O povo brasileiro corre sempre, sem saber muito bem para onde ou para quê. Correr, aos trancos e barrancos, tropeços e trambolhões, é o que nos basta. Que se destrua o "cocô de índio" - e até o índio, principalmente o índio - se necessário for.

Seguimos sempre em crescimento acelerado, seja para construir Belo Monte ou para escalar a curva pandêmica. "O Brasil não pode parar".

Como dizia um velho slogan, "esse é um país que vai pra frente" - e pouco se importa com o que deixa para trás...

"Après nous, le déluge" - Luís XIV bem merecia ser brasileiro.

Urnas funerárias amazônicas - mas há quem confunda patrimônio arqueológico com fezes...

O Brasil segue em chamas

Hoje houve um incêndio de graves proporções no Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais.

Mais perdas irreparáveis de nosso inestimável e inestimado patrimônio paleontológico, arqueológico, etnográfico, botânico, zoológico...

Do pouco que temos, é triste que percamos sempre tanto. Perdemos até o que nem imaginávamos que tínhamos.

Sonhamos baixo e nos contentamos com pouco. Qualquer migalha nos satisfaz.

Para usar o velho ditado, somos como burros contemplando palácios. Pior: somos burros incendiando palácios.

Sempre zelosos com o efêmero, seguimos consumindo o que deveria ser duradouro.

Choramos quando uma catedral arde em Paris, mas pouco nos importa que arda (mais) um museu em nosso próprio solo.

Caminhamos a passos largos para vencer o campeonato mundial da pandemia e dos pandemônios.

Seria fácil, fácil demais, culpar este governo, os anteriores ou os próximos - pois novas perdas, infelizmente, hão de vir.

Somos um povo que se construiu marcando peles a ferro quente. Fogo, brasas e fumaça são nossa herança, nossa sina, nossa marca.

Em muitos sentidos, sentidos demais, literais e figurados, imbricados e superpostos, o Brasil se posiciona na vanguarda da triste arte da ocultação de cadáveres.

Queimar e cremar...

Cremar e queimar...

Passado, presente, futuro: carvão, fuligem, cinzas.

Noite ou dia, o fogo nunca se apaga.


quarta-feira, 10 de junho de 2020

"Será que foi bom?" - Dilemas indígenas

"Eu pensava que era ruim amansar, mas agora vi que é bom. Será que foi bom? Uau, uma máquina grande meus filhos conseguiram! Ficam lá trabalhando, sem dormir, pensando de noite [em comboiar a madeira] quando vem a chuva. Será que são mesmo Matsés? Meus filhos ficam com sono, vão se molhar na chuva grande que vai até amanhecer. Meus filhos trabalham muito! Uau, conseguiram um motor grande! Conseguiram uma máquina grande depois de conseguir dinheiro".

Trecho de relato de um idoso da etnia indígena Matsés (Vale do Javari) registrado em 1992 pelo antropólogo Walter Coutinho. Grifos meus.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Povos indígenas, descaso crônico e pandemia

Reflexão da antopóloga Maria Luísa Lucas, que trabalha com a etnia Bora, na Colômbia, e acaba de perder uma amiga indígena na atual pandemia. A reflexão não é pertinente apenas ao contexto colombiano; define bem a situação das populações indígenas em toda parte.

Além das ajudas emergenciais, uma reflexão é necessária.

Essas pessoas não estão morrendo de Covid, elas estão morrendo de anos e anos de falta de assistência de saúde básica. E isso em vários níveis.

Primeiro se vêem obrigadas a viver na cidade, onde não tem a mesma segurança alimentar da aldeia. Não têm trabalho fixo (boa parte dos indígenas em Leticia vive de vender coisas na rua ou como diaristas, pedreiros, etc.).

Têm um sistema de saúde público privatizado nas tais EPS que faz com que as pessoas tenham um acesso muito heterogêneo a coisas básicas como exames e tratamento de diabetes, hipertensão, obesidade, alcoolismo (cada vez mais comum, sem a segurança alimentar)...

E no fim, quando contraem a doença, morrem por não ter leito de hospital, médico, respirador... O mais triste é isso.

É o terceiro indígena que conhecia pessoalmente que morre não só porque a doença é grave, mas principalmente porque não teve assistência médica.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

"Cunhambebe Boladão"

"Eu sou uma onça, tá ligado, mano?" - Célebre resposta de Cunhambe Boladão para o Alemão. (Apud STADEN, Hans. História de um rolé canibal na quebrada conhecida como Brasil. Marburg: Komisch Verlag, 1557).

O espectro de Duchamp ronda a Internet.

sábado, 14 de março de 2020

Antes tarde que nunca


Devíamos ir embora e devolver tudo para os índios. Piadas à parte, acho que 1492 iniciou a pior e mais grave série de epidemias de toda a História humana. Pelo menos os índios deram o troco com a disseminação do tabaco. Se não me engano, o termo Tupi para isso é "tepy" - se vingar ou pagar uma dívida.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Quem pode ser índio?

"O Estado [brasileiro] diz para o índio: se você é incapaz e vive na floresta, então eu protejo você; se você recebe educação e mora na cidade, então você se torna brasileiro, e não tem mais direito à sua cultura ou ao seu território".
Azelene Kangiang, socióloga indígena

Há muito mais índios entre o Oiapoque e o Chuí do que suspeitam nossos vãos preconceitos...

Jesus Andino

"É inconcebível que no século XXI, Deus ainda tenha que ser definido de acordo com padrões europeus... Nós pensamos que a vida de Jesus é a Grande Luz vinda de Inti Yaya (Luz Paternal e Maternal que sustenta todos nós), cujo objetivo é deter qualquer coisa que não nos deixe viver em justiça e fraternidade entre seres humanos e em harmonia com a Mãe Natureza... O papa devia notar que nossas religiões NUNCA MORRERAM, nós aprendemos como fundir nossas crenças e símbolos com aqueles de nossos invasores e opressores".
Humberto Cholango - Em documento endereçado a Bento XVI pela Confederação dos Povos de Nacionalidade Kichwa do Equador (Maio de 2007)

Clarinero nas celebrações de Corpus Christi (Cajamarca, 2019)

Comemorações de Corpus Christi (Cusco, 2019)

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Amor Cristão

"Uma vez que tínhamos a bandeira da cruz e lutávamos por nossa fé e pelo serviço de nossa sagrada majestade, Deus concedeu-nos tal vitória e matamos muitas pessoas".
Cortés

"Quem poderá negar que utilizar pólvora contra os pagãos é como queimar incenso para Nosso Senhor?"
Oviedo


Hermenêutica bíblica à moda colonial: "índio bom é índio morto".

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

índios cercados

As imagens de satélite abaixo ilustram tanto a importância das Terras Indígenas como espaço de proteção ambiental quanto exibem de maneira dramática o assédio às TIs, em alguns casos. Um verdadeiro cerco,  quase no sentido militar da coisa. Fica mais fácil entender porque a manutenção e demarcação adequada das Terras Indígenas incomodam tanta gente, inclusive nos poderes Executivo e Legislativo, em esferas federais e estaduais. O Parque do Xingu, particularmente, parece uma ilha cercada de motosserras por todos os lados... Dizer que essas terras são improdutivas é um gravíssimo equívoco: talvez elas não produzam dinheiro, mas produzem oxigênio, que é muito mais valioso para todos nós que respiramos...