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Mostrando postagens com marcador Arquitetura. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 13 de julho de 2022

Quinta da Boa Vista - Le 13 juillet 2022

No Rio, não há Bastilha a derrubar, nem Tulherias a incendiar; tudo despenca e queima sem necessidade de jacobinos nem communards.

A antiga morada imperial jaz engaiolada; Dom Pedro II espia nossos tristes tempos por cima da cerca. Afiadas concertinas lembram a selvageria da megalópole. Dom João VI temeria as hordas cariocas mais que as hostes napoleônicas?





Em uma escada menos frequentada, moscas assediam a putrefata carcaça de um gato. Balões de hélio flutuam emaranhados entre galhos.






Camadas de tempo se acumulam. Um motor a diesel ronca sobre o gramado imperial. Raízes centenárias se derramam pelos muros do antigo jardim onde passeava a Princesa Isabel. Um velho poste de madeira, desprovido de cabos, permanece altivo, testemunha de progressos obsoletos. Uma velha planta parasita viceja sobre um tronco ainda mais antigo. O oco de uma árvore venerável se vê usado como lixeira. Um bucólico nicho arquitetado para a realeza se transforma em santuário e altar para alguma entidade trazida de além-mar, contrabandeada de plagas africanas no ventre sórdido dos navios negreiros.








Os seres humanos se apequenam e amesquinham em meio à paisagem. Gloriosas palmeiras se elevam aos céus, lembrando a efemeridade de nossas vidas e obras. Tudo se transforma, para além de nossos planos e intenções. Sinuosos caminhos imitam o tortuoso fluir da vida. Outro felino, vivo, caminha preguiçosamente sobre a grama, indiferente às inquietações do bicho-homem.




















segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Piada Carioca

A maravilhosa, mui heroica, leal etc etc Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi nomeada pela UNESCO como "Capital Mundial da Arquitetura" durante o ano de 2020.

Deve ser piada... Como pode a cidade mais caótica do continente americano ser "Capital Mundial da Arquitetura"?! Faz pensar que alguém na UNESCO andou tomando umas caipirinhas a mais...

Apenas a patética Ciclovia Tim Maia já deveria servir como critério de desclassificação imediata para o título!!!

Em minha humilde opinião carioca, nomear o Rio como "Capital Mundial da Arquitetura" seria equivalente a conceder o Nobel da Paz a Hitler... Heil, Rio!!!


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Humildes Catedrais

Fazendo da raiz alicerce, emergem, pouco a pouco, grão a grão, singelas, frágeis, humílimas catedrais. Há algo de assombrosamente majestoso nesses pequenos colossos, erguidos por tão ínfimas construtoras. Há algo de sublime nesses edifícios que se erguem plácida e silenciosamente, sem qualquer sombra de vaidade, orgulho, cupidez ou ambição. Cândida grandiosidade, instintiva proeza de desapaixonado impulso vital. Fosse eu uma cigarra, cantaria o glorioso triunfo arquitetônico das formigas.








terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame: Eternidade em chamas

Notre-Dame é a estrela mais brilhante da Cidade Luz. Que tristeza vê-la fulgurando à infernal luz das chamas!

Notre-Dame é um universo inteiro, povoado de santos, anjos, demônios, gárgulas e quimeras. De suas torres, parece que o próprio Céu, capturado pelos construtores, é apenas um pano de fundo para suas magníficas formas - o Infinito reduzido a detalhe arquitetônico.

Suas rosáceas eram verdadeiros tratados de teologia medieval, dizia Roy Wagner. Victor Hugo considerava a catedral inteira um livro escrito a muitas mãos.

Dentro da nave, a luz filtrada pelas janelas e vitrais criava um ambiente difícil de descrever: aconchegante, misterioso e um tanto claustrofóbico. Um espaço gigante, ínfimo e paradoxal. Na nave de Notre-Dame me sentia respirando num Outro Mundo ou, quem sabe, num Mundo Outro.

Como um ser vivo, aquela catedral tinha uma voz. Respirava, cantava e orava através de seu órgão, um dos melhores e mais antigos do mundo.

Notre-Dame de Paris não parecia uma obra medieval. Eu acreditaria se me dissessem que estava ali desde o princípio dos tempos, construída por anjos ou demônios, descida inteira do mais alto dos céus ou emersa dos mais profundos infernos. Sua beleza fascinante e terrível, certamente, não é deste mundo.

Ainda não se sabe ao certo o que sobreviveu ao incêndio de hoje. Os vitrais certamente estão perdidos. A espectral luz de sua nave nunca mais será a mesma. Talvez seja igualmente espectral e fascinante, mas será outra. O órgão, ora mudo, talvez seja restaurado, mas sua voz será outra, sua acústica foi irremediavelmente perdida.

Notre-Dame persistirá, bela mesmo em sua catástrofe, como mater dolorosa. Mas o mundo perdeu hoje um pedaço de Eternidade...


sábado, 5 de outubro de 2013

Maravilhas ocultas

Hoje seguia eu em minha peregrinação semanal a Niterói, cruzando nossa belíssima Guanabara na minha tão querida (?) barca. Uma viagem que já se tornou mais que rotineira após dois anos de mestrado e quatro de doutorado na UFF.

No entanto, hoje tive uma companhia de viagem pouco comum. Na fileira de assentos atrás de mim sentou-se um grupo composto por uma família vinda de São Paulo, acompanhados por uma parente ou amiga carioca.

Pelo que percebi, era sua primeira visita ao Rio. Mal deixamos a Praça XV, eis que surge no horizonte algo que provoca viva admiração entre os turistas: a ponte Rio-Niterói. Os visitantes ficaram simplesmente extasiados, exclamando comentários entusiasmados a respeito da grandiosidade da obra. De fato, é um notável feito de engenharia. É titânica, colossal, incrível!

Fiquei chocado ao perceber o quanto a magnífica ponte, enterrada sob meu olhar rotineiro e cansado, não despertava mais minha atenção, tornando-se um banal detalhe da paisagem. E olha que a ponte é grande! Sacudido pelo inesperado entusiasmo dos companheiros de viagem, me dei ao trabalho de olhar pela janela, contemplando a estrutura com renovado interesse.  

Quantos espetáculos cotidianos não perdemos em nosso olhar viciado? Fiquei pensando no quanto é importante compartilhar perspectivas com nossos semelhantes; enxergando o mundo através de outros olhos, reencontramos as maravilhas ocultas sob a fadiga, reencantamos nossa realidade...

sábado, 6 de julho de 2013

"Não há tormento maior do que ser cego em Granada"

Texto de Carlos Fuentes em O espelho enterrado



"Ao se iniciar o declínio do poder árabe na Espanha, depois da derrota de Navas de Tolosa em 1212, e depois da queda de Sevilha ante o ataque de Fernando III de Sevilha - são Fernando - em 1247, apenas uma terceira grande cidade sobreviveu para conservar esta herança: Granada. Foi este o reino final, que presidiu o crepúsculo da Espanha árabe, entre 1248 e 1492. Mas quando, hoje, nos aproximamos da cidade, devemos imaginar que um dia, ali, não houve nada além do vale, do rio e das montanhas da Serra Nevada. Ali encontraram repouso os povos errantes do deserto, e ali decidiram construir um jardim cuja beleza não pudesse comparar-se com nada deste mundo. É como se houvessem ouvido a voz de Deus, lhes ordenando: construí aqui, à luz das tochas, um palácio, e chamai-o Alhambra, que significa 'a cidadela vermelha'.






Talvez somente um povo que houvesse conhecido a sede do deserto pudesse ter inventado esse extraordinário oásis de água e sombra: uma sucessão de portas e torres, salas e pátios conferem à Alhambra um sentido tanto de recolhimento como de recreio, como se todos os prazeres do mundo pudessem estar ali representados, ao alcance da mão. Rodeada por um cinturão de muralhas - muro da Justiça, muro do Vinho - e vigiada pelas torres da Cativa e da Homenagem, de Comares e de Alcazaba, a Alhambra é um labirinto de nobres aposentos, onde até as sombras são douradas. A sala de audiências do Mexuar, com seu desenho de azulejos que parece seguir a assombrosa regularidade, harmonia e surpresa de uma fuga de Bach; o sentido íntimo alcançado pelo luxo na graça da alcova das duas irmãs; a perspectiva cinzelada do salão dos embaixadores; a sensação de estar preso num cárcere doce como um favo de mel, de onde ninguém quereria fugir - ali há tanto um harém como um serralho - subitamente se defrontam com sua própria essência num dos poemas escritos nos arcos do mirante, o belvedere que dá para os jardins do palácio: "Creio que a lua cheia tem aqui seu lar..."











Finalmente, chega-se à conclusão de que esta rede de filigrana, estuque, favos dourados, azulejos e inacreditáveis perspectivas  tem somente um propósito, que é o de proteger a água, capturar um sorvo de líquido na palma da mão, rodear o elemento da vida com uma defesa acariciante, protetora e, no entanto, aberta. Os pátios incomparáveis da Alhambra são como templos da água: as esbeltas colunas do pátio de murtas são tão protetoras quanto os 12 leões que circulam nele; mas, durante o dia, e mesmo de noite, chega-se a compreender que é a fusão e a coexistência constante de todas as gradações do tempo e da natureza - luz, sombra, ar, terra, sol, lua - o que realmente protege o coração da Alhambra: seus lagos, suas fontes, seus desaguadouros.










Não apenas a água murmura nos jardins da Alhambra. Uma vez que o Corão desaprova a representação do corpo humano, a Alhambra se converteu num edifício escrito, um corpo revestido de literatura, contando suas histórias e recitando seus poemas conforme as inscrições de suas paredes. Uma espécie de grafite celestial, em que a voz de Deus volta a ser líquida e onde os prazeres da arte, da inteligência e do amor podem ser desfrutados. Não é de admirar que um poema do escritor mexicano Francisco de Icaza haja penetrado no mundo anônimo dos provérbios que descrevem esta cidade: 'Não há tormento maior do que ser cego em Granada'".