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Mostrando postagens com marcador Historiografia. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 30 de junho de 2020

"Alguns estudantes de História se formam confundindo diploma de 'bacharelado' com 'profecia' e 'licenciatura' com 'missionarismo'".
Adaptado de Fred Oliveira

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Viral

"Repetirei o seguinte até ficar rouco: o que determina o destino de uma teoria na ciência social é o contágio, não sua validade".
Nassim Nicholas Taleb


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Leandro Narloch, os escravos e os historiadores

Outro dia me dei ao trabalho de dar uma olhada no tal livro sobre escravos do tal Leandro Narloch.

Confesso que achei menos pior que os tais "guias politicamente incorretos" do mesmo autor. Não vi deslizes teóricos ou metodológicos excessivamente graves para um trabalho de divulgação. Discordo do posicionamento do autor acerca do tema e acho as interpretações dele forçadas, mas me parece um problema mais da ordem dos juízos de valor que da análise historiográfica propriamente dita.

Não me pareceu uma obra fraudulenta ou de má-fé. Há forçações de barra comparáveis em vários autores de esquerda. O autor já foi muito menos criticado por coisa muito pior produzida anteriormente. E talvez seja exatamente esse o problema: a obra incomoda mais por ser menos grosseira que as anteriores.

Justamente por não ser de todo ruim, o livro merecia críticas menos superficiais da parte dos especialistas. Muitas das críticas à obra que li ficam mais no plano do argumento de autoridade acadêmica que da refutação válida ao trabalho propriamente dito. Algumas parecem reproduções umas das outras, refletindo mais o eco dos corredores universitários que respondendo ao discurso do próprio autor. Fico com a impressão de que muita gente criticou sem sequer ler as orelhas do livro.

Acho que o historiador acadêmico/universitário precisa sair de sua zona de conforto, se quiser realmente se fazer ouvir no debate público. Não adianta simplesmente agarrar o diploma para bater na obra - não é assim que se conquista credibilidade junto ao público, especialmente quando falamos a partir de um campo que não goza de muito reconhecimento ou prestígio junto ao grande público, como é o caso das ciências humanas no Brasil.

Às vezes, a crítica superficial e precipitada pode ser mais daninha que o silêncio. Não adianta achar que nos basta de vez em quando descer de nossos páramos acadêmicos e trovejar olimpicamente para um público que acha que tudo em ciências humanas é apenas "questão de opinião". Tal postura só tende a confirmar e consolidar esse preconceito contra as ciências humanas.

Tudo isso me lembra certa ocasião em que participei de um evento de divulgação. Havia ali um público leigo interessado, que visivelmente acabara de sair do trabalho e, em lugar de ir para casa ou para a happy hour, resolveu ir assistir uma mesa redonda sobre História. Na minha opinião, isso deveria ser motivo de júbilo para o intelectual. Findo o evento, meu companheiro de mesa me confessa, entediado: "É por isso que não gosto desse tipo de evento - as perguntas são muito superficiais". Claro que sim! Que tipo de pergunta ele esperava de um público leigo?! Na ocasião, em minha insignificância de novato, me limitei a responder com um sorriso - pouco irônico, temo dizer.

Enquanto o historiador acadêmico continuar a menosprezar "esse tipo de evento" ou a responder preguiçosamente a "esse tipo de livro", nossa voz continuará a ser apenas um tímido eco pós-graduado perante os moucos ouvidos de uma sociedade que mal sabe ler e escrever...


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Entre mosquitos e canhões

"Todos esses textos são marcados pela cosmovisão do ser existencial. O ser existe no tempo e no espaço e a sua existência caracteriza-se pela atuação hic et nunc do ser que existe. Desse modo, o ser que existe e que expressa a sua vivência existe em um mundo e em um tempo, mundo e tempo existenciais do ser que são o resultado da sua experiência como ser, a qual é transmitida com o auxílio de sistemas de comunicação, dos quais a linguagem é o mais aperfeiçoado. Essa linguagem humana estrutura-se em níveis maiores e menores e um dos níveis maiores é o discurso".

O exuberante trecho acima foi extraído de um artigo acadêmico sobre um antigo livro manuscrito de receitas culinárias. No cômputo geral, o artigo é até honesto no objetivo a que se propõe; questiono, no entanto, a necessidade de malabarismos teórico-filosóficos expostos em alguns parágrafos como o transcrito acima.

Me parece um espécime interessante por oferecer uma demonstração curiosa do quanto alguns trabalhos acadêmicos se perdem em deslocados exercícios de virtuosismo, cuja necessidade me parece muito duvidosa.

Por vezes tenho a impressão que alguns intelectuais, contrariando a sabedoria (supostamente) chinesa, acham que é necessário usar canhões para matar mosquitos. Por sinal, os japoneses costumam dizer que a excelência se caracteriza pelo máximo de resultado com o mínimo de esforço - e não o contrário...

"Não use um canhão para matar um mosquisto", teria dito Confúcio...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Historiadores não são donos da "verdade"

Dizem os japoneses que a eficiência e a elegância consistem em obter o máximo resultado com o mínimo de esforço. Eis o que conseguiu o amigo historiador Roger Marques nessa concisa pérola:

Não é para acreditar cegamente no que historiadores e livros de História dizem, mas não significa que você não deve levar em consideração suas análises e preocupações. E a partir daí refletir, questionar e tentar formar sua opinião.

sábado, 24 de dezembro de 2016

História Pública e onde habita

Há poucos dias me peguei pensando: no Brasil há mais gente publicando textos acadêmicos e "refletindo" sobre História Pública que produzindo a História Pública propriamente dita. Codiloco.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sobre ilusões, participação e inteligência artificial

Nos últimos anos tenho lido e refletido muito sobre inteligência artificial. Recentemente venho fazendo alguns experimentos participativos de "engenharia reversa", ou como diria Walter Benjamin, venho tentando "escovar a inteligência artificial a contrapelo".

Os resultados podem ser curiosos. Ando jogando Assault Horizon Legacy no Nintendo 3DS. É um jogo de combate aéreo com um fiapo de narrativa, onde o jogador pode pilotar inúmeros modelos de caça desde aeronaves dos anos 70 a alguns aviões experimentais atuais. Meu favorito, por sinal, é o já clássico Rafale M, desenvolvido para as forças armadas francesas - mas isso é assunto para outra conversa.

O jogo possui gráficos bastante elaborados e a interface é espetacular, parecendo (suficientemente) realista usando os parcos recursos do 3DS. A modelagem das aeronaves parece muito boa. Os terrenos são gerados usando imagens reais de satélite; sobrevoados de grandes altitudes passam uma impressão de realismo quase cinematográfico ou fotográfico. A inteligência artificial dos pilotos inimigos e aliados funciona bem quando tentamos realizar as missões. E aqui está o "pulo do gato".

O que acontece quando o jogador não tenta cumprir a missão proposta? O que acontece quando o usuário evita deliberadamente participar da ilusão?



Há cerca de uma hora realizei um experimento nesse sentido, na missão "Acid Rain", onde o jogador deve abater diversos bombardeiros que ameaçam a fictícia cidade de Anchorhead, escoltados por caças de modelos variados. Os ataques acontecem em ondas: a primeira delas conta com apenas dois bombardeiros; conforme o jogador os vai abatendo, as sucessivas ondas são compostas por números cada vez maiores de inimigos, e a última imprime um ritmo frenético ao jogo. Caso a cidade seja pesadamente bombardeada... game over.

Em lugar de cumprir a tarefa dada, disparando mísseis e voando freneticamente atrás dos inimigos, resolvi apenas acompanhar e observar a ação dos bombardeiros. Em quanto tempo eles seriam capazes de destruir completamente os bairros de Anchorhead? Descobri algumas coisas interessantes.

Primeiramente, o padrão de voo dos bombardeiros inimigos é bastante caótico. Se deixados em paz, eles passam muito tempo ziguezagueando aleatoriamente, largando algumas bombas apenas esporadicamente. Deixados à própria conta, os inimigos não fazem grande estrago. Em condições normais de jogo, obviamente, não é o que se passa. O jogador, enredado na trama avança rapidamente contra as ameaçadoras aeronaves, abatendo-as e fazendo com que venham outras.

Os bombardeiros, pilotados pela IA, normalmente se esquivam dos ataques, mas não esboçam "reação" quando acompanhados pacificamente. De fato, eles se comportam como se o usuário/inimigo sequer "estivesse" ali. O mesmo pode ser dito das aeronaves de escolta, que seguem fielmente os bombardeiros, sem reagir veementemente ao intruso no cortejo; apenas eventualmente disparam alguns mísseis ou saraivadas de metralhadora. A mira deles também é curiosamente ruim, o que leva a concluir que seu objetivo real é mais assustar o jogador que causar danos - como acontece numa montanha russa.

Pior ainda, descobri que, na verdade, não há gráficos do lançamento das bombas - apenas os efeitos sonoros de explosões. O jogador não percebe isso porque, normalmente, ele está olhando para outro lugar: disparando contra um caça ou evitando um míssil. Mesmo que esteja de frente para o bombardeiro que está efetivamente "atirando", o usuário pensará que as explosões ouvidas aconteceram em outro lugar. Excessivamente envolvido com a partida, ele não conferirá o radar para verificar que apenas aquele bombardeiro sobrevoa a área alvejada naquele momento específico. Estamos diante de certa forma de alienação - no sentido etimológico do termo.

Devo acrescentar ainda que isso tudo se passava no nível Hard - ou seja, a ação da inteligência artificial deve ser ainda mais anêmica nos níveis mais fáceis. Além disso, a modelagem 3D das aeronaves, que parece tão bonita e detalhada durante o uso normal do jogo, revela toda sua grosseria quando o jogador voa em baixa velocidade, dando-se ao luxo de contemplar, em lugar de atirar.

Ao fim e ao cabo, fica a pergunta: como caímos na ilusão? Por que nos deixamos enredar em aparências tão grosseiras?

O antropólogo Alfred Gell (num texto que não li) propõe a obra de arte como armadilha. É um ponto de partida interessante; tomo aqui a ideia num vago empréstimo.

Muitas armadilhas, como um anzol, requerem a presença de uma isca. E, de fato, o jogo emprega inúmeras iscas para fisgar o usuário. Em primeiro lugar, o jogador recebe um briefing introdutório, onde seu comandante afirma que a cidade e seus habitantes se encontram ameaçados etc etc.

Iniciamos a missão ao som de uma trilha sonora orquestral que lembra todos os filmes de ação vistos recentemente, recorrendo a uma percussão discreta, cordas sincopadas e metais estridentes - alguém mais pensou em Hans Zimmer? Da narrativa propriamente dita somos jogados no terreno da convenção musical. George Lucas sabia o que queria quando pediu a John Williams que compusesse uma trilha romântica, com todos os artifícios acumulados desde Wagner e Verdi, capaz de tornar familiar o estranho universo de Star Wars.

Espaços e distâncias também são meticulosamente planejados em Assault Horizon: o jogador inicia a missão numa das extremidades do mapa, enquanto a cidade se encontra no centro. Uma breve olhada no radar mostra que o ataque é iminente e será necessário correr para alcançar os bombardeiros.

Como se não bastassem esses elementos, o jogo ainda conta com a voz do comandante ao rádio, devidamente acompanhada por efeitos de estática e um tanto abafada. O hábil dublador avisa, em tom cada vez mais alarmado: "Phoenix, the bombers are approaching the city!!!" - "The city is taking dammage, take out those bombers!!!" - "The city is taking heavy dammage, shoot out those bombers!!!". O artifício é muito inteligente, e as sugestivas falas nos induzem a "ver" uma cena que não está efetivamente "lá". Como não pensar na lendária encenação radiofônica de A Guerra dos Mundos, com que Orson Welles teria ludibriado a população nova-iorquina?

Com efeito, os sons tapam inúmeros buracos da parte gráfica do jogo, que mal conseguimos perceber em situação normal - o que me leva a citar, pela enésima vez, o romance Cloud Atlas, de David Mitchell. Em certa passagem do romance o músico Robert Frobisher menciona as cartas repletas de impressões sonoras enviadas pelo irmão do front na Bélgica, durante a I Guerra Mundial:

Adrian's letters were hauntingly aural. One can shut one's eyes but not one's ears. Crackle of lice in seams; scutter of rats; snap of bones against bullet; stutter of machine guns; thunder of distant explosions, lightining of nearer ones; ping of stones off tin helmets; flies buzzing over no-man's-land in summer. Later conversations add the scream of horses; cracking of frozen mud; buzz of aircraft; tanks, churning in mud holes; amputees, surfacing from the ether; belch of flametrowers. squelch of bayonets in necks. European music is passionately savage, broken by long silences.

O que é mais interessante nessa passagem é que o próprio narrador também se vê enredado na ilusão literária do irmão, à medida que ele mesmo, que nunca foi à guerra, apenas imagina esses sons; o mesmo se passa com os próprios leitores do romance, que, em sua maioria, não foram à guerra - bem como o próprio romancista! Personagens e leitores se veem assim sutilmente "embrulhados" pelo hábil autor.

Retornando ao jogo, o único lugar onde a cidade de Anchorhead se encontra efetivamente ameaçada por bombardeiros é a própria imaginação do usuário, que costura todas as pistas sonoras, visuais e narrativas num todo coerente. O mesmo sucede no cinema, onde uma série de imagens e sons fragmentários se reúnem como um todo coeso - quando o diretor domina suas técnicas, obviamente.

Com efeito, é preciso pouco para desmanchar catastroficamente a ilusão. É o que se passa, por exemplo, com X-Men Destiny, um dos piores jogos que já experimentei. O gráfico é passável e até os numerosos bugs de programação são toleráveis. O problema irremediável do game é a inépcia com que seus detalhes foram amarrados.

Curiosamente, um dos defeitos que mais me incomodou era a paupérrima programação de efeitos sonoros. Qualquer bom jogo traz efeitos sonoros encadeados. Por exemplo, em Assault Horizon, quando se dispara um míssil, ouvimos o som do projétil lançado; se ele acerta o alvo, ouvimos o som da explosão. Zelda: Twilight Princess no Wii leva essa dinâmica à perfeição: quando atiramos uma flecha, o alto-falante do controle remoto emite o som do disparo, que é suavemente continuado pelo televisor, como se uma flecha realmente se afastasse do jogador. X-Men Destiny comete o crasso "erro" de empregar sons genéricos para os golpes dos protagonistas, sem outros feedbacks que sugiram ao jogador sobre seus efeitos e impactos.


No entanto, como vimos, mesmo um jogo habilmente dirigido como Assault Horizon vê suas ilusões ruírem quando o jogador não lhe oferece seu consentimento - quando o usuário não morde a isca. A ilusão só funciona quando o usuário efetivamente participa da dinâmica proposta - ou seja, ele aceita tomar parte, fazer parte, ser parte. Ao se tornar parte do jogo ele ingressa no todo imaginado e sugerido pelos produtores, e então a magia da arte acontece: estamos no cockpit de um Rafale M, tentando salvar os cidadãos de Anchorhead de um terrível ataque. Basta sair do papel de participante e inventar uma imprevista posição de observador para escapar do feitiço - o véu de maya foi rasgado, como diriam talvez os místicos hindus.

Uma vez tomada a decisão e o caminho da ruptura com a ilusão, os artifícios empregados pelos produtores do jogo se desmancham em cascata. Destes, o que se desfaz mais dramaticamente, me parece, é a inteligência artificial programada. Quando o usuário se comporta de modo inesperado, os bots se mostram incapazes de reagir de modo satisfatório - é um padrão que venho observando em outros jogos.

É particularmente curioso perceber que o usuário se torna virtualmente invisível para o programa a partir do momento que não age segundo o acordo tacitamente estabelecido - as regras do jogo. Ele está paradoxalmente dentro, mas também fora do jogo. Por exemplo, um experimento interessante é deixar o carrinho absolutamente parado em Mario Kart, jogando no modo "Batalha". Os adversários passam constantemente ao lado do jogador, sem "perceber" que ele está ali ou empreender qualquer forma de ataque. Jogando em modo multiplayer online, com outros seres humanos de diversos cantos do planeta a coisa muda de figura: um carrinho parado se torna presa fácil.


Os bots de Mario Kart ou Assault Horizon estão evidentemente programados para captar e reagir a movimentos em determinadas condições e velocidades específicas - oferecendo ao jogador níveis cuidadosamente balanceados de dificuldade (uma arte dificílima). Em suma, essas inteligências artificiais foram preparadas para interagir com participantes que aceitaram tacitamente certas condições de interação, mas se encontram completamente "desorientados" perante um observador. Paradoxalmente, nesse caso, agir implica uma postura passiva, enquanto não agir implica uma postura ativa - o que lembra o sábio conselho taoísta de "agir pela não-interferência".

Com efeito, a "não-interferência" abre as vias da metacognição - o pensamento que pensa a si mesmo - conseguindo promover um processo de desidentificação com o avatar do jogo (uma palavrinha que parece muito apropriada nesse caso). O usuário, liberto das regras arbitrariamente impostas pelos produtores, sai do reino de samsara. Estar simultaneamente dentro e fora do jogo, participar sem se tornar mera parte - talvez isso seja nirvana.



Tudo isso me lembra as palavras de Mestre Yoda para Luke Skywalker em O Império Contra-Ataca:

You will know (the good from the bad) when you are calm, at peace. Passive. A Jedi uses the Force for knowledge and defense, never for attack. [...] Yes, a Jedi’s strength flows from the Force. But beware of the dark side. Anger, fear, aggression; the dark side of the Force are they. Easily they flow, quick to join you in a fight.


Enfim, há aqui ainda algumas considerações possíveis, estabelecendo paralelos com o trabalho do historiador e do antropólogo. O historiador com suas fontes, que são, em muitos sentidos, armadilhas; o antropólogo com seu método de "observação participante", que também tem suas aporias. Mas essa também é outra conversa.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pedro Paulo Funari sobre a História na BNCC

Excelente avaliação. Recomendo a leitura a todos os interessados no debate.

"Além disso, pelo princípio da diferença, será importante constar do currículo aquilo que é diverso na origem, mas que, hoje, no século XXI, está em relação, como: a história e cultura chinesa, tanto por seu valor em si, como pelo papel da China hoje; o mesmo vale para a Índia, com sua imensa riqueza histórica e cultural, mitológica e ritual; assim, também, as civilizações ameríndias e africanas pré-históricas, pois estão na gênese de parte significativa das concepções de mundo e cultura no Brasil e são  pouco conhecidas. Em todos os temas de interesse universal, deve buscar-se a inclusão dos grupos subalternos, das mulheres, dos comportamentos minoritários, da cosmovisões também minoritárias. A historiografia brasileira sobre a Antiguidade, a Idade Média e a Modernidade tem se destacado, aqui e lá fora, também por estudar esses aspectos, sempre com o apoio das agências de fomento e das universidades. O mais importante, deve ressaltar-se, é que tais conteúdos da História universal devem estar explicitados e detalhados em um currículo, como é o caso em outros países que se preocupam com a inclusão social, de modo que esse conhecimento universal não fique restrito a poucos".

Texto completo

Objetividade, subjetividade e intersubjetividade

Objetividade é importante, subjetividade é mais importante ainda, mas a intersubjetividade é simplesmente ESSENCIAL.

Na maior parte das vezes, aquilo que ilusoriamente tomamos por objetividade não passa de intersubjetividade. Por outro lado, na maior parte do tempo, nossa subjetividade está calcada nas relações que mantemos com outros sujeitos (humanos ou não), constituindo verdadeiramente uma experiência intersubjetiva, por mais sutil que possa parecer essa intersubjetividade. 

No fundo, talvez não existam realmente objetos no sentido próprio do termo, apenas sujeitos de diversas naturezas e as interações entre eles, constituindo um amplo, múltiplo e complexo campo de relações intersubjetivas, dentre as quais algumas se nos afiguram, de modo provisório, efêmero e um tanto arbitrário como relações sujeito-objeto. Isso é particularmente verdadeiro para as ciências humanas e biológicas, mas creio que, com as devidas ressalvas, também se aplique em alguma medida às exatas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Notas de um historiador a "Uma carta aberta ao Brasil"

Dedicado aos amigos Lahna Barbosa e  Kainã Diniz, que despertaram minha curiosidade sobre o tema


O texto Uma carta aberta ao Brasil, de um tal Mark Manson, autointitulado “autor, pensador e entusiasta da vida” americano, anda circulando na Internet e causando polêmica. Enquanto historiador, traço aqui algumas notas sobre o texto em questão. Minhas anotações ficaram um tanto longas, mas enfim, “textão” contra “textão”. Se vocês tiveram paciência para ler as reflexões de Manson, rogo-lhes boa vontade para acompanhar as minhas. Sigamos por partes.

1 – O texto propriamente dito
Do ponto de vista formal, cabe apenas notar que o texto adota a forma de uma carta endereçada diretamente ao país, artifício retórico que poderia ser interessante, caso o autor o empregasse de forma consistente – o que não acontece: Mason perde o fio da meada, por vezes se dirigindo diretamente ao Brasil, por outras aos brasileiros, rompendo seguidamente a coesão do texto.

Quanto ao conteúdo, o autor articula uma crítica superficial e moralista à “cultura brasileira” (noção vaga e imprecisa), à qual atribui os problemas do Brasil, constituindo o principal obstáculo ao “desenvolvimento” e ao “progresso” do país. Segundo Mason, a "cultura brasileira" fomentaria diversos obstáculos ao progresso, como a corrupção cotidiana, uma suposta vaidade excessiva, falta de compromisso etc. Sempre apelando para o senso comum rasteiro, o “pensador” receita uma genérica “revolução interior” como panaceia para solução de nossos problemas, no melhor estilo literatura-motivacional-e-de-autoajuda.

Muitas das críticas são pertinentes, mas o autor as articula de modo completamente isolado e descontextualizado, o que é insustentável em termos de uma análise social séria. Vale ainda ressaltar a arrogante perspectiva adotada pelo texto, o que será analisado a seguir.

2 – As matrizes discursivas
A tal “carta aberta” é tão superficial que mal vale a pena discuti-la. O mais interessante aqui é abordar as matrizes discursivas que a sustentam, o "meta-texto" por trás e para além do texto. Assim, convém analisar o paradigma civilizatório que lhe serve de alicerce, pautado em noções vagas e bastante reificadas de “progresso” e “desenvolvimento”. Ao contrário do que parece, tais ideais não são inerentemente bons ou desejáveis.

Nesse sentido, vale lembrar que no início do século XX a Alemanha e a Áustria eram consideradas duas das nações mais “civilizadas” (equivalente ao atual “desenvolvidas”) do mundo e deram origem a um dos regimes mais bárbaros e perversos da contemporaneidade. De fato, a ascensão do nazismo deixou perplexa e chocada boa parte dos intelectuais europeus de então, que imaginavam que suas sociedades supostamente guiadas pela razão esclarecida estariam imunes a semelhante barbárie, enquanto, pelo contrário, o que se viu foi a instauração de uma brutalidade dotada de eficiência industrial e moderníssimos requintes administrativos, o que, no fundo, choca muito mais que outros atos de violência espontânea e descontrolada, cometidos por gente “ignorante”. Aliás, vale lembrar que foi na super educada e civilizada Viena da virada do século XIX que o Dr. Freud encontrou o grande casulo de neuroses sexuais de onde extraiu sua psicanálise. Por sinal, em minhas poucas viagens fora do Brasil nunca conheci um povo mais educado e polido que o vienense, mas é difícil esquecer que poucas décadas atrás seus antepassados receberam o Führer de braços abertos – ou, mais literalmente, esticados... Também é interessante destacar que os ideais de eugenia e supremacia racial defendidos pelo Nazismo não eram fruto de falta de instrução; pelo contrário, as teorias racistas se apoiavam na ciência da época, com forte inspiração da teoria evolucionista darwinista.

Outro interessante exemplo é o Japão atual. Há pouco comprei um livro do monge budista Kentetsu Takamori; ele lembra que o Japão atualmente proporciona a seus habitantes considerável prosperidade, bons serviços públicos, elevados padrões de consumo e grande conforto material, apresentando baixíssimos índices de miséria ou criminalidade. Apesar disso, milhares de japoneses levam vidas infelizes, esvaziadas de sentido e significado, consumidas por uma estafante rotina de trabalho na juventude e uma tediosa aposentadoria na velhice. Há alguns anos um “manual do suicídio” se tornou best seller em terras nipônicas, elencando inúmeros motivos supostamente razoáveis pelos quais um japonês poderia renunciar à própria vida.

Apelando para uma experiência pessoal, o lugar mais desagradável que já visitei foi Zurique, na Suíça. É uma cidade riquíssima, com elevados padrões de consumo de luxo, mas me pareceu uma cidade absolutamente sem alma e sem coração, onde não se acha uma livraria decente ou um museu interessante, embora se encontrem lojas das maiores grifes internacionais a cada esquina e seja possível avistar um luxuoso carro esportivo a cada 30 segundos. É o tédio consumista levado ao paroxismo. Não à toa, Zurique é hoje uma das capitais mundiais das clínicas de suicídio assistido. Outro exemplo europeu do consumismo avassalador é o Palais Royal, em Paris, que abrigava as melhores livrarias da Europa no século XIX, mas no qual não se encontra mais nenhuma hoje em dia - embora também ali abundem lojas das mais caras e prestigiosas grifes da atualidade. Me parecem sinais curiosos do quanto o tal “desenvolvimento” não é o suficiente para nos oferecer vidas mais ricas e significativas.

Nem me dou ao trabalho de avançar sobre o caso dos Estados Unidos de Manson. Basta ir a qualquer cinema carioca para constatar a franciscana pobreza intelectual, moral e cultural do “desenvolvido” povo americano.

Enfim, nada disso faz do Brasil um lugar melhor, e nossos problemas são muito reais, mas não acho que as nações "desenvolvidas" sejam realmente um exemplo a seguir ou um objetivo a alcançar. Por mais que os deslumbrados turistas brasileiros louvem a fabulosa “educação” do europeu médio, me parece que ruas livres de guimbas de cigarros e pessoas não dando calote no transporte público sejam objetivos civilizacionais muito ralos para ter como modelo e objetivo. Francamente, almejar isso é se contentar com quase nada. Por sinal, quem circula em ruas, bairros e horários menos turísticos de Paris, sabe muito bem que nem todas as localidades são tão limpas e nem todos os parisienses são tão honestos assim - basta passar cinco minutos no "tramway" para verificar quantas pessoas viajam sem validar seus bilhetes. Veja bem, não estamos falando de imigrantes ou refugiados; se trata de “français de souche”, “franceses de raiz”, para usar um termo bem preconceituoso e descortês. Aliás, o turista brasileiro médio ama o Museu do Louvre, mas nunca pôs os pés no Museu Histórico Nacional. O brasileiro "instruído" ama a cultura - desde que ele esteja no exterior e ele possa postar uma selfie com a Gioconda. Aliás, ele nem presta atenção às magníficas Bodas de Caná de Veronese, que estão na parede oposta, na mesma sala.

Tudo isso me faz lembrar o interessante O desconforto da riqueza, livro do historiador (americano, por sinal) Simon Schama, que explora as múltiplas dimensões da cultura holandesa no século XVII, período em que os holandeses se tornaram a maior potência naval, comercial e financeira da época. Logo no começo do livro, Schama analisa o relato de um inglês residente na Holanda, que comentava um estranhíssimo hábito dos holandeses seiscentistas: limpar cotidianamente a casa, sem que ela estivesse "suja" - para os padrões britânicos, a residência só estaria suja, digamos, quando  o chão estivesse enlameado ou um penico fosse entornado acidentalmente, por exemplo. O texto mostra, nesse simples hábito de higiene, uma disparidade cultural crescente entre holandeses e ingleses de então; a atitude holandesa remetia à nascente disciplina social moderna, composta por valores como decência, austeridade, frugalidade, poupança, trabalho diligente etc.

Por outro lado, curiosamente, Schama aborda uma prática realmente chocante: para puro entretenimento, era comum que os holandeses pagassem uma entrada para visitar prisões, apenas pela "diversão" de xingar, humilhar e debochar dos detentos. Gesto bastante bárbaro, me parece. Mas seria um erro imaginar que as duas atitudes sejam antitéticas. Pelo contrário, são faces da mesma moeda: era uma sociedade que se envaidecia de sua (supostamente) virtuosa disciplina e, por isso mesmo, se imaginava no justo direito de escarnecer cruelmente daqueles que lhe pareciam em condição moral (e social) inferior. Ao longo das Idades Moderna e Contemporânea esse novo modelo civilizatório se espalhou pelo mundo inteiro, se ramificando, diversificando e adquirindo diferentes nuances em cada época e lugar, incorporando variados discursos políticos, econômicos, religiosos, culturais e até raciais. De certo modo, podemos propor que o texto de Manson participa amplamente dessa matriz discursiva, arvorando-se em porta-voz da civilização e do progresso, emitindo retumbantes julgamentos e dando uma paternalista e condescendente bronca n o "povo brasileiro", esse ente abstrato. Para nos ajudar, é claro.

Enfim, precisamos criar nosso próprio paradigma civilizacional, não apenas seguir cegamente um receituário pronto para consumo.  Sigamos à parte final dessa já longa reflexão.

3 – A recepção brasileira do texto
Para fechar, convém indagar as razões pelas quais o texto de Manson encontrou tamanha repercussão entre nós. Em primeiro lugar, como já observou um texto interessante, embora um tanto superficial e recheado de clichês, o discurso de Manson vem ao encontro do que muitos brasileiros já pensavam antes, oferecendo uma ratificação externa a essas opiniões.

Todavia, o problema não é somente esse; a grande questão é: por que tantos brasileiros atribuem valor tão expressivo à opinião de um americano que diz ter morado poucos anos no Brasil? Seria nosso famoso “complexo de vira-lata” atuando? Sem dúvida, mas não apenas.

A chave me parece estar na nacionalidade do autor. É fácil imaginar um contraponto: se um nigeriano, um congolês, um indonésio ou um peruano tivesse escrito uma “carta aberta” expressando os mesmos pontos de vista que Manson, o texto encontraria a mesma ressonância? Me parece que não. Muitos brasileiros perguntar-se-iam: “quem esse nigeriano/congolês/indonésio/peruano pensa que é?!”. As razões são relativamente complexas, mas não é difícil resumi-las: aceitamos ouvir opiniões semelhantes de um americano, um francês, um alemão, um suíço e outros, porque nos relacionamos com esses povos de modo deferente, e, sejamos sinceros, subserviente. Toleramos (e até aplaudimos, curtimos, compartilhamos) o que jamais aceitaríamos de outros. Aliás, é curioso notar que dificilmente um brasileiro criticaria os americanos no tom paternalista, condescendente e sapiencial empregado por Mason. Até utilizaríamos esse mesmo tom – para com nigerianos, congoleses, indonésios, peruanos...

Tudo isso convida a repensar nosso “complexo de vira-lata”. Como quase tudo na vida, esse “complexo” não é algo autossuficiente; ele é relacional, à medida que participa de uma série de relações historicamente estabelecidas entre o povo brasileiro e o restante do mundo. Somos submissos a quem está “acima” e arrogantes com quem está “abaixo”; "vira-latas" para um lado, "rottweiler" para o outro. E isso, no fundo, é ainda mais desagradável – assustador, até – que a versão standard do “complexo de vira-latas”.

Concluindo, nada disso quer dizer que nunca devamos ouvir opiniões estrangeiras. Pelo contrário, muitos estudiosos de diversas nacionalidades e disciplinas contribuíram e contribuem enormemente para pensar o Brasil ou a América Latina, como Claude Lévi-Strauss, Charles Boxer, Stuart Schwartz, Richard Morse, Thomas Skidmore, Serge Gruzinski, Frédéric Mauro, Kenneth Maxwell, Geoffrey Needell, entre muitos outros. Mas uma coisa é dar ouvidos a um intelectual conhecedor de nossa história e de nossos processos sociais; abaixar a cabeça diante das opiniões de um “gringo” leigo e arrogante como esse tal Mark Manson é outra coisa inteiramente diferente..

Luiz F. F. Tavares é professor de História das redes FAETEC-RJ e SME-RJ, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e pós-doutorando em Antropologia Social pelo Museu Nacional

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O louco e o poste

Era madrugada. Um homem vinha caminhando pela rua. Dali a pouco, avistou um sujeito agachado sob a luz de um poste, procurando alguma coisa. Prestativo, se aproximou:

-Está procurando alguma coisa?

-Sim, perdi minhas chaves!

-Deixe-me ajudá-lo.

-Oh, muito obrigado!

Os dois homens procuravam e procuravam, mas... nada. Lá pelas tantas, o sujeito prestativo se dirigiu ao outro:

-O senhor tem certeza de que perdeu suas chaves embaixo desse poste?

-Na verdade, tenho certeza de que não perdi aqui... Mas se já está difícil encontrar aqui na luz, imagina só procurar ali no escuro!

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Essa é uma velha piada, com várias versões, mas que sugere uma preciosa lição. Há muita escuridão e muitas chaves perdidas por aí. E muitos loucos presos a seus postes...

domingo, 26 de julho de 2015

Clio mutilada - Escalas e proporções

Dedico este mal acabado ensaio ao Prof. Guilherme Pereira das Neves,  semeador de interessantes inquietações

Há muitos anos, nós historiadores temos deixado de lado, consciente ou inconscientemente, as "grandes narrativas". As sínteses amplas e ousadas parecem nos intimidar cada vez mais, devido a considerações de caráter teórico, metodológico e, muitas vezes, ideológico. Também não me parecem desprezíveis as pressões de ordem prática, promovidas pelo sistema acadêmico vigente, especialmente as políticas de financiamento à pesquisa.

Muito se tem discutido as escalas de análise, mas a verdade é que optamos por recortes analíticos cada vez menores: regiões geográficas por vezes ínfimas, intervalos de tempo breves (ou brevíssimos), trajetórias individuais, e por aí afora.

Enxergamos cada vez melhor as árvores, mas parece cada vez mais difícil perceber a floresta ("Há floresta?" - perguntariam os pós-modernos de plantão).

Mas, no fim das contas, me pergunto: temos um problema de escala ou de projeção?

Desde o século XVI, nossos primos geógrafos lidam, de modo bastante visceral, com problemática semelhante: como representar adequadamente um planeta esférico e tridimensional sobre um suporte plano (logo, bidimensional)? Essa defasagem de uma dimensão representa tremendo desafio, implicando, grosso modo, na perda de "um terço" da realidade.

Uma maneira relativamente simples de lidar com essa questão consiste no uso de escalas cartográficas relativamente amplas (quanto maior a escala, menor a área representada), onde o fator de distorção é consideravelmente amenizado. Reduz-se o mundo a uma coleção fraturada de cartas locais, cujo cotejo fornece uma imago mundi relativamente inteligível e coerente, mas perdendo-se boa parte de sua coesão. Obtemos uma soma de quadriláteros que jamais chegarão perto da esfera: jogamos fora a curvatura, produzimos uma Terra mutilada, picotada, desconjuntada.

A representação holística e sintética de nosso planeta conduz inevitavelmente à elaboração de projeções variadas, recorrendo a diversos e complexos artifícios geométricos e matemáticos. Ao longo dos últimos séculos a ciência cartográfica desenvolveu e aperfeiçoou inúmeras formas de projeção bidimensional da Terra. Basicamente, cada projeção permite representar de forma acurada e precisa algum aspecto específico da esfera terrestre, preservando e privilegiando determinados ângulos, proporções, formas e dimensões em detrimento de outro ângulos, proporções, formas ou dimensões. Podemos ter representações fidedignas de paralelos, meridianos, continentes, oceanos ou regiões polares, mas nunca de todos ao mesmo tempo. Ainda assim, cada uma dessas projeções fornece uma aceitável impressão de conjunto de nosso planeta. Além disso, o cotejo crítico entre essas diversas projeções nos permite melhor aquilatar o efeito de suas respectivas distorções.

Por outro lado, é importante lembrar que as escalas que privilegiam a representação regional escamoteiam, mas não escapam às problemáticas de projeção - apenas as tornam menos perceptíveis e, portanto, muito mais traiçoeiras. Por menos atenção à floresta, tendemos a olhar as árvores de modo mais descuidado.

Retornemos aos domínios de Clio e à questão das "grandes narrativas": num mundo globalizado, cujas partes se tornam cada vez mais integradas, elas me parecem imprescindíveis. No entanto, como viabilizá-las? Como problematizá-las de modo satisfatório? Creio que um caminho possível seria justamente a escolha e a elaboração conscienciosas do que poderíamos pensar como "projeções historiográficas". Em grande medida, a problemática central das projeções geométricas gira em torno de ângulos, especialmente da determinação de ângulos específicos que permitam transpor e traduzir satisfatoriamente certas características do espaço representado ao suporte desejado. De certa maneira, trata-se de um exercício de distorção controlada, segundo uma perspectiva cuidadosamente selecionada, a servir como fio de Ariadne nos labirintos do espaço.

Nesse sentido, qualquer "grande narrativa" será sempre distorcida a partir de determinada perspectiva - trata-se de contingência incontornável. Por outro lado, tal como sucede em cartografia, as microescalas não evitam ou impedem distorções, apenas as tornam mais difíceis de detectar ou perceber. A partir de minha breve experiência como historiador, tenho a impressão de que a forma mais comum de distorção promovida pelo recurso às "pequenas narrativas" é a perda ou o escamoteamento de uma das dimensões mais essenciais da experiência histórica, a diacronia. Ora, me parece que o predomínio de uma História sem diacronia nos conduz, perdoem-me o exagero, a mutilar Clio. E para que nos servirá Clio mutilada, picotada, desconjuntada?

Sendo a arte da projeção uma questão de selecionar ângulos, parece-me que o principal problema na elaboração de uma "grande narrativa" é a escolha de uma perspectiva capaz de nos guiar pelos labirintos do tempo - um fio de Ariadne. Como ditam os princípios da projeção, tal escolha implica em determinar o que desejamos ganhar através da "grande narrativa", mas também o que estamos dispostos a perder em seu processo de formulação.

Minhas primeiras reflexões em torno dessa questão datam de 2012, quando escrevi meu terceiro livro, A ilha e o tempo, dedicado à história dos 400 anos da cidade de São Luís do Maranhão. Agora me dou conta de que o "tempo" foi meu labirinto, enquanto a "ilha" me serviu como fio de Ariadne. Concebi esse trabalho segundo um duplo artifício: narrar a história de São Luís a partir de uma perspectiva global, simultaneamente narrando a história do mundo a partir de uma perspectiva ludovicense, promovendo um jogo de reflexos e refrações, a partir da experiência de diversos personagens que vivenciaram São Luís ao longo de seus 400 anos.

Para tanto, me inspirei particularmente na noção matemática de fractalidade, entre outros modelos vagamente inspirados pelas ciências exatas. Tais ruminações renderam uma espetacular madrugada de diálogo com meu "irmão" Kainã, jovem físico de grande perspicácia - na verdade, essa instigante tertúlia interdisciplinar vem, desde então, suscitando inúmeros questionamentos acerca de diversas problemáticas ontológicas, bem como sobre as múltiplas possibilidades de diálogo entre as ciências humanas e exatas.

Durante boa parte do século XX os historiadores buscaram ferramentas nas ciências exatas, especialmente na Estatística, com a finalidade mais ou menos explícita de alcançar novos patamares de objetividade científica. Essa abordagem rendeu resultados consideráveis em determinadas áreas, especialmente na história da economia e da demografia, mas hoje muitos olham com desdém para essa historiografia dita "serial". Por sinal, me parece que o colapso dessa abordagem corresponde, em grande medida, ao desenvolvimento do ceticismo acerca das "grandes narrativas".

Havia implícita nesse modelo, creio eu, uma concepção estritamente "denotativa" da Matemática e de seus recursos de modelação da realidade. Penso que talvez seja o momento de retomar o diálogo historiográfico com as ciências exatas, sobre novas bases, especialmente buscando na linguagem matemática um potencial "conotativo", não capaz de ancorar objetivamente a História no concreto, mas de ampliar nossas possibilidades de abstração em torno da experiência histórica, inspirando novos olhares, capazes de formular "grandes narrativas" de modo criativo e inovador - algo como uma "hermenêutica matemática" (ou uma "retórica matemática"), capaz de expressar ou sintetizar as experiências do ser humano no tempo através dessa linguagem cujas potencialidades, literalmente, tendem ao infinito.

Por que não?

Esse texto só existe devido a inúmeras pessoas, especialmente minha esposa, Priscila, verdadeira co-autora de A ilha e o tempo, meu ex-orientador e sempre amigo, Rodrigo Bentes Monteiro, o embaixador Vasco Mariz, o Prof. Sebastião Moreira Duarte, o Dr. Luís Mário Duarte, os "irmãos" Kainã e Igor, e os amigos Roger Marques e Fred Oliveira, entre outros companheiros de jornada e de lutas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Jaulas e janelas

Imagine a paisagem mais fantástica possível: um vulcão em erupção; uma aurora boreal sobre um plácido lago; uma revoada de pássaros sobre o pantanal; o entardecer em Veneza; cerejeiras em flor num palácio japonês; as cataratas do Iguaçu ou de Niágara; uma noite estrelada sobre o Atacama; manadas de animais selvagens bebendo água na savana; Macchu Picchu; a Cidade Proibida; qualquer outra coisa que lhe agradar.

Agora imagine uma sala com uma ampla janela panorâmica de onde se descortina essa paisagem.

Agora imagine uma pessoa nessa sala.

Agora imagine que essa pessoa não liga a mínima para a paisagem, mas observa embevecida a janela propriamente dita, atenta a todos os seus detalhes: o vidro e sua espessura, o caixilho, a largura e a altura da janela, etc. É uma janela perfeitamente ordinária, como qualquer outra - no entanto, o observador não tem olhos para a outra coisa. Comenta entusiasticamente a janela com aqueles ao seu redor. Redige anotações sobre a janela; desenha esboços da janela; fotografa os detalhes da janela; elabora gráficos e tabelas sobre a janela. Para o observador, a janela se tornou uma jaula.

Agora imagine que uma terceira pessoa consulta essas anotações, desenhos, fotografias, gráficos e tabelas. Ela saberá tudo sobre a janela, mas quase nada sobre a paisagem deslumbrante - apenas um ou outro elemento marginal, relacionado à janela.

Às vezes, lendo alguns trabalhos acadêmicos, me sinto como essa terceira pessoa.