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domingo, 23 de outubro de 2016
Crivella e Luther King: 2 pastores entre política e religião
O pastor Martin Luther King Jr. nunca escondeu a foto acima. Pelo contrário, ela era um testemunho de sua luta pelo direitos civis e contra o racismo.
Também vale lembrar que Luther King tirou de suas convicções religiosas e princípios éticos a força moral para combater as leis racistas que existiam nos EUA. Luther King nunca usou seu prestígio religioso para lançar candidatura pessoal a cargos públicos, nem para caçar votos para políticos. Luther King representava a religião como força de libertação. Crivella representa a religião como força de dominação. Crivella é pastor e Luther King também era - a semelhança acaba aí: até onde sei, o heróico pastor do Alabama não andava de jatinho.
A maior inspiração de Luther King era o hindu Mahatma Gandhi. Crivella, por outro lado, escreveu que o hinduísmo é coisa do "capeta"... Tolerância religiosa de verdade é apenas mais uma coisa que Crivella desconhece. É fácil botar uma máscara de tolerância para conquistar votos - especialmente quando já se perderam tantas eleições no segundo turno devido a elevados índices de rejeição. A fala de Crivella é mansa como o sibilar da serpente...
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domingo, 11 de janeiro de 2015
Uma liga pela esperança
Nosso mundo precisa de uma liga pela esperança, uma aliança de todas as pessoas de boa-vontade.
É preciso unir forças, reunir todos aqueles que acreditam em futuros melhores, em um mundo melhor. Aqueles que defendem o amor ao próximo, aqueles que tentam amar ao próximo e, mais ainda, aqueles que conseguem amar ao próximo.
Podemos ter qualquer crença ou descrença, mas precisamos ter fé no Amor e em nossa capacidade de amar.
É necessário conjugar os esforços de todos aqueles que desejam o bem da coletividade, que enxergam ou tentam enxergar no outro um irmão. É essencial vencer o ódio pelo amor, vencer a violência pelo diálogo.
É preciso cruzar fronteiras, construir pontes, abater muros, abrir portas, apertar mãos, estreitar laços.
A obra é imensa. Há perigos. Mas há coragem.
Vamos lá?
É preciso unir forças, reunir todos aqueles que acreditam em futuros melhores, em um mundo melhor. Aqueles que defendem o amor ao próximo, aqueles que tentam amar ao próximo e, mais ainda, aqueles que conseguem amar ao próximo.
Podemos ter qualquer crença ou descrença, mas precisamos ter fé no Amor e em nossa capacidade de amar.
É necessário conjugar os esforços de todos aqueles que desejam o bem da coletividade, que enxergam ou tentam enxergar no outro um irmão. É essencial vencer o ódio pelo amor, vencer a violência pelo diálogo.
É preciso cruzar fronteiras, construir pontes, abater muros, abrir portas, apertar mãos, estreitar laços.
A obra é imensa. Há perigos. Mas há coragem.
Vamos lá?
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Camadas do sagrado
Estivemos ontem em Genebra. Devo dizer que, 500 anos depois de Calvino a cidade me parece andar mais pelo lado do "espírito do Capitalismo" que da "ética protestante"... Por sinal, definitivamente, os preços em Genebra seguem à risca o espírito do dito cujo!
Deixando essa questão de lado, foi uma oportunidade fantástica poder visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino fez seus sermões e, principalmente, um local que fez parte do cotidiano de alguns dos personagens e autores que estudo em minhas pesquisas, como Jean Crespin, Pierre Richer e, principalmente, Jean de Léry! Estar exatamente ali, na nave daquela igreja, foi indescritível...
No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios.
Se era mesmo um chefe acho difícil dizer - honestamente, sou um tanto cético quanto a certas identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C. Por sinal, a certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado também no século I a.C. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço.
É interessante observar que esses enterramentos de moedas (e outros objetos) entre algumas tribos celtas correspondia a uma forma de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas.
Logo após a conquista romana há vestígios ali também de que o local foi logo transformado num templo. Infelizmente não tirei nenhuma foto desses vestígios, principalmente elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos parcialmente preservados.
Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, que sofreu sucessivas ampliações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico.
Também é possível ver vestígios do coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica.
Ao lado da Igreja foi ainda instalado um claustro, com as celas dos monges aquecidas por um curioso sistema de calefação radial.
No fim da Idade Média o bispo ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa.
No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ostenta ainda hoje. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, abrigando ninguém menos que o célebre reformador Calvino.
O que me parece impressionante é que, ao longo de nada menos que dois milênios e sucessivas transformações religiosas, esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?
Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa. Provavelmente os próprios Alobrógios foram os autores dessa mutação, num processo corrente de assimilação de sua religião ao panteão romano.
Por outro lado, a apropriação católica posterior teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica no Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica e mesmo a conquista da América. Nesse sentido, tratava-se de manobra religiosa proselitista "friamente calculada", como diria o Chapolim Colorado...
O mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens.
Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos...
Deixando essa questão de lado, foi uma oportunidade fantástica poder visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino fez seus sermões e, principalmente, um local que fez parte do cotidiano de alguns dos personagens e autores que estudo em minhas pesquisas, como Jean Crespin, Pierre Richer e, principalmente, Jean de Léry! Estar exatamente ali, na nave daquela igreja, foi indescritível...
No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios.
Se era mesmo um chefe acho difícil dizer - honestamente, sou um tanto cético quanto a certas identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C. Por sinal, a certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado também no século I a.C. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço.
É interessante observar que esses enterramentos de moedas (e outros objetos) entre algumas tribos celtas correspondia a uma forma de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas.
Logo após a conquista romana há vestígios ali também de que o local foi logo transformado num templo. Infelizmente não tirei nenhuma foto desses vestígios, principalmente elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos parcialmente preservados.
Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, que sofreu sucessivas ampliações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico.
Também é possível ver vestígios do coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica.
Ao lado da Igreja foi ainda instalado um claustro, com as celas dos monges aquecidas por um curioso sistema de calefação radial.
No fim da Idade Média o bispo ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa.
No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ostenta ainda hoje. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, abrigando ninguém menos que o célebre reformador Calvino.
O que me parece impressionante é que, ao longo de nada menos que dois milênios e sucessivas transformações religiosas, esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?
Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa. Provavelmente os próprios Alobrógios foram os autores dessa mutação, num processo corrente de assimilação de sua religião ao panteão romano.
Por outro lado, a apropriação católica posterior teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica no Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica e mesmo a conquista da América. Nesse sentido, tratava-se de manobra religiosa proselitista "friamente calculada", como diria o Chapolim Colorado...
O mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens.
Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos...
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