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Mostrando postagens com marcador Revolução Francesa. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Revolução à brasileira

Trecho de Euclidiana - Ensaios sobre Euclides da Cunha, de Walnice Nogueira Galvão [grifos meus]

"O positivismo se casava tão conaturalmente com o abolicionismo e o republicanismo que o lema da nova bandeira vai ser, como é até hoje, Ordem e Progresso. Benjamin Constant pregava que o soldado deveria ser antes de tudo um cidadão armado, com uma missão ao mesmo tempo civilizatória, humanitária e moral. Esses princípios viriam mais tarde a se institucionalizar na reforma da Escola Militar, de que foi autor, em 1900. Ora, tal concepção tinha sido uma criação da Revolução Francesa, só que ao contrário: eram os cidadãos que tinham se armado para propagar os ideais revolucionários pelo mundo, para civilizar o mundo ainda oprimido pelo Antigo Regime, e não para militarizá-lo. Estava pronto para ser usado - como de fato o foi, até para legitimar a chacina dos pobres em Canudos - o mito da Revolução Francesa à moda da casa".

Sargento Pincel - exemplo de cidadão armado em missão civilizatória, humanitária e moral.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ájax futurista

"...um dia, o filho mata o pai... O povo mata o rei... O homem mata Deus... Não se trata de inveja. É uma ação necessária para poder andar com os próprios pés! [...] Mesmo que o meu corpo seja destruído, a minha vontade de ferro é imortal! Lembre-se, ó manipulador de fantoches que observa do alto de seu pedestal em Zalem! [...] Povo de Zalem... Escute-me através dos ouvidos do anjo da morte... A minha voz representa a ira do povo da superfície... Fomos perseguidos e pisoteados durante séculos pelo sistema opressor de Zalem e de sua Factory! Saibam que minhas palavras representam o ódio dos mortos inocentes! A devastação e a estagnação da superfície! O ódio e o desalento deste mundo são culpa de Zalem! Lembrem-se! Um dia vocês pagarão por terem tirado o céu de nosso alcance! [...] Este meu corpo é só uma carcaça. Nunca poderão me matar de verdade. Pode atirar! Aproveitem essa vitória momentânea!"
Den of Barjack [Battle Angel Alita]

Ciborgue indomável

domingo, 19 de abril de 2020

O homem que ri

Ah! Me tomais por uma exceção! Sou um símbolo. Ó, todos-poderosos imbecis que sois, abri os olhos. Encarno tudo. Represento a humanidade tal qual a fizeram seus senhores. O homem é um mutilado. O que me fizeram, o fizeram ao gênero humano. Lhe deformaram o direito, a justiça, a verdade, a razão, como a mim os olhos, as narinas e as orelhas; como a mim, lhe puseram no coração uma cloaca de cólera e dor, e sobre a face uma máscara de contentamento. [...] Reis, nobres e príncipes, o povo é o sofredor profundo que ri na superfície. Milordes, vos digo, o povo, sou eu. Hoje o oprimis, hoje me vaiais. Mas o futuro é o degelo sombrio. O que era pedra se torna onda. A aparência sólida se transforma em submersão. Um estalar, e tudo está dito. 

Fala de Gwynplaine, deformado protagonista de O homem que ri, romance publicado por Victor Hugo em 1869 - cerca de dois anos antes do colapso do Império de Napoleão III, após a derrota na Guerra Franco-Prussiana e seguido pela sanguinolenta revolta popular conhecida por Comuna de Paris.

A fala de Gwynplaine caberia perfeitamente na boca de certas versões do Coringa, vilão de quadrinhos (supostamente) inspirado pela maquiagem de Conrad Veidt na adaptação cinematográfica de 1926 de O homem que ri.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ecos da Revolução Francesa

Lembranças do filósofo dinamarquês Henrik Steffens sobre a chegada em Copenhague das primeiras notícias da tomada da Bastilha, em Paris, em 1789.

Eu tinha dezesseis anos. Meu pai retorna ao lar fora de si; ele chama seus filhos: "Meus filhos, vocês têm sorte! - grita ele - Que dias felizes e brilhantes se levantam para vocês! Agora, se cada um de vocês não criar uma posição independente, reclamem apenas de si mesmos. Todas as barreiras do nascimento e da pobreza cairão; doravante, o último entre vocês poderá lutar contra o mais poderoso com armas iguais e no mesmo terreno!" Ele parou, vencido pela emoção, e se pôs a chorar por alguns instantes. Depois ele nos contou como a Bastilha fora tomada e as vítimas do despotismo libertadas. Não era apenas na França que uma revolução começava, era em toda a Europa. Ela deitava suas raízes em milhões de almas.

Folheto da época com gravura da tomada da Bastilha, acompanhada de narrativa e versos.

sábado, 19 de novembro de 2016

Barbárie, sensacionalismo e mídia

Em 2011, escrevi um texto lamentando as comemorações em torno da morte de Osama Bin Laden. Alguns meses depois, tétricas imagens do cadáver de Gaddafi correram o mundo e a Internet, usadas até em piadas e memes.

Guardadas as devidas proporções, nos últimos dias a prisão de Garotinho e Cabral se tornou centro de um grande circo midiático. A patética (nos dois sentidos) imagem de Garotinho arrastado de uma maca pela polícia se tornou objeto de riso escarninho e, obviamente, muitos memes. Embora seja uma pessoa muito debochada e ainda mais raivosa, não conseguir ver graça. As lágrimas e gritos de Clarissa Garotinho não me alegram, não quitam as dívidas do Estado do Rio, nem pagam as minhas contas.

A decadência humana normalmente não me faz rir. Não rio de um menor infrator amarrado a um poste, e não vejo tampouco razões para rir de um ex-governador arrastado pela polícia. Opressor e oprimido são seres humanos, e a compaixão não deve, ou não deveria, conhecer limites. Há que se permanecer sensato, mesmo em tempos de insensatez.

Em épocas passadas, execuções eram espetáculos públicos e os cadáveres de criminosos eram esquartejados e seus pedaços expostos em ruas e praças. Na França, a gordura de "hereges" chegou a ser leiloada durante as Guerras de Religião. Na Inglaterra, até meados do século XIX, a pele de condenados era usada para fabricar carteiras, vendidas a bom preço como souvenirs. Durante a Revolução Francesa, cabeças cortadas eram exibidas como troféus e bijuterias em forma de guilhotina eram vendidas por comerciantes espertos.

Desde o século XVI gravuras de execuções e cordéis com histórias sanguinolentas sempre constituíram êxitos editoriais, sucessivamente transpostos para todo tipo de mídia consumida com volúpia. As mídias digitais são apenas a parte mais recente dessa história.

Mas a História mostra que, felizmente, o que outrora foi costume, às vezes se torna barbárie. Tenho esperanças...

Achei essa imagem no Google; não descobri data ou autoria, mas aparenta vir do mundo anglófono, entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do XX.

domingo, 23 de outubro de 2016

Você precisa de "direitos humanos"?

No momento atual, acho pertinente fazer alguns comentários sobre a história dos direitos humanos - afinal de contas, sou professor de História!



Resumindo e simplificando MUITO, muito MESMO, nas sociedades de Antigo Regime, os súditos das monarquias deviam servir e obedecer ao rei. As pessoas tinham poucos direitos, e as leis eram muito injustas. Durante a Revolução Francesa foi criada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), inspirada por pensadores dos séculos XVII e XVIII. A Declaração é um dos textos fundadores da moderna cidadania, pensando um cidadão com direitos e deveres, em lugar da figura do súdito, que tinha muitos deveres e poucos direitos. Foi um grande avanço para a humanidade. É a "certidão de nascimento" dos direitos humanos, ou seja, de direitos que pertencem a todas pessoas, independentemente de religião ou categoria social. 

Durante o século XIX, essa noção de cidadania e direitos humanos se consolidou na França e se espalhou para outros países. Aqui no Brasil, a noção de direitos humanos foi muito importante para o movimento abolicionista; o fim da escravidão está diretamente ligado à ideia de direitos humanos. 

A Segunda Guerra Mundial foi marcada por muita violência e verdadeiros absurdos, como o holocausto nazista e as bombas nucleares lançadas no Japão. Assim, três anos depois da guerra, em 1948, a Organização das Nações Unidas elaborou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, diretamente inspirada pelo texto da Declaração de 1789. A declaração de 48 garante direitos políticos, sociais e civis, protegendo o cidadão de arbitrariedades. São direitos importantes e essenciais, como alimentação, moradia, emprego, educação, saúde, saneamento básico, participação democrática na política, liberdade de expressão, liberdade de consciência, liberdade de culto, igualdade perante a lei, presunção de inocência, direito a julgamento justo, entre outros.

Foi um importante avanço na história da humanidade, levando a cidadania e os direitos humanos a inúmeros países do mundo. Desde então, quase todos os países, inclusive o Brasil, assinaram a Declaração. Para os países signatários, a Declaração tem valor de lei. Aqui no Brasil, onde os direitos humanos ainda não são plenamente respeitados, é essencial lutar para que eles saiam do papel, virem uma realidade para todos os cidadãos. 

Existem órgãos importantes para isso, como as comissões legislativas de direitos humanos, federais, estaduais e municipais. Talvez você tenha críticas ao funcionamento desses órgãos, mas eles são muito necessários para a preservação da cidadania e para proteger os cidadãos brasileiros de inúmeros abusos.

Também é essencial diferenciar as comissões legislativas de direitos humanos, que fazem parte do nosso sistema legal, das organizações não-governamentais (ONGs) de defesa dos direitos humanos e de promoção da cidadania. Algumas dessas ONGs realizam um trabalho muito sério; outras nem tanto. Mais uma vez, devemos distinguir umas das outras: algumas dessas ONGs realmente merecem críticas, enquanto outras merecem aplausos. Seria injusto responsabilizar as ONGs sérias e responsáveis pelas ações das ONGs levianas. 


domingo, 11 de setembro de 2016

Reis, povos e museus

Trecho (mal) traduzido de La guía del Prado, de autoria de Alberto Pancorbo

"A instituição que hoje conhecemos como Museu do Prado abriu suas portas ao público em 19 de novembro de 1819 com o nome de Museu Real de Pinturas, dado que se havia criado por iniciativa e sob o patrocínio do rei Fernando VII. Em 1793 se inaugurara o Museu do Louvre, o primeiro dos museus públicos e modelo de todos os criados posteriormente. Em que pese seu caráter real, o Prado partilhava com o Louvre o objetivo de trazer à luz tesouros artísticos até então conhecidos e desfrutados somente por um grupo muito reduzido de pessoas pertencentes à realeza, à aristocracia ou à Igreja. Esta ideia de tornar pública a arte tinha uma raiz ilustrada e um desenvolvimento revolucionário e, como muitas outras ideias, se difundiu por toda a Europa graças às invasões napoleônicas. Já em começos do século se manifestou na Espanha a necessidade de criar na corte um museu que reunisse as obras artísticas de importância que não eram adequadamente conservadas em outras partes do país. Mas a iniciativa mais séria de criar um museu de pinturas chegou depois da invasão napoleônica e pela mão de José Bonaparte, que em 1809 promulgou um decreto pelo qual se criava em Madri um museu de pintura, que denominar-se-ia Museu Josefino.

[...]

O fim da Guerra de Independência espanhola, a saída dos franceses e a chegada a Madri de Fernando VII em maio de 1814 como rei, longe de fazer naufragar a iniciativa de criar um museu de arte, a favoreceu. Nos meses imediatamente posteriores a sua chegada, o rei dispôs o necessário e finalmente o Prado nasceu sob o patrocínio do rei Fernando VII e pago de seu bolso. Deste modo, se não por suas intenções, o Museu do Prado se distinguia claramente do Louvre pela forma em que se originou. Este último foi criado em pleno auge revolucionário com as obras nacionalizadas da coroa e as confiscadas da Igreja e dos nobres. Pelo contrário, os fundos do Museu do Prado se constituíram com as obras artísticas da Coleção Real".

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A densidade da ausência

Na última semana estive na Place de la Bastille. Como se sabe, a fortaleza foi destruída durante a Revolução Francesa. Hoje restam apenas as pedras que marcam o contorno da construção. Apenas uma placa comemorativa explicita esses vestígios, por sinal difíceis de distinguir com todo o trânsito da praça. Não fossem essas lembranças, pareceriam apenas pedras comuns no chão...

 Ao lado, outra placa, em agradecimento "a nossos pais de 1789", dedicada pelos "estudantes de 1880".
É difícil definir a sensação de estranheza experimentada num lugar que ao mesmo tempo foi, simbolicamente, o epicentro da contemporaneidade, o ponto de partida do estranho mundo em que vivemos hoje, mas que não guarda muitas lembranças visíveis do que era a Bastilha em 1789, à ocasião daquele fatídico 14 de julho.

Por estranho que pareça, o que se sente ali é uma ausência incomensuravelmente densa, como um objeto invisível mas poderoso, um centro gravitacional que só pode ser percebido por seus efeitos; como um buraco negro, talvez, ou como uma radiação de fundo. É como se a Bastilha destroçada nunca tivesse deixado de estar ali; mais complexo ainda, é como se ela só exista significativamente exatamente porque deixou de existir. Um paradoxo: ela só está ali porque não está ali.

Como uma espécie de "matéria escura", uma massa colossal de simbolismo invisível, que faz gravitacionar a seu redor inúmeros outros monumentos significativamente ligados direta ou indiretamente à própria Revolução, como a Torre Eiffel (comemorativa do centenário), o Arco do Triunfo (marcando as vitórias do exército revolucionário), entre tantos outros (Invalides, Conciergerie, etc).

De fato, talvez seja tão importante porque sua ausência represente a posteriori a própria "destruição" do Antigo Regime. De qualquer forma, me parece inevitável que a Bastilha perdeu sua existência material apenas para adquirir um outro tipo de existência muito mais poderosa, onipresente e incontornável: a existência simbólica. Tornou-se um monumento tecido de ausência.