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Mostrando postagens com marcador Top 3 - Ecos de 2013. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Educação Pública - Eu também tenho um sonho...

Que o reverendo Martin Luther King me perdoe o abuso, mas eu também tenho um sonho!

Eu sonho com uma educação pública de qualidade rasgando estradas para o Brasil do futuro, nos afastando das mazelas do passado.

Sonho com uma escola pública capaz de sanar os males de séculos de colonialismo e escravidão, de latifúndios, patriarcalismo, patrimonialismo e opressão, de tristes violências e amargas desigualdades.

Sonho com uma escola pública onde estudem os filhos de todas as classes sociais, tornando-se um lugar de encontro, troca, e mútua conscientização. Que em cada sala de aula estejam juntos o filho do engenheiro e do peão, do camelô e da advogada, do professor e do gari, da médica e da diarista, do cabo e do coronel. Que juntos consigam ver uns nos outros cidadãos dignos de respeito e solidariedade, lutando unidos por uma sociedade mais justa, harmoniosa e feliz.

Sonho com uma escola pública e laica, capaz de fortalecer um Estado laico e uma sociedade tolerante, composta por cidadãos respeitosos da pluralidade religiosa, sexual, cultural e política.

Sonho com uma escola pública que seja lugar de pesquisa e produção intelectual, formando homens e mulheres inteligentes, questionadores e criativos, formando lideranças positivas para o futuro de nosso país: cientistas, artistas, intelectuais, políticos, empreendedores sociais, sindicalistas, sacerdotes.

Sonho com uma escola pública que forme cidadãos aptos a viver plenamente a aventura da democracia, a fazer escolhas sábias nas urnas e fora delas, prontos a enfrentar todas as lutas políticas do cotidiano, onde as encontrarem.

Sonho com uma escola pública que seja um porto seguro para todos aqueles que enfrentam as mais dolorosas experiências, de violências, negligências e abandonos familiares, capaz de proteger e reerguer esses pequenos cidadãos e suas famílias para um futuro melhor.

Sonho com uma escola pública que forme pessoas comprometidas com a busca de si mesmos, com a realização de seu potencial, com o desejo de ser mais, escapando às sombrias garras do consumismo e da futilidade.

Não é um sonho impossível. É um projeto realizável. Mas para se tornar realidade, precisa do compromisso de todos: educadores e alunos, famílias, governos e demais cidadãos. Enfim, toda a sociedade precisa fazer sua parte.

É uma luta árdua, mas vale a pena, vale todas as penas. E é por isso que seguimos lutando!

domingo, 23 de junho de 2013

A composição dos manifestos - uma perspectiva em microescala

Quantidade não é qualidade.

Tenho visto muitas pessoas perdendo tempo em debates esteréis sobre QUANTAS pessoas havia nas ruas do Rio na última semana. Honestamente, considero uma discussão perfeitamente irrelevante para nossas necessidades atuais. Basta dizer que havia MUITÍSSIMAS pessoas, em quantidade significativa e incontornável. A cifra exata, para mais ou para menos, além de impossível de definir precisamente, não nos esclarecerá de modo considerável.

Pelo contrário, creio que seja urgente uma reflexão mais atenta a respeito das forças sociais componentes dessas manifestações, de modo a compreender (um pouco) melhor a resultante que temos visto nas ruas e nas diferentes mídias, incluindo obviamente a Internet e as redes sociais.

Obviamente é impossível definir as motivações de cada um dos milhares que têm participado dessa movimentação. No entanto, devemos refletir sobre a pluralidade que marca essa participação política. Pluralidade muito bem vinda, por sinal. Que fique bem claro, não lamento a falta de clareza atual. No entanto, me parece que sua permanência indefinida levará a um esvaziamento dessas manifestações.

Também deixo claro que não desejo que os participantes se unam em um único discurso e sob uma única bandeira. Antes de tudo, porque seria impossível - sejamos realistas. Em seguida, porque acho muito mais rico politicamente que haja pluralidade e diversidade. Me desagradaria profundamente que surgisse daí alguma ideologia monopolizante, à direita ou à esquerda. Além do mais, qualquer discurso capaz de unificar e agradar a TODOS seria necessariamente um discurso superficial e empobrecido. É importante que em lugar de um movimento único tenhamos muitos movimentos paralelos atuando de modo simultâneo e convergente. Aceitar a diversidade de posturas e opiniões, sem desqualificar ou desmerecer posicionamentos conscientes de qualquer natureza é uma mostra de maturidade democrática. Acho que podemos chegar lá.

Também não quero desvalorizar nossos "Chapolins ideológicos" da hora presente. Acho excelente que pessoas anteriormente despolitizadas se interessem pela vida política de nosso país. Elas não devem ser rechaçadas como um incômodo. Devemos sim dialogar com elas, de modo a promover a educação política de nossa nação. No entanto, evitemos posturas arrogantes. Há pessoas despolitizadas e mal informadas que ainda assim têm pontos de vista muito interessantes e ricos. Devemos ouvi-las e ajudá-las a transformar essas contribuições em algo mais consistente.

Dito isso, vamos à nossa análise da composição dos manifestos. As observações que seguem derivam do que tenho visto e ouvido de pessoas próximas, com que tenho contato diretamente, seja pessoalmente ou por meios eletrônicos. É o espaço amostral de que disponho para análise. Por isso mesmo, trata-se de uma "perspectiva em microescala".

Procurarei aqui identificar não tanto grupos ou categorias de pessoas, classificando-as de modo rígido. Na verdade, quero principalmente identificar um repertório de atitudes. Por sinal, dificilmente alguém enquadrar-se-á numa atitude única, mas em várias. Trata-se de categorias complementares, e não excludentes.

E lá vai nosso repertório:

Os Politizados Partidários - são aqueles que já algum tempo participam de modo ativo da vida política do país, mostrando-se comprometidos com as plataformas políticas de algum partido específico, seja de esquerda ou de direita (sim, porque ser politizado não é sinônimo de ser de esquerda).

Os Politizados Apartidários ou Suprapartidários - são as pessoas que têm o hábito cotidiano de pensar e debater sobre política e possuem posturas conscientes e bem embasadas sobre a vida política do país, sem cultivar vínculos com nenhum partido específico. (OBS: me situaria nessa categoria).

Os Antipartidários - são contrários à própria existência de partidos políticos, de modo um tanto vago. Me parece um fermento político pernicioso, cego à necessidade de pluralidade ideológica.

Os Insatisfeitos - pessoas pouco politizadas e muito irritadas com a situação do país. Querem demonstrar sua insatisfação, mas não apresentam bandeiras muito concretas, e sim um sentimento de descontentamento difuso.

Os Raivosos - mais que insatisfeitos, têm raiva, um ódio visceral aos políticos, à situação do país, etc. Articulam um discurso vingativo e revanchista. Querem ver políticos presos, destituídos, punidos das mais variadas formas. Querem ver o circo pegar fogo.

Os Empolgados - pessoas que nunca ligaram muito para política, céticas em relação a alternativas, mas que agora estão entusiasmadas pela possibilidade de encontrar novas possibilidades e meios de atuação coletiva. É um grupo muito positivo, que pode enriquecer muito a qualidade do movimento.

Os Deslumbrados - têm um olhar um tanto narcisista sobre o movimento, encantados com a quantidade de pessoas, com o povo nas ruas, etc e sentem um orgulho indisfarçável por participar. Apreendem o conjunto da situação sob um viés predominantemente estético: tudo é tão lindo!

Os Festivos - participam como se fosse uma farra, como se estivessem num estádio ou num bloco de carnaval. Vão mais pelo modismo, pela azaração e para postar fotos... O clima desses participantes é um tanto ao estilo "Rock In Rio - Eu vou!"

Os Violentos ideológicos - praticam atos de vandalismo e de depredação por orientação ideológica, baseados em discursos consistentes de revolta armada, revolução pela força, etc. Quem fez graduação em História ou áreas afins conhece o tipo.

Os Violentos indignados - pessoas que adotam atitudes agressivas como forma de explosão raivosa contra o sistema, agindo de modo quase catártico.

Os Criminosos oportunistas - gente que está se aproveitando da situação para saquear lojas ou destruir símbolos de status dos quais se vêm excluídos. Sua atuação tem estreita relação com as pulsões consumistas cotidianamente cultivadas por nossa sociedade.

sábado, 22 de junho de 2013

"V de Vingança" ou "C de Chapolim"?

Dedicado aos amigos Roger Marques e Tiago Ribeiro


As apropriações culturais mais interessantes são quase sempre fruto de manobras criativas e imprevisíveis. É o caso do percurso trilhado pela obra V de Vingança ("V for Vendetta", no original).

A máscara de Guy Fawkes (rebelde inglês do século XVII) durante séculos foi objeto de execração em comemorações anuais na Inglaterra, ao estilo da nossa "malhação do Judas". No início dos anos 80, o quadrinista britânico Alan Moore se apropriou da imagem para a impactante caracterização do personagem V, numa obra que criticava o contexto das reformas neoliberais empreendidas na "Era Thatcher". Cerca de três décadas depois, a máscara de V/Guy Fawkes foi tomada como símbolo de manifestações populares contra o mesmo sistema neoliberal, em sua fase mais avançada, em que os sinais de deterioração sociais decorrentes se tornam nítidos ao redor do mundo. Até onde sei, essa apropriação da imagem começou em Nova York, com o movimento de ocupação em Wall Street. Depois de tímidas aparições em solo brasileiro, chega com toda força a nossas ruas.

Com certeza, Alan Moore deve estar muito satisfeito com essa trajetória. Ouso dizer que Guy Fawkes também, com a eclosão de seu legado simbólico, após tantos séculos.

No entanto, vale observar que muitas pessoas estão usando a imagem de modo um tanto vazio. Provavelmente não leram a história em quadrinhos e talvez nem tenham assistido o filme. Usam a máscara de V, mas articulam discursos totalmente incongruentes com as críticas elaboradas pela obra de Moore. Muitos talvez nem saibam de onde o símbolo saiu. Por outro lado, há aqueles que talvez até tenham lido - usam fantasias completíssimas inclusive - mas apenas balbuciam palavras de ordem banais e propostas superficiais.

Enfim, o que temos visto por aí combina muito pouco com V, personagem coerente, analista preciso da realidade, dono de um discurso orgânico e planejador astuto e sagaz. Enfim, nada a ver com muitos setores que têm frequentado as ruas brasileiras, defendendo plataformas ocas, repetindo bordões e entoando cantorias de significado duvidoso.

Enfim, estão mais perto do desorientado Chapolim Colorado que do metódico V.

Como sabem quase todos que cresceram no Brasil nos anos 80 e 90, o nosso querido herói latino nem sempre age de modo muito consistente. De fato, mete os pés pelas mãos, "esclarecendo" em seguida que seus movimentos são friamente calculados...

Pior ainda, apesar de seus nobres sentimentos, o ingênuo Chapolim é facilmente ludibriado. Pior ainda, o Polegar Vermelho adere a qualquer causa sem pedir maiores esclarecimentos. Em diversos episódios o vemos ajudando cientistas malucos a realizar experimentos inescrupulosos, bandidos a saquear casas, espiões a roubar documentos, e por aí vai... Muita gente tem andado por nossas ruas levantando bandeiras que não sabem exatamente de onde saíram nem aonde querem ir. De fato, não conto com a astúcia dessas pessoas.

Enfim, fica o recado: "Chapolins" de todo o Brasil, fiquem atentos e usem melhor suas anteninhas de vinil para detectar a presença do inimigo - e não colabore com ele!