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Mostrando postagens com marcador Quadrinhos. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

MCU - Mega Circo Unificado

Me surpreendi hoje ao constatar que o tão badalado "Universo Marvel" (MCU para os íntimos) já tem trinta e um (!) filmes lançados e mais uns oito (!) agendados - fora os seriados e especiais de TV e streaming (!!!).

Gosto de super-heróis, gosto de (alguns) filmes de super-herois, mas... Para tudo há um limite. 

Excluindo algumas obras mais inspiradas, o grosso dessa produção poderia receber o rótulo de "entretenimento barato" - não fosse o orçamento milionário desses filmes e sua extraordinária arrecadação - sem mencionar a vasta gama de produtos derivados.

Se essas "maravilhas" não ocupassem quase todas as salas e horários de cinema o ano inteiro, não seria o maior dos problemas. Filmes de super-heróis (não apenas Marvel) ocupam uma porção cada vez maior de sessões de cinema, deixando menos e menos espaço para outros gêneros cinematográficos.

Como se não bastasse essa quase usurpação das sessões de cinema, o fenômeno se espalha também pelas prateleiras de livrarias, lojas de brinquedos e milhares e milhares (literalmente) de sites, canais e vídeos em plataformas digitais - em sua maior parte, material de qualidade e relevância duvidosas.

Essa verdadeira monomania é prejudicial inclusive às próprias obras de super-herois, visto que a quantidade cada vez maior de produtos compromete sua qualidade, resultando em trabalhos cada vez menos criativos, mais repetitivos e esvaziados de significado - inclusive devido ao status de propriedade intelectual de grandes conglomerados de mídia; à medida que os paladinos mascarados, encapuzados e coloridos se tornam investimentos milionários, a liberdade de criação dos artistas envolvidos com essa indústria se torna mais e mais limitada, devendo se conformar a um cânone cada vez mais padronizado e enrijecido. De certa maneira, quem viu um filme Marvel, viu todos. 

Os anos 60 e 70 foram quase uma Nova Gênese para os quadrinhos de super-herois, pela contribuição de criadores como Stan Lee, Dennis O'Neal, Jack Kirby, Neal Adams e muitos outros (apesar do papel vagabundo e da limitada paleta de cores); os anos 80 e 90 viram uma vibrante explosão criativa, encabeça por figuras como Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, John Byrne, Grant Morrison e outras mentes talentosas - foi o período em que emergiram as ambiciosas "graphic novels", com maiores pretensões artísticas e recursos editoriais mais vastos. O mesmo não pode ser dito das primeiras décadas do século XXI, marcadas por uma assombrosa estagnação, produzindo poucas obras dignas de nota, apesar dos notáveis avanços técnicos que viabilizam edições belas, caras e artisticamente pobres - décadas estéreis como Apokolips...

Tal excesso de oferta, que beira a imposição,  a meu ver, já está se tornando um fator de alienação cultural para grande parte do público, especialmente dos mais jovens. A diversidade é essencial para o cultivo do ser humano em plenitude. Há que se explorar outros horizontes, navegar e mergulhar em outros mares.

Em sua maioria, filmes de super-herois são divertidos, mas tremendamente superficiais. Diversão é importante, mas não pode ser tudo na vida. Um ser humano que se cultive apenas com obras divertidas perde a oportunidade de explorar outras facetas da vida, do mundo, e de si mesmo. O próprio mundo dos quadrinhos, por sinal, não pode ser resumidos a franquias de super-herois - há muitos outros gêneros de "gibis", cada qual com suas riquezas. 

Até a diversão demasiada termina por saturar, enfastiar; deixa de ser um prazer para se tornar uma compulsão - sacia, mas não alimenta. E haja circo para pouco pão...

Viraremos todos "zumbis Marvel"?


domingo, 5 de fevereiro de 2023

Riddle me this

Can a bat fly twice at the same city? Bat and city are never the same. Sameness is in the eye of the beholder - but does the same eye see the bat twice?



quarta-feira, 6 de abril de 2022

Montruosidades Messiânicas

 "Eu vi seu carisma.

Ele o perdeu.

Esfacelou-se diante de todos.

Esse é o problema em criar monstros.

O controle é difícil.

O importante é as pessoas nunca sentirem medo ou fraqueza em você.

Isso é um erro fatal.

Se fraquejar, elas se voltam contra você.

Monstros exigem que seus messias sejam fortes.

Eles detestam ser enganados".

Jim Starlin (em Batman - O Messias - no original, The Cult)


Diácono Blackfire, o "messias", incitando seus seguidores à violência.


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Batman na arena política

Os primatas do planeta Terra nos surpreendem ao cabo das translações solares.

Nos anos 50, no auge da paranoia macartista, Batman era acusado de induzir os meninos à homossexualidade; quem diria que décadas depois ele seria acusado de "fascista" pelas militâncias de esquerda... Coitado do morcegão!

O personagem salta há mais de 80 anos pelos telhados de Gotham City e já foi abordado de inúmeras maneiras ao longo dessas décadas. 

É curioso que as militâncias digitais andem  mais preocupadas com a fortuna Wayne que com o Batman propriamente dito. Qualquer leitor atento sabe que Bruce Wayne, o entediado playboy milionário, desde a primeiríssima história,  sempre foi apenas a máscara do Batman.

Na história inaugural, publicada na revista "Detective Comics 27" em maio de 1939, Batman figura desde o começo como protagonista. Wayne aparece durante toda a narrativa apenas como um jovem cuja frivolidade chega a ser casualmente lamentada pelo Comissário Gordon. Só nas duas últimas vinhetas ocorre a revelação: Batman é Bruce Wayne. O milionário fútil, entojado e almofadinha talvez até causasse alguma antipatia aos jovens leitores que tiveram a honra de testemumhar a estreia do Cavaleiro das Trevas.

Para todos nós que viemos depois, é impossível saber, pois lemos desde a página 1 sabendo que Wayne e Batman são a mesma pessoa. Há de fazer diferença.

Quanto a Batman ser um "espancador de pobres", vale lembrar que o vilão da primeiríssima aventura era um milionário que assassinava os próprios sócios para dominar sozinho o negócio. Batman surgiu combatendo um "capitalista selvagem".

De resto, elucubrações excessivas sobre as dinâmicas sociais e políticas de Gotham City, uma cidade ficcional, beiram o ridículo. Como bem sinalizava David Mazzuchelli, desenhista de "Batman-Ano Um", uma das histórias mais icônicas do personagem, quanto mais realismo se tenta aplicar ao fantasioso universo dos super-herois, mais evidente se torna o absurdo da premissa original.

Vale notar, inclusive, que "Ano Um", publicada em 1987, mostra um novato Batman em confronto com uma Gotham City decadente e degradada, dominada por empresários gananciosos e mafiosos associados a um prefeito e uma força policial corrupta. Uma das sequências mais emblemáticas da série mostra Batman invadindo um banquete dessa predatória elite e anunciando sua cruzada por Gotham: "Senhoras e senhores, vocês comeram bem. Comeram a riqueza de Gotham... Seu espírito. O banquete acabou. De hoje em diante nenhum de vocês estará a salvo".

Digna de nota também é a longa sequência de aventuras do Batman produzidas pelos engajados Dennis O'Neil e Neal Adams nos anos 70, entusiastas da contra-cultura da época, muitas vezes abordando temáticas sociais com uma abordagem nada elitista. Uma dessas histórias chega a retratar Batman ajudando guerrilheiros contra um regime ditatorial em um fictício país latino-americano!

Desde sua primeira aparição nos quadrinhos em 1939, Batman figurou em literalmente milhares de obras midiáticas, incluindo HQs, livros, animações, séries televisivas, filmes e video-games, entre outras, com abordagens variadíssimas. Há versões de Batman para todos os gostos e desgostos.

Reduzir Batman a um sádico milionário fantasiado de morcego para espancar bandidos pobres é algo tão simplório que beira o ridículo. Mas é desse tipo de reducionismo que se alimentam as paixões políticas e as querelas estéreis e ociosas. 

Discursos bobos e superficiais como o do meme acima só trazem descrédito àqueles que os reproduzem e banalizam questões sérias como violência urbana e desigualdade social; pouco contribuem para o debate público e até fortalecem as forças políticas que pretendem criticar.

#Reflita

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Línguas, Livros, Caminhadas e Travessias

Nos últimos dias empreendi uma empolgante travessia: pela primeira vez li, de capa a capa, um livro inteiro em Alemão, 270 páginas, uma de cada vez.

Não li como quem caminha sobre uma ponte, mas como quem atravessa um rio com água até os joelhos.

O livro, obviamente era "Krabat", de Ottfried Preußler, uma de minhas obras favoritas de fantasia, que descobri quase por acaso, na Bienal de 2007, num balcão de livros encalhados.

Ainda no ônibus, retornando para casa, abri o livro e o devorei em menos de 48 horas. Assim é a prosa de Preußler. Nos anos seguintes li "Krabat" mais duas vezes, ainda na língua de Camões.

Em 2012, quando Priscila e eu partimos para nosso inesquecível verão europeu, um de meus objetivos era trazer para casa um exemplar de "Krabat" na língua original.

Iniciei minha busca desde o primeiro passo em solo germanófono, na insossa Zurique, provavelmente a cidade mais prosaica, chata e pequeno-burguesa do mundo. Em Zurique avistei quantidade de carros de alto luxo como em nenhum outro lugar, mas as livrarias eram escassas, e não havia exemplar de "Krabat"em nenhuma delas, para minha grande decepção.

Felizmente Zurique (onde jamais pretendo zurückgehen) era apenas uma escala. Dali tomamos um trem noturno para Viena com seus mil encantos. Assim que descemos na Hauptbahnhof e tomamos nosso Frühstück, procuramos a livraria da estação. Em meu sempre claudicante alemão, me dirigi à balconista:

"Guten Morgen! Haben Sie 'Krabat', bitte?"

A moça arregalou seus olhos azuis:

"'Krabat'?! Von Preußler?!"

Me senti como quem perguntasse se havia pão na padaria. Retruquei:

"Ja. 'Krabat', von Ottfried Preußler. Haben Sie es...?!"

"Natürlich!"

Sem delongas, a moça atravessou a livraria na diagonal e em poucos segundos eu tinha a relíquia em minhas mãos, como um Parsifal que houvesse encontrado seu Santo Graal:

"Danke schön! Ich liebe 'Krabat'!"

Meu Alemão era insuficiente para expressar adequadamente minha gratidão, mas imagino que o sorriso tenha sido mais que expressivo. A moça sorriu de volta, com uma longa frase, da qual pouco entendi.

Meses depois, de volta ao Brasil, finalmente tomei meu exemplar germânico de "Krabat" para, supostamente, me deleitar com a prosa de preußleriana original. Em vão. Após muitas consultas ao dicionário e à tradução brasileira, desisti da tarefa que se revelou ingrata.

Com imensa frustração entreguei "Krabat, von Preußler" a uma prateleira. Havia viajado meio mundo atrás daquele livro, mas agora que o tinha em minhas mãos, não conseguia juntar as palavras, frases, parágrafos e páginas para fazer um romance. Eu enxergava as árvores, mas a floresta escapava a meus olhos. Me senti como um Parsifal que houvesse encontrado o Santo Graal, mas permanecesse incapaz de contempla-lo em sua ofuscante luminosidade.

Sempre tive facilidade para aprender línguas - a começar pela Portuguesa. Dizem meus familiares que comecei a falar com espantosa fluência com menos de um ano de idade. Alfabetizado, logo comecei a buscar livros cada vez maiores. Aos sete anos encasquetei de ler os dois imensos volumes de "Moby Dick" que tínhamos em casa: "Chamei-me Ismael". Naufraguei como os tripulantes do Pequod; pior, parei no meio do caminho para Nantucket, antes mesmo de embarcar rumo à trágica aventura.

Como Acab, fiquei obcecado por abater Moby Dick - o livro, não o cachalote. Pouco mais tarde, com 13 anos, fortalecido pelas jornadas no Mississipi ao lado de Tom Sawyer, Huckleberry Finn e Mark Twain e por outras aventuras com Emília, Narizinho, Pedrinho e Monteiro Lobato, finalmente resolvi minha velha rixa com Melville e seu temível cachalote branco. Conheci Queequeg, embarquei no Pequod, atravessei o Cabo Horn, e sobrevivi ao naufrágio com Ismael, agarrado a um caixão. Era um livro denso para um leitor imaturo. Ainda assim, impressionante. É um clássico ao qual ainda preciso retornar (agora, na língua original).

Alfabetizado em Português, outros horizontes linguísticos me acenavam. Em criança, um de meus livros favoritos era "O Pato Poliglota" - e eu sonhava em ser como aquele pato! Me encantavam os recuerdos em diversas línguas, colecionados por meu avô em seus tempos de marinheiro globe-trotter.

Na escola primária, "aulinhas" de Inglês. No cinema e nos VHSs eu tentava (com pouco sucesso) encontrar correlações entre as legendas e as falas dos filmes. Com Collor, Itamar e FHC nosso mercado foi se abrindo cada vez mais às importações e chegavam a minhas mãos produtos com rótulos e manuais de instruções em várias línguas (era no tempo em que manuais de instruções eram longos, minuciosos e impressos; altre tempi). Às vezes passava horas e horas debruçado sobre essas preciosidases. Eram minhas pedrinhas de roseta; minha avó caçoava de meus rudimentares exercícios de linguística comparativa, mas é uma mania que ainda hoje me acompanha.

Logo mais chegavam ao Brasil os caríssimos "trading cards" de super-herois - um pequeno luxo que minha suburbana família de classe média baixa podia me conceder de vez em quando. Avidamente colecionados, me proporcionaram duradoura experiência com a língua de Shakespeare. Lia e relia os cartõezinhos coloridos como um dedicado epigrafista, acompanhado de um pesado dicionário Inglês-Português. Certa vez meu avô cometeu a insensatez, duramente censurada por minha mãe, de me satisfazer o capricho de comprar um gibi importado do Batman por R$ 40,00 - quase meio salário mínimo à época...! Os games e, mais tarde, os livros, completaram minha introdução à anglofonia. "Treasure Island", de Robert Louis Stevenson foi o primeiro livro que li em inglês (em barata edição da "Penguin Classics", must be said).

Entrei no Colégio Pedro II no tempo em que os ginasianos tinham o luxo de ter aulas de Inglês, Francês e Latim. Je suis tombé follement amoureux de la langue française. Aos 13 anos, enquanto lia Moby Dick, ingressei na Aliança Francesa, cujas mensalidades minha mãe pagava com algum aperto (mesmo depois que meu bom desempenho me garantiu um desconto de 40% nas mensalidades). Foi nessa época que descobri a Livraria Leonardo Da Vinci  (a autêntica). Com o real valorizado e o franco não-tanto, iniciei uma vasta coleção de Astérix e, mais importante, completei minha coleção das aventuras de Tintin et Milou. Logo descobri as aventuras de Arsène Lupin, que devorei na Mediateca da Maison de France.

O portunhol falamos todos de berço, e me iniciei na língua de Cervantes e Bolaños com "El Lazarillo de Tormes". Com um bom dicionário, me viro na língua do Lácio e adquiri alguma fluência na língua de Dante acompanhando o Giro d'Italia pela Internet, na Gazzetta dello Sport, especialmente o fabuloso Giro de 2004, com a inesperada conquista da Maglia Rosa pelo "Piccolo Principe" Damiano Cunego - mesmo ano da epopeia de Thomas Voeckler no Tour de France, que durante várias etapas se agarrou heroicamente ao Maillot Jaune tomado na lendária Trouée d'Arenberg.

Português, Francês, Inglês, Espanhol, Italiano e um pouco de Latim. Mas o desafio maior, a montanha mais alta, o castelo mais inexpugnável, resistia, e resiste ainda, a minhas investidas: o Alemão.

Tinha meus 15 anos quando me caiu entre as mãos um CD da "Paixão segundo João", de ninguém menos que Johann Sebastian Bach, devidamente acompanhado por um encarte bilíngue, em Alemão e Francês - era no tempo em que CDs vinham acompanhados de robustos encartes - vergangenen Zeiten. Tomei a temerária decisão de aprender Alemão fazendo uma xerox do dito encarte. Mais fácil planejar que fazer - faltou combinar com os alemães! Um recuo estratégico se fez necessário.

Anos mais tarde, em 2003, um maduro cavalheiro em seus 20 anos e graduando em História (nada mais arrogante que um graduando), resolvi empreender meu ataque definitivo contra Deutschenschloss. Munido de dicionários, um livreco de conversação para viajantes e uma pasta repleta de textos impressos da Internet, comecei a estudar Alemão com alguma seriedade e muita irregularidade.

Após alguns anos de inconstantes esforços, conseguia ao menos ler gibis em Alemão - retornando de Veneza, inclusive, passei uma agradável manhã na estação de Munique, lendo gibis (uma chuva torrencial desencorajava qualquer tentativa de passeio). Em Munique embarcamos em um trem da Deutsche Bahn que, por dentro, parecia um cenário de Star Wars; em Düsseldorf tomamos um trem da SNCF onde degustei o couscous marroquino mais saboroso de que me lembro. Só chegamos em Paris à noite, cansados, sedentos e famintos, devido a um terrível acidente ferroviário que nos reteve por horas, esgotando todo o estoque da lanchonete - quase como a bande dessinée "Le Transperceneige", exceto pela antropofagia. Tudo isso com "Krabat, von Preußler" na bagagem.

Em 2013 (re)comecei a estudar Alemão usando o excelente e gratuito aplicativo Duolingo, mas uma série de compromissos acadêmicos e problemas familiares me impediram de manter a disciplina adequada.

Iniciei 2020 firmemente decidido ao assalto definitivo contra Deutschenschloss. Estava determinado a ler em Alemão com desenvoltura até dezembro. Das oder nichts! E assim tenho feito, estudando Alemão quase diariamente, mit mein ganzen Herz.

Há alguns dias terminei de ler "Soie", tradução francesa de "Seta", de Alessandro Baricco, um delírio elsevírico magistralmente ilustrado pela maravilhosa Rébecca Dautremer, com capa artesanal impressa "a quente" num ateliê parisiense, diagramação impecável, papel de textura indescritível, impresso e encadernado numa seleta tipografia de Barcelona.

Ainda aturdido por semelhante fantasia editorial, lida em duas madrugadas, me pus a percorrer minhas estantes em busca de nova leitura.

Foi então que Krabat me chamou.

Timidamente peguei o livro. Ist mein Kraft jetzt genug? Findo o primeiro capítulo, me senti confiante, prosseguindo, com uma ou outra dificuldade, através das 270 páginas, sem recorrer a nenhum dicionário. Wunderschön! Dreimal Hurrah!

Ler "Krabat" em Alemão, apreciando a prosa de Preußler até em sua poética descrição dos tons de verde da grama primaveril foi a realização de um sonho.

Uma breve travessia, após uma longa, exaustiva e, por vezes, desanimadora caminhada. Dezessete anos de esforços foram necessários para ler estas 270 páginas. Mas esta foi apenas uma etapa de uma longa jornada, que espero prosseguir em outros anos e outras páginas.

Finalmente penetrei nos jardins de Deutschenschloss. Ainda há muitos recantos a explorar nesse castelo...


sábado, 9 de maio de 2020

Crossover: "Barão de Itararé encontra o Surfista Prateado!"



Trechos da HQ "Parábola", estrelada pelo Surfista Prateado, escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius.
Dedico essa estranha colagem aos amigos Ana Delmas e Roger Marques, que me enviaram respectivamente a citação e os quadrinhos.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Breves considerações sobre Slavoj Zisek

Posso estar redondamente enganado, mas considero Zisek uma das maiores fraudes intelectuais do século XXI - simplesmente não consigo levar esse sujeito a sério.

Acabo de saber que ele já está lançando um livro sobre o COVID-19, o colapso capitalista etc. Rápido no gatilho, como sempre; eis um comunista que sabe faturar no mundo capitalista. E, em terras btasileiras, a Boitempo junto com ele. Um autor oportunista com uma editora igualmente oportunista - parceria perfeita. Por sinal, a julgar pelo preço dos livros, a Boitempo me parece curiosamente desinteressada em ser lida pelo "proletariado". Sequer consigo imaginar um trabalhador que viva de salário mínimo comprando um livro da Boitempo.

A bem dizer, acho que uma boa HQ de Alan Moore vale uns dez ensaios de Zisek - e nem precisa ser um clássico como V de Vingança; pode até ser um daqueles Contos do Robocão, do comecinho da carreira.

Para mim, Zisek já começa perdendo por ser lacaniano; não dá para levar Lacan a sério. Até Lévi-Strauss, que era amigo pessoal de Lacan dizia que não o lia, maroto como sempre, por se confessar "incapaz de entender a obra de Lacan". Além do mais, nunca entendi muito bem a necessidade de evocar a psicanálise lacaniana para ornamentar as platitudes zisekianas. 

Pensando melhor, é realmente necessário: platitudes intelectuais só transmitem alguma aparência de relevância quando devidamente ornamentadas, para seduzir aquele tipo de leitor que se encanta por qualquer coisa que lhe soe hermética - exatamente o tipo de pessoa que gosta de citar Wittgenstein ou Lacan a torto e a direito. 

Enfim, vejo Zisek quase como uma caricatura do "intelectual engajado". Muita verborragia, pouco conteúdo, repertório de ideias quase monomaníaco, sempre a mesma lenga-lenga. Uma versão melhorada de Marcia Tiburi.

Há que se reconhecer, no entanto, o mérito de Zisek em se tornar o esloveno mais famoso do mundo; só espero, sinceramente, para bem de seu povo, que a Eslovênia tenha gente mais interessante que ele. A vizinha Sérvia ao menos produziu Petkovic, futebolista com ares de pensador, sempre capaz de deixar desconcertados os jornalistas esportivos brasileiros...


domingo, 19 de abril de 2020

O homem que ri

Ah! Me tomais por uma exceção! Sou um símbolo. Ó, todos-poderosos imbecis que sois, abri os olhos. Encarno tudo. Represento a humanidade tal qual a fizeram seus senhores. O homem é um mutilado. O que me fizeram, o fizeram ao gênero humano. Lhe deformaram o direito, a justiça, a verdade, a razão, como a mim os olhos, as narinas e as orelhas; como a mim, lhe puseram no coração uma cloaca de cólera e dor, e sobre a face uma máscara de contentamento. [...] Reis, nobres e príncipes, o povo é o sofredor profundo que ri na superfície. Milordes, vos digo, o povo, sou eu. Hoje o oprimis, hoje me vaiais. Mas o futuro é o degelo sombrio. O que era pedra se torna onda. A aparência sólida se transforma em submersão. Um estalar, e tudo está dito. 

Fala de Gwynplaine, deformado protagonista de O homem que ri, romance publicado por Victor Hugo em 1869 - cerca de dois anos antes do colapso do Império de Napoleão III, após a derrota na Guerra Franco-Prussiana e seguido pela sanguinolenta revolta popular conhecida por Comuna de Paris.

A fala de Gwynplaine caberia perfeitamente na boca de certas versões do Coringa, vilão de quadrinhos (supostamente) inspirado pela maquiagem de Conrad Veidt na adaptação cinematográfica de 1926 de O homem que ri.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

"Coringa" - Breves impressões

Como ando muito ocupado me falta tempo para um comentário de fôlego acerca do novo e brilhante "Coringa"; deixo aqui breves notas, aguardando tempo para escrever algo mais aprofundado.

AVISO: CONTÉM SPOILERS

- Gostei e não gostei do filme. Achei impecável enquanto arte cinematográfica e Joaquín Phoenix atua com virtuosismo, mas não consigo ver o Coringa ali. É um personagem parecido com o Coringa, que se chama Coringa, mas não é o Coringa (um tanto como os sucos do Chaves). O personagem não tem agência, sua postura é notavelmente passiva, ele só reage ao que acontece - me parece que isso descaracteriza demais o Coringa, mesmo se tratando de um filme "de origem".

-Tendo a discordar das análises muito "politizadas" do filme. A obra tem dimensões de crítica social e política, mas me parece muito mais complexa que isso. O próprio Coringa afirma mais de uma vez que não liga para política - esse dado não é irrelevante, pois os atos do Coringa não se querem políticos; os demais personagens é que se apropriam politicamente desses atos, em apoio ou oposição. Creio que o mesmo vale para as apropriações do público sobre a mensagem da obra cinematográfica. Acho que o filme atira para todos os lados, e não consigo ver sua mensagem como propriamente "esquerdista" ou "direitista". Thomas Wayne e os ricos decerto são apresentados de maneira antipática, mas olhando com atenção, os "movimentos sociais" da ficção - inspirados por um múltiplo assassinato e compostos por uma multidão acéfala sob o absurdo slogan "kill the rich" - não me parecem tampouco enaltecidos pela direção do filme. De resto, a película adota uma estética visual formalmente realista, mas a narrativa joga com muitas camadas de delírio (o duplo delírio do Coringa e de sua mãe), o que confere a todo o resto certo caráter emblemático ou alegórico, mais conotativo que denotativo, por assim dizer. As críticas sociais e políticas do filme são apresentadas com grande sutileza e é com igual sutileza que precisam ser interpretadas.

-Eu diria que o tema central da obra é, sobretudo, loucura versus "normalidade". O Coringa é um doente numa sociedade doente, cuja aparente "normalidade" é, em verdade, doentia. O descaso das autoridades e das elites para com os cidadãos de Gotham é patológico.  Os "movimentos sociais", tal como retratados, também são doentes e parte da patologia coletiva - são loucura inspirada por um louco.

-No começo do filme, "Arthur Fleck" não é vítima dos ricos, mas de uma gangue de garotos latinos, levando um sujeito "normal" a oferecer uma arma a um paciente psiquiátrico para ele "se defender"; depois que as coisas dão errado, esse mesmo sujeito "normal" simplesmente lava as mãos, como se não tivesse qualquer responsabilidade.A obra retrata uma sociedade profundamente adoecida,  conflagrada. Coringa reflete essa doença e a sociedade reflete a doença do Coringa, num jogo de espelhamentos.

-Achei fantástico o uso do lixo como alegoria, aludindo às grandes greves de lixeiros dos EUA nos anos 70 e 80. A sociedade não consegue lidar com seu próprio lixo - material e moral - e os ratos proliferam. Ratos como o Coringa, Thomas Wayne ou os manifestantes-palhaços. Por fim, a discreta alusão humorística do apresentador Murray Franklin à necessidade de "super-gatos" para combater a infestação de ratos me parece um interessante comentário metalinguístico sobre o próprio gênero ficcional de super-heróis.

-O passado da família Wayne é objeto de constantes, sensacionalistas e desnecessárias revisões nos quadrinhos. No caso específico do filme, não gostei da ideia de retratar o assassinato de Thomas e Martha Wayne como um crime político - o que retira ou perverte boa parte do significado da futura cruzada de Bruce Wayne contra o crime. Enfim, o assassinato dos Wayne como ato político esvazia completamente a figura do Batman. Não gosto da versão de Tim Burton, em que os Wayne são assassinados por um jovem "Jack Napier", futuro Coringa, mas ao menos faz mais sentido; Napier seria apenas um assaltante de rua.

-Um detalhe me pareceu espetacular, de uma deliciosa ironia: a versão de Zorro que os Wayne assistem antes do assassinato é justamente "Zorro - The Gay Blade"... remetendo (conscientemente ou não) às paranoias do Dr. Frederick Wertham sobre os quadrinhos e à persistente brincadeira popular sobre a sexualidade de Batman e Robin.

-Achei o filme muito pesado e tenho experiências e relatos de que fez muito mal a alguns pacientes psiquiátricos. Me parece um tanto leviano produzir uma obra com tintas tão carregadas para um público de milhões de espectadores. Obviamente não quero aqui advogar qualquer tipo de censura ou sequer autocensura, mas concordo com João Caetano quando dizia que o artista deve ter certo comedimento ao manipular as emoções do público. A arte pode tanger fibras muito sutis da alma humana e isso exige algum tipo de responsabilidade.


sábado, 17 de novembro de 2018

Stan, o Semeador de Mundos

Stan Lee criou os X-Men, mas não o Wolverine. 

Inventou o Homem-Aranha, mas não escreveu A última caçada de Kraven. 

Reinventou Thor e o imaginário popular sobre a mitologia germano-escandinava como apenas Wagner antes dele. 

Criou o Demolidor, mas o "Homem-sem-medo" alcançou sua plenitude dramática e estética nas mãos de Frank Miller. 

Mais que criar personagens e aventuras, Stan Lee semeou ideias que inúmeros artistas cultivaram laboriosamente até darem seus frutos mais maduros e saborosos. Essa é sua verdadeira grandeza: o divino Galactus é o Devorador de Mundos, mas Stan Lee é ainda maior: um Semeador de Mundos. 

A ponte de Bifrost está aberta: boa jornada, Stan, e muito obrigado!

Galactus e o Surfista prateado no traço do francês Moebius, em Parábola, uma das melhores aventuras escritas pelo próprio Stan Lee - que, não à toa, dizia que o Surfista Prateado era sua criação com a qual mais se identificava, embora nunca tenha se tornado um dos personagens mais populares do universo Marvel.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

"Eu sou fascista"

"Meu nome é Adam Susan. Eu sou o líder.

Líder dos perdidos. Governante das ruínas.

Eu sou um homem como qualquer outro.

Eu conduzo o país que amo para fora da desolação do século vinte. Acredito na sobrevivência. No destino da raça nórdica. Eu acredito no fascismo.

Oh, sim. Eu sou fascista. O que é fascismo? Uma palavra. Um termo cujo significado se perdeu no resmungo dos fracos e traidores.

Os romanos inventaram o fascismo. Um feixe de gravetos era seu símbolo.

Um graveto sozinho podia ser partido. O feixe resistiria. Fascismo... Força da União.

Eu acredito na força. Eu acredito na união.

E se a força, a união de propósitos, exige uniformidade de pensamentos, palavras e feitos, que assim seja.

Eu não ouvirei súplicas por liberdade. Sou surdo aos apelos por direitos civis. Eles são luxos. Eu não acredito em luxos.

A guerra escorraçou os luxos. A guerra escorraçou a liberdade.

A única liberdade que resta ao povo é passar fome. A liberdade de morrer... de viver num mundo caótico.

Devo conceder a eles tal liberdade?

Creio que não.

Reservo a mim a liberdade que nego aos outros? Não. Eu me restrinjo à minha cela e sou apenas um servo. Eu, que sou mestre de tudo que posso ver.

Eu vejo a desolação. Contemplo as cinzas. Possuo tanto e tenho tão pouco.

Eu não sou amado, nem de corpo nem de alma. Jamais conheci o murmúrio da ternura. Nunca senti a paz que reside por entre as coxas de uma mulher.

Mas eu sou respeitado. Sou temido. E isso é o bastante..."

Monólogo mental do personagem Adam Susan, da ficção distópica V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd - originalmente publicada em 1981, no Reino Unido, mas sinistramente atual...


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Tempos e laços

"Mitusha, Yotsuha, vocês sabem o que é musubi?

Numa língua antiga, o deus que protege nossas terras é chamado de Musubi.

Mas essa palavra tem um significado mais profundo.

Atrelar os fios é musubi. As ligações entre as pessoas também. Inclusive, o fluxo do tempo é musubi.

Tudo isso é o poder divino. Por isso, os fios trançados que fazemos são uma obra divina.

Eles representam o próprio fluxo do tempo.

Eles vão se juntando e ganham forma. Eles se torcem, embaraçam e, às vezes, voltam ao normal. Eles acabam se rompendo e voltam a se ligar.

Isso é musubi. Isso é o tempo".

Your Name, de Makoto Shinkai e Ranmaru Kotone

 

domingo, 26 de julho de 2015

Chapolim, herói subversivo

Apesar de seu cada vez mais estrondoso sucesso mundial, o gênero artístico "super-herói" parece ser um fenômeno exclusivamente ianque. Raramente um super-herói sério produzido fora dos Estados Unidos obtém sucesso. Por incrível que pareça, acho que o Chapolim Colorado é o único grande êxito internacional do gênero criado fora dos EUA, ou pelo menos um dos maiores êxitos - mas, obviamente, não se trata de uma obra séria. Talvez seja, justamente, uma exceção que confirma a regra. Mas como explicar esse êxito? Uma explicação tentadoramente simples é que nós, latinoamericanos, não levamos nossos respectivos países a sério, fazendo sentido que nosso herói seja uma figura picaresca. Contudo, me parece possível explorar mais profundamente o pitoresco personagem.

Para tanto, lancemos primeiro nosso olhar sobre seus equipamentos, a começar pela famosa "marreta biônica". Um martelo de combate é uma arma de natureza violenta e brutal, destinada ao esmagamento de carnes e ossos. No caso de Chapolim, o malho representa uma imagem nitidamente inofensiva, composto de plástico em cores berrantes. Não transmite ideia de peso ou dureza. Parece um brinquedo, pois é, com efeito, um brinquedo. Provoca o riso, evoca certo distanciamento da realidade, e convida o espectador à brincadeira. Ninguém vai se machucar de verdade. Nenhum crânio será esmagado. Uma cabeça realmente contundida provoca medo, piedade, censura, mas um golpe da "marreta biônica" nos faz rir.


Por outro lado, temos a pílula de polegarina (ou nanicolina). Em geral, os heróis buscam instrumentos que os tornem mais fortes e poderosos, que os engrandeçam, ao passo que as pílulas reduzem o Chapolim, tornam-no fraco e vulnerável. Um gato ou um rato tornam-se ameaças temíveis para o encolhido herói. Outra inversão, ou subversão.


Para encerrar a questão dos equipamentos, lembremos a "corneta paralisadora", cujas aparições são raras, porém marcantes. Ao realizar seu efeito paralisante, constitui uma negação do movimento, enquanto as capacidades da maioria dos super-heróis tendem normalmente à ampliação do movimento, como a força do Hulk, a velocidade do Flash ou a capacidade de voo do Superman. Se, em grande medida, os super-heróis constituem pessoas "ampliadas", o Chapolim, pelo contrário, pode ser considerado, em sentidos tanto simbólicos quanto literais, uma pessoa "reduzida".


Os bordões do personagem também são indícios interessantes para interpretá-lo. "Meus movimentos são friamente calculados" e "suspeitei desde o princípio" são frases que geralmente pontuam situações onde se passa justamente o contrário, ou seja, quando Chapolim mostra menos destreza ou perspicácia, onde ele se mostra a antítese do super-herói, desastrado e tolo.

Em muitos episódios, Chapolim é vítima de abusos verbais ou físicos, e reage, encarando o espectador: "Se aproveitam de minha nobreza". O bordão também costuma ser empregado quando o personagem se vê pressionado a agir de determinada maneira. Ambas as situações denotam a vulnerabilidade do protagonista, bem como seu papel muitas vezes passivo, ao contrário do que normalmente se passa nas narrativas de super-heróis - por exemplo, Batman e Superman, dois dos arquétipos máximos desse universo raramente perdem o controle da situação, enquanto Chapolim parece quase sempre ser um joguete das circunstâncias. Por sinal, o herói mexicano muitas vezes não age movido por seus princípios, precisando ser insistentemente coagido, ao que responde com seus clássicos "sim, eu vou..." ou "sim, eu faço..."

Por vezes, o personagem consegue, numa reviravolta, dominar os problemas, pronunciando seu vitorioso "não contavam com minha astúcia". No entanto, é bom salientar que essa astúcia do Chapolim jamais se configura como as hábeis e meticulosas manobras do Batman, mas sempre como fruto de um feliz improviso. É uma astúcia de malandro, de pícaro, não de estrategista.

Em seus atos e palavras Chapolim parece sempre agir às avessas do que se espera de um super-herói. Talvez por isso viva confundindo a sabedoria comum articulada pelos ditados e provérbios, invertendo e distorcendo sua lógica e valores. O caráter confuso e caótico do personagem talvez se expresse em sua forma mais eloquente através do bordão "Palma, palma, não priemos cânico!", subversão extrema dos códigos linguísticos, que também revela o ambíguo código de ética do Chapolim, onde os termos se subvertem: o herói se dispõe a ajudar os vilões, ou pior ainda, põem-se a agredir as próprias pessoas que viera ajudar. Definitivamente, o Chapolim não é confiável.

Por fim, todas essas características parecem convergir para a própria emblemática do personagem. Chapulines são pequenos insetos da América do Norte.



No entanto, há que se ressaltar uma peculiaridade: trata-se de um inseto consagrado a usos culinários, geralmente cultivados para consumo. Sua forma de consumo mais comum é torrado e temperado com sal, alho e suco de lima.


A maioria dos super-heróis ou vilões de inspiração animal usa como "totem" alguma espécie grande ou ameçadora: morcego, tigre, carcaju ("wolverine"), lince, leopardo, urso, lobo, tubarão, rinoceronte, águia, falcão, gavião... Mesmo nos casos de pequenos insetos ou artrópodes, trata-se de animais relativamentes agressivos, como aranhas, escorpiões ou vespas. Em uma palavra, os emblemas no universo dos super-heróis remetem normalmente a espécies de predadores. Os chapulines são justamente o contrário, isto é, presas, animais destinados ao consumo e à alimentação humana. Animais que os seres humanos comem, não animais que temem. Retornamos, de certo modo, à imagem da "marreta biônica": uma arma inofensiva, que não inspira medo.

Mais ainda, animais criados em cativeiro, os chapulines são criaturas domésticas, inofensivas dominadas pelo ser humano, enquanto a maioria dos emblemas animais usados no mundo dos super-heróis remete a espécies selvagens, que escapam ao nosso domínio e controle. Não temos um Homem-Cachorro, uma Mulher-Vaca, um Super-Cavalo, um Garoto-Bode ou uma Menina-Ovelha. Tais figuras não inspirariam temor ou respeito, mas riso - como o Chapolim. Sob esse aspecto, a figura da Mulher-Gato parece bastante reveladora: é uma personagem perpetuamente dividida entre o mundo da lei e da justiça e o submundo do crime, tal como os gatos são animais semi-domesticados, imperfeitamente domados e controlados, imprevisíveis, divididos entre o lar e a rua, a meio caminho entre a cultura e a natureza.

Assim, esse pequeno ensaio sobre o Chapolim nos conduz a uma dupla conclusão: é um herói latinoamericano não apenas porque rimos dele, mas porque o associamos a uma série de imagens culturalmente arraigadas, cristalizadas e reificadas acerca da própria América Latina: fraco, tolo, desastrado, passivo, malandro, paralisado, vulnerável, pouco confiável. E assim, o aceitamos como nosso herói, porque consideramos a nós mesmos dignos (apenas?) do riso, da caçoada, do deboche. Parafraseando De Gaulle, não somos "países sérios".

Por outro lado, o contraste entre o Chapolim e os super-heróis "sérios" expõe melhor algumas das raízes desse gênero: o selvagem, o indomável, o  natural, aquilo que não pode ser controlado. Não seria Superman uma verdadeira força da natureza? Fruto de uma cultura industrial, os super-heróis revelam o quanto de "arcaico" ou "primitivo" ainda persiste em nosso espírito, o quanto tais emblemas ainda constituem uma mitologia apelativa a nossas sensibilidades. Como já dizia Lévi-Strauss, o "pensamento selvagem" continua presente entre nós e em nós...

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Leituras - "O Coronel", de Osmarco Valladão e Manoel Magalhães

Dando um tempo da pauta grevista...

Acabo de ler uma maravilhosa HQ nacional, "O Coronel". Uma grata surpresa - fico muito feliz em ver o recente crescimento na divulgação dos quadrinhos brasileiros. No caso, uma excelente ficção científica, como é raro ver por aqui.

Passada em planetas distantes, a criativa trama traz um inusitado protagonista, o Coronel, uma arma dotada de inteligência artificial, responsável por comandar os soldados que a manejam. Manipulador e inflexível, o equipamento domina cruelmente seus subordinados. A página abaixo é uma das mais interessantes do álbum.



O livro é uma instigante fábula sobre a tecnologia, a violência e o exercício do poder. No entanto, me parece, mais que tudo, um vigoroso alerta contra os perigos da alienação e da obediência cega.