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Mostrando postagens com marcador Top 3 - Cristianismo. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O grande marginal

Esta é a história de um marginal:

Andava em péssimas companhias.

Não seguia os valores das pessoas respeitáveis.

Seus comportamentos, atitudes e palavras chocavam e incomodavam muita gente de bem.

Defendia e divulgava ideias subversivas.

Questionava as leis e as autoridades.

Muitos tinham medo dele; alguns o odiavam.

No fim, acabou preso, torturado e condenado à morte.

Ficou conhecido como Jesus Cristo.

"Jesus carregando a cruz", pintura de Hyeronimus Bosch.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

As mil faces de Jesus

Ainda em clima natalino, mais uma pequena reflexão sobre a figura de Jesus. É difícil afirmar com toda certeza se ele realmente existiu como personagem histórico. No entanto, é certo que ao longo dos séculos foi representado com as mais diversas aparências, refletindo as inúmeras travessias culturais que sua imagem realizou. Vejamos alguns exemplos...
 
 
Entre as principais fontes de iconografia paleocristã encontramos as catacumbas de Roma, onde os primeiros cristãos se reuniam. Nelas, é comum a representação de Jesus bastante próxima de um patrício romano, familiar àqueles que produziam essas imagens, bem como aos que as viam. Assim, temos um Jesus vestido - e barbeado - como um membro da elite romana.


Por outro lado, também era comum a assimilação de Jesus a divindades do panteão pagão, como Apolo ou Orfeu - caso da imagem acima. Tais associações não eram gratuitas, sendo bastante sugestivas das permutas entre a cultura romana, o judaísmo e o cristianismo nascente. No caso, o mito de Orfeu envolvia uma viagem de ida e volta ao mundo dos mortos, facilmente identificada à crença na ressurreição de Cristo.


No Império Bizantino a imagem de Jesus se manteve durante muito tempo próxima à iconografia paleocristã.


Embora pouco conhecida no Ocidente, a comunidade cristã da Etiópia é uma das mais antigas do mundo. Ao longo de séculos, desenvolveu suas próprias tradições e convenções para representar a imagem de Jesus. Para os cristãos etíópes, Jesus era evidentemente negro - e, no caso da imagem acima, bastante simpático.

 
Na Alta Idade Média começavam a se elaborar na Europa Ocidental as convenções que conhecemos melhor, em que Jesus passava a ser representado com traços germânicos, como é o caso nessa representação. Não obstante, havia ainda gande proximidade estilística às tradições paleocristãs e da Igreja Ortodoxa.
 

No mundo islâmico, Jesus também é reverenciado como um grande profeta. Algumas suratas do Alcorão são dedicadas a ele e sua mãe, Maria. Nessa imagem produzida no âmbito islâmico podemos ver um Jesus quase persa! Os anjos que o carregam com suas asas alegremente coloridas também são interessantíssimos...


No Renascimento encontramos representações que remetem às antigas assimilações entre Jesus e Apolo, acrescentando novas camadas às convergências entre as culturas greco-romana e judaico-cristã...

Ao longo de dois milênios a figura de Jesus foi objeto de inúmeras apropriações e interpretações, nos mais variados contextos culturais e religiosos, espelhando as diversas concepções elaboradas a seu respeito: profeta, deus encarnado, louco, filósofo... Existindo ou não, nos últimos vinte séculos Jesus se tornou uma parte significativa do imaginário humano.

Dedicado ao Igor, co-autor involuntário desse texto

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Invenções Natalinas

Atualmente o Natal é marcado por inúmeras tradições quase inevitáveis entre a maioria das famílias. No entanto, esses costumes nada têm de fixo e invariável, e mudaram muito ao longo do tempo. Como já lembrava o saudoso Eric Hobsbawn, a tradição anda sempre ao lado da invenção.

A própria data foi inventada pela Igreja Católica como forma de facilitar a cristianização de povos pagãos que nesse período do ano celebravam festivais religiosos pela chegada do inverno no hemisfério norte, como celtas, germânicos e eslavos. Particularmente, no dia 24 de dezembro era cultuado o Sol Invicto, divindade oriental bastante popular nos últimos séculos do Império Romano. Por outro lado, a Igreja Ortodoxa originalmente comemorava o Natal em 6 de janeiro, o que ainda acontece em alguns países da Europa Oriental.

Por sinal, a julgar pelas características climáticas da Palestina e a crer nas características do relato bíblico, me parece pouco provável que Jesus tivesse nascido naquelas condições em época invernal. Em Belém, geralmente há pelo menos um dia de neve em dezembro - vá se fazer um parto numa estrebaria ou sair com carneiros a pastar num frio desses! Pelo contrário, se tivesse de fazer uma aposta, diria que ele nasceu entre maio e agosto...

Durante séculos, a única tradição natalina realmente relevante em terras católicas (incluindo o Brasil) era a Missa do Galo. Já o Protestantismo rejeitou em seus primeiros tempos a comemoração do Natal como um hábito "papista". No século XIX a situação mudou, quando o Natal foi reinventado em terras reformadas. Boa parte das atuais tradições surgiram nessa época em países com grupos protestantes enraizados, como a Alemanha (árvore de Natal), Inglaterra (troca de presentes) ou EUA (peru).

Essas invenções só se popularizaram no Brasil em meados do século XX, com a industrialização do país e a exposição à cultura norte-americana, sob estímulo do comércio. As pessoas mais velhas de minha família vivenciaram de perto esse processo de transformação. Como minha avó me dizia hoje mesmo, o único hábito natalino em sua família era o consumo de bacalhau na ceia - sem Papai Noel, troca de presentes, árvore...

Mais ainda, as comemorações do Natal ganharam conotações indubitavelmente laicas, particularmente nos países onde não existe uma população cristã significativa. No Japão, por exemplo, é uma data onde os casais costumam trocar presentes e sair para um jantar romântico a dois - mesmo o aspecto familiar dos festejos é ignorado.

Também vale a pena sublinhar a exploração do Natal pelo Capitalismo; dezembro costuma ser o mês com maior índice de vendas. Por uma dessas sutis e infatigáveis mutações da história, o longuíssimo curso dos séculos transformou uma comemoração forjada para o proselitismo religioso em uma festividade laica com consequências econômicas incontornáveis...

Ante o consumismo que impera na época natalina, vale sempre a pena lembrar as palavras atribuídas ao aniversariante: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está teu tesouro aí estará também o teu coração".