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Mostrando postagens com marcador Indústria Cultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Indústria Cultural. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de julho de 2023

Como detectar uma editora picareta?

Há por aí uma infinidade de editoras caça-níquel cuja principal atividade é cooptar "novos autores" para publicar em "parceria", dividindo os custos editoriais. Com raras exceções, é uma tremenda furada - fuja desse tipo de editora!

Nos países de língua inglesa editoras assim são adequadamente qualificadas como "vanity publishers" ou "vanity press", dispostas a acariciar a vaidade de autores novatos em troca de dinheiro fácil, com poucos riscoa. Publicam sem uma seleção criteriosa (desde que o autor pague para isso - bem caro, de preferência).

Esse tipo de editora sempre existiu, mas se tornou uma praga com a recente expansão das comunicações digitais, que facilitam tremendamente a busca de autores para depenar.

Há uma maneira extraordinariamente simples para detectar esse tipo de editora predatória: examine atentamente o site da editora. 

Editoras sérias querem, antes de tudo, promover seu catálogo e vender seus livros. Consequentemente, o site de uma editora assim se ocupa principalmente com a exposição de suas obras, visando converter o visitante em leitor; geralmente há pouco espaço dedicado à busca de novos autores. É comum que haja algum link intitulado "Publique conosco", mas geralmente é discreto (até difícil de achar, em alguns casos) e costuma remeter a uma página bastante sucinta expondo os padrões para submissão de originais e um contato, normalmente por e-mail.

O site de uma editora caça-níquel, por outro lado, quase sempre é voltado para atrair autores e a essa função dedica a maior parte das páginas e links. Como vender livros não é o objetivo principal desse tipo de editora há pouco destaque para o catálogo, que via de regra não é apresentado de modo visualmente atraente; também não há muitos detalhes das obras, dificultando a atração de potenciais leitores. Por outro lado, o site de uma editora picareta quase sempre é repleto de promessas de visibilidade para "novos talentos", quando não de sucesso. 

Editoras sérias vendem livros e procuram leitores; editoras predatórias vendem promessas e procuram autores - seus respectivos sites normalmente deixam evidentes essas diferenças de propósito. Fique atento!

https://blog.reedsy.com/guide/publishing-companies-to-avoid/vanity-press/


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

MCU - Mega Circo Unificado

Me surpreendi hoje ao constatar que o tão badalado "Universo Marvel" (MCU para os íntimos) já tem trinta e um (!) filmes lançados e mais uns oito (!) agendados - fora os seriados e especiais de TV e streaming (!!!).

Gosto de super-heróis, gosto de (alguns) filmes de super-herois, mas... Para tudo há um limite. 

Excluindo algumas obras mais inspiradas, o grosso dessa produção poderia receber o rótulo de "entretenimento barato" - não fosse o orçamento milionário desses filmes e sua extraordinária arrecadação - sem mencionar a vasta gama de produtos derivados.

Se essas "maravilhas" não ocupassem quase todas as salas e horários de cinema o ano inteiro, não seria o maior dos problemas. Filmes de super-heróis (não apenas Marvel) ocupam uma porção cada vez maior de sessões de cinema, deixando menos e menos espaço para outros gêneros cinematográficos.

Como se não bastasse essa quase usurpação das sessões de cinema, o fenômeno se espalha também pelas prateleiras de livrarias, lojas de brinquedos e milhares e milhares (literalmente) de sites, canais e vídeos em plataformas digitais - em sua maior parte, material de qualidade e relevância duvidosas.

Essa verdadeira monomania é prejudicial inclusive às próprias obras de super-herois, visto que a quantidade cada vez maior de produtos compromete sua qualidade, resultando em trabalhos cada vez menos criativos, mais repetitivos e esvaziados de significado - inclusive devido ao status de propriedade intelectual de grandes conglomerados de mídia; à medida que os paladinos mascarados, encapuzados e coloridos se tornam investimentos milionários, a liberdade de criação dos artistas envolvidos com essa indústria se torna mais e mais limitada, devendo se conformar a um cânone cada vez mais padronizado e enrijecido. De certa maneira, quem viu um filme Marvel, viu todos. 

Os anos 60 e 70 foram quase uma Nova Gênese para os quadrinhos de super-herois, pela contribuição de criadores como Stan Lee, Dennis O'Neal, Jack Kirby, Neal Adams e muitos outros (apesar do papel vagabundo e da limitada paleta de cores); os anos 80 e 90 viram uma vibrante explosão criativa, encabeça por figuras como Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, John Byrne, Grant Morrison e outras mentes talentosas - foi o período em que emergiram as ambiciosas "graphic novels", com maiores pretensões artísticas e recursos editoriais mais vastos. O mesmo não pode ser dito das primeiras décadas do século XXI, marcadas por uma assombrosa estagnação, produzindo poucas obras dignas de nota, apesar dos notáveis avanços técnicos que viabilizam edições belas, caras e artisticamente pobres - décadas estéreis como Apokolips...

Tal excesso de oferta, que beira a imposição,  a meu ver, já está se tornando um fator de alienação cultural para grande parte do público, especialmente dos mais jovens. A diversidade é essencial para o cultivo do ser humano em plenitude. Há que se explorar outros horizontes, navegar e mergulhar em outros mares.

Em sua maioria, filmes de super-herois são divertidos, mas tremendamente superficiais. Diversão é importante, mas não pode ser tudo na vida. Um ser humano que se cultive apenas com obras divertidas perde a oportunidade de explorar outras facetas da vida, do mundo, e de si mesmo. O próprio mundo dos quadrinhos, por sinal, não pode ser resumidos a franquias de super-herois - há muitos outros gêneros de "gibis", cada qual com suas riquezas. 

Até a diversão demasiada termina por saturar, enfastiar; deixa de ser um prazer para se tornar uma compulsão - sacia, mas não alimenta. E haja circo para pouco pão...

Viraremos todos "zumbis Marvel"?


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Professor, o que é personalidade?"

Encerro perplexo o dia de hoje.

Venho trabalhando imaginário e mitologia com minhas turmas de 6° e 7°ano e propus uma atividade para que meus alunos criem um monstro e um herói, orientados por uma ficha, visando a posterior elaboração de uma narrativa ficcional. 

A pergunta que mais ouvi ao longo do dia foi: "Professor, o que é personalidade?" 

Encontrei extrema dificuldade para me fazer entender por alguns estudantes. Não conseguiam perceber a diferença entre uma característica física, como "forte" e outra de ordem psíquica, como "corajoso". A maneira que melhor encontrei para tornar a diferença mais inteligível foi opondo "características do corpo" a "características do coração ou da alma".  Alguns pareciam confusos com a própria definição de "característica". 

Em dezesseis anos de magistério já vi muita coisa espantosa, mas o episódio de hoje me pareceu particularmente perturbador. 

Me pergunto quanto deve ser difícil para um ser humano conquistar o mínimo de autoconhecimento, de capacidade de reflexão sobre si mesmo e sua vida, sem dominar palavras e noções tão essenciais para isso, como "personalidade" ou "característica". 

Me parece extraodinariamente difícil avaliar o impacto de semelhante empobrecimento de vocabulário não apenas sobre os estudantes propriamente ditos, mas também sobre o ambiente social em que vivem. Soa como algo quase orwelliano.

Nos últimos meses o mundo vem se mostrando perplexo com o chatbot ChatGPT, capaz de gerar textos complexos (embora superficiais) cosendo retalhos textuais extraídos de sua imensa base de dados.

É inquietante viver em uma época em que máquinas absolutamente inconscientes sejam capazes de "redigir" textos por inteligência artificial (simulacro que sempre tem muito mais artifício que inteligência) e, ao mesmo tempo, jovens humanos mostrem tamanha dificuldade para compreender palavras e noções não apenas corriqueiras, mas imprescindíveis ao desenvolvimento de suas consciências, em suas múltiplas dimensões. Alienados de ferramentas cognitivas tão poderosas, se alienam de si mesmos e, consequentemente, do mundo. 

Mais espanto que os avanços da inteligência artificial deveriam causar as graves perdas culturais coletivas, que minam nossa capacidade de expressão, comunicação e convívio. 

Um dos grandes desafios de nossa época, mais que nunca, parece ser o de reconhecer, resgatar e cultivar nossa maravilhosa capacidade de nos fazermos plenamente humanos. Nesse tempo em  que as máquinas parecem permear tantos aspectos da experiência humana, os apelos de Erasmo de Roterdã e Pico Della Mirandola se mostram não apenas atuais, mas urgentíssimos. Precisamos humanizar nosso presente, para que o futuro valha a pena ser vivido; para que não nos tornemos pessoas controladas por máquinas controladas por outras pessoas, como diria Frank Herbert - pois é exatamente disso que se trata. 

Dentro de cada um de nós dorme um potencial tremendo; que não nos faltem a sabedoria e a coragem para desperta-lo.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Como o Capitalismo "funciona"?

Hoje presenciei uma cena de cortar o coração. Em uma farmácia, uma senhora diabética, acompanhada da filha, escolhia quais remédios deixaria de levar para poder fechar a conta. As duas faziam piada da situação - às vezes o riso é o último recurso para nos protegermos diante das tragédias da vida. 

Minha esposa é diabética e usa alguns dos medicamentos em questão - realmente são muito caros, pois são fabricados na Europa e, como se sabe, nossa situação cambial tem sido catastrófica nos últimos anos.

Quando um diabético, especialmente idoso, se vê privado de medicamentos prescritos há um provável impacto em sua qualidade de vida e mesmo de sua expectativa de vida. Não há palavras capazes de expressar devidamente quão perversa é uma situação como essas. 

Vivemos em um modelo econômico em que pessoas recebem milhões para chutar uma bola, em que valores estratosféricos são empregados para a realização de um efêmero evento esportivo e mulheres idosas não conseguem comprar medicamentos essenciais - simplesmente porque uma empresa europeia detém o monopólio sobre certos medicamentos e a moeda brasileira se encontra desvalorizada.

Vivemos em um mundo em que milhões de dólares são gastos para a produção de uma patética cena de ação em uma franquia cinematográfica que produz e reproduz há quase três décadas filmes que são quase fotocópias cada vez mais imbecilizadas uns dos outros, estreladas por um galã que em breve precisará de fraldas geriátricas - que constituem também uma pesada despesa no orçamento de milhões de famílias.

Não se trata de argumento utilitarista. Esportes e cultura (inclusive o lixo hollywoodiano) fazem parte da trama da sociedade e da vida e são importantes para a coletividade. O problema é quando atletas e atores voam de balada em balada em jatinhos e hotéis de luxo e diabéticos não conseguem adquirir medicamentos essenciais; é quando bilionários queimam dinheiro com todo tipo de extravagância enquanto a muitos idosos falta dinheiro para aquisição de absorventes geriátricos.

Há quem diga que a grande virtude do capitalismo, guiado pela sabedoria de Mamon, é "funcionar". De minha parte, me recuso a acreditar que uma sociedade em que uns poucos tratam o luxo como necessidade e bilhões de pessoas precisem lidar com a necessidade como se luxo fosse é uma sociedade que "funciona". Se assim é, "funciona" para quem? Para a senhora cujo drama testemunhei hoje, certamente o capitalismo vem "funcionando" de mal a pior. 

"Meritocracia", responderão alguns. A estes pergunto que falta para que a senhora "mereça" seus remédios. Que fazem o "menino Neymar", as estrelas de Hollywood, os magnatas do Vale do Silício, banqueiros, especuladores de toda espécie e tantos outros para "merecer" uma vida de luxo nauseabundo em meio a tanta miséria?

De que adianta uma indústria farmacêutica que desenvolve medicamentos "milagrosos", mas cujos preços excluem desses benefícios bilhões de pacientes, crônicos ou não? Pior ainda, onde milhões de pessoas não conseguem sequer o acesso a um médico que lhes prescreva a medicação? 

"Ciência sem consciência é apenas ruína da alma", dizia Rabelais há quase meio milênio. 

Ciência não nos falta; a consciência, por outro lado, não "funciona".

Se nossa sociedade capitalista realmente funciona é apenas como um satânico moinho de triturar gente, como sugeria Karl Polaniy nos anos seguintes à infame Crise de 1929 - e haja gente para triturar nesse planeta...



domingo, 5 de fevereiro de 2023

Riddle me this

Can a bat fly twice at the same city? Bat and city are never the same. Sameness is in the eye of the beholder - but does the same eye see the bat twice?



quarta-feira, 26 de maio de 2021

Sobre arte, erudição e a suposta "singularidade" brasileira

Nós, brasileiros, temos certa mania de nos acharmos muito singulares em nossa diversidade cultural e em nossa "musicalidade", porém não devemos subestimar a diversidade alheia.

O minúsculo Japão é um país com uma diversidade cultural, linguística e musical notável, que nós temos dificuldades em distinguir. O mesmo pode ser dito da China, cuja diversidade étnica é absurda. E creio que, de longe, a Índia vence o "campeonato" da diversidade.

Quanto ao Brasil, acho que nós brasileiros é que precisamos abrandar nosso complexo de "singularidade"; achamos que somos "únicos" em tudo, de bom ou de ruim. O discurso do "só no Brasil" é uma armadilha. Mesmo na América Latina mesmo temos exemplos fantásticos de experiências de "mestiçagem cultural", com trajetórias peculiares, diferentes da brasileira, como é o caso do México. Historicamente, a "mestiçagem cultural" segue muitos caminhos diferentes - o caminho brasileiro é apenas um entre tantos.

Outro cuidado que a gente necessário se refere ao uso do Estado Nacional como marco de identidade e diversidade cultural. A cultura do Rio Grande do Sul tem profunda afinidade com o Uruguai e a Argentina - a própria figura do "gaucho" argentino como símbolo da mais autêntica "argentinidade" aponta para essas ambiguidades. Ao mesmo tempo, existem etnias muito peculiares espalhadas entre diversos países diferentes, onde são minoritárias. Há pouco tempo entrei em contato com os tatar, uma etnia muito curiosa - com uma musicalidade muito peculiar, inclusive - que vive espalhada entre diversos países da Ásia Central e da Europa Oriental

Outra questão problemática é confundir música popular, no sentido "folclórico" da coisa com música "pro povão" produzida pelo mercado fonográfico. Música "do povo" e música "pro povo", respectivamente, por assim dizer.

Não é incomum tomar muita coisa ultraprocessada pelo mercado fonográfico, com muito dinheiro envolvido, como se fosse cultura popular "autêntica". E a intelectualidade brasileira, por sua vez, também adora conceder suas bênçãos político-culturais a esses fenômenos - aquela deslumbrada "carimbada acadêmica" que, no fundo, nem conta pra grande coisa. Boto "autêntico" entre aspas porque a própria noção de autenticidade já é, em si, muitíssimo problemática.

Sou suspeito para fazer qualquer comentário, visto que minha predileção caminha sempre em direção ao erudito. Por sinal, não acho que se produza arte relevante sem um alto grau de erudição específica na área em questão. Erudição informal e caótica, como deve sempre ser a verdadeira erudição.

Por exemplo, um sambista genial vai ser sempre um erudito do samba, alguém que cultivou contato com o que se produziu de melhor no samba ao longo do tempo, que conhece bem as grandes referências na área - as grandes composições, os grandes compositores, os melhores intérpretes. Não é o sujeito que meramente pega um cavaquinho e frequenta meia dúzia de rodas de samba.

O mesmo vale para o escritor, o quadrinista, o escultor, o cordelista, o pintor, o grafiteiro, o dramaturgo, o cineasta, o humorista, o game designer... É preciso um vasto contato com um repertório amplo e variado para realizar as incontroláveis e imprevisíveis conexões, fusões e fissões necessárias para produzir arte realmente interessante.

E, é claro, nem toda ostra produz pérolas, assim como nem toda mina produz diamantes. Figuras como um Pixinguinha, um Villa-Lobos, um Paul MacCarthney, um Michael Jackson, um Shakespeare, um Cervantes, um Victor Hugo, um Luís Gonzaga, um George Lucas, um Osamu Tezuka, um Hergé, um Claude Débussy, um Richard Wagner, um Mozart, um Carl Barks, um Shigeru Miyamoto ou um Hayao Myiazaki são preciosidades. Brotam e florescem poucos a cada geração.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Mente x Máquina - Vitória impossível?

 John Henry, well, he told his captain

“Captain, a man, he ain’t nothing but a man

Before I let your steam drill

beat me down

I’m gonna die with a hammer

in my hand, Lord, Lord

I’ll die with a hammer in my hand


A lenda do bravo trabalhador John Henry sempre me encantou desde a primeira vez em que ouvi falar dela em um gibi do Supernan, com meus 10 anos de idade. O fascinante personagem folclórico é um trabalhador negro que não aceita a supremacia da máquina e morre vitorioso em uma competição contra uma perfuratriz a vapor, usando apenas seu martelo.

Na última semana travei meu próprio duelo à la mort, com uma máquina e realizei mais de uma vez algo que sempre julgara impossível: vencer um jogo eletrônico em modo "gauntlet".

Como se sabe, o modo "gauntlet" consiste em lutar contra sucessivas ondas de adversários, com poucos recursos (ou nenhum) para recuperar os danos da batalha: o que significa um árduo confronto até a derrota, sem a menor chance de vitória - exceto uma,  como me dei conta ontem.

Embora já tivesse jogado inúmeros games em "gauntlet", me tornei um aficcionado pela modalidade com meus 13 ou 14 anos,  jogando o arquiclássico Golden Axe em meu então poderoso Pentium 166. Em minha ignorância, eu imaginava que após determinado número de ondas inimigas derrotadas, haveria algo como um final surpreendente ou um prêmio. Após inúmeras tentativas descobri que estava terrivelmente equivocado. Quanto mais longe prosseguia, mais adversários enfrentava, até a inevitável "morte" no campo de honra. Essa constatação me deixou imensamente frustrado,  especialmente após todo o esforço que dedicara à empreitada guerreira.

Nunca mais retornei a Golden Axe (exceto em exposições de games antigos), mas o modo gauntlet permaneceu em minha vida. Durante alguns anos, apenas como um passa-tempo bônus após a conclusão de algum game. No entanto, amadurecendo, percebi que enfrentar gauntlets significava enfrentar a mim mesmo e superar meus próprios limites.

Para se manter de pé onda após onda, cada vez mais longe, são necessários foco e determinação a resistir "sobrevivendo" até a derrota. O momento crucial de um gauntlet é o final da partida, em que a barra de energia (ou o que o valha) se encontra praticamente esgotada e qualquer golpe adversário significa o fim da daquela batalha. Nesse momento prevalece a clareza mental de que a derrota está próxima, mas emerge a firme determinação de resistir por quantas ondas ainda for possível. A iminência da destruição e a resolução de resistir, combinadas, levam a um paradoxal estado de espírito, serenamente tenso, em que conta apenas fazer o melhor possível pelo tempo possível. Quando o "golpe mortal" finalmente chega, é recebido com a tranquiliidade de quem fez o melhor a seu alcance em uma luta onde nunca houve a mínima chance de vitória. Chegou-se tão longe quanto possível em uma jornada infinita.

Com o passar do tempo, comecei a ver os gauntlets como uma alegoria da própria vida: um combate incessante onde o que conta é a determinação de enfrentar reoluta e graciosamente cada nova onda de desafios que chega. Cada onda vencida sem danos, ou com danos mínimos, pode ser considerada, em si, uma vitória. E, com efeito, um gauntlet consiste em uma longa sucessão de vitórias contra dezenas,  até centenas de adversários, até a queda. O mais importante é tirar o máximo proveito dos limitados recursos oferecidos no início da jornada para superar os desafios encontrados.

No entanto, para minha imensa surpresa, na última semana, após tantos anos, consegui o impossível - venci o modo gauntlet.

Em minha postagem anterior, "Acidentalmente épico", registrei o momento em que, pela primeira vez, atingira a 75ª onda de atacantes no modo gauntlet do jogo Thor - God of Thunder, um excelente "beat'em-up" retrô produzido pela Wayforward para o Nintendo DS. Adquiri o jogo em dezembro de 2012 e, desde então, tenho jogado muitas vezes, tanto no no modo "story" quanto no modo "gauntlet" (ou "survival", na terminologia própria do jogo). No entanto, no preciso momento em que superava  meus limites, a máquina encontrava os seus, e travou - o que frustrou minhas expectativas de lutar "até a morte", muito embora deixando uma bela imagem residual.

No entanto, encorajado por meus progressos e determinado a vencer ao menos 100 ondas, nos dias seguintes vim jogando e, quanto mais ondas de adversários eu conseguia superar, mais ocorriam problemas técnicos. Por mais duas ou três vezes o jogo travou e, em outras ocasiões o áudio experimentou falhas cumulativas - em geral, os efeitos sonoros de ataque e feedbacks diversos iam desaparecendo, até que sobrava apenas a trilha sonora de fundo.

Somente ontem, no mais árduo dos confrontos, me dei conta de algo: nos últimos dias eu vinha derrotando não apenas o software Thor - God of Thunder em seu modo gauntlet, mas também o próprio hardware do sistema Nintendo 3 DS - especialmente, imagino eu, sua memória RAM.

A partida de ontem foi aquela onde não apenas alcancei, mas superei minha meta, derrotando 104 ondas e sendo abatido na seguinte. Durante o confronto os efeitos sonoros se foram completamente e, em minha imaginação, comparei a situação à de um combatente ensurdecido pelo ruídos do campo de batalha. A analogia tem lá seu fundamento, uma vez que a perda do feedback sonoro durante a partida causa certo desconforto e desorientação, pela perda das costumeiras pistas auditivas.

Por volta da nonagésima onda me questionei se valia a pena seguir adiante, temeroso de que o sistema de meu DS, com seus mais de 8 anos de operação não resistisse ao esforço. Ainda assim, achei que valia a pena experimentar e a partida veio a bom termo, com minha derrota no centésimo quinto round.

Mas que pensar, efetivamente, de minha "vitória" sobre a máquina? Certamente há que se pensar em suas condicionantes. A principal delas, creio eu, é que o sistema, com oito anos de uso,  já não opera mais em sua máxima potência - afinal de contas,  cedo ou tarde a entropia se faz sentir. Nesse sentido, há que se pensar mais em derrota do sistema que em vitória do usuário.

No entanto, ainda aqui há uma curiosidade: meu "hardware", por assim dizer, tem 28 anos de "uso".a mais que meu Nintendo. Não obstante, em nossas respectivas capacidades de processamento de informação, via interface de jogo, eu permaneci funcional,  enquanto o console entrou em colapso sistêmico.

Por banal que seja esse episódio,  me parece quase alentador "vencer a máquina" em tempos em que muitos advogam a substituição do humano em tantas tarefas demasiadamente humanas. Certo contemporâneo de Ford dizia que eram necessários trabalhadores baratos para operar máquinas caras. Infelizmente notamos que a mentalidade industrial pouco mudou nesses últimos 100 anos.

Apenas tardiamente me dou conta de que tanto Thor quanto John Henry travam suas respectivas batalhas usando martelos - uma das mais arcaicas, simples e eficientes ferramentas humanas. 

Não estranha que os antigos escandinavos e os trabalhadores dos EUA tenham associado o martelo a seus heróis míticos e folclóricos - afinal de contas, há pouco de heroico nas aventuras de uma perfuratriz a vapor, mas um humano com um martelo apela à imaginação, ainda que se trate apenas do Chapolim Colorado com sua marreta biônica. Não contavam com nossa astúcia!




domingo, 14 de fevereiro de 2021

Acidentalmente épico

Após 75 ondas de atacantes, o game resolveu travar em um enquadramento épico. Thor levando uma flechada certeira na nuca. Um troll com o arco retesado para a flechada seguinte. Dois trolls caídos no chão e um terceiro em pleno impacto contra o solo. Ao fundo, o impávido perfil da cidadela de Asgard. Acima, dois astros misteriosos no céu sombrio. Uma cena digna de tapeçaria medieval ou dos pinceis de William Blake. Já vi capturas de tela publicitárias menos dinâmicas e interessantes.



domingo, 7 de fevereiro de 2021

Essência de um mau roteiro - "The Force is confuse with this one..."

Um dos casos em que uma imagem explica três películas totalizando quase oito horas de duração no relógio (e uma eternidade na poltrona do cinema). Seria melhor ver o filme do Pelé. Tragam George Lucas de volta!





quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Bad taste

BART - Pai, desliga esse rádio ou muda de estação!
HOMER - Mas, Bart, esses são os grandes clássicos do Rock!
BART - Pai, nós somos a geração com o PIOR GOSTO MUSICAL DA HISTÓRIA!!!

Sem falar na cafonice dos figurinos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Batman na arena política

Os primatas do planeta Terra nos surpreendem ao cabo das translações solares.

Nos anos 50, no auge da paranoia macartista, Batman era acusado de induzir os meninos à homossexualidade; quem diria que décadas depois ele seria acusado de "fascista" pelas militâncias de esquerda... Coitado do morcegão!

O personagem salta há mais de 80 anos pelos telhados de Gotham City e já foi abordado de inúmeras maneiras ao longo dessas décadas. 

É curioso que as militâncias digitais andem  mais preocupadas com a fortuna Wayne que com o Batman propriamente dito. Qualquer leitor atento sabe que Bruce Wayne, o entediado playboy milionário, desde a primeiríssima história,  sempre foi apenas a máscara do Batman.

Na história inaugural, publicada na revista "Detective Comics 27" em maio de 1939, Batman figura desde o começo como protagonista. Wayne aparece durante toda a narrativa apenas como um jovem cuja frivolidade chega a ser casualmente lamentada pelo Comissário Gordon. Só nas duas últimas vinhetas ocorre a revelação: Batman é Bruce Wayne. O milionário fútil, entojado e almofadinha talvez até causasse alguma antipatia aos jovens leitores que tiveram a honra de testemumhar a estreia do Cavaleiro das Trevas.

Para todos nós que viemos depois, é impossível saber, pois lemos desde a página 1 sabendo que Wayne e Batman são a mesma pessoa. Há de fazer diferença.

Quanto a Batman ser um "espancador de pobres", vale lembrar que o vilão da primeiríssima aventura era um milionário que assassinava os próprios sócios para dominar sozinho o negócio. Batman surgiu combatendo um "capitalista selvagem".

De resto, elucubrações excessivas sobre as dinâmicas sociais e políticas de Gotham City, uma cidade ficcional, beiram o ridículo. Como bem sinalizava David Mazzuchelli, desenhista de "Batman-Ano Um", uma das histórias mais icônicas do personagem, quanto mais realismo se tenta aplicar ao fantasioso universo dos super-herois, mais evidente se torna o absurdo da premissa original.

Vale notar, inclusive, que "Ano Um", publicada em 1987, mostra um novato Batman em confronto com uma Gotham City decadente e degradada, dominada por empresários gananciosos e mafiosos associados a um prefeito e uma força policial corrupta. Uma das sequências mais emblemáticas da série mostra Batman invadindo um banquete dessa predatória elite e anunciando sua cruzada por Gotham: "Senhoras e senhores, vocês comeram bem. Comeram a riqueza de Gotham... Seu espírito. O banquete acabou. De hoje em diante nenhum de vocês estará a salvo".

Digna de nota também é a longa sequência de aventuras do Batman produzidas pelos engajados Dennis O'Neil e Neal Adams nos anos 70, entusiastas da contra-cultura da época, muitas vezes abordando temáticas sociais com uma abordagem nada elitista. Uma dessas histórias chega a retratar Batman ajudando guerrilheiros contra um regime ditatorial em um fictício país latino-americano!

Desde sua primeira aparição nos quadrinhos em 1939, Batman figurou em literalmente milhares de obras midiáticas, incluindo HQs, livros, animações, séries televisivas, filmes e video-games, entre outras, com abordagens variadíssimas. Há versões de Batman para todos os gostos e desgostos.

Reduzir Batman a um sádico milionário fantasiado de morcego para espancar bandidos pobres é algo tão simplório que beira o ridículo. Mas é desse tipo de reducionismo que se alimentam as paixões políticas e as querelas estéreis e ociosas. 

Discursos bobos e superficiais como o do meme acima só trazem descrédito àqueles que os reproduzem e banalizam questões sérias como violência urbana e desigualdade social; pouco contribuem para o debate público e até fortalecem as forças políticas que pretendem criticar.

#Reflita

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Chaves, Café e Erotismo


No primoroso livro "O diário do Chaves", Roberto Goméz-Bolaños faz insinuações bem sugestivas sobre as famosas "xícaras de café" na casa 14 da vila. O menino Chaves, narrando em primeira pessoa, se pergunta ingenuamente o que Prof. Girafales e Dona Florinda passavam tanto tempo fazendo sozinhos lá dentro. 

No próprio seriado há um episódio em que o  Professor entra na casa de Dona Florinda e logo manda Quico desligar a TV e ir brincar na vila. O garoto protesta, mas a mãe diz que ela e Girafales precisavam "descansar"...

Eu era adulto quando li "O diário do Chaves" e confesso que fiquei um tanto... abalado. Especialmente porque a obra é do próprio Bolaños, então parece que a coisa sempre foi proposital, mais que uma insinuação tardia. Talvez uma piada para os adultos, inclusive porque no México não era um programa propriamente infantil; era transmitido pela Televisa para uma audiência ampla, nas noites de sábado. 

Chaves e Chapolim foram televisionados como programas "infantis" no Brasil, por opção do SBT. No entanto, inúmeros episódios possuem insinuações de caráter sexual, geralmente sutis. Há discretas referências a pornografia (as tais revistas do Seu Madruga), homossexualidade (especialmente no episódio em que vários personagens suspeitam de envolvimento homoerotico entre Seu Madruga e Prof. Girafales) e até a sadomasoquismo (o beliscão acidental de Prof. Girafales na "Bruxa do 71").

Minha geração era criança e cresceu vendo tudo com o mesmo olhar inocente. Mas imaginar que enquanto as coisas se passavam no pátio da vila havia gente (figurativamente) "haciendo amor" nos bastidores... Perturbador.

Nos choca perceber tardiamente que a relação entre Girafales e Florinda fosse além dos platônicos buquês de flores e xícaras de café...

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Super-heróis: a verdade

"Os designers de moda sempre foram fascinados com a ideia de como as roupas podem transformar o corpo de uma pessoa, e ainda seu caráter ao mesmo tempo. Na ficção, essa metamorfose faz parte do universo dos super-heróis, onde um personagem simboliza o desejo do homem de ir além dos limites mortais. Neste contexto, a capacidade de realização do super-herói é sempre expressa na mudança de seu traje".
Giorgio Armani

"Super-heróis são de propriedade de grandes corporações. São entidades puramente comerciais; eles são feitos para dar um dinheirinho. Isso não quer dizer que tenha havido algumas criações maravilhosas no curso da história. Mas compara-los com os deuses é desprezível. É possível ter comparações óbvias, como dizer que o Flash parece um pouco com Hermes, ainda mais o herói da Era de Ouro, que tem asas em seu capacete. Também o Falcão da Noite parece um pouco com Horus, porque também tem uma cabeça de falcão. Mas isso acontece porque seus criadores tomaram estes temas como inspiração".
Alan Moore



segunda-feira, 8 de junho de 2020

Careta, Mutreta e a penúria brasileira

Adaptado de uma conversa no WhatsApp; dedicado à prima Leilane e aos amigos Tiago e Vinicius, batalhadores do magistério
Então, prima, a epopeia de Careta e Mutreta é uma história anterior ao meu nascimento... Foi numa das primeiras escolas em que minha mãe trabalhou, lá pelas bandas da Zona Oeste, por volta de 1972.

Certa vez minha avó foi se encontrar com minha mãe na porta da escola, pois de lá iriam resolver alguma coisa. Enquanto esperava a hora da saída, minha avó ficou na calçada conversando com uma das mães de alunos, uma conversa bem agradável.

Quando as crianças começaram a sair da escola, minha avó se despediu e perguntou à interlocutora qual era o nome de seus filhos, para depois checar se eram alunos de minha mãe. Então a senhora respondeu algo assim:

"Ih, minha senhora, lá em casa só quem sabe o nome das crianças é o meu marido. Eu só sei os apelidos. Os dois mais novinhos são Careta e Mutreta!"

"Careta e Mutreta", para quem não lembra, era um desenho animado dos estúdios Hannah-Barbera, protagonizado por um abutre e uma cobra, na mesma linha de Tom, Jerry, Coiote, Papa-Léguas, entre tantos outros, em que um predador se dá mal tentando capturar uma presa.

Os meninos não eram alunos de minha mãe, mas ela foi se informar com as colegas e acabou descobrindo que eram irmãos gêmeos, com nomes compostos e parecidos, algo como João Pedro e João Paulo - em família, Careta e Mutreta.

É um caso extremo, mas professores e funcionários encontram várias situações semelhantes nas escolas municipais. Pais que não sabem a turma dos filhos ou a série escolar são o trivial. Mas também é muito comum chegarem pais que não sabem de cor a data de nascimento ou o nome todo dos filhos. Já presenciei um pai que não sabia dizer o nome do "Carlinhos", até que a filha mais velha, que o acompanhava, se recordou - com algum esforço - que o irmão se chamava Carlos Alberto (ao menos nos registros civis).

Enfim, essas situações são um retrato da nossa população: pouco letrada, sem muita preocupação com o universo das formalidades institucionais e da documentação escrita. Marcas de nossa formação social. Por sinal, é muito sintomático que a mãe dos gêmeos se lembrasse mais dos apelidos associados à televisão, que então se expandia no Brasil, que dos nomes registrados na certidão de nascimento. Ainda hoje sentimos os estranhos efeitos do atabalhoado ingresso de uma sociedade parcamente letrada no mundo das comunicações de massa.

Quanto à "lenda de Careta e Mutreta", o ideal era ouvir minha avó e minha mãe contando a história juntas - minha esposa e minha tia são testemunhas. Infelizmente minha avó não está mais entre nós, então quem viu, viu...
Careta, o abutre e Mutreta, a cobra; ou o contrário.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Imprensa, liberdade e responsabilidade

"A imprensa é uma grande força, mas, assim como uma torrente descontrolada de água submerge paisagens inteiras e devasta plantações, assim também uma pena descontrolada só serve para destruir. Se o controle for exterior, ele se torna mais venenoso que a falta de controle. Só pode ser vantajoso se exercido internamente. Se essa linha de raciocínio for correta, quantos jornais do mundo passariam pelo teste? Mas quem poria fim aos inúteis? E quem deveria ser o juiz? Os úteis e os inúteis, assim como o bem e o mal de forma geral, precisam continuar a existir juntos, e o ser humano precisa fazer sua escolha".
Gandhi

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A NASA realmente descobriu um "universo paralelo"?!

Nos últimos dias viralizou a notícia de que o físico Peter Gorham, da Universidade do Havaí, teria descoberto evidências da existência  de um "universo paralelo" através do experimento ANITA (Antarctic Impulsive Transient Antenna), conduzido na Antártida empregando um balão com equipamentos de radioastronomia.

O assunto vem sendo veiculado em matérias mal redigidas, confusas e sensacionalistas, típicas de jornalismo "científico". Fui pesquisar melhor sobre o assunto, inclusive no site da própria universidade.

Pelo que pude entender e inferir, como leigo curioso, na verdade teria algo a ver com o Teorema de Göddel (que vem recebendo tímidas e ambíguas corroborações empíricas desde os anos 90) - basicamente supondo que o que convencionamos chamar "tempo" seria reversível para partículas subatômicas (como um fenômeno natural e frequente, acontecendo o tempo inteiro).

A notícia parece remeter também a uma discussão recente no campo da cosmologia. A astrofísica sempre trabalhou com a premissa de que o universo seria homogêneo e isotrópico, mas hipóteses e dados recentes sugerem que não só essa premissa é arbitrária como é possível, quiçá provável, que o universo seja heterogêneo e anisotrópico e que a física tal qual a conhecemos nesse cantinho do cosmos talvez não se aplique a todo o universo observável - com muita ênfase na complexa noção de "universo observável", que remete tanto às capacidades quanto às limitações das tecnologias de pesquisa atualmente disponíveis.

Alguns desses paradoxos supostamente obrigariam a uma profunda revisão do corrente modelo-padrão da física e dos dados empíricos coletados ao longo do século XX. O "cenário Big Bang", por sinal, está em vias de cair. Em suma, estamos (ou talvez não) às portas de uma nova revolução copernicana - o que é fascinante.

As menções a "universos paralelos" só figuram na imprensa leiga, remetendo sempre a uma breve e confusa reportagem de 8 de abril do magazine New Scientist (semelhante à brasileira Superinteressante). Ao que tudo indica, o assunto começou a reverberar do nada na imprensa indiana nos últimos dias e viralizou mundo afora.

De concreto, só há sinais de rádio inesperados, que podem ser indícios de um tipo de partículas nunca detectado antes - o que já é, por si, suficientemente instigante. Daí a universos paralelos vai um abismo.

Me lembra o próprio Edwin Hubble, que nunca endossou a teoria do Big Bang, embora originalmente fundamentada em observações dele. Cauteloso, ele sempre enfatizou: "a única coisa que detectei foram desvios para o vermelho".

A pesquisa científica de ponta hoje envolve grandes projetos, com experimentos caríssimos, grandes equipes transdisciplinares e, por vezes, muitos anos de análise meticulosa de dados coletados em um único experimento - mas para o grande público ainda prevalece a imagem do gênio solitário gritando "Eureka!" em seu laboratório

A grande verdade é que somos formiguinhas tentando copreender coisas que nos ultrapassam imensamente.

Para piorar, temos uma educação científica pífia, com pouca ênfase nos complexos aspectos metodológicos da pesquisa, um público ávido por sensacionalismo e mal preparado para digerir esse tipo de informação e uma cobertura jornalística igualmente rasteira.

Não espanta que em plena pandemia se veja gente tão mal informada, acreditando em mil boatos e panaceias.

Entre outras coisas, o COVID-19 veio nos lembrar que Educação científica e jornalismo de qualidade não são luxos, mas questões, literalmente, de vida ou morte.

Finalizo citando a milenar sabedoria do Tao Te Ching:

"Quanto mais falamos no universo,
Menos o compreendemos.
O melhor é auscultá-lo em silêncio".

Ou ainda, como teria dito Sócrates:

"Tudo que sei é que nada sei".

Balão empregado no experimento ANITA.