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Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Amostra da decadência educacional brasileira

o pele era o manho gogado de futebol do mudo o pele e o gogado que feis mas gol do mudo que teve mas bola de ouro do mudo que teve copa do mudo que e o manho gogado do universo e o pele gogava do santos foi o manho gogado do santo e do futebol a istora do pele e muito triste ele foi a istora mas triste do futebol o pele gogava muto ben bola ele era a lheda do futebol e ele gogava de caso na rua de baro dele ele gogava de caso com os amigos ali na rua deles ele amisava

"Seria melhor ver o filme do Pelé"...



segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

"Essa cidade acabou"

Curioso relato de um amigo retratando um bucólico momento do cotidiano carioca

Acabo de passar por uma fascinante experiência almoçando em um restaurante  numa mesa ao lado de um casal de policiais, aparentemente de folga, assistindo e comentando (em voz média) o noticiário do RJTV. 

Durante a reportagem sobre uma onda de assaltos em Copacabana, a policial começou reclamando que agora vai ter que ir todo mundo pra Copacabana "só por conta desses trombadinhas mortos de fome que não conseguem ficar sem roubar pra cheirar e fumar uma porra de um dia."  - sendo prontamente apoiada pelo parceiro, que faz o importante complemento:  "mas vai a gente endurecer pra esses merdas pra ver o que acontece? É só sumir 2 ou 3 desses cracudos que no dia seguinte tem ONG fazendo protesto no Jornal Nacional." Talvez emocionada com o apoio do conje, a policial arremata que "Resolver isso aí é fácil, mas se acabar a bandidagem vai ter muito playboy filho de artista sem emprego". 

As coisas se acalmam, voltam a comer mais tranquilamente, mas aí começa uma reportagem mostrando diversos PMs distraídos ao celular em turnos de patrulha. Aí já foi demais... Ela, indignada, reclama: "Agora é o que faltava... Querem que a gente fique de prontidão por cinco, seis horas, sem fazer nada!! Esse pessoal acha mesmo que a gente tem obrigação de resolver os problemas dessa merda de cidade?!" Fala forte, devidamente complementada pelo amado: "O problema é que a gente não pode dar um apavoro nesses jornalistazinhos de merda. O endereço deles todo comandante tem, mas ninguém tem coragem pra dar a ordem. Por isso que a gente é desrespeitado. Vê se nos EUA alguém enquadra policial desse jeito?!" 

Já se preparando pra irem embora, a conja solta um "Essa cidade acabou. Tem mais jeito, não. Aqui, bandido é herói e policial é vilão."

Toda distopia é a utopia de alguém...


quinta-feira, 27 de abril de 2023

Demonologia escolar

Ontem passei por uma das situações mais insólitas de minha carreira docente: uma turma de sexto ano tendo um ataque histérico por medo do Diabo!

Um dos alunos (que, como soube depois, se encontra em avaliação psiquiátrica) teve uma rusga com um colega de comportamento "exuberante", que volta e meia se envolve em confusões com os colegas. Chamei os dois para  conversar fora de sala de aula e achei que a situação estivesse resolvida; ledo engano. 

Retornando à sala, o menino que se encontra em avaliação médica se pôs a escrivinhar no caderno. Subitamente se iniciou um tumulto em torno da carteira do rapaz, cercado por vários colegas apavorados - ele escrevia os nomes de diversos deles e desenhava "símbolos do Diabo". Vários alunos gritavam que iriam morrer, outros tentavam ver se seus nomes haviam sido registrados no "caderno diabólico". Eu tentava, em vão, acalmar os ânimos. 

O menino "endiabrado" começou a fazer cruzes com os dedos, que brandia na direção dos colegas, enquanto declamava em tom monocórdico "Fulano vai morrer... Beltrano vai morrer..." Os colegas em pânico me pediam para fazer alguma coisa (e tenho cara de exorcista?), enquanto eu tentava segurar o riso diante diante de tanta sandice - sem muito sucesso, temo dizer. 

Saí em busca da coordenadora pedagógica, que retirou o aluno do meio do tumulto e me explicou que o mesmo se encontra em tratamento médico. Aproveitando o ensejo, tentei conversar com a turma, pedindo que fossem compreensivos com o colega - em vão: estavam todos amedrontados e revoltados. Pedi a eles que se acalmassem, afirmando que o caderno do colega era apenas um caderno e nada aconteceria com eles. Resvalando no terreno teológico, cometi o deslize de dizer que "o Diabo nem existe", no que fui calorosamente refutado por diversos estudantes. Um deles chegou a argumentar que, em se cavando muito fundo, há de se sentir a "quentura" do Inferno - um argumento com base empírica, portanto... Outro insistia sobre a eficácia da "macumba" do colega, que poderia, sim, levá-los à morte! Como já se fazia tarde, liberei a turma com o compromisso, não muito sólido, de deixar em paz o colega. 

Como se não bastasse, após a saída, a coordenadora e eu conversamos com a mãe do estudante "encapetado", que fora buscá-lo e aos irmãos. A responsável se mostrou muito solícita e nos explicou sobre os problemas de ansiedade do menino. Ficou também esclarecido que o "caderno satânico" era inspirado na animação japonesa "Death Note", cuja trama gira em torno de um caderno sobrenatural que provoca a morte de todos que tiverem seus nomes registrados naquelas páginas.

O "causo" dá o que pensar. 

A situação me fez imediatamente pensar no quanto o discurso "demonológico" de figuras como a atual senadora Damares Alves encontra profunda ressonância na cultura popular brasileira, lembrando que os séculos passam, mas o Diabo ainda faz a festa na Terra de Santa Cruz - com todos os desdobramentos sociais e políticos que isso ocasiona. A recente moda dos padres exorcistas que arrastam multidões para igrejas parece bem menos espantosa quando se percebe o quanto a figura do Diabo e sua capacidade de provocar malefícios permanecem, ainda e sempre, presentes como forças aterradoras capazes de induzir pânico mesmo em estudantes cariocas que vivem em áreas conflagradas.

Por outro lado, fica também patente a vitalidade do Diabo no imaginário ocidental, capaz de encarnar tanto o Mal para os cristãos como de incorporar o medo da "macumba" afro-brasileira, salpicado ainda pela cultura pop nipônica. Como salientava o historiador Robert Muchembled, o Diabo é figura que atravessa os séculos sofrendo inúmeras metamorfoses, sempre atual porque sempre cambiante, remetendo à figura jocosa, espalhafatosa e compósita do arcano do Diabo no Tarot de Marselha. Sempre híbrido, isto-e-também-aquilo, o Diabo evoca um jogo de ecos e reflexos entre diferentes épocas, lugares e culturas - mesmo a animação "Death Note" nos devolve um imaginário diabólico cristão reinventado através do encontro com a cultura japonesa.

Not least, os acontecimentos deixam a certeza de que "jamais fomos modernos", como provoca Bruno Latour. O projeto da modernidade iluminista de uma sociedade pautada pela razão vitoriosa sobre as trevas da superstição permanece obra fadada à incompletude. Que diria Voltaire ao constatar que o Diabo ainda faz tremer jovens do século XXI, apesar de seus smartphones e tantas outras bugigangas proporcionadas pela Revolução Industrial?

Não há inteligência artificial que algo assim...

O Diabo é Pop: Klarion, o Menino Bruxo e o demônio Etrigan em episódio da saudosa série animada de Batman, no fim dos anos 90


sexta-feira, 11 de novembro de 2022

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Quinta da Boa Vista - Le 13 juillet 2022

No Rio, não há Bastilha a derrubar, nem Tulherias a incendiar; tudo despenca e queima sem necessidade de jacobinos nem communards.

A antiga morada imperial jaz engaiolada; Dom Pedro II espia nossos tristes tempos por cima da cerca. Afiadas concertinas lembram a selvageria da megalópole. Dom João VI temeria as hordas cariocas mais que as hostes napoleônicas?





Em uma escada menos frequentada, moscas assediam a putrefata carcaça de um gato. Balões de hélio flutuam emaranhados entre galhos.






Camadas de tempo se acumulam. Um motor a diesel ronca sobre o gramado imperial. Raízes centenárias se derramam pelos muros do antigo jardim onde passeava a Princesa Isabel. Um velho poste de madeira, desprovido de cabos, permanece altivo, testemunha de progressos obsoletos. Uma velha planta parasita viceja sobre um tronco ainda mais antigo. O oco de uma árvore venerável se vê usado como lixeira. Um bucólico nicho arquitetado para a realeza se transforma em santuário e altar para alguma entidade trazida de além-mar, contrabandeada de plagas africanas no ventre sórdido dos navios negreiros.








Os seres humanos se apequenam e amesquinham em meio à paisagem. Gloriosas palmeiras se elevam aos céus, lembrando a efemeridade de nossas vidas e obras. Tudo se transforma, para além de nossos planos e intenções. Sinuosos caminhos imitam o tortuoso fluir da vida. Outro felino, vivo, caminha preguiçosamente sobre a grama, indiferente às inquietações do bicho-homem.




















segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Era outra vez no Rio de Janeiro - A esperança resgatada por um gato

A vida tem maneiras curiosas de agir. Na última semana, minha esposa e eu tivemos o desprazer de testemunhar uma estarrecedora situação de caos e brutalidade urbana. Hoje, a Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro nos mostrou outra face, mais amável e benigna.

Desde a noite passada, por volta das 19 horas, se fez incessantemente ouvir um miado de gato filhote nas cercanias de nosso prédio. O bichano causava dó, miando e miando, ao que tudo indica durante a madrugada inteira. Quando despertamos hoje, por volta das 6 da manhã, o felino continuava com sua lamúria.

Mesmo preferindo cães a gatos, minha esposa e eu ficamos preocupados com o bichinho. Por volta das 9 da manhã os moradores da casa em frente saíram à rua em busca do animal. Da janela, vimos quando eles localizaram o animal, aparentemente preso dentro do capô de um carro. Eles tentaram resgatar o gato de várias maneiras - em vão. Cerca de meia-hora mais tarde, quando as tentativas de resgate de nossos vizinhos não alcançaram êxito, buscamos os serviços públicos.

Primeiro tentamos contato com a Prefeitura, pelo 1746. Fomos muito bem atendidos por uma simpática moça que, todavia, não tinha como ajudar, pois os abrigos municipais já se encontram lotados. Buscamos então o Corpo de Bombeiros. O atendente foi muito solícito ao tomar nota sobre o caso e avisou que o quartel mais próximo entraria em contato conosco assim que possível.

No meio da manhã, o gato parou de miar. Pensamos que talvez tivesse conseguido escapulir, estivesse dormindo ou, infelizmente, estivesse morto. No entanto, enquanto preparávamos o almoço, o "fulano" voltou a seu insistente miado. Cogitamos da possibilidade de empreender, nós mesmo, o resgate. No entanto, consultando sites de organizações de proteção aos animais, vimos que isso seria pouco aconselhável - poderíamos acabar nos machucando, ou ao animalzinho. A recomendação que encontramos era que se recorresse a serviços especializados, como os bombeiros ou a polícia.

Liguei novamente para a central dos bombeiros. Desta vez, pouco minutos depois recebi uma ligação: era um cabo do Corpo de Bombeiros, pedindo mais detalhes sobre o caso. Assim que passei as informações, ele disse que comunicaria o fato a sua oficial, que deliberaria sobre os procedimentos.  Para nossa imensa surpresa, menos de meia-hora depois um caminhão e uma caminhonete dos bombeiros paravam à frente de nosso prédio. Enquanto me arrumava para descer, minha esposa foi à varanda falar com os bombeiros.

Chegando à rua, os vizinhos da casa em frente já estavam na calçada, e um morador de nosso prédio também se aproximou para ajudar. Os cinco bombeiros se puseram a examinar o carro com uma lanterna, em busca do gato - na verdade, ele se movimentava livremente dentro do motor, assustado conosco. Meu vizinho de prédio conhecia o dono do automóvel (outro morador de nosso prédio) e, para abreviar a história, conseguiu entrar em contato telefônico com ele, que se encontrava muito longe e impossibilitado de vir abrir o capô do carro, mas autorizava os bombeiros a arrombarem o veículo para o resgate - o que, conforme um dos bombeiros esclareceu, eles poderiam legalmente fazer, com ou sem autorização.

Nesse ínterim eu encontrara o porteiro de nosso prédio, que afirmou que mais cedo outra moradora tentara regata-lo. A senhora teria colocado um pouco de comida, fazendo com que ele saísse de seu esconderijo, mas retornando logo depois, quando ela avançou para apanha-lo. Um outro passante relatou que o animal de fato não estava preso, pois também o tinha visto saindo e retornando ao motor. Diante dessas informações, os bombeiros acharam melhor não arrombar o carro, já que o gato conseguia sair por conta própria.

Pedi mil desculpas aos bombeiros por tê-los feito vir à toa, mas eles foram muito simpáticos ao se despedirem. Um deles me tranquilizou afirmando que eu os chamara "por uma boa causa". Do episódio ficou a excelente impressão de que nossos bombeiros estão realmente a postos para ajudar, com dedicação e empatia, em ocorrências grandes ou pequenas - e isso não é pouca coisa!

Mas a história não estava concluída. O animal passou o resto da tarde miando e, por volta das 17 horas, um bocado de pessoas se mobilizou para resgatar o felino. Da janela, minha esposa e eu acompanhávamos ansiosamente. Nessa segunda tentativa, nove pessoas chegaram a se mobilizar pelo animal.

Após cerca de uma hora e inúmera peripécias que seria cansativo descrever, o animal foi resgatado. Um filhotinho bem pequenino, de pelo malhado, um pouco assustado com tanta gente a seu redor - e, ainda assim, estranhamente dócil, aconchegado no casaco emprestado por uma adolescente que ajudava na "operação". Os bravos salvadores tiraram uma selfie com o animal, enquanto minha esposa e eu aplaudíamos de nossa janela.

Um final feliz de vez em quando é bom para alegrar o coração e acalentar a esperança - especialmente após o medonho episódio de confronto urbano de dias atrás.

Há algo indescritivelmente belo em ver tantos seres humanos mobilizados pelo bem-estar de um simples animalzinho. Ao longo do dia, nada menos que dezesseis pessoas se reuniram para ajudar o gatinho, em um gesto de solidariedade que atravessa as fronteiras entre espécies.

Do episódio me ficam dois pensamentos esperançosos: o primeiro é que, apesar de todo o sucateamento e caos na administração fluminense, nossos serviços públicos (e seus servidores) ainda conseguem agir em prol da coletividade; o segundo, e mais importante, o lembrete de que podemos ser mais que bestas furiosas, quando as circunstâncias despertam o melhor que há em cada um de nós. 

Quando abrimos nosso coração ao pequenino, ao vulnerável, quando nos mobilizamos em favor do necessitado, quem quer que seja ele, algo insondavelmente poderoso se manifesta em nós - a potência oculta, muitas vezes esquecida ou menosprezada, que costumamos chamar de "Amor".

Há algo de profundamente simbólico no gatinho encurralado dentro do motor de um automóvel - a natureza como que aprisionada no coração dos mecanismos de nossa civilização moderna. Mais que nunca, fico com a certeza de que apenas no Amor podemos encontrar as forças para vencer os tremendos desafios que nosso mundo impõe, com suas engrenagens frias e, muitas vezes, cruéis.

Como dizia Victor Hugo, "amar é agir", e na ação amorosa (com um pouquinho de paciência e engenhosidade) se manifesta uma força capaz de libertar o menor dos seres dos mais opressivos grilhões.




quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Era uma vez no Rio de Janeiro - A Brutalidade como Ordem

Escrevo essas linhas ainda aturdido pelo que presenciei nesta manhã - uma cena dantesca em uma das ruas mais movimentadas do Rio de Janeiro.

Escrevo para dar sentido ao que não tem sentido. Escrevo para exorcizar o horror. Escrevo como testemunha ocular de uma pequena tragédia. Escrevo para que fique registrado esse momento de brutalidade insana. Escrevo para aliviar minha sensação de impotência. Escrevo para confessar minha omissão.

Não pretendo aqui julgar pessoalmente nenhum dos envolvidos no bizarro incidente que presenciei. Pretendo apenas refletir sobre a situação - serenamente, se possível.

Hoje, pela manhã, acompanhei minha esposa a uma consulta médica. Saindo do consultório, rumo à farmácia mais próxima, nos deparamos com uma altercação em uma esquina da Rua Dias da Cruz, no Meier, uma das ruas comerciais mais movimentadas da Zona Norte do Rio. 

Parados no sinal, avistamos no outro lado da rua um camelô que berrava com três ou quatro agentes de segurança pública. Sem entender o que ocorria, minha esposa e eu hesitávamos em atravessar a rua.

Subitamente o camelô atirou ao chão sua própria barraca, em um gesto desesperado. As frutas rolaram pelo asfalto. "Covardes! Covardes! Eu tô aqui trabalhando! Covardes!" - gritava o camelô. Um dos agentes de segurança pública sacou um smartphone para filmar a cena, enquanto outro, a menos de meio metro de distância, falava com o vendedor, que retrucava: "Eu não vou levar nada! Vou largar tudo aí! Vocês que levem essa merda embora, seus covardes!"

Por breves instantes hesitei. Pensei em atravessar a rua e tentar conversar com o camelô e os agentes de segurança, pedir que se acalmassem para resolver a situação de modo pacífico. Ao mesmo tempo senti medo de me envolver na situação e botar minha esposa em risco.

Enquanto isso, começava a se formar uma turba enfurecida. Uma senhora indignada gritava com o rosto quase grudado na face de um dos agentes: "Covarde! Covarde!" De outro lado, vinham algumas pessoas berrando, todas solidárias ao camelô: "O cara é trabalhador, pô!" "Deixa o cara trabalhar, ele está desempregado!" Todos repetiam, como inconscientemente imitando o ambulante: "Covardes! Covardes! Covardes!" Alguns também traziam seus smartphones apontados para a cena - a essa altura já deve haver vários vídeos documentando o episódio online.

Vendo que se formava um grande tumulto, minha esposa e eu atravessamos a rua às pressas, passando entre a furiosa aglomeração que se formava, temerosos quanto ao desfecho do confronto. Apertamos o passo e entramos na farmácia, a menos de vinte metros da esquina.

Dentro da drogaria, nos sentíamos como abobalhados, indecisos, como sonâmbulos. Lá fora, a gritaria continuava. Um tanto maquinalmente, minha esposa pegou da bolsa a lista de compras e me mandou em busca de álcool-gel e álcool 70%, enquanto ela mesma ia em busca de outros itens da lista.

Me peguei perambulando a esmo pela farmácia, sem localizar o álcool, com a cabeça no tumulto, preocupado com o que poderia acontecer. Pensava sobretudo no camelô. Quando o vira exaltado atirando suas próprias mercadorias ao solo, me senti completamente identificado com ele em sua indignação e desespero. Havia naquele gesto uma angústia tremenda, a angústia de alguém ameaçado em sua própria subsistência.

Aquele homem provavelmente tem uma família, filhos. Filhos que poderiam ser meus alunos. Filhos que devem ser os alunos de alguém, em alguma escola pública de nossa cidade. Conheço a dor da perda de um filho, mas não conheço a dor de quem não sabe se o filho terá o que comer no dia seguinte. Acredito que todas aquelas pessoas que berravam indignadas se sentiam de alguma forma tocadas como eu por aquele drama urbano. Havia naquele homem algo impossível de descrever com palavras. Talvez todos nós nos sentíssemos contagiados, eletrizados, por sua agonia que se expressava em palavras, feições e gestos.

Ainda perambulava aturdido no fundo da imensa farmácia quando vi minha esposa assustada correndo pela loja em minha direção, junto com outras pessoas que também pareciam fugir. Com olhos arregalados, ela me dizia: "Vamos ficar aqui no fundo da loja! Tá saindo tiro!" Outras pessoas, muitas das quais idosas, gritavam desesperadas: "É tiro! É tiro!".

Os seguranças da loja baixaram a porta de ferro corrugado até a metade e ficaram a postos, como que esperando que a farmácia fosse invadida a qualquer instante. Funcionários e clientes se juntavam acuados nos fundos da loja. Alguém dizia: "Como vamos sair daqui?" A poucos metros um casal brigava: o marido insistia para que fossem embora dali imediatamente, enquanto a esposa queria permanecer.

Por baixo das portas era possível ver o tráfego que se acumulava na rua, acompanhado por buzinas estridentes. Passados alguns minutos, os carros e ônibus voltaram a andar; com o trânsito normalizado, uma estranha sensação de alívio tomou conta do ambiente, embora as portas de ferro continuassem baixadas pela metade e os seguranças continuassem em guarda.

As pessoas voltaram a circular normalmente pela farmácia, um tanto mecanicamente, fazendo suas compras. Eu continuava abobalhado, sem saber o que fazer. "Vai pegar o álcool!", insistiu minha esposa, e voltei a perambular pela loja desorientado, sem saber onde estava o bendito álcool. Virando em um corredor, me deparei com duas funcionárias que traziam da rua uma senhora idosa que parecia prestes a desfalecer. Uma delas gritava a um colega para que pegasse um banquinho para a senhora em apuros.

As três passaram por mim e, um tanto inconscientemente as acompanhei. Quando vi a senhora finalmente sentada no banquinho e amparada pelas duas funcionárias entendi que minha ajuda não se fazia necessária ali. Voltei a perambular em busca do álcool. A bem dizer, todas as pessoas andavam pela farmácia um tanto desorientadas, como baratas tontas, sem saber muito bem o que queriam.

Acabei reencontrando minha esposa e, juntos, localizamos o álcool. Quase mecanicamente peguei dez garrafas de 500ml e fui colocando no cestinho inferior do carrinho. Olhávamos indecisos para os frascos de álcool-gel, com certa dificuldade para decifrar os rótulos e decidir qual levar. Minha cabeça ainda estava no camelô: teria sido baleado? O que ocorrera? Olhando para a porta da loja, avistei uma pessoa cujas feições lembravam a do ambulante conversando com os seguranças e concluí apressadamente: "Ele está bem". Alcancei minha esposa, que se encontrava a caminho do balcão de remédios e falei que vira o camelô. "Ele está ferido?" - perguntou ela - "Não, acho que está bem, respondi". Mais tarde me dei conta de que provavelmente se tratava de outra pessoa, não do próprio camelô; em momentos de grande tensão nosso cérebro nos prega peças, e acabamos vendo aquilo que desejamos.

Demoramos algum tempo no balcão de remédios, enquanto uma funcionária pegava os medicamentos para nós. Olhei rapidamente na direção onde a senhora estava sentada e avistei somente o banquinho vazio. As portas da farmácia já estavam inteiramente reabertas. Entramos na fila do caixa.

A caixa que nos atendeu perguntou a um dos seguranças, que se encontrava a poucos metros de distância sobre um ferido; aparentemente, a pessoa em questão fora caminhando até um posto de saúde próximo, localizado do outro lado do quarteirão. Perguntei à caixa se o pessoa fora baleada; ela respondeu que os disparos foram de bala-de-borracha.

Tudo pago, voltamos à rua. Na calçada, minha esposa parecia não saber para onde ir. Nos encaminhamos ao ponto de táxi que costumamos usar quando vamos ao Méier. 

Andando pela Dias da Cruz, me vinham à mente cenas de filmes distópicos, especialmente Brazil de Terry Gilliam, que vi há poucos meses e Children of men de Alfonso Cuarón, que nunca assisti, excetuando algumas cenas de brutalidade visualmente impactantes. Uma frase lida essa semana pairava em minha cabeça: "Quanta violência ainda será necessária para manter o capitalismo neoliberal funcionando tal como se encontra?"

Olhando ao redor, via a maioria das pessoas circulando normalmente, como se nada tivesse ocorrido. Um alto-falante anunciava as ofertas imperdíveis de uma loja de departamentos. Ao lado da porta da loja vi um par de agentes de segurança pública que traziam pistolas taser à cintura - armas "não-letais", como as famigeradas balas-de-borracha (que, como se sabe, são apenas revestidas com borracha, mas possuem núcleo metálico e podem causar ferimentos gravíssimos e mesmo letais).

No táxi, finalmente, minha esposa e eu discutimos mais pausadamente o episódio. Nos parecia insano, surreal, grotesco, que armas tivessem sido disparadas em uma das ruas mais movimentadas do Rio de Janeiro, deixando ao menos uma pessoa ferida, devido a uma simples barraca de camelô. Pensávamos na senhora passando mal na farmácia - esse tipo de situação pode matar um paciente cardíaco ou um idoso com saúde debilitada. Enquanto escreve é provável que a senhora em questão esteja em sua casa ainda sentindo as consequências de sua crise nervosa.

Não imaginamos a identidade do ferido. Talvez fosse o próprio camelô, talvez alguma das outras pessoas envolvidas no tumulto; até, quem sabe, um dos agentes de segurança pública.

Minha esposa afirma ter escutado pelo menos quatro disparos. Pode parecer pouco, mas não é. Simplesmente estamos cada vez mais acostumados a uma dose insólita de violência em nosso cotidiano urbano, como se isso fosse "normal". 

No Japão, por exemplo, os registros de disparos de armas de fogo costumam ficar abaixo de dez por ano. A maioria da força policial japonesa não usa armas de fogo e há um controle muito rigoroso sobre o uso de armas e munição. Mesmo os policiais japoneses autorizados a usar armas precisam entregá-las na delegacia ao fim do expediente e a munição é contada rigorosamente, para que nenhum disparo passe sem registro. A posse ilegal de armas de fogo é punida com grande rigor e o mero disparo de uma arma ilegal, mesmo sem deixar feridos, também pode resultar em uma pena considerável.

Na Suíça, onde o serviço militar é obrigatório e tem caráter permanente, há ao menos um fuzil em cerca de 70% das residências - pois todo cidadão é um soldado e pode ser mobilizado em defesa da República a qualquer momento. Apesar de tantas armas, a taxa anual de homicídios costuma ficar abaixo de 30 pessoas. Em grande medida isso se deve ao fato de que o cidadão suíço não tem armas para defesa pessoal, mas para defesa da República - e o uso indevido de uma arma é punido rigorosamente.

Obviamente é complicado comparar as realidades sociais japonesa, suíça e brasileira, todas muito diferentes umas das outras. O que desejo ressaltar é o quanto nós, brasileiros, somos capazes de tolerar um elevado nível de violência como se fosse algo absolutamente "normal". A mera hipótese de se usar armas de fogo (ainda que carregadas com balas-de-borracha) em um incidente tão trivial provavelmente chocaria a maioria dos japoneses e suíços.

Como dito antes, não desejo culpabilizar pessoalmente os agentes de segurança pública envolvidos nesse incidente específico ou em outros de caráter semelhante. A questão é muito mais complexa, e é necessário ressaltar que nossos agentes de segurança pública trabalham em condições precárias sob vários aspectos; são usados como "carne de canhão" para manter a "ordem pública" em uma sociedade caótica como a brasileira.

É a própria concepção brasileira de "ordem pública" que questiono aqui. Quando armas são disparadas em uma rua de grande movimento por uma simples barraca de camelô, é sinal de que há algo muito errado acontecendo - afinal de contas, balas (de borracha ou não) representam um risco muito maior para a população que a obstrução de uma calçada por uma pequena barraca de frutas - que o diga a pessoa ferida no incidente. O episódio dantesco que minha esposa, eu e inúmeras outras pessoas viveram hoje é minúsculo sintoma de um problema muito maior e mais profundo. O Brasil possui uma das maiores taxas anuais de homicídio do mundo, então uma escaramuça urbana, por absurda que seja, parece um problema quase irrelevante.

A preservação da vida e da integridade física dos cidadãos, no Brasil, costuma ser preterida em favor da proteção da propriedade - e isso não é responsabilidade apenas dos agentes de segurança pública. Nosso Código Penal prevê penas muito desproporcionais para crimes contra a vida e crimes contra a propriedade. Como dizem jocosamente alguns juristas, "dê um soco no meu olho, mas não leve minha carteira". Uma lesão corporal é um crime imensamente mais grave que um furto, mas nossa legislação parece ignorar isso.

Há muitas razões para isso. Como muito bem observava Simone Weil, em suas origens, o Direito Romano se preocupava sobretudo com questões relacionadas a propriedade e patrimônio - e os escravos eram o tipo de propriedade mais importante na sociedade romana. Há, por assim dizer, um vício de origem nas raízes de nosso pensar jurídico. Tudo isso se agrava quando consideramos que a instituição da escravidão no império lusitano era regida, basicamente, por um ordenamento jurídico derivado do Direito Romano. Daí não se deve tirar conclusões precipitadas, mas, em um sentido muito geral, o ordenamento jurídico brasileiro se formulou sob condições históricas e sociais pouco favoráveis à valorização da vida, da integridade física e da dignidade humana.

Ao mesmo tempo, as sociedades coloniais nas Américas exigiam, para seu "funcionamento", uma dose de violência consideravelmente maior do que sucedia em suas contrapartes europeias (muito embora a Idade Moderna na Europa tampouco fosse um mar de rosas) - violência essa exercida não apenas contra escravos, mas contra diversos estratos da sociedade. Para além disso, as distâncias e a precariedade das comunicações deixavam as autoridades coloniais sob menor controle régio que suas correspondentes em território metropolitano, tornando o abuso de autoridade mais regra que exceção, como bem ressaltava o padre Antônio Vieira.

Assim sendo, a sociedade brasileira, em seu processo de formação, sempre viu a violência, por vezes a violência mais extrema, como uma condição necessária, imprescindível à manutenção de certa "ordem social". Em 1897, havia quem se queixasse de que o Exército brasileiro não tivesse degolado também mulheres e crianças na trágica expedição contra Canudos - o banho de sangue não apenas era considerado aceitável por muitos como parecia mesmo insuficiente para alguns. Durante a Revolta da Vacina, a força policial fluminense chegou a usar canhões contra a multidão. Há menos de cem anos, se atribuía ao presidente Washington Luís a noção de que "a questão social é um caso de polícia" - ou seja, que as mazelas sociais que atrapalhavam a "ordem" brasileira deveriam ser resolvidas pelo emprego da força, não através de outros tipos de políticas públicas.

Considerando tudo isso, pouco espanta que uma situação tão simples como a remoção de uma barraca de camelô descambe para o disparo de armas de fogo em meio a uma aglomeração, causando tumulto, pânico e deixando ao menos um ferido - tudo isso em nome da "ordem pública". Em um país onde o mercado de trabalho formal sempre foi precário e suscetível a instabilidade, é mais que natural que imensos setores da população urbana recorram ao trabalho como vendedores ambulantes e outros meios de subsistência pelo trabalho informal.

Enquanto minha esposa e eu aguardávamos a consulta médica, a televisão na sala de espera transmitia uma matéria que falava em tom otimista sobre a disponibilidade de empregos temporários no setor de comércio e serviços no final do ano, ressaltando como a oferta desses empregos é importante para muita gente que passou o ano desempregada - como se os elevados índices de desemprego ao longo do ano inteiro não fossem um grave problema social. É apenas uma triste ironia que, menos de uma hora depois de assistir a essa peça jornalística tenhamos tido o desgosto de assistir a um grave confronto urbano cuja causa fundamental é justamente a falta de emprego. A pensar segundo a linha editorial da emissora em questão, o camelô desesperado deveria ter aguentado um pouco mais até arrumar um emprego em novembro ou dezembro - com a grande oportunidade, como bem sublinhava a matéria, de que tal vaga se torne um emprego permanente caso o trabalhador se mostre suficientemente diligente durante o período comercial natalino. Desse modo, ficaria preservada a "ordem pública", sem necessidade tratar como "caso de polícia" uma questão social.

Enquanto escrevo essas linhas me vem à mente Pai contra mãe, tristíssimo conto de Machado de Assis ambientado nesse mesmo Rio de Janeiro. Na história, um relutante caçador de escravos fugitivos se vê na iminência de entregar o filho recém-nascido à "roda dos enjeitados", por não ter condições de sustentar a criança. Acaba capturando uma escrava fugitiva grávida, que perde seu bebê enquanto tenta escapar. Não há herói ou vilão nesse conto: apenas um pai e uma mãe forçados a lutar por seus respectivos rebentos. A trágica "moral da história" é que, onde a luta pela subsistência é atroz, sobra pouco espaço para a valorização da vida e da dignidade humana.

Como o pai do conto machadiano, os agentes de segurança pública em questão agiram segundo seu dever de manter a "ordem pública", custe o que custar, doa a quem doer. E apesar da quase onipresença da figura do vendedor ambulante na história da cidade do Rio de Janeiro, vividamente retratada por Debret, as autoridades no Rio de Janeiro persistem em tratar essas pessoas como um estorvo à "ordem pública" e, no limite, caso de polícia. Apesar dos séculos que passam, o camelô continua como figura relegada à margem da economia carioca, com tímidas e limitadas tentativas de regulamentação dessas atividades, em si mesmas dignas, honestas e legítimas. Obviamente há camelôs que obstruem vias públicas, comercializam mercadorias roubadas e pirateadas, entre outros problemas. Mas a solução para esse tipo de problema não deveria ser o uso da força, muito menos o abuso dela; deveria ser a regulamentação pelas autoridades, devidamente fiscalizada.

Mas a "ordem pública" no Rio de Janeiro tem pesos e medidas incompreensíveis (ou talvez demasiadamente compreensíveis). Há menos de dois meses uma grande empreiteira ocasionou um incêndio de grandes proporções na Floresta da Tijuca, em área de proteção ambiental. Triste espetáculo, em que inúmeros animais silvestres foram fotografados e filmados em fuga desesperada pelas ruas da cidade. A punição para essa tragédia ambiental foi uma pífia multa no valor de R$15.000,00 - apenas trocados para a empreiteira, que construirá um condomínio de luxo no local. Note-se que a venda de uma única unidade habitacional já compensa sobejamente o valor dessa multa.

Que "ordem" é essa que pune tão ligeiramente um grave crime ambiental e, ao mesmo tempo, promove indiretamente um confronto urbano completamente evitável em função de uma infração quase irrelevante para o funcionamento da cidade? Que "ordem" é essa que se recusa a regulamentar o ofício de camelô, mas se mostra criminosamente leniente para com os interesses da especulação imobiliária? Que "ordem" é essa que mata árvores, animais silvestres e deixa cidadãos feridos de maneira quase totalmente arbitrária? A quem interessa essa "ordem"?

Termino esse desabafo do mesmo modo que comecei: perplexo, indignado e consternado, entregue à sensação de impotência diante de um país e uma cidade onde o absurdo é corriqueiro, o grotesco é aceitável e a brutalidade é a "ordem". Ainda assim, teimo em fazer minhas as palavras de Martin Luther King:

Tenho a audácia de acreditar que todas as pessoas podem ter três refeições por dia para seus corpos, educação e cultura para suas mentes, dignidade, igualdade e liberdade para seus espíritos. Acredito que aquilo que os homens egocêntricos demoliram, homens altruístas podem reconstruir.


Protesto de camelôs

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O declínio de Cosme e Damião?

Tendo a pensar que a distribuição de doces de Cosme e Damião pode se extinguir, pelo próprio desinteresse dos católicos. 

Em minha família, todos que ofereciam doce já morreram ou, pela idade, não distribuem mais. Os católicos mais jovens não se interessam pela prática - o próprio hábito da promessa, em sentido geral, parece estar desaparecendo do catolicismo popular. Em certo sentido, a dinâmica psicológica subjacente à promessa tem migrado do catolicismo para o neopentecostalismo, embora sob expressões religiosas distintas, desta vez de inspiração veterotestamentária ("jejum de Daniel", vigílias, "subir o monte", entre outras). 

De todo modo, puxando pela memória, no meu círculo familiar havia seis pessoas ou casais que distribuíam doces. Desses, quatro morreram e duas não o fazem mais - de seis para zero. Uma mudança quantitativa drástica que,  penso eu, reflete um quadro social mais amplo. 

Avanço a hipótese de que, hoje, a prática ainda se mantém viva sobretudo entre praticantes de religiões afrobrasileiras - afinal de contas, a festa sempre teve forte conotação "afrocatólica".

Vale ainda lembrar que a própria festa sofreu muitas transformações ao longo do século XX, ao menos nos subúrbios cariocas. As mesas de doces nas residências particulares momentaneamente abertas para estranhos gradativamente perdeu espaço para os saquinhos de doces embalados para viagem e os próprios doces caseiros foram sendo substituídos por guloseimas industrializadas, normalmente adquiridas em comércio atacadista. Os banquetes comunitários também foram se tornando menos comuns, de certo modo "migrando" para as feijoadas de São Jorge. 

Curiosamente, a devoção por Ogum-São Jorge tem crescido nas últimas décadas, enquanto a festa de Cosme e Damião parece minguar.

Mudanças culturais entre gerações, o ritmo cada vez mais acelerado da vida urbana, permutas simbólicas no campo da própria religiosidade, tudo parece contribuir para o deslocamento da Festa de Cosme e Damião enquanto prática social - ainda que não necessariamente à sua extinção. 

Em certo sentido me lembra as reflexões de Peter Burke sobre o "triunfo da quaresma" na Idade Moderna; a religiosidade e a cultura popular sempre se transformam, às vezes drasticamente, em períodos de intensas mudanças sociais. 

Damião, Cosme e Doces

Observações do historiador Fred Oliveira

Hoje, aqui pelo Rio, devido à recusa e grosseria de algumas pessoas (geralmente evangélicas), as pessoas (geralmente católicas) que distribuem doces de Cosme e Damião chegam cada vez mais acanhadas para perguntar se alguém teria interesse em receber um saquinho de guloseimas... 

Até os anos 90 a data ainda produzia um alvoroço, se distribuindo doces e sorrisos entre todos. Era uma felicidade, e mesmo quem não queria (por crença ou gosto diferente) não demonstrava desagrado, levando numa boa, mesmo sem aceitar o doce oferecido, a farra daquela festiva e popular tradição. 

Porém de lá pra cá algo mudou na nossa sociabilidade... 

Atualmente (e já vi ocorrer) algumas pessoas fazem questão de reclamar do oferecimento do pacotinho de doces e outros mesmo falam contra aquela fé... Infelizmente católicos também tratam evangélicos de modo desrespeitoso em relação a outras questões. 

Por causa dessa luta de vetos, ainda se diluirão muitas práticas do costume!



segunda-feira, 5 de abril de 2021

Cidadania Carioca

 Eis que ouço na rua, em frente a meu prédio, o indignado comentário de um cidadão carioca, reclamando que o lockdown imposto pela prefeitura obriga o fechamento dos bares, mas permite o funcionamento das igrejas. E assim segue a cidadania carioca em tempos pandêmicos. Debret foi embora, mas o Rio continua "pitoresco" - ou picaresco, nunca se sabe...

domingo, 28 de março de 2021

Que comemoram?

Apesar do lockdown decretado pelas autoridades fluminenses, o sábado se mostra festivo e barulhento em minha vizinhança. Que pensar de coisa semelhante? 

Em um país com mais de 300 mil óbitos pela pandemia, há quem continue brincando com a vida e a morte. O que motiva tão desvairada alegria em momento de pesar tão doloroso? Que profundo desespero tortura essas almas caprichosas?

Não sei se semelhante atitude me causa estranheza, indignação, raiva, tristeza ou pena - pois é digno de pena um povo que se entrega inerme às garras da ignorância, da falta de civilidade e à mercê de microorganismos irracionais.

Chega a ser irônico que essa espécie tenha a ousadia de se declarar "Homo SAPIENS". Somos estultos da pior natureza.



terça-feira, 10 de novembro de 2020

5 motivos para votar em Martha Rocha

Serei bem honesto e apresentarei argumentos que me parecem razoáveis. Martha Rocha não é a candidata de meus sonhos, mas é nela que votarei, pelas seguintes razões:


1) A política, como se sabe, é a "arte do possível". Na conjuntura crítica que vivemos no Rio de Janeiro, não me parece cabível votar simplesmente para "marcar posição". A bem dizer, nenhuma das candidaturas presentes me agrada plenamente, mas se faz necessário apostar em uma candidatura viável, capaz de enfrentar Paes ou Crivella no segundo turno.


2) Já passamos oito anos com Paes e quatro com Crivella - doze anos desastrosos, com investimentos injustificáveis para eventos efêmeros como a Copa e as Olimpíadas, seguidos por uma administração ineficaz, cujo "feito" mais visível é a mortandade pandêmica por gestão sanitária de competência duvidosa. Não faz qualquer sentido passar mais quatro anos com qualquer deles dois. Precisamos dar chance a alguém novo no cargo.


3) O programa de governo de Martha Rocha está longe de ser perfeito (mesmo porque a perfeição não é deste mundo), mas me parece consistente e viável. Sua trajetória política pregressa não me parece brilhante, mas tampouco repugnante. Depois de doze anos castigado por Paes e Crivella, o Rio não precisa de uma gestão maravilhosa, apenas de um mandato suficientemente bom para recuperar os estragos passados e entregar a cidade um pouco melhor em 2024. Como se diz, o ótimo é inimigo do bom - e a simples perspectiva do bom já parece ótima diante de tudo que temos passado.


4) Sem entrar nos méritos e deméritos pessoais de Benedita da Silva, Renata Souza ou Bandeira de Mello, me parecem candidaturas com poucas chances de passar para o segundo-turno ou de vencê-lo. A candidatura de Benedita me parece particularmente problemática, pois se trata de "figurinha carimbada" na política fluminense, com alto índice de rejeição. Além disso, o próprio PT também se encontra em seu pior momento eleitoral, com elevadíssimos índices de rejeição. Levar Benedita ao segundo turno, tendo a crer, é conceder vitória certa a seu opositor. Martha Rocha, ao contrário, é figura menos desgastada, com baixo índice de rejeição, o que torna possível, e até provável, que derrote Paes ou Crivella no segundo turno.


5) Votar em Martha Rocha não significa conceder carta branca à candidata. A cidadania não acaba nas urnas. É necessário acompanhar e cobrar. Votarei nela, mas, caso eleita, estarei entre os primeiros a criticar quaisquer medidas que me pareçam inadequadas. O exercício da cidadania implica sempre na vigilância dos mandatários eleitos.


NOTA ADICIONAL

Para vereador, pretendo votar novamente em Tarcísio Motta, que já elegi em 2016. Acompanho de perto e estou muito satisfeito com a atuação de Motta no legislativo carioca. Tem atuado de modo competente na Comissão de Educação e também desempenhou papel relevante na CPI das Enchentes e na CPI dos Ônibus - nas quais, infelizmente, ficou isolado. Não sou militante partidário, e tenho várias ressalvas quanto ao conjunto da bancada do PSOL na Câmara dos Vereadores, mas acho que realizaram um papel importante de oposição aos desmandos do Poder Executivo nos quatro anos. Quero crer que Tarcísio e seus colegas de bancada realizarão um bom trabalho, independentemente de qual prefeitável venha a ser eleito. E, da mesma forma, cabe cobrar de nossos vereadores eleitos que também cumpram seu papel da melhor maneira possível.




quarta-feira, 24 de junho de 2020

Getúlio Vargas e o Brasil na II Guerra Mundial

Extratos do livro Uma História do Brasil, de Thomas Skidmore

Em torno de 1934, o tipo de confronto geopolítico europeu já estava se tornando claro. A Alemanha nazista tinha seus olhos não apenas em seus vizinhos europeus, mas também sobre a crescente influência no Hemisfério Ocidental. Ela identificava o Brasil como um importante parceiro comercial e começava a exercer influência sobre essa relação bilateral, por meio de um mecanismo que consistia numa moeda alemã especial usada para pagar pelas exportações brasileiras, que podia ser resgatada apenas pela compra de exportações alemãs, criando uma forma de comércio amarrado. [...] Entretanto, os alemães estavam interessados em mais do que comércio. Eles também queriam atrair o Brasil para a sua esfera político-militar, e cultivavam sistematicamente a amizade com oficiais do Exército brasileiro, conhecidos como admiradores da destreza militar alemã, bem como ofereciam ao Brasil armas e treinamento técnico. Do mesmo modo que no período pré-Primeira Guerra Mundial, o governo dos EUA preocupava-se com essa estratégia alemã, tendo o Departamento de Estado denunciado a política comercial alemã como discriminatória. Os militares americanos tentaram agir contra as ofertas alemãs de armas e treinamento, mas fracassaram neste esforço. Getúlio havia tentado obter equipamento militar americano antes, mas o Congresso dos EUA, um corpo bastante isolacionista durante a década de 1930, proibira a venda de armas no exterior pelos Estados Unidos.

[...]

A opinião pública brasileira era o alvo em uma batalha sobre que lado apoiar na guerra que se aproximava na Europa. O sentimento da elite favorecia fortemente os Aliados por razões culturais, e, até sua supressão em 1935, os comunistas também haviam sido eficazes em promover opiniões antinazistas. Mas alguns brasileiros, como em 1914, eram favoráveis à Alemanha, não obstante os laços culturais históricos.

Getúlio mostrava-se inclinado a procurar os Estados Unidos para laços militares, tentando, como já citamos, comprar armas deles antes de se voltar para a Alemanha. Em 1937 ele também oferecera ao presidente Roosevelt o uso de bases litorâneas no Brasil, oferta esta que foi recusada, presumivelmente porque Roosevelt não podia permitir-se contrariar o Congresso isolacionista, dando a impressão que se preparava para a guerra. E uma oferta brasileira de comprar destroieres excedentes dos EUA foi igualmente recusada quando as autoridades americanas cederam aos protestos da Argentina contra a venda. Quando a guerra finalmente eclodiu em 1939, Getúlio e seus generais, lembrando essas rejeições, preferiram permanecer neutros até que os Estados Unidos estivessem preparados para pagar um preço justo pelo apoio brasileiro. Além disso, os brasileiros continuavam a cultivar relações com as potências do Eixo como parte do jogo de usá-las contra os Estados Unidos.

O Brasil não declarou guerra até meados de 1942, quando os que estavam em cima do muro puderam ver que a sorte militar havia virado para o lados dos Aliados. A invasão da Rússia em 1941 havia apanhado a Wermacht em um feroz inverno russo, e os submarinos alemães sofriam pesadas perdas na batalha do Atlântico. O Brasil não podia esperar mais se pretendia obter alguma compensação atraente por entrar na guerra.

O Brasil tinha ao menos dois trunfos de que os Aliados precisavam. Um era matéria-prima, incluindo borracha natural, quartzo (essencial para comunicações por rádio) e outros minerais. O outro era seu litoral, que oferecia bases aéreas e marítimas em pontos estratégicos no Oceano Atlântico. Getúlio conseguiu um acordo atraente, pelo qual o país concordava em fornecer a matéria-prima e as bases aos EUA, apenas em troca de equipamento militar, assistência técnica e financiamento para uma usina siderúrgica brasileira (localizada em Volta Redonda). Essa aliança fez do Brasil o mais evidente parceiro latino-americano dos Estados Unidos na guerra. Além disso, estabelecia precedente para o apoio do governo americano à industrialização de base em um país do Terceiro Mundo.

Em 1941 Getúlio começou a mover-se em direção aos Aliados ao aprovar um projeto da Pan American Airways (sob contrato do exército dos EUA) para modernizar aeroportos no Norte e Nordeste. Em janeiro de 1942, na conferência do Rio de Janeiro, onde o apoio latino-americano para a entrada na guerra agora prevalecia, graças ao ataque japonês a Pearl Harbor, o Brasil rompeu ostensivamente com o Eixo. O ingresso do Brasil na guerra tinha uma importante implicação para a política interna. A decisão de unir-se às democracias era um golpe contra os autoritaristas que alegavam que a democracia não tinha lugar no Brasil, e supunham que Getúlio concordava com eles. Este e seus generais, ao questionarem essa suposição, estavam montando o cenário para um debate que iria terminar com o fim da ditadura getulista.

Com a entrada do Brasil na guerra, uma onda de funcionários norte-americanos, tanto militares como civis, veio ao Brasil. [...] Em 1943, brasileiros e norte-americanos construíram uma rede de modernas bases militares aéreas e marítimas no litoral do Nordeste.

Junto com a ofensiva militar dos EUA no Brasil veio uma ofensiva cultural. O presidente Roosevelt designou o multimilionário Nelson Rockefeller para dirigir um novo escritório cujo objetivo era promover a melhoria das relações culturais com a América Latina, tendo o Brasil como alvo principal. O escritório de Rockefeller recrutou talentos como Orson Welles e Walt Disney para fazerem filmes voltados ao fortalecimento da opinião pró-EUA.

[...]

Por trás dessas atividades jaziam objetivos d elongo prazo dos EUA: sendo um deles o aumento de sua penetração econômica no país. Embora o investimento norte-americano no Brasil já superasse o investimento britânico, investidores norte-americanos ansiavam por novos progressos. [...] A colaboração durante a guerra oferecia uma base excelente para a ofensiva econômica norte-americana posterior. Aviões norte-americanos passaram a dominar não apenas o uso militar, mas também o civil.

[...]

O desejo de Getúlio de identificar o Brasil com a causa dos Aliados levou-o a oferecer três divisões do Exército brasileiro, cujos oficiais se entusiasmaram com a ideia, para combater os alemães no cenário de guerra do Mediterrâneo. Getúlio tinha dois importantes propósitos ao insistir no papel militar brasileiro: um era enfatizar a posição do Brasil como único país latino-americano a enviar forças terrestres sob sua própria bandeira para a guerra [...]; e o segundo era despertar o orgulho brasileiro e dar ao público uma razão patriótica para apoiar o governo.

Para enfatizar que se tratava de um esforço nacional, Getúlio queria efetivos recrutados por todo o país e insistiu para que todo estado fosse representado, independentemente da qualidade dos recrutas locais. A força resultante era altamente heterogênea, carecendo de treinamento comum e desprovida por completo de experiência de combate. [...] Os comandantes [brasileiros] esperavam combater na África do Norte, portanto as tropas receberam uniformes de verão, mas a Força Expedicionária Brasileira, ou FEB, foi designada para operar com o Quinto Exército dos EUA, que combatia contra a renhida defesa alemã em terrenos montanhosos ao norte de Roma, exatamente quando se iniciava um rigoroso inverno. Os brasileiros foram lançados à batalha com a missão de escalar um precipício no qual os alemães estavam com os canhões em posição dominante. Apanhados no fogo cerrado, sofreram pesadas baixas e retiraram-se desordenadamente.

Embora difícil de surpreender, [...] o fracasso nesse primeiro combate foi extremamente perturbador para os comandantes brasileiros, que recorreram aos norte-americanos para ajuda e orientação. As tropas nacionais passaram por rápido retreinamento e logo retornaram ao combate. Seu desempenho foi significativamente melhor, e eles ajudaram a capturar Monte Cassino, o monastério histórico que assinalava a principal posição alemã. O registro do combate brasileiro na Itália tornou-se ulteriormente objeto de amarga controvérsia: os relatos oficiais enfatizavam o autêntico heroísmo depois do retreinamento, mas os críticos (incluindo alguns oficiais brasileiros) enfatizavam o fracasso inicial pelo qual eles injustamente culpavam comandantes incompetentes.

O engajamento do Brasil no combate deixou um legado significativo. Primeiro, forneceu uma base para a reivindicação do país de um papel importante no pós-guerra [...]. Segundo, o envio da força expedicionária aumentou imensamente o prestígio do Exército brasileiro. Como os únicos latino-americanos a terem lutado na Europa, os brasileiros podiam manter a cabeça erguida entre os Aliados. Terceiro, o combate conjunto na Itália fortaleceu os laços entre os militares norte-americanos e brasileiros, mesmo considerando-se que o Brasil permanecia claramente como o sócio menor.

Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro

domingo, 21 de junho de 2020

Babel Carioca - Reflexão uerjiana

Dedicado à amiga Ana Delmas

A UERJ, como um todo, é uma comunidade universitária fascinante. Uma verdadeira Torre de Babel. Acho que é um exemplo notável do como a arquitetura influencia nossas interações sociais. E a arquitetura da UERJ favorece todo tipo de interação bizarra e pitoresca. Cada andar daquele prédio é um microcosmos e o modo como esses microcosmos interagem é algo fascinante. 

O próprio fato do edifico ter abrigado a "Favela do Esqueleto" já é digno de nota. Que outra universidade no mundo já foi uma favela? A favela transformada em universidade "na marra" (e botando os favelados para correr) é quase alegórico.

Sem mencionar o conjunto urbano UERJ-Mangueira-Maracanã. Esse triângulo universidade-favela-estádio, mediado por Radial Oeste, ferrovia e "metrovia" é digno de nota. Tudo isso pertinho da Quinta da Boa-Vista, antiga residência imperial, diga-se de passagem.

Acho que a UERJ é o mais próximo que existe no mundo real de uma paisagem escheriana.

Dava uma tese.




sábado, 16 de maio de 2020

"Por que não serei candidato a prefeito do Rio"

A versão de Freixo, segundo a newsletter do deputado federal, que assino; cada um interprete como queira:

Olá,
Tudo bem?

Depois das duas catástrofes que se abateram sobre o Brasil, Bolsonaro e a pandemia, não podemos pensar como pensávamos antes, nem agir como agíamos antes.

Estamos enfrentando um dos maiores ataques da nossa história à democracia e à vida dos brasileiros. Bolsonaro se comporta como um aspirante a ditador que usa ilegalmente o cargo mais importante do País para alimentar uma guerra à democracia. Seu projeto de poder autoritário está retirando direitos e destruindo a dignidade do povo brasileiro com uma voracidade inédita.

Diante destes ataques, agravados pela ação genocida do presidente em meio à pandemia, a urgência da luta em defesa da vida e da democracia se impõe como um dever ante a realização dos nossos projetos pessoais. Por isso, decido sacrificar o meu desejo de disputar novamente a prefeitura do Rio de Janeiro para dedicar todos os meus esforços à construção de uma frente ampla que una nacionalmente o campo democrático no enfrentamento ao fascismo.

Não é fácil abrir mão da minha candidatura, tanto do ponto de vista pessoal quanto político. Mas a escolha se faz necessária para que, em vez de cuidar exclusivamente da minha campanha, eu possa trabalhar pela formação dessa aliança nas eleições municipais deste ano, tanto no Rio de Janeiro, cidade tão desigual e assolada pelo crime organizado e pela associação entre milícias e política, quanto em outras capitais do país. Assumo esse compromisso porque entendo que o pleito de 2020 será um passo decisivo para criarmos pontes, acumularmos forças, amadurecermos um novo projeto de Brasil e derrotarmos o bolsonarismo em 2022.

Além de me dedicar a essa articulação nacional em prol da unidade do campo democrático antifascista, seguirei enfrentando as duras, porém necessárias, batalhas que estamos travando no Congresso Nacional, onde obtivemos vitórias relevantes. Nós aprovamos a renda básica emergencial, garantindo R$ 600 para socorrer os brasileiros na crise quando o governo queria pagar apenas R$ 200; barramos a destruição da legislação que impede o acesso indiscriminado de armas e munições e derrotamos a excludente de ilicitude.

Foram conquistas importantes, porém insuficientes, na Câmara dos Deputados contra a agenda autoritária e violenta do governo Bolsonaro. Diante disso, é fundamental a minha permanência nesta trincheira de lutas que se torna ainda mais necessária diante das consequências da aliança entre o centrão e o governo, que passará a ter uma tropa de choque para seu projeto autoritário e genocida.

Não estamos diante de uma eleição como as outras. O desafio diante de nós é a própria sobrevivência das pessoas e da democracia. Não faz nenhum sentido, nesse momento dramático, pensar apenas em nossos projetos pessoais, em nossos partidos, valorizando nossas divergências. Quem for anti-fascista, hoje, é meu irmão, minha irmã. Chegou a hora de termos grandeza: ou demonstramos desprendimento e capacidade de diálogo, já, ou mereceremos o pior julgamento da história, por não nos unirmos para impedir a destruição da democracia e da vida do povo brasileiro.

Abraços,
Marcelo Freixo

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Enquanto isso, na Baía de Guanabara...


É uma pena que apenas uma tragédia humanitária de dimensões terríveis consiga parar - momentaneamente - nosso predatório estilo de vida... O momento nos convida a refletir e repensar nossos valores e prioridades enquanto coletividade humana.

A Mata-Atlântica contra-ataca


Imagens da quarentena. Os não-humanos retornam timidamente aos espaços que lhes tomamos nesse mundo que nos pertence a todos. 
 
Parece que esse vídeo foi gravado em um prédio na Gávea. Animais sobreviventes da Mata Atlântica exploram territórios que outrora integravam a floresta que hoje mal existe. 

Podemos e precisamos desacelerar.

sábado, 14 de março de 2020

Pandemia à carioca

O boteco aqui da minha esquina está lotado, com música ao vivo e tudo. Afinal de contas, álcool mata o vírus, não é verdade?

Moral da história: ou o coronavírus acaba com o Rio, ou o Rio acaba com o coronavírus! Viva Saint-Hillaire!

domingo, 1 de março de 2020

Porcaria Suburbana

Uma porca comendo lixo na esquina do meu prédio, na Abolição, Zona Norte. Eu, particularmente, acho superlegal. Sou suburbano de coração, nascido e criado em Quintino Bocaiúva, a menos de meio quilômetro da casa do autor do Manifesto Republicano. Apesar de abandonada pelo poder público, a Zona Norte é adorável e tem muita História para contar. Aqui já viveram Quintino Bocaiúva, Euclides  da Cunha, Lima Barreto, Pixinguinha, Catulo da Paixão Cearense e tantos outros grandes brasileiros.  Pode ser uma porcaria, mas é a MINHA porcaria, com muito orgulho.