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Mostrando postagens com marcador Metodologia. Mostrar todas as postagens
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domingo, 31 de julho de 2022

Da genealogia do pensamento

Dedicado aos amigos Tiago Ribeiro e Vinicius Borges, interlocutores de parte dessas inquietações


O exercício profundo da autocrítica é algo trabalhoso. 


Em primeiro lugar, devo conhecer minhas próprias ideias, o modo como elas se articulam e, tarefa sempre complicada, identificar suas contradições e paradoxos. 


Em outro nível, devo buscar os contextos, épocas e lugares em que essas ideias foram engendradas, e examinar as distâncias entre a realidade que vivo e as realidades em que as ideias que ora me habitam foram pensadas. 


Por fim, e talvez mais complicado, preciso entender de que maneira essas ideias chegaram a mim, através de que caminhos e descaminhos elas palmilharam a distância entre o presente que vivo e o passado em que emergiram, em um longo processo em que foram interpretadas, filtradas, traduzidas e modificadas por uma miríade de intermediários. 


Tais são as condições mediante as quais preciso examinar a mim mesmo, em sentido amplo e profundo. Através dessas operações intelectuais posso, talvez, chegar a superar as contradições e paradoxos que percebo em mim...

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Armadilhas da interpretação

Comentário adaptado de uma discussão com amigos acerca de um texto atribuído a Richard Wagner por um antigo periódico brasileiro

Sobre o (suposto) pensamento de Wagner, convém cautela com os anacronismos e juízos de valor na análise das fontes. Antes de tudo, me chama atenção o fato de que o texto em questão é sobre a música, não sobre a mulher. Acho complicado pensar essa passagem desconsiderando o contexto mais amplo da "mística" wagneriana - tema controverso entre os próprios especialistas na obra wagneriana, segundo suas respectivas vertentes. 

A produção operística de Wagner é uma das mais complicadas, em termos de interpretação, tendo em vista a variedade de camadas de significados e simbolismos que o compositor atribuiu a suas obras ao longo da carreira, bem como o emaranhado constituído por suas concepções quase religiosas em torno da Arte, como bem explora o historiador Karl Schorske em magnífico ensaio onde coteja as respectivas trajetórias do compositor alemão e do artista visual William Morris.

Às vezes nos concentramos em frases e trechos mais escandalosos e perdemos de vista o resto - e isso me parece arriscado em termos de hermenêutica. No caso em apreço ainda entrariam em questão a seleção operada pelo periódico brasileiro, e as especificidades da tradução. Enfim, ranzinzices metodológicas - todavia, sempre necessárias
. 
Convém ainda considerar a questão da recepção - como uma leitora brasileira de 1907 interpretaria o texto?


quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Para que servem as estatísticas?

O texto abaixo resulta de uma discussão virtual acerca das supostas tendências ideológicas e preferências políticas dos professores de Humanidades, mas trata mais amplamente da importância das estatísticas (bem como de seus limites) para a compreensão de fenômenos sociais em macroescala. Como estou longe de ser um especialista no assunto, espero que os leitotes tenham isso em mente - e, caso possivel, me sinalizem equívocos implorando por correção. Vale ressaltar ainda que, por se tratar de adaptação de conversa informal, há algumas digressões um tanto pitorescas; o mesmo vale para o uso excessivo da primeira pessoa.


A realidade é opaca para qualquer um de nós. Todos trabalhamos com percepções impressionistas de onde olhamos a realidade. Nenhum ser humano é capaz de ter uma perspectiva total da realidade, como salientava Leibniz (co-criador do Cálculo "newtoniano").


Qualquer espaço amostral é suscetível a falhas, por maior que seja. Isso vale tanto para pesquisas de opinião quanto experimentos de laboratório. É por isso que pesquisadores de ciências naturais geralmente realizam milhares e milhares de vezes o mesmo experimento e, mesmo assim, surgem os famosos "pontos fora da curva", que geralmente correspondem a ocasiões em que algo "deu errado" - uma distração do experimentador, uma falha boba na aparelhagem etc. Um experimento realizado apenas 100 ou 200 vezes tem margem de erro astronômica.


Outro detalhe importante é a POSSIBILIDADE de repetir experimentos, como salientava o hoje pouco lembrado Jean Piaget. Há muitos ramos das ciências naturais que não têm como repetir experimentos. É o caso da meteorologia, da astronomia, astrofísica, etologia etc etc etc. São ciências de observação. Um exemplo: quem estuda predadores em ambiente natural tem raras oportunidades de presenciar um "evento de predação". O que se faz, geralmente, é localizar carcaças de presas, pegadas frescas que indiquem uma perseguição recente (que muitas vezes não resulta em abate), ou fezes do predador - onde se encontram pelos, penas ou indícios microscópicos que permitam identificar quem-comeu-o-que-e-quanto. Obviamente precisa-se de milhares de amostras fecais para ter um panorama acurado da coisa. Da mesma forma, há efemérides astronômicas comuns, frequentes e até previsíveis e outras raríssimas, como supernovas (lembrando que só "vemos" supernovas milhares de anos depois que elas ocorreram).


O mesmo se aplica a fenômenos sociais. Há aqueles corriqueiros e REGISTRADOS, como nascimentos, óbitos, casamentos, divórcios, campeonatos esportivos, eleições e outros relativamente raros, como revoluções, golpes de estado etc.


Mesmo fenômenos comuns são difíceis de analisar. Por exemplo, hoje, na Europa e nas Américas, em média, a duração dos casamentos tem se mantido num patamar inferior a 10 anos. Daí podemos inferir que os casamentos estão cada vez mais curtos - mas apenas na média. Digamos, por exemplo, que um país tenha uma média corrente de 5 anos. Isso não significa que a maioria dos casamentos dura 5 anos; significa que a maioria dura bem menos. Para um casamento de dez anos, há cinco de dois anos; para um de 20 anos, há outros 20 de apenas um; para um de 40, há 80 de seis meses. Ou seja, a média nos induz a uma conclusão tremendamente equivocada. A maioria dos casamentos dura bem menos que 5 anos; uma minoria fica bem acima dos 5. Na prática, a média corresponde a uns poucos casos reais que ficam acima da maioria e muito abaixo de uma minoria.


Isso nos leva à questão da modelagem estatística. O método mais comumente empregado é a um tanto grosseira estatística gaussiana, baseada literalmente em arremessos aleatórios de moedas (foi o modelo adotado por seu criador, Gauss, no século XVII). Aperfeiçoamentos foram surgindo nos séculos seguintes, majoritariamente baseados em jogos de azar - rolamento de dados, embaralhamento de cartas, lances de roleta etc. Diga-se de passagem, essa matemática bastante simples era geralmente produzida por aristocratas ociosos interessados em ganhar apostas em cassinos e mesas de carteado, e não por aristocratas e clérigos ociosos interessados em desvendar os mistérios do universo, como Newton ou Bayes. 


Mas justamente por ser simplória, é uma metodologia sedutora. Não exige muito esforço mental. Dependendo do caso, são contas que qualquer um faz de cabeça - afinal de contas, ninguém pode se dar ao luxo de resolver equações complexas durante uma partida de carteado.  A aplicação indiscriminada da estatística gaussiana é o que Nassim Taleb chama de "falácia lúdica", pois jogos são universos fechados, com começo, meio, fim e resultado claramente definidos. A realidade NÃO é um tabuleiro de xadrez ou um baralho com 52 cartas. A abordagem gaussiana realmente funciona para jogos (há alguns anos criei um modelo gaussiano que uso em partidas de War e funciona razoavelmente), mas jamais serviria para planejar estratégia em uma guerra de verdade. Para isso, é melhor ler Clausewitz (a obra de Sun Tzu, diga-se de passagem, é antiquada e um tanto banal, boa para executivos metidos a general de pijama). Note-se que, a rigor, jogos como xadrez ou War, por fascinantes que sejam, sequer são realmente jogos de estratégia - a rigor, são jogos de tática, segundo a classificação, ainda válida, de Clausewitz. E mesmo Clausewitz, que viveu e escreveu na virada do século XIX, já é antiquado - suas reflexões tomavam por modelo as Guerras Napoleônicas. E, como se sabe, a diferença entre tática e estratégia é que a primeira se se refere a situações em que os oponentes têm à vista as respectivas forças (ou seja, onde a totalidade ou maioria dos dados relevante é conhecida - como em um tabuleiro de xadrez), enquanto a última diz respeito a situações em que os oponentes desconhecem o conjunto das forças e recursos envolvidos, ocultos na tal "névoa da guerra", como diz Clausewitz. Mesmo em jogos de carteado, onde os adversários podem ocultar seus recursos, o número e tipo de cartas que cada um pode ter na mão é limitado e previamente conhecido pelos jogadores, constituindo assim um "desconhecido-conhecido".


Retornando à estatística gaussiana, ela se popularizou imensamente no século XIX e ainda é usada por muitos pesquisadores nas ciências biológicas, assim como em economia, administração, "negócios" etc. Vale notar que, a rigor, a metodologia gaussiana não é totalmente inválida, contanto que seja aplicada apenas a objetos de estudo e conjuntos de dados tratáveis por ela, ou seja, dados que não envolvam variação radical - como altura ou peso de indivíduos, por exemplo; nenhum pesquisador espera encontrar um indivíduo de 15 metros em uma população humana. O grande problema é que ela vem sendo usada de maneira generalizada e indiscriminada, com efeitos muitas vezes desastroso, especialmente na área econômica, onde são possíveis variações extremas - como restaurantes de bairro e grandes franquias mundiais com milhares de unidades, embora em ambos casos se opere no setor de alimentação.


Voltando à questão da duração dos casamentos, outra modelagem estatística seria no campo da "aleatoriedade mandelbrotiana", que comporta inúmeras metodologias, baseadas na "lei de potências" - ou seja, distribuição exponencial. Mandelbrot, como se sabe, é o "pai" da matemática de fractais, ligada ao campo da dita "matemática do caos".


O ideal seria usar um gráfico de colunas, mas vou usar uma imagem mais "palpável". Se em nosso hipotético país cada casamento fosse uma edificação em uma cidade, teríamos milhões de casas térreas, um pouco menos de prédios de dois andares, bem menos com três ou quatro e ainda menos com cinco andares (a tal "média" gaussiana) e então um número cada vez menor de prédios com 6 ou mais andares, talvez um milhão com dez, meio milhão com 20, e, numa queda brusca, umas poucas centenas de prédios com mais de 20 andares. Ou, para usar outra imagem, seria como uma escada com muitos degraus extremanente longos e baixos e poucos degraus curtinhos, mas extremamente altos (10, 20, 30 ou 40 vezes mais altos que os demais).


Aqui já resolvemos parte do problema. Toda média é uma abstração que não retrata fielmente a realidade. Médias são úteis para cálculos simples e grosseiros, mas falham miseravelmente quando se trata de captar a complexidade do real. Isso significa que é ABSURDO falar em "brasileiro médio", "americano médio", "evangélico médio" ou coisas assim. O "fulano médio" é uma abstração matemática. 


Não existe algo como o "professor de História médio", "o professor de humanas médio" ou o "acadêmico médio". Esse tipo de absurdo só existe na cabeça de "cientistas" políticos - como se política fosse "ciência". Ou de economistas, analistas de mercado, sociólogos e outros compradores da "falácia lúdica". Ressalto, todavia, que em todos esses campos há profissionais competentes e talentosos, muitas vezes marginalizados pelos pares, especialmente em áreas que adotam certa "ortodoxia", como é o caso da Economia.


Agora temos outro problema: escalas.


Escalas são algo completamente contraintuitivo, pois somos quase todos criaturinhas com menos de dois metros de altura num planeta cujo ponto mais alto é o Everest. Só conseguimos enxergar o Everest inteiro a muitos quilômetros de distância - aí perdemos os detalhes. Para ver os detalhes precisamos escalar o Everest (e aí não o vemos inteiro) ou usamos um bom telescópio refrator (e também perdemos de vista o Everest inteiro). Falo com conhecimento de causa, pois tenho alguma prática como astrônomo amador. 


Já tive um telescópio refrator razoável e com ele dava para ver até rochas lunares e mesmos distinguir a sombra projetada por elas. Mas há aqui dois problemas. Um deles é que a rocha é tão pequena e a lua tão grande que fica MUITO difícil saber exatamente em que ponto da lua está a rocha avistada. O outro problema é que o sujeito e o objeto estão simultaneamente em movimento. Eu, minha cadeira e meu telescópio estamos acompanhando a rotação terrestre, enquanto a rocha segue a translação lunar, ambas trajetórias a milhares de quilômetros por segundo!


Na prática de observação, o que vejo através de minha lente ocular é uma faixa de paisagem lunar desfilando por alguns minutos até que a lua suma de vista do telescópio, como se fosse uma tomada panorâmica de cinema. Mas na verdade é muito mais complicado que isso. Como sei que minha observação da lua durará pouquíssimo tempo, tenho que saber EXATAMENTE onde fica o pólo sul da esfera celestial (levei meses para descobrir: fica  cerca de 30 graus acima do telhado da casa de meu vizinho), traçar com antecedência uma estimativa da trajetória lunar, calibrar meu telescópio em um ponto específico da trajetória estimada e aguardar cerca de 15 minutos olhando para o vácuo. Se acertei na estimativa, a lua aparecerá por uns dois minutos na minha lente e  - puf! - desaparecerá dois minutos depois. Se errei, tenho que recomeçar tudo do zero. 


Parece tedioso, mas é emocionante como um safári. Fica mais fácil quando se tem um telescópio com tripé de montagem equatorial (melhor ainda com rotação automática), mas é caro. Para o astrônomo pobretão (como eu), o mais barato é um tripé zenital, que dificulta a tarefa. Não que a montagem zenital seja "pior" - ambas são boas, dependendo do que se queira observar. O ideal é ter mais de dois tripés, com montagens e mecanismos diferentes.


Voltando às escalas de observação, nossas  noções costumam ser muito toscas, pois somos algo como micróbios cósmicos, como diria Dr. Manhattan. Geralmente pensamos a diferença entre a Terra e Júpiter como algo como uma bola de futebol ao lado de uma bola de tênis - grave equívoco. A proporção mais adequada é algo como a Terra do tamanho de uma bola de gude e Júpiter como aquelas bolas gigantes do Quico. Comparado ao Sol, Júpiter é como um grão de areia ao lado da bola do Quico e a Terra seria virtualmente invisível.


Um hipotético astrônomo alienígena em Alfa Centauri, usando os mais avançados equipamentos astronômicos que temos hoje teria dificuldade para detectar, a Terra mesmo com um poderosíssimo radiotelescópio. Note-se bem, trata-se aqui de DETECTAR (não "ver") por métodos indiretos como anomalia gravitacional ou desvio de ondas, usando toneladas de cálculos astronômicos. E ainda restaria a dúvida: "isso é MESMO um planeta ou será outra coisa?"


"Observar" estatisticamente fenômenos sociais - como as inclinações políticas dos professores de História - é tão complicado quanto "caçar" a Lua com um telescópio refletor de montagem zenital. É mais como observar uma supernova ocorrida há milhares de anos com um radiotelescópio.


Primeiramente, pela escala. 18 professores de História, ou 100, ou dez mil são uma amostragem estatisticamente irrelevante. Não dá para fazer isso com uma pesquisa de opinião ou, digamos, contando quantos professores de História seguem Marcelo Freixo no Twitter, nem quantas pessoas seguem a página "Professores de História Marxistas e Militantes" no Facebook, muito menos lendo os comentários que essas pessoas postam ou números de curtidas. Todos esses dados são  qualitativamente interessantes, mas muito limitados e dificilmente pode-se extrapolar que representem fielmente as tendências políticas da maioria dos professores. Ainda estamos presos na perspectiva limitada apontada por Leibniz. Mesmo admitindo que a maioria dos professores se alinhem genericamente com posições políticas consideradas de "esquerda", é muito difícil inferir detalhes de sua adesão a esse campo político, com toda sua variação de qualidade e intensidade. Não se trata de uma população homogênea em que todos partilhem uniformemente das mesmas opiniões gerais e, muito menos, que venham a adotar atitudes idênticas diante de situações e questões específicas. Ainda que se chegasse a uma "média", como discutido antes, essa média, necessariamente abstrata, corresponderia a apenas uma parcela relativamente pequena do conjunto de pessoas reais envolvidas. A bem dizer, se pegássemos aleatoriamente algumas postagens em redes sociais, seria fácil constatar que há grande variedade e discordância entre os membros do grupo em questão.


Em segundo lugar, porque estatísticas consolidadas de fenômenos sociais macro são muito demoradas de coletar e calcular, então o resultado é sempre retrospectivo. Por exemplo, a mídia fala o tempo todo em PIB anual ou PIB trimestral, mas estes dados são apenas provisórios. O cálculo consolidado do PIB  geralmente leva cerca de 5 a 7 anos, então, quando sai, os governantes já não estão mais no poder. Mesmo o resultado consolidado não é "real", só é menos grosseiro. E o detalhe mais importante: entre a estimativa provisória divulgada na mídia e o resultado consolidado a discrepância sempre é enorme (algo na casa dos 30%) e SEMPRE para baixo. Ou seja, o PIB veiculado na mídia sempre é desviado para cima. Se parece maravilhoso é, na melhor das hipóteses, bom; se parece ruim, é péssimo - e se parece péssimo, na realidade, é o fundo do poço.


Para ter uma ideia realmente precisa acerca das inclinações políticas dos professores de História, teríamos que fazer um levantamento exaustivo - um recenseamento oficial ou algo assim. 


Como? O Ministério da Educação poderia abrir um site com um formulário declaratório. Não adiantaria para grande coisa, porque dificilmente alguém se declararia "extremista", já que todo extremista se considera sensato e moderado. O ideal seria um questionário discursivo - inviável, pois seria caríssimo e extraordinariamente demorado fazer algo assim. Restaria fazer um questionário de múltipla escolha. Mas, discursivo ou objetivo, qualquer questionário seria subjetivo - o resultado refletiria apenas os critérios previamente adotados pelos elaboradores do questionário. E, ainda assim, quando todo o trabalho de coleta e análise dos dados fosse concluído, é provável que os professores em questão já teriam mudado suas opiniões, ainda que sutilmente. Muito trabalho e dinheiro gastos para nada.


CONCLUSÃO

De um ponto de vista "empírico cético", é IMPOSSÍVEL ter certezas sobre as tendências políticas do conjunto dos professores de História, professores de humanas, dos acadêmicos de humanas ou o que o valha. O máximo que podemos ter é suspeitas, impressões e opiniões - "achismos", enfim. Mesmo uma ampla pesquisa estatística ofereceria apenas um vago retrato da realidade. Ficar discutindo isso não leva a lugar nenhum. É como um cachorro correndo atrás do rabo.


O melhor que podemos fazer é conviver com a incerteza - o que é incômodo. Como prova o sério, premiadíssimo e justamente reconhecido trabalho de Daniel Kahneman em psicologia experimental, o ser humano, mesmo com a mais refinada erudição e ampla formação acadêmica (o público estudado por Kahneman), tem imensa dificuldade em conviver com a incerteza prolongada. Temos, todos nós, gatilhos emocionais que nos induzem a escolher imediatamente as "certezas" que confirmem nossa visão de mundo, mesmo em questões triviais do cotidiano. Somos escravos de nossos hábitos. 


E a convicção costuma ser inversamente proporcional à reflexão. Nos deixamos guiar principalmente por nossas simpatias e antipatias inconscientes. O contrário disso exige um esforço prolongado de suspensão da certeza, cujo custo emocional costuma ser exasperante para a maioria de nós. No fundo, é basicamente o que Montaigne, La Boétie e Pascal já diziam séculos atrás. Traduzindo grosseiramente Pascal, "o ser humano é um graveto pensante".


Como "graveto pensante", me resigno à incerteza sobre este, como tantos outros assuntos. Minha única certeza absoluta e inegociável quanto a este mundo é que, a longo prazo, todos estaremos mortos. No que tange ao resto, tento sempre permanecer aberto a novos olhares e perspectivas, me dando ao luxo de não ter opiniões formadas sobre inúmeros assuntos.


No que concerne às estatísticas, elas constituem uma ferramenta extremamente válida para a abordagem de fenômenos sociais em escala macro - contanto que tenhamos plena consciência das limitações dessa ferramenta. Não se trata de acreditar ou deixar de acreditar em estatísticas, mas sim de compreender a natureza das diferentes metodologias e abordagens estatísticas e de sua aplicação adequada ao conjunto de dados por estudar.


Ao contrário do que pensava o Chaves do 8, nem tudo é "culpa das estatísticas"... Ou, como dizia certo matemático, os números não mentem, mas os seres humanos usam números para mentir.


Vale lembrar a piada: havia dois homens e um frango assado. Um deles comeu o frango inteiro e, depois, usando estatísticas, convenceu o outro de que ambos haviam comido meio frango...




segunda-feira, 5 de abril de 2021

Passé Composé

 Le passé, on sait bien, est composé - de mémoires, d'oublis, d'inventions, de témoignages, d'imagination. C'est pour ça que l'Histoire est plutôt un art qu'une science. L'historien est celui qui, au dialogue avec ses sources, ré-compose le passé, que le temps insiste à décomposer.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Sobre tédio, foco, estruturas, hábitos e métodos

Não creio que as sociedades e culturas humanas possuam uma "estrutura", para além de um nível meramente figurativo.

Tendo a seguir Bergson, quando qualifica o ser humano como um animal dotado do hábito de adquirir hábitos.

Com efeito, adquirimos hábitos de maneiras, no mínimo, curiosas. Após um mês na casa de minha mãe, usando o notebook dela, tenho sentido dificuldades ao utilizar o meu próprio, embora me acompanhe desde meados de 2017. Ao ligar o aparelho, meu primeiro impulso é de digitar a senha de minha mãe. Às vezes percebo o lapso no meio do caminho e corrijo a tempo, mas em outras recebo a resposta do sistema: "senha incorreta".

Não sou, decerto um estruturalista, no entanto reconheço que a análise estruturalista, em suas várias vertentes, ofereceu ao campo das humanidades valorosas contribuições - ao passo que os ditos "pós-estruturalistas" me parecem, via de regra, cronicamente perdidos em cacofônicas e pedantes reflexões, como cães correndo atrás dos próprios rabos, em estranhas misturas de niilismo e solipsismo.

Não à toa Nietzsche, padroeiro dos pós-estruturalistas encerrou seus escritos com uma carta a Jacob Burckhardt, onde afirmava que - contrariamente a seus projetos - fora impedido de tornar-se professor universitário pela necessidade de virar Deus. Logo depois foi hospitalizado em uma instituição psiquiátrica e, até onde se sabe, não escreveu mais uma linha sequer.

Em todo caso, há que se reconhecer que o mérito maior da abordagem estruturalista é seu rigor metodológico - embora, em alguns casos, tenha um que de rigor mortis.

Retornando a Bergson, me encanta notar o modo discreto, mas constante e consistente, com que figura na obra de Lévi-Strauss. Me pergunto se o autor das "Mitológicas" chegou a frequentar os cursos do célebre Nobel de Literatura no Collège de France - cronologicamente falando, é não apenas possível como muito provável.

Concluo, muito provisoriamente, que uma das grandes conquistas do projeto estruturalista foi esquadrinhar com rigoroso método, não exatamente o modo pelo qual nós, humanos, adquirimos e desenvolvemos hábitos, mas ao menos os complexos,  variados e dinâmicos fenômenos sociais e culturais que emergem de nossos hábitos desenvolvidos.

Se nos movemos em um constante "élan vital", como diria Bergson, a metodologia estruturalista ao menos foi (e ainda é) capaz de realizar um minucioso registro dos momentos que compõem esse movimento, um pouco como a câmera fotográfica, no abrir e fechar de seu obturador, consegue capturar, nos limites de seu quadro, um trecho de uma realidade mais ampla, embora sempre evanescente.

Por sinal, o próprio nome "obturador" dá o que pensar - a função da peça é ambígua: preservar o filme fotográfico de exposição à luz durante a maior parte do tempo. Um obturador permanentemente aberto só pruziria fotos "vazias" de imagens e significados. Para ser eficaz, a abertura do obturador precisa ser realizada apenas no instante correto.

Vale notar ainda que, assim como as antigas câmeras analógicas só revelavam sua "presa" muito após o clique, não é senão longas e maduras reflexões que conseguimos entender aquilo que se passou conosco ou com nossos semelhantes, em algum momento-lugar do sempre fluido espaço-tempo.

Como seres paradoxais que somos, é por paradoxos que nos conhecemos. Quando eu finalmente estiver bem afinado com a senha de meu próprio computador provavelmente cometerei lapsos com a senha do dispositivo de minha mãe. Talvez, até lá, o "obturador" de minha mente esteja funcionando melhor.

Finalizo citando uma instigante reflexão do crítico literário Colin Wilson com a qual "esbarrei" há poucas horas:

"Boredom is one of the great mysteries of psychology. It seems to be a matter of focusing, like focusing a very powerful microscope or telescope; and we are just not very good at focusing. 'Focusing' occurs in moods of serenity or of creative excitement. Its greatest enemy is the ordinary, noisy distractions of everyday reality".




quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Insegurança como virtude

Extrato de Iludidos pelo acaso, de Nassim Nicholas Taleb

Acredito que o ativo mais importante que preciso proteger e cultivar é minha arraigada insegurança intelectual. Meu lema é: "minha principal atividade é provocar aqueles que se levam a sério demais e levam o valor do seu conhecimento a sério demais". Cultivar essa insegurança no lugar de uma confiança intelectual talvez seja um objetivo estranho - e difícil de executar. Para tanto, precisamos limpar nossa mente da tradição recente de certezas intelectuais. Uma leitora que se transformou em minha correspondente me fez redescobrir Montaigne, o ensaísta francês e profissional introspectivo do século XVI. Fui absorvido pelas implicações da diferença entre Montaigne e Descartes - e por como nos desviamos procurando pelas certezas deste último. Fechamos a mente ao optar por seguir o modelo de pensamento formal de Descartes em vez da variedade vaga e informal (mas crítica) do raciocínio de Montaigne. Meio milênio depois, o gravemente introspectivo e inseguro Montaigne ainda figura como firme exemplo para o pensador moderno. Ademais, ele apresentava uma coragem excepcional: sem dúvida é preciso ter coragem para permanecer cético; é necessária uma coragem desmedida para ser introspectivo, para enfrentar a si mesmo, para aceitar as próprias limitações - os cientistas encontram cada vez mais evidências de que somos especificamente projetados pela mãe natureza para nos enganarmos.


quarta-feira, 20 de maio de 2020

A NASA realmente descobriu um "universo paralelo"?!

Nos últimos dias viralizou a notícia de que o físico Peter Gorham, da Universidade do Havaí, teria descoberto evidências da existência  de um "universo paralelo" através do experimento ANITA (Antarctic Impulsive Transient Antenna), conduzido na Antártida empregando um balão com equipamentos de radioastronomia.

O assunto vem sendo veiculado em matérias mal redigidas, confusas e sensacionalistas, típicas de jornalismo "científico". Fui pesquisar melhor sobre o assunto, inclusive no site da própria universidade.

Pelo que pude entender e inferir, como leigo curioso, na verdade teria algo a ver com o Teorema de Göddel (que vem recebendo tímidas e ambíguas corroborações empíricas desde os anos 90) - basicamente supondo que o que convencionamos chamar "tempo" seria reversível para partículas subatômicas (como um fenômeno natural e frequente, acontecendo o tempo inteiro).

A notícia parece remeter também a uma discussão recente no campo da cosmologia. A astrofísica sempre trabalhou com a premissa de que o universo seria homogêneo e isotrópico, mas hipóteses e dados recentes sugerem que não só essa premissa é arbitrária como é possível, quiçá provável, que o universo seja heterogêneo e anisotrópico e que a física tal qual a conhecemos nesse cantinho do cosmos talvez não se aplique a todo o universo observável - com muita ênfase na complexa noção de "universo observável", que remete tanto às capacidades quanto às limitações das tecnologias de pesquisa atualmente disponíveis.

Alguns desses paradoxos supostamente obrigariam a uma profunda revisão do corrente modelo-padrão da física e dos dados empíricos coletados ao longo do século XX. O "cenário Big Bang", por sinal, está em vias de cair. Em suma, estamos (ou talvez não) às portas de uma nova revolução copernicana - o que é fascinante.

As menções a "universos paralelos" só figuram na imprensa leiga, remetendo sempre a uma breve e confusa reportagem de 8 de abril do magazine New Scientist (semelhante à brasileira Superinteressante). Ao que tudo indica, o assunto começou a reverberar do nada na imprensa indiana nos últimos dias e viralizou mundo afora.

De concreto, só há sinais de rádio inesperados, que podem ser indícios de um tipo de partículas nunca detectado antes - o que já é, por si, suficientemente instigante. Daí a universos paralelos vai um abismo.

Me lembra o próprio Edwin Hubble, que nunca endossou a teoria do Big Bang, embora originalmente fundamentada em observações dele. Cauteloso, ele sempre enfatizou: "a única coisa que detectei foram desvios para o vermelho".

A pesquisa científica de ponta hoje envolve grandes projetos, com experimentos caríssimos, grandes equipes transdisciplinares e, por vezes, muitos anos de análise meticulosa de dados coletados em um único experimento - mas para o grande público ainda prevalece a imagem do gênio solitário gritando "Eureka!" em seu laboratório

A grande verdade é que somos formiguinhas tentando copreender coisas que nos ultrapassam imensamente.

Para piorar, temos uma educação científica pífia, com pouca ênfase nos complexos aspectos metodológicos da pesquisa, um público ávido por sensacionalismo e mal preparado para digerir esse tipo de informação e uma cobertura jornalística igualmente rasteira.

Não espanta que em plena pandemia se veja gente tão mal informada, acreditando em mil boatos e panaceias.

Entre outras coisas, o COVID-19 veio nos lembrar que Educação científica e jornalismo de qualidade não são luxos, mas questões, literalmente, de vida ou morte.

Finalizo citando a milenar sabedoria do Tao Te Ching:

"Quanto mais falamos no universo,
Menos o compreendemos.
O melhor é auscultá-lo em silêncio".

Ou ainda, como teria dito Sócrates:

"Tudo que sei é que nada sei".

Balão empregado no experimento ANITA.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Viral

"Repetirei o seguinte até ficar rouco: o que determina o destino de uma teoria na ciência social é o contágio, não sua validade".
Nassim Nicholas Taleb


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Transformação

Não existe transformação que não seja uma emergência, uma atualização de potências. Nesse sentido, toda transformação é também eliminação de possibilidades, ou ao menos alteração de probabilidades. As transformações mais intensas seriam aquelas que alterassem mais profunda e extensamente a ordem das probabilidades. Talvez haja aí um caminho promissor para se pensar as sempre escorregadias relações entre evento e estrutura.


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Estudo e vida

Na trajetória de um verdadeiro intelectual os estudos mudam o curso da vida, tanto quanto a própria vida altera o direcionamento dos estudos. Não poderia ser diferente. Quando nada disso acontece, é grande o risco de que o intelectual se transforme em mera caricatura de si mesmo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Um dos grandes problemas na redação de projetos acadêmicos é que, muitas vezes, para alguns pareceristas, uma mentira elaborada parece preferível a uma verdade simples - o que evidentemente oferece vantagens aos mentirosos...

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O maior problema da auto-intitulada "intelectualidade periférica" é que muitas vezes ela é mais intelectualidade que periférica.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Verdade, mentira e método

Poucos métodos conduzem à verdade, mas não se alcança (ou inventa) nenhuma espécie de verdade, por trivial que seja, sem algum tipo de método. Até para inventar mentiras menos grosseiras é necessário algum método, como já sabiam os sofistas.


segunda-feira, 18 de março de 2019

Olavo, o Sofista

Outro dia assisti uma entrevista feita com Olavo de Carvalho há mais de 20 anos. Fiquei impressionado: em míseros nove minutos ele consegue falar três absurdos sobre Linguística, Antropologia e História. O problema é que para refutar de maneira fundamentada, sem carteirada acadêmica, esses três absurdos que ele  solta tão facilmente em nove minutos, qualquer espevialista levaria pelo menos uma hora. Enfim, é um debate inviável. Nem Sócrates teria tamanha paciência. O pior de tudo é que ele fala as asneiras dele com tamanha pompa e assertividade que deslumbra qualquer leigo. Não espanta que tanta gente o tenha na conta de grande erudito - é um sofista que faria inveja ao próprio Górgias...

terça-feira, 12 de março de 2019

Fina ironia

Em minhas andanças pela internet acabei de esbarrar num artigo de opinião de 2015, no qual um jurista simpático ao PT, com ares de grande certeza, avaliava como quase impossível o impeachment de Dilma. Me lembrou de outro texto da mesma época onde um confiante jornalista sugeria que Dilma, sagaz estrategista política, estava prestes a alcançar um brilhante xeque-mate. Que irônico. A vida está sempre aí para frustar expectativas e previsões.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A mais poderosa invenção

Existirá invenção humana mais poderosa que o ponto de interrogação? A ínfima partícula textual pode conter mais energia que qualquer núcleo atômico. Uma bomba atômica pode destruir cidades, mas um ponto de interrogação é capaz de destruir universos inteiros. É porta aberta aos mais inusitados caminhos. É semente de inquietação, cujos ramos podem conduzir aos mais inesperados frutos. Haverá mortal capaz de manusear força tão tremenda?


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Pense na sua linguagem

Pense na sua linguagem, antes que ela pense por você.

A linguagem pode libertar ou aprisionar.

Malcuidada, descuidada, desatenta, repetitiva, a linguagem cai na rotina e se torna um espesso véu entre nós e a realidade. Frases feitas e palavras retumbantes são verdadeiras armadilhas. É muito fácil repeti-los, mas pode ser muito difícil caminhar para além deles, explorar novos horizontes.

Você se questiona sobre os múltiplos significados das palavras que usa?

Você costuma usar palavras cujo significado não domina plenamente?

Você se intimida com palavras "difíceis"?

Você tem hábito de consultar dicionários?

Você usa neologismos sem questionar se eles são realmente necessários ou meros modismos?

Você tem hábitos sólidos de leitura?

Você reflete profundamente sobre os slogans que ouve por aí e anda repetindo?

Você usa frases de efeito em demasia?

Você acha que questões extremamente complexas podem ser resolvidas com respostas excessivamente simples?

Você presta atenção aos valores implícitos nos adjetivos e advérbios que lê?

Você se deixa levar por linguagem exagerada?

Você procura diferenciar emoções de argumentos?

Você tenta distinguir informações de opiniões?

Você costuma comparar e ponderar argumentos?

Você gosta de usar termos agressivos?

Você presta mais atenção ao tom de voz das pessoas que ao conteúdo de suas falas?

Você tenta esclarecer calmamente suas dúvidas ou passa correndo por elas?

Você reflete suficientemente antes de falar ou escrever alguma coisa?

Você se preocupa em expor suas ideias com clareza?

Você aceita ou repete informações novas sem verificar sua procedência?

Você busca formular perguntas pertinentes sobre os assuntos que discute?


Quem não pensa criticamente sobre a linguagem que usa, engole pensamentos requentados ou vomita ideias mal digeridas. Pensa que pensa, sem verdadeiramente pensar.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Pensamentos datados

O fato de uma reflexão ser datada não a torna necessariamente irrelevante; tampouco significa que ela esteja além de qualquer renovação ou atualização. O "defeito" de algumas obras "datadas" muitas vezes se encontra mais na falta de imaginação do leitor que nas limitações do autor.

Como bem sabiam os românticos piratas, tudo é uma questão de "abordagem" - e também de não abandonar prematuramente o navio. Muitos naufrágios podem ser evitados com diligente esforço da tripulação - e quantas reflexões interessantes afundam por falta de esforço... Quanto tempo se perde requentando problemas e reinventando a roda!

Tudo parece datado para os apressados; tudo é velho demais para os apaixonados por modismos. A boa produção intelectual não é trabalho de afobados.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O mundo "como ele é"...?!

O designer japonês Hajime Narukawa foi recentemente premiado por elaborar uma engenhosa e inovadora projeção cartográfica, que preserva com elegância as proporções entre as superfícies de oceanos e continentes.

Desenvolver qualquer projeção cartográfica original, especialmente depois de tantos séculos de experimentos é uma gigantesca proeza criativa e técnica. Palmas para Hajime Narukawa! Muitas palmas!!!

No entanto, como vivemos num mundo sensacionalista, diversos meios de comunicação divulgaram o mapa como uma imagem "real" do mundo. Algumas mídias, inclusive, deram conotação política à notícia.

Convém, todavia, lembrar que NENHUM mapa representa o mundo "como realmente é". Nosso planeta é aproximadamente esférico, e é impossível retratá-lo de modo absolutamente fiel numa superfície plana. Assim sendo, TODO mapa (inclusive esse, obviamente) é uma projeção; toda projeção cartográfica implica alguma escolha: certas informações são deformadas, para que outras sejam preservadas. Sempre há algum ganho e alguma perda. Lost in mapping: todo cartógrafo, assim como todo tradutor, é um traidor...

Resumindo: existem inúmeras projeções, e todas elas são "verdadeiras" em algum sentido, mas nenhuma delas é 100% verdadeira... A "tradicional" projeção de Mercator é apenas um artifício matemático, que pode ser empregado de diversas maneiras (inclusive botando a Europa num cantinho ou na parte "de baixo", conforme o gosto do freguês) - NÃO é uma projeção hegemônica-eurocêntrica-capitalista-do-mal... ok?!