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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Amostra da decadência educacional brasileira

o pele era o manho gogado de futebol do mudo o pele e o gogado que feis mas gol do mudo que teve mas bola de ouro do mudo que teve copa do mudo que e o manho gogado do universo e o pele gogava do santos foi o manho gogado do santo e do futebol a istora do pele e muito triste ele foi a istora mas triste do futebol o pele gogava muto ben bola ele era a lheda do futebol e ele gogava de caso na rua de baro dele ele gogava de caso com os amigos ali na rua deles ele amisava

"Seria melhor ver o filme do Pelé"...



terça-feira, 3 de outubro de 2023

Guarani Taradão - Literatura pelo método confuso

-O Guarani era taradão, né, Professor?

-O Guarani...?!

-O professor de Literatura é que disse; o Guarani só pensava em sexo!

- Será que você não está falando do Macunaíma, de Mário de Andrade?

-Ah, é! Acho que era esse aí...

Errou o índio, mas pelo menos estava atento à aula de Literatura...

"Ceci n'est pas Peri".





sábado, 17 de junho de 2023

"One measure of a civilised society is the freedom and cheapness with which it encourages ideas to be communicated"

Ian McKellen

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Escola em disputa

Reflexão certeira do Prof. Vinicius Borges

Esquerda e direita no Brasil estão se especializando em usar a escola como um "campo de luta" onde tudo é mais importante do que a escola e os que nela trabalham e estudam.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Demonologia escolar

Ontem passei por uma das situações mais insólitas de minha carreira docente: uma turma de sexto ano tendo um ataque histérico por medo do Diabo!

Um dos alunos (que, como soube depois, se encontra em avaliação psiquiátrica) teve uma rusga com um colega de comportamento "exuberante", que volta e meia se envolve em confusões com os colegas. Chamei os dois para  conversar fora de sala de aula e achei que a situação estivesse resolvida; ledo engano. 

Retornando à sala, o menino que se encontra em avaliação médica se pôs a escrivinhar no caderno. Subitamente se iniciou um tumulto em torno da carteira do rapaz, cercado por vários colegas apavorados - ele escrevia os nomes de diversos deles e desenhava "símbolos do Diabo". Vários alunos gritavam que iriam morrer, outros tentavam ver se seus nomes haviam sido registrados no "caderno diabólico". Eu tentava, em vão, acalmar os ânimos. 

O menino "endiabrado" começou a fazer cruzes com os dedos, que brandia na direção dos colegas, enquanto declamava em tom monocórdico "Fulano vai morrer... Beltrano vai morrer..." Os colegas em pânico me pediam para fazer alguma coisa (e tenho cara de exorcista?), enquanto eu tentava segurar o riso diante diante de tanta sandice - sem muito sucesso, temo dizer. 

Saí em busca da coordenadora pedagógica, que retirou o aluno do meio do tumulto e me explicou que o mesmo se encontra em tratamento médico. Aproveitando o ensejo, tentei conversar com a turma, pedindo que fossem compreensivos com o colega - em vão: estavam todos amedrontados e revoltados. Pedi a eles que se acalmassem, afirmando que o caderno do colega era apenas um caderno e nada aconteceria com eles. Resvalando no terreno teológico, cometi o deslize de dizer que "o Diabo nem existe", no que fui calorosamente refutado por diversos estudantes. Um deles chegou a argumentar que, em se cavando muito fundo, há de se sentir a "quentura" do Inferno - um argumento com base empírica, portanto... Outro insistia sobre a eficácia da "macumba" do colega, que poderia, sim, levá-los à morte! Como já se fazia tarde, liberei a turma com o compromisso, não muito sólido, de deixar em paz o colega. 

Como se não bastasse, após a saída, a coordenadora e eu conversamos com a mãe do estudante "encapetado", que fora buscá-lo e aos irmãos. A responsável se mostrou muito solícita e nos explicou sobre os problemas de ansiedade do menino. Ficou também esclarecido que o "caderno satânico" era inspirado na animação japonesa "Death Note", cuja trama gira em torno de um caderno sobrenatural que provoca a morte de todos que tiverem seus nomes registrados naquelas páginas.

O "causo" dá o que pensar. 

A situação me fez imediatamente pensar no quanto o discurso "demonológico" de figuras como a atual senadora Damares Alves encontra profunda ressonância na cultura popular brasileira, lembrando que os séculos passam, mas o Diabo ainda faz a festa na Terra de Santa Cruz - com todos os desdobramentos sociais e políticos que isso ocasiona. A recente moda dos padres exorcistas que arrastam multidões para igrejas parece bem menos espantosa quando se percebe o quanto a figura do Diabo e sua capacidade de provocar malefícios permanecem, ainda e sempre, presentes como forças aterradoras capazes de induzir pânico mesmo em estudantes cariocas que vivem em áreas conflagradas.

Por outro lado, fica também patente a vitalidade do Diabo no imaginário ocidental, capaz de encarnar tanto o Mal para os cristãos como de incorporar o medo da "macumba" afro-brasileira, salpicado ainda pela cultura pop nipônica. Como salientava o historiador Robert Muchembled, o Diabo é figura que atravessa os séculos sofrendo inúmeras metamorfoses, sempre atual porque sempre cambiante, remetendo à figura jocosa, espalhafatosa e compósita do arcano do Diabo no Tarot de Marselha. Sempre híbrido, isto-e-também-aquilo, o Diabo evoca um jogo de ecos e reflexos entre diferentes épocas, lugares e culturas - mesmo a animação "Death Note" nos devolve um imaginário diabólico cristão reinventado através do encontro com a cultura japonesa.

Not least, os acontecimentos deixam a certeza de que "jamais fomos modernos", como provoca Bruno Latour. O projeto da modernidade iluminista de uma sociedade pautada pela razão vitoriosa sobre as trevas da superstição permanece obra fadada à incompletude. Que diria Voltaire ao constatar que o Diabo ainda faz tremer jovens do século XXI, apesar de seus smartphones e tantas outras bugigangas proporcionadas pela Revolução Industrial?

Não há inteligência artificial que algo assim...

O Diabo é Pop: Klarion, o Menino Bruxo e o demônio Etrigan em episódio da saudosa série animada de Batman, no fim dos anos 90


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Professor, o que é personalidade?"

Encerro perplexo o dia de hoje.

Venho trabalhando imaginário e mitologia com minhas turmas de 6° e 7°ano e propus uma atividade para que meus alunos criem um monstro e um herói, orientados por uma ficha, visando a posterior elaboração de uma narrativa ficcional. 

A pergunta que mais ouvi ao longo do dia foi: "Professor, o que é personalidade?" 

Encontrei extrema dificuldade para me fazer entender por alguns estudantes. Não conseguiam perceber a diferença entre uma característica física, como "forte" e outra de ordem psíquica, como "corajoso". A maneira que melhor encontrei para tornar a diferença mais inteligível foi opondo "características do corpo" a "características do coração ou da alma".  Alguns pareciam confusos com a própria definição de "característica". 

Em dezesseis anos de magistério já vi muita coisa espantosa, mas o episódio de hoje me pareceu particularmente perturbador. 

Me pergunto quanto deve ser difícil para um ser humano conquistar o mínimo de autoconhecimento, de capacidade de reflexão sobre si mesmo e sua vida, sem dominar palavras e noções tão essenciais para isso, como "personalidade" ou "característica". 

Me parece extraodinariamente difícil avaliar o impacto de semelhante empobrecimento de vocabulário não apenas sobre os estudantes propriamente ditos, mas também sobre o ambiente social em que vivem. Soa como algo quase orwelliano.

Nos últimos meses o mundo vem se mostrando perplexo com o chatbot ChatGPT, capaz de gerar textos complexos (embora superficiais) cosendo retalhos textuais extraídos de sua imensa base de dados.

É inquietante viver em uma época em que máquinas absolutamente inconscientes sejam capazes de "redigir" textos por inteligência artificial (simulacro que sempre tem muito mais artifício que inteligência) e, ao mesmo tempo, jovens humanos mostrem tamanha dificuldade para compreender palavras e noções não apenas corriqueiras, mas imprescindíveis ao desenvolvimento de suas consciências, em suas múltiplas dimensões. Alienados de ferramentas cognitivas tão poderosas, se alienam de si mesmos e, consequentemente, do mundo. 

Mais espanto que os avanços da inteligência artificial deveriam causar as graves perdas culturais coletivas, que minam nossa capacidade de expressão, comunicação e convívio. 

Um dos grandes desafios de nossa época, mais que nunca, parece ser o de reconhecer, resgatar e cultivar nossa maravilhosa capacidade de nos fazermos plenamente humanos. Nesse tempo em  que as máquinas parecem permear tantos aspectos da experiência humana, os apelos de Erasmo de Roterdã e Pico Della Mirandola se mostram não apenas atuais, mas urgentíssimos. Precisamos humanizar nosso presente, para que o futuro valha a pena ser vivido; para que não nos tornemos pessoas controladas por máquinas controladas por outras pessoas, como diria Frank Herbert - pois é exatamente disso que se trata. 

Dentro de cada um de nós dorme um potencial tremendo; que não nos faltem a sabedoria e a coragem para desperta-lo.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Brazil - Um século não é quase nada

Hoje (pois ainda não dormi) minha mãe completou setenta anos. Em outubro completo quarenta; a prima que vi nascer completa vinte e oito no dia seguinte - e a mãe dela, que me viu nascer, faz cinquenta e cinco ainda esse ano. Minha filha, que está por nascer, tem trinta e duas semanas. O tempo passa. O tempo espanta.

Sete décadas viveu minha mãe - mais de meio século. Nasceu no ano da coroação da Rainha Elizabeth, que meu avô assistiu; menos de oito anos antes acabara a maior guerra da história da espécie humana. Tinha pouco mais de um ano quando Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História.

A bomba atômica era novidade quando minha mãe nasceu; caneta esferográfica, nem pensar. Missa, só em Latim - língua que nunca parece suficientemente morta; minha turma foi a última a aprender Latim no Colégio Pedro II - para provável desgosto do erudito imperador do Brazil. Roma é a "cidade eterna", ainda que talvez discorde Agostinho; há sempre alguém que vem, vê e vence - por bárbaro que seja. Gaulês, romano, germânico, ianque ou brasileiro, há sempre algum bárbaro de plantão para assediar o Capitólio ou vandalizar o Fórum, em Roma, Washington ou Brasília - por Tutatis, Júpiter e Mamon! Quebram até o relógio de Dom João VI, para que o tempo não avance - e pur si muove...

Minha mãe pegava o bonde para ir à escola e foi a primeira neta de um lusitano seminalfabeto a cursar graduação; minha avó catava carvão na linha do trem e parou de estudar aos dez anos por obra e graça da pobreza, da necessidade e da paterna ignorância - "filha de pobre não precisa estudar". Meu bisavô, entre muitos outros ofícios de uma vida errante, foi condutor de bonde - viera de Portugal com apenas onze anos de idade fugindo da pobreza. A mãe de meu avô, por outro lado, nascida dois meses antes do massacre de Canudos, estudou em internato de freiras francesas e morreu escrevendo "Brazil com Z" por pura teimosia. 

A avó materna de minha filha, dura feito mandacaru, passou fome na infância piauiense e matou de tudo um pouco, de cobra a gavião. Seu marido, meu sogro, nasceu índio no sertão baiano, mas foi criado em Padre Miguel - vendeu laranja, empurrou carro alegórico e aturou sargento em quartel; visitava o padrasto tuberculoso em serrano sanatório, quando ainda engatinhavam os antibióticos. Minha mãe nasceu e cresceu em Quintino Bocaiúva - bairro onde, reza a lenda, Carlos Gardel e um tupinambá borgianamente baixavam em terreiro para executar um tango suburbano. O Brazil realmente é coisa de Outro Mundo - um verdadeiro "samba do crioulo doido", como dizia Stanislaw!

O bisneto do mal letrado lusitano e da afrancesada catarinense é doutor, mas leciona para estudantes assutadoramente pobres, que não catam carvão, mas catam lixo - pobreza é coisa que não sai de moda nesse mundo. Minha filha não há de passar fome como a avó, mas há muita criança que ainda passa. O bonde do progresso, em seus tortuosos trilhos, parece sempre atrasado para alguém.  "No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é", como sustenta o catedrático da Quinta da Boa Vista.

Minha filha vem aí, mistura desses Brazis, quase uma alegoria digna de Alencar - podia bem se chamar Iracema - mas que esperar da neta de um índio vascaíno que empurrava carro alegórico? Pega o bonde andando, como todos nós, aqui agarrados ao balaústre, entre a Vida e a História.

Minha mãe fez setenta anos. Ainda ontem era criança. Ainda ontem éramos todos crianças; um século não é quase nada.



quarta-feira, 16 de novembro de 2022

"O público adota as Fábricas como lar" - Entrevista com Wesley Nunes

Há mais de uma década em funcionamento, o programa "Fábricas de Cultura", mantido pelo governo de São Paulo oferece atividades culturais variadas em diversos pontos do Estado. Wesley Nunes, que trabalha na Fábrica de Cultura de Vila Curuçá, nos conta um pouco mais sobre essa bem sucedida iniciativa.

Como funcionam as Fábricas de Cultura?

As Fábricas de Cultura são administradas pela Organização Social Catavento Cultural e Educacional e funcionam a partir de uma política pública do Estado de São Paulo. Elas estão localizadas em pontos estratégicos das periferias de São Paulo - há uma em São Bernardo do Campo e recentemente foi inaugurada outra na cidade de Santos. Este ambiente fornece cursos voltados para a formação artística - entre eles posso citar Balé, Street Dance, Circo, Capoeira, Violão, Violino, Percussão e muitos outros. O maior foco é para crianças e adolescentes, entretanto, há cursos para adultos e para o pessoal da terceira idade. Não há custo nenhum de mensalidade, nem de matrícula. Além disso, são fornecidos instrumentos para os aprendizes e um lanche. As aulas duram três horas e são realizadas duas vezes por semana para as crianças e adolescentes; há aulas em um número menor direcionadas ao público adulto no período noturno e aos sábados. O espaço também dispõe de biblioteca, teatro e promove diversos eventos. Ao pensar na Fábrica de Cultura penso em um grande polo cultural de ensino. E não posso deixar de mencionar que as Fábricas estão passando por um processo de atualização e irão fornecer cada vez mais cursos nas áreas de tecnologia.

Como você avalia o impacto das Fábricas de Cultura na vida do público participante? Você poderia citar algum caso que marcou você, nesse sentido?

O público adota as Fábricas como lar. Converso com os funcionários mais antigos da casa e a frase que mais ouço é "Eu vi essa menina e esse menino crescerem". Há o ensino das artes e o envolvimento cultural através de atividades realizadas na biblioteca e pelos ateliês de ensino e isso é maravilhoso. Porém, tenho que destacar o impacto social e a construção da cidadania. Os alunos fazem amizades, desenvolvem a empatia e passam a possuir um olhar diferenciado sobre a sociedade que os cerca. Converso com os aprendizes e é incrível como eles possuem uma visão aberta. Eles enxergam o bairro ao redor deles, mas também a cidade e o país como um todo. Até os sonhos deles são grandes. Vejo que a Fábrica de Cultura conseguiu se inserir nas periferias e demonstrar que mudanças e uma vida melhor são possíveis.

Todo dia tem um caso marcante. Já ouvi criança de oito anos com um brilho nos olhos dizendo que quer ser advogada e pedindo livros; um garoto tocando como um profissional e com os trejeitos de um guitarrista; uma garotinha com uma necessidade especial feliz por poder jogar capoeira; um aprendiz que saiu da fábrica e hoje se apresenta na Europa; as mães e pais orgulhosos ao ver uma apresentação; um garoto interessado no Balé, meninas querendo jogar xadrez e os abraços de aprendizes que não tem medo de demonstrar amor e acabam encontrando um belo caminho para serem felizes. Tudo isso é marcante.

Qual é a sua história com o programa? O que significa, para você, trabalhar na Fábrica de Cultura?        

Antes de trabalhar na Fábrica a minha relação era de expectador. Ao começar, a minha vida mudou. Sou muito grato por poder fornecer educação, reflexão e entretenimento para as pessoas. Como em qualquer trabalho, existem não só os números como também as metas. Elas são alcançadas junto com a satisfação de ver vidas sendo mudadas. Perco a conta das crianças que entram só para usar o computador e um tempo depois fazem amizades, se interessam pelos cursos, pegam livros emprestados e... elas simplesmente se soltam. Nada mais recompensador que ver pessoas leves e livres. Até mesmo eu sinto-me assim. Perdi muito da minha timidez, conheci novas artes e, principalmente, vejo esperança. Estive muito tempo esperando uma grande revolução gerada a partir de redes sociais. Hoje, ao ver a mudança florescer aos poucos no mundo real, sinto-me feliz com o meu andamento profissional e pessoal - lidar com esperança me deixou mais leve para lidar comigo mesmo e com os outros.

Na sua opinião, que lições o programa pode oferecer para se pensar as políticas públicas de Cultura no Brasil? Que contribuição iniciativas como as "Fábricas de Cultura" podem oferecer não apenas a seu público alvo, mas à sociedade brasileira, como um todo?

Primeiramente, o programa já quebra muitos estereótipos de que o brasileiro não gosta de arte; de que na periferia nada vai para frente e de que o brasileiro não tem jeito. A Fábrica de Cultura forma cidadãos que estão interessados em atuar na sociedade, ter uma profissão e exigir direitos enquanto tem a plena noção de quais são os seus deveres. É um local perfeito para complementar os estudos da escola. Aliás, vendo a Fábrica atuar, eu penso em como a escola pode ser diferente. Arte deve ser parte importante na formação do jovem: estimula a empatia, ensina sobre responsabilidade e melhora a interpretação da realidade a sua volta.

Acredito que a Fábrica como um todo pode ensinar a importância da arte na formação do jovem, do adulto e do idoso. Também pode ensinar sobre empatia; acreditar em sonhos e a não só respeitar como também exigir melhorias no bairro, na cidade e no país. Um local que acolhe, ensina e diverte provoca apego. Tendo essa relação estabelecida, o cuidado para com ele será consequência. Sonho que este apego seja multiplicado para as escolas, hospitais, tribunais, transporte público e outros setores vitais para a sociedade.

Agradeço por me dar a oportunidade de falar de um local que gosto tanto!





sexta-feira, 11 de novembro de 2022

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Pobre gente rica

"Quem nasce na elite brasileira só tem dinheiro; e quem só tem isso vive na mais pavorosa miséria".

Rodrigo Watzl

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Instrução e alienação

Gente instruída também cultiva suas próprias ilusões. Em um país como o nosso, a instrução pode ser inclusive uma forma de alienação, à medida que nos afasta do modo de pensar do povão menos letrado.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

"Imbrochável" - O imaginário sociopolítico brasileiro

7 de setembro de 2022, Abolição, Rio de Janeiro, cerca de 23 horas.

No boteco de minha esquina, um cidadão entusiasmado berra: "Hoje é dia de Flamengo e Bolsonaro"! Não era exatamente o brado retumbante que eu esperaria ouvir no bicentenário da Independência.

***

Lá se vão mais de vinte anos, a empregada de minha avó relatava, encantada e vivamente emocionada, o encontro com o prefeito de seu município na Baixada Fluminense: "Imagina, Dona Nair, uma pessoa importante apertando a mão de uma pessoa como eu"! 

Ficava ali evidente a noção de que ela não era uma pessoa importante - não se via no mesmo patamar existencial que o prefeito; já era muito que ele mantivesse algum contato físico com uma pessoa "como ela": doméstica, analfabeta, retirante, moradora de um bairro periférico. Seu encantamento revelava tanto uma visão autodepreciativa quanto uma surpresa imensa com o extra-ordinário fato de que, por um breve instante, uma "pessoa importante" a tivesse tocado, rompendo (mas não muito) uma barreira social.

Por volta da mesma época, ela era fiel eleitora da Família Garotinho. Em certa ocasião, comentava que valia a pena votar para ver "um casal tão bonito" como Rosinha e Garotinho. Àquele casamento idealizado evidentemente se contrapunha sua própria relação com um marido alcoólatra, que não trabalhava e maltratava os enteados. Votar era um modo de participar, de alguma maneira incompreensível, quase mística, da aparente felicidade conjugal daquelas "pessoas importantes".

Nessa vivência profundamente afetiva da política se articulavam mecanismos de projeção, intensificados pela precariedade da vida e pela autodepreciação, em uma sociedade em que historicamente, sempre se esperou que cada um soubesse se colocar "em seu devido lugar", em um país cuja Independência mantivera a escravidão e forjara um Império cujo monarca era o próprio sucessor da coroa lusitana, onde é necessário que as coisas mudem para que se mantenham as mesmas.

***

7 de setembro de 2022, Brasília, manhã.

Perante uma multidão, o Presidente da República, homem cristão, defensor da família, da moral e dos bons costumes ora, agradecendo a Deus por ter lhe concedido uma "segunda vida". No meio da oração, um pequeno coro começa a gritar algo um tanto inadequado para um momento de louvor e adoração: "Imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!"

Longe de ignorar essa espúria manifestação popular, o dito presidente cristão interrompe a oração para, sorridente, puxar ele mesmo, ao microfone, o coro: "Imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!", sem grande adesão da multidão ali reunida, talvez consternada. Sem hesitar, o presidente retoma sua oração.

Me ponho a imaginar uma criancinha ali presente perguntado para a encabulada genitora: "Mamãe, o que é 'imbrochável'?"

Tudo isso na Pátria Amada em que a família e a moral se encontram ameaçadas por uma esquerda endemoninhada, que planeja sexualizar as crianças e distribui "kit gay" e mamadeiras eróticas nas escolas...

"Brasil acima de tudo. Deus acima de todos". Amém.

***

"Imbrochável, imorrível e incomível", já se declarou inúmeras vezes o presidente, como parte de uma infindável litania marcada por certo ideal de virilidade, celebrando o arqui-macho brasileiro, herdeiro do lusitano "furor femeeiro", como diria Gilberto Freyre. Bolsonaro, afinal de contas, é o homem das armas e bravatas, com sua infatigável "arminha", gesticulação eleitoral cujo teor fálico parece difícil negar. Assim como a empregada de minha avó se projetava no casamento de Rosinha, é mais que provável que milhares de machões deste Brasil Varonil se projetem no Presidente Imbrochável com sua obsessão armamentista. Como sarcasticamente cantavam os Beatles, "happinness is a warm gun".

"Imbrochável" é o presidente que faz questão de ostentar sua esposa-troféu, muitos anos mais jovem. Mais que troféu, no entanto, Michelle Bolsonaro tem sido usada como trunfo eleitoral, em uma campanha que visa arrebanhar o eleitorado evangélico feminino. A "varoa" recatada que ora pelo marido em sua cruzada contra o Mal. Bolsonaro, pai do jovem que "pegou metade do condomínio" tenta ao mesmo tempo se vender como varão cristão e garanhão "imbrochável" para diferentes parcelas do eleitorado, por mais contraditório e contraintuitivo que isso possa parecer.

Nesse país onde tudo é possível, o defensor da "família tradicional brasileira" acumula casamentos e divórcios mais que litigiosos, marcados por escândalos públicos; como deputado federal, declarava empregar o auxílio-moradia "para comer gente".

"Deus, Pátria e Família". Não espanta que a Ditadura Militar também tenha sido a era áurea da pornochanchada brasileira.

***

"Jair, o Imbrochável" é também, não esqueçamos, o "incomível", para não deixar dúvidas quanto a sua heterossexualidade. Poucas coisas parecem abalar o clã Bolsonaro mais que dúvidas sobre sua masculinidade. 

Não espanta tal necessidade de se afirmar "incomível" por parte de alguém que sai do sério ao ser chamado de "Tchutchuca do Centrão"!

Espantoso, todavia, é o modo como "Jair, o Incomível" inúmeras vezes recorre a metáforas de teor homoerótico para descrever seus relacionamentos políticos - namoro, "casamento hetero" e por aí vai. 

Not least, vale lembrar a pitoresca fala do "Incomível" ao ex-galã pornô Alexandre Frota pouco antes de sua ruptura política: "Fecha essa matraca, puta que pariu, eu quero continuar transando com você".

Freud explica.

***
Comemorações, especialmente em datas redondas, costumam ser momentos interessantes para se promover a reflexão coletiva sobre aquilo que se comemora. Constituem oportunidades para repensar nosso passado, com suas contradições, e pensar o futuro, com seus desafios. Nesse sentido, as comemorações do Bicentenário da Independência foram um fracasso lastimável.

Apenas a título comparativo, as comemorações do Bicentenário da Revolução Francesa em 1989 começaram a ser preparadas com seis anos de antecedência, marcados por instigantes debates públicos acerca do legado da Revolução para o povo francês. O que tivemos aqui foi um improviso histriônico, muito revelador da sociedade que somos e, mais ainda, do momento que vivemos.

Seria tentador citar Charles de Gaule e dizer que "o Brasil não é um país sério", mas a triste verdade é que já fizemos melhor em outras ocasiões, como os 500 anos do "descobrimento" do Brasil e os duzentos anos da vinda da Família Real, ambas ocasiões marcadas pela organização de grandes exposições, eventos acadêmicos e publicação de livros. A indigência com que comemoramos o Bicentenário da Independência diz muito mais sobre o contexto que vivemos, marcado por uma polarização política enlouquecedora e pela negligência quase criminosa do atual governo em relação a tudo que diz respeito a políticas públicas na área de cultura (para dizer o mínimo).

O "Imbrochável" se apropriou descaradamente da ocasião para fazer campanha eleitoral. Começou o dia com os pífios eventos em Brasília e terminou no Maracanã, assistindo ao jogo do Flamengo pela Taça Libertadores da América, em outro gesto eleitoreiro. No fim das contas, tudo pareceu seguir a cartilha salazarista dos 3 Fs: "Futebol, Fado e Fátima".

Nesse sentido, o grito no boteco da minha esquina estava mais que certo: ontem foi dia de Flamengo e Bolsonaro - e nada mais.







quinta-feira, 4 de agosto de 2022

A verdade sobre Hitler

Saindo hoje de minha escola chamei um táxi. O motorista, muito simpático, indagou se era professor e que disciplina lecionava. Quando respondi que leciono História ele disse adorar o tema e disparou uma pergunta a queima-roupa:

"Hitler morreu no bunker ou não?"

Um tanto ressabiado, respondi que, ao que tudo indica, sim, Hitler morreu em um bunker. "Isso é o que quase todo mundo pensa", retrucou o taxista, em tom sapiencial, logo encetando uma verdadeira aula sobre o tema.

Resumidamente, Hitler teria fugido através de uma passagem secreta e fugido de submarino (!) para a Argentina, tendo antes passado pela Sardenha e pela Espanha, onde teria sido temporariamente abrigado pelo regime franquista.

Um tanto constrangido, comentei que há muito tempo circulam boatos sobre uma possível fuga de Hitler para a América do Sul, ao que o motorista atalhou bruscamente - não se tratava de rumor, mas de puríssima verdade comprovada por uma série de documentários do History Channel.

Fui a seguir bombardeado por uma série de fatos bombásticos revelados pelas séries do canal. 

Os nazistas desenvolveram a bomba atômica, mas, por razões desconhecidas, não chegaram a utilizar na guerra; trazida para a Argentina (no submarino?), os nazistas refugiados na América do Sul intentavam lançar a bomba da Colômbia a Nova York, mas foram impedidos pela CIA. 

Hitler era um ocultista e enviou expedições em busca de poderosas relíquias como a Arca da Aliança (como bem sabia Indiana Jones). 

A Coca-Cola é fabricada com cocaína traficada diretamente da Bolívia (sem nenhuma relação aparente com o nazismo).

Etc etc etc.

Percebendo que nenhum argumento poderia sequer contradizer as comprovadíssimas revelações dos peritos do History Channel, me resignei a ouvir em silêncio; conter o riso já era em si um esforço colossal.

Embora cômica, a experiência foi um tanto inquietante. É perturbador perceber o modo como um verdadeiro bombardeio de informações inverossímeis e sensacionalistas leva uma pessoa articulada, escolarizada e (aparentemente) sã a crer, com imperturbável convicção, nas coisas mais estapafúrdias. Como educador, me pergunto o que podemos fazer para combater efetivamente esse pernicioso estado de coisas. Valei-nos, São Sócrates de Atenas!




quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Esperanças para uma humanidade esvaziada - Pensamentos de Martin Luther King

Fábricas imensas comandadas por computadores, cidades que engolem a paisagem e atravessam as nuvens, aviões que desafiam a noção de tempo - todas essas são coisas impressionantes, mas não podem ser espiritualmente inspiradoras. Nada em nossa resplandecente tecnologia pode elevar o homem a novas alturas, porque o crescimento material foi transformado num fim em si mesmo, e, na ausência de propósitos morais, o próprio homem se torna menor à medida que suas obras se tornam maiores. Indústria e governo gigantescos, combinados num intrincado mecanismo computadorizado, deixam as pessoas de fora. O senso de participação é perdido, o sentimento de que indivíduos comuns podem influenciar decisões importantes desaparece, o homem fica excluído e diminuído.

Quando um indivíduo não é mais um verdadeiro participante, quando não se sente mais responsável por sua sociedade, o conteúdo da democracia é esvaziado. Quando a cultura é degradada e a vulgaridade entronizada, quando o sistema social não gera segurança, mas induz perigo, o indivíduo é inexoravelmente impelido a se afastar dessa sociedade sem alma. Esse processo produz alienação - talvez a característica mais disseminada e insidiosa da sociedade contemporânea.

***

Muitas vezes me pergunto se a educação está ou não atingindo seu objetivo. A grande maioria das pessoas ditas instruídas não pensa de maneira lógica e científica. Até a imprensa, a sala de aula, os palanques e o púlpito, em muitos casos não nos dão verdades objetivas e imparciais. Salvar o homem do pântano da propaganda, em minha opinião, é um dos principais objetivos da educação. A educação deve permitir que a pessoa examine e pese as evidências, tenha discernimento para diferenciar o verdadeiro e o falso, o real e o irreal, os fatos e a ficção.

A função da educação, portanto, é ensinar a pensar intensamente e a pensar criticamente. Mas a educação que se contenta com a eficiência pode se provar a maior ameaça à sociedade. O criminoso mais perigoso pode ser o homem dotado de razão, mas não de moral.

Devemos lembrar que inteligência não é o bastante. Inteligência mais caráter - esta é a meta da verdadeira educação. A educação completa dá à pessoa não somente poder de concentração, mas objetivos dignos em que se concentrar. A educação ampla transmitirá, portanto, não só o conhecimento acumulado da raça [?], mas também a experiência acumulada da vida social.

***

O progresso humano não é nem automático nem inevitável. Mesmo uma olhadela superficial na história revela que nenhum avanço social chega sobre as rodas da inevitabilidade. Cada passo rumo à meta da justiça requer sacrifício, sofrimento e luta, requer os esforços incansáveis e o interesse apaixonado de indivíduos dedicados. Sem esforço persistente, o próprio tempo torna-se um aliado das forças insurgentes e primitivas do emocionalismo irracional e da destruição social. Não é hora para apatia ou complacência. É hora para ação vigorosa e positiva.

***

Devemos trabalhar apaixonada e infatigavelmente para transpor o golfo entre nosso progresso científico e nosso progresso moral. Um dos grandes problemas da humanidade é que sofremos de uma pobreza do espírito que contrasta obviamente com nossa abundância científica e tecnológica. Quanto mais ricos nos tornamos materialmente, mais pobres nos tornamos moral e espiritualmente.

Todo homem vive em duas esferas, a interna e a externa. A interna é a esfera dos fins espirituais expressos na arte, na literatura, na moral e na religião. A externa naquele complexo de aparelhos, técnicas, mecanismos e instrumentalidades por meio dos quais vivemos. Nosso problema hoje é que deixamos o interno se perder no externo. Permitimos que os meios pelos quais vivemos suplantassem os fins para os quais vivemos.

Martin Luther King com seus filhos Yolanda e Martin


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Intelectuais, Acadêmicos e Diplomados

Eu faria a seguinte distinção: existem "intelectuais" (raros), "acadêmicos" (numerosos) e "diplomados" (pessoas com um diploma universitário embaixo do braço - uma multidão). 

O "diplomado" é o sujeito que fez graduação, mestrado ou até doutorado, arrumou um emprego, parou de estudar, se estagnou e vive fazendo militância em redes sociais. 

O "acadêmico" é aquele sujeito bitolado que não larga o osso, segue pesquisando, vira um especialista em alguma irrelevância qualquer, cumpre religiosamente a burocracia universitária, publica um monte de coisas absolutamente banais escritas dentro dos padrões de decoro acadêmico, cita os autores da moda e segue o rebanho conforme as conveniências do momento. Como diria o Nobel de Física Richard Feynman, é o tipo de pessoa que trata a academia como um clubinho e se ocupa sobretudo de mesquinharias e futricas variadas.

O "intelectual" é alguém que pensa com a própria cabeça, pesquisa, lê e estuda com muito afinco, mantém os horizontes abertos, não vira um especialista bitolado, publica pouco, mas com qualidade, não vive atrás de modismos e conveniências, exerce constante crítica e autocrítica - e nem precisa necessariamente ter algum diploma.





quarta-feira, 19 de maio de 2021

Do direito à estultice

Em uma sociedade democrática todo mundo tem o direito constitucionalmente garantido de ser um estulto - até porque, como dizia o sapientíssimo Calvin, a ignorância é gratuita e não exige esforços.

Infelizmente, não dá para "desestultizar" ninguém à força, a não ser que tenhamos a disposição de fundar um Estado desestultizador totalitário. O que, de qualquer forma, não daria certo, pois Estados totalitários costumam ser grandes produtores de estultos - e não o contrário.

A grande lição das recentes eleições no Brasil, nos EUA e alhures talvez seja exatamente que confrontar a estultice de modo agressivo talvez contribua - e muito - para botar os estultos no poder.

E, obviamente, dá pra ser estulto de muitas maneiras. Todo mundo é o estulto de alguém. Provavelmente eu mesmo estou sendo um estulto ao redigir essas linhas. Talvez, como seres humanos, estejamos fadados à estultice.



quarta-feira, 21 de abril de 2021

Da coerência sem coesão

Cada vez mais percebo que muitos de meus alunos do Ensino Médio demonstram imensa dificuldade com coesão textual. 

Percebe-se que há uma tentativa de argumentar com alguma coerência, mas as frases e os parágrafos não se conectam de modo orgânico. O leitor precisa, muito laboriosamente, reunir os cacos para entender onde o redator quer chegar. 

Venho pontuando isso para meus estudantes, e ressaltando a necessidade de que eles cultivem o hábito de ler livros inteiros, textos longos. A exposição excessiva à linguagem fragmentária das redes sociais, especialmente Twitter e WhatsApp e à comunicação pelos memes acabam condicionando a capacidade deles de ler, escrever e, consequentemente, pensar. Até os filmes agora têm uma edição cada vez mais frenética, é cada vez mais raro deparar com um plano mais longo, que permita algum repouso visual e uma contemplação mais plácida das imagens. 

Vejo esse processo com grande preocupação, e me parece cada vez mais como algo irreversível. 

Talvez nossa última esperança esteja nos videogames que, paradoxalmente, trabalham com cortes muito menos abruptos, dão uma certa permanência e continuidade ao processo de interação. Há jogos que são, praticamente do início ao fim, planos-sequência. 

Tempos loucos...

Avançando da esquerda para a direita, e terminando sempre com uma bandeira por ponto final, cada fase de Super Mario Bros. é praticamente uma frase e o jogo, uma experiência de leitura...


quarta-feira, 10 de março de 2021

Lançamento - "Vila dos Mistérios"

 QB Studios orgulhosamente apresenta sua terceira produção, "Vila dos Mistérios".

O desenvolvimento do game se iniciou em 2018, com a turma 1704 da Escola Municipal Quintino Bocaiúva. Infelizmente a conclusão do projeto foi adiada pela pandemia de 2020, e apenas agora o jogo se encontra disponível para download.

Nas terras do Marquês de Malavita, em um vilarejo destruído pela guerra, Frei Umberto e o cão farejador Eco investigam inúmeros crimes e mistérios - desde inocentar um homem injustamente acusado de assassinato a resgatar uma criança em sombrias catacumbas, além da misteriosa morte de jovens cujos corações foram arrancados, entre outras aventuras inspiradas pelo imaginário medieval...


"Vila dos Mistérios" foi desenvolvido por alunos do 7º ano do Ensino Fundamental. O game é inspirado pela obra de Umberto Eco, homenageado pelos nomes do monge e do cão que protagonizam o jogo.

A proposta do game é incorporar conteúdos relacionados à Baixa Idade Média na Europa. Para tanto, os estudantes foram apresentados ao conteúdo curricular da disciplina História, bem como a narrativas folclóricas e lendárias remetendo ao passado medieval, tanto através de textos quanto de contação de histórias.

A partir dessas dinâmicas os estudantes desenvolveram personagens, cenários e tramas para o jogo. Convém notar que não se trata de obra com precisão histórica, tanto pelas limitações gráficas da ferramenta usada (RPG Maker MV), quanto por certa liberdade criativa concedida aos estudantes, assim como à própria incorporação de elementos do maravilhoso medieval ao game - como assombrações e bruxaria.

Não obstante, o jogo tangencia inúmeros temas relevantes para a compreensão das sociedades da Baixa Idade Média, como as guerras feudais, relações de senhorio e vassalagem, estratificação social, religiosidade, vida cotidiana e as Cruzadas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Quem decide sobre nossas vidas? - Aulas presenciais, pandemia e "protocolos científicos"

"Não ser ouvido não é razão para silenciar-se".

Victor Hugo


Entrando em fevereiro de 2021 as redes de ensino públicas e privadas do Brasil retomam suas atividades letivas e volta à baila a discussão sobre a possibilidade de um retorno "seguro" às atividades presenciais - com ou sem vacina. Apesar da verdadeira matança ocorrida em 2020, há quem teime em brincar com a vida (alheia).

Inúmeros gestores públicos se valem de comitês científicos para deliberar sobre protocolos de retorno. Há aí um imenso, colossal problema.

Ninguém, em sã consciência, há de negar os avanços e confortos que a ciência moderna proporcionou à humanidade. No entanto, nada disso faz de cientistas - e, portanto, comitês científicos - autoridades inquestionáveis em relação à gestão de riscos.

Não quero com isso desacreditar a valorosa contribuição dos cientistas em relação à gestão sanitária da pandemia. No entanto, cientistas geralmente são bons em sinalizar aquilo que é potencialmente perigoso, mas péssimos em garantir que algo é seguro. É mais fácil provar a existência de um grave perigo que provar a inexistência de uma ameaça - ou, em termos de lógica formal, "ausência de evidência não significa evidência de ausência".

Para ficar apenas com um exemplo recente, vimos há poucos anos a terrível tragédia nuclear de Fukushima, da qual o Japão ainda não se recuperou completamente.

O desastre de Fukushima é um alerta contra a arrogância científica. Examinando em retrospecto, chega a ser absurdo que comitês científicos permitissem o funcionamento de um obsoleto reator nuclear de circuito aberto justamente no litoral de um país tão vulnerável a terremotos e tsunamis. Fukushima era uma tragédia anunciada, mas cientistas garantiam que a operação da usina era "segura". O preço dessa arrogância se conta em milhares de mortos, vítimas de envenenamento radiativo e famílias desalojadas de seus lares, com suas vidas desfeitas pelo risco de exposição à radiação residual.

Luc Ferry, filósofo e ex-Ministro da Educação da França, em obra de 1992, já criticava a ilusão de que comitês científicos sejam capacitados a tomar decisões éticas com repercussões na vida de terceiros. Cientistas, quaisquer que sejam suas especialidades, estão aptos apenas a prestar esclarecimentos técnicos sobre sua área de atuação profissional. Isso não significa que lhes caiba decidir sobre os desdobramentos éticos de tais pareceres, mormente quando se trate de questões de vida ou morte. Os cientistas que garantiram a "segurança" operacional de Fukushima são responsáveis por todas as mortes e danos provocados pela usina.

Da mesma forma, quando um comitê científico subscreve as decisões de qualquer político a respeito de retomada de atividades educacionais presenciais ele se torna responsável por todos os enfermos e mortos em decorrência dessa situação, seja entre estudantes, profissionais da educação e respectivos familiares.

A situação se torna ainda mais perversa quando os gestores da educação tornam a decisão de retorno ao ensino presencial facultativa aos estudantes e suas famílias, mas lançam mão de recursos administrativos variados para pressionar os profissionais da educação a retomar suas atividades.

Tomo a liberdade de adaptar o testemunho* de uma amiga professora que adoeceu de COVID devido à atabalhoada retomada de atividades presenciais no segundo semestre de 2020:

Estou apavorada. Sofri com essa doença. Só eu sei  o que passei. Quando foi dito novamente que tínhamos que ir à escola, não consegui dormir. Tive crises de ansiedade e pânico. Não sei, para mim, como será esse retorno. Meu médico me passou remédios para relaxar e dormir. Está muito difícil para mim. Ou perco minha sanidade ou perco meu sustento.

E temos aqui o cerne da questão. A profissional mencionada se sente ameaçada e coagida em sua subsistência a retomar suas atividades laborais, apesar de ter sofrido terrivelmente com a enfermidade. É exatamente por essa razão que cientistas não estão aptos a tomar decisões de ordem ética que afetem terceiros: é relativamente simples e fácil para um comitê científico definir protocolos sanitários "seguros" sem levar em consideração as complexas realidades vivenciadas em uma escola. 

Afinal de contas, protocolos são apenas instruções redigidas e registradas em documentos, que muitas vezes não funcionam na realidade. E aqueles que redigem os protocolos, muitas vezes, não são aqueles cuja pele será posta em jogo pela aplicação dos mesmos. Como em Fukushima, aqueles que dizem o que é "seguro" não costumam ser os mesmos que arriscam suas vidas. 

Para usar uma velhíssima analogia, são como generais que, no conforto de seus gabinetes, decidem sobre a vida de soldados lutando para sobreviver na trincheira. Qualquer ser humano com o menor escrúpulo percebe quão sórdida e perversa é essa situação.

O mínimo que comitês científicos e gestores educacionais poderiam fazer seria EFETIVAMENTE ouvir o que os profissionais com anos de experiência nas trincheiras escolares têm a dizer sobre a suposta eficiência e segurança de tais protocolos.

Mais ainda, é absurdo, injusto e mesmo indecente tornar o retorno facultativo aos estudantes, mas compulsório aos profissionais da educação. Isso significa simplesmente dizer que uns têm o direito a decidir sobre sua saúde, integridade física e, no limite, sua vida, enquanto a outros é negado esse direito.

É ainda mais paradoxal ver que tantos advogados de longa data do ensino remoto em condições "normais" se manifestam agora como intransigentes defensores da retomada de atividades educacionais presenciais e da importância da presença do estudante em sala de aula - em meio à pior crise sanitária global desde a Gripe Espanhola, com elevado risco de contágio.

Por fim, tudo que os profissionais da educação desejam é simplesmente o DIREITO de preservar a vida e a saúde deles mesmos, assim como de suas famílias. 2020 não foi um ano de ócio para os profissionais da educação; foi um período de intenso trabalho, tentando atender às necessidades dos estudantes sob as mais adversas condições.

Nenhum de nós - professores ou trabalhadores administrativos da educação - se recusa a trabalhar. Queremos apenas trabalhar em condições seguras para nós e nossos entes queridos.

O mero fato de ainda precisarmos lutar por esse direito diz muito sobre o modo como a sociedade realmente enxerga a educação e seus profissionais. Pouco adianta realizar homenagens piegas no Dia do Mestre quando nossa vida não é valorizada em um momento de crise sanitária. Não somos super-heróis nem sacerdotes; somos apenas profissionais dedicados à instrução da juventude - e é assim, com profissionalismo, que gostaríamos de ser tratados pela coletividade da qual fazemos parte.


*Texto ligeiramente modificado para preservar a privacidade de minha amiga.



quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Democracia e diversidade

"As doutrinas políticas, por sua vez, não passarão de quimeras enquanto seus discursos forem unilaterais. Tanto o liberal quanto o socialista querem universalidade e unanimidade em torno de seu discurso. Estando fechados ao diálogo, os partidos e as populações, não há atitude política ou teoria política que se possa tornar eficaz, uma vez que nenhuma ação será fruto de uma vontade coletiva a seu próprio benefício.

A educação que promove o diálogo abre a compreensão do indivíduo para a não exclusividade, a não unicidade de sua perspectiva, proposta, vontade. O diálogo interno (com a própria consciência) e o diálogo em sociedade formam opiniões respectivamente cônscias e coletivas. É a insensibilidade do indivíduo pela vontade do outro, pelo pensamento do outro, pelo direito do outro, que aniquila toda possibilidade de harmonia social".
Humberto Schubert Coelho