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Mostrando postagens com marcador Cotidiano. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Amostra da decadência educacional brasileira

o pele era o manho gogado de futebol do mudo o pele e o gogado que feis mas gol do mudo que teve mas bola de ouro do mudo que teve copa do mudo que e o manho gogado do universo e o pele gogava do santos foi o manho gogado do santo e do futebol a istora do pele e muito triste ele foi a istora mas triste do futebol o pele gogava muto ben bola ele era a lheda do futebol e ele gogava de caso na rua de baro dele ele gogava de caso com os amigos ali na rua deles ele amisava

"Seria melhor ver o filme do Pelé"...



segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

"Essa cidade acabou"

Curioso relato de um amigo retratando um bucólico momento do cotidiano carioca

Acabo de passar por uma fascinante experiência almoçando em um restaurante  numa mesa ao lado de um casal de policiais, aparentemente de folga, assistindo e comentando (em voz média) o noticiário do RJTV. 

Durante a reportagem sobre uma onda de assaltos em Copacabana, a policial começou reclamando que agora vai ter que ir todo mundo pra Copacabana "só por conta desses trombadinhas mortos de fome que não conseguem ficar sem roubar pra cheirar e fumar uma porra de um dia."  - sendo prontamente apoiada pelo parceiro, que faz o importante complemento:  "mas vai a gente endurecer pra esses merdas pra ver o que acontece? É só sumir 2 ou 3 desses cracudos que no dia seguinte tem ONG fazendo protesto no Jornal Nacional." Talvez emocionada com o apoio do conje, a policial arremata que "Resolver isso aí é fácil, mas se acabar a bandidagem vai ter muito playboy filho de artista sem emprego". 

As coisas se acalmam, voltam a comer mais tranquilamente, mas aí começa uma reportagem mostrando diversos PMs distraídos ao celular em turnos de patrulha. Aí já foi demais... Ela, indignada, reclama: "Agora é o que faltava... Querem que a gente fique de prontidão por cinco, seis horas, sem fazer nada!! Esse pessoal acha mesmo que a gente tem obrigação de resolver os problemas dessa merda de cidade?!" Fala forte, devidamente complementada pelo amado: "O problema é que a gente não pode dar um apavoro nesses jornalistazinhos de merda. O endereço deles todo comandante tem, mas ninguém tem coragem pra dar a ordem. Por isso que a gente é desrespeitado. Vê se nos EUA alguém enquadra policial desse jeito?!" 

Já se preparando pra irem embora, a conja solta um "Essa cidade acabou. Tem mais jeito, não. Aqui, bandido é herói e policial é vilão."

Toda distopia é a utopia de alguém...


sábado, 4 de novembro de 2023

A nauseante espiral do ódio

Difícil dizer o que diferencia esse tipo de gente de figuras como Putin. Como dizem os japoneses, "mosca faz cocô de mosca; elefante faz cocô de elefante" - e haja mosca desarranjada por aí...


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Gestão humana

Quando um gestor tem a necessidade de ressaltar a seus subordinados que ele "olha o lado humano" significa que provavelmente significa que ele "olha o lado humano" com muito menos frequência e sensibilidade do que seria desejável. A real empatia costuma se fazer sentir esponteamente.

domingo, 30 de julho de 2023

Acolhendo a paz

"Eu achava que a gente ficava em paz indo até ela, quando na verdade as coisas que dão significado pra gente acabam trazendo essa paz".

Tiago Peixoto

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Prioridades civilizatórias e o paradoxo do "progresso"

Hoje um aluno escreveu em um trabalho sobre tempo e projetos de vida que um de seus sonhos para o futuro é ter "água todo dia em casa", pois o abastecimento é irregular onde mora - uma comunidade na Zona Norte do Rio de Janeiro. 

A humanidade já foi à Lua.

Uma estação espacial tripulada orbita sobre nossas cabeças.

Durante a atual pandemia foi possível desenvolver vacinas com rapidez jamais imaginada. 

Bilhões de dólares são investidos no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. 

Utilizamos rotineiramente tecnologias que deixariam Julio Verne desconcertado - e ainda nos damos ao luxo de queimar milhões de reais em fogos de artifício no Réveillon.

Apesar de tudo isso, neste século de tantos prodígios, conseguimos a proeza de termos famílias em uma das maiores cidades do hemisfério sul sem acesso regular ao recurso mais imprescindível à sobrevivência humana. 

A grande tragédia da humanidade há muito deixou de ser sua debilidade perante a natureza; milhões de seres humanos vivem à margem do "progresso" simplesmente porque ESCOLHEMOS que assim seja. Não nos falta tecnologia; falta-nos simplesmente vergonha na cara.

Nossa grande e verdadeira miséria é a monstruosa capacidade de tolerar que tanta gente viva tão mal, com uma resignação fatalista e calhorda.

Há quem tema o fim da humanidade; de minha parte, às vezes duvido que ela tenha realmente existido algum dia...

Irrigação no Egito Antigo; milênios depois, a água continua sendo um luxo para milhões de pessoas. 


segunda-feira, 12 de junho de 2023

Escola em disputa

Reflexão certeira do Prof. Vinicius Borges

Esquerda e direita no Brasil estão se especializando em usar a escola como um "campo de luta" onde tudo é mais importante do que a escola e os que nela trabalham e estudam.

sábado, 27 de maio de 2023

Luto, memórias e encantamento

Hoje recebi uma notícia triste - uma amiguinha de infância faleceu há poucos meses, com pouco mais que trinta anos de idade, vitimada por um câncer. 

Tivemos pouquíssimo convívio. Era prima de amigos, consideravelmente mais nova que nós. Tinha dois ou três anos quando veio com a mãe passar umas poucas semanas com os parentes. Era uma criança encantadora, como costumam ser nessa idade. 

Nunca mais nos vimos e havia caído em meu esquecimento há muitos anos, até a triste notícia de hoje. Considerando a idade, é provável que ela não guardasse qualquer memória a meu respeito.

Hoje, porém, ao saber de seu falecimento, inúmeras lembranças me afloraram à consciência, uma delas particularmente enternecedora.

Me recordo que a menina se encantou por um brinquedo que eu tinha, um "View Master 3D", espécie de binóculo desengonçado onde eram inseridos discos com imagens que contavam historinhas com personagens de filmes e desenhos animados. Ao se acionar uma alavanca, o disco girava e trocava a imagem estereoscópica exibida.

Não era um de meus brinquedos favoritos. Os discos com histórias eram bastante caros e eu possuía pouquíssimos. Para uma criança crescida como eu logo se tornava uma atividade enfadonha. O mesmo não sucedia com minha amiguinha, cujos pequenos olhos azuis ainda se encantavam com esse tipo de bagatela.

Várias vezes ao dia a pequena vinha à varanda de minha casa e pedia para usar o brinquedo. Passava longo tempo visualizando o mesmo disco, manuseando a alavanca, revendo incessantemente as mesmas imagens. Havia ali algo que a encantava, ainda que provavelmente não percebesse que as figuras compunham uma narrativa. Quando cansava de um disco, me pedia que trocasse por outro, operação muito simples, mas não para uma criança tão pequena.

Provavelmente ela foi a pessoa que mais aproveitou aquele brinquedo, que eu e meus amigos já estávamos grandes demais para apreciar com a mesma intensidade; já não tínhamos a mesma disposição para o deslumbramento que se encontra apenas nas crianças muito pequenas, para quem tudo é novidade.

Nunca mais a vi. De certo modo, para mim é como se tivesse morrido aquela criancinha de dois ou três anos, não uma mulher adulta.

Espero, com todo coração, que ao longo de sua breve vida ela tenha tido oportunidade de se encantar com muitas coisas, como outrora com as imagens coloridas daquele brinquedo.



quinta-feira, 27 de abril de 2023

Demonologia escolar

Ontem passei por uma das situações mais insólitas de minha carreira docente: uma turma de sexto ano tendo um ataque histérico por medo do Diabo!

Um dos alunos (que, como soube depois, se encontra em avaliação psiquiátrica) teve uma rusga com um colega de comportamento "exuberante", que volta e meia se envolve em confusões com os colegas. Chamei os dois para  conversar fora de sala de aula e achei que a situação estivesse resolvida; ledo engano. 

Retornando à sala, o menino que se encontra em avaliação médica se pôs a escrivinhar no caderno. Subitamente se iniciou um tumulto em torno da carteira do rapaz, cercado por vários colegas apavorados - ele escrevia os nomes de diversos deles e desenhava "símbolos do Diabo". Vários alunos gritavam que iriam morrer, outros tentavam ver se seus nomes haviam sido registrados no "caderno diabólico". Eu tentava, em vão, acalmar os ânimos. 

O menino "endiabrado" começou a fazer cruzes com os dedos, que brandia na direção dos colegas, enquanto declamava em tom monocórdico "Fulano vai morrer... Beltrano vai morrer..." Os colegas em pânico me pediam para fazer alguma coisa (e tenho cara de exorcista?), enquanto eu tentava segurar o riso diante diante de tanta sandice - sem muito sucesso, temo dizer. 

Saí em busca da coordenadora pedagógica, que retirou o aluno do meio do tumulto e me explicou que o mesmo se encontra em tratamento médico. Aproveitando o ensejo, tentei conversar com a turma, pedindo que fossem compreensivos com o colega - em vão: estavam todos amedrontados e revoltados. Pedi a eles que se acalmassem, afirmando que o caderno do colega era apenas um caderno e nada aconteceria com eles. Resvalando no terreno teológico, cometi o deslize de dizer que "o Diabo nem existe", no que fui calorosamente refutado por diversos estudantes. Um deles chegou a argumentar que, em se cavando muito fundo, há de se sentir a "quentura" do Inferno - um argumento com base empírica, portanto... Outro insistia sobre a eficácia da "macumba" do colega, que poderia, sim, levá-los à morte! Como já se fazia tarde, liberei a turma com o compromisso, não muito sólido, de deixar em paz o colega. 

Como se não bastasse, após a saída, a coordenadora e eu conversamos com a mãe do estudante "encapetado", que fora buscá-lo e aos irmãos. A responsável se mostrou muito solícita e nos explicou sobre os problemas de ansiedade do menino. Ficou também esclarecido que o "caderno satânico" era inspirado na animação japonesa "Death Note", cuja trama gira em torno de um caderno sobrenatural que provoca a morte de todos que tiverem seus nomes registrados naquelas páginas.

O "causo" dá o que pensar. 

A situação me fez imediatamente pensar no quanto o discurso "demonológico" de figuras como a atual senadora Damares Alves encontra profunda ressonância na cultura popular brasileira, lembrando que os séculos passam, mas o Diabo ainda faz a festa na Terra de Santa Cruz - com todos os desdobramentos sociais e políticos que isso ocasiona. A recente moda dos padres exorcistas que arrastam multidões para igrejas parece bem menos espantosa quando se percebe o quanto a figura do Diabo e sua capacidade de provocar malefícios permanecem, ainda e sempre, presentes como forças aterradoras capazes de induzir pânico mesmo em estudantes cariocas que vivem em áreas conflagradas.

Por outro lado, fica também patente a vitalidade do Diabo no imaginário ocidental, capaz de encarnar tanto o Mal para os cristãos como de incorporar o medo da "macumba" afro-brasileira, salpicado ainda pela cultura pop nipônica. Como salientava o historiador Robert Muchembled, o Diabo é figura que atravessa os séculos sofrendo inúmeras metamorfoses, sempre atual porque sempre cambiante, remetendo à figura jocosa, espalhafatosa e compósita do arcano do Diabo no Tarot de Marselha. Sempre híbrido, isto-e-também-aquilo, o Diabo evoca um jogo de ecos e reflexos entre diferentes épocas, lugares e culturas - mesmo a animação "Death Note" nos devolve um imaginário diabólico cristão reinventado através do encontro com a cultura japonesa.

Not least, os acontecimentos deixam a certeza de que "jamais fomos modernos", como provoca Bruno Latour. O projeto da modernidade iluminista de uma sociedade pautada pela razão vitoriosa sobre as trevas da superstição permanece obra fadada à incompletude. Que diria Voltaire ao constatar que o Diabo ainda faz tremer jovens do século XXI, apesar de seus smartphones e tantas outras bugigangas proporcionadas pela Revolução Industrial?

Não há inteligência artificial que algo assim...

O Diabo é Pop: Klarion, o Menino Bruxo e o demônio Etrigan em episódio da saudosa série animada de Batman, no fim dos anos 90


sexta-feira, 3 de março de 2023

Sonambulantes

Vendidos, vendados,

Cegos seguimos,

Aos tropeços,

Solavancos,

Gregariamente solitários,

Solidamente liquefeitos,

Comprimidos, apressados,

Sonâmbulos,

Cegos seguimos,

Vendidos, vendados

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

MCU - Mega Circo Unificado

Me surpreendi hoje ao constatar que o tão badalado "Universo Marvel" (MCU para os íntimos) já tem trinta e um (!) filmes lançados e mais uns oito (!) agendados - fora os seriados e especiais de TV e streaming (!!!).

Gosto de super-heróis, gosto de (alguns) filmes de super-herois, mas... Para tudo há um limite. 

Excluindo algumas obras mais inspiradas, o grosso dessa produção poderia receber o rótulo de "entretenimento barato" - não fosse o orçamento milionário desses filmes e sua extraordinária arrecadação - sem mencionar a vasta gama de produtos derivados.

Se essas "maravilhas" não ocupassem quase todas as salas e horários de cinema o ano inteiro, não seria o maior dos problemas. Filmes de super-heróis (não apenas Marvel) ocupam uma porção cada vez maior de sessões de cinema, deixando menos e menos espaço para outros gêneros cinematográficos.

Como se não bastasse essa quase usurpação das sessões de cinema, o fenômeno se espalha também pelas prateleiras de livrarias, lojas de brinquedos e milhares e milhares (literalmente) de sites, canais e vídeos em plataformas digitais - em sua maior parte, material de qualidade e relevância duvidosas.

Essa verdadeira monomania é prejudicial inclusive às próprias obras de super-herois, visto que a quantidade cada vez maior de produtos compromete sua qualidade, resultando em trabalhos cada vez menos criativos, mais repetitivos e esvaziados de significado - inclusive devido ao status de propriedade intelectual de grandes conglomerados de mídia; à medida que os paladinos mascarados, encapuzados e coloridos se tornam investimentos milionários, a liberdade de criação dos artistas envolvidos com essa indústria se torna mais e mais limitada, devendo se conformar a um cânone cada vez mais padronizado e enrijecido. De certa maneira, quem viu um filme Marvel, viu todos. 

Os anos 60 e 70 foram quase uma Nova Gênese para os quadrinhos de super-herois, pela contribuição de criadores como Stan Lee, Dennis O'Neal, Jack Kirby, Neal Adams e muitos outros (apesar do papel vagabundo e da limitada paleta de cores); os anos 80 e 90 viram uma vibrante explosão criativa, encabeça por figuras como Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, John Byrne, Grant Morrison e outras mentes talentosas - foi o período em que emergiram as ambiciosas "graphic novels", com maiores pretensões artísticas e recursos editoriais mais vastos. O mesmo não pode ser dito das primeiras décadas do século XXI, marcadas por uma assombrosa estagnação, produzindo poucas obras dignas de nota, apesar dos notáveis avanços técnicos que viabilizam edições belas, caras e artisticamente pobres - décadas estéreis como Apokolips...

Tal excesso de oferta, que beira a imposição,  a meu ver, já está se tornando um fator de alienação cultural para grande parte do público, especialmente dos mais jovens. A diversidade é essencial para o cultivo do ser humano em plenitude. Há que se explorar outros horizontes, navegar e mergulhar em outros mares.

Em sua maioria, filmes de super-herois são divertidos, mas tremendamente superficiais. Diversão é importante, mas não pode ser tudo na vida. Um ser humano que se cultive apenas com obras divertidas perde a oportunidade de explorar outras facetas da vida, do mundo, e de si mesmo. O próprio mundo dos quadrinhos, por sinal, não pode ser resumidos a franquias de super-herois - há muitos outros gêneros de "gibis", cada qual com suas riquezas. 

Até a diversão demasiada termina por saturar, enfastiar; deixa de ser um prazer para se tornar uma compulsão - sacia, mas não alimenta. E haja circo para pouco pão...

Viraremos todos "zumbis Marvel"?


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Professor, o que é personalidade?"

Encerro perplexo o dia de hoje.

Venho trabalhando imaginário e mitologia com minhas turmas de 6° e 7°ano e propus uma atividade para que meus alunos criem um monstro e um herói, orientados por uma ficha, visando a posterior elaboração de uma narrativa ficcional. 

A pergunta que mais ouvi ao longo do dia foi: "Professor, o que é personalidade?" 

Encontrei extrema dificuldade para me fazer entender por alguns estudantes. Não conseguiam perceber a diferença entre uma característica física, como "forte" e outra de ordem psíquica, como "corajoso". A maneira que melhor encontrei para tornar a diferença mais inteligível foi opondo "características do corpo" a "características do coração ou da alma".  Alguns pareciam confusos com a própria definição de "característica". 

Em dezesseis anos de magistério já vi muita coisa espantosa, mas o episódio de hoje me pareceu particularmente perturbador. 

Me pergunto quanto deve ser difícil para um ser humano conquistar o mínimo de autoconhecimento, de capacidade de reflexão sobre si mesmo e sua vida, sem dominar palavras e noções tão essenciais para isso, como "personalidade" ou "característica". 

Me parece extraodinariamente difícil avaliar o impacto de semelhante empobrecimento de vocabulário não apenas sobre os estudantes propriamente ditos, mas também sobre o ambiente social em que vivem. Soa como algo quase orwelliano.

Nos últimos meses o mundo vem se mostrando perplexo com o chatbot ChatGPT, capaz de gerar textos complexos (embora superficiais) cosendo retalhos textuais extraídos de sua imensa base de dados.

É inquietante viver em uma época em que máquinas absolutamente inconscientes sejam capazes de "redigir" textos por inteligência artificial (simulacro que sempre tem muito mais artifício que inteligência) e, ao mesmo tempo, jovens humanos mostrem tamanha dificuldade para compreender palavras e noções não apenas corriqueiras, mas imprescindíveis ao desenvolvimento de suas consciências, em suas múltiplas dimensões. Alienados de ferramentas cognitivas tão poderosas, se alienam de si mesmos e, consequentemente, do mundo. 

Mais espanto que os avanços da inteligência artificial deveriam causar as graves perdas culturais coletivas, que minam nossa capacidade de expressão, comunicação e convívio. 

Um dos grandes desafios de nossa época, mais que nunca, parece ser o de reconhecer, resgatar e cultivar nossa maravilhosa capacidade de nos fazermos plenamente humanos. Nesse tempo em  que as máquinas parecem permear tantos aspectos da experiência humana, os apelos de Erasmo de Roterdã e Pico Della Mirandola se mostram não apenas atuais, mas urgentíssimos. Precisamos humanizar nosso presente, para que o futuro valha a pena ser vivido; para que não nos tornemos pessoas controladas por máquinas controladas por outras pessoas, como diria Frank Herbert - pois é exatamente disso que se trata. 

Dentro de cada um de nós dorme um potencial tremendo; que não nos faltem a sabedoria e a coragem para desperta-lo.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Como o Capitalismo "funciona"?

Hoje presenciei uma cena de cortar o coração. Em uma farmácia, uma senhora diabética, acompanhada da filha, escolhia quais remédios deixaria de levar para poder fechar a conta. As duas faziam piada da situação - às vezes o riso é o último recurso para nos protegermos diante das tragédias da vida. 

Minha esposa é diabética e usa alguns dos medicamentos em questão - realmente são muito caros, pois são fabricados na Europa e, como se sabe, nossa situação cambial tem sido catastrófica nos últimos anos.

Quando um diabético, especialmente idoso, se vê privado de medicamentos prescritos há um provável impacto em sua qualidade de vida e mesmo de sua expectativa de vida. Não há palavras capazes de expressar devidamente quão perversa é uma situação como essas. 

Vivemos em um modelo econômico em que pessoas recebem milhões para chutar uma bola, em que valores estratosféricos são empregados para a realização de um efêmero evento esportivo e mulheres idosas não conseguem comprar medicamentos essenciais - simplesmente porque uma empresa europeia detém o monopólio sobre certos medicamentos e a moeda brasileira se encontra desvalorizada.

Vivemos em um mundo em que milhões de dólares são gastos para a produção de uma patética cena de ação em uma franquia cinematográfica que produz e reproduz há quase três décadas filmes que são quase fotocópias cada vez mais imbecilizadas uns dos outros, estreladas por um galã que em breve precisará de fraldas geriátricas - que constituem também uma pesada despesa no orçamento de milhões de famílias.

Não se trata de argumento utilitarista. Esportes e cultura (inclusive o lixo hollywoodiano) fazem parte da trama da sociedade e da vida e são importantes para a coletividade. O problema é quando atletas e atores voam de balada em balada em jatinhos e hotéis de luxo e diabéticos não conseguem adquirir medicamentos essenciais; é quando bilionários queimam dinheiro com todo tipo de extravagância enquanto a muitos idosos falta dinheiro para aquisição de absorventes geriátricos.

Há quem diga que a grande virtude do capitalismo, guiado pela sabedoria de Mamon, é "funcionar". De minha parte, me recuso a acreditar que uma sociedade em que uns poucos tratam o luxo como necessidade e bilhões de pessoas precisem lidar com a necessidade como se luxo fosse é uma sociedade que "funciona". Se assim é, "funciona" para quem? Para a senhora cujo drama testemunhei hoje, certamente o capitalismo vem "funcionando" de mal a pior. 

"Meritocracia", responderão alguns. A estes pergunto que falta para que a senhora "mereça" seus remédios. Que fazem o "menino Neymar", as estrelas de Hollywood, os magnatas do Vale do Silício, banqueiros, especuladores de toda espécie e tantos outros para "merecer" uma vida de luxo nauseabundo em meio a tanta miséria?

De que adianta uma indústria farmacêutica que desenvolve medicamentos "milagrosos", mas cujos preços excluem desses benefícios bilhões de pacientes, crônicos ou não? Pior ainda, onde milhões de pessoas não conseguem sequer o acesso a um médico que lhes prescreva a medicação? 

"Ciência sem consciência é apenas ruína da alma", dizia Rabelais há quase meio milênio. 

Ciência não nos falta; a consciência, por outro lado, não "funciona".

Se nossa sociedade capitalista realmente funciona é apenas como um satânico moinho de triturar gente, como sugeria Karl Polaniy nos anos seguintes à infame Crise de 1929 - e haja gente para triturar nesse planeta...



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Japamala

Cada lágrima derramada é semente plantada no solo da alma, aguardando oportunidade para germinar. Bem-aventurados os que choram. 



sábado, 7 de janeiro de 2023

Virtuosismo apático

Em algumas pessoas, a apatia pode ser uma virtude. Nada mais perigoso que um tolo com iniciativa - o que se inicia em tolice pode acabar em tragédia. Conhecemos muito bem as desgraças cometidas pela imprudência ativa, mas jamais saberemos de quantos flagelos a humanidade foi poupada pela estupidez inativa. A grande marca de um virtuose da tolice apática é ser completamente desconhecido. Antes de reclamar da apatia alheia deveríamos ponderar sobre os prováveis benefícios proporcionados por semelhante conduta - afinal de contas, muito ajuda quem não atrapalha. 





quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Obsolescência e esperança

Quase tudo se torna obsoleto algum dia.

Algumas coisas deveriam ficar obsoletas mais rápido que outras - como a escravidão, que levou alguns milênios até que fosse reconhecida sua obsolescência pela coletividade humana de modo, espera-se, irrevogável. 

Algum dia, quem sabe, guerras e outras barbaridades também se tornarão relíquias de um passado tenebroso, memórias sombrias de épocas lembradas com espanto e repulsa. 

Todo passado já foi presente; todo presente será passado. Há algo de consolador em constatar a impermanência das coisas, em perpétua - ainda que lenta - mutação. A humanidade se renova a cada dia.

Ao menos as esperanças são gratuitas...

Shiva, mestre das mutações


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

"O público adota as Fábricas como lar" - Entrevista com Wesley Nunes

Há mais de uma década em funcionamento, o programa "Fábricas de Cultura", mantido pelo governo de São Paulo oferece atividades culturais variadas em diversos pontos do Estado. Wesley Nunes, que trabalha na Fábrica de Cultura de Vila Curuçá, nos conta um pouco mais sobre essa bem sucedida iniciativa.

Como funcionam as Fábricas de Cultura?

As Fábricas de Cultura são administradas pela Organização Social Catavento Cultural e Educacional e funcionam a partir de uma política pública do Estado de São Paulo. Elas estão localizadas em pontos estratégicos das periferias de São Paulo - há uma em São Bernardo do Campo e recentemente foi inaugurada outra na cidade de Santos. Este ambiente fornece cursos voltados para a formação artística - entre eles posso citar Balé, Street Dance, Circo, Capoeira, Violão, Violino, Percussão e muitos outros. O maior foco é para crianças e adolescentes, entretanto, há cursos para adultos e para o pessoal da terceira idade. Não há custo nenhum de mensalidade, nem de matrícula. Além disso, são fornecidos instrumentos para os aprendizes e um lanche. As aulas duram três horas e são realizadas duas vezes por semana para as crianças e adolescentes; há aulas em um número menor direcionadas ao público adulto no período noturno e aos sábados. O espaço também dispõe de biblioteca, teatro e promove diversos eventos. Ao pensar na Fábrica de Cultura penso em um grande polo cultural de ensino. E não posso deixar de mencionar que as Fábricas estão passando por um processo de atualização e irão fornecer cada vez mais cursos nas áreas de tecnologia.

Como você avalia o impacto das Fábricas de Cultura na vida do público participante? Você poderia citar algum caso que marcou você, nesse sentido?

O público adota as Fábricas como lar. Converso com os funcionários mais antigos da casa e a frase que mais ouço é "Eu vi essa menina e esse menino crescerem". Há o ensino das artes e o envolvimento cultural através de atividades realizadas na biblioteca e pelos ateliês de ensino e isso é maravilhoso. Porém, tenho que destacar o impacto social e a construção da cidadania. Os alunos fazem amizades, desenvolvem a empatia e passam a possuir um olhar diferenciado sobre a sociedade que os cerca. Converso com os aprendizes e é incrível como eles possuem uma visão aberta. Eles enxergam o bairro ao redor deles, mas também a cidade e o país como um todo. Até os sonhos deles são grandes. Vejo que a Fábrica de Cultura conseguiu se inserir nas periferias e demonstrar que mudanças e uma vida melhor são possíveis.

Todo dia tem um caso marcante. Já ouvi criança de oito anos com um brilho nos olhos dizendo que quer ser advogada e pedindo livros; um garoto tocando como um profissional e com os trejeitos de um guitarrista; uma garotinha com uma necessidade especial feliz por poder jogar capoeira; um aprendiz que saiu da fábrica e hoje se apresenta na Europa; as mães e pais orgulhosos ao ver uma apresentação; um garoto interessado no Balé, meninas querendo jogar xadrez e os abraços de aprendizes que não tem medo de demonstrar amor e acabam encontrando um belo caminho para serem felizes. Tudo isso é marcante.

Qual é a sua história com o programa? O que significa, para você, trabalhar na Fábrica de Cultura?        

Antes de trabalhar na Fábrica a minha relação era de expectador. Ao começar, a minha vida mudou. Sou muito grato por poder fornecer educação, reflexão e entretenimento para as pessoas. Como em qualquer trabalho, existem não só os números como também as metas. Elas são alcançadas junto com a satisfação de ver vidas sendo mudadas. Perco a conta das crianças que entram só para usar o computador e um tempo depois fazem amizades, se interessam pelos cursos, pegam livros emprestados e... elas simplesmente se soltam. Nada mais recompensador que ver pessoas leves e livres. Até mesmo eu sinto-me assim. Perdi muito da minha timidez, conheci novas artes e, principalmente, vejo esperança. Estive muito tempo esperando uma grande revolução gerada a partir de redes sociais. Hoje, ao ver a mudança florescer aos poucos no mundo real, sinto-me feliz com o meu andamento profissional e pessoal - lidar com esperança me deixou mais leve para lidar comigo mesmo e com os outros.

Na sua opinião, que lições o programa pode oferecer para se pensar as políticas públicas de Cultura no Brasil? Que contribuição iniciativas como as "Fábricas de Cultura" podem oferecer não apenas a seu público alvo, mas à sociedade brasileira, como um todo?

Primeiramente, o programa já quebra muitos estereótipos de que o brasileiro não gosta de arte; de que na periferia nada vai para frente e de que o brasileiro não tem jeito. A Fábrica de Cultura forma cidadãos que estão interessados em atuar na sociedade, ter uma profissão e exigir direitos enquanto tem a plena noção de quais são os seus deveres. É um local perfeito para complementar os estudos da escola. Aliás, vendo a Fábrica atuar, eu penso em como a escola pode ser diferente. Arte deve ser parte importante na formação do jovem: estimula a empatia, ensina sobre responsabilidade e melhora a interpretação da realidade a sua volta.

Acredito que a Fábrica como um todo pode ensinar a importância da arte na formação do jovem, do adulto e do idoso. Também pode ensinar sobre empatia; acreditar em sonhos e a não só respeitar como também exigir melhorias no bairro, na cidade e no país. Um local que acolhe, ensina e diverte provoca apego. Tendo essa relação estabelecida, o cuidado para com ele será consequência. Sonho que este apego seja multiplicado para as escolas, hospitais, tribunais, transporte público e outros setores vitais para a sociedade.

Agradeço por me dar a oportunidade de falar de um local que gosto tanto!





sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Le tocsin

"Vite, vite!

On sonne le tocsin,

Entendez-vous?"

- S'écriaient, gourmands,

Les vautours...



Aviso aos incautos

Na última semana circulou bastante na Internet a capa da revista Money Week, acompanhada da tradução: "Aposte no Brasil - Ele liderará a economia global". Entusiastas de Lula acolheram a novidade com grande empolgação - afinal de contas, após quatro anos ridicularizados na mídia internacional, é natural que se queira ver o Brasil em posição de destaque internacional, ainda mais "liderando" a economia global.

Mas há que se ter cautela na interpretação da dita capa - bem como da matéria correspondente.

Embora simpática, a arte de capa apresenta o Brasil basicamente como exportador de commodities e turismo - a parte que sempre nos coube no latifúndio global. Vale também observar que a frase original, "It will drive global economy" é bastante ambígua. "To drive" não necessariamente significa "liderar". Eu traduziria principalmente como "Ele movimentará a economia global". Nenhuma das definições do verbo "to drive" no Merriam-Webster se traduz bem por liderar. Há imensa diferença entre movimentar/aquecer a economia e liderar a economia. 

A própria ideia de "apostar no Brasil", no jargão financeiro, é pouco alvissareira para nós - especialmente considerando o público-alvo da revista. Apostar tem conotação muito diferente de investir. No mercado financeiro, apostar geralmente é sinônimo de alto retorno em curto prazo, com pouco compromisso. Bom pro capital especulativo; péssimo para o povo brasileiro.

Convém ainda ressaltar que a imagem do futuro presidente como vendedor ambulante acolhendo os "gringos" é bastante problemática. O entusiasmo desmedido pela simples capa de uma revista estrangeira diz muito sobre o modo como nos vemos no mundo, sempre carentes de (supostos) elogios vindos "de cima" - parte integrante de nosso famoso "complexo de vira-lata".

Não é questão de pessimismo - o grande problema é que o povo brasileiro já viu esse filme mais de uma vez e sempre termina com o Brasil endividado, quebrado e à beira do colapso social. A elite econômica nacional quase sempre enriquece no processo e, no final da festa, o "povão" é que paga a conta e fica com a ressaca. Ou a gente aprende com os erros ou fica repetindo.

O texto da matéria propriamente dito, que pouca gente parece ter se dado ao trabalho de ler, confirma parcialmente esses temores. Muito embora não encoraje o investimento especulativo de curto prazo, o texto ressalta os custos relativamente baixos de se investir no Brasil, com uma elevada relação custo-benefício - ou seja, a grande oportunidade se refere menos a questões de ordem qualitativa que aos valores de investimento comparativamente baixos que o Brasil oferece em relação outras economias emergentes. 

A "grande aposta" sugerida aos potenciais investidores estrangeiros é na velha trinca agropecuária (café, açúcar, soja, milho, carne bovina e biocombustíveis), mineração (níquel e ferro) e petróleo - mais do mesmo: os séculos passam, mas a cana-de-açúcar continua sendo um dos melhores negócios da Terra de Santa Cruz. A bem dizer, não é improvável que se trate de matéria paga pelas empresas e fundos mencionados na última página como boas opções de negócio no Brasil. Não se trata de avaliação econômica desinteressada; todo o texto é direcionado a potenciais investidores/especuladores. O entusiasmo agroexportador, por sinal, tende a desabastecer o mercado interno e não é nada bom para a gente, que só quer botar comida na mesa.

Para variar, não somos os convidados do banquete; somos o prato principal...