sábado, 22 de janeiro de 2022
segunda-feira, 5 de abril de 2021
Passé Composé
Le passé, on sait bien, est composé - de mémoires, d'oublis, d'inventions, de témoignages, d'imagination. C'est pour ça que l'Histoire est plutôt un art qu'une science. L'historien est celui qui, au dialogue avec ses sources, ré-compose le passé, que le temps insiste à décomposer.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
Sobre tédio, foco, estruturas, hábitos e métodos
Não creio que as sociedades e culturas humanas possuam uma "estrutura", para além de um nível meramente figurativo.
Tendo a seguir Bergson, quando qualifica o ser humano como um animal dotado do hábito de adquirir hábitos.
Com efeito, adquirimos hábitos de maneiras, no mínimo, curiosas. Após um mês na casa de minha mãe, usando o notebook dela, tenho sentido dificuldades ao utilizar o meu próprio, embora me acompanhe desde meados de 2017. Ao ligar o aparelho, meu primeiro impulso é de digitar a senha de minha mãe. Às vezes percebo o lapso no meio do caminho e corrijo a tempo, mas em outras recebo a resposta do sistema: "senha incorreta".
Não sou, decerto um estruturalista, no entanto reconheço que a análise estruturalista, em suas várias vertentes, ofereceu ao campo das humanidades valorosas contribuições - ao passo que os ditos "pós-estruturalistas" me parecem, via de regra, cronicamente perdidos em cacofônicas e pedantes reflexões, como cães correndo atrás dos próprios rabos, em estranhas misturas de niilismo e solipsismo.
Não à toa Nietzsche, padroeiro dos pós-estruturalistas encerrou seus escritos com uma carta a Jacob Burckhardt, onde afirmava que - contrariamente a seus projetos - fora impedido de tornar-se professor universitário pela necessidade de virar Deus. Logo depois foi hospitalizado em uma instituição psiquiátrica e, até onde se sabe, não escreveu mais uma linha sequer.
Em todo caso, há que se reconhecer que o mérito maior da abordagem estruturalista é seu rigor metodológico - embora, em alguns casos, tenha um que de rigor mortis.
Retornando a Bergson, me encanta notar o modo discreto, mas constante e consistente, com que figura na obra de Lévi-Strauss. Me pergunto se o autor das "Mitológicas" chegou a frequentar os cursos do célebre Nobel de Literatura no Collège de France - cronologicamente falando, é não apenas possível como muito provável.
Concluo, muito provisoriamente, que uma das grandes conquistas do projeto estruturalista foi esquadrinhar com rigoroso método, não exatamente o modo pelo qual nós, humanos, adquirimos e desenvolvemos hábitos, mas ao menos os complexos, variados e dinâmicos fenômenos sociais e culturais que emergem de nossos hábitos desenvolvidos.
Se nos movemos em um constante "élan vital", como diria Bergson, a metodologia estruturalista ao menos foi (e ainda é) capaz de realizar um minucioso registro dos momentos que compõem esse movimento, um pouco como a câmera fotográfica, no abrir e fechar de seu obturador, consegue capturar, nos limites de seu quadro, um trecho de uma realidade mais ampla, embora sempre evanescente.
Por sinal, o próprio nome "obturador" dá o que pensar - a função da peça é ambígua: preservar o filme fotográfico de exposição à luz durante a maior parte do tempo. Um obturador permanentemente aberto só pruziria fotos "vazias" de imagens e significados. Para ser eficaz, a abertura do obturador precisa ser realizada apenas no instante correto.
Vale notar ainda que, assim como as antigas câmeras analógicas só revelavam sua "presa" muito após o clique, não é senão longas e maduras reflexões que conseguimos entender aquilo que se passou conosco ou com nossos semelhantes, em algum momento-lugar do sempre fluido espaço-tempo.
Como seres paradoxais que somos, é por paradoxos que nos conhecemos. Quando eu finalmente estiver bem afinado com a senha de meu próprio computador provavelmente cometerei lapsos com a senha do dispositivo de minha mãe. Talvez, até lá, o "obturador" de minha mente esteja funcionando melhor.
Finalizo citando uma instigante reflexão do crítico literário Colin Wilson com a qual "esbarrei" há poucas horas:
"Boredom is one of the great mysteries of psychology. It seems to be a matter of focusing, like focusing a very powerful microscope or telescope; and we are just not very good at focusing. 'Focusing' occurs in moods of serenity or of creative excitement. Its greatest enemy is the ordinary, noisy distractions of everyday reality".
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Insegurança como virtude
Acredito que o ativo mais importante que preciso proteger e cultivar é minha arraigada insegurança intelectual. Meu lema é: "minha principal atividade é provocar aqueles que se levam a sério demais e levam o valor do seu conhecimento a sério demais". Cultivar essa insegurança no lugar de uma confiança intelectual talvez seja um objetivo estranho - e difícil de executar. Para tanto, precisamos limpar nossa mente da tradição recente de certezas intelectuais. Uma leitora que se transformou em minha correspondente me fez redescobrir Montaigne, o ensaísta francês e profissional introspectivo do século XVI. Fui absorvido pelas implicações da diferença entre Montaigne e Descartes - e por como nos desviamos procurando pelas certezas deste último. Fechamos a mente ao optar por seguir o modelo de pensamento formal de Descartes em vez da variedade vaga e informal (mas crítica) do raciocínio de Montaigne. Meio milênio depois, o gravemente introspectivo e inseguro Montaigne ainda figura como firme exemplo para o pensador moderno. Ademais, ele apresentava uma coragem excepcional: sem dúvida é preciso ter coragem para permanecer cético; é necessária uma coragem desmedida para ser introspectivo, para enfrentar a si mesmo, para aceitar as próprias limitações - os cientistas encontram cada vez mais evidências de que somos especificamente projetados pela mãe natureza para nos enganarmos.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Viral
Nassim Nicholas Taleb
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Transformação
quarta-feira, 26 de junho de 2019
segunda-feira, 18 de março de 2019
Olavo, o Sofista
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Pensamentos datados
Como bem sabiam os românticos piratas, tudo é uma questão de "abordagem" - e também de não abandonar prematuramente o navio. Muitos naufrágios podem ser evitados com diligente esforço da tripulação - e quantas reflexões interessantes afundam por falta de esforço... Quanto tempo se perde requentando problemas e reinventando a roda!
Tudo parece datado para os apressados; tudo é velho demais para os apaixonados por modismos. A boa produção intelectual não é trabalho de afobados.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Instinto, liberdade, hábito
Consideremos duas linhas divergentes de evolução e sociedades na extremidade de uma e de outra. O tipo de sociedade que parecerá mais natural será evidentemente o tipo instintivo: o laço que une entre elas as abelhas da colmeia se parecem muito mais com aquele que retém juntas, coordenadas e subordinadas umas às outras, as células de um organismo. Suponhamos um instante que a natureza tenha querido, na extremidade desta outra linha, obter sociedades onde uma certa latitude fosse deixada à escolha individual: ela terá feito com que a inteligência obtivesse aqui resultados comparáveis, quanto à sua regularidade, àqueles do instinto na outra; ela recorreria ao hábito. Cada um desses hábitos, que se poderá chamar "morais", será contingente. Mas seu conjunto, quero dizer o hábito de contrair hábitos, estando na base mesmo das sociedades e condicionando sua existência, terá uma força comparável àquela do instinto, em sua intensidade e em sua regularidade. Aí está precisamente aquilo que nós chamamos "o conjunto da obrigação" ["le tout de l'obligation"].
![]() |
| Uma convenção tornada poderosa - pero no mucho - pelo hábito. |
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Entre mosquitos e canhões
O exuberante trecho acima foi extraído de um artigo acadêmico sobre um antigo livro manuscrito de receitas culinárias. No cômputo geral, o artigo é até honesto no objetivo a que se propõe; questiono, no entanto, a necessidade de malabarismos teórico-filosóficos expostos em alguns parágrafos como o transcrito acima.
Me parece um espécime interessante por oferecer uma demonstração curiosa do quanto alguns trabalhos acadêmicos se perdem em deslocados exercícios de virtuosismo, cuja necessidade me parece muito duvidosa.
Por vezes tenho a impressão que alguns intelectuais, contrariando a sabedoria (supostamente) chinesa, acham que é necessário usar canhões para matar mosquitos. Por sinal, os japoneses costumam dizer que a excelência se caracteriza pelo máximo de resultado com o mínimo de esforço - e não o contrário...
![]() |
| "Não use um canhão para matar um mosquisto", teria dito Confúcio... |
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Historiadores não são donos da "verdade"
Não é para acreditar cegamente no que historiadores e livros de História dizem, mas não significa que você não deve levar em consideração suas análises e preocupações. E a partir daí refletir, questionar e tentar formar sua opinião.
sábado, 24 de dezembro de 2016
História Pública e onde habita
terça-feira, 3 de maio de 2016
Impérios, culturas e "globalização"
"Até agora, a ciência histórica não tem se preocupado com as unidades espirituais que são as civilizações, mas, somente, com as unidades políticas, o Estado e o Império. Tem-se buscado dar a eles uma interpretação em termos raciais ou políticos, em vez de relacioná-los à cultura mundial ou à vida regional. Uma vez que consideremos raça como divorciada da região e da civilização, ela se torna uma abstração perniciosa, a qual falsifica toda a visão histórica. Disso são testemunhas as falsas generalizações de historiadores ingleses e alemães de meados do século XIX, além do curioso misticismo racial de escritores como Houston Stewart Chamberlain. Ainda mais comum e perigosa é a errônea leitura da história de cunho político-imperialista, a qual sempre justifica o vencedor, medindo os valores sociais sob o ponto de vista do poder material. Esse é o erro que está na base da maior parte de nossas concepções errôneas de progresso, o qual forja uma falsa ideia sobre os meios de unificação social. Diferentemente da civilização que se configura como uma cooperação espiritual de sociedades regionais, o imperialismo se estrutura através de uma unificação forçada e externa, a qual pode ferir ou até mesmo destruir os delicados organismos da vida local. Ele só pode ter real valor para uma cultura se atuar como servidor de uma unidade cultural ou de uma força espiritual que já exista, como no caso do Império Romano, que se apresentava como servidor do helenismo, do Império Bizantino, servidor do cristianismo, ou do Chinês, servidor do confucionismo. Nos últimos cinquenta anos, o imperialismo, seja ele de ordem militar ou econômica, tendeu a prevalecer sobre o elemento espiritual na sociedade mundial europeia. A organização econômica do mundo ultrapassou, em muito, sua unidade espiritual, e o desenvolvimento natural da vida regional tem sido reprimido, ou simplesmente substituído, por um poder mundial menos vital, mas mecanicamente mais forte. Portanto, a grande cidade moderna, em vez de realizar a verdadeira vocação da cidade, que é promover o encontro e o casamento entre a região e a civilização, acaba não sendo nem regional, nem cultural, mas apenas o mero produto de uma indústria mundial e de um imperialismo econômico.
Essas forças são, de fato, parte de um movimento de degeneração, assim como de crescimento, ainda que elas tenham sido saudadas mundo afora como as reais depositárias da civilização e do progresso. O verdadeiro progresso, todavia, não consiste num avanço quantitativo em riqueza e em números, nem mesmo num avanço qualitativo em tecnologia e controle dos recursos materiais, apesar de todos eles desempenharem um papel secundário em seu movimento. O fator essencial do progresso corresponde a um processo de integração, uma união crescente entre o espírito de toda a civilização e a personalidade da sociedade local. Essa evolução de uma consciência de grupo mais rica e mais plena pode ser traçada na história de todas as épocas que nos são conhecidas. Linhas de progresso parcial, contínuas melhorias nas artes, por exemplo, são obscuras e frequentemente é impossível rastreá-las, mas esse grande movimento de integração, o qual tem prosseguido, quase sem interrupção, da aurora da civilização nos vales dos grandes rios até o presente momento, é real e incontestável. Também não podemos dispensar como mera utopia a ideia de que esse processo continue até que a humanidade como um todo encontre expressão social - não necessariamente sob um Estado - mas numa civilização comum e numa consciência comum -, uma síntese na qual cada região leve sua contribuição para o todo, sem perder sua própria alma sob a pressão da mão morta do imperialismo mundial".
quinta-feira, 17 de março de 2016
Estopins
Marx escreveu que a História não se repete, a não ser como farsa. Ok. Mas sempre existe a possibilidade de percebermos padrões. Dito isso, entendo que antes de toda grande mudança, se ouve o estalar de um fato que desencadeia a tempestade.
É o "estopim", aquele fato simples e único que dá início ao caos.
O martelar na porta de uma catedral, um apertar de mão que é recusado, o assassinato de um herdeiro, a tomada de uma fortaleza, a recusa de um parlamento a cumprir uma ordem, a invasão de um país neutro, um discurso na central do Brasil, uma carta forjada, um general que sai com seu exército em marcha...
Qual será o NOSSO estopim?
Quem vai identificá-lo como tal?
O que vai acontecer depois disso?
Parafraseando Pascal, são esses espaços vazios que me assustam...
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Objetividade, subjetividade e intersubjetividade
Na maior parte das vezes, aquilo que ilusoriamente tomamos por objetividade não passa de intersubjetividade. Por outro lado, na maior parte do tempo, nossa subjetividade está calcada nas relações que mantemos com outros sujeitos (humanos ou não), constituindo verdadeiramente uma experiência intersubjetiva, por mais sutil que possa parecer essa intersubjetividade.
No fundo, talvez não existam realmente objetos no sentido próprio do termo, apenas sujeitos de diversas naturezas e as interações entre eles, constituindo um amplo, múltiplo e complexo campo de relações intersubjetivas, dentre as quais algumas se nos afiguram, de modo provisório, efêmero e um tanto arbitrário como relações sujeito-objeto. Isso é particularmente verdadeiro para as ciências humanas e biológicas, mas creio que, com as devidas ressalvas, também se aplique em alguma medida às exatas.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
O louco e o poste
-Está procurando alguma coisa?
-Sim, perdi minhas chaves!
-Deixe-me ajudá-lo.
-Oh, muito obrigado!
Os dois homens procuravam e procuravam, mas... nada. Lá pelas tantas, o sujeito prestativo se dirigiu ao outro:
-O senhor tem certeza de que perdeu suas chaves embaixo desse poste?
-Na verdade, tenho certeza de que não perdi aqui... Mas se já está difícil encontrar aqui na luz, imagina só procurar ali no escuro!
***
Essa é uma velha piada, com várias versões, mas que sugere uma preciosa lição. Há muita escuridão e muitas chaves perdidas por aí. E muitos loucos presos a seus postes...
domingo, 26 de julho de 2015
Clio mutilada - Escalas e proporções
Há muitos anos, nós historiadores temos deixado de lado, consciente ou inconscientemente, as "grandes narrativas". As sínteses amplas e ousadas parecem nos intimidar cada vez mais, devido a considerações de caráter teórico, metodológico e, muitas vezes, ideológico. Também não me parecem desprezíveis as pressões de ordem prática, promovidas pelo sistema acadêmico vigente, especialmente as políticas de financiamento à pesquisa.
Muito se tem discutido as escalas de análise, mas a verdade é que optamos por recortes analíticos cada vez menores: regiões geográficas por vezes ínfimas, intervalos de tempo breves (ou brevíssimos), trajetórias individuais, e por aí afora.
Enxergamos cada vez melhor as árvores, mas parece cada vez mais difícil perceber a floresta ("Há floresta?" - perguntariam os pós-modernos de plantão).
Mas, no fim das contas, me pergunto: temos um problema de escala ou de projeção?
Desde o século XVI, nossos primos geógrafos lidam, de modo bastante visceral, com problemática semelhante: como representar adequadamente um planeta esférico e tridimensional sobre um suporte plano (logo, bidimensional)? Essa defasagem de uma dimensão representa tremendo desafio, implicando, grosso modo, na perda de "um terço" da realidade.
Uma maneira relativamente simples de lidar com essa questão consiste no uso de escalas cartográficas relativamente amplas (quanto maior a escala, menor a área representada), onde o fator de distorção é consideravelmente amenizado. Reduz-se o mundo a uma coleção fraturada de cartas locais, cujo cotejo fornece uma imago mundi relativamente inteligível e coerente, mas perdendo-se boa parte de sua coesão. Obtemos uma soma de quadriláteros que jamais chegarão perto da esfera: jogamos fora a curvatura, produzimos uma Terra mutilada, picotada, desconjuntada.
A representação holística e sintética de nosso planeta conduz inevitavelmente à elaboração de projeções variadas, recorrendo a diversos e complexos artifícios geométricos e matemáticos. Ao longo dos últimos séculos a ciência cartográfica desenvolveu e aperfeiçoou inúmeras formas de projeção bidimensional da Terra. Basicamente, cada projeção permite representar de forma acurada e precisa algum aspecto específico da esfera terrestre, preservando e privilegiando determinados ângulos, proporções, formas e dimensões em detrimento de outro ângulos, proporções, formas ou dimensões. Podemos ter representações fidedignas de paralelos, meridianos, continentes, oceanos ou regiões polares, mas nunca de todos ao mesmo tempo. Ainda assim, cada uma dessas projeções fornece uma aceitável impressão de conjunto de nosso planeta. Além disso, o cotejo crítico entre essas diversas projeções nos permite melhor aquilatar o efeito de suas respectivas distorções.
Por outro lado, é importante lembrar que as escalas que privilegiam a representação regional escamoteiam, mas não escapam às problemáticas de projeção - apenas as tornam menos perceptíveis e, portanto, muito mais traiçoeiras. Por menos atenção à floresta, tendemos a olhar as árvores de modo mais descuidado.
Retornemos aos domínios de Clio e à questão das "grandes narrativas": num mundo globalizado, cujas partes se tornam cada vez mais integradas, elas me parecem imprescindíveis. No entanto, como viabilizá-las? Como problematizá-las de modo satisfatório? Creio que um caminho possível seria justamente a escolha e a elaboração conscienciosas do que poderíamos pensar como "projeções historiográficas". Em grande medida, a problemática central das projeções geométricas gira em torno de ângulos, especialmente da determinação de ângulos específicos que permitam transpor e traduzir satisfatoriamente certas características do espaço representado ao suporte desejado. De certa maneira, trata-se de um exercício de distorção controlada, segundo uma perspectiva cuidadosamente selecionada, a servir como fio de Ariadne nos labirintos do espaço.
Nesse sentido, qualquer "grande narrativa" será sempre distorcida a partir de determinada perspectiva - trata-se de contingência incontornável. Por outro lado, tal como sucede em cartografia, as microescalas não evitam ou impedem distorções, apenas as tornam mais difíceis de detectar ou perceber. A partir de minha breve experiência como historiador, tenho a impressão de que a forma mais comum de distorção promovida pelo recurso às "pequenas narrativas" é a perda ou o escamoteamento de uma das dimensões mais essenciais da experiência histórica, a diacronia. Ora, me parece que o predomínio de uma História sem diacronia nos conduz, perdoem-me o exagero, a mutilar Clio. E para que nos servirá Clio mutilada, picotada, desconjuntada?
Sendo a arte da projeção uma questão de selecionar ângulos, parece-me que o principal problema na elaboração de uma "grande narrativa" é a escolha de uma perspectiva capaz de nos guiar pelos labirintos do tempo - um fio de Ariadne. Como ditam os princípios da projeção, tal escolha implica em determinar o que desejamos ganhar através da "grande narrativa", mas também o que estamos dispostos a perder em seu processo de formulação.
Minhas primeiras reflexões em torno dessa questão datam de 2012, quando escrevi meu terceiro livro, A ilha e o tempo, dedicado à história dos 400 anos da cidade de São Luís do Maranhão. Agora me dou conta de que o "tempo" foi meu labirinto, enquanto a "ilha" me serviu como fio de Ariadne. Concebi esse trabalho segundo um duplo artifício: narrar a história de São Luís a partir de uma perspectiva global, simultaneamente narrando a história do mundo a partir de uma perspectiva ludovicense, promovendo um jogo de reflexos e refrações, a partir da experiência de diversos personagens que vivenciaram São Luís ao longo de seus 400 anos.
Para tanto, me inspirei particularmente na noção matemática de fractalidade, entre outros modelos vagamente inspirados pelas ciências exatas. Tais ruminações renderam uma espetacular madrugada de diálogo com meu "irmão" Kainã, jovem físico de grande perspicácia - na verdade, essa instigante tertúlia interdisciplinar vem, desde então, suscitando inúmeros questionamentos acerca de diversas problemáticas ontológicas, bem como sobre as múltiplas possibilidades de diálogo entre as ciências humanas e exatas.
Durante boa parte do século XX os historiadores buscaram ferramentas nas ciências exatas, especialmente na Estatística, com a finalidade mais ou menos explícita de alcançar novos patamares de objetividade científica. Essa abordagem rendeu resultados consideráveis em determinadas áreas, especialmente na história da economia e da demografia, mas hoje muitos olham com desdém para essa historiografia dita "serial". Por sinal, me parece que o colapso dessa abordagem corresponde, em grande medida, ao desenvolvimento do ceticismo acerca das "grandes narrativas".
Havia implícita nesse modelo, creio eu, uma concepção estritamente "denotativa" da Matemática e de seus recursos de modelação da realidade. Penso que talvez seja o momento de retomar o diálogo historiográfico com as ciências exatas, sobre novas bases, especialmente buscando na linguagem matemática um potencial "conotativo", não capaz de ancorar objetivamente a História no concreto, mas de ampliar nossas possibilidades de abstração em torno da experiência histórica, inspirando novos olhares, capazes de formular "grandes narrativas" de modo criativo e inovador - algo como uma "hermenêutica matemática" (ou uma "retórica matemática"), capaz de expressar ou sintetizar as experiências do ser humano no tempo através dessa linguagem cujas potencialidades, literalmente, tendem ao infinito.
Por que não?
Esse texto só existe devido a inúmeras pessoas, especialmente minha esposa, Priscila, verdadeira co-autora de A ilha e o tempo, meu ex-orientador e sempre amigo, Rodrigo Bentes Monteiro, o embaixador Vasco Mariz, o Prof. Sebastião Moreira Duarte, o Dr. Luís Mário Duarte, os "irmãos" Kainã e Igor, e os amigos Roger Marques e Fred Oliveira, entre outros companheiros de jornada e de lutas.
domingo, 31 de maio de 2015
Leituras - "Bloodlust", de Russell Jacoby
Composto por quatro ensaios, o livro discute uma curiosa teoria, a de que a violência humana se canaliza principalmente para aqueles que estão mais próximos, em termos culturais, ideológicos, religiosos, etc. Segundo Jacoby, as "pequenas diferenças" causam mais ódio e violência que as "grandes diferenças". Seu ponto de partida são os mitos de Caim e Abel e dos gêmeos Rômulo e Remo, exemplos arquetípicos de disputa e assassinato entre irmãos. Ao longo dos ensaios, o historiador nos conduz através de diversos conflitos fratricidas, desde as Guerras de Religião na França quinhentista aos recentes conflitos nos Bálcãs, passando por inúmeras guerras civis e genocídios.
O argumento é muito bem desenvolvido, através de inúmeros exemplos. Como salienta Jacoby, o massacre de São Bartolomeu não foi promovido por pessoas estranhas, mas por vizinhos e parentes, gente que se conhecia e convivia cotidianamente. Da mesma forma, as comunidades judaicas na Alemanha antes do Holocausto não constituíam um povo distante e extremamente diferenciado; pelo contrário, os judeus alemães eram bem integrados, tendo desde o século XVIII assimilado os valores da cultura alemã, em relação à qual nutriam sentimentos de pertença. Por sinal, alguns dos mais virulentos antissemitas vinham de famílias judaicas convertidas mais ou menos recentemente. Outro caso curioso é o de Mohamed Atta, um dos participantes dos atentados de 11 de Setembro. Atta não era um completo estranho à cultura ocidental: era formado em Engenharia e Arquitetura, tendo defendido tese de mestrado na Alemanha. Seu ódio ao Ocidente vinha da ameaçadora proximidade, não da distância.
Mas como explicar esse perturbador paradoxo?
Jacoby propõe algumas soluções, recorrendo ao diálogo interdisciplinar, especialmente com a Antropologia e a Psicanálise. O historiador lança mão da noção de "desejo mimético", proposta pelo pensador René Girard: a proximidade cultural instigaria desejos semelhantes, promovendo e acirrando conflitos e rivalidades.
Bloodlust propõe uma reflexão curiosa, ao mesmo tempo que nos deixa questionamentos inquietantes. Um livro fascinante.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
O mal-estar da classe média
Coisa curiosa, a classe média - especialmente a classe média "de esquerda", que adora enxovalhar... a própria classe média. Ou a "classe mérdia", como gostam de dizer enquanto pregam a consciência... "de classe". Mas consciência de classe alheia - se arrogam o título de procuradores políticos do povão, enquanto os pobres, geralmente, aspiram subir à classe média - ou simplesmente querem ficar ricos, de preferência jogando futebol. Duvida? Entreviste uns 20 alunos de escola municipal.
Já dizia Joãozinho Trinta: quem gosta de pobreza é intelectual; pobre gosta é de luxo. Aliás, intelectual gosta da pobreza dos outros; morar na favela que é bom... Vista de longe, bem longe, a pobreza é uma coisa admirável.
Nesse sentido, os "pensadores" [?!] reacionários têm alguma dose de razão quando criticam a "esquerda caviar" ou a "esquerda festiva".
Quando vejo proprietários ou herdeiros de imóveis fazendo mochilão na Europa e apedrejando a "classe mérdia", penso em, sei lá... telhados de vidro?
Felizmente, vivemos numa época em que qualquer um consegue se dizer oprimido por algo ou alguém. A não ser que você seja homem, branco e heterossexual - a epítome da opressão.
Cá entre nós, acho que esse pessoal podia buscar construir uma identidade como trabalhadores de classe média...





