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Mostrando postagens com marcador Gandhi. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O ópio e a espada

Manter-se fiel a princípios e convicções é extraordinariamente difícil neste mundo onde as multidões buscam o conforto das conveniências e o inebriante ópio das verdades fáceis. A pureza é uma fantasia malsã, mas o cinismo é um veneno lento e impiedoso; encontrar a justa medida e o caminho do meio é como buscar estrelas em noite de tempestade. Espada e bainha são feitas uma para a outra; a sabedoria consiste em escolher o momento certo para desembainhar - nem cedo, nem tarde. Mas quem saberá reconhecer tal momento? O prudente morre em sua hesitação e o tolo em sua precipitação. Todos morreremos. Corajoso é apenas aquele que, apreciandoo verdadeiro valor da vida, não busca nem evita a morte. Só se vive verdadeiramente quando espada e bainha se movimentam em perfeita sincronia, sem atraso ou afobação. Ao homem sincero não apavoram cruz, cicuta, exílio ou ostracismo. Aquele que vive temendo a morte já morreu e ainda não sabe.




quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Gandhi e a Democracia nos EUA

Trecho de resposta de Gandhi a um americano, publicada no jornal Harijan, em 18 de maio de 1940

Minha noção de democracia é que, sob ela, os mais fracos devem ter a mesma proteção que os mais fortes. Isso não pode acontecer jamais a não ser através da não violência. Atualmente, nenhum país no mundo mostra uma consideração condescendente com os vulneráveis. O mais fraco, como é dito, vai para o paredão. Observe o seu próprio caso: sua terra pertence a alguns proprietários capitalistas. O mesmo se aplica à África do Sul. Essas grandes propriedades só podem ser sustentadas pela violência velada, ou até mesmo aberta. A democracia ocidental, como funciona hoje, é diluída no nazismo ou no fascismo. Na melhor das hipóteses, é apenas uma capa para esconder as tendências nazistas e fascistas do imperialismo. Por que existe a guerra hoje, se não para a satisfação do desejo de compartilhar os despojos? Não foi através de métodos democráticos que a Grã-Bretanha colonizou a Índia. Qual é o significado da democracia sul-africana? Sua própria Constituição foi elaborada para proteger o homem branco contra o homem negro, o ocupante natural. Sua própria história é talvez ainda mais sombria, apesar do que os estados do Norte fizeram pela abolição da escravidão. A maneira como vocês têm tratado os negros apresenta um registro desonroso. E é para salvar essas democracias que a guerra [II Guerra Mundial] vem sendo travada. Há algo muito hipócrita nisso.
Exemplo de segregação racial institucionalizada no sul dos EUA através das chamadas "Leis Jim Crow".

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Nehru e o "Socialismo à indiana"

 Trecho de entrevista concedida pelo presidente da Índia Jawaharlal Nehru (um dos colaboradores mais próximos de Gandhi) em 1962


"Não somos socialistas doutrinários. Queremos simplesmente conduzir esse país à prosperidade a longo prazo e, mais imediatamente, elevar o nível de vida [da população] e reduzir as disparidades sociais. Para isso, agimos sobre a economia, mas deixando bastante espaço à empresa privada: uma parte da grande indústria, toda a pequena e média, e toda a agricultura escapam ao setor público. No campo, encorajamos as cooperativas, mas não temos nenhuma intenção de chegar ao coletivismo. Ainda uma vez, não somos socialistas doutrinários. Avançamos passo a passo, nos esforçamos para resolver problemas pacificamente. Não se esqueça, por exemplo, que, se destronamos os marajás, lhes deixamos seus palácios, suas imunidades, seus privilégios e lhes dotamos até a morte de uma lista civil muitas vezes considerável. Note-se, buscamos em toda ocasião seguir a via democrática".

Nehru ao lado de Gandhi


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

"Um autor quase sempre apresenta apenas um aspecto de um caso, mas qualquer caso pode ser visto de pelo menos sete ângulos, todos provavelmente corretos em si mesmos, mas não corretos ao mesmo tempo e nas mesmas circunstâncias".
Gandhi

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Gandhi era um misógino pervertido?

Volta e meia surgem acusações polêmicas, sensacionalistas e pouco fundamentadas em torno da interessantíssima figura de Mohandas Karamchand "Mahatma" Gandhi (1869-1848). Algumas delas são sobre racismo (tema que não será tratado aqui) e outras o qualificam como misógino, pervertido, abusador de mulheres em seus polêmicos "testes de castidade", praticante de violência doméstica, entre outras menções pouco edificantes. Os exemplares dessas correntes polêmicas são inúmeros, como essa superficial e tendenciosa resenha do autobiográfico Minha vida e minhas experiências com a verdade; ou esta sensacionalista matéria sobre o legado de misoginia deixado por Gandhi, que atormentaria ainda hoje as mulheres indianas; ou ainda esse texto que pinta Gandhi como um verdadeiro bicho-papão e circula na Internet há alguns anos, respondido por uma crítica interessante, mas que não dá conta de todo o assunto.

Curiosamente, a maior parte dos (supostos) "podres" de Gandhi foi exposta por ele mesmo em seus escritos públicos. De resto, muitas atitudes dele podem soar hipócritas para nós, ocidentais, mas possuem um contexto na mística Brahmacharya, que ele seguia. Existem muitos aspectos complexos, contraditórios e paradoxais na vida de Gandhi, e ele mesmo nunca fez questão de escondê-los, mas esses aspectos volta e meia são usados em polêmicas sensacionalistas e maniqueístas cujos objetivos são mais de difamar sua imagem e seus pensamentos que de compreender o homem Gandhi em toda sua fascinante complexidade. Estudo profundamente a trajetória de Gandhi há quase 20 anos e já li um bocado sobre o assunto; o presente texto é uma tentativa de alinhavar uma análise crítica, mas generosa, sobre o personagem.
Geralmente pensamos em Gandhi apenas a partir de sua queda de braço com o Império Britânico, mas ele também foi um profundo crítico da Índia de seu tempo - o que já dá muito que pensar. Foi a figura mais visível a combater o sistema de castas (isso não é pouca coisa), teve uma preocupação vital e visceral em garantir a integração dos párias à sociedade, foi um severo crítico da miséria em que a maior parte da população da Índia vivia, explorada pelas próprias elites indianas. 

Gandhi incomodou muita gente - britânicos e indianos, hindus e muçulmanos e por aí vai. Ele nunca foi uma unanimidade, mas provavelmente ele era a rainha no lado indiano do xadrez (para desagrado de muitos de seu próprio "lado"). 

Acho triste o modo como muita gente, por agendas ideológicas variadas ou por puro deleite iconoclasta, tenta diminuir e depreciar a figura de Gandhi. Mas isso faz parte do jogo de extremos com que sua figura foi historicamente construída: parece que só conseguimos pensar em Gandhi enquanto um santo imaculado ou o mais sórdido dos pecadores - ele mesmo, como escreveu muitas vezes, sabia que não era nem uma coisa, nem outra. O apelido de "Mahatma", "Grande Alma", o incomodava profundamente, por conhecer seus próprios defeitos.

Já em 1949 o célebre escritor Geroge Orwell publicou um hoje clássico texto sobre Gandhi, onde o tratava de maneira crítica, mas extremamente respeitosa e equilibrada. Ainda hoje, escrever sobre o pitoresco personagem indiano de maneira ponderada é uma tarefa difícil para historiadores e biógrafos.

Começando pelas acusações de violência doméstica, nunca vi nenhum biógrafo sério mencionando isso. Gandhi e Kasturba casaram muito cedo, num matrimônio arranjado. Ele tinha 13 anos e ela era ainda mais nova. Eles brigavam literalmente por causa de brinquedos (dizem). De qualquer forma, o próprio Gandhi, em seus escritos autobiográficos, sempre profundamente autocríticos, reconhece que era um marido imaturo e mesquinho nos primeiros anos de matrimônio. Em todo caso, a afirmação de que ele batia na esposa carece de fundamentos historiográficos, até onde vão meus conhecimentos.

Quanto à misoginia, vale lembrar que Gandhi sempre destacou a centralidade de sua mãe em sua formação moral e espiritual. Ela era uma mulher muito religiosa e devota, e deixou marcas indeléveis em sua personalidade nesse sentido. Ele tinha verdadeira veneração pela mãe, em sentido muito profundo. As palavras que escreveu sobre sua mãe dificilmente caracterizariam uma personalidade misógina. Em sentido mais amplo e genérico, em escritos públicos e privados, Gandhi falava sobre as mulheres de modo muito positivo, em sentidos inclusive espirituais. Ele considerava mesmo ter características de personalidade femininas muito desenvolvidas e afirmava que gostaria de reencarnar como mulher.

Por outro lado, a cultura hinduísta tinha (e ainda tem) posturas muito ambíguas acerca da mulher e de sua pureza, como salienta a antropóloga Mary Douglas. Cabe (ou cabia) à mulher, em grande medida, a preservação da pureza ritual de toda a família, em termos sexuais, alimentares, entre outros. Em grande medida isso estava ligado ao sistema de castas, cabendo à mulher preservar a família da contaminação de impurezas derivadas do contato com castas inferiores; esse importante papel, por outro lado, acarretava pesadas cobranças por parte da família e da sociedade, em diversos aspectos. É interessante notar aqui que Gandhi foi certamente o principal defensor, ao menos o mais visível e notório, da abolição legal do sistema de castas e isso provavelmente impactou direta e indiretamente na condição social e na vivência cotidiana das mulheres na Índia (mas aqui já estou conjecturando, nunca li nada explorando essa questão específica).

Ora, Ghandi foi educado numa cultura repleta de ambiguidades sobre a mulher e seus papeis sociais e, obviamente, algumas dessas ambiguidades se refletiriam em suas próprias posturas e atitudes pessoais. Para se ter uma ideia da complexidade do contexto em que ele nasceu e cresceu, oito anos antes de seu nascimento ainda se praticava a cremação de viúvas (vivas!) junto com seus falecidos maridos em algumas regiões da Índia. A lei permitindo um segundo casamento para viúvas datava de apenas 13 anos antes. 

Feitas todas as contas, o modo como ele se expressava acerca das mulheres era bastante "progressista" - se podemos dizer assim. Em tudo isso devemos ter sempre em mente que seus anos de formação universitária na Inglaterra e seu contato com a cultura ocidental tiveram grande importância para ele, um homem que viveu entre diversas encruzilhadas culturais e cujo pensamento e vida resultavam de uma complexa síntese entre todos esses díspares elementos. Durante seu período de estudante em terras britânicas Gandhi pôde conviver com o emergente movimento feminista.

Quanto aos polêmicos "testes de castidade" a  que o personagem se submeteu em alguns momentos de sua vida, é necessário destacar que o binômio sexualidade-castidade sempre foi complexo para Gandhi, devido a uma experiência traumática de sua juventude. 

Assim que casou (aos 13 anos, lembremos), o jovem Mohandas desenvolveu intensa compulsão sexual, um comportamento realmente obsessivo - conforme ele mesmo relata. Pouco tempo depois, seu pai caiu doente, em estado gravíssimo. Em certa noite ficou encarregado de tomar conta do pai acamado, mas no meio da madrugada sua compulsão sexual o assaltou de tal forma que, sentindo-se incapaz de resistir aos impulsos, foi para junto da jovem esposa para satisfazer seu desejo. Durante sua breve ausência, seu pai passou pela crise final e faleceu inteiramente sozinho, sem qualquer socorro. 

O jovem Gandhi, em seus 14 ou 15 anos de idade, naturalmente, se sentiu extremamente culpado, passando a partir daí a viver sua sexualidade de modo bastante conflituoso, lutando para obter controle sobre o impulso que o afastara do pai no leito de morte. Como hindu fervoroso que era, graças à influência materna, o caminho natural era que ele buscasse as respostas para sua incontinência sexual entre as possibilidades que a tradição hindu lhe oferecia - e, como se sabe, ao longo dos milênios, o hinduísmo desenvolveu diversas correntes ascéticas que, ainda hoje, exercem grande influência social.

Durante os anos seguintes, até a maturidade, Gandhi passou a desenvolver um rigoroso ascetismo alimentar - passou a simplificar cada vez mais sua alimentação (era vegetariano desde a infância), passando a evitar temperos e condimentos, reduzindo severamente sua ingestão diária de alimentos e praticando jejuns prolongados. Em certo momento, passando por uma crise depressiva, assumiu voto de silêncio, se abstendo de falar durante um dia inteiro por semana - hábito que manteve até o fim da vida. Finalmente, Gandhi fez votos de pobreza e se desfez de todos os seus bens materiais - segundo ele, as posses mundanas que mais dificultaram essa decisão foram seus preciosos livros, pois ele era dono de uma considerável biblioteca à qual se sentia muito apegado.

Um dos aspectos essenciais do ascetismo de Gandhi era ligado à noção de responsabilidade: o indivíduo precisava assumir as consequências de seus prazeres, fossem eles alimentares ou sexuais. Por exemplo, ele considerava uma atitude errada que uma pessoa se alimentasse excessivamente e depois tentasse escapar das consequências ingerindo medicamentos (nada de Engov!). 

Da mesma forma, sustentava que, estando a sexualidade diretamente ligada à procriação, o uso de métodos contraceptivos também seria uma forma de fugir das consequências da sexualidade. Vale notar que ele adotava essa conduta para si mesmo, mas não a impunha a ninguém como norma geral (embora não saibamos se sua esposa pensava da mesma forma). 

Devido a essa atitude, ele e Kasturba chegaram a ter muitos filhos (cerca de sete, se não me engano). A certa altura, ficou muito difícil equilibrar o sustento e o cuidado de uma família cada vez maior com uma vida pública que se tornava cada vez mais intensa. Para conciliar essas dificuldades, só lhe restavam duas opções: usar métodos contraceptivos (o que ia contra seus princípios) ou partir para a abstinência sexual integral (o que exigia controlar seus intensos impulsos genésicos). Sempre fiel a seus princípios, Gandhi ficou com a segunda opção, embora fosse certamente a mais difícil e a mais dolorosa para ele e para sua esposa. Muito se discute sobre essa decisão, afirmando-se que Gandhi a tomou unilateralmente, contra a vontade de Kasturba. Lendo e relendo seus escritos, não sei se é verdade; é fato que ele não enfatiza muito a participação da esposa nessa deliberação e não sei se existem registros mais precisos sobre a reação dela a essa decisão.

Mas a questão não se resume a esses aspectos pragmáticos, e fica ainda mais complexa. Em paralelo a toda essa trajetória, Gandhi, que desde criança sempre fora muito religioso e devoto, passou a desenvolver grande interesse pela experiência mística em sentido mais profundo. Durante muitos anos empreendeu intensas buscas existenciais, com leituras aprofundadas sobre Cristianismo, Islamismo, Teosofia, entre outros assuntos e vertentes religiosas. Os dois textos que desde esse momento se tornaram a base para sua vida pública e fundamento para suas concepções de Satyagraha e Ahimsa foram o Sermão do Monte e o Baghavad Gita

Durante esse período ele também se aproximou de diversos praticantes de correntes místicas do hinduísmo, com eles mantendo ativa correspondência. Resumindo muito, foi justamente a troca epistolar com um desses "gurus" (o qual, salienta Gandhi, era casado e não praticava abstinência sexual) que lhe despertou a ideia de que o amor matrimonial mais profundo exigiria abstinência sexual, à medida que a expectativa de retribuição e gratificação sexual emprestariam aos demais gestos de afeto, carinho e cuidado um viés interesseiro; apenas onde não houvesse expectativa de retribuição sexual o amor poderia ser plenamente espiritual e desinteressado - isso diz muito sobre como Gandhi vivenciava sua sexualidade, mas não vamos nos aprofundar nesse caminho.

Resumindo, seu trauma de juventude, sua situação familiar e suas experiências místicas acabaram conduzindo Gandhi, após muita hesitação, a fazer votos de "Brahmacharya". Normalmente traduzido como "castidade", Brahmacharya é uma noção muito antiga e passível de múltiplas interpretações e variadas práticas dentro do hinduísmo, do budismo e do jainismo. Não sou profundo entendedor do complexo assunto, e não me arrisco além dos meus limitados conhecimentos. 

Para todos os efeitos, em determinada altura da vida Gandhi se tornou um brahmachari. Os famosos e polêmicos "testes de castidade" aos quais Gandhi se submeteu em vários momentos de sua vida não eram uma maluquice ou uma esperteza tirada da sua cabeça; eles faziam parte de antigas práticas ligadas ao Brahmacharya, que já começavam a se tornar raras à época de Gandhi. 

Esses testes se davam com conhecimento público; Gandhi, como qualquer outro brahmachari, nunca os fez às escondidas, sorrateiramente. Como se sabe, o teste para o praticante da castidade consistia em passar uma noite inteira nu, deitado na companhia de uma ou mais mulheres nuas; durante essa prova, o praticante não deveria ter sequer uma ereção ou pensamentos "impuros". Vale ressaltar que as mulheres que participavam desse tipo de teste o faziam com pleno consentimento; algumas das que passaram por esse gênero de experiência com Gandhi eram casadas com amigos dele, inclusive. Enfim, me parece difícil caracterizar tal situação como "abuso sexual" ou algo semelhante.

Para nós, ocidentais, esse tipo de exercício místico pode soar como impostura ou hipocrisia, mas o fato é que existem inúmeras práticas similares, sempre com conotação sagrada, dentro do universo místico hinduísta; como bem discute Victor Turner, um dos maiores antropólogos do século XX, tais práticas "bizarras" fazem todo o sentido em seu universo cultural e religioso específico. 

Qualificar Gandhi como um pervertido aproveitador simplesmente por participar desse tipo de "teste", que não foi inventado por ele e fazia parte de um contexto cultural muito mais amplo é uma atitude etnocêntrica de nossa parte. Fato é que muitos de seus amigos e companheiros o criticaram por essas decisões e tentaram dissuadi-lo, temerosos das possíveis repercussões negativas que tais práticas poderiam atrair, arranhando a imagem de Gandhi e, por conseguinte, desacreditando o movimento político do qual fazia parte. 

Fosse como fosse, Gandhi seguiu em frente com essas práticas "exóticas", que acreditava serem necessárias a sua prática como brahmachari, sem se importar com suas eventuais consequências políticas. Tal postura, da parte de um homem que abandonou todas as suas posses materiais, que jamais hesitou em se deixar surrar violentamente sem reagir durante protestos, que passou vários anos de sua vida encarcerado e que enfrentou longos jejuns que o levaram à beira da morte pela causa da emancipação indiana, permite supor que esses "testes de castidade" eram para ele algo muito sério, um ato místico-religioso realizado com profunda sinceridade. Ao longo de sua vida ele ofereceu testemunhos muito concretos de sua seriedade diante da vida; Gandhi era o tipo de pessoa que botava seus bens, seu corpo e sua alma em jogo destemidamente.

Quanto aos resultados de tais "testes", segundo as mulheres que deles participavam, Gandhi teria conseguido se manter sexualmente impassível em todas as ocasiões. Podemos confiar no testemunho delas ou sentir-se-iam intimidadas a revelar a verdade pela projeção social do "Mahatma"? Impossível saber com absoluta certeza o que se passou efetivamente nessas noites misteriosas (que, por sinal, não foram muitas). De qualquer forma, o ônus da prova cabe a quem desconfia desses relatos - e não o contrário. Ainda que, hipoteticamente, em alguma dessas ocasiões Gandhi tenha eventualmente cedido a pensamentos "impuros", tido uma ereção ou mesmo chegado a manter intercurso sexual, ficaria provada apenas sua incapacidade de se manter impassível diante de tentações às quais a maioria dos homens sucumbiria - não significando necessariamente que ele teria agido de modo desonesto e astucioso desde o começo. 

Usar isso para desqualificar toda a trajetória de Gandhi me parece intelectualmente desonesto. Eu, particularmente, acredito que ele teria possibilidades muito mais simples de manter relações sexuais ou cometer adultério às escondidas, através de subterfúgios variados, que inventando uma elaboradíssima e arriscada desculpa místico-religiosa EM PÚBLICO. Me parece pouco verossímil imaginar um homem que se desfaz de todos os seus bens, se entrega à pobreza, entrega seu corpo aos golpes do inimigo, se deixa encarcerar para depois inventar pífias desculpas para se entregar, por umas poucas horas, aos prazeres da carne, sabendo as repercussões daninhas que isso poderia trazer à sua reputação e, ainda mais importante, à obra de toda uma vida de pungentes sacrifícios - uma obra que ele sabia ser muito maior que ele mesmo. 

Em suma, Gandhi é uma das personalidades mais complexas, paradoxais, desconcertantes e fascinantes do século XX. Quaisquer que fossem suas falhas e limitações enquanto ser humano, ele deixou um rico e importante legado de pensamento e ação para a humanidade, fundamentada numa criativa síntese de linhagens intelectuais e religiosas do mundo inteiro. O belíssimo Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos é um dos frutos nascidos de sua semeadura, como sempre destacou Martin Luther King. 

Gandhi é uma figura histórica que deveríamos avaliar com toda a generosidade, e não buscando encontrar (ou mesmo inventar) fissuras com as quais derrubar tudo que ele nos deixou.

Gandhi em um de seus inúmeros jejuns político-religiosos, com que tantas vezes desafiou as autoridades britânicas ou apaziguou os ânimos dos indianos excessivamente revoltados.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

imperadores, Povos e Poetas

Apesar de nabucodonosor, herodes, nero, gengis khan, torquemada, napoleão iii, hitler, stalin, pinochet, thatcher e tantos outros, o Sol nunca parou de nascer, as Estrelas nunca pararam de brilhar e a Lua nunca cessou suas perpétuas transformações. Há Forças maiúsculas, apesar das pessoas minúsculas.

Existiram Sócrates, Jesus, Gandhi... Houve Bonaparte e houve bonaparte. As nuvens bloqueiam os Astros, mas não podem destrui-los. trump, temer, pezão, crivella... apenas nuvens. O Povo é um Vento que sempre volta a soprar. O Povo, dizia Victor Hugo, é um Oceano cujas marés, cedo ou tarde, afogam todos os tiranos. 

napoleão iii, "o pequeno" foi eleito em 1848 e cometeu seu golpe de Estado em 1851, mas foi escorraçado em 1870. O imperador sob sua coroa tremia ante a voz do Exilado sobre seu Rochedo. 

Amanhã haverá amanhã - e depois de amanhã, também: enquanto houver Povo, enquanto houver Profeta, enquanto houver Poeta, enquanto houver Pranto, enquanto houver Riso, enquanto houver Coração... Enquanto houver pesares, haverá Apesares... Enquanto houver nós, haverá Nós - e desataremos... 

A Semente desce à Terra para germinar - e enquanto houver Sementes, haverá Flores e aguardaremos os Frutos.

Breve diálogo sobre a calamidade fluminense

Taxista: Vai pra onde?

Eu: Vou pra Copacabana, mas como o Estado ainda não me pagou, pode me deixar no metrô de Maria da Graça.

Taxista: Eita, o pessoal fez a maior confusão lá na ALERJ.

Eu: Pois é. Tá brabo...

Taxista: Não concordo com isso...

Eu: Também sou contra todo tipo de violência...


Taxista: ...pra mim, tinham que quebrar o Palácio Guanabara! O "negócio" todo tá vindo de lá...!


Eu: É... Bem...


CONCLUSÃO: o pessoal quer ver sangue... Os governantes deviam temer 1789, mas o povo devia temer 1793... Estaremos no caminho da Vendeia...?! Sempre preferi Gandhi a Guevara...

domingo, 23 de outubro de 2016

Crivella e Luther King: 2 pastores entre política e religião



O pastor Martin Luther King Jr. nunca escondeu a foto acima. Pelo contrário, ela era um testemunho de sua luta pelo direitos civis e contra o racismo.

Também vale lembrar que Luther King tirou de suas convicções religiosas e princípios éticos a força moral para combater as leis racistas que existiam nos EUA. Luther King nunca usou seu prestígio religioso para lançar candidatura pessoal a cargos públicos, nem para caçar votos para políticos. Luther King representava a religião como força de libertação. Crivella representa a religião como força de dominação. Crivella é pastor e Luther King também era - a semelhança acaba aí: até onde sei, o heróico pastor do Alabama não andava de jatinho.

A maior inspiração de Luther King era o hindu Mahatma Gandhi. Crivella, por outro lado, escreveu que o hinduísmo é coisa do "capeta"... Tolerância religiosa de verdade é apenas mais uma coisa que Crivella desconhece. É fácil botar uma máscara de tolerância para conquistar votos - especialmente quando já se perderam tantas eleições no segundo turno devido a elevados índices de rejeição. A fala de Crivella é mansa como o sibilar da serpente...

domingo, 25 de agosto de 2013

Continuar a greve - riscos e oportunidades

Creio que não devemos parar a greve na segunda-feira. Esboço abaixo uma breve análise do que está em jogo caso aceitemos o (pré) acordo firmado na sexta-feira.

O que ganhamos efetivamente: nada de concreto.

O que perdemos até agora: nada.

O que arriscamos perder futuramente: alguns dias de salário. É tão trágico assim?

Qual é nosso trunfo: os dias que já ficamos (e ficaremos) parados. A SME precisa fechar os 200 dias letivos e sabe que não conseguirá cortando o ponto!

Reitero: não houve vitória. Estamos tão desmoralizados a ponto de achar que o prefeito fazer o MÍNIMO, negociar conosco, já é uma vitória?

Acabar a greve na segunda não é vitória. É derrota, e dos piores tipos: rendição sem luta.

Ninguém nos feriu ainda, e já vamos nos render? Não sacrificamos efetivamente NADA, e já vamos nos render? Nosso medo é tão grande assim?! Nosso egoísmo é tão grande assim?! Nossos ideias são tão superficiais?! Espero que não!

Não há verdadeira vitória sem verdadeiros sacrifícios, sem verdadeiras ansiedades e sem verdadeira coragem.

Como inspiração, esses trechos do filme Gandhi, retratando bastante fielmente a corajosa luta dos indianos por igualdade perante a lei na África do Sul...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Gandhi ensinando a lidar com as forças opressoras...

"A não-violência não consiste em renunciar a toda luta real contra o mal. A não-violência, tal como eu a concebo, é, ao contrário, uma luta contra o mal ativa e mais real que a da lei de talião, cuja natureza própria é desenvolver, com efeito, a perversidade. Considero que lutar contra o que é imoral pressupõe uma oposição mental e, consequentemente, moral. Busco neutralizar completamente a espada do tirano, não a trocando por um aço melhor, mas iludindo sua expectativa de encontrar em mim uma resistência física. Ele encontrará em mim uma resistência de alma que escapará à sua força. Tal resistência o deslumbrará e o obrigará a inclinar-se. E o fato de inclinar-se não humilhará o agressor, mas o enaltecerá. Podemos dizer que isto seria um estado ideal. E o é!"

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Palavras de Gandhi aos manifestantes do Brasil

"O erro não se torna verdade por se fundir e multiplicar facilmente. Do mesmo modo a verdade não se torna erro pelo fato de ninguém a ver".

"Só podemos vencer o adversário com o amor, nunca com o ódio".

"Unir a mais firme resistência ao mal com a maior benevolência para com o malfeitor. Não existe outro modo de purificar o mundo".

"O método da não-violência pode parecer demorado, muito demorado, mas eu estou convencido de que é o mais rápido".

"Oponho-me à violência pois quando ela parece produzir o bem, tal bem não tem senão resultado transitório, enquanto que o mal produzido é permanente".

(Fonte: Gandhi - O apóstolo da não-violência; Editora Martin Claret)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Perfil - Gandhi e a cultura ocidental

Não pretendo apresentar aqui uma biografia desse fantástico personagem, tanto pelo espaço insuficiente quanto por minha incapacidade de tentar algo nesse sentido. O objetivo desse post é apenas traçar pequeno esboço das relações de Mahatma Gandhi com a cultura ocidental, geralmente ignoradas ou esquecidas em favor de suas raízes hinduístas.

Ao contrário do que geralmente se acredita, o pensamento ocidental representa parte importantíssima de sua formação. Nesse sentido, convém lembrar que toda sua instrução formal foi de caráter ocidentalizante, tendo mesmo cursado o ensino superior na Inglaterra, onde se formou advogado. Por sinal, o próprio Gandhi se lamentava de seu conhecimento superficial a respeito de alguns ramos da filosofia hinduísta, como a ioga.

Duas influências devem ser particularmente ressaltadas sob esse aspecto. Uma delas é a do escritor russo Léon Tolstói, cuja leitura foi essencial na formação moral do ativista indiano. Para se ter uma ideia, em 1910, quando fundou uma comunidade de caráter utópico na África do Sul, muito antes de sua militância pela independência indiana, Gandhi a batizou como "Quinta Tolstói". De fato, muito de seu pensamento político, social e econômico (outra faceta pouco conhecida do líder) é tributário à leitura do russo. Aliás, segundo Pierre Meile, um de seus biógrafos já era leitor assíduo de Tolstói dez anos antes de sua primeira leitura do Bhagavad-Gita, um dos mais importantes textos da tradição religiosa hinduísta, como se sabe.

Outra leitura essencial em sua formação foi o pensador americano Henry David Thoreau, verdadeiro criador da noção de resistência passiva, conceito essencial da ação de Gandhi ao longo de toda sua vida política, desde as primeiras manifestações contra a obrigatoriedade do registro de indianos na África do Sul até sua longa luta pela independência da Índia. De fato, o consagrado termo Satyagraha ("busca da verdade") foi inicialmente pensado como "tradução" indiana da ideia de resistência passiva. Obviamente o conceito passou por amplos refinamentos posteriores, enriquecido por afluências de matriz hindu; contudo, seu ponto de partida estava em Thoreau.

Apenas a título de curiosidade, cabe apontar que um dos pensadores indianos mais admirados por Gandhi seria justamente o poeta Rabindranath Tagore, que chegou a qualificar como "o Sol da Índia". Também o genial Tagore entreteve profundas relações com a cultura ocidental, tendo feito estudos na Inglaterra e, ainda mais importante, sendo o primeiro escritor não-europeu a ganhar um Nobel de Literatura.

Certamente não se trata de afirmar que o pensamento de Gandhi era mera tradução "hinduizante" de conceitos ocidentais, como já li anos atrás em certo artigo da revista francesa Historia, o que seria banalizar sua situação de hibridismo cultural. Aliás, me parece que outro dos pilares de sua atuação, a noção de Ahimsa ("não-violência"), deve muito mais a seu contato com a cultura oriental, caminhando nos limites do hinduísmo e do budismo. Contudo, é muito instigante pensar sobre o grande alcance das reflexões que Gandhi pôde propor à cultura do século XX, a partir de sua estratégica posição na encruzilhada de diversas tradições culturais.

Talvez seja bastante produtivo pensá-lo como um indiano educado no seio da cultura ocidental e que, justamente por isso, foi capaz de reencontrar e interpretar a cultura indiana, especialmente hinduísta, de modo tão criativo e produtivo, dando origem a um dos movimentos mais inspiradores da história humana.