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Mostrando postagens com marcador América Latina. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Chaves, Café e Erotismo


No primoroso livro "O diário do Chaves", Roberto Goméz-Bolaños faz insinuações bem sugestivas sobre as famosas "xícaras de café" na casa 14 da vila. O menino Chaves, narrando em primeira pessoa, se pergunta ingenuamente o que Prof. Girafales e Dona Florinda passavam tanto tempo fazendo sozinhos lá dentro. 

No próprio seriado há um episódio em que o  Professor entra na casa de Dona Florinda e logo manda Quico desligar a TV e ir brincar na vila. O garoto protesta, mas a mãe diz que ela e Girafales precisavam "descansar"...

Eu era adulto quando li "O diário do Chaves" e confesso que fiquei um tanto... abalado. Especialmente porque a obra é do próprio Bolaños, então parece que a coisa sempre foi proposital, mais que uma insinuação tardia. Talvez uma piada para os adultos, inclusive porque no México não era um programa propriamente infantil; era transmitido pela Televisa para uma audiência ampla, nas noites de sábado. 

Chaves e Chapolim foram televisionados como programas "infantis" no Brasil, por opção do SBT. No entanto, inúmeros episódios possuem insinuações de caráter sexual, geralmente sutis. Há discretas referências a pornografia (as tais revistas do Seu Madruga), homossexualidade (especialmente no episódio em que vários personagens suspeitam de envolvimento homoerotico entre Seu Madruga e Prof. Girafales) e até a sadomasoquismo (o beliscão acidental de Prof. Girafales na "Bruxa do 71").

Minha geração era criança e cresceu vendo tudo com o mesmo olhar inocente. Mas imaginar que enquanto as coisas se passavam no pátio da vila havia gente (figurativamente) "haciendo amor" nos bastidores... Perturbador.

Nos choca perceber tardiamente que a relação entre Girafales e Florinda fosse além dos platônicos buquês de flores e xícaras de café...

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Getúlio Vargas e o Brasil na II Guerra Mundial

Extratos do livro Uma História do Brasil, de Thomas Skidmore

Em torno de 1934, o tipo de confronto geopolítico europeu já estava se tornando claro. A Alemanha nazista tinha seus olhos não apenas em seus vizinhos europeus, mas também sobre a crescente influência no Hemisfério Ocidental. Ela identificava o Brasil como um importante parceiro comercial e começava a exercer influência sobre essa relação bilateral, por meio de um mecanismo que consistia numa moeda alemã especial usada para pagar pelas exportações brasileiras, que podia ser resgatada apenas pela compra de exportações alemãs, criando uma forma de comércio amarrado. [...] Entretanto, os alemães estavam interessados em mais do que comércio. Eles também queriam atrair o Brasil para a sua esfera político-militar, e cultivavam sistematicamente a amizade com oficiais do Exército brasileiro, conhecidos como admiradores da destreza militar alemã, bem como ofereciam ao Brasil armas e treinamento técnico. Do mesmo modo que no período pré-Primeira Guerra Mundial, o governo dos EUA preocupava-se com essa estratégia alemã, tendo o Departamento de Estado denunciado a política comercial alemã como discriminatória. Os militares americanos tentaram agir contra as ofertas alemãs de armas e treinamento, mas fracassaram neste esforço. Getúlio havia tentado obter equipamento militar americano antes, mas o Congresso dos EUA, um corpo bastante isolacionista durante a década de 1930, proibira a venda de armas no exterior pelos Estados Unidos.

[...]

A opinião pública brasileira era o alvo em uma batalha sobre que lado apoiar na guerra que se aproximava na Europa. O sentimento da elite favorecia fortemente os Aliados por razões culturais, e, até sua supressão em 1935, os comunistas também haviam sido eficazes em promover opiniões antinazistas. Mas alguns brasileiros, como em 1914, eram favoráveis à Alemanha, não obstante os laços culturais históricos.

Getúlio mostrava-se inclinado a procurar os Estados Unidos para laços militares, tentando, como já citamos, comprar armas deles antes de se voltar para a Alemanha. Em 1937 ele também oferecera ao presidente Roosevelt o uso de bases litorâneas no Brasil, oferta esta que foi recusada, presumivelmente porque Roosevelt não podia permitir-se contrariar o Congresso isolacionista, dando a impressão que se preparava para a guerra. E uma oferta brasileira de comprar destroieres excedentes dos EUA foi igualmente recusada quando as autoridades americanas cederam aos protestos da Argentina contra a venda. Quando a guerra finalmente eclodiu em 1939, Getúlio e seus generais, lembrando essas rejeições, preferiram permanecer neutros até que os Estados Unidos estivessem preparados para pagar um preço justo pelo apoio brasileiro. Além disso, os brasileiros continuavam a cultivar relações com as potências do Eixo como parte do jogo de usá-las contra os Estados Unidos.

O Brasil não declarou guerra até meados de 1942, quando os que estavam em cima do muro puderam ver que a sorte militar havia virado para o lados dos Aliados. A invasão da Rússia em 1941 havia apanhado a Wermacht em um feroz inverno russo, e os submarinos alemães sofriam pesadas perdas na batalha do Atlântico. O Brasil não podia esperar mais se pretendia obter alguma compensação atraente por entrar na guerra.

O Brasil tinha ao menos dois trunfos de que os Aliados precisavam. Um era matéria-prima, incluindo borracha natural, quartzo (essencial para comunicações por rádio) e outros minerais. O outro era seu litoral, que oferecia bases aéreas e marítimas em pontos estratégicos no Oceano Atlântico. Getúlio conseguiu um acordo atraente, pelo qual o país concordava em fornecer a matéria-prima e as bases aos EUA, apenas em troca de equipamento militar, assistência técnica e financiamento para uma usina siderúrgica brasileira (localizada em Volta Redonda). Essa aliança fez do Brasil o mais evidente parceiro latino-americano dos Estados Unidos na guerra. Além disso, estabelecia precedente para o apoio do governo americano à industrialização de base em um país do Terceiro Mundo.

Em 1941 Getúlio começou a mover-se em direção aos Aliados ao aprovar um projeto da Pan American Airways (sob contrato do exército dos EUA) para modernizar aeroportos no Norte e Nordeste. Em janeiro de 1942, na conferência do Rio de Janeiro, onde o apoio latino-americano para a entrada na guerra agora prevalecia, graças ao ataque japonês a Pearl Harbor, o Brasil rompeu ostensivamente com o Eixo. O ingresso do Brasil na guerra tinha uma importante implicação para a política interna. A decisão de unir-se às democracias era um golpe contra os autoritaristas que alegavam que a democracia não tinha lugar no Brasil, e supunham que Getúlio concordava com eles. Este e seus generais, ao questionarem essa suposição, estavam montando o cenário para um debate que iria terminar com o fim da ditadura getulista.

Com a entrada do Brasil na guerra, uma onda de funcionários norte-americanos, tanto militares como civis, veio ao Brasil. [...] Em 1943, brasileiros e norte-americanos construíram uma rede de modernas bases militares aéreas e marítimas no litoral do Nordeste.

Junto com a ofensiva militar dos EUA no Brasil veio uma ofensiva cultural. O presidente Roosevelt designou o multimilionário Nelson Rockefeller para dirigir um novo escritório cujo objetivo era promover a melhoria das relações culturais com a América Latina, tendo o Brasil como alvo principal. O escritório de Rockefeller recrutou talentos como Orson Welles e Walt Disney para fazerem filmes voltados ao fortalecimento da opinião pró-EUA.

[...]

Por trás dessas atividades jaziam objetivos d elongo prazo dos EUA: sendo um deles o aumento de sua penetração econômica no país. Embora o investimento norte-americano no Brasil já superasse o investimento britânico, investidores norte-americanos ansiavam por novos progressos. [...] A colaboração durante a guerra oferecia uma base excelente para a ofensiva econômica norte-americana posterior. Aviões norte-americanos passaram a dominar não apenas o uso militar, mas também o civil.

[...]

O desejo de Getúlio de identificar o Brasil com a causa dos Aliados levou-o a oferecer três divisões do Exército brasileiro, cujos oficiais se entusiasmaram com a ideia, para combater os alemães no cenário de guerra do Mediterrâneo. Getúlio tinha dois importantes propósitos ao insistir no papel militar brasileiro: um era enfatizar a posição do Brasil como único país latino-americano a enviar forças terrestres sob sua própria bandeira para a guerra [...]; e o segundo era despertar o orgulho brasileiro e dar ao público uma razão patriótica para apoiar o governo.

Para enfatizar que se tratava de um esforço nacional, Getúlio queria efetivos recrutados por todo o país e insistiu para que todo estado fosse representado, independentemente da qualidade dos recrutas locais. A força resultante era altamente heterogênea, carecendo de treinamento comum e desprovida por completo de experiência de combate. [...] Os comandantes [brasileiros] esperavam combater na África do Norte, portanto as tropas receberam uniformes de verão, mas a Força Expedicionária Brasileira, ou FEB, foi designada para operar com o Quinto Exército dos EUA, que combatia contra a renhida defesa alemã em terrenos montanhosos ao norte de Roma, exatamente quando se iniciava um rigoroso inverno. Os brasileiros foram lançados à batalha com a missão de escalar um precipício no qual os alemães estavam com os canhões em posição dominante. Apanhados no fogo cerrado, sofreram pesadas baixas e retiraram-se desordenadamente.

Embora difícil de surpreender, [...] o fracasso nesse primeiro combate foi extremamente perturbador para os comandantes brasileiros, que recorreram aos norte-americanos para ajuda e orientação. As tropas nacionais passaram por rápido retreinamento e logo retornaram ao combate. Seu desempenho foi significativamente melhor, e eles ajudaram a capturar Monte Cassino, o monastério histórico que assinalava a principal posição alemã. O registro do combate brasileiro na Itália tornou-se ulteriormente objeto de amarga controvérsia: os relatos oficiais enfatizavam o autêntico heroísmo depois do retreinamento, mas os críticos (incluindo alguns oficiais brasileiros) enfatizavam o fracasso inicial pelo qual eles injustamente culpavam comandantes incompetentes.

O engajamento do Brasil no combate deixou um legado significativo. Primeiro, forneceu uma base para a reivindicação do país de um papel importante no pós-guerra [...]. Segundo, o envio da força expedicionária aumentou imensamente o prestígio do Exército brasileiro. Como os únicos latino-americanos a terem lutado na Europa, os brasileiros podiam manter a cabeça erguida entre os Aliados. Terceiro, o combate conjunto na Itália fortaleceu os laços entre os militares norte-americanos e brasileiros, mesmo considerando-se que o Brasil permanecia claramente como o sócio menor.

Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pandemia na Vila do Chaves

Seu Madruga
Ficou em casa, pedindo delivery da venda na conta da Dona Florinda.

Chiquinha
Fugiu pela janela, mas só pegou catapora.

Seu Barriga
Como tem um coração imenso, suspendeu a cobrança do aluguel durante a quarentena.

Chaves
Internado por COVID-19, mas feliz: no hospital tem desjejum, almoço, lanche, jantar e ceia garantidos, todo dia.

Dona Florinda
Abriu o restaurante, porque a economia não pode parar. Tomou cloroquina e teve um piripaque colateral.

Quico
Em isolamento domiciliar com COVID-19.

Professor Girafales
"Não me passa isso, moleque!"

Dona Clotilde
Ficou em casa com Satanás.

Jaiminho
Evitou a fadiga e chegou atrasado para a pandemia...

Dona Neves
Já saiu da Gripe Espanhola imunizada contra tudo e contra todos, de pandemias a senhorios.

Godinez
"Quarentena? Que quarentena?!"



segunda-feira, 25 de maio de 2020

Povos indígenas, descaso crônico e pandemia

Reflexão da antopóloga Maria Luísa Lucas, que trabalha com a etnia Bora, na Colômbia, e acaba de perder uma amiga indígena na atual pandemia. A reflexão não é pertinente apenas ao contexto colombiano; define bem a situação das populações indígenas em toda parte.

Além das ajudas emergenciais, uma reflexão é necessária.

Essas pessoas não estão morrendo de Covid, elas estão morrendo de anos e anos de falta de assistência de saúde básica. E isso em vários níveis.

Primeiro se vêem obrigadas a viver na cidade, onde não tem a mesma segurança alimentar da aldeia. Não têm trabalho fixo (boa parte dos indígenas em Leticia vive de vender coisas na rua ou como diaristas, pedreiros, etc.).

Têm um sistema de saúde público privatizado nas tais EPS que faz com que as pessoas tenham um acesso muito heterogêneo a coisas básicas como exames e tratamento de diabetes, hipertensão, obesidade, alcoolismo (cada vez mais comum, sem a segurança alimentar)...

E no fim, quando contraem a doença, morrem por não ter leito de hospital, médico, respirador... O mais triste é isso.

É o terceiro indígena que conhecia pessoalmente que morre não só porque a doença é grave, mas principalmente porque não teve assistência médica.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Evitando a fadiga - e a pandemia


Outra emblemática imagem do momento presente: a estátua erigida em honra ao carteiro Jaiminho, no Estado de Michoacán, México, sendo higienizada contra o COVID-19.

Como bem sabe a maioria dos latino-americanos de minha geração, o carteiro Jaiminho (ou Jaimito) é um personagem introduzido tardiamente no seriado mexicano Chaves ou, no original, El Chavo del Ocho.

O personagem, encarnado pelo ator Raúl "Chato" Padilla, passou a integrar o elenco após a saída de dois atores e personagens de peso, Ramón Valdés e Carlos Villagrán, que viviam respectivamente Seu Madruga e Quico (ou Don Ramón e Kiko, conforme se prefira).

O bonachão Jaiminho aparece então como o novo carteiro da vizinhança, natural da (então) obscura localidade de Tangamandápio. A característica mais saliente do personagem é seu firme empenho em "evitar a fadiga". A maioria das gags envolvendo o personagem gira em torno de sua lentidão e sua preguiça, que muitas vezes o levam a ser folgado e abusado.

Um dos maiores feitos de Jaiminho foi, sem sombra de dúvida, fazer com que milhões de espectadores descobrissem a existência de Tangamandápio. Em tempos anteriores à Internet, muito se especulava sobre a real existência da localidade. O fato é que o lugarejo não apenas existe como há alguns anos erigiu uma estátua em homenagem ao personagem e seu intérprete, em gratidão pelo renome internacional que trouxe ao povoado. Por sinal, o mero fato de que a pandemia, saindo de Wuhan, tenha chegado a um "fim-de-mundo" latino-americano como Tangamandápio é muito emblemático do mundo hiperconectado em que vivemos.

A bem dizer, Jaiminho é um personagem um tanto apagado e nunca parei para refletir mais detidamente sobre ele em minhas meditações chavológicas. A imagem acima e o contexto de pandemia e quarentena, no entanto, me convidam a pensar melhor sobre Jaiminho, o carteiro.

Com seu ar pacato e imperturbável, Jaiminho é um verdadeiro subversivo. Para evitar a fadiga, burla as normas dos Correios e mesmo o decoro comum - sem jamais se mostrar agressivo ou raivoso (afinal de contas, a raiva também cansa).

É interessante notar que um dos adereços do personagem é sua bicicleta. Uma escolha de figurino brilhante, pois Jaiminho jamais a usa. Na verdade, o carteiro oculta da empresa de correios o fato de que não sabe andar de bicicleta - o que acarretaria em sua demissão, como explica aos demais personagens em diversas ocasiões. Desse modo, Jaiminho arrasta sempre consigo sua inútil bicicleta, oferecendo oportunidades para várias gags.

Vale refletir melhor sobre a relação entre Jaiminho e sua bicicleta. O veículo serviria para que o carteiro, atendendo às urgentes necessidades da sempre apressada modernidade, executasse seu trabalho com maior rapidez, mas é precisamente o contrário que ocorre - longe de auxiliar, a bicicleta se torna um estorvo, um fardo adicional que acaba atrasando o trabalho de Jaiminho.

Desse modo, a singela bicicleta acaba encarnando todas as traquitanas e bugigangas modernas que, em teoria, deveriam simplificar a vida, mas a tornam apenas mais complicada. A bicicleta de Jaiminho é um pouco como tantos sistemas informatizados atabalhoadamente introduzidos tanto pela iniciativa pública quanto privada que, longe de facilitar a vida dos profissionais, só reduzem sua eficiência e os distraem de tarefas mais importantes.

A pesada pasta carregada por Jaiminho também convida a refletir. Quanto daquela correspondência, tão penosamente transportada pelo carteiro, é realmente relevante? Faz pensar nos megabytes de e-mails e mensagens que recebemos e emitimos diariamente, drenando nosso tempo, muitas vezes a troco de nada.

Pensando bem, em muitos aspectos, a figura de Jaiminho ressoa em outra modulação muitos dos temas que perpassam a caracterização de Seu Madruga. Apesar das disparidades de temperamento, o pacato carteiro tem muito em comum com o explosivo malandro-biscateiro-faz-tudo. O zeloso empenho do tangamandapiano em evitar a fadiga ecoa a madruguiana sabedoria: "Não existe trabalho ruim - ruim é ter que trabalhar".

Aprofundando o paralelo, tanto Madruga quanto Jaiminho pertencem ao universo de figuras deliberada ou involuntariamente marginalizadas da modernidade, por deserção ou inadaptação. Madruga é o malandro da periferia urbana, pouco letrado, sobrevivendo às margens do emprego formal. Jaiminho é o homem egresso do interior, de um lugarejo rural como Tangamandápio à selva urbana da Cidade do México.

Sua mansidão no falar é muito característica de tantos interioranos transplantados à pressa louca da cidade grande. Me lembra um bocado meu antigo e querido barbeiro, Seu Virgílio, que já conheci sexagenário. Viera em sua juventude de Tupaciguara, lugarejo de Minas Gerais, para viver nos subúrbios do Rio de Janeiro; depois de tantos anos, perdera o sotaque mineiro, mas não a fala mansa.

Embora muito laborioso, Seu Virgílio trabalhava sem pressa, com esmero e, mais importante, com uma conversa inteligente e agradável, em prosa mansa e vivaz, transmitindo uma serenidade e uma alegria de viver revigorantes. Sua humilde barbearia era um oásis de tranquilidade nesse mundo inquieto e ansioso.

Para evitar a fadiga do leitor, encerro por aqui esse texto, com um convite: que a pandemia e a quarentena que ora experimentamos nos ajudem a viver um pouco mais como Jaiminho, com menos pressa e sofreguidão, no ritmo de Tangamandápio...

Dedico esse texto ao meu amigo Fernando, que me enviou a imagem acima.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

América: Besta Colonial

América:
Besta Colonial,
Diabólico Experimento,
Ferida Gigante,
História Indecente

Juntas Loucas,
Meretrizes Nuas;
Príncipes Oportunistas,
Querendo Riquezas

Sinistro Território,
Ultraje Venal,
Xepa Zangada

Zumbi Xenófobo,
Vítima Usada,
Triste, Saqueada

Rios Quentes,
Pelos Óbitos
Nas Matas

Livres Jaguares,
Indígenas Homicídios;
Gente Ferrada,
Escravos, Delitos

Colonizada,
Bestial,
América


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

"Bolsonaro está fazendo o que prometeu" - Entrevista com o filósofo Ruy Fausto


Ruy Fausto é filósofo, professor emérito da USP. Entre outras obras, lançou recentemente os excelentes livros Caminhos da Esquerda (sobre o qual já prestou gentil entrevista a este blog) e o igualmente brilhante O ciclo do totalitarismo – uma excelente reflexão crítica sobre as ideologias e regimes totalitários de esquerda e direita no século XX. Desta feita, concede entrevista sobre os rumos do governo Bolsonaro em seu primeiro semestre [a entrevista foi originalmente realizada em setembro, mas teve a publicação adiada devido a imprevistos; de todo modo, as considerações permanecem pertinentes alguns meses depois].

Como você avalia o primeiro semestre do mandato Bolsonaro?
Como ele diz – é uma das poucas vezes em que disse a verdade, uma triste verdade – ele não praticou estelionato eleitoral. Está fazendo o que prometeu. Ou, tentando fazer. Liquidar a esquerda, acabar com todas as mediações (congresso, tribunais, no limite acabar com a democracia), destruir a universidade, disseminar o obscurantismo, asfixiar a imprensa. Tudo isso, numa atmosfera de mediocridade e de boçalidade extremas. Vivemos um dos períodos mais sinistros da nossa história.

Na sua opinião, os setores de esquerda (partidários ou não) vêm atuando de modo consistente nesse contexto? O que precisaria ou poderia melhorar?A resistência se revela melhor do que se esperava, mas, apesar de tudo, com insuficiências graves, que em geral refletem o peso do passado. Digamos que, dentro do desastre, houve e há alguns fatores positivos. Primeiro o fato, já antigo, mas que pesou e pesa, de que, se Bolsonaro ganhou com folga, não esmagou o seu adversário. Creio que aquele forcing final da candidatura Haddad, impulsionado aliás, em grande parte, por gente independente, nos salvou. Um Bolsonaro eleito por setenta por cento dos votos válidos teria se transformado num rolo compressor. Depois vieram os escândalos (caso Queiroz, milícias), e as divisões entre eles. As revelações de The Intercept devem ser destacadas, porque não há como subestimá-las. Pode ser que, de novo, tenhamos sido salvos, agora pela atuação de uma agência dirigida por um liberal ("liberal") americano. Também nos ajudaram as divisões entre eles, agravadas por aqueles problemas. Há, aliás, o fenômeno curioso dos trânsfugas, adeptos de Bolsonaro ontem ou anteontem, que tomam posição contra ele. Impossível esquecer o papel que eles tiveram na vitória da extrema-direita, mas, isso posto, têm participado da crítica de modo muito aguerrido, e às vezes até brilhante. Descontemos os cheques que essas figuras emitem em nosso favor, ou antes, contra Bolsonaro, sem dar cheque em branco a eles, porque não sabemos como e onde vão terminar. Acrescentemos ainda a mediocridade gritante do personagem. Ai de nós, se tivéssemos aqui um Orbán ou um Erdogan. Bolsonaro é politicamente tão ruim ou pior do que eles, mas não tem a habilidade que os outros revelam. Suas intervenções são uma sucessão de desastres, digo, também para o seu próprio campo. Mas não nos enganemos. Isso é um aspecto. O outro é precisamente a fidelidade dele ao seu próprio programa. De forma que a gente nunca sabe se a gaffe foi apenas ou exatamente isso, ou pelo contrário, uma medida pensada e intencional. Acho que as duas coisas. Por exemplo, ele continua elogiando torturadores para cristalizar os trinta por cento de eleitores de que dispõe (perdeu uns vinte cinco), mas com isso e outras coisas mais (discursos escatológicos, intervenções brutais na administração, nepotismo, irresponsabilidade absoluta nas nomeações, às vezes confiada a um guru quem nem conhece a pessoa – e que pessoa – escolhida, destruição da Amazônia etc); ele vai se queimando, inclusive com forças importantes do establishment. Estes andam considerando se um defensor tão reacionário quanto, mas menos barulhento e mais prudente, não seria, no fundo, preferível.
E a esquerda? Em parte reagiu bem, aproveitando as barbaridades do segundo ministro da educação (personagem arquimedíocre além de obscurantista e reacionário), e organizou manifestações que tiveram algum ou (no caso da primeira) bastante sucesso. Também a literatura jornalística antibolsonaro é a destacar. Aguda, sarcástica, mobilizando alguns dos melhores jornalistas, mais cientistas políticos e professores universitários, em geral. A atuação no congresso, até onde pude acompanhar, teve altos e baixos (como diziam outrora os comentadores esportivos). Uma massa de congressistas meio perdida diante do desastre, e não sabendo bem por onde começar, e certo número de deputados e deputadas (acompanhei mais de perto as sessões da Câmara) intervindo de modo muito eficaz e convincente. Não se pode deixar de destacar a atuação do lider da oposição, Alessandro Molon, embora ele não tenha sido o único a acertar. Mas com tudo isso, a esquerda não se mostra suficientemente forte. Sua debilidade tem raízes históricas. O partido de esquerda que foi hegemônico (não sei se ainda o é) apoia a sua política (eu diria quase: resume) na campanha pela liberação de Lula. Ninguém duvida, principalmente depois das revelações de The Intercept, que o julgamento de Lula, referendado ou não por um fieira de juízos, foi irregular e fraudulento. Lutar para que seja solto, tudo bem, isso se impõe. Mas há ai dois problemas: um é o de que o PT tenta insinuar, aproveitando as revelações, que as práticas dos governos petistas e do PT em geral, foram perfeitamente inocentes. Nada mais falso. As revelações de The Intercept não apagam erros e abusos, e em geral o fato de que havia, sim, promiscuidade entre parte do poder econômico e o poder petista. Nem apagam outros escândalos e casos graves, a começar pelo "mensalão". Apesar das aparências, isso tudo pesa hoje em dia. O PT não sabe, mas está desgastado. E também por isso, embora não só por isso, precisamos de uma política que não se limite a pedir a liberdade de Lula, e, de forma geral, que diga a verdade… Sem falar na desastrosa ambiguidade que o PT continua alimentando (é o mínimo que se pode dizer) a propósito do que significa o governo Maduro, na Venezuela. Não basta dizer que “cometeu alguns erros“. Isso só não se afirma (os crentes!) de Deus… Enfim, esses fatores impedem levar adiante uma luta contra o bolsonarismo que seja realmente eficiente e amplamente mobilizadora. Precisamos contar com toda a esquerda (e uma esquerda que esteja mais preocupada com o seu interesse geral, que é o do país) do que com os interesses de burocracias partidárias, para alavancar o conjunto das forças democráticas.

Muitos analistas afirmam que estamos vivendo sob uma espécie de "parlamentarismo brando" ou "parlamentarismo branco". O que você pensa disso?
Certos cientistas políticos, cada vez mais raros, aliás, insistem em ver o processo como se tratasse de mais um episódio de uma pretensa luta entre executivo e legislativo. Sem negar o interesse em estudar como atuam tais forças na situação atual, dar esse privilégio a certas noções tradicionais no bojo da tentativa de compreender o que se passa hoje no Brasil e no mundo, é de um total provincialismo - um formalismo provinciano. Prefiro não entrar nessa discussão, que inserida num contexto substantivo, poderia ser interessante, mas tal qual ela vem sendo formulada tem pressupostos mistificadores.

Em sua opinião, quais seriam as alternativas para a esquerda nas eleições presidenciais de 2022?
Precisaríamos de um candidato único, é claro. Mas essa possibilidade torna-se cada vez mais fraca. Ciro parece ter rompido definitivamente com o PT (ele tinha lá suas razões para se distanciar do PT, mas o seu comportamento, desde o segundo turno das eleições de 2018, foi irresponsável). Quanto ao que fará o PT, não sabemos. Também não sabemos como se comportarão as outras forças e os outros partidos de extrema-esquerda, de esquerda ou de centro esquerda, como o PSOL e o PSB. O ideal seria uma articulação que mobilizasse pelo menos parte importante das formações e movimentos de oposição. A direita irá àquelas eleições (se houver eleições) certamente dividida: com Bolsonaro (ou representante), mais Dória, e ainda, provavelmente, um candidato de centro-direita tipo Huck. A esquerda também irá dividida. Apenas entre PT e PDT? Não sabemos. E qual seria o candidato do PT, já que, quanto ao PDT, parece certo que escolherão de novo Ciro. Haddad continua sendo um bom nome, apesar de muito desgastado pelo oportunismo do partido (Gleisi relutou até o fim a propor a candidatura de Haddad, o humilhou o quanto pôde, e dentro do partido havia – e parece que ainda há – a turma do "Lula ou nada"). Seria possível ainda tentar a chapa Ciro/Haddad, que não conseguiu se estruturar em 2018? Longe de mim, supor que Ciro é um nome ideal. Mas na situação muito grave em que estamos, todas as possibilidades devem ser examinadas. Há aliás outros nomes no PT, como o do atual governador da Bahia. Fora do ex-partido hegemônico, há o governador do Maranhão, Flávio Dino, prejudicado por se apresentar como candidato de um partido que se intitula comunista. Isso não pega bem em lugar nenhum no final da segunda década do século XXI, nem fora nem dentro da esquerda. O que não quer dizer que socialismo ou mais precisamente, esquerda democrática não pegue, por mais que o nome socialismo tenha sido maltratado pela esquerda totalitária. Veja-se o curso surpreendente da campanha eleitoral americana.

Que lições você acha que o povo brasileiro será capaz de tirar até 2022 da situação política corrente?
Espero – sou talvez meio otimista, aqui – que a experiência sinistra do governo Bolsonaro queime definitivamente a extrema-direita, e consideravelmente a direita que direta ou indiretamente o elegeu. Talvez – de novo, sendo bastante otimista ­­– tudo isso termine num banho frio para as direitas, em geral. A partir da gritaria em torno da famosa "roubalheira do PT", essa gente elegeu um personagem corrupto, violento, bronco, cujas posições representam o que existe de mais regressivo na atual política mundial. Os bolsonaristas não são exatamente fascistas, porque lhes faltam alguns traços do fascismo. Mas eles são certamente aparentados com o fascismo. Diria que são primos dos fascistas. Defendem o que é possível defender do fascismo no final da segunda década do século XXI. Mas esse fascismo possível do nosso século é suficiente para destruir as nossas instituições. Sem falar no problema que hoje talvez seja o mais importante de todos. A extrema-direita joga hoje, no plano mundial, a carta da destruição da vida no planeta. O ceticismo diante do aquecimento global, aquecimento hoje comprovado por praticamente a totalidade dos cientistas de todos os continentes, representa uma política literalmente suicida, de quem grita, como os fascistas espanhóis em outro tempo: "viva la muerte". Pois eles não se limitam a professar opiniões céticas diante do que ocorre no Antropoceno: eles agem em consequência. A destruição da floresta amazônica é o presente mais terrível, porque irreversível se não conseguirmos parar o carro a tempo, que nos lega o bolsonarismo.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Jesus Andino

"É inconcebível que no século XXI, Deus ainda tenha que ser definido de acordo com padrões europeus... Nós pensamos que a vida de Jesus é a Grande Luz vinda de Inti Yaya (Luz Paternal e Maternal que sustenta todos nós), cujo objetivo é deter qualquer coisa que não nos deixe viver em justiça e fraternidade entre seres humanos e em harmonia com a Mãe Natureza... O papa devia notar que nossas religiões NUNCA MORRERAM, nós aprendemos como fundir nossas crenças e símbolos com aqueles de nossos invasores e opressores".
Humberto Cholango - Em documento endereçado a Bento XVI pela Confederação dos Povos de Nacionalidade Kichwa do Equador (Maio de 2007)

Clarinero nas celebrações de Corpus Christi (Cajamarca, 2019)

Comemorações de Corpus Christi (Cusco, 2019)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Toda Esperança

A esmagadora maioria dos brasileiros que visita o Velho Mundo inventa uma Europa que não existe, tão ansiosos estão para "ver" um Anti-Brasil. Se iludem como aqueles europeus de outrora, desejosos de encontrar o Éden no Novo Mundo. O Paraíso fica sempre do outro lado. "Lasciate ogni speranza".

Gravura de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Amor Cristão

"Uma vez que tínhamos a bandeira da cruz e lutávamos por nossa fé e pelo serviço de nossa sagrada majestade, Deus concedeu-nos tal vitória e matamos muitas pessoas".
Cortés

"Quem poderá negar que utilizar pólvora contra os pagãos é como queimar incenso para Nosso Senhor?"
Oviedo


Hermenêutica bíblica à moda colonial: "índio bom é índio morto".

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Colecionando vexames - Bolsonaro na ONU

Bolsonaro fez sua estreia internacional em Davos. Ofereceu à audiência um discurso pífio, tanto pela brevidade quanto pela superficialidade; esquecendo que falava a investidores, e não a eleitores, mirou a plateia errada.

Hoje, na ONU, cometeu o mesmo tipo de equívoco. O discurso de hoje deveria tomar por alvo a comunidade internacional, mas Bolsonaro, mais uma vez, preferiu falar a seu eleitorado cativo.

Olhando retrospectivamente, a brevidade de seu pronunciamento em Davos parece uma virtude. Hoje o presidente apresentou uma peça de oratória longa, piegas, enfadonha e ridícula, talhada ao duvidoso gosto de sua claque, mas que provavelmente encontrou pouca ressonância perante a comunidade internacional.

Boa parte da fala se ocupou da velha paranoia a respeito dos médicos cubanos, do Foro de São Paulo e da ameaça socialista. Num delirante arroubo, o presidente afirmou salvar o Brasil do socialismo - talvez soasse convincente na época da Guerra Fria; hoje parece apenas anacrônica miragem macartista, pouco capaz de despertar simpatia diante dos diplomatas e governantes presentes.

As peremptórias bravatas sobre a soberania nacional brasileira e o "colonialismo" estrangeiro, tingidas com a paranoia conspiratória sobre o "globalismo" certamente soaram para a maior parte da audiência internacional como gritos quixotescos contra moinhos de vento. Certa passagem foi particularmente pitoresca em sua pieguice: "Esta não é a Organização do Interesse Global!É a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer!"

As tépidas declarações de compromisso com os direitos humanos e com a proteção ambiental tampouco devem ter convencido muita gente, dado o menosprezo com que Bolsonaro sempre tratou essas temáticas.

O tom ostensivamente religioso de certas passagens certamente é caro a parcelas do eleitorado brasileiro, mas deve ter causado estranhamento e antipatia a muitos ouvintes estrangeiros.

As falas acerca das populações indígenas, para além de absurdas em inúmeros detalhes, ganham contornos grotescos no tom de ataque pessoal ao cacique Raoni, que Bolsonaro deveria tratar respeitosamente ao menos em função da idade. Roupa suja se lava em casa, e não é nada elegante ou cortês que um presidente vá a uma tribuna internacional para falar dessa maneira de qualquer cidadão de seu próprio país, ainda mais de uma figura pública reconhecida e respeitada por indígenas de inúmeras etnias.

Igualmente lastimáveis foram as pueris farpas endereçadas a Macron e à Europa e estéreis os servis afagos a Trump e Israel, testemunhando uma lamentável estreiteza de vistas. A arte da diplomacia, quando bem praticada, consiste em desfazer tensões e granjear simpatias; a intervenção de hoje tende ao oposto disso.

Esses foram apenas alguns dos disparates mais dignos de nota dessa nova fala presidencial que em nada ajudou os interesses internacionais do povo brasileiro. O discurso de Bolsonaro provavelmente não abriu nenhuma porta e é mesmo possível que tenha fechado outras.

Em suma, hoje foi um triste dia para a arte de Demóstenes e Cícero, tanto quanto para a pátria de Ruy Barbosa.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Prioridades: a sabedoria de Madruga

Cada um com suas prioridades, como já ensinava Seu Madruga. Às vezes é necessário abrir mão de algumas coisas, como o aluguel do Seu Barriga ou as bolsas de pesquisa...


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Um lápis apontado muitas vezes

"Ceci n'est pas une glace".

Não parece um sorvete, como fica evidente.

Com esse trabalho, estimo que me torno um pioneiro da Chavologia Experimental.

domingo, 18 de novembro de 2018

Sobre médicos cubanos e responsabilidades

Nosso mais recente embaraço diplomático é complexo. Há várias questões imbricadas. Não adianta apontar heróis e vilões, mas entender as distintas responsabilidades no assunto e suas respectivas consequências. Como não tenho qualquer simpatia pelo regime cubano, pelo PT ou por nosso presidente recém-eleito, me sinto à cavaleira para falar sobre o assunto.

1) O Brasil, como se sabe, é um país de rincões isolados e, historicamente, o Estado brasileiro tem dificuldade em fazer profissionais de serviços básicos chegarem a esses rincões, mesmo com eventuais incentivos. No caso das Forças Armadas uma alternativa é alterar a contagem do tempo de serviço. Por exemplo, um ano de serviço de um militar nesses locais conta como 3. 5 anos contam como 15, permitindo se "aposentar", ou melhor, reformar, mais cedo. No caso dos médicos parece que medidas nesse sentido nunca surtiram o efeito desejado.

2) O programa "Mais Médicos" foi implementado para suprir essas carências. Como não sou especialista em Saúde, não entro nos méritos ou deméritos do programa, que não tenho a devida competência para avaliar. Assinalo apenas o fato de que alguns milhões de brasileiros dependem hoje do programa para atendimento médico básico. O futuro presidente do Brasil deveria estar, antes de tudo, preocupado em garantir e assegurar o devido atendimento a esses cidadãos, de um ponto de vista estritamente pragmático, por uma razão muito simples: ele foi eleito presidente do Brasil, e não de Cuba. Seria legítimo se preocupar com os médicos cubanos, contanto que isso não viesse a comprometer o atendimento aos cidadãos brasileiros.

3) A participação cubana no programa Mais Médicos resulta de um acordo BILATERAL livremente firmado entre dois Estados soberanos, Brasil e Cuba, sob condições que, à época, pareciam legítimas aos mandatários de ambos Estados. Como todo acordo internacional, ele depende que ambas as partes envolvidas respeitem as condições estipuladas. Estando o futuro presidente do Brasil interessado em mudar as presentes condições do acordo, ele deveria faze-lo via NEGOCIAÇÕES com a outra parte, ou seja, resolver o assunto DIPLOMATICAMENTE, através do DIÁLOGO com o Estado cubano.

4) O método de remuneração dos profissionais cubanos no programa realmente é controverso e parece ferir princípios de isonomia da legislação trabalhista brasileira. Nesse sentido, caberia ao futuro presidente questionar a validade do acordo por vias JURÍDICAS. Conforme as autoridades JUDICIÁRIAS brasileiras se posicionassem em relação ao caso ele teria o devido respaldo LEGAL para renegociar o acordo pelas vias DIPLOMÁTICAS, recorrendo inclusive a instâncias de arbitragem internacional, conforme fosse necessário. Deveria, de preferência, fazer isso DEPOIS de tomar posse, de modo CRITERIOSO e com a devida PRUDÊNCIA.

5) Em lugar de agir com a prudência conveniente a um chefe de Estado responsável, o presidente eleito optou por fazer prematuras provocações EXTRA-OFICIAIS a um Estado soberano, ANTES mesmo de tomar posse, gerando assim um incidente internacional desnecessário, sem passar pelas devidas vias jurídicas e diplomáticas. Ao fazer semelhantes bravatas, não pensou devidamente nos milhões de cidadãos brasileiros que dependem do programa Mais Médicos e dos profissionais cubanos envolvidos no programa. Em suma, agiu de forma pouco RESPONSÁVEL em relação às necessidades objetivas de cidadãos brasileiros que governará a partir de 2019. Ao agir dessa maneira demonstrou inadequado senso de prioridade: seu dever primeiro deveria ser assegurar o atendimento médico à população brasileira, dando à política doméstica a devida primazia sobre a política internacional - DEPOIS de tomar posse, de preferência.

6) Como pode acontecer em incidentes internacionais semelhantes, o Estado soberano de Cuba reagiu de modo duro às imprudentes provocações do futuro presidente do Brasil. Cuba perdeu uma excelente oportunidade de agir com magnanimidade e adotar uma postura conciliatória, o que talvez trouxesse ganhos à sua imagem internacional. No entanto, como Estado soberano, reagiu como lhe aprouve. Podemos questionar ou criticar, mas é um gesto legítimo do ponto de vista da diplomacia, embora questionável do ponto de vista humanitário.

7) A diplomacia é uma arte sutil, e a prudência exige atenção à correlação de forças em jogo em qualquer questão internacional. No caso em apreço, o futuro presidente do Brasil não percebeu (ou não quis perceber) que Cuba detém a vantagem no jogo, pois aparentemente o Brasil necessita dos médicos cubanos mais do que Cuba necessita do dinheiro brasileiro.

8) Restariam ao futuro presidente duas opções. Um pedido de retratação ao Estado cubano, seguido de uma rodada de negociações diplomáticas conciliadoras ou alimentar a tensão, rumo à ruptura definitiva. A primeira alternativa seria aquela mais pragmática e prudente no sentido de assegurar a curto prazo as necessidades dos brasileiros que dependem dos serviços prestados pelos médicos cubanos. Isso exigiria que o presidente eleito pusesse o bem-estar desses brasileiros acima de seu ego.

9) Na prática, o presidente eleito apostou na via conflituosa, oferecendo asilo político aos médicos cubanos - decisão que, além de questionável, teria efeitos práticos incertos para a população que precisa desses médicos. Quantos médicos aceitariam tal asilo? Que medidas práticas o governo brasileiro precisaria tomar para viabilizar isso? Qual seria o impacto orçamentário de tal decisão a curto, médio e longo prazos?

10) O presidente eleito poderia, em se confirmando a ruptura unilateral do acordo por parte de Cuba, recorrer a instâncias de arbitragem internacional, mas tais processos costumam ser tortuosos e demorados - assunto para muitos anos. E a população precisa de médicos AGORA.

11) O futuro presidente tem algum Plano B caso suas arriscadas apostas não se concretizem? Como ele poderá remediar tal inconveniente em seus primeiros meses de governo?

CONCLUSÃO: em minha opinião, o Estado de Cuba reagiu de forma mesquinha, brusca e desproporcional às provocações do futuro presidente do Brasil, no entanto este demostrou pouca responsabilidade ao desconsiderar as consequências que suas provocações poderiam ter sobre o bem-estar de uma porção significativa da população brasileira. Não é o tipo de atitude que se espera de um chefe de Estado cônscio de seus deveres. Em todo caso, há que se aguardar atentamente os próximos capítulos da história.

P.S.: Sugiro algumas leituras relacionadas ao caso, com apreciações distintas do mesmo: uma reportagem do New York Times; uma coluna de Leonardo Sakamoto e as análises dos fact-checkers Lupa e Aos Fatos.
 

domingo, 11 de novembro de 2018

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Memento mori

"A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio. Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial".
Trecho de entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos vivos e pesquisador do Museu Nacional.

"Um museu em chamas visto por uma de suas antropólogas"

"Somos todos mais pobres hoje, mesmo os governantes e políticos que não têm noção da gravidade do que aconteceu, e ficam por aí dando entrevistas em que falam em reconstrução e recuperação, como se dependesse apenas do dinheiro que, agora, milagrosamente, começa a aparecer. Se o palácio imperial pode, quem sabe, ser recuperado, o que estava dentro dele, jamais. Nenhum dinheiro poderá comprar o nosso acervo, pois esses objetos, registros, documentos, gravações, papeis, gravuras, não existem mais em nenhum lugar do mundo".

Trecho do desabafo de Aparecida Vilaça, uma das mais renomadas pesquisadoras do Museu Nacional na área de Antropologia.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

Tienda del Chávez

A Venezuela está em pandarecos, mas Chavéz foi um dos maiores governantes latinoamericanos - "foi sem querer querendo". O Brasil cai aos pedaços, mas "nunca antes na História desse país" (NANHDP) houve um governo melhor que o do PT.

Sartre, filosofastro maior do século das ideologias, tinha razão: o inferno são os outros - o Temer, a elite do atraso, a mídia golpista, o Moro, o imperialismo ianque, a crise mundial, a classe mérdia, os energéticos, os energúmenos, os aerolitos, o gato, o Quico e o outro gato. Por sinal, o próprio Sartre achava que o Stalin era um bom camarada: gulag na Sibéria dos outros é refresco - de limão, que parece de tamarindo e tem gosto de abacaxi Maduro.

E, é claro, superada a ressaca da "Copa das Copas", o Brasil ganhará a Copa de 2018: só falta combinar com os russos... Dios es Fidel.

A burguesia colonizada pelo imperialismo não suporta o sucesso da gentalha...

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DIY - Como fabricar subcidadãos em massa

PARA EXECUTAR ESSE PROJETO VOCÊ NECESSITARÁ APENAS DE VÁRIOS BANCOS, AGÊNCIAS DE PUBLICIDADE, VEÍCULOS MIDIÁTICOS VARIADOS, COMERCIANTES VAREJISTAS, EMPRESAS DE TRANSPORTE URBANO, PREFEITOS, GOVERNADORES, PRESIDENTES, LEGISLADORES, PARTIDOS POLÍTICOS, MINISTROS E SECRETÁRIOS DE EDUCAÇÃO VARIADOS. QUANTO MAIS, MELHOR.

1 - Pague aos pais do subcidadão menos que o mínimo necessário para subsistir dignamente.

1a - Faça com que os pais trabalhem até a beira da exaustão.

1b - Prenda os pais em engarrafamentos intermináveis.

2 - Ofereça incentivos culturais variados para que os pais não se preocupem com a educação de seus filhos. Estimule-os direta ou indiretamente a pensar as escolas públicas como grandes viveiros onde eles deixam seus filhos para poder trabalhar.

3 - Garanta que os pais saibam tacitamente qual é seu lugar na sociedade e tenham baixas expectativas e poucas perspectivas sobre o futuro do projetado subcidadão. Deixe essas fronteiras muito bem demarcadas. ESSE É UM DOS PASSOS MAIS IMPORTANTES.

4 - Dê aos pais um cartão de crédito (ou vários) com limites totalmente desproporcionais à renda familiar. Eles ficarão facilmente enredados em dívidas.

4a - Ofereça aos pais cheque especial e/ou empréstimos pessoais a juros extorsivos, também desproporcionais à renda familiar. Eles ficarão ainda mais enredados em dívidas.

5 - Ofereça ao subcidadão publicidade comercial abundante desde a mais tenra idade.

5a - Estimule direta ou indiretamente os pais a comprar o afeto do subcidadão com produtos de consumo. Melhor ainda, incentive os pais a realizar suas próprias fantasias infantis de consumo por procuração, através do subcidadão. Induza os pais do subcidadão a sentirem peso na consciência por privá-lo de seus menores caprichos.

6 - Ofereça ao subcidadão apenas produtos culturais de baixíssima qualidade, desde desenhos animados a filmes, passando pela música e pelos jogos eletrônicos. ESSE PASSO TAMBÉM É MUITO IMPORTANTE.

6a - A cada geração tente articular um vocabulário cada vez mais empobrecido através da indústria cultural em todos os seus setores.

6b - Empregue linguagens audiovisuais barulhentas, sincopadas, explosivas, repetitivas e freneticamente editadas, para que ele desenvolva baixa tolerância ao silêncio, limitado tempo de concentração, superficial capacidade de reflexão e raciocínio pouco coerente e coeso.

6c - Encareça os livros.

7 - Crie um ambiente de erotização precoce para o subcidadão. Insira insinuações sexuais completamente gratuitas e descontextualizadas em todos os meios de comunicação. A música pode ser um meio particularmente efetivo, uma vez que a memória auditiva é extremamente persistente. Conceda amplo espaço midiático a figuras "artísticas" cujo principal (talvez único) atrativo seja a exposição erotizante ostensiva e insistente. Os impulsos reprodutivos são uma das forças biológicas mais atuantes sobre o ser humano, mas estímulos hormonais sozinhos não são suficientemente fortes para causar o mais profundo desinteresse pelos estudos. Garanta que chegando à adolescência o subcidadão não consiga pensar em nada além de copular. Quanto menos ele conseguir pensar em outras coisas, melhor.

7a - Estimule o subcidadão do sexo masculino a objetificar a figura feminina; transforme-a em produto de consumo.

7b - Estimule a subcidadã do sexo feminino a aceitar passivamente esse tipo de objetificação como algo extremamente natural. Faça com que ela busque a atenção erótica masculina como razão de sua própria existência.

7c - Deixe difuso no ar um vago moralismo sobre a prática sexual, para que toda a estimulação gere certa dose de conflito e inquietação que contribuirão para transformar o impulso em compulsão e a compulsão em obsessão. Entendida como prazer impuro, a sexualidade habilmente reprimida reforçará sua presença em todos os setores da vida social e cultural, tornando-se quase onipresente; muitas pessoas mal conseguirão falar (e consequentemente pensar) sobre outros temas. Quanto mais seus subcidadãos estiverem confusos e atormentados sobre sua própria sexualidade, mais fácil será dominá-los.


7d - Estimule os adolescente a pensar ininterruptamente em sexo, mas evite a todo custo que eles reflitam de modo autônomo e consciente sobre sua própria sexualidade, o que tornará o passo 7c ainda mais poderoso. Os impulsos reprodutivos são poderosos demais para serem deixados sob controle dos indivíduos, se você quiser exercer domínio pleno sobre eles e manter suas mentes distraídas de todo o resto. Venda a repressão como se fosse liberdade.

7e - Se possível, promova a conversão do idioma da sexualidade e da impureza sexual em idioma preferencial da política. Isso pode ser particularmente útil para qualificar ou desqualificar mulheres na vida política, conforme for oportuno ou necessário.

8 - Garanta um ambiente cultural onde o subcidadão adolescente tenha o mínimo de responsabilidades e cultive uma displicência genuinamente infantil. Ele deve ter diversão sem limites durante a adolescência, pois trabalhará como um condenado na idade adulta.

9 - Garanta que os pais do subcidadão não tenham qualquer condição de pagar mensalidades em uma escola particular.

9a - Se o passo 9 não for possível, garanta que as escolas particulares mais baratas tenham baixíssima qualidade. Reduza ao máximo a fiscalização pública sobre as instituições particulares de ensino; seja omisso quanto ao emprego de estudantes de graduação como docentes - cedo ou tarde eles terão diplomas, afinal de contas...

9b -Permita (veladamente) que as instituições particulares de ensino desrespeitem frequentemente a legislação trabalhista.

9c - De preferência, evite que o subcidadão consiga cursar o ensino fundamental completo em instituição privada de ensino.

10 - Indique ministros e/ou secretários de Educação que nunca lecionaram ou estão há muitos anos afastados de sala de aula em cargos burocráticos.

11 - Imponha metas de aprovação desavergonhadas nas escolas públicas.

11a - Estabeleça índices de qualidade da educação pública que privilegiem direta ou indiretamente os índices de aprovação estudantil.

11b - Estabeleça estímulos financeiros aos professores das escolas públicas segundo sua adesão às metas de aprovação supramencionadas.

11c - Estipule represálias mais-ou-menos-veladas para os diretores cujas escolas não conseguirem atingir as metas impostas.

12 - Retire toda autonomia das comunidades escolares e transfira todo o poder de decisão aos órgãos centrais da educação municipal, estadual ou federal.

13 - Ofereça benefícios sociais vinculados EXCLUSIVAMENTE à presença do subcidadão na escola. Você não quer que ele aprenda nada, apenas diminuir os índices de evasão escolar, ao mesmo tempo beneficiando indiretamente o comércio varejista e aquecendo a economia.

14 - Mantenha a remuneração dos profissionais do magistério tão baixa quanto possível.

14a - Crie todo tipo de empecilho para que os professores busquem formação adicional. Um plano de cargos e salários pouco convidativo deve ser o suficiente, mas garanta também que seja quase impossível obter uma licença com ou sem vencimentos, integral ou parcial, para aperfeiçoamento do pessoal docente. Crie normas que impeçam profissionais com vínculo empregatício de receber bolsas de pesquisa em agências de fomento. Você não quer mestres ou doutores lecionando em escolas públicas ou em escolas particulares baratas.

14b - Culpabilize sutilmente o professor por todos os fracassos da educação pública, através de todas as mídias onde isso for possível.

15 - Reduza o pessoal administrativo e de apoio pedagógico das escolas públicas ao mínimo possível.

15a - Mantenha remuneração do pessoal administrativo e de apoio pedagógico tão baixa quanto possível. Você não deseja inspetores escolares motivados.

16 - Exija que todos os estabelecimentos escolares sejam obrigados a oferecer um quantitativo de vagas muito superior à real capacidade de seus respectivos espaços físicos.

17 - Exija que todas as turmas tenham um quantitativo de alunos muito superior ao que tornaria viável um ensino de qualidade.

17a - É particularmente importante que as classes de alfabetização sejam superlotadas, visto que um estudante bem alfabetizado terá maiores dificuldades em se tornar um subcidadão.

18 - Implemente regimentos escolares lenientes mesmo com as faltas disciplinares mais graves. Faça com que nem agressões físicas a colegas e profissionais sejam suficientes para que um aluno seja imediatamente encaminhado a outra unidade escolar.

19 - Estimule seus burocratas da educação a distorcer gravemente propostas pedagógicas sérias. Por exemplo, empregando o pensamento de Paulo Freire de modo suficientemente deturpado você poderá sustentar com boa consciência que não existem subcidadãos analfabetos ou semianalfabetos, apenas "pessoas com uma relação diferenciada com o mundo da língua escrita".

20 - Não torne obrigatório o ensino médio.

20a - Reduza a oferta de vagas no ensino médio.

21 - Reduza a oferta de ensino médio noturno e de educação de jovens e adultos; dificulte quanto possível o acesso à educação para o subcidadão que já ingressou no mercado de trabalho.

22 - Feche quantas escolas for possível.

23 - Dificulte ao subcidadão o acesso ao ensino superior público. Se as pressões sociais forem suficientemente fortes, empregue medidas paliativas variadas, mas evite veementemente a melhoria do ensino básico.

24 - Permita que as instituições privadas de ensino superior tenham qualidade muito inferior às universidades públicas; a maioria delas aproveitará todas as brechas para reduzir seus custos operacionais às custas da qualidade do ensino. Também aqui a chave é fiscalização insuficiente.

24a - Permita que as instituições privadas de ensino superior sejam extremamente flexíveis em seus processos de seleção estudantil. O subcidadão não precisa ser plenamente alfabetizado para frequentar um curso de graduação.

24b - Permita que essas mesmas instituições implementem processos de avaliação pouco rigorosos. O subcidadão semianalfabeto tem pleno direito de gastar suas economias e se endividar adquirindo um diploma pouco condizente com sua efetiva formação, mesmo que isso restrinja seu posterior acesso ao mercado de trabalho especializado.

25 - Crie diversos métodos de financiamento público para oferta de vagas em instituições privadas de ensino superior; quanto menos criteriosos, melhor. Qualquer tipo de parceria entre poder público e iniciativa privada é bem vinda, especialmente quando o dinheiro público gere benefícios privados.

26 - Facilite a criação de turmas superlotadas em instituições privadas de ensino superior. Uma turma com 160 alunos não é empecilho para uma educação de qualidade, e os professores obviamente poderão se dedicar profundamente à correção de todas as provas e trabalhos acadêmicos, acompanhando devidamente a formação de inúmeros estudantes que não chegaram plenamente alfabetizados à graduação.

27 - Em algum momento do processo seu subcidadão chegará ao mercado de trabalho. Repita com ele os passos 1, 1A e 1B do mesmo modo que fez com seus pais.

27a - Melhor ainda, garanta que ele permaneça muito tempo desempregado.

28 - Deixe a especulação imobiliária completamente descontrolada e galopante, para que o subcidadão tenha dificuldades em adquirir casa própria.

28a - Caso se mostre politicamente conveniente ou oportuno, implemente um programa habitacional voltado à construção de imóveis populares; garanta que esse programa seja especialmente benéfico para as empreiteiras de grande e médio porte.

28b - Seu subcidadão já foi programado para acreditar que a posse de um carro novo ou usado é o supremo bem. A primeira aquisição de veículo, as trocas subsequentes e os gastos de manutenção tornarão a aquisição de um imóvel cada vez mais distante de seu horizonte de realização. Você só terá o trabalho de reforçar essa crença ao longo de toda sua vida adulta.

29 - Caso tudo dê certo até aqui, seu subcidadão viverá pagando um aluguel exorbitante que drenará sua renda familiar ou viverá em setores urbanos periféricos.

30 - Garanta que seu subcidadão tenha acesso a um sistema público de saúde extremamente precário e pouco confiável. Quanto mais imprevisível, melhor.

31 - Estimule o subcidadão a pagar por plano privado de saúde.

31a -Seja leniente quanto à fiscalização dos planos privados de saúde. Quanto mais precária for a cobertura, melhor. A maioria dos subcidadãos tem dificuldades de acesso à Justiça e graças à morosidade dos processos os planos poderão operar durante muitos anos com poucos embaraços judiciais.

32 - Mantenha uma presença extremamente precária do poder público em áreas urbanas periféricas ou em zonas rurais, locais típicos de habitação do subcidadão.

33 - A maioria dos subcidadãos levará uma vida honesta, por convicção moral ou por medo. Todavia, uma parcela relativamente pequena deles optará por aderir à criminalidade, após um cálculo intuitivo de oportunidades, riscos e benefícios. Faça parecer que essa parcela é bem maior que suas reais dimensões.

33a - O subcidadão que ingressar na criminalidade eventualmente passará pelas malhas da Justiça penal e do sistema carcerário. Garanta que o cárcere lhe ofereça poucas chances de reabilitação social.

33b - Quando o subcidadão egresso do cárcere retornar ao convívio social crie inúmeros obstáculos à sua reintegração na sociedade e no mercado de trabalho, de modo que ele retorne à criminalidade tão cedo quanto possível.

33c - Através da mídia, estimule o conjunto da população a ignorar ou esquecer a execução dos passos 1 a 32, de modo que toda a criminalidade seja atribuída à falta de caráter de alguns subcidadãos, eximindo todos os demais setores da sociedade de qualquer dose de responsabilidade. Capriche no sensacionalismo.

33d - Caso necessário, use a violência urbana provocada por subcidadãos para promover a carreira de políticos e/ou partidos com tendências autoritárias.

34 - Hoje em dia a maioria dos subcidadãos possui título de eleitor. Garanta que a maioria deles seja absolutamente desinteressada de todos os processos políticos e até se orgulhe de não entender nada de política.

34a - Quanto menor for a consciência social e política do seu subcidadão, melhor. Convença-o de que política é sinônimo de dinâmica partidária e de que a democracia se exerce apenas através do voto.

34b - Convença o subcidadão de que qualquer mudança social é impossível, para que ele se mantenha em constante estado de apatia. Ele já está tão acostumado a apanhar da vida que raramente ergue a cabeça para reivindicar alguma coisa.

34c - Estimule todo tipo de divisão ideológica entre os poucos cidadãos e subcidadãos que se interessarem por política. Isso é igualmente útil para políticos de esquerda e de direita, que na mesma gamela se nutrem habilmente de querelas ideológicas estéreis.

34e - O subcidadão em geral prefere políticos carismáticos com propostas paternalistas. Aproveite!

34f - Caso necessário, atire algumas migalhas ao subcidadão para atenuar as tensões sociais mais acentuadas e/ou perigosas.
 
35 - Convença o cidadão de classe média, especialmente de classe média baixa, de que o subcidadão é o maior obstáculo ao bem comum. Designá-lo como "vagabundo", "ignorante", "marginal" e outras poéticas figuras de linguagem pode ajudar bastante. Quanto menos solidariedade houver entre esses estratos sociais, mais sólido será o resultado de seu projeto.

35a - O cidadão médio de classe média gosta de acreditar em meritocracia e será facilmente convencido da irrelevância social dos passos 1 a 34. Para o cidadão médio de classe média tudo é sempre questão de "caráter".

35b - Pressionado por inúmeros fatores sociais como desemprego ou inflação o cidadão médio de classe média sabe, ao menos em seu subconsciente, que não está muito longe da subcidadania e tem um medo inconfessável de despencar para a condição de subcidadão. Em geral o cidadão de classe média já visitou a Europa, mas tem dificuldades em pagar a fatura do cartão de crédito, o aluguel ou o financiamento da casa própria. Use isso a seu favor.

Considerações finais - Alguns poucos subcidadãos conseguem ascender socialmente, então não se preocupe demasiadamente com esse problema. Cedo ou tarde os subcidadãos morrem, e isso pode ser um problema a longo prazo, mas em algum momento desse processo seu subcidadão atingirá a puberdade e gerará futuros subcidadãos. Também não é muito difícil transformar cidadãos de classe média baixa em subcidadãos. Recomece o ciclo quantas vezes for necessário e terá um suprimento de subcidadãos garantido por muitas gerações para servir a você e a seus filhos, netos e bisnetos.