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quarta-feira, 13 de julho de 2022

Quinta da Boa Vista - Le 13 juillet 2022

No Rio, não há Bastilha a derrubar, nem Tulherias a incendiar; tudo despenca e queima sem necessidade de jacobinos nem communards.

A antiga morada imperial jaz engaiolada; Dom Pedro II espia nossos tristes tempos por cima da cerca. Afiadas concertinas lembram a selvageria da megalópole. Dom João VI temeria as hordas cariocas mais que as hostes napoleônicas?





Em uma escada menos frequentada, moscas assediam a putrefata carcaça de um gato. Balões de hélio flutuam emaranhados entre galhos.






Camadas de tempo se acumulam. Um motor a diesel ronca sobre o gramado imperial. Raízes centenárias se derramam pelos muros do antigo jardim onde passeava a Princesa Isabel. Um velho poste de madeira, desprovido de cabos, permanece altivo, testemunha de progressos obsoletos. Uma velha planta parasita viceja sobre um tronco ainda mais antigo. O oco de uma árvore venerável se vê usado como lixeira. Um bucólico nicho arquitetado para a realeza se transforma em santuário e altar para alguma entidade trazida de além-mar, contrabandeada de plagas africanas no ventre sórdido dos navios negreiros.








Os seres humanos se apequenam e amesquinham em meio à paisagem. Gloriosas palmeiras se elevam aos céus, lembrando a efemeridade de nossas vidas e obras. Tudo se transforma, para além de nossos planos e intenções. Sinuosos caminhos imitam o tortuoso fluir da vida. Outro felino, vivo, caminha preguiçosamente sobre a grama, indiferente às inquietações do bicho-homem.




















quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Jerusalém Libertada

 Hoje tive um sonho.


Sonhei contigo, Jerusalém, "três vezes santa": santa para judeus, santa para cristãos, santa para muçulmanos. Santa para todos os povos de Abraão.

Jerusalém sofredora, Jerusalém atormentada. Três vezes santa, três vezes desejada, muitas e muitas vezes disputada!

Jerusalém, Jerusalém, quanto sangue já correu, corre e ainda correrá por ti! Quantas lágrimas vertidas, quanto ranger de dentes, quanto bater de espadas!

Até quando, Jerusalém, os povos de Abraão lutarão por ti? Até quando, três vezes santa Jerusalém, serás pedra de tropeço para aqueles que dizem te amar?

Embriagados pelo vinho da ira, sorvido em poluídos cálices, teus pretendentes te cortejam violentamente, tomando por amor aquilo que não passa de vulgar paixão. Te idolatram, pensando te adorar. Pois, infelizmente, Jerusalém, te tornaste ídolo no coração daqueles que julgam te amar - e é como idólatras sanguinários que te disputam.

Antes de Abraão e seus herdeiros eras Salém, reino do misterioso Melquisedec. Generoso, hospitaleiro Melquisedec, que acolheu Abraão fatigado dos combates.

Abraão foi teu hóspede, jamais teu dono, Jeru-Salém, cidade, antes de tudo, hospitaleira. Acolheste em teu seio a Arca daquela Aliança que diz: "Não matarás".

Quão iludidos estão aqueles que se entrematam em teu nome! Aqueles que deveriam te santificar, te profanam, derramando sangue sobre o solo de Melquisedec.

Onde estás, onde estás, Jerusalém? Estás nos céus ou estás na terra? Em todo lugar ou lugar nenhum? Estás, antes de tudo, nos corações de todos aqueles que amam?

Que podes significar, Jerusalém, de mais nobre, digno e elevado, senão o Amor?

Todos aqueles que amam, hospitaleira Jerusalém, acolhem a ti, no fundo de seus corações e almas. Te acolhem e te possuem, em Espírito e Verdade! Pois és mais que pedra, és um sonho, um ideal, tantas vezes destruído, pisoteado, aviltado. Em Espírito e Verdade te encontras em toda parte, como disse o galileu à samaritana.

Aprisionada choras, Jerusalém, mas venho oferecer-te consolo.

Sonhei contigo, Jerusalém, como sonham os profetas, os visionários e os poetas. Sonhei como sonham os esperançosos, aqueles que teimam em sonhar!

Em meu sonho, Jerusalém, todos aqueles que se matam por ti depuseram as armas. Os povos de Abraão finalmente se entendiam como irmãos, após séculos de encarniçado ódio. Ismael e Isaac se estreitavam em infinito abraço; Caim, Abel e Set partilhavam o banquete da paz. Moisés, Jesus e Maomé sorriam.

E depondo suas armas, te libertavam do cruel jugo em que tanto sofres. Amando uns aos outros, te libertavam. Renunciando a toda paixão possessiva, se encontravam juntos sob a reluzente tenda de Melquisedec.

Mais uma vez eras Salém, a simples, humilde e hospitaleira Salém. Rejuvenescida, revigorada, renovada, resplandecias para todos os povos da Terra, como sonhava Salomão. Todos aqueles que amam se encontravam em ti, em Espírito e Verdade.

Salém, três vezes santa, muitas vezes santa, acolhias crentes e descrentes. Tua luminosa tenda era um santuário de paz, um sagrado recinto onde ninguém ousaria derramar o sangue do irmão.

Mais uma vez governada pelo sábio, misterioso Melquisedec, acolhias todos aqueles fatigados das guerras, dos prantos e do ranger de dentes.

Sob o cetro de Melquisedec, a amorosa e zelosa hospitalidade se tornava tua primeira e única lei. Eras verdadeira e plenamente a Terra Prometida, onde não mais se ouviam os ecos das espadas, lanças, flechas ou canhões. Soava apenas um silencioso cântico de paz, murmurado em cada coração.

Sonho acordado, bem sei, Jerusalém. Mas o sonho é irmão da esperança, e a esperança é mãe de milagres.

Segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia, se aproxima o dia de tua libertação, Jerusalém...

Inspirado pela Águia de Patmos e por Victor Hugo; dedicado a Priscila, minha Sara

Encontro de Melquisedec e Abraão; pintura atribuída a Peter Paul Rubens (séc. XVII)


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Mais uma pequena tragédia parisiense

No breve período em que minha esposa e eu moramos em Paris, as livrarias Gibert Joseph e Gibert Jeune estavam entre nossos refúgios preferidos, constituindo paradas obrigatórias em muitas de nossas andanças.

Depois de devidamente instalados, impossível esquecer de nosso primeiro passeio. Uma visita a Notre Dame, oportunamente concomitante a uma feira de gastronomia. Almocei um delicioso sanduíche "jambon-beurre", e um sanduíche de creme de cereja por sobremesa. 

Após as subidas e descidas pela catedral que tanto me encantava, atravessando o Sena, passando pela monumental fonte de São Miguel, penetramoa no mágico mundo de Gibert Jeune, com seus muitos andares. Saímos de lá carregados de livros (dois dos quais tenho diante de mim enquanto escrevo), especialmente os dois últimos volumes de "Nausicaa do Vale do Vento", de Hayao Miyazaki, cuja publicação brasileira fora interrompida anos antes pela Conrad. Passei a noite lendo a tão aguardada conclusão da magnífica obra de Miyazaki.

Atendidos por Sévérine...


Nos tornamos assíduos frequentadores de Gibert Jeune e dos primosoncorrentes, Gibert Joseph - com sua magnífica papelaria, onde compramos boa parte dos materiais de desenho e pintura que ainda hoje usamos. Excetuando o banheiro e a cozinha, não há cômodo em nossa casa sem algum butim dos Gibert.

Me recordo de nossa última visita a Gibert Jeune, quando deixei de comprar um livro de Roland Mousnier, cujo preço me pareceu à época exagerado, mas que depois muito me arrependi de não ter adquirido.

Hoje leio, com muita tristeza, a notícia de que Gibert Jeune fecha as portas - uma catástrofe afetiva comparável ao incêndio de Notre Dame, sendo a catedral e a livraria tão intimamente vinculadas em minha memória emocional.

Posso suportar a ideia de jamais rever Paris, mas é intolerável pensar que, visitando Paris, não poderei mais subir as escadarias de Gibert Jeune.

Cada livraria que fecha é uma luz que se extingue e deixa o mundo um pouco mais frio e sombrio.

Perder a velha e gloriosa Leonardo Da Vinci, a efêmera Livraria Cultura da Senador Dantas, a antiga Casa Mattos do Méier, a FNAC do Barra Shopping e agora Gibert Jeune são duros golpes em minha vida de leitor e bibliomaníaco, disposto a devaneios em qualquer lugar, brega ou chique, onde se vendam livros.

Uma das coisas que mais me entristecia em Paris era passar pelo Palais Royal, outrora ninho fulgurante das melhores livrarias da Europa, frequentado por grandes figuras literárias dos séculos XVIII e XIX e constatar que ali não se vendem mais livros, sendo necessário atravessar a rua para visitar a discreta e simpática livraria Dellamain - se é que ela ainda existe. 

Hoje só se encontram no Palais Royal antiquários hiper-sofisticados, lojas de grifes internacionais e uns poucos restaurantes careiros "au nez en l'air" (exceção feita ao velho restaurante outrora frequentado por ninguém menos que Voltaire, "sans trôp de chichi").

Vivemos em um século bárbaro, em que se fecham tantas livrarias. Sunt lacrimae rerum.



quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Qual era realmente o problema do comunismo?

Tradução do interessante relato de Viktor T. Toth, profissional de TI, físico em “meio período”

Como cresci em um país comunista, a Hungria do “comunismo goulash”, me sinto inclinado a oferecer meus pensamentos, apersar do fato de que já há algumas excelentes respostas aqui [no site], como a de Dima Vorobiev. Debato comigo mesmo se posto ou não esta resposta, pois será longa, tortuosa e bastante pessoal. Todavia... talvez seja útil. Em todo caso, vocês estão avisados.

Antes de chegar aos problemas com o comunismo, permitam-me apontar as poucas coisas que eram bem feitas. Essas são as coisas que tornam um monte de pessoas nostálgicas pelo comunismo.

A Hungria do “comunismo goulash” em que nasci no início dos anos 60 não era um lugar desagradável, certamente. Os dias de terror comunista linha dura tinham passado. O regime stalinista de Rákosi tinha sido deposto em 1956, e as retaliações do regime de Kádár terminaram por volta de 1962, quando muitos prisioneiros políticos foram libertados. No tempo em que me tornara consciente do mundo ao meu redor, no jardim-de-infância, o medo não era mais um fator na vida cotidiana.

Tampouco pobreza ou privação. Não, não éramos ricos. Mas não víamos mendigos nas ruas. Até o fim dos anos 60 não era incomum ver, por exemplo, viúvas da guerra (centenas de milhares de soldados húngaros morreram, lutando principalmente do lado de Hitler na II Guerra), licenciadas pelo todo-poderoso Estado totalitário, operando barraquinhas de cigarros ou de legumes ou similares, ganhando a vida nas ruas; mas mendigos de verdade? Não me lembro de jamais ter visto algum. Nem havia filas na vida diária. Ocasionalmente, é claro, quando alguma loja de hortifruti tinha recebido um carregamento inesperado de bananas ou outras comidas de luxo. Mas se tudo que você quisesse fosse simplesmente um pão, leite, manteiga, algumas fatias de mortadela, talvez legumes da estação ou uma maçã... tudo isso era abundante, facilmente disponível até nas menores cidades.

Crimes eram raros. Você podia andar pelas ruas mal iluminadas de Budapeste até tarde da noite. Crime organizado, particularmente, não existia – minha opinião é que um regime cuja própria natureza era criminosa, para começo de conversa, não tolerava competição.

A educação pública funcionava bem. Claro, aulas de História, especialmente quando se tratava do período posterior à Revolução Industrial, era manchado com o dogma Marxista-Leninista, e por alguma razão, aulas de língua estrangeira eram fracas em todo lugar, ao menos baseado em evidência anedótica que ouvi e minha experiência pessoal, mas havia escolas, elas eram funcionais, e até o ensino superior era gratuito; ou você passava nas provas ou você estava fora, mas dinheiro não comprava um diploma.

A saúde pública funcionava. Podiam faltar equipamentos modernos e brilhantes, mas sempre que precisei de cuidados médicos, eram prontamente disponíveis. Quando eu ficava doente, ainda criança, nosso pediatra fazia consultas domiciliares. Mais tarde, eu simplesmente entrava na clínica central do 6º distrito de Budapeste se eu sentisse necessidade de consultar um especialista. Isso incluía atendimento odontológico e oftalmológico. Vacinas não eram opcionais; nós todos recebíamos as vacinas requisitadas na idade indicada na escola, sem solicitação de autorização familiar. Da mesma forma, até adultos eram obrigados a realizar exames pulmonares regularmente – assim foi eliminada a tuberculose.

Quando eu comecei a escola houve um crescimento explosivo no número de automóveis no país. Carros Lada importados da União Soviética eram parcialmente responsáveis por isso. Conseguimos nosso primeiro Lada de uma das primeiras fornadas, em 1970 ou 1971, creio -Um VAZ-2101 “Zhiguli” branco. Era um carro básico, mas um bom carro. Um confiável burro de carga. A última vez que vi aquele carro foi nos anos 90, com um novo dono, obviamente, mas ainda tinha a velha placa (aquelas velhas placas eram designadas para o carro, não para o proprietário), e ainda que gasto, funcionava.

Nossas noites frequentemente se passavam em frente a uma TV em preto-e-branco, assistindo o único canal nacional (um segundo canal, originalmente chamado o canal “a cores”, foi lançado, mas no começo tinha apenas algumas horas semanais de programação, e como transmitia em UHF, aparelhos de TV mais velhos, como o nosso, só recebiam o sinal com um adaptador externo). A programação diária, excetuando umas poucas horas de programação para as escolas durante a manhã, começava no final da tarde. O início da noite tinha documentários, talvez uma série cômica importada ou algum programa sobre atualidades. Então, às 19:15 toda criança no país com acesso a televisão assistia “Urso da TV”, um urso-fantoche muito amado, que apresentava os programas infantis noturnos: geralmente uma animação, incluindo alguns deliciosos desenhos animados poloneses e tchecoslovacos.

O telejornal principal vinha a seguir, e então um filme ou algum seriado importado, séries policiais sendo bastante populares. Eu assisti muitos episódios de Kojak, Columbo, Inspetor Maigret (da França) e outras séries com dublagem húngara (argh, dublagem! Não espanta que o ensino de línguas fosse fraco). As transmissões diárias encerravam por volta das 23:00, depois de alguma programação adicional e um segundo telejornal, mais curto. Até os anos 80 não havia transmissão de TV às segundas. Reza a lenda urbana que Kádár defendia pessoalmente que não houvesse TV às segundas, para que as pessoas passassem a noite com a família. Contudo, quando eu cumpri o serviço militar obrigatório no Exército Popular da Hungria, as noites de segunda eram oficialmente noites de cinema. Pequenas instalações usavam projetores de filme convencionais, enquanto uma base maior onde servi durante um tempo tinha sua própria programação noturna às segundas, em TV de circuito fechado.

Então... um breve registro pessoal da vida na Hungria nos anos 70, início dos 80, sob o “comunismo goulash”. Não parece ruim, parece? Então porque alguém como eu aos 23 anos iria pegar sua mala, atravessar a Cortina de Ferro, pedir reconhecimento como refugiado e tentar começar uma nova vida do zero no Ocidente?

Ah... Eu fui mimado. Terrivelmente mimado. Veja, no início dos anos 70, quando eu tinha 10 anos, minha mãe decidiu fazer a jornada de uma vida e visitar minha tia, que vivia aqui em Ottawa, Canadá, me trazendo junto.

Não foi fácil. Naquela época, viagens para o Ocidente eram estritamente controladas. Cidadãos comuns podiam viajar uma vez por ano, mas apenas se eles tivesse uma carta de convite válida de alguém como um parente, disposto a sustenta-los no exterior. A economia do país passava por uma crise monetária, então havia limites muito restritos sobre quanto dinheiro um viajante poderia trocar. E quero dizer limites realmente muito restritos; segundo me lembro, o máximo permitido a minha mãe e eu era de 30 dólares (!) para férias de seis semanas. Mas essa era apenas a questão financeira. Os pré-requisitos para obter um visto de saída eram muito restritos. Recebemos a visita de um inspetor de polícia (!) que inspecionou nossa casa e anotou nossas circunstâncias, para garantir que nós não estávamos, na verdade, planejando deixar o país para sempre. No fim, foi um processo de meses para obter um visto de saída antes mesmo de podermos começar a solicitar um visto canadense de entrada e que nossos parentes pudessem comprar nossas passagens (que, obviamente, eles tinham de comprar para nós, pois não recebemos permissão de gastos suficientes para cobrir os custos de nossa viagem).

Mas, finalmente, nós embarcamos num voo da Swissair, de Zurique para Montreal, e chegamos no Canadá em uma tarde de verão quente e úmida.

E aquilo... aquilo era como visitar um outro planeta.

A riqueza! A variedade de carros nas estradas! A variedade de comida e outros produtos nas lojas! A alta tecnologia, como calculadoras eletrônicas! Eu já era um nerd de matemática. O respeito entre as pessoas! A polidez com que você era tratado em todo lugar! Era... impressionante.

Vejam bem, é realmente isso. A vida na Hungria do “comunismo goulash” não era ruim. Era até melhor que tolerável. Mas as pessoas sabiam. Elas sabiam quão melhor podia ser a vida, se não fosse pelas restrições arbitrárias e barreiras artificiais do regime. Elas sabiam o que estava ausente das lojas.

Algumas pessoas encontraram maneiras de ultrapassar as barreiras. Pequenos empreendedores, cujos negócios floresciam dentro dos limites impostos pelo Estado comunista. Meu amigo, que realmente tinha não um, mas dois ótimos e brilhantes BMWs em sua garagem dupla, e que foi uma das primeiras pessoas na Hungria a ter um computador pessoal Commodore-64. Mas até ele teve que esperar muitos, muitos anos para que uma linha telefônica fosse instalada em sua casa; até na cidade de Budapeste (uma das primeiras cidades do mundo, por volta de 1930, a ter uma rede completamente automatizada de telefonia) linhas telefônicas levavam mais de 20 anos para serem realizadas.

Nós chamávamos a Hungria “o mais feliz dos quartéis”. Porque em muitas maneiras (incluindo as condições muito reguladas sob as quais cada um recebia permissão para deixar brevemente o paraíso socialista) ela nos lembrava a vida de soldados em serviço.

Por que o regime era tão terrível? Por que ele desperdiçava potencial humano tão deliberadamente?

Eu culpo a premissa básica da doutrina marxista. A ideia de que o “homem socialista” trabalhará sem compensação até o melhor de suas habilidades, e consumir apenas de acordo com suas necessidades, simultaneamente preocupando-se com as necessidades dos outros. A ideia de que o verdadeiro valor dos bens e serviços é determinado pela quantidade de trabalho envolvida, não pela sua necessidade e por sua escassez.

Uma vez brinquei que se essa doutrina fosse tomada literalmente, o produto de meus esforços no vaso sanitário deveria ser muito valioso, pois eu certamente me esforço bastante para produzi-lo. Embora de gosto duvidoso, esta piada ilustra perfeitamente quão ilógico e mal orientado era o dogma comunista.

Agora muitos tentarão convencer você de que o que teve lugar na Europa Oriental ou na União Soviética não era “verdadeiro” comunismo. Que ele desviara de seus princípios centrais logo no começo, ignorando os avisos de pessoas como Trotsky. Bobagem, eu digo. Quando você repete o mesmo experimento sob diferentes circunstâncias e, de novo e de novo, você obtém o mesmo resultado: um Estado policial totalitário com uma economia ineficaz, é hora de parar para pensar.

Mas talvez mais que qualquer outra coisa, os sucessos do comunismo mencionados acima mostram que esses Estados não abandonaram aqueles princípios comunistas centrais. A razão pelas quais Estados no bloco comunista normalmente tinham bons resultados em áreas como educação e saúde pública é precisamente porque essas são áreas que não podem ser medidas usando apenas estatísticas econômicas. Um sistema eficiente de saúde pública não maximiza lucros e minimiza custos; ele maximiza a saúde da população. De modo similar, um sistema educacional eficiente maximiza níveis de letramento e outros índices de escolaridade, não renda.

Infelizmente, uma sociedade saudável e vibrante exige muito mais que saúde e educação. O que talvez tenha inspirado o dito algo críptico (de origem desconhecida para mim ou para o Google) de que “o socialismo é uma coisa boa, mas numa névoa densa, tarde da noite, o capitalismo pode ser melhor”[1].

Com efeito, lembrem como o grande experimento comunista acabou, no fim, não com uma explosão, mas com um mero gemido. A Hungria abrindo suas fronteiras, em particular permitindo a fuga de cidadãos da Alemanha Oriental. A Alemanha Oriental pega despreparada, primeiro tentando restringir as viagens de seus cidadãos até para “países socialistas irmãos” e depois, apressadamente abrindo suas próprias fronteiras de maneira desordenada, levando ao colapso do Estado e à reunificação alemã. A União Soviética de Gorbachev que, depois de sua derrota no Afeganistão e seus próprios problemas internos, não tinha apetite para intervir militarmente, deixando ainda mais valentes esses Estados satélites, que silenciosa, mas rapidamente, se afastaram de ditaduras monopartidárias. Finalmente, o mal aconselhado e mal preparado golpe tentado por grupos de linha-dura, a falha do qual apressou não apenas o colapso do regime comunista, mas a imprevista fragmentação da própria União Soviética.

Aqueles tempos eram um pouco assustadores. Estavam acontecendo eventos que, em thrillers políticos da era da Guerra Fria, geralmente representavam o caminho para o Armageddon nuclear. Em vez disso, houve apenas algumas mortes, por exemplo, na Romênia e na Lituânia, mas a transição, embora rápida, foi bastante pacífica.

Duas imagens desse período permanecem em minha mente. Primeiro, os incontáveis carros da Alemanha Oriental, Wartburgs e Trabants, abandonados na Hungria, perto da fronteira com a Áustria. Seus proprietários devem ter passado anos, senão décadas, na lista de espera antes de obter esses veículos. No entanto, eles também estavam muito conscientes de que aqueles carros eram lixo sem valor no mercado livre. Eu vi isso como um símbolo: como os regimes comunistas desperdiçaram o trabalho, o talento, a criatividade e a vida das pessoas. Essa impressão foi reforçada quando apareceram imagens do protótipo do primeiro ônibus espacial soviético sendo transformado em atração de um parque de diversões, apenas para ser seguida pela visão ainda mais trágica de um hangar mal conservado desabando em cima do próprio ônibus espacial, que realizara um voo espacial não tripulado, mas que nunca tivera a chance de levar cosmonautas ao espaço.

Esse era o problema com o comunismo. É simplesmente um projeto com fundamentos falhos**[2]. Você pode remendar aqui e ali, tentando governar através da polícia secreta, jogando gente em campos de reeducação, instilando terror e um sistema ditatorial de liderança, mas nada disso consertará um sistema se sua premissa básica tiver uma falha profunda. Por outro lado, você pode manter tudo acima: a polícia secreta, os campos de prisioneiros, a ditadura monopartidária, contanto que você jogue fora a doutrina marxista defeituosa e a substitua por uma economia de mercado funcional, como foi feito na China e no Vietnã.



E isso também pode explicar porque as falhas do comunismo são rapidamente esquecidas por gente que se encontrou no lado perdedor do capitalismo frequentemente selvagem que se seguiu ao colapso soviético. De que servem lojas cheias de produtos se você não tem dinheiro para compra-los? Por que você deveria se consolar com condomínios de luxo quando você é expulso do pequeno e desconfortável apartamento onde você cresceu? Por que você deveria se impressionar com um novíssimo aparelho de ressonância magnética quando seus dentes estão apodrecendo porque você não tem meios de pagar um dentista? E se você lembra (ou sabe pela lembrança de seus pais ou avós) como era quando o direito a sua residência era garantido pelo Estado, quando a cesta básica estava sempre disponível a preços que até aqueles de menor renda podiam pagar, quando atendimento médico era realmente universal e gratuito... você não se sentiria nostálgico? Você não sentiria inclinado a ferchar os olhos para a natureza totalitária do regime que garantia tudo isso, mesmo com suas ineficiências e falhas manifestas?



No fim das contas, o que é melhor: um Tesla Roadster que você não pode comprar, ou um Zighuli desajeitado e sedento de gasolina, mas confiável, que você pode adquirir, mesmo que ele não tenha câmbio automático?






[1] Desde então eu perguntei a minha mãe sobre esse dito. Ela acredita que ouviu isso no rádio nos anos 60, em um programa de sátira política (sim, havia sátira política no “comunismo goulash”). Era uma piada envolvendo uma conversa entre dois pequenos empreendedores bem-sucedidos, óbvios beneficiários do regime. Um deles se queixa: “Você sabe, quando eu dirijo por aquela grande avenida de Budapeste em uma névoa densa, numa noite escura, eu sempre me perco. Antes da guerra, você podia identificar onde estava pelas placas de lojas conhecidas. Mas hoje? Todas as placas de lojas estatais são iguais e você nunca sabe onde está; todas as esquinas parecem iguais”. Seu amigo concorda e responde: “Sim, acho que você está certo. Porque o socialismo é uma coisa boa. Mas numa névoa densa, tarde da noite, o capitalismo é melhor”.


[2] Alguém, em uma conversa, sugeriu que sou um anticomunista juramentado. Não sou. Eu vivi sob o comunismo e não gosto dele, apenas isso. Eu hoje vivo no capitalista Canadá. Eu não sou cego às falhas desta sociedade, mas é uma sociedade incomparavelmente mais decente. Mas às vezes nós toleramos as falhas de uma sociedade fundamentalmente boa menos que aquelas de uma sociedade defeituosa desde a base. Uma outra piada me vem à cabeça, esta de um livro do imortal (não realmente; ele morreu de tifo em um batalhão de trabalho forçado em 1943, onde ele foi recrutado devido a sua ascendência judaica) Jenö Reitö, cujos romances, em sua maioria escritos nos anos 30 e muitos deles passados na Legião Estrangeira Francesa, são deliciosas leituras ainda hoje, engraçados como os de Douglas Adams. Esta piada envolve um cozinheiro gourmet que acaba em um batalhão penal, mas depois se encontra em uma base onde acontece um cambalacho colossal. Para manter os prisioneiros quietos, no entanto, eles são mantidos em conforto, o que inclui acesso a comidas luxuosas. O protagonista acaba enrascado de qualquer maneira, e quando seus amigos perguntam por que, ele responde: “Lá em Manson [cidade africana fictícia], eles apenas cozinhavam comida de má qualidade. Isso posso tolerar. Mas aqui, eles cozinham mal comida de boa qualidade, e isso é insuportável”.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Línguas, Livros, Caminhadas e Travessias

Nos últimos dias empreendi uma empolgante travessia: pela primeira vez li, de capa a capa, um livro inteiro em Alemão, 270 páginas, uma de cada vez.

Não li como quem caminha sobre uma ponte, mas como quem atravessa um rio com água até os joelhos.

O livro, obviamente era "Krabat", de Ottfried Preußler, uma de minhas obras favoritas de fantasia, que descobri quase por acaso, na Bienal de 2007, num balcão de livros encalhados.

Ainda no ônibus, retornando para casa, abri o livro e o devorei em menos de 48 horas. Assim é a prosa de Preußler. Nos anos seguintes li "Krabat" mais duas vezes, ainda na língua de Camões.

Em 2012, quando Priscila e eu partimos para nosso inesquecível verão europeu, um de meus objetivos era trazer para casa um exemplar de "Krabat" na língua original.

Iniciei minha busca desde o primeiro passo em solo germanófono, na insossa Zurique, provavelmente a cidade mais prosaica, chata e pequeno-burguesa do mundo. Em Zurique avistei quantidade de carros de alto luxo como em nenhum outro lugar, mas as livrarias eram escassas, e não havia exemplar de "Krabat"em nenhuma delas, para minha grande decepção.

Felizmente Zurique (onde jamais pretendo zurückgehen) era apenas uma escala. Dali tomamos um trem noturno para Viena com seus mil encantos. Assim que descemos na Hauptbahnhof e tomamos nosso Frühstück, procuramos a livraria da estação. Em meu sempre claudicante alemão, me dirigi à balconista:

"Guten Morgen! Haben Sie 'Krabat', bitte?"

A moça arregalou seus olhos azuis:

"'Krabat'?! Von Preußler?!"

Me senti como quem perguntasse se havia pão na padaria. Retruquei:

"Ja. 'Krabat', von Ottfried Preußler. Haben Sie es...?!"

"Natürlich!"

Sem delongas, a moça atravessou a livraria na diagonal e em poucos segundos eu tinha a relíquia em minhas mãos, como um Parsifal que houvesse encontrado seu Santo Graal:

"Danke schön! Ich liebe 'Krabat'!"

Meu Alemão era insuficiente para expressar adequadamente minha gratidão, mas imagino que o sorriso tenha sido mais que expressivo. A moça sorriu de volta, com uma longa frase, da qual pouco entendi.

Meses depois, de volta ao Brasil, finalmente tomei meu exemplar germânico de "Krabat" para, supostamente, me deleitar com a prosa de preußleriana original. Em vão. Após muitas consultas ao dicionário e à tradução brasileira, desisti da tarefa que se revelou ingrata.

Com imensa frustração entreguei "Krabat, von Preußler" a uma prateleira. Havia viajado meio mundo atrás daquele livro, mas agora que o tinha em minhas mãos, não conseguia juntar as palavras, frases, parágrafos e páginas para fazer um romance. Eu enxergava as árvores, mas a floresta escapava a meus olhos. Me senti como um Parsifal que houvesse encontrado o Santo Graal, mas permanecesse incapaz de contempla-lo em sua ofuscante luminosidade.

Sempre tive facilidade para aprender línguas - a começar pela Portuguesa. Dizem meus familiares que comecei a falar com espantosa fluência com menos de um ano de idade. Alfabetizado, logo comecei a buscar livros cada vez maiores. Aos sete anos encasquetei de ler os dois imensos volumes de "Moby Dick" que tínhamos em casa: "Chamei-me Ismael". Naufraguei como os tripulantes do Pequod; pior, parei no meio do caminho para Nantucket, antes mesmo de embarcar rumo à trágica aventura.

Como Acab, fiquei obcecado por abater Moby Dick - o livro, não o cachalote. Pouco mais tarde, com 13 anos, fortalecido pelas jornadas no Mississipi ao lado de Tom Sawyer, Huckleberry Finn e Mark Twain e por outras aventuras com Emília, Narizinho, Pedrinho e Monteiro Lobato, finalmente resolvi minha velha rixa com Melville e seu temível cachalote branco. Conheci Queequeg, embarquei no Pequod, atravessei o Cabo Horn, e sobrevivi ao naufrágio com Ismael, agarrado a um caixão. Era um livro denso para um leitor imaturo. Ainda assim, impressionante. É um clássico ao qual ainda preciso retornar (agora, na língua original).

Alfabetizado em Português, outros horizontes linguísticos me acenavam. Em criança, um de meus livros favoritos era "O Pato Poliglota" - e eu sonhava em ser como aquele pato! Me encantavam os recuerdos em diversas línguas, colecionados por meu avô em seus tempos de marinheiro globe-trotter.

Na escola primária, "aulinhas" de Inglês. No cinema e nos VHSs eu tentava (com pouco sucesso) encontrar correlações entre as legendas e as falas dos filmes. Com Collor, Itamar e FHC nosso mercado foi se abrindo cada vez mais às importações e chegavam a minhas mãos produtos com rótulos e manuais de instruções em várias línguas (era no tempo em que manuais de instruções eram longos, minuciosos e impressos; altre tempi). Às vezes passava horas e horas debruçado sobre essas preciosidases. Eram minhas pedrinhas de roseta; minha avó caçoava de meus rudimentares exercícios de linguística comparativa, mas é uma mania que ainda hoje me acompanha.

Logo mais chegavam ao Brasil os caríssimos "trading cards" de super-herois - um pequeno luxo que minha suburbana família de classe média baixa podia me conceder de vez em quando. Avidamente colecionados, me proporcionaram duradoura experiência com a língua de Shakespeare. Lia e relia os cartõezinhos coloridos como um dedicado epigrafista, acompanhado de um pesado dicionário Inglês-Português. Certa vez meu avô cometeu a insensatez, duramente censurada por minha mãe, de me satisfazer o capricho de comprar um gibi importado do Batman por R$ 40,00 - quase meio salário mínimo à época...! Os games e, mais tarde, os livros, completaram minha introdução à anglofonia. "Treasure Island", de Robert Louis Stevenson foi o primeiro livro que li em inglês (em barata edição da "Penguin Classics", must be said).

Entrei no Colégio Pedro II no tempo em que os ginasianos tinham o luxo de ter aulas de Inglês, Francês e Latim. Je suis tombé follement amoureux de la langue française. Aos 13 anos, enquanto lia Moby Dick, ingressei na Aliança Francesa, cujas mensalidades minha mãe pagava com algum aperto (mesmo depois que meu bom desempenho me garantiu um desconto de 40% nas mensalidades). Foi nessa época que descobri a Livraria Leonardo Da Vinci  (a autêntica). Com o real valorizado e o franco não-tanto, iniciei uma vasta coleção de Astérix e, mais importante, completei minha coleção das aventuras de Tintin et Milou. Logo descobri as aventuras de Arsène Lupin, que devorei na Mediateca da Maison de France.

O portunhol falamos todos de berço, e me iniciei na língua de Cervantes e Bolaños com "El Lazarillo de Tormes". Com um bom dicionário, me viro na língua do Lácio e adquiri alguma fluência na língua de Dante acompanhando o Giro d'Italia pela Internet, na Gazzetta dello Sport, especialmente o fabuloso Giro de 2004, com a inesperada conquista da Maglia Rosa pelo "Piccolo Principe" Damiano Cunego - mesmo ano da epopeia de Thomas Voeckler no Tour de France, que durante várias etapas se agarrou heroicamente ao Maillot Jaune tomado na lendária Trouée d'Arenberg.

Português, Francês, Inglês, Espanhol, Italiano e um pouco de Latim. Mas o desafio maior, a montanha mais alta, o castelo mais inexpugnável, resistia, e resiste ainda, a minhas investidas: o Alemão.

Tinha meus 15 anos quando me caiu entre as mãos um CD da "Paixão segundo João", de ninguém menos que Johann Sebastian Bach, devidamente acompanhado por um encarte bilíngue, em Alemão e Francês - era no tempo em que CDs vinham acompanhados de robustos encartes - vergangenen Zeiten. Tomei a temerária decisão de aprender Alemão fazendo uma xerox do dito encarte. Mais fácil planejar que fazer - faltou combinar com os alemães! Um recuo estratégico se fez necessário.

Anos mais tarde, em 2003, um maduro cavalheiro em seus 20 anos e graduando em História (nada mais arrogante que um graduando), resolvi empreender meu ataque definitivo contra Deutschenschloss. Munido de dicionários, um livreco de conversação para viajantes e uma pasta repleta de textos impressos da Internet, comecei a estudar Alemão com alguma seriedade e muita irregularidade.

Após alguns anos de inconstantes esforços, conseguia ao menos ler gibis em Alemão - retornando de Veneza, inclusive, passei uma agradável manhã na estação de Munique, lendo gibis (uma chuva torrencial desencorajava qualquer tentativa de passeio). Em Munique embarcamos em um trem da Deutsche Bahn que, por dentro, parecia um cenário de Star Wars; em Düsseldorf tomamos um trem da SNCF onde degustei o couscous marroquino mais saboroso de que me lembro. Só chegamos em Paris à noite, cansados, sedentos e famintos, devido a um terrível acidente ferroviário que nos reteve por horas, esgotando todo o estoque da lanchonete - quase como a bande dessinée "Le Transperceneige", exceto pela antropofagia. Tudo isso com "Krabat, von Preußler" na bagagem.

Em 2013 (re)comecei a estudar Alemão usando o excelente e gratuito aplicativo Duolingo, mas uma série de compromissos acadêmicos e problemas familiares me impediram de manter a disciplina adequada.

Iniciei 2020 firmemente decidido ao assalto definitivo contra Deutschenschloss. Estava determinado a ler em Alemão com desenvoltura até dezembro. Das oder nichts! E assim tenho feito, estudando Alemão quase diariamente, mit mein ganzen Herz.

Há alguns dias terminei de ler "Soie", tradução francesa de "Seta", de Alessandro Baricco, um delírio elsevírico magistralmente ilustrado pela maravilhosa Rébecca Dautremer, com capa artesanal impressa "a quente" num ateliê parisiense, diagramação impecável, papel de textura indescritível, impresso e encadernado numa seleta tipografia de Barcelona.

Ainda aturdido por semelhante fantasia editorial, lida em duas madrugadas, me pus a percorrer minhas estantes em busca de nova leitura.

Foi então que Krabat me chamou.

Timidamente peguei o livro. Ist mein Kraft jetzt genug? Findo o primeiro capítulo, me senti confiante, prosseguindo, com uma ou outra dificuldade, através das 270 páginas, sem recorrer a nenhum dicionário. Wunderschön! Dreimal Hurrah!

Ler "Krabat" em Alemão, apreciando a prosa de Preußler até em sua poética descrição dos tons de verde da grama primaveril foi a realização de um sonho.

Uma breve travessia, após uma longa, exaustiva e, por vezes, desanimadora caminhada. Dezessete anos de esforços foram necessários para ler estas 270 páginas. Mas esta foi apenas uma etapa de uma longa jornada, que espero prosseguir em outros anos e outras páginas.

Finalmente penetrei nos jardins de Deutschenschloss. Ainda há muitos recantos a explorar nesse castelo...


domingo, 1 de março de 2020

Porcaria Suburbana

Uma porca comendo lixo na esquina do meu prédio, na Abolição, Zona Norte. Eu, particularmente, acho superlegal. Sou suburbano de coração, nascido e criado em Quintino Bocaiúva, a menos de meio quilômetro da casa do autor do Manifesto Republicano. Apesar de abandonada pelo poder público, a Zona Norte é adorável e tem muita História para contar. Aqui já viveram Quintino Bocaiúva, Euclides  da Cunha, Lima Barreto, Pixinguinha, Catulo da Paixão Cearense e tantos outros grandes brasileiros.  Pode ser uma porcaria, mas é a MINHA porcaria, com muito orgulho.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Toda Esperança

A esmagadora maioria dos brasileiros que visita o Velho Mundo inventa uma Europa que não existe, tão ansiosos estão para "ver" um Anti-Brasil. Se iludem como aqueles europeus de outrora, desejosos de encontrar o Éden no Novo Mundo. O Paraíso fica sempre do outro lado. "Lasciate ogni speranza".

Gravura de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante

terça-feira, 2 de maio de 2017

Os mundos e suas placas

Cerca de meia-noite.

Abro os olhos no vagão de trem fracamente iluminado. As entranhas do veículo parado emitem um suave zumbido. Ainda sonolento, olho pela janela e levo um tremendo susto. O trem se encontra parado numa pequena estação ferroviária, deserta. A placa da estação ostenta palavras incompreensíveis. Polonês...?! O que teria acontecido?!

Eu partira de Paris ao cair da tarde e adormecera ainda na França, a caminho de Madri. Teria o trem tomado a linha errada, rumando para algum lugar da Europa Oriental? Mas... como?! Seria impossível percorrer tamanha distância em tão pouco tempo! Como o maquinista não teria percebido que viajávamos na direção errada? Seria isso possível?! Onde estaríamos? Onde?! O que se passava?! Estaria eu dormindo ou acordado?! Seria aquilo um sonho?

Durante alguns minutos me debatia nesses pensamentos angustiados e desconcertantes, quando finalmente me dei conta do que se passava: estávamos no País Basco! A língua estranha naquela placa não pertencia ao Leste Europeu, mas aos Pirineus.

Passei por essa curiosa experiência em 2012. Além de engraçada, ela me parece instigante em vários sentidos. Antes de tudo, pelo modo como o letramento informa nossa percepção de mundo, a ponto que a mera leitura de um placa possa provocar tamanho estranhamento, induzindo até uma angústia pavorosa. Ao mesmo tempo, lembra quanto nossas próprias percepções de espaço, distância e tempo incorporam também dimensões linguísticas às quais mal prestamos atenção, a não ser quando nos deparamos com o inesperado.

Não é apenas uma questão de língua, todavia, mas de contexto social específico. Digamos, se eu tivesse avistado um simples cartaz em basco afixado à parede da estação, a sensação de estranhamento talvez fosse menos brutal. Há aí um problema de convenções de sinalização: eu sabia que aquela não era uma placa qualquer, mas que indicava o nome do lugar onde estávamos - um nome que não parecia nada francês ou espanhol. Um nome estranho, num determinado contexto convencional, foi capaz de me induzir a imaginar coisas absurdas e extremamente improváveis. Nesse caso, as convenções, que normalmente servem para facilitar e orientar nosso trânsito pelo mundo, atuaram de modo inesperado, desorientando e dificultando a percepção da realidade. No limite, a sonolência contribuiu até para que me pusesse a questionar a própria realidade de minhas percepções naquele momento!

Essa situação me trouxe curiosas ressonâncias, lembrando a epopeia ferroviária de Jacinto de Tormes em A cidade e as serras, perdido entre os mundos francês e ibérico...

Mas minhas experiências estranhas com placas ainda não estavam esgotadas naquela semana. Após breve estadia em Madri, seguimos para Lisboa. Depois de dois meses morando em Paris, finalmente retornava a uma terra onde se fala minha língua nativa.

No entanto, em inúmeros momentos, me pegava estranhando algumas placas, escritas em minha própria língua. Após minha brevíssima passagem por Madri, meu primeiro impulso em diversos momentos era de achar que havia erros de tipografia nas placas, invariavelmente seguidos, após um lapso infinitesimal, pela consciência de que elas estavam escritas em português... não em espanhol! Esses pequenos equívocos aconteciam sempre em momentos que me encontrava distraído, causando um breve desconforto, quase como um susto.

O mais curioso nisso tudo é que, durante os dois meses que passara em Paris, não perdera contato com a língua portuguesa. Era a língua que usava em casa com minha esposa, bem como com os demais companheiros de andar na Casa do Brasil da Cidade Universitária. Era também a língua com que mantinha contato cotidiano com meus amigos do Brasil, através da Internet, sem falar nos livros em português que levara do Brasil e nos telefonemas para a família. Em suma, não passei nenhum dia na França sem usar a língua portuguesa - falando, ouvindo, lendo, escrevendo. Como era possível que viesse a estranhá-la tanto, em Lisboa? Estranhar uma língua tão estranha quanto o basco, vá lá, mas estranhar minha língua nativa e cotidiana... Não fazia nenhum sentido!

Mais uma vez, me parece, trata-se de uma questão de contexto. Durante os dois meses anteriores eu realmente utilizara o português em meu dia-a-dia, mas em situações muito específicas: em livros, no computador ou na comunicação oral. Praticamente tudo que via em ambiente urbano estava escrito em francês. Naqueles dois meses, a língua de Molière se tornara minha língua de uso público, enquanto a língua de Camões era minha língua de uso privado. Inconscientemente, eu criara para mim dois mundo linguísticos paralelos em uma mesma cidade: minha Paris era francófona e lusófona ao mesmo tempo.

Desse modo, chegando a Lisboa, me encontrava num ambiente linguístico um tanto diferente, onde o português retornara um tanto bruscamente à condição de língua única. Era, na verdade, meu ambiente familiar, do qual me desacostumara: ali estava eu, parodiando Lévi-Strauss, a estranhar o familiar...!

"Minha pátria é a língua portuguesa", disse Fernando Pessoa. Tomo a liberdade de acrescentar que nossos mundos são nossas línguas e seus contextos, repletos de estranhos estranhamentos...

Nem tenho certeza se isso aqui é basco, mesmo...

domingo, 25 de setembro de 2016

O mundo visto de longe

Vista do espaço, a Terra é sempre espetacular! Fotos tiradas da Estação Espacial Internacional.


Estreito de Gibraltar, visto do norte.

Itália meridional, vista do norte.

Delta do Nilo, Mediterrâneo, Mar Vermelho, Golfo Pérsico e uma pontinha do Índico.

Duas tempestades elétricas avistadas sobre a Malásia.

domingo, 11 de setembro de 2016

Reis, povos e museus

Trecho (mal) traduzido de La guía del Prado, de autoria de Alberto Pancorbo

"A instituição que hoje conhecemos como Museu do Prado abriu suas portas ao público em 19 de novembro de 1819 com o nome de Museu Real de Pinturas, dado que se havia criado por iniciativa e sob o patrocínio do rei Fernando VII. Em 1793 se inaugurara o Museu do Louvre, o primeiro dos museus públicos e modelo de todos os criados posteriormente. Em que pese seu caráter real, o Prado partilhava com o Louvre o objetivo de trazer à luz tesouros artísticos até então conhecidos e desfrutados somente por um grupo muito reduzido de pessoas pertencentes à realeza, à aristocracia ou à Igreja. Esta ideia de tornar pública a arte tinha uma raiz ilustrada e um desenvolvimento revolucionário e, como muitas outras ideias, se difundiu por toda a Europa graças às invasões napoleônicas. Já em começos do século se manifestou na Espanha a necessidade de criar na corte um museu que reunisse as obras artísticas de importância que não eram adequadamente conservadas em outras partes do país. Mas a iniciativa mais séria de criar um museu de pinturas chegou depois da invasão napoleônica e pela mão de José Bonaparte, que em 1809 promulgou um decreto pelo qual se criava em Madri um museu de pintura, que denominar-se-ia Museu Josefino.

[...]

O fim da Guerra de Independência espanhola, a saída dos franceses e a chegada a Madri de Fernando VII em maio de 1814 como rei, longe de fazer naufragar a iniciativa de criar um museu de arte, a favoreceu. Nos meses imediatamente posteriores a sua chegada, o rei dispôs o necessário e finalmente o Prado nasceu sob o patrocínio do rei Fernando VII e pago de seu bolso. Deste modo, se não por suas intenções, o Museu do Prado se distinguia claramente do Louvre pela forma em que se originou. Este último foi criado em pleno auge revolucionário com as obras nacionalizadas da coroa e as confiscadas da Igreja e dos nobres. Pelo contrário, os fundos do Museu do Prado se constituíram com as obras artísticas da Coleção Real".

sábado, 19 de setembro de 2015

O paraíso por R$ 15,00

Essa semana, ouvindo o primeiro livro de Prelúdios de Débussy, me veio a vívida recordação de um dos momentos mais felizes da minha vida.

Era setembro ou outubro de 2001. Por apenas R$ 15,00 comprei entradas para um recital de piano no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.  Execução integral do primeiro livro de Prelúdios: La fille aux cheveux de lin, Des pas sur la neige, Ce qu`a vu le vent d`ouest, Les collines d`Anacapri, La sérénade interrompue etc. Não lembro quem era o pianista (só caçando o programa no meio da minha bagunça), mas era excelente, daqueles que não apenas executa, mas interpreta.

Era um fim de tarde primaveril. A luz crepuscular atravessava os vitrais do foyer, compondo uma espectral penumbra luminosa. Uma catedral profana. As peças seguiam, me transportando para todos aqueles lugares mágicos sonhados por Débussy. Um desses momentos estranhos em que todos os detalhes casuais parecem delicadamente arranjados.

Me sentia ligeiramente sonolento, entregue, no sentido mais profundo, à fruição da música. Uma experiência única de êxtase contemplativo. O tipo de experiência tão única que não se repete outra vez na vida. Nunca. O gênero de vivência cuja descrição será sempre superficial, e cujo significado profundo será sempre impossível de comunicar. Algo que transcende a expressividade dos poemas, a eloquência das imagens e mesmo, paradoxalmente, o próprio êxtase musical. Naquele dia, eu escutava algo além da música, algo que transcendia e atravessava o próprio Débussy que compusera aquelas peças....

Nenhuma outra execução dos Prelúdios, em qualquer outra luz crepuscular, fosse mesmo um lindo crepúsculo veneziano, me levaria da mesma maneira ao encontro da moça de cabelos de linho, sentir aquele cansaço de um andarilho na neve ou a força arrebatadora do vento do oeste.

Tudo isso por R$ 15,00...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ecos de Paris

Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.

A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.

Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.

Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.

O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.

Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.

O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Olhares sobre a Zona Norte

Sem qualquer despeito, não troco meus subúrbios por mil leblons. A beleza está em todo lugar, para os que sabem (ou querem) ver de verdade.

Infelizmente, a resolução da câmera é quase tão ruim quanto o fotógrafo...













Lugares: Abolição, Engenho de Dentro, Marechal Hermes, Méier