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Mostrando postagens com marcador Arqueologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arqueologia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de junho de 2020

"Cocô de índio petrificado" - Um emblema

Quando mais um museu brasileiro pega fogo, é oportuno lembrar a mais que emblemática fala do Sr. Jair Messias Bolsonaro reclamando que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional "atrasa obras" por causa de qualquer "cocô de índio petrificado", como se a missão do IPHAN, instituição quase centenária, que teve Mário de Andrade como um de seus fundadores, fosse acelerar obras, e não zelar pelo patrimônio cultural do povo brasileiro.

Em que pese a característica prosa do atual presidente e guardadas as devidas nuances, a fala é fiel retrato do modo como pensamos, enquanto coletividade. 

Há alguns anos lembro de um blogueiro petista que reclamava do atraso de uma obra do apressado "Programa de Aceleração do Crescimento", que andava atrasada devido à presença de uma comunidade de anfíbios ameaçados de extinção no futuro canteiro de obras. Segundo o digníssimo publicista, seria um exagero de regulamentação ambiental - concluía que, entre tantas espécies brasileiras de batráquios, uma a mais ou a menos faria pouca diferença. Por que se preocupar com biodiversidade quando precisamos construir um viaduto?

Assim segue o Brasil: para que se "acelere" o suposto "crescimento", um sapo a mais ou um museu a menos pouca diferença podem fazer.

O povo brasileiro corre sempre, sem saber muito bem para onde ou para quê. Correr, aos trancos e barrancos, tropeços e trambolhões, é o que nos basta. Que se destrua o "cocô de índio" - e até o índio, principalmente o índio - se necessário for.

Seguimos sempre em crescimento acelerado, seja para construir Belo Monte ou para escalar a curva pandêmica. "O Brasil não pode parar".

Como dizia um velho slogan, "esse é um país que vai pra frente" - e pouco se importa com o que deixa para trás...

"Après nous, le déluge" - Luís XIV bem merecia ser brasileiro.

Urnas funerárias amazônicas - mas há quem confunda patrimônio arqueológico com fezes...

O Brasil segue em chamas

Hoje houve um incêndio de graves proporções no Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais.

Mais perdas irreparáveis de nosso inestimável e inestimado patrimônio paleontológico, arqueológico, etnográfico, botânico, zoológico...

Do pouco que temos, é triste que percamos sempre tanto. Perdemos até o que nem imaginávamos que tínhamos.

Sonhamos baixo e nos contentamos com pouco. Qualquer migalha nos satisfaz.

Para usar o velho ditado, somos como burros contemplando palácios. Pior: somos burros incendiando palácios.

Sempre zelosos com o efêmero, seguimos consumindo o que deveria ser duradouro.

Choramos quando uma catedral arde em Paris, mas pouco nos importa que arda (mais) um museu em nosso próprio solo.

Caminhamos a passos largos para vencer o campeonato mundial da pandemia e dos pandemônios.

Seria fácil, fácil demais, culpar este governo, os anteriores ou os próximos - pois novas perdas, infelizmente, hão de vir.

Somos um povo que se construiu marcando peles a ferro quente. Fogo, brasas e fumaça são nossa herança, nossa sina, nossa marca.

Em muitos sentidos, sentidos demais, literais e figurados, imbricados e superpostos, o Brasil se posiciona na vanguarda da triste arte da ocultação de cadáveres.

Queimar e cremar...

Cremar e queimar...

Passado, presente, futuro: carvão, fuligem, cinzas.

Noite ou dia, o fogo nunca se apaga.


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Gradientes primatas

"O problema é que continuamos presumindo que há um ponto em que nos tornamos humanos. Isso é tão improvável quanto haver um comprimento de onda preciso em que o espectro de cores passa do laranja ao vermelho. A típica proposição de como isso aconteceu é aquela de uma repentina inovação mental - uma centelha milagrosa - que nos fez radicalmente diferentes. Mas se aprendemos algo de mais de 50 anos de pesquisa com chimpanzés e outros animais inteligentes é que o muro entre cognição humana e animal é como um queijo suíço. Excetuando nossa capacidade linguística, nenhuma reivindicação de singularidade sobreviveu sem modificações por mais de uma década. Mencione alguma - uso de ferramentas, fabricação de ferramentas, cultura, partilha de alimentos, teoria da mente, planejamento, empatia, raciocínio inferencial - tudo isso foi observado em primatas silvestres ou, melhor ainda, muitas dessas capacidades foram demonstradas em experimentos cuidadosamente controlados".
Frans de Waal

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Roman way of life

Trecho de um curiosa - e um tanto grotesca - matéria do interessantíssimo site Sapiens.

"Ao que podemos deduzir dos dados históricos e arqueológicos, os antigos romanos urinavam em pequenos jarros em suas casas, escritórios e lojas. Quando esses pequenos jarros ficavam cheios, eles os vertiam em grandes jarros na rua. Assim como com seu lixo, uma equipe vinha uma vez por semana para coletar aqueles pesados jarros de urina e leva-los à lavanderia. Por quê? Porque os antigos romanos lavavam suas togas e túnicas em urina! A urina humana é rica em amônia e outros químicos que são excelentes detergentes naturais. Se você trabalhasse em uma lavanderia romana, seu trabalho seria pisar em roupas o dia inteiro - descalço e afundado até o tornozelo em colossais bacias de urina humana".

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Waldeinsamkeit

Lá por volta de 2004 tive a maravilhosa e inesquecível oportunidade de realizar um estágio de iniciação científica num laboratório de Arqueologia. Durante um ano e meio tive a oportunidade de participar da escavação de um sambaqui e de modestas fortificações setecentistas.

Para além dos encantos do ofício arqueológico e do companheirismo que somente o trabalho de campo proporciona, a paisagem era fascinante.

Nossas escavações eram na Enseada de Piraquara, área de proteção ambiental em Angra dos Reis. Havia uma paradisíaca nesga de praia, altas falésias e uma densa vegetação de Mata Atlântica.

Vez por outra minhas obrigações exigiam que me afastasse de meus colegas ou que eu permanecesse sozinho no sítio arqueológico.

Tenho carinhosas recordações desses momentos solitários na floresta. É difícil descrever a sensação de liberdade que se experimenta caminhando solitário na penumbra da mata ruidosamente silenciosa, ouvindo o distante acalanto das ondas do mar, a dança da brisa com folhas e ramos, os passos apressados de animais afugentados, entre outros mil sons que povoam esses recônditos recantos.

Uma quietude contemplativa e sonhadora nos invade quase instintivamente, como se estivéssemos fora do fluxo normal do tempo. Sozinho na floresta, o bicho-homem se apequena e se engrandece.

Certa feita, num momento em que a azáfama arqueológica não me requisitava, passei cerca de meia hora sentado numa pedra, no meio do mato, mais ouvindo que vendo, atento ao tanto que se passava longe dos meus olhos mas chegava a meus ouvidos. Ouso dizer que foi um dos momentos mais sublimes que já vivi - sobre o qual depois cheguei a escrever um bucólico poema místico.

Ontem descobri que a língua alemã possui um termo específico para isso: Waldeinsamkeit - o deleite de se estar sozinho numa floresta. Achei bonito. É sempre bom quando, primatas palavrosos que somos, conseguimos encontrar uma palavra que nomeie uma experiência profunda e deslumbrante.

Que bom seria se tivéssemos mais oportunidades de vivenciar Waldeinsamkeit...



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Brasil Combustível

Hoje a maior catástrofe cultural da história brasileira completa um ano. Primeiro ano de muitos outros sem Museu Nacional. Primeiro ano privados de um patrimônio irremediavelmente perdido para os séculos dos séculos de toda a eternidade.

Museu ou floresta, índio e mendigo, por crime ou negligência, tudo queima no Brasil. Todo dia é Dia do Fogo. Uma pulsão autodestrutiva nos move. Gargalhamos dançando insanamente sobre as brasas de nossa própria casa, como dervixes suicidas acometidos por um transe febril.

Agonizamos como loucos alegres, idiotas satisfeitos, rindo de nossa própria ruína...


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Memento mori

"A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio. Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial".
Trecho de entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos vivos e pesquisador do Museu Nacional.

"Um museu em chamas visto por uma de suas antropólogas"

"Somos todos mais pobres hoje, mesmo os governantes e políticos que não têm noção da gravidade do que aconteceu, e ficam por aí dando entrevistas em que falam em reconstrução e recuperação, como se dependesse apenas do dinheiro que, agora, milagrosamente, começa a aparecer. Se o palácio imperial pode, quem sabe, ser recuperado, o que estava dentro dele, jamais. Nenhum dinheiro poderá comprar o nosso acervo, pois esses objetos, registros, documentos, gravações, papeis, gravuras, não existem mais em nenhum lugar do mundo".

Trecho do desabafo de Aparecida Vilaça, uma das mais renomadas pesquisadoras do Museu Nacional na área de Antropologia.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional - O que perdemos?

É impossível aquilatar o quanto realmente se perdeu nesse incêndio.

Como disse uma amiga, perdemos mundos inteiros: o mundo da monarquia brasileira, de D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel; o mundo dos dinossauros e da megafauna brasileira e sul-americana; o mundo da fauna e da flora dos trópicos; o mundo das culturas regionais do Brasil.

O mundo que me toca mais de perto é aquele dos índios do Brasil. Ali estava o maior acervo de cultura material indígena do Brasil. Além dos artefatos indígenas propriamente ditos, havia precioso material arquivístico, incluindo registros de pesquisas de campo, fotografias, registros fonográficos, teses não publicadas etc.

Segue um levantamento informal de uma pequeníssima parte do que perdemos sobre os índios, a partir de conversa com meus amigos antropólogos:

-Toda a coleção Rondon;

-Toda a coleção Roquete-Pinto;

-Os diários de campo apenas parcialmente digitalizados de Curt Nmuendaju, um dos maiores etnógrafos do início do século XX, com dados preciosos sobre as culturas indígenas na época;

-Todos os registros do grande Projeto Brasil Central, que contou com a participação de inúmeros pesquisadores brasileiros e estrangeiros em meados do século XX, projeto que teve imensa relevância para o desenvolvimento da teoria antropológica dentro e fora do Brasil;

-Décadas de fotografias de populações indígenas, a maior parte sem cópias ou digitalização de qualquer espécie;

-Registros linguísticos INSUBSTITUÍVEIS, manuscritos, impressos ou fonográficos, de línguas indígenas que se encontram EXTINTAS;

-Enfim, centenas de artefatos indígenas raríssimos, e até exemplares únicos NO MUNDO.

Resumindo, o incêndio de ontem equivale a um segundo genocídio das culturas indígenas. Perderam-se línguas, mitologias, técnicas, legados de vidas inteiras, séculos de realizações humanas desse nosso "Novo Mundo". Matamos os índios de novo. Na primeira vez, por maldade; agora, por simples descuido.

O incêndio do Museu Nacional não rasgou apenas algumas páginas de nossa História; ele destruiu volumes inteiros.

Sinto uma mistura de tristeza e raiva ao pensar em todo o conhecimento que aquele acervo ainda reservava por explorar e que agora está irremediavelmente perdido, literalmente reduzido a pó.

Algumas cerâmicas indígenas, tristes sobreviventes de uma catástrofe; ao ver os bombeiros retirando-as cuidadosamente dos escombros, me pareceram cadáveres retirados de um campo de batalha. Pior, de uma batalha perdida.

Museu Nacional: Mundos Destruídos

Estive hoje cedo nas ruínas do Museu Nacional. Como disse uma amiga, muitos mundos foram destruídos neste incêndio.






segunda-feira, 15 de maio de 2017

domingo, 27 de novembro de 2016

Labirintos da domesticação

Dedicado ao pequeno Gandalf, em seu oitavo aniversário
 
Como se sabe, o período Neolítico foi marcado pela domesticação de inúmeras espécies de animais, entre as quais o lobo, transformado em "melhor amigo do homem". Como tenho registrado por aqui, venho produzindo um jogo eletrônico com meus alunos de 6º ano, recém-saídos da infância. Nesta sexta-feira ajudei dois alunos a produzirem o seguinte diálogo, imaginado entre os heróis da narrativa e um lobo feroz que devora os animais de um fazendeiro. Conforme eles me ditavam o texto, ia sugerindo pequenos aperfeiçoamentos; a pontuação, obviamente, é minha. Tentei traduzir, de alguma forma, as entonações e meneios que eles expressavam, a começar pelo uivo entoado mais de uma vez...

-AAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUU!!!!
AAAAAAAAUUUUUU!
-Lobo, saia desse território e pare de perturbar o fazendeiro, senão quem morre é você! Sua família já morreu!
-Vou sai no dia de São Nunca! Até eu comer um cavalo! A carne dele é muito boa!
-Se não vai por bem, vai por mal!!!
-O que vocês vão fazer comigo?
-Você vai ver!
[Pausa: "Peraí, Professor... São dois heróis contra um lobo sozinho? Isso é covardia!" - "Na verdade, são quatro heróis..." - "Ah, não! Quatro contra um é muita covardia! Vamo mudar isso aí!"]
-Tá bom, vou sair...
-O fazendeiro quer um cachorro, e não um lobo...
-Peraí... Eu POSSO ser um cachorro! Não vou comer mais nenhum animal dele... Também vou ajudar a cuidar da fazenda... E se vier um ladrão, dou uma mordida no bumbum dele... E a cueca dele vai aparecer! Vou ser um herói pro fazendeiro!

Depois disso, o lobo vira amigo do fazendeiro e passa a cuidar de seu gado. Me parece um bom mito. Por outro lado, é curioso que essa narrativa tenha partido de dois dos alunos mais problemáticos da turma - um dos quais responsável pelo banzé que relatei poucos dias atrás. No fundo, talvez todo lobo sonhe em se tornar cachorro e ser um herói para o seu fazendeiro. Há, evidentemente, algumas recompensas, como um bolinho de cenoura (receita canina exclusiva) para comemorar 8 anos de idade...

4 heróis e um lobo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Variações sobre uma cerâmica palestina estilhaçada

Allegro, ma non troppo



Desde que ainda era um adolescente que sonhava em ser arqueólogo imagino que cada objeto,  raro ou banal, em suas singularidades, carrega em si o mundo inteiro. De lá para cá, a convicção permanece a mesma, embora minha argumentação nesse sentido tenha se tornado (um pouco) mais sofisticada...

1º movimento
Cerca de seis horas atrás, uma de minhas estantes sucumbiu ao peso dos livros, fazendo com que despencasse uma simpática cerâmica palestina, que se espatifou no chão. Catei os estilhaços, pensando em restaurá-la, mas algumas partes ficaram completamente irrecuperáveis, e as lascas são muito afiadas. Preferi jogar fora o que sobrou.



Olhando o trecho do Alcorão pintado em sua superfície, aqueles cacos de cerâmica logo me remeteram à triste situação do Oriente Médio, lembrando-me de uma notícia que acabara de ler, sobre a suposta existência de campos de treinamento do Estado Islâmico na Europa. Tenho grande simpatia pelas culturas islâmicas e suas realizações artísticas, intelectuais e espirituais, uma longa tradição inscrita em inúmeros objetos ao redor do mundo - inclusive minha humilde (e barata) cerâmica palestina. Diante de tudo que o mundo muçulmano e seus povos representam na história do mundo, a emergência do EI com sua barbárie me parece um dos episódios mais tristes da trajetória do Islã.

Nessa pequena obra de artesanato, com menos de 30cm de diâmetro, cabem muitos séculos de história, a começar pelo texto corânico, elaborado há cerca de 1.400 anos, verdadeiro ponto de partida de toda uma cultura - seu fiat ou seu big bang, como preferir. Por sua vez, o texto manuscrito sobre a cerâmica também remete a uma tradição secular do Islã, a arte da caligrafia, que por sua vez remete ao próprio Corão e seus mandamentos, enquanto expressão artística e decorativa que emergiu da proibição de representação de figuras naturais, interpretada e seguida de modo mais ou menos rígido através dos séculos, conforme tempos, lugares e pessoas. Por fim, o uso da cerâmica como suporte artístico deriva de outras circunstâncias históricas do mundo islâmico: as relações comerciais entre a Pérsia e a China durante a Idade Média, em que as tentativas de suprir às demandas por porcelana do mercado chinês levaram os artesãos persas a produzirem peças que inicialmente buscavam imitar as tradições da porcelana chinesa, mas logo começaram a se desenvolver como estilo artístico autônomo com suas próprias convenções, se espalhando desde então pelo mundo islâmico e dando lugar a inúmeras ramificações estéticas, inclusive influenciando as técnicas aplicadas sobre outros suportes que não a cerâmica.

Poderíamos prolongar indefinidamente essas linhas pontilhadas rumo ao passado, a épocas tão recuadas como o surgimento do monoteísmo abraâmico, as primeiras experiências de elaboração da escrita no mundo mediterrâneo, a formação das línguas semíticas, a invenção da cerâmica na Pré-história, ou mesmo o domínio do fogo, necessário à cocção da argila... Poderíamos mesmo ir até as fusões nucleares que, há bilhões de anos, em alguma estrela distante, há muito extinta, originou os átomos componentes do barro empregado em sua confecção.


2º movimento
Com um pouco de imaginação, percebemos que nas exíguas dimensões materiais desse objeto se acumulam inúmeras camadas de história, múltiplas dimensões de experiências religiosas, tecnológicas, comerciais e artísticas, o esforço de milhares - talvez milhões - de seres humanos, convergindo, se precipitando e se comprimindo sobre esse ínfimo artefato, como que em inúmeras circunvoluções, espécie de espiral onde cada volta se conforma à anterior e condiciona a próxima, sempre de modo irregular e imprevisível.

Até aqui falamos apenas das dimensões meramente materiais inscritas nesse objeto durante seu processo de fabricação, visíveis a olho nu. Todavia, creio, poderíamos explorar ainda o imenso conjunto de relações que mediaram sua existência. Me pergunto, em primeiro lugar, quem terá sido o artesão que o produziu: um homem? Uma mulher? De qual idade? Gosta de praticar caligrafia e decorar cerâmicas? Foi trabalho de apenas um artesão ou foi executado através de tarefas divididas - digamos, alguém decorou as bordas e outras pessoas produziram a caligrafia, aplicaram o esmalte, levaram ao forno...? Será que o artesão recebeu paga digna por seu serviço? Ficou satisfeito com a remuneração? Onde, exatamente, se localiza a oficina onde o trabalho foi executado? Quantos parentes esse trabalhador já perdeu no conflito palestino-israelense? Será um muçulmano profundamente fervoroso ou a caligrafia é apenas um meio de vida?

Vale também pensar em todas as relações que intermediaram sua produção e comercialização, desde a matéria-prima até o consumidor final (eu). Onde foi fabricada a tinta ou produzida a cerâmica? Imagino que a resposta para ambas perguntas seja "China"; dado o panorama global, aposto que, no mínimo, algum trecho da cadeia produtiva tenha passado pelo parque industrial chinês, de alguma maneira revertendo, subvertendo ou convertendo o próprio circuito comercial entre o Catai e o mundo islâmico que tanto influenciou a formação da arte ceramista muçulmana na Idade Média - outra volta na espiral do tempo.

Por fim, o trajeto entre Palestina e Brasil percorreu de navio ou avião algum dos inúmeros itinerários do atual comércio global, envolvendo, imagino, alguma agência de importação e um comerciante varejista, chegando a mim. Para fechar essa cadeia, vale indagar que experiências de vida condicionaram minha relação de consumo com esse objeto. Se a memória me serve bem, acho que o momento definidor dessa aquisição casual se deu há cerca de 21 anos, quando, ainda no primeiro segmento do Ensino Fundamental, eu enfrentava dificuldades com os problemas mais elementares da Álgebra apresentados por Tia Leila, minha professora. Um parêntese: na época, obviamente, eu ignorava que se tratava de Álgebra - era uma questão de "achar o valor do quadradinho". Tentando me incentivar a superar essas dificuldades, minha mãe pegou emprestado (com quem?) o encantador livro O homem que calculava, do igualmente encantador Malba Tahan (pseudônimo do escritor e professor de Matemática Júlio César de Melo e Souza). O livro narra as aventuras do brilhante, talentoso e generoso calculista Beremiz Samir, situadas na Pérsia medieval - mais ou menos na época em que as cerâmicas etc etc. Essa leitura foi decisiva no sentido de despertar meu encantamento pelo mundo islâmico, desde então aprofundado por muitas leituras de Malba Tahan e outros autores, culminando na aquisição de inúmeros artefatos artesanais - como a dita cerâmica.

Mas voltemos à Tia Leila e à Álgebra... Convém notar que a bendita Álgebra, como indica a própria etimologia, também nos relaciona diretamente ao Islã medieval, à medida que seus princípios de notação e formalização foram elaborados no mundo muçulmano, com grande destaque para o fervilhante ambiente intelectual de Bagdá... capital da Pérsia. É curioso reparar que, também o nome "Leila" é de origem árabe - apenas uma coincidência divertida. Aliás, seu marido é o Tio Taje, nome de origem indiana - um casal indo-arábico, como os algarismos e a própria Álgebra. Recapitulando: Tia Leila me conduziu à Álgebra, que me conduziu a Malba Tahan, que me conduziu à cultura islâmica, que me conduziu a comprar uma cerâmica Palestina, que se quebrou algumas horas atrás.

E tudo isso me traz lágrimas aos olhos, porque meu sogro também se apaixonou por Malba Tahan alguns anos atrás, quando lhe emprestei O homem que calculava, mas infelizmente ele não se encontra mais entre nós há alguns meses. Lágrimas secas, prossigamos.

Aproveito para notar que até hoje mantenho contato com a Tia Leila, e até aprendi a gostar da Álgebra, embora, definitivamente, ela não goste de mim. Também essas relações, tão pessoais, com a Tia Leila, com Tio Taje, com minha mãe, com meu sogro, de algum modo, acabaram se intrometendo na cerâmica, no momento mesmo em que escrevo esse texto.

3º movimento
Algumas horas atrás... cerâmica... lascas... irreparável, etc. Catei a cerâmica com vassoura e pá de lixo. Para não machucar o gari, resolvi embrulhar os cacos numa caixa de pizza que acabara de consumir, semelhante a essa aqui:

 


Como você pode ver, a caixa (e a pizza) eram da franquia Domino's, uma das maiores redes de fat, digo, fast food do mundo (globalizado, please). É no mínimo irônico que, no fim das contas, os cacos de cerâmica palestina tenham ido parar dentro de uma embalagem que representa o poderio econômico dos Estados Unidos da América, o principal antagonista do mundo islâmico na atualidade e, pior ainda, o maior aliado do Estado de Israel que tanto vem oprimindo os palestinos - inclusive os artesãos que produziram o artefato em questão. Veja bem: uma peça de cerâmica que, como vimos, representa tanto a arte quanto a religião islâmica, com versos corânicos pintados em sua superfície! Uma ironia nada banal, inclusive porquê reúne vários opostos: o refinamento artístico e a mais que mundana junk food; o Islã que tanto preza o jejum e a glutonaria capitalista; o tabu islâmico quanto à carne de porco e as rodelas de pepperoni; a singularidade do artesanato manual e a embalagem produzida em massa; o sagrado, artístico e religioso, contra o profano, capitalista e pequeno-burguês; coração contra estômago.

Ainda aqui há espaço para outro desvio. Eu e minha esposa não nos tornamos clientes da Domino's no Brasil, mas em Paris, onde boa parte dos entregadores que nos atendiam eram de origem magrebina. Um deles, por sinal, muito simpático, vendo que o aparelho de cobrança em débito automático não conseguia sinal para executar a operação financeira, me ensinou um grigri, forma de magia simpática popular do Magreb, que, segundo ele, era infalível para remediar o funcionamento de aparelhos eletrônicos teimosos. Servia até, me disse, para interferir magicamente no resultado do jogo de futebol do time do coração transmitido pela TV, bastando executar o grigri bem próximo da tela! Tudo isso é ainda mais interessante porque con-juga, de novo, sob outros ângulos, capitalismo e Islã, magia e tecnologia, sagrado e profano. E, não nos esqueçamos, em Paris, atual epicentro desse conflito que se desenrola há pouco mais de uma década em diversos pontos do mundo.

Voltemos à caixa da Domino's. Ao lado da logomarca da franquia, vemos a silhueta do Cristo Redentor, mobilizando a imagem do ponto turístico carioca para promover a marca americana. Mas não é apenas isso. Se trata do Cristo, outra imagem religiosa, constituindo assim outra con-jugação inesperada, quiçá indesejável, entre sagrado e profano. Aliás, o Cristo Redentor foi originalmente construído, 84 anos atrás, pela comunidade católica do Rio de Janeiro, não como obra decorativa ou potencial atração turística, mas como símbolo da fé católica no Rio, então capital do Brasil. Naquela época, o estado no Brasil era ainda menos laico que nos dias atuais, e assim o Cristo nos remete a ainda outra dimensão do conflito entre sagrado e profano que perpassa toda essa reflexão. Por fim, a representação figurada de Jesus Cristo certamente se choca com a religiosidade islâmica, muitas vezes refratária à representação da figura humana, e ainda mais das figuras sagradas - lembrando que Jesus também é reverenciado pelo Islã, como último profeta anterior a Maomé. Temos então a tensa proximidade entre duas representações artísticas do sagrado (a caligrafia islâmica e a imagem cristã), amplificada pelo choque entre ambas e a profanidade comercial do delivery do fast food.

Outro parêntese interessante, dessa vez sobre o Brasil e  o Islã. Outro encontro inusitado. Em Granada, ao pé da Alhambra, eu minha esposa conhecemos um curioso comerciante marroquino, figura ímpar, que nos confidenciou ser apaixonado pelo infame Casos de Família, programa popularesco produzido pelo SBT e exibido em algum canal espanhol. A conversa se prolongou de modo animado e caloroso, e no fim das contas, com genuína hospitalidade e liberalidade muçulmana, ele nos presenteou com diversos brindes, inclusive um blend artesanal de ervas para um chá poderosíssimo para a fertilidade. Outras tantas convergências inesperadas entre os mundos da magia e das onipresentes tecnologias que movem esse mundo globalizado, onde a devoção islâmica e o barraco à brasileira convivem lado a lado.

Sim, caro leitor, você já está cansado de ler e eu, confesso, cansado de escrever; façamos, porém, ainda um esforço. A cerâmica se quebrou e os cacos foram embalados na caixa de papelão da pizzaria. Mas isso ainda poderia provocar um acidente com o gari, caso a caixa se abrisse. Tomei, então, uma precaução extra: embalei a caixa (e os estilhaços) em duas sacolas plásticas de supermercado; o embrulho se encontra agora no chão de minha cozinha, ao lado de algumas garrafas pet vazias de Coca-Cola (outros símbolos da cultura capitalista, mas já explorei esse ponto à exaustão). Eu poderia aprofundar o fato de que tanto as sacolas quanto as garrafas são derivados de petróleo, que, por sua vez, é constituído por vestígios de cadáveres de dinossauros e outras espécies pré-históricas há muito tempo em decomposição, lembrando o quanto isso remete ao debate entre criacionismo e evolucionismo, mas vou deixar essa para algum paleontólogo de plantão. Fiquemos apenas com o petróleo, matéria-prima fetiche de nossa época, motor de conflitos muito mais sérios que a infindável litania sobre criacionismo e evolucionismo (que me perdoem ateus e evangélicos, que adoram essa discussão já tão puída). Para resumir, a cerâmica palestina e a caixa da Domino's se encontram agora dentro de duas sacolas produzidas com petróleo, o próprio combustível dos amargos conflitos do Oriente Médio, conflitos esses que estilhaçaram o estado iraquiano, permitindo a emergência do EI, que tanto ultraja a herança islâmica e, para início de conversa, instigou a presente reflexão.

4º movimento
Daqui a algumas horas esses cacos de cerâmica, caixa de papelão e sacolas plásticas estarão em algum caminhão da COMLURB, a caminho de algum lixão situado na Baixada Fluminense, imagino eu. Pelo que conheço sobre degradação de materiais, é provável que a caixa de pizza seja a primeira a desaparecer, seguida pelas sacolas plásticas, enquanto a cerâmica certamente perdurará ainda por milhares de anos. Paradoxalmente, a cerâmica é extremamente vulnerável a choques, mas seus cacos são muito resistentes à degradação pelo tempo - é por isso, aliás, que elas nos ajudam a descobrir tanta coisa sobre as culturas pré-históricas. Resumindo, é perfeitamente plausível que daqui a milhares de anos um arqueólogo encontre alguns vestígios de cerâmica palestina, compondo um itinerário multissecular que nos conduz de Meca à Baixada Fluminense, passando por Bagdá, testemunhando parte da complexidade cultural tramada em nosso mundo globalizado. Me consola imaginar que quando o tempo, esse inexorável carrasco, finalmente tiver aberto todas as camadas dessa imprevisível boneca russa, o que sobrará finalmente será a melhor parte, um testemunho da busca humana pelo sublime, através da arte e da espiritualidade. Como diria a romancista Lian Hearn, "a rede do Céu é vasta, mas sua trama é sutil".

Mesmo esse texto, registrado através de milhões de impulsos elétricos codificados através de placas de circuitos integrados e de linguagem HTML constitui mais um dos giros absurdos e inusitados da espiral do tempo. De um texto a outro, separados por mais de mil anos: do Alcorão registrado pelo ilustre Profeta Maomé a esse exercício de malabarismo historiográfico garatujado por um obscuro professor de História, das ruas da Meca pré-islâmica aos subúrbios do Rio de Janeiro. Tenho apenas  frágeis rudimentos em árabe e em HTML. Por via das dúvidas, apelo para um grigri, que pode, quem sabe, conciliar esses mundos e linguagens tão diferentes, como me ensinou um jovem parisiense de ascendência magrebina a serviço de uma grande corporação americana. Desejo profundamente, por sinal, que ele não venha a sucumbir à bárbara sedução do EI e nem se torne um dos jovens treinados nesses supostos campos em solo europeu, de onde saem para um triste encontro com a morte.

Tudo isso me faz pensar no filósofo Henri Bergson, que venho lendo recentemente, e em sua noção de duração, que ainda não entendi direito; estou com sono demais para farejar mais essa pista. Pois se trata exatamente de uma caçada - como diriam os franceses, de chasses croisées, "caças cruzadas", caminhos que se encontram inesperadamente no meio do bosque selvagem - encontros como aqueles que surpreendem o viajante nos contos de fadas, nos romances de cavalaria ou nas 1001 noites. No fundo, contrariando minhas reflexões de adolescente, talvez não haja nada nos objetos, apenas aquilo que o historiador deseja caçar neles: dizia Marc Bloch, o historiador precisa ser como um ogro, sempre farejando carne humana.  Também precisa ser, creio, como Sherazade, cativando o ouvinte para sobreviver pelo menos mais uma noite, ou como Mozart, reunindo vozes e instrumentos para que, em meio à balbúrdia, sejamos enfim capazes de captar o doce trinado da flauta mágica. No final das contas, permanecendo no universo dos contos de fadas e das 1001 noites, tudo isso exige que nos tornemos fadas ou magos, capazes de conjugar e conjurar vestígios e fragmentos, como um caco de cerâmica, uma caixa de papelão ou uma sacola plástica, para transformá-los em fontes históricas - uma transmutação alquímica, outra palavrinha de raízes árabes.

Como finalizaria Malba Tahan, Alá seja louvado!

Dedico esse texto ao Seu Paulo, que me ensinou tantas lições de vida, à Tia Leila, que tentou me ensinar Álgebra, mas me tornou um escritor e à minha mãe, que me apresentou Malba Tahan

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Legados

Extrato do livro L`Anthropologie face aux problèmes du monde moderne, de Claude Lévi-Strauss

"Há dois ou três séculos, a civilização ocidental se dedicou principalmente ao conhecimento científico e suas aplicações. Se adotarmos esse critério, faremos da quantidade de energia disponível per capita o índice do grau de desenvolvimento das sociedades humanas. Se o critério fosse a aptidão para triunfar sobre meios geográficos particularmente hostis, os Esquimós e os Beduínos levariam os louros. A Índia soube melhor que nenhuma outra civilização elaborar um sistema filosófico e religioso capaz de reduzir os riscos psicológicos de um desequilíbrio demográfico. O Islã formulou uma teoria da solidariedade de todas as formas de atividade humana: técnica, econômica, social e espiritual, e sabem que lugar proeminente essa visão do homem e do mundo permitiu aos árabes ocupar na vida intelectual da Idade Média. O Oriente e o Extremo-Oriente possuem sobre o Ocidente uma dianteira de vários milênios em tudo que diz respeito às relações entre o físico e o moral, e à utilização dos recursos dessa suprema máquina que é o corpo humano. Atrasados nos planos técnico e econômico, os [aborígenes] Australianos elaboraram sistemas sociais e familiares de tão grande complexidade que para compreendê-los é necessário apelar a certas formas da matemática moderna. Podemos neles reconhecer os primeiros teóricos do parentesco.

A contribuição da África é mais complexa, mas também mais obscura, pois nós apenas começamos a compreender o papel de melting pot que ela desenvolveu no Mundo Antigo. A civilização egípcia é inteligível apenas como obra comum da Ásia e da África. E os grandes sistemas políticos da África antiga, suas contribuições jurídicas, seu pensamento filosófico durante muito tempo oculto aos ocidentais, suas artes plásticas e sua música são outros tantos aspectos de um passado muito fértil. Pensemos enfim nas múltiplas contribuições da América precolombiana à cultura material do Velho Mundo. Em primeiro lugar, a batata, a borracha, o tabaco [sic] e a coca (base da anestesia moderna), que, a diversos títulos, constituem quatro pilares da civilização ocidental; o milho e o amendoim, que revolucionaram a economia africana antes mesmo de serem conhecidos na Europa e, para o milho, de lá se espalhar; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o abacaxi, a pimenta, várias espécies de feijões, algodões e cucurbitáceas. Enfim, o zero, base da aritmética e, indiretamente, da matemática moderna, era conhecido e utilizado pelos maias ao menos meio milênio antes de sua descoberta pelos índios que o transmitiram à Europa por intermediação dos árabes. Por essa razão, talvez, o calendário maia era, em época igual, mais exato que aquele do Velho Mundo".

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Violência e poder

Trecho do livro A história do mundo em 100 objetos, de Neil MacGregor



Etiqueta da Sandália do rei Den (c. 2985 a.C.)

"Esta pequena etiqueta é a primeira imagem de um governante na história da humanidade. É impressionante, e talvez um tanto desanimador, que, já nos primórdios, o governante queira ser mostrado como comandante-chefe, conquistando o inimigo. É assim que, desde os tempos antigos, o poder é projetado por imagens, e há qualquer coisa de perturbadoramente familiar nisso. Em suas formas simplificadas e sua calculada manipulação de escala, lembra, estranhamente, uma charge contemporânea.

O trabalho do fabricante de etiquetas era, porém, muito sério: fazer seu líder parecer invencível e semidivino e mostrar que Den era o único homem capaz de garantir aquilo que os egípcios, como todo mundo, queria de seus governantes - lei e ordem. Dentro dos domínios do faraó, esperava-se que todos obedecessem e assumissem uma clara identidade egípcia. A mensagem em nossa etiqueta de sandália é que o preço da oposição era alto e doloroso.

Essa mensagem é transmitida não apenas na imagem, mas também por escrito. Há alguns hieróglifos primitivos arranhados no marfim que nos dão o nome do rei Den e, entre ele e o inimigo, as terríveis palavras 'eles não devem existir'. Esses 'outros' serão destruídos. Todos os truques de propaganda política selvagem já estão aqui: o governante calmo e vitorioso em contraste com o inimigo estrangeiro, derrotado, desfigurado. Não sabemos quem é ele; no entanto, uma inscrição do lado direito da etiqueta diz o seguinte: 'A primeira oportunidade de derrotar o leste'. Como o solo arenoso sob as figuras eleva-se à direita, já se sugeriu que o inimigo vem do Sinai, a leste.

[...]

É uma estratégia desalentadoramente familiar. Conquista-se apoio total dentro do país dando atenção especial às ameaças externas, mas as armas necessárias para esmagar o inimigo também servem para cuidar dos adversários internos. A retórica política da agressão estrangeira é respaldada pelo controle interno enérgico".

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Camadas do sagrado

Estivemos ontem em Genebra. Devo dizer que, 500 anos depois de Calvino a cidade me parece andar mais pelo lado do "espírito do Capitalismo" que da "ética protestante"... Por sinal, definitivamente, os preços em Genebra seguem à risca o espírito do dito cujo!

Deixando essa questão de lado, foi uma oportunidade fantástica poder visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino fez seus sermões e, principalmente, um local que fez parte do cotidiano de alguns dos personagens e autores que estudo em minhas pesquisas, como Jean Crespin, Pierre Richer e, principalmente, Jean de Léry! Estar exatamente ali, na nave daquela igreja, foi indescritível...

No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios.

Se era mesmo um chefe acho difícil dizer - honestamente, sou um tanto cético quanto a certas identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C. Por sinal, a certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado também no século I a.C. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço.

É interessante observar que esses enterramentos de moedas (e outros objetos) entre algumas tribos celtas correspondia a uma forma de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas.

Logo após a conquista romana há vestígios ali também de que o local foi logo transformado num templo. Infelizmente não tirei nenhuma foto desses vestígios, principalmente elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos parcialmente preservados.

Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, que sofreu sucessivas ampliações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico.

Também é possível ver vestígios do coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica.

Ao lado da Igreja foi ainda instalado um claustro, com as celas dos monges aquecidas por um curioso sistema de calefação radial.



No fim da Idade Média o bispo ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa.

No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ostenta ainda hoje. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, abrigando ninguém menos que o célebre reformador Calvino.

O que me parece impressionante é que, ao longo de nada menos que dois milênios e sucessivas transformações religiosas, esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?

Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa. Provavelmente os próprios Alobrógios foram os autores dessa mutação, num processo corrente de assimilação de sua religião ao panteão romano.

Por outro lado, a apropriação católica posterior teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica no Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica e mesmo a conquista da América.  Nesse sentido, tratava-se de manobra religiosa proselitista "friamente calculada", como diria o Chapolim Colorado...

O mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens.

Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos...

sábado, 30 de junho de 2012

Era uma vez em Lugdunum...

Estivemos ontem em Lugdunum, ou melhor, Lyon! A cidade foi o principal centro administrativo da Gália, durante o período posterior à conquista romana. Sobre a colina de Fourvière (corruptela de "Forum Vetus"), ainda é possível visitar as fabulosas ruínas do assentamento, além do excelente Museu Galo-romano.

A experiência de caminhar ali foi simplesmente indescritível. O melhor que posso fazer nesse sentido é postar algumas fotos... Afinal de contas, uma imagem diz mais que mil palavras!












domingo, 24 de junho de 2012

Aventuras na Bretanha - episódio I: Rennes

Ontem realizei um sonho: visitar a Bretanha francesa - também conhecida como "Pequena Bretanha" na Idade Média, em oposição à "Grã-Bretanha". Aguardava esse momento desde os 15 anos de idade... Meu primeiro "ataque" foi em Rennes, mas já tenho outras incursões programadas! A viagem foi tão emocionante que precisarei dividir o post em partes!

I - Na trilha dos celtas

Como se sabe, a Bretanha é um dos últimos centros de cultura celta ainda viva, especialmente devido à manutenção da língua bretã. Visitar Rennes, especialmente o Musée de Bretagne, foi uma experiência fantástica nesse sentido!

A fabulosa exposição permanente se propõe a apresentar cronologicamente a história da região através de inúmeros artefatos, desde a Pré-história aos dias atuais. Para um apaixonado pela cultura celta, foi uma experiência simplesmente indescrítivel. Particularmente instigante foi a possibilidade de seguir ao fio do tempo as transformações da cultura material na Bretanha e perceber o quanto uma herança celta e galo-romana se constituiu não exatamente através de permanências puras e simples, mas de um constante processo de reinvenção que continua até hoje.

Nesse sentido, o que mais atraiu minha atenção foi justamente observar as peculiaridades da arte bretã medieval, em perspectiva comparativa às obras que pude ver no Louvre. Nunca havia dedicado muita atenção à produção medieval de origem céltica, uma vez que sempre me interessei mais pela cultura celta da antiguidade, pelos "irredutíveis gauleses" contemporâneos de Astérix!

A arte da Bretanha na Idade Média é obviamente muito parecida com o resto da produção europeia da época, mas é nítido que sob as mesmas convergências e convenções estilísticas românicas ou góticas, a arte da região soube manter características perceptivelmente "célticas"; o mesmo vale para as expressões do período romano, com um inconfundível "traço" local. Indo além, encontramos um mesmo meneio céltico na época moderna e na contemporaneidade, particularmente no que diz respeito ao entalhe em madeira. Fiquei particularmente impressionado também com as capas de chuva de pescadores, usadas no século XX, que lembram muito os famosos "genii cuculati" da arte galo-romana.

No fim das contas, fica a dúvida: foi a Bretanha céltica que se apropriou de outras expressões culturais ou as tradições posteriores que se apropriaram de um substrato celta? Me parece que nenhuma das duas formulações dá conta adequadamente dessas longas e complexas interações culturais ao longo de dois mil anos...

Talvez nada sintetize melhor essas questões que essa emblemática combinação heráldica sobre a porta de um edifício do século XVII onde hoje funciona um liceu: o arminho da Bretanha e a Flor-de-lis da monarquia francesa lado a lado, em simétrica equivalência...


II - As impermanências do espaço

Há muito tempo atrás, Rennes era uma cidade murada, como a maioria das aglomerações urbanas europeias. Nessa época, a principal porta da cidade era a "Porte Mordelaise", diante da qual, segundo a tradição, os duques da Bretanha deviam prestar juramento de proteger a liberdade do povo bretão, como parte de sua sagração. Era também através dessa porta que aconteciam as entradas reais e episcopais na cidade, acontecimentos de grande importância para a sociedade de Antigo Regime.

 Porte Mordelaise vista "de fora"
 Porte Mordelaise vista "de fora" (detalhe)
Porte Mordelaise vista "de dentro"

O conjunto das muralhas de Rennes foi obra dos séculos, iniciando-se no século III d.C., com as crises do Império Romano, que tornaram necessárias estruturas de proteção da cidade, vulnerável ante episódios de violência de saqueadores famintos. Ao longo da Idade Média esse complexo defensivo aumentaria gradativamente, até o século XV. Após mais de um milênio de trajetória, as defesas de Rennes em sua máxima extensão contavam com doze portas e dezesseis torres.

No entanto, o desenvolvimento da artilharia pesada e principalmente a união do Ducado da Bretanha à coroa francesa tornaram tais edificações inúteis, sendo demolidas ou simplesmente se desmantelando com o passar dos séculos. Atualmente restam apenas a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne (abaixo).
Também a Tour Duchesne tem uma curiosa história: durante séculos foi local dos jogos de "papegaut" em Rennes. Costume surgido na Idade Média,  esses jogos eram competições de companhias de arqueiros, onde uma ave de madeira ou papelão - o "papegaut" - era afixada no alto de um mastro ou de uma torre. Todos os arqueiros tentavam acertar o alvo, e o primeiro que conseguisse recebia o título de "roy du papegaut" e um prêmio invejável: um ano de isenção de impostos! Posteriormente o costume foi incorporado às companhias de arcabuzeiros, caindo em desuso apenas no século XVIII. Poucas cidades, entretanto, obtinham o "privilège de papegaut".

Como se vê, a porta e a torre não eram lugares ordinários, marcando eventos importantes para a cidade ou para o Ducado da Bretanha, que reforçavam seu prestígio social e importância política. Contudo,  muita coisa mudou... Pedindo informações, ninguém sabia o que era a "Tour Duchesne", ou melhor, ninguém reconhecia o topônimo. A torre tão importante, símbolo de um privilégio da cidade, se tornou apenas uma edificação anônima...

Por outro lado, a experiência de cruzar a Porte Mordelaise me pareceu muita curiosa, por um motivo: ela perdeu completamente seu significado original! Afinal de contas, o ato de passar sob seus arcos significava entrar na cidade, não apenas em seu sentido físico e material, mas também simbólico; significava provavelmente gozar da segurança, do prestígio e do privilégio ligado ao interior da enceinte de Rennes. Não é difícil imaginar o quanto de alívio sentiam as pessoas que adentravam o recinto amuralhado numa época em que a região era infestada por bandos de salteadores que não hesitavam em atacar mesmo próximo às muralhas da cidade!

No presente, a distinção entre "dentro" e "fora" deixou de existir, uma vez que a cidade cresceu e a própria muralha enquanto divisor espacial perdeu seu sentido original. Assim como a ausência "densa" da Bastilha é testemunho de transformações sociais significativas, a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne se tornaram testemunhos da ausência "sutil" de uma relação humana com o espaço urbano que se perdeu.