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domingo, 23 de julho de 2023

Como detectar uma editora picareta?

Há por aí uma infinidade de editoras caça-níquel cuja principal atividade é cooptar "novos autores" para publicar em "parceria", dividindo os custos editoriais. Com raras exceções, é uma tremenda furada - fuja desse tipo de editora!

Nos países de língua inglesa editoras assim são adequadamente qualificadas como "vanity publishers" ou "vanity press", dispostas a acariciar a vaidade de autores novatos em troca de dinheiro fácil, com poucos riscoa. Publicam sem uma seleção criteriosa (desde que o autor pague para isso - bem caro, de preferência).

Esse tipo de editora sempre existiu, mas se tornou uma praga com a recente expansão das comunicações digitais, que facilitam tremendamente a busca de autores para depenar.

Há uma maneira extraordinariamente simples para detectar esse tipo de editora predatória: examine atentamente o site da editora. 

Editoras sérias querem, antes de tudo, promover seu catálogo e vender seus livros. Consequentemente, o site de uma editora assim se ocupa principalmente com a exposição de suas obras, visando converter o visitante em leitor; geralmente há pouco espaço dedicado à busca de novos autores. É comum que haja algum link intitulado "Publique conosco", mas geralmente é discreto (até difícil de achar, em alguns casos) e costuma remeter a uma página bastante sucinta expondo os padrões para submissão de originais e um contato, normalmente por e-mail.

O site de uma editora caça-níquel, por outro lado, quase sempre é voltado para atrair autores e a essa função dedica a maior parte das páginas e links. Como vender livros não é o objetivo principal desse tipo de editora há pouco destaque para o catálogo, que via de regra não é apresentado de modo visualmente atraente; também não há muitos detalhes das obras, dificultando a atração de potenciais leitores. Por outro lado, o site de uma editora picareta quase sempre é repleto de promessas de visibilidade para "novos talentos", quando não de sucesso. 

Editoras sérias vendem livros e procuram leitores; editoras predatórias vendem promessas e procuram autores - seus respectivos sites normalmente deixam evidentes essas diferenças de propósito. Fique atento!

https://blog.reedsy.com/guide/publishing-companies-to-avoid/vanity-press/


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Mais uma pequena tragédia parisiense

No breve período em que minha esposa e eu moramos em Paris, as livrarias Gibert Joseph e Gibert Jeune estavam entre nossos refúgios preferidos, constituindo paradas obrigatórias em muitas de nossas andanças.

Depois de devidamente instalados, impossível esquecer de nosso primeiro passeio. Uma visita a Notre Dame, oportunamente concomitante a uma feira de gastronomia. Almocei um delicioso sanduíche "jambon-beurre", e um sanduíche de creme de cereja por sobremesa. 

Após as subidas e descidas pela catedral que tanto me encantava, atravessando o Sena, passando pela monumental fonte de São Miguel, penetramoa no mágico mundo de Gibert Jeune, com seus muitos andares. Saímos de lá carregados de livros (dois dos quais tenho diante de mim enquanto escrevo), especialmente os dois últimos volumes de "Nausicaa do Vale do Vento", de Hayao Miyazaki, cuja publicação brasileira fora interrompida anos antes pela Conrad. Passei a noite lendo a tão aguardada conclusão da magnífica obra de Miyazaki.

Atendidos por Sévérine...


Nos tornamos assíduos frequentadores de Gibert Jeune e dos primosoncorrentes, Gibert Joseph - com sua magnífica papelaria, onde compramos boa parte dos materiais de desenho e pintura que ainda hoje usamos. Excetuando o banheiro e a cozinha, não há cômodo em nossa casa sem algum butim dos Gibert.

Me recordo de nossa última visita a Gibert Jeune, quando deixei de comprar um livro de Roland Mousnier, cujo preço me pareceu à época exagerado, mas que depois muito me arrependi de não ter adquirido.

Hoje leio, com muita tristeza, a notícia de que Gibert Jeune fecha as portas - uma catástrofe afetiva comparável ao incêndio de Notre Dame, sendo a catedral e a livraria tão intimamente vinculadas em minha memória emocional.

Posso suportar a ideia de jamais rever Paris, mas é intolerável pensar que, visitando Paris, não poderei mais subir as escadarias de Gibert Jeune.

Cada livraria que fecha é uma luz que se extingue e deixa o mundo um pouco mais frio e sombrio.

Perder a velha e gloriosa Leonardo Da Vinci, a efêmera Livraria Cultura da Senador Dantas, a antiga Casa Mattos do Méier, a FNAC do Barra Shopping e agora Gibert Jeune são duros golpes em minha vida de leitor e bibliomaníaco, disposto a devaneios em qualquer lugar, brega ou chique, onde se vendam livros.

Uma das coisas que mais me entristecia em Paris era passar pelo Palais Royal, outrora ninho fulgurante das melhores livrarias da Europa, frequentado por grandes figuras literárias dos séculos XVIII e XIX e constatar que ali não se vendem mais livros, sendo necessário atravessar a rua para visitar a discreta e simpática livraria Dellamain - se é que ela ainda existe. 

Hoje só se encontram no Palais Royal antiquários hiper-sofisticados, lojas de grifes internacionais e uns poucos restaurantes careiros "au nez en l'air" (exceção feita ao velho restaurante outrora frequentado por ninguém menos que Voltaire, "sans trôp de chichi").

Vivemos em um século bárbaro, em que se fecham tantas livrarias. Sunt lacrimae rerum.