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Mostrando postagens com marcador Cristianismo. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 27 de abril de 2023

Demonologia escolar

Ontem passei por uma das situações mais insólitas de minha carreira docente: uma turma de sexto ano tendo um ataque histérico por medo do Diabo!

Um dos alunos (que, como soube depois, se encontra em avaliação psiquiátrica) teve uma rusga com um colega de comportamento "exuberante", que volta e meia se envolve em confusões com os colegas. Chamei os dois para  conversar fora de sala de aula e achei que a situação estivesse resolvida; ledo engano. 

Retornando à sala, o menino que se encontra em avaliação médica se pôs a escrivinhar no caderno. Subitamente se iniciou um tumulto em torno da carteira do rapaz, cercado por vários colegas apavorados - ele escrevia os nomes de diversos deles e desenhava "símbolos do Diabo". Vários alunos gritavam que iriam morrer, outros tentavam ver se seus nomes haviam sido registrados no "caderno diabólico". Eu tentava, em vão, acalmar os ânimos. 

O menino "endiabrado" começou a fazer cruzes com os dedos, que brandia na direção dos colegas, enquanto declamava em tom monocórdico "Fulano vai morrer... Beltrano vai morrer..." Os colegas em pânico me pediam para fazer alguma coisa (e tenho cara de exorcista?), enquanto eu tentava segurar o riso diante diante de tanta sandice - sem muito sucesso, temo dizer. 

Saí em busca da coordenadora pedagógica, que retirou o aluno do meio do tumulto e me explicou que o mesmo se encontra em tratamento médico. Aproveitando o ensejo, tentei conversar com a turma, pedindo que fossem compreensivos com o colega - em vão: estavam todos amedrontados e revoltados. Pedi a eles que se acalmassem, afirmando que o caderno do colega era apenas um caderno e nada aconteceria com eles. Resvalando no terreno teológico, cometi o deslize de dizer que "o Diabo nem existe", no que fui calorosamente refutado por diversos estudantes. Um deles chegou a argumentar que, em se cavando muito fundo, há de se sentir a "quentura" do Inferno - um argumento com base empírica, portanto... Outro insistia sobre a eficácia da "macumba" do colega, que poderia, sim, levá-los à morte! Como já se fazia tarde, liberei a turma com o compromisso, não muito sólido, de deixar em paz o colega. 

Como se não bastasse, após a saída, a coordenadora e eu conversamos com a mãe do estudante "encapetado", que fora buscá-lo e aos irmãos. A responsável se mostrou muito solícita e nos explicou sobre os problemas de ansiedade do menino. Ficou também esclarecido que o "caderno satânico" era inspirado na animação japonesa "Death Note", cuja trama gira em torno de um caderno sobrenatural que provoca a morte de todos que tiverem seus nomes registrados naquelas páginas.

O "causo" dá o que pensar. 

A situação me fez imediatamente pensar no quanto o discurso "demonológico" de figuras como a atual senadora Damares Alves encontra profunda ressonância na cultura popular brasileira, lembrando que os séculos passam, mas o Diabo ainda faz a festa na Terra de Santa Cruz - com todos os desdobramentos sociais e políticos que isso ocasiona. A recente moda dos padres exorcistas que arrastam multidões para igrejas parece bem menos espantosa quando se percebe o quanto a figura do Diabo e sua capacidade de provocar malefícios permanecem, ainda e sempre, presentes como forças aterradoras capazes de induzir pânico mesmo em estudantes cariocas que vivem em áreas conflagradas.

Por outro lado, fica também patente a vitalidade do Diabo no imaginário ocidental, capaz de encarnar tanto o Mal para os cristãos como de incorporar o medo da "macumba" afro-brasileira, salpicado ainda pela cultura pop nipônica. Como salientava o historiador Robert Muchembled, o Diabo é figura que atravessa os séculos sofrendo inúmeras metamorfoses, sempre atual porque sempre cambiante, remetendo à figura jocosa, espalhafatosa e compósita do arcano do Diabo no Tarot de Marselha. Sempre híbrido, isto-e-também-aquilo, o Diabo evoca um jogo de ecos e reflexos entre diferentes épocas, lugares e culturas - mesmo a animação "Death Note" nos devolve um imaginário diabólico cristão reinventado através do encontro com a cultura japonesa.

Not least, os acontecimentos deixam a certeza de que "jamais fomos modernos", como provoca Bruno Latour. O projeto da modernidade iluminista de uma sociedade pautada pela razão vitoriosa sobre as trevas da superstição permanece obra fadada à incompletude. Que diria Voltaire ao constatar que o Diabo ainda faz tremer jovens do século XXI, apesar de seus smartphones e tantas outras bugigangas proporcionadas pela Revolução Industrial?

Não há inteligência artificial que algo assim...

O Diabo é Pop: Klarion, o Menino Bruxo e o demônio Etrigan em episódio da saudosa série animada de Batman, no fim dos anos 90


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Japamala

Cada lágrima derramada é semente plantada no solo da alma, aguardando oportunidade para germinar. Bem-aventurados os que choram. 



segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

"C'est pour cela que je suis née"

"Je ne crains pas les gens de guerre, car j’ai mon chemin tout aplani; et, s’il se rencontre des hommes d’armes, j’ai Dieu, mon Seigneur, qui saura bien me frayer la route pour aller jusqu’à messire le dauphin. Car c'est pour cela que je suis née".

Atribuído a Joana d'Arc




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Jerusalém Libertada

 Hoje tive um sonho.


Sonhei contigo, Jerusalém, "três vezes santa": santa para judeus, santa para cristãos, santa para muçulmanos. Santa para todos os povos de Abraão.

Jerusalém sofredora, Jerusalém atormentada. Três vezes santa, três vezes desejada, muitas e muitas vezes disputada!

Jerusalém, Jerusalém, quanto sangue já correu, corre e ainda correrá por ti! Quantas lágrimas vertidas, quanto ranger de dentes, quanto bater de espadas!

Até quando, Jerusalém, os povos de Abraão lutarão por ti? Até quando, três vezes santa Jerusalém, serás pedra de tropeço para aqueles que dizem te amar?

Embriagados pelo vinho da ira, sorvido em poluídos cálices, teus pretendentes te cortejam violentamente, tomando por amor aquilo que não passa de vulgar paixão. Te idolatram, pensando te adorar. Pois, infelizmente, Jerusalém, te tornaste ídolo no coração daqueles que julgam te amar - e é como idólatras sanguinários que te disputam.

Antes de Abraão e seus herdeiros eras Salém, reino do misterioso Melquisedec. Generoso, hospitaleiro Melquisedec, que acolheu Abraão fatigado dos combates.

Abraão foi teu hóspede, jamais teu dono, Jeru-Salém, cidade, antes de tudo, hospitaleira. Acolheste em teu seio a Arca daquela Aliança que diz: "Não matarás".

Quão iludidos estão aqueles que se entrematam em teu nome! Aqueles que deveriam te santificar, te profanam, derramando sangue sobre o solo de Melquisedec.

Onde estás, onde estás, Jerusalém? Estás nos céus ou estás na terra? Em todo lugar ou lugar nenhum? Estás, antes de tudo, nos corações de todos aqueles que amam?

Que podes significar, Jerusalém, de mais nobre, digno e elevado, senão o Amor?

Todos aqueles que amam, hospitaleira Jerusalém, acolhem a ti, no fundo de seus corações e almas. Te acolhem e te possuem, em Espírito e Verdade! Pois és mais que pedra, és um sonho, um ideal, tantas vezes destruído, pisoteado, aviltado. Em Espírito e Verdade te encontras em toda parte, como disse o galileu à samaritana.

Aprisionada choras, Jerusalém, mas venho oferecer-te consolo.

Sonhei contigo, Jerusalém, como sonham os profetas, os visionários e os poetas. Sonhei como sonham os esperançosos, aqueles que teimam em sonhar!

Em meu sonho, Jerusalém, todos aqueles que se matam por ti depuseram as armas. Os povos de Abraão finalmente se entendiam como irmãos, após séculos de encarniçado ódio. Ismael e Isaac se estreitavam em infinito abraço; Caim, Abel e Set partilhavam o banquete da paz. Moisés, Jesus e Maomé sorriam.

E depondo suas armas, te libertavam do cruel jugo em que tanto sofres. Amando uns aos outros, te libertavam. Renunciando a toda paixão possessiva, se encontravam juntos sob a reluzente tenda de Melquisedec.

Mais uma vez eras Salém, a simples, humilde e hospitaleira Salém. Rejuvenescida, revigorada, renovada, resplandecias para todos os povos da Terra, como sonhava Salomão. Todos aqueles que amam se encontravam em ti, em Espírito e Verdade.

Salém, três vezes santa, muitas vezes santa, acolhias crentes e descrentes. Tua luminosa tenda era um santuário de paz, um sagrado recinto onde ninguém ousaria derramar o sangue do irmão.

Mais uma vez governada pelo sábio, misterioso Melquisedec, acolhias todos aqueles fatigados das guerras, dos prantos e do ranger de dentes.

Sob o cetro de Melquisedec, a amorosa e zelosa hospitalidade se tornava tua primeira e única lei. Eras verdadeira e plenamente a Terra Prometida, onde não mais se ouviam os ecos das espadas, lanças, flechas ou canhões. Soava apenas um silencioso cântico de paz, murmurado em cada coração.

Sonho acordado, bem sei, Jerusalém. Mas o sonho é irmão da esperança, e a esperança é mãe de milagres.

Segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia, se aproxima o dia de tua libertação, Jerusalém...

Inspirado pela Águia de Patmos e por Victor Hugo; dedicado a Priscila, minha Sara

Encontro de Melquisedec e Abraão; pintura atribuída a Peter Paul Rubens (séc. XVII)


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

"Autor: Deus"

Navegando em um famoso site de compras, minha esposa esbarrou por acaso em uma edição da Bíblia. No campo "autor", o vendedor preencheu simplesmente "Deus". Me parece muito emblemático do papel que a Bíblia ainda ocupa no imaginário ocidental e na sociedade brasileira. Para além das sutilezas teológicas que geralmente retratam a Bíblia como escritura divinamente inspirada, há quem entenda (e não pouca gente) a noção de "palavra de Deus" em um sentido bastante literal. Uma persistência cultural ao mesmo tempo fascinante e inquietante...



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O declínio de Cosme e Damião?

Tendo a pensar que a distribuição de doces de Cosme e Damião pode se extinguir, pelo próprio desinteresse dos católicos. 

Em minha família, todos que ofereciam doce já morreram ou, pela idade, não distribuem mais. Os católicos mais jovens não se interessam pela prática - o próprio hábito da promessa, em sentido geral, parece estar desaparecendo do catolicismo popular. Em certo sentido, a dinâmica psicológica subjacente à promessa tem migrado do catolicismo para o neopentecostalismo, embora sob expressões religiosas distintas, desta vez de inspiração veterotestamentária ("jejum de Daniel", vigílias, "subir o monte", entre outras). 

De todo modo, puxando pela memória, no meu círculo familiar havia seis pessoas ou casais que distribuíam doces. Desses, quatro morreram e duas não o fazem mais - de seis para zero. Uma mudança quantitativa drástica que,  penso eu, reflete um quadro social mais amplo. 

Avanço a hipótese de que, hoje, a prática ainda se mantém viva sobretudo entre praticantes de religiões afrobrasileiras - afinal de contas, a festa sempre teve forte conotação "afrocatólica".

Vale ainda lembrar que a própria festa sofreu muitas transformações ao longo do século XX, ao menos nos subúrbios cariocas. As mesas de doces nas residências particulares momentaneamente abertas para estranhos gradativamente perdeu espaço para os saquinhos de doces embalados para viagem e os próprios doces caseiros foram sendo substituídos por guloseimas industrializadas, normalmente adquiridas em comércio atacadista. Os banquetes comunitários também foram se tornando menos comuns, de certo modo "migrando" para as feijoadas de São Jorge. 

Curiosamente, a devoção por Ogum-São Jorge tem crescido nas últimas décadas, enquanto a festa de Cosme e Damião parece minguar.

Mudanças culturais entre gerações, o ritmo cada vez mais acelerado da vida urbana, permutas simbólicas no campo da própria religiosidade, tudo parece contribuir para o deslocamento da Festa de Cosme e Damião enquanto prática social - ainda que não necessariamente à sua extinção. 

Em certo sentido me lembra as reflexões de Peter Burke sobre o "triunfo da quaresma" na Idade Moderna; a religiosidade e a cultura popular sempre se transformam, às vezes drasticamente, em períodos de intensas mudanças sociais. 

Damião, Cosme e Doces

Observações do historiador Fred Oliveira

Hoje, aqui pelo Rio, devido à recusa e grosseria de algumas pessoas (geralmente evangélicas), as pessoas (geralmente católicas) que distribuem doces de Cosme e Damião chegam cada vez mais acanhadas para perguntar se alguém teria interesse em receber um saquinho de guloseimas... 

Até os anos 90 a data ainda produzia um alvoroço, se distribuindo doces e sorrisos entre todos. Era uma felicidade, e mesmo quem não queria (por crença ou gosto diferente) não demonstrava desagrado, levando numa boa, mesmo sem aceitar o doce oferecido, a farra daquela festiva e popular tradição. 

Porém de lá pra cá algo mudou na nossa sociabilidade... 

Atualmente (e já vi ocorrer) algumas pessoas fazem questão de reclamar do oferecimento do pacotinho de doces e outros mesmo falam contra aquela fé... Infelizmente católicos também tratam evangélicos de modo desrespeitoso em relação a outras questões. 

Por causa dessa luta de vetos, ainda se diluirão muitas práticas do costume!



quarta-feira, 1 de setembro de 2021

 A mais elevada caridade consiste menos em compadecer-se com o sofrimento alheio que em regozijar-se com o bem de outrem, como se nosso fosse - pois verdadeiramente o é.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

A "Ordem" brasileira - Paternalismo, autoritarismo e messianismo político

Texto originalmente rascunhado em janeiro de 2019

"Ordem e Progresso" - diz nossa bandeira. 

Ordem e desordem são categorias muito presentes no imaginário brasileiro, embora pouco se reflita sobre seus respectivos significados. A "ordem" de uns pode ser a "desordem" de outros. Sob esse aspecto, um de nossos maiores problemas é que a categoria "ordem" costuma ser sempre apresentada sob conotações positivas ou negativas, raramente sendo pensada de forma neutra. "Ordem" tanto pode nos trazer segurança coletiva quanto privação de liberdade individual. Por outro lado, o que desejamos, muitas vezes, é apenas aparência de ordem, para que melhor possamos nos deleitar na desordem. 

Para nossa reflexão, convém definir "ordem" como mero conjunto de relações entre as partes de um sistema complexo e compósito. Nesse sentido, de variados conjuntos de relações podem emergir variados gêneros de "ordens", onde suas respectivas partes gozem de maior ou menor grau de autonomia. 

Nesse sentido, há tanta ordem na parada militar quanto no desfile de escola de samba, ambos aparentados esteticamente à procissão religiosa e ao cortejo nobiliárquico - ocasiões em que coletividades se dão a ver pelo ordenado desfile de seus componentes, alas atrás de alas, segundo prioridades, precedentes ou hierarquias. Todo desfile, por mais sério que pareça, comporta muitas dimensões figurativas ou alegóricas. O desfile em via pública não apenas manifesta visualmente a existência da coletividade, mas expressa os valores e anseios que deseja exibir e dos quais, via de regra, se orgulha. O tanque pode ser tão alegórico quanto o carro da escola de samba.

"Procissão do Fogaréu", tradicional em Goiás.

Autonomia não é sinônimo de desordem. Um sistema ordenado com muitas partes autônomas e cooperativas pode funcionar até melhor que um sistema rigidamente hierarquizado. Por sinal, hierarquias demasiadamente rígidas podem conduzir à desordem a médio ou longo prazo, mesmo que pareçam eficientes para finalidades imediatas.

Sub-ordinação é apenas um tipo de co-ordenação, e nem sempre é o mais adequado. O excesso de sub-ordinação fragiliza um sistema, formando gargalos e pontos de tensão cuja ruptura pode comprometer severamente a integridade do sistema - como diz um antigo provérbio com muitas versões, "por falta de um prego, perdeu-se a ferradura; por falta da ferradura, perdeu-se o cavalo; por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro; por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha; por perder a batalha, perdeu-se o reino inteiro".

Uma corrente é uma estrutura extremamente sub-ordinada e, como diz a sabedoria popular, é tão forte quanto seu elo mais fraco - e quanto mais longa a corrente, maior o número de elos potencialmente fracos, candidatos à ruptura. Uma malha bem co-ordenada, todavia, pode resistir bravamente à ruptura de vários de seus elos, redistribuindo as tensões sem comprometer a própria malha; os elos que circundam o elo rompido tendem a se adaptar de modo autônomo e interdependente, emulando a própria forma do elo perdido. Co-ordenação e fractalidade se combinam de modo mutuamente reflexivo em semelhante dinâmica: o conjunto se rearticula de modo a preservar a função da parte perdida.


Um exemplo interessante desse dinamismo seria talvez a fascinante arquitetura de Gaudí com seu uso de arcos catenários. Não à toa, talvez, o genial catalão projetava suas obras de ponta-cabeça, de modo que cume e base se confundem em suas funções. Tal modelo redistribui as tensões de modo extraordinariamente harmonioso, tanto para cima quanto para baixo.

Maquete "de ponta-cabeça" original de Gaudí, preservada em La Pedrera


Refletida em um espelho, a  maquete revela a forma do edifício "de cabeça para cima"

Numa estrutura bem co-ordenada, a autonomia se torna uma virtude capaz de garantir a ordem mesmo em situações de grande tensão; por outro lado, uma estrutura demasiadamente sub-ordinada acumula tensões de tal maneira que a autonomia pode se tornar um defeito, exigindo estrita conformidade das partes para evitar a tão temida "desordem" - o mínimo desvio dos padrões pode comprometer todo o sistema.

Não é à toa que sociedades muito hierarquizadas tendem a ser autoritárias, baseadas em rígida disciplina, muitas vezes mantida à custa da brutalidade contra suas partes mais autônomas. Em casos semelhantes a autonomia, não raro, é equiparada a grave vício moral. Sinais de autonomia pessoal são vistos com desconfiança e desencorajados de modo suave ou violento conforme sua gravidade percebida - gravidade essa que pode ser muito mais simbólica que efetiva, aferida mais por sua visibilidade que por sua real capacidade de afetar a coletividade; para uma rígida hierarquia, o menor gesto de autonomia pode parecer um ato de traição.

Não raramente, no entanto, a punição rigorosa e sistemática de determinados traços autônomos pode lhes conferir visibilidade ainda maior: espalha o fogo, em vez de apagá-lo; transforma a quarentena em vetor de contágio. Dependendo do caso, tal difusão pode trabalhar em favor dos disciplinadores, contanto que a subversão mantenha sua forma, mas se esvazie de seu conteúdo. O mártir transformado em santo pode mesmo se tornar um alicerce da hierarquia.

Não à toa os cristãos martirizados pelo Império ROMANO seriam igualmente cultuados pela Igreja Católica, Apostólica e... ROMANA - igreja mais imperial que apostólica, talvez: travestido como apóstolo, o imperador se converte em papa, a cúria romana reencarna a corte imperial. Nesse sentido, é curioso, mas não exatamente surpreendente que alguns dos maiores santos e místicos católicos tenham sido eventualmente vistos por seus contemporâneos com desconfiança, como São Francisco de Assis, ou mesmo frequentado os cárceres inquisitoriais, como São João da Cruz. Como já sinalizava Bergson, as relações entre religião dinâmica e estática são muitas vezes paradoxais.

Provavelmente não é à toa que as mesmas religiões (tanto transcendentes quanto seculares) que mutilam os corpos de seus hereges também cultuam os corpos mutilados de seus próprios mártires. Por sinal, como bem demonstram os conflitos entre católicos e protestantes na Idade Moderna, a diferença entre "herege" e "mártir" sempre depende de pontos de vista: o herege de uns é mártir para outros, e vice-versa. Joana d'Arc, convém lembrar, foi canonizada como santa pela mesmíssima Igreja que outrora a condenara como herege à fogueira - resta saber se é rigorosa e exatamente a mesma igreja que condena e canoniza: provavelmente não, a seguir a máxima de Heráclito, de que um homem não mergulha duas vezes no mesmo rio.

As igrejas, como todas as coletividades e rios, fluem no tempo: todo rio e toda coletividade modificam o próprio leito onde fluem, pela natureza mesmo do fluir, pelo atrito entre a dinâmica água e o estático solo - para retomar as categorias bergsonianas. Com o inexorável escoar dos dias, anos e séculos, toda coletividade em fluxo tende a erodir seus próprios dogmas ao longo do tempo. As coletividades mudam, inclusive com a fútil intenção de continuar as mesmas; e muitas vezes, nesse processo, acidental ou providencialmente, podem mudar para melhor. As coletividades, ao converter seus mártires em santos, se deixam imperceptivelmente subverter por eles: é um processo de mão dupla, incontornavelmente dialético.

A razão hierárquica apresenta grave tendência a perverter a ordem em seus esforços para evitar a desordem: autoritárias autoridades se persuadem, de boa ou má fé, que seus interesses são exatamente equivalentes aos da coletividade. A pretexto de encarnarem a voz da coletividade, da divindade ou da coletividade divinizada, fazem com que ela se cale.

A autoridade autoritária, em seu ilusório esforço por personificar a coletividade se degenera em grosseiro e grotesco personalismo. Iludidas ovelhas seguem seu pastor até o matadouro; não percebem que o pastor é apenas mais uma ovelha, com coração de lobo: "um rei é como um tubarão que anda sobre a terra", diz o provérbio havaiano.

Toda hierarquia, por melhores que sejam suas intenções ou pretextos, é potencialmente predatória; hipertrofiada e descontrolada, devora a carne ou a alma de seus próprios membros, inclusive daqueles em posição de autoridade: como bem dizia o abolicionista Joaquim Nabuco, o homem na condição de senhor ou escravo nunca é livre. De fato, tanto o senhor quanto o escravo estão presos na própria hierarquia que gera as respectivas posições de senhorio e escravidão, hierarquia essa que os ultrapassa e priva de sua autonomia. Não há casa-grande sem senzala, e vice-versa.

Não espanta, assim, que o espectro da escravidão ainda assombre a servil alma senhorial do povo brasileiro, tão dado a tendências autoritárias e paternalistas. Nada disso é acidental, dada nossa formação cultural, onde as figuras do pai e do senhor sempre se confundiram ou tentaram, com maior ou menor sucesso, se confundir, como mostra eloquente trecho do padre Antonil, redigido no século XVIII:

Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente. E do modo com que se há com eles, depende tê-los bons ou maus para o serviço. [...] O que pertence ao sustento, vestido e moderação do trabalho, claro está, que se lhes não deve negar, porque a quem o serve deve o senhor, de justiça, dar suficiente alimento, mezinhas na doença e modo com que decentemente se cubra e vista [...] e deve também moderar o serviço de sorte que não seja superior às forças dos que trabalham, se quer que possam aturar. [...] Costumam alguns senhores dar aos escravos um dia em cada semana, para plantarem para si, mandando algumas vezes com eles o feitor, para que não se descuidem; e isto serve para que não padeçam fome nem cerquem cada dia a casa de seu senhor, pedindo-lhe a ração de farinha. Porém, não lhes dar farinha, nem dia para a plantarem, e querer que sirvam de sol a sol no partido, de dia e de noite com pouco descanso no engenho, como se admitirá no tribunal de deus sem castigos? Se negar a esmola a quem com grave necessidade a pede é negá-la a Cristo Senhor nosso, como Ele o diz no Evangelho, que será negar o sustento e o vestido ao seu escravo? [...] O certo é que, se o senhor se houver com os escravos como pai, dando-lhes o necessário para o sustento e vestido, e algum descanso no trabalho, se poderá também depois haver como senhor, e não estranharão, sendo convencidos das culpas que cometeram, de receberem com misericórdia o justo e merecido castigo. (André João Antonil, padre italiano, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas).

Agora, como outrora, os populismos brasileiros confundem fartamente paternidade com senhorio, servidão com filiação. Enredada no imaginário do pai-senhor, a cultura política brasileira é uma máquina configurada para converter indignação em bonapartismo em suas complementares engrenagens de paternalismo e autoritarismo. O brasileiro, de "esquerda" ou "direita" busca perpetuamente em seu governante um pai-senhor, em Lula, Bolsonaro ou no próximo que vier.

Mas o pai-senhor também precisa ser Messias, por força de nossa formação lusitana, católica e irremediavelmente sebastianista. A pátria brasileira precisa de salvação, como a alma católica - e não há salvação sem eleição, como tanto enfatizam os protestantismos. Assim, a cada quatro anos, a não-tão-laica liturgia política brasileira precisa passar por um processo de eleição-salvação - ou salvacionismo eleitoral, conforme se prefira. Ao grado das circuntâncias escolhe-se o próximo salvador da pátria - depois de Lula, a bola da vez, muito significativamente, é Jair MESSIAS (!) Bolsonaro.

No entanto, não há Messias sem crucificação. Como o povo de Jerusalém entre o Domingo de Ramos e a Sexta-Feira da Paixão, o povo brasileiro sacrifica periodicamente seus salvadores-eleitos. Todo novo D. Pedro vai de seu glorioso 7 de setembro à sua melancólica noite das garrafadas. O suicídio de Vargas, a renúncia de Quadros, o impeachment de Collor e aquele de Dilma, a prisão de Lula, se sucedem como rimas finalizando estrofes de um longo e enfadonho poema escatológico, anunciando o D. Sebastião que virá na estrofe seguinte, em eterno retorno.

O discurso eucarístico de Lula na missa (!) celebrada em São Bernardo do Campo antes de se entregar à Polícia Federal não poderia ser mais sugestivo. Uma verdadeira autobiografia messiânica em versos barrocos, desde a encarnação humilde, passando pelos milagres presidenciais, a traição da classe-média brasileira, o martírio judicial, a paixão-apoteose encenada no próprio palanque e a promessa de ressurreição político-pneumática no corpo eucarístico-patriótico brasileiro: “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês. Minhas ideias já estão no ar e ninguém poderá encerrar. Agora vocês são milhões de Lulas”.

Bolsonaro e seus seguidores, por outro lado, em muitas conjunturas críticas, têm se valido do imaginário do martírio e da efusão de sangue, evocando o atentado sofrido pelo atual presidente durante a campanha eleitoral. A imagem-meme da camisa ensanguentada se tornou como uma verdadeira relíquia para a idolotria bolsonarista.


Nada ou muito pouco de nossa vida política parece se passar fora desse imaginário político-familiar-colonial-religioso do pai-senhor-messias. Apesar do vocabulário, das instituições e das ideologias modernas, há um verdadeiro leitmotiv emotivo pré-moderno, pré-republicano e pré-democrático que insiste e persiste através de nossas correntes ideológico-partidárias de "esquerda" ou de "direita". Os credos mudam, mas a liturgia se perpetua.

Nossos dois fenômenos político-messiânicos mais recentes, Lula e Bolsonaro, flertam com a teologia em sentido literal, um com a Teologia da Libertação e o outro com a Teologia da Prosperidade, ambas com viés político-econômico de "esquerda" ou de "direita", mas, ainda assim, teologias cristãs, apontando ambas para o mesmo referencial salvífico-messiânico. Ambas também com forte teor vetero-testamentário, centradas respectivamente no imaginário do Êxodo e da Aliança.

No limite, esse imaginário do pai-senhor-messias se projeta completa ou parcialmente em muitos momentos e figuras de nossa história republicana e pré-republicana, como a "redentora" Princesa Isabel, o "profeta" Antonio Conselheiro, o Vargas "Pai dos Pobres", a "redentora" revolução (sic) de 1964, na figura cripto-mariana da "Dilmãe" ou no recente slogan presidencial "Deus acima de tudo, Brasil acima de todos".

No Brasil, o Estado lusitano precede a sociedade colonial, e esse Estado também era Igreja - romana, imperial, colonial, inquisitorial, cruzada. O observador desavisado pode confundir o povo brasileiro com a brava gente lusitana às margens de Alcácer-Quibir, combatendo o infiel, pela Fé e pelo Império, à espera do Fim dos Tempos, anunciado por Bandarras de todo credo político, à esquerda ou à direita.

Zweig não estava errado ao dizer que o Brasil é o país do futuro, mas se equivocava talvez em relação a nosso regime de temporalidade. O futuro só é plausível onde existem passado e presente - alguma consciência histórica, enfim.

Não é o caso do Brasil, país onde candidatos presidenciais, a cerca de meio século um do outro, mordendo-se mutuamente as caudas, prometem saltos milagrosos de "50 anos em 5" ou restaurar o país como era "50 anos atrás" - nosso futuro é aquele do horizonte escatológico, que é também restauração do Éden nos jardins murados da Jerusalém celeste, Genesis e Apocalipse de mãos dadas, fechados sobre si mesmos, entre a eterna "Visão do Paraíso" e as tormentas do "Inferno Atlântico".

Nosso barroco teatro político é uma longa procissão - e, como se sabe, numa procissão há pouco espaço para autonomia, basta seguir o andor...



quarta-feira, 31 de março de 2021

quarta-feira, 17 de março de 2021

Dias e Santos

"Antigamente, em regiões católicas, essa maneira de entender o tempo ainda era muito natural. Minha tia, por exemplo, nunca diria: 'No dia 17 de janeiro, aconteceu-me isto ou aquilo'. Ela diria: 'No dia de Santo Antônio, fui para tal lugar'. Para ela, a festa do abade e do eremita - ou de outro santo qualquer - marcava mais o dia do que o número do dia na folhinha. Era assim que cada dia tinha para ela o seu caráter próprio".
Anselm Grün

Santo Antão - também conhecido como "Santo Antônio do Deserto" ou "Santo Antônio do Egito"

quarta-feira, 3 de março de 2021

Tempo e ritmo

"O ritmo cria tempo; o relógio apenas o mede. Na Idade Média, o povo vivia o tempo ritmado por festas, celebrações e rituais. Pelo ritmo de festas e rituais, o tempo estava dividido em períodos, cada um com seu sentido, que todo mundo aceitava. O tempo tinha qualidade. Não se tratava de explorá-lo, mas de se engajar em seu ritmo, a fim de assim perceber o sentido da vida. Era um ritmo cultural, que unia entre si os seres humanos. O tempo sempre era percebido como tempo social".
Karlheinz Geiszler



quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Um apelo cristão aos cidadãos do Brasil











"Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. (Tiago 4:17)


Iniciamos o ano de 2021 com muitas incertezas em relação ao cenário político, econômico e sanitário. As campanhas negacionistas em torno da pandemia da Covid-19, a falsa oposição entre fé e ciência, com a gradativa perda de empatia e de responsabilidade coletiva, visíveis na resistência ao uso correto de máscara e nas aglomerações contribuíram para que os índices diários de morte e infecção superassem os do início da pandemia.


As imagens de Manaus-AM angustiam toda e qualquer pessoa com a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa. Imagens que poderão se repetir em outros estados se não frearmos nossos comportamentos negacionistas e egoístas. A compaixão é um dom de toda e qualquer pessoa, religiosa ou não, capaz de sentir a dor do outro.


A empatia é uma condição para o pensamento ético, tendo contribuição decisiva para o altruísmo e para a coesão social. Essa última é essencial para constituição de uma nação e de uma identidade nacional.


A ausência de empatia, no entanto, é perceptível não somente no comportamento individual. Ela também se revela nos direcionamentos políticos e econômicos do país. Em função de uma política e economia não empáticas, orientadas única e exclusivamente para o lucro de alguns, o Brasil vive, talvez, o momento mais difícil de sua história recente. As decisões tomadas na política brasileira estão destruindo o país como nação.


A Emenda Constitucional 95 – Lei do Teto de Gastos – é um exemplo das causas que potencializam os impactos causados pela pandemia, porque reduziu o investimento na saúde pública. Outras opções políticas equivocadas que precisam ser lembradas são: a interrupção do Programa Mais Médicos, por razões ideológicas, e a expulsão de médicos e médicas cubanas que atendiam nas regiões mais carentes do país. A não valorização dos e das profissionais de saúde também é causa da realidade visível nas mais de 200 mil mortes que poderiam ter sido evitadas. E, por fim, o desinvestimento em pesquisas.


A falta de oxigênio em Manaus, a estafa dos e das profissionais da saúde, a desesperança e o medo precisam cair na conta de todas as instituições, empresas, corporações que vislumbraram seus lucros em detrimento do bem-comum.


De fato, colocar o lucro na frente do direito à existência das pessoas parece ter funcionado. Vejamos um exemplo: o lucro líquido das grandes empresas não financeiras da bolsa brasileira teve alta de 86,9% no terceiro trimestre, quando comparado com o mesmo período de 2019, chegando a R$ 20,856 bilhões.


No entanto, a economia real não se beneficiou disso, pois a taxa de desemprego, segundo dados do IBGE, chegou a 14,6%, com mais de 14 milhões de pessoas desempregadas. Além disso, mais de 600 mil micros e pequenas empresas foram à falência e 9 milhões de pessoas foram demitidas em função dos efeitos econômicos da pandemia. Por entraves burocráticos e demora na liberação de recursos menores do que os necessários, a ajuda às micro e pequenas empresas só chegou a 15% delas. Com o fim do Auxílio Emergencial, sob o argumento de que o “Brasil está quebrado”, uma parcela significativa da população fica abandonada por seu próprio país.


Estamos nas mãos de um governo orientado por política de morte. Os números mostram que o argumento utilizado para justificar a não realização de lockdown para conter a pandemia foi falacioso e é um dos principais indicativos da ausência de responsabilidade das pessoas que ocupam postos-chave no país: Executivo, Legislativo e Judiciário.


Enquanto pessoas enterram seus familiares, amigos e amigas, assistimos o governo federal anunciando planejamentos inconsistentes para dar início à imunização da sociedade. O sufocamento das pessoas que lutam e lutaram por suas vidas não tem sido suficiente para que as autoridades responsáveis assumam o seu papel.


Cada anúncio inconsistente realizado na televisão e nas mídias sociais representa escárnio e desrespeito com a vida da população brasileira.


Que neste domingo, e ao longo do mês de janeiro, possamos orar por todas as famílias enlutadas.


Oremos pelos profissionais de saúde, pela comunidade científica, pelos pesquisadores e pesquisadoras.


Oremos também pelos movimentos sociais, ONGs, comunidades religiosas, lideranças comunitárias que, desde o início da pandemia, não cessaram seu esforço em concretizar ações solidárias que diminuíram o sofrimento das pessoas desempregadas e sem amparo.


Que ao longo deste mês, ainda peçamos a Deus piedade por todas as pessoas e lideranças religiosas, ou não, que de maneira irresponsável potencializam campanhas negacionistas e comportamentos egoístas.


Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC)"

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Entre o Cetro e a Cruz

Ai do cristão que prefere o cetro de Constantino à cruz de Jesus; deseja impor pelo Poder aquilo que só se pode oferecer com Amor. Tomando a tirania por instrumento da fé, pretende agrilhoar seu semelhante ao Cristo que ele mesmo desconhece, como cego presunçoso que deseja furar os olhos dos videntes para curar-lhes a visão. Seu tresloucado zelo apostólico é traiçoeiro como a consciência de Judas.


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Oração Derradeira

Senhor, Senhor!

Olhando para este céu azul, entrego minh'alma pecadora! Ao som dos canhões, entrego minh'alma.

Tende piedade de mim! Tende piedade de nós, Senhor!

Sinto o chão duro e áspero sob minhas costas. As mãos chamuscadas de pólvora. Ainda seguro debilmente meu mosquete carregado para um último disparo. A camisa e a barba empapadas de sangue. Meu sangue.

Pólvora. Pólvora. Pólvora. Tanta pólvora, Senhor! Quanta pólvora! Sinto o cheiro; ouço as explosões.

Pólvora. Salitre. Carvão. Enxofre. Assim me disse o mestre artilheiro. Enxofre de Satanás. Pólvora de Satanás.

Que digo, Senhor? Digo bobagens, apenas bobagens. Nem sei o que digo. Sinto sede, sinto frio, sinto o sangue que se esvai. O céu ainda parece azul. Ainda.

Meu ombro não dói mais. Tento mover o braço. Não consigo. Não sinto minha mão.

A poucos passos escuto o ricochetear de balas contra a amurada de pedra. Foi uma bala como essas que me atingiu. Apenas uma. Quente, rasgando, queimando, esmagando. Minha carne, meu osso, meu sangue. Agora não importa mais.

Há poucos momentos eu e meu amigo disparávamos nossos mosquetes sobre a amurada, entre as ameias. Precisávamos defender nossa fortaleza. Atravessamos o oceano para defender esse forte. Pela Fé. Pelo Império. Pelo Rei. Pela Lei. Pela Santa Cruz. Por nossos soldos.

Do outro lado do Mar Oceano. Do outro lado, Senhor. Do outro lado estão minha mulher e meu filho. Entrego-Vos as vidas deles. Cuidai deles por mim. Cuidai do órfão e da viúva, pois sois Deus de Misericórdia!

Meu amigo está morto ao meu lado. Um petardo certeiro atravessou seu olho. Um bom homem, um bom cristão. Tende piedade dele, Senhor.

Viemos aqui por boa causa. Trazer a Palavra de Salvação para o gentio selvagem, nas garras de Satã, condenado à eterna danação. Nossos canhões, mosquetes, colubrinas, receberam a Vossa bênção. Para salvação do gentio e condenação do herege que o seduz.

Eis agora o herege que nos ataca. De seus galeões disparam as bocas de fogo contra nosso forte. As muralhas de pedra estremecem ao coice bestial das balas. Sinto o chão que trepida sob minhas costas.

Abaixo de mim, nossos canhões respondem. As explosões abafadas ecoam. Ouço as correntes que gemem a cada disparo. Vejo as nuvens negras que sobem ao céu azul. Ouço a tosse abafada dos meus camaradas que ainda lutam. Ou será minha própria tosse? Já não sei mais, Senhor.

Sei que morro, mas imploro ainda. Guardai este forte, Senhor Amado, em nome da Santa Cruz, para glória d'El Rey.

De seus escaleres, os hereges desembarcaram na praia, com seus mosquetes e colubrinas. Cada um de meus camaradas correu para seu posto.

Agachados sob a amurada, carregávamos nossos mosquetes, depois fazíamos um rápido disparo por entre as ameias. Sem tempo para mirar direito, a cada disparo confiamos em Vossa mão para guiar nossas armas, como fizestes com a funda de Davi!

O herege se oculta atrás das rochas na praia. Em grande número veio o herege, maior do que imaginávamos. Cinco galeões, sabe-se lá quantas bocas de fogo. Escaleres repletos de homens, como um enxame. Que esperança para uma pequena guarnição como a nossa? Em Vós, apenas em Vós, Senhor, esperamos! De vós há de vir o socorro!

Nossos canhões conseguiram naufragar um dos galeões inimigos. Isto ainda tive a Graça de contemplar! Também alguns escaleres foram atingidos antes de chegar à praia. Alguns hereges se afogavam, bem vi.

Pouco depois tombou meu grande amigo. O olho esquerdo estraçalhado e o nariz despedaçado jorravam sangue. Espumava sem dizer palavra, o pobre cristão. O rosto se contorcia de dor e a mão crispada agarrava a manga de minha camisa. Encomendei a Vós a pobre alma, com o sinal da Santa Cruz. Foste misericordioso, Senhor. Morreu rápida e graciosamente, como merecia tão bom cristão.

Fechei o olho que ainda restava a meu finado amigo e retornei a meu posto nas ameias, com ânimo e fé redobrados para a peleja contra o herege.

Meu disparo seguinte foi certeiro, pude ver. Vislumbrei o alvo e puxei o gatilho. Uma flor sangrenta desabrochou no peito do herege que tombava. Olho por olho, dente por dente, vida por vida. O disparo detonou como um cântico de hosanas e a pólvora cheirava como incenso.

Meu coração batia mais rápido. As lágrimas escorriam quentes por minhas faces.

Fiz mais cinco ou seis disparos, sem ver bem para onde iam. Estava cansado. Por instantes, recostado contra a amurada, repousei o mosquete ainda quente. O som de ricochetes se fazia ao meu redor. Um ou outro petardo zunia acima de minha cabeça.

Derramei a pólvora lentamente pelo cano do mosquete. Pressionei delicadamente o pó negro com o soquete. Peguei mais uma bala, sopesando o chumbo em minha mão. A bala desceu pelo cano, com um ruído áspero. Um pequeno toque com o soquete e estava quase tudo pronto. Senti a força da mola quando puxei a cultatra. Reparei que a pederneira já estava bastante desgastada. Empunhei o mosquete com o indicador próximo ao gatilho.

Em instantes me ergui, me debruçando sobre a ameia. Tive apenas tempo suficiente para avistar o balaço que se aproximava. Por um instante parecia que o mundo inteiro explodia e no momento seguinte estava aqui, estendido no chão, com meu ombro esmigalhado.

Não sinto mais nada. O céu azul e as nuvens negras desapareceram. Acho que fechei os olhos. O barulho das explosões agora parece chegar de muitas léguas de distância. Sinto alguém puxar delicadamente o mosquete de minha mão. Será um anjo?


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Da hipocrisia cristã

O cristão se faz hipócrita quando reivindica para si e para os seus a Graça e deseja rigorosamente impor aos "outros" aquilo que ele mesmo entende por Lei.

Esses "outros" podem ser vários, desde não-cristãos, cristãos de outras denominações ou até de uma mesma denominação, mas que apresentem condutas ou pontos de vista discordantes daquele que, farisaicamente, se crê intérprete autorizado da Lei e dono da ortodoxia, "reta opinião".

Para tanto, reivindica para si a força desta ou daquela "autoridade" inquestionável, seja a Tradição, a Escritura, o Magistério eclesiástico, a inspiração do Espírito Santo, a sucessão apostólica, o ensinamento mediúnico de "espíritos de luz" ou qualquer outra coisa que o diferencie dos demais mortais e pela qual se invista de uma certeza inabalável. No fundo, de uma ou outra maneira, forja a autoridade com que ele mesmo se autoriza.

Tal atitude deriva tanto da arrogância quanto do comportamento de manada, de uma arbitrária e orgulhosa convicção de "eleição" que o faz crer que ele e os seus são, de uma ou outra maneira, melhores que os demais.

É o tipo de gente capaz de prender, torturar, queimar, matar e massacrar em nome de Deus, a depender das circunstâncias sociais e históricas - a trajetória do Cristianismo, infelizmente, está repleta de exemplos assim.

Crendo-se livre de pecado, tal cristão atira a primeira, a segunda e todas as pedras que puder - contra a adúltera, o ladrão, o gay, o maconheiro, a abortista, o comunista e quem mais julgar conveniente apedrejar. Por vezes comemora, aberta ou ocultamente, o sofrimento ou a morte daqueles que tem por inimigos. Se regozija imaginando que este ou aquele arderá nas chamas do "inferno". Como alguns escolásticos, ousa imaginar que Deus perversamente priva seus eleitos de compaixão para que melhor se satisfaçam com o tormento dos pecadores.

Muitas vezes, condena rigorosamente nos outros aquilo que ele mesmo já praticou outrora. Cobra dos demais o severo cumprimento de uma "Lei" que ele mesmo transgredia. Enxerga o argueiro no olho do irmão e não apenas ignora, mas se orgulha da trave com que cobre seus próprios olhos. Fala em Amor, transpirando Ódio.

No fundo, o que lhe vale é o princípio nada cristão: "aos amigos tudo, aos inimigos a Lei". 

Se enxerga como Estêvão, mas age como Saulo.

A tal cristão, em sua zelosamente cultivada cegueira, resta apenas a esperança de, algum dia, realmente ingressar no caminho de Damasco...

Mão que apedreja.

sábado, 4 de abril de 2020

Imago Dei...?

Então Deus disse, "Façamos a humanidade a nossa imagem de acordo com nossa semelhança; e deixemo-los dominar sobre os peixes do mar, e sobre as aves do ar, e sobre o gado, e sobre todos os animais selvagens da terra, e sobre toda coisa rastejante que rasteja sobre a terra" (Genesis 1:26).

Uma montanha de comentários foi devotada a este texto. A que se refere a imago Dei, e que tipo de poder ela inspira e legitima? Qual é o sentido, como o texto à frente elabora, de ser fértil em número e subjugar a terra (1:28)?

As respostas a essas questões têm sido diversas e numerosa. O que eu gostaria de destacar, todavia, é o papel dessa passagem no desenvolvimento de várias ramificações do excepcionalismo humano, e seu emprego para inspirar e garantir a moderna busca por controlar a natureza e arquitetar ["engineer"] a vida. Como historiadores como Peter Harrison e Rémi Brague defenderam, o desejo científico de conhecer o mundo, e a obsessão tecnológica para refazer o mundo, podem ser entendidas como uma variante moderna, frequentemente secular, do desejo de restaurar os seres humanos à sua natureza deificada. Retomar a imago Dei nessa leitura significar adquirir o conhecimento e desenvolver o poder que libera as pessoas do esforço físico que as confronta com os limites e necessidades da vida corporal. Isso as coloca em um caminho para o que ecomodernistas vêm descrevendo como um bom Antropoceno* - um caminho em que catástrofes são engenhosamente evitadas e a criatividade e as liberdades humanas florescem.

O desejo de libertar a humanidade de doença, fome, e tanta miséria e labuta é certamente recomendável. Mas o desejo de assumir uma posição deificada no mundo também é supremamente perigoso, pois tão frequentemente resulta na subjugação e instrumentalização de pessoas e lugares. Posto nos termos do texto de Gênesis que nos deu a imago Dei, isso pode levar a presunção, orgulho e poder que eventualmente levam Deus a dizer a Noé: "Eu determinei dar fim a toda carne, pois a terra está repleta de violência" (6:13). Quando as pessoas se elevam acima daquilo que podemos chamar de sua condição "criatural" ["creaturely"], finita e necessitada, como quando elas buscam se isentar do cuidado dos outros e seus lugares, elas também põem em movimento padrões de comportamento que irão inevitavelmente violar os outros e sua capacidade de existir.

Liberdade, neste contexto, significa a emancipação da humanidade das necessidades e cuidados da vida "criatural" conjunta. Esta liberdade busca uma posição autônoma e autárquica no mundo, uma posição em que a liberdade de ser é melhor realizada no poder de estar sozinho e gozar a vida de acordo com os termos de sua escolha individual. A construção da torre de Babel, uma torre que poderia elevar os humanos aos páramos celestes  (11:4), e assim posiciona-los para obliterar a distinção entre o humano e o divino, não foi senão uma precoce expressão do sonho tecno-utópico que nos leva ao Antropoceno.

*Antropoceno - termo proposto e discutido por alguns acadêmicos de diversas disciplinas das ciências naturais e humanas para postular a ideia de que hoje vivemos uma nova era geológica, posterior ao Holoceno, em que o conjunto da ação econômica e tecnológica humana chega a se projetar como uma verdadeira "força da natureza" capaz de alterar severamente a constituição ecológica de nosso planeta.

Can we live in a world without a Sabbath? - Interessante provocação de Norman Wirzba, nesses tempos em que um reles vírus põe em causa a supremacia humana sobre toda a vida planetária; é bem verdade que Gênesis menciona apenas peixes, pássaros, gado, animais selvagens e rastejantes... Teria a esfera microbiana ficado de fora das cláusulas do pacto adâmico?!

Michelangelo e a "Imago Dei" - sem vírus à vista...

sexta-feira, 3 de abril de 2020

FEBEAPÁ 2020

Preciso do Stanislaw Ponte Preta para entender essa imagem. Exige tanta maestria semi-ótica que só furando um olho para decifrar. 

quarta-feira, 25 de março de 2020

COVID-19 e os Adoradores de Mamom

Texto do brilhante historiador, percussionista, musicólogo e teólogo Tiago de Souza, de cuja amizade muito me orgulho

Sobre o pronunciamento, sobre a crise pandêmica e sobre a lógica cachaceira do "simbora pra rua meu povo".

Acho que esse texto será curto.

Eu ia participar de uma live ontem, mas o Instagram entrou em colapso antes que nosso sistema de saúde, então... me permitam apresentar meu olhar de historiador sobre todas essas questões.

Pensa aí: o que a explosão do Vesúvio, a Peste Negra, o terremoto de Lisboa, a explosão do Tambora, do Krakatoa, a gripe espanhola tem em comum? Aliás, com relação ao plano de reconstrução, o que nos difere de todas essas crises?

A resposta é simples: em todos os acontecimentos apontados, tanto os indivíduos quanto os governos agiram DEPOIS da tragédia. Eles foram pegos de surpresa. Foi tudo muito rápido. Não havia tempo nem forcas suficientes para lidar com a força da natureza, desde os tremores que sacudiram Lisboa até a ação do bacilo da peste. Contra a natureza não há argumentos.

A cor da baleia em Moby Dick é branca e não e a toa. É a cor da neutralidade.

A natureza não escolhe a quem ceifar.

Nós sim.

Falaremos sobre isso no fim do texto.

Provavelmente você vai me odiar quando chegar lá.

Após as milhares de mortes, os governos (cada um com sua estrutura específica) realizaram ações de recuperação que iam desde leis feitas a canetadas dentro de carruagens (caso do Marques de Pombal em Lisboa) até planos inteiros de reestruturação econômica. A preocupação IMEDIATA era a vida. Era preciso enterrar os mortos, sim. Era preciso salvar sua própria vida. Sim. Mas era preciso agir para que o prejuízo HUMANO IMEDIATO não fosse pior.

E aqui não se entrava no mérito da economia. Não no curto prazo.

No curto prazo, o que importava era a vida.

Não se comparava Lisboa com Nápoles.

Não se comparava Java com Pompéia.

Não se dizia: "Mas em 1755 fizeram assim e assado, logo, porque quando faço isso em 1883 todo mundo reclama?"

Não se dizia "ninguém reclamou do rei fulano quando ele disse isso... Porque reclamam do meu rei agora?"

A única coisa que importava era diminuir os mortos e ajudar IMEDIATAMENTE a quem precisava.

Pessoal, as pessoas no século XIV (eu escrevi SÉCULO QUATORZE!!!) tinham mais consciência de vida do que nós. Diante da mortandade que assola ao meio dia, diante da peste que anda na escuridão, diante da praga que se aproxima da tenda elas FUGIRAM e depois disso, se preocupavam com a VIDA dos seus.

(Galera, desculpa, o texto vai ser mais longo do que eu imaginava porque a partir do momento eu citei Salmos, uma ideia me ocorreu. Vou falar disso em um minuto).

Quero dizer com isso que a defesa da vida, em detrimento das condições econômicas foi a ponta de lança daquelas pessoas. Observe a História! Enquanto o flagelo acontecia as pessoas NÃO PENSAVAM EM EMPREGOS, não pensavam em ECONOMIA, não pensavam em EMPRESAS.

Enquanto o cavalo amarelo da morte galopava, as pessoas buscavam salvar os seus em primeiro lugar. E depois, assim que o trotar e o bufar do cavalo de demônio diminuía sua marcha, indivíduos tratavam de suas economias e governos estabeleciam planos de contenção e reconstrução.

Sabem de uma coisa?

Todos nós somos IDOLATRAS.

UM BANDO DE ADORADORES DE MAMOM, disfarçados de crentes, de ateus, de espíritas, de umbandistas, de judeus... disfarçados de bolsonaristas e de esquerdistas.

Todos nós estamos preocupados com o amanhã do NOSSO BOLSO, ao invés do amanhã DO NOSSO PRÓXIMO.

O presidente foi dúbio em um momento em que não se poderia ser, foi polêmico quando não deveria ser. E parem de culpar a Globo.

A culpa é do MAMOM que habita nosso coração.

A culpa é do receio do desemprego, da recessão... E eu entendo isso. Mas o que eu não entendo é esse medo DOMINAR a mente de vocês. Dominar a nossa mente. Dominar a nossa cosmovisão. Vocês estão ouvindo?

Não estão?

O barulho de máscaras caindo.

Nossas máscaras de bons costumes.

(A explosão do Krakatoa foi ouvida a mais de 5 mil quilômetros de distância. O barulho das nossas máscaras caindo no chão foi ouvida no céu. Foi ouvida por Deus).

De repente você não sabe o que é Mamom.

Deixe eu contar uma pequena história.

Jesus certa vez estava conversando com as pessoas e, em um dado momento, ele disse:

"Vocês não podem adorar a Deus e a MAMOM ao mesmo tempo...".

Existem pelo menos duas explicações a esse respeito. Na primeira, o termo "mamom", de origem aramaica, servia para designar a soma dos bens terrenos: posses e dinheiro. Não era um deus oficial de qualquer culto pagão, mas se constituía, e ainda se constitui, verdadeiramente, um ídolo universal, pois nos tesouros materiais o homem coloca o coração. Dessa forma, a palavra traduzida para o português como Mamom em algumas bíblias foi especialmente escolhida pelos autores para passar essa ideia de que a riqueza pode ser um senhor, um deus, um alguém que as pessoas seguem e que acaba levando-as para longe de Deus. No texto em que Jesus fala sobre servir a dois senhores (Mateus 6:24) note que Jesus personifica a “riqueza” como se fosse uma pessoa, um “senhor” que poderia ser servido pelas pessoas e não meramente um objeto, bens ou dinheiro que as pessoas têm. Ele faz isso para fortalecer o argumento de que as riquezas podem ser um deus para as pessoas, como se fossem realmente algo com que elas pudessem interagir pessoalmente.

Na outra possível interpretação, "Mamom", em maiúscula no início, seria um deus da Mesopotâmia e que simbolizava o dinheiro.

A parte qualquer discussão histórico-linguistica-teologica, pense:

Qual é a preocupação IMEDIATA de alguém que mesmo diante do que está acontecendo na Itália e na Espanha diz: "Vamos voltar pra rua! O Brasil não pode parar!"

Resposta:

MAMOM.

Repito:

MAMOM.

Novamente.

MAMOM.

Nossas mentes e corações estão corroídos pela riqueza, pelo dinheiro, pela preocupação com a economia, pela preocupação com o bolso. E o demônio - o mestre dos disfarces, o paladino da caozagem, o Rambo da lorota, o samurai da enganação, o Beethoven das estripulias - faz você pensar:

"Mas se o país quebrar vai morrer muito mais gente!"

Vai. Vai sim. Concordo.

Mas... O problema do seu argumento é justamente... o "VAI". Futuro. E o hoje? Como podemos salvar vidas HOJE?

E hoje? E daqui a duas semanas? E em abril? Como pode o ser humano ignorar o fato da letalidade da doença e só pensar em emprego... Quando pessoas podem realmente morrer a curto prazo? Lembrem-se dos exemplos anteriores! Do Vesúvio a Gripe espanhola, primeiro se cuidava dos vivos e depois se pensava no amanhã. E após a tragédia, se fazia aquilo que Pombal falou para o rei de Portugal: "enterramos os mortos, cuidamos dos vivos".

"Ah cara... Mas isso só mata velho".

Cala-te, demônio!

Na Bíblia (esse livro tão mal interpretado por nós) está escrito: "devem primeiro aprender a cumprir os seus deveres religiosos, cuidando da sua própria família. Assim eles pagarão o que receberam dos seus pais (...) pois Deus gosta disso”. (1 Timóteo 5:4).

E também está escrito em Levítico 19:32: “Diante dos cabelos brancos te levantarás, e honrarás a face do ancião, e temerás o teu Deus".

Miseráveis que somos!

Assassinos!

Deixa eu te perguntar: nós aprendemos com nossos pais que idoso pode ser deixado a morte? Foi isso que José fez com Jacó? Foi isso que Rute fez com Noemi? Foi isso que Jesus fez com Maria?!

Então, pensem bem antes de abrir a boca para dizer "mas e a economia..."

MAMOM bate palmas para vocês. As moedas tilintam de tesão pelas suas almas.

Isso... Pense mais no Paulo Guedes e menos em Jesus.

Isso... adore seu investimento e ignore a mortandade do Corona.

Isso... Se preocupe com seu emprego, mesmo que o custo dele seja a morte de alguém... Mesmo que indiretamente.

Isso.

Vamos fazer a dança macabra rumo a nossa perdição como nação, como povo, como espécie. Celebremos de mãos dadas a nossa decadência diante do próximo. Vamos mostrar pra todo mundo que os camponeses do século XIV eram mais prudentes do que nós somos. Vamos mostrar que os javaneses que se revoltaram contra o sistema que os abandonou depois da explosão do Krakatoa são mais coerentes do que nós.

Vamos mostrar que somos, como no filme do Thomas Hanks (e que ninguém viu) "matadores de velhinhos".

Vamos dançar até cairmos exaustos.

Exaustos e sorridentes com as trinta moedas de prata que Mamom nos dá.

Trinta moedas de prata.

Eis aí o custo do meu "É só uma gripezinha".

Trinta moedas.

Antes meu emprego do que mais um velho no mundo.

Que lógica infernal...

Trinta.

Eis aí o preço que italianos e espanhóis estão pagando.

Bora pra rua meu povo!

É tempo de carnaval.

É tempo de Mamom.

Tiago de Souza