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Mostrando postagens com marcador Islã. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Jerusalém Libertada

 Hoje tive um sonho.


Sonhei contigo, Jerusalém, "três vezes santa": santa para judeus, santa para cristãos, santa para muçulmanos. Santa para todos os povos de Abraão.

Jerusalém sofredora, Jerusalém atormentada. Três vezes santa, três vezes desejada, muitas e muitas vezes disputada!

Jerusalém, Jerusalém, quanto sangue já correu, corre e ainda correrá por ti! Quantas lágrimas vertidas, quanto ranger de dentes, quanto bater de espadas!

Até quando, Jerusalém, os povos de Abraão lutarão por ti? Até quando, três vezes santa Jerusalém, serás pedra de tropeço para aqueles que dizem te amar?

Embriagados pelo vinho da ira, sorvido em poluídos cálices, teus pretendentes te cortejam violentamente, tomando por amor aquilo que não passa de vulgar paixão. Te idolatram, pensando te adorar. Pois, infelizmente, Jerusalém, te tornaste ídolo no coração daqueles que julgam te amar - e é como idólatras sanguinários que te disputam.

Antes de Abraão e seus herdeiros eras Salém, reino do misterioso Melquisedec. Generoso, hospitaleiro Melquisedec, que acolheu Abraão fatigado dos combates.

Abraão foi teu hóspede, jamais teu dono, Jeru-Salém, cidade, antes de tudo, hospitaleira. Acolheste em teu seio a Arca daquela Aliança que diz: "Não matarás".

Quão iludidos estão aqueles que se entrematam em teu nome! Aqueles que deveriam te santificar, te profanam, derramando sangue sobre o solo de Melquisedec.

Onde estás, onde estás, Jerusalém? Estás nos céus ou estás na terra? Em todo lugar ou lugar nenhum? Estás, antes de tudo, nos corações de todos aqueles que amam?

Que podes significar, Jerusalém, de mais nobre, digno e elevado, senão o Amor?

Todos aqueles que amam, hospitaleira Jerusalém, acolhem a ti, no fundo de seus corações e almas. Te acolhem e te possuem, em Espírito e Verdade! Pois és mais que pedra, és um sonho, um ideal, tantas vezes destruído, pisoteado, aviltado. Em Espírito e Verdade te encontras em toda parte, como disse o galileu à samaritana.

Aprisionada choras, Jerusalém, mas venho oferecer-te consolo.

Sonhei contigo, Jerusalém, como sonham os profetas, os visionários e os poetas. Sonhei como sonham os esperançosos, aqueles que teimam em sonhar!

Em meu sonho, Jerusalém, todos aqueles que se matam por ti depuseram as armas. Os povos de Abraão finalmente se entendiam como irmãos, após séculos de encarniçado ódio. Ismael e Isaac se estreitavam em infinito abraço; Caim, Abel e Set partilhavam o banquete da paz. Moisés, Jesus e Maomé sorriam.

E depondo suas armas, te libertavam do cruel jugo em que tanto sofres. Amando uns aos outros, te libertavam. Renunciando a toda paixão possessiva, se encontravam juntos sob a reluzente tenda de Melquisedec.

Mais uma vez eras Salém, a simples, humilde e hospitaleira Salém. Rejuvenescida, revigorada, renovada, resplandecias para todos os povos da Terra, como sonhava Salomão. Todos aqueles que amam se encontravam em ti, em Espírito e Verdade.

Salém, três vezes santa, muitas vezes santa, acolhias crentes e descrentes. Tua luminosa tenda era um santuário de paz, um sagrado recinto onde ninguém ousaria derramar o sangue do irmão.

Mais uma vez governada pelo sábio, misterioso Melquisedec, acolhias todos aqueles fatigados das guerras, dos prantos e do ranger de dentes.

Sob o cetro de Melquisedec, a amorosa e zelosa hospitalidade se tornava tua primeira e única lei. Eras verdadeira e plenamente a Terra Prometida, onde não mais se ouviam os ecos das espadas, lanças, flechas ou canhões. Soava apenas um silencioso cântico de paz, murmurado em cada coração.

Sonho acordado, bem sei, Jerusalém. Mas o sonho é irmão da esperança, e a esperança é mãe de milagres.

Segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia, se aproxima o dia de tua libertação, Jerusalém...

Inspirado pela Águia de Patmos e por Victor Hugo; dedicado a Priscila, minha Sara

Encontro de Melquisedec e Abraão; pintura atribuída a Peter Paul Rubens (séc. XVII)


domingo, 11 de outubro de 2020

segunda-feira, 16 de março de 2020

Nasrudin e a peste

Ia a Peste a caminho de Bagdá quando encontrou Nasrudin. Este perguntou-lhe:

- Aonde vais?

A Peste respondeu-lhe:
- Bagdá, matar dez mil pessoas.

Depois de um tempo, a Peste voltou a encontrar-se com Nasrudin. Muito zangado, o mullah disse-lhe:
- Mentiste-me. Disseste que matarias dez mil pessoas e mataste cem mil.

E a Peste respondeu-lhe:
- Eu não menti, matei dez mil. O resto morreu de medo.

Conto da tradição sufi.


quinta-feira, 31 de março de 2016

O véu, a nudez e o erotismo



Foto muito interessante, para além de suas conotações meramente políticas. 

A palavra revelar (do latim velum, "véu") tem uma ambiguidade curiosa, à medida que remete tanto ao que se mostra removendo o véu quanto àquilo que se percebe através do véu, especialmente de seus volumes. Todo véu oculta algo e exibe outra coisa ao mesmo tempo. Há um poema espetacular de Victor Hugo em que ele explora essa ambiguidade, no que tange à revelação religiosa. 

Nesse sentido, qualquer roupa "revela" alguma coisa e se torna passível de algum grau de decodificação erótica, me parece. Me faz lembrar uma passagem de Montaigne, onde ele falava justamente sobre a erotização do que se furta ao olhar, a cotejar a outra passagem, de Jean de Léry, em que ele salientava/defendia que a nudez das índias era muito mais despida (trocadilho) de erotismo que as vestimentas das europeias (ressoando, obviamente, os conceitos de decência enfatizados pela Reforma). 

Mais ainda, remete à pergunta que um aluno do ensino médio me fez certa vez em sala de aula: se bikinis e lingeries (calcinha e "soutien") são praticamente a mesma coisa, por que os primeiros são considerados aceitáveis em público, e os últimos não? Na ocasião, a pergunta me pareceu curiosa, mas só consegui pensar naquela resposta banal que o estudioso de humanidades sempre utiliza quando não tem ideia: "é uma questão cultural". De qualquer forma, fiquei com a pulga atrás da orelha. De lá para cá, chego à conclusão que, para além da cultura, há também uma questão de contexto e expectativa: ambiente público (praia) x ambiente privado (quarto), perspectiva de satisfação sexual adiada ou imediata. 

Tudo isso, obviamente, envolve códigos culturais que são aprendidos desde a infância, através de vários canais de comunicação. Em suma, independentemente de qualquer mensagem política, a imagem sugere o quanto o desejo erótico, sua (de)codificação e suas im/expressões fazem parte de aprendizados culturais complexos. Ao longo de suas vidas, esses dois homens certamente aprenderam a "enxergar" o corpo feminino por baixo do véu. Um dia ainda escreverei um artigo mais detalhado sobre o tema.

P.S.: Uma amiga acaba de compartilhar a imagem abaixo, que de alguma forma tem tudo a ver com o texto acima, embora ainda não tenha ideia de como fechar as conexões... Uma imagem "monstruosa", nos vários sentidos que o termo possa ter. Culpa dos algoritmos?


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Variações sobre uma cerâmica palestina estilhaçada

Allegro, ma non troppo



Desde que ainda era um adolescente que sonhava em ser arqueólogo imagino que cada objeto,  raro ou banal, em suas singularidades, carrega em si o mundo inteiro. De lá para cá, a convicção permanece a mesma, embora minha argumentação nesse sentido tenha se tornado (um pouco) mais sofisticada...

1º movimento
Cerca de seis horas atrás, uma de minhas estantes sucumbiu ao peso dos livros, fazendo com que despencasse uma simpática cerâmica palestina, que se espatifou no chão. Catei os estilhaços, pensando em restaurá-la, mas algumas partes ficaram completamente irrecuperáveis, e as lascas são muito afiadas. Preferi jogar fora o que sobrou.



Olhando o trecho do Alcorão pintado em sua superfície, aqueles cacos de cerâmica logo me remeteram à triste situação do Oriente Médio, lembrando-me de uma notícia que acabara de ler, sobre a suposta existência de campos de treinamento do Estado Islâmico na Europa. Tenho grande simpatia pelas culturas islâmicas e suas realizações artísticas, intelectuais e espirituais, uma longa tradição inscrita em inúmeros objetos ao redor do mundo - inclusive minha humilde (e barata) cerâmica palestina. Diante de tudo que o mundo muçulmano e seus povos representam na história do mundo, a emergência do EI com sua barbárie me parece um dos episódios mais tristes da trajetória do Islã.

Nessa pequena obra de artesanato, com menos de 30cm de diâmetro, cabem muitos séculos de história, a começar pelo texto corânico, elaborado há cerca de 1.400 anos, verdadeiro ponto de partida de toda uma cultura - seu fiat ou seu big bang, como preferir. Por sua vez, o texto manuscrito sobre a cerâmica também remete a uma tradição secular do Islã, a arte da caligrafia, que por sua vez remete ao próprio Corão e seus mandamentos, enquanto expressão artística e decorativa que emergiu da proibição de representação de figuras naturais, interpretada e seguida de modo mais ou menos rígido através dos séculos, conforme tempos, lugares e pessoas. Por fim, o uso da cerâmica como suporte artístico deriva de outras circunstâncias históricas do mundo islâmico: as relações comerciais entre a Pérsia e a China durante a Idade Média, em que as tentativas de suprir às demandas por porcelana do mercado chinês levaram os artesãos persas a produzirem peças que inicialmente buscavam imitar as tradições da porcelana chinesa, mas logo começaram a se desenvolver como estilo artístico autônomo com suas próprias convenções, se espalhando desde então pelo mundo islâmico e dando lugar a inúmeras ramificações estéticas, inclusive influenciando as técnicas aplicadas sobre outros suportes que não a cerâmica.

Poderíamos prolongar indefinidamente essas linhas pontilhadas rumo ao passado, a épocas tão recuadas como o surgimento do monoteísmo abraâmico, as primeiras experiências de elaboração da escrita no mundo mediterrâneo, a formação das línguas semíticas, a invenção da cerâmica na Pré-história, ou mesmo o domínio do fogo, necessário à cocção da argila... Poderíamos mesmo ir até as fusões nucleares que, há bilhões de anos, em alguma estrela distante, há muito extinta, originou os átomos componentes do barro empregado em sua confecção.


2º movimento
Com um pouco de imaginação, percebemos que nas exíguas dimensões materiais desse objeto se acumulam inúmeras camadas de história, múltiplas dimensões de experiências religiosas, tecnológicas, comerciais e artísticas, o esforço de milhares - talvez milhões - de seres humanos, convergindo, se precipitando e se comprimindo sobre esse ínfimo artefato, como que em inúmeras circunvoluções, espécie de espiral onde cada volta se conforma à anterior e condiciona a próxima, sempre de modo irregular e imprevisível.

Até aqui falamos apenas das dimensões meramente materiais inscritas nesse objeto durante seu processo de fabricação, visíveis a olho nu. Todavia, creio, poderíamos explorar ainda o imenso conjunto de relações que mediaram sua existência. Me pergunto, em primeiro lugar, quem terá sido o artesão que o produziu: um homem? Uma mulher? De qual idade? Gosta de praticar caligrafia e decorar cerâmicas? Foi trabalho de apenas um artesão ou foi executado através de tarefas divididas - digamos, alguém decorou as bordas e outras pessoas produziram a caligrafia, aplicaram o esmalte, levaram ao forno...? Será que o artesão recebeu paga digna por seu serviço? Ficou satisfeito com a remuneração? Onde, exatamente, se localiza a oficina onde o trabalho foi executado? Quantos parentes esse trabalhador já perdeu no conflito palestino-israelense? Será um muçulmano profundamente fervoroso ou a caligrafia é apenas um meio de vida?

Vale também pensar em todas as relações que intermediaram sua produção e comercialização, desde a matéria-prima até o consumidor final (eu). Onde foi fabricada a tinta ou produzida a cerâmica? Imagino que a resposta para ambas perguntas seja "China"; dado o panorama global, aposto que, no mínimo, algum trecho da cadeia produtiva tenha passado pelo parque industrial chinês, de alguma maneira revertendo, subvertendo ou convertendo o próprio circuito comercial entre o Catai e o mundo islâmico que tanto influenciou a formação da arte ceramista muçulmana na Idade Média - outra volta na espiral do tempo.

Por fim, o trajeto entre Palestina e Brasil percorreu de navio ou avião algum dos inúmeros itinerários do atual comércio global, envolvendo, imagino, alguma agência de importação e um comerciante varejista, chegando a mim. Para fechar essa cadeia, vale indagar que experiências de vida condicionaram minha relação de consumo com esse objeto. Se a memória me serve bem, acho que o momento definidor dessa aquisição casual se deu há cerca de 21 anos, quando, ainda no primeiro segmento do Ensino Fundamental, eu enfrentava dificuldades com os problemas mais elementares da Álgebra apresentados por Tia Leila, minha professora. Um parêntese: na época, obviamente, eu ignorava que se tratava de Álgebra - era uma questão de "achar o valor do quadradinho". Tentando me incentivar a superar essas dificuldades, minha mãe pegou emprestado (com quem?) o encantador livro O homem que calculava, do igualmente encantador Malba Tahan (pseudônimo do escritor e professor de Matemática Júlio César de Melo e Souza). O livro narra as aventuras do brilhante, talentoso e generoso calculista Beremiz Samir, situadas na Pérsia medieval - mais ou menos na época em que as cerâmicas etc etc. Essa leitura foi decisiva no sentido de despertar meu encantamento pelo mundo islâmico, desde então aprofundado por muitas leituras de Malba Tahan e outros autores, culminando na aquisição de inúmeros artefatos artesanais - como a dita cerâmica.

Mas voltemos à Tia Leila e à Álgebra... Convém notar que a bendita Álgebra, como indica a própria etimologia, também nos relaciona diretamente ao Islã medieval, à medida que seus princípios de notação e formalização foram elaborados no mundo muçulmano, com grande destaque para o fervilhante ambiente intelectual de Bagdá... capital da Pérsia. É curioso reparar que, também o nome "Leila" é de origem árabe - apenas uma coincidência divertida. Aliás, seu marido é o Tio Taje, nome de origem indiana - um casal indo-arábico, como os algarismos e a própria Álgebra. Recapitulando: Tia Leila me conduziu à Álgebra, que me conduziu a Malba Tahan, que me conduziu à cultura islâmica, que me conduziu a comprar uma cerâmica Palestina, que se quebrou algumas horas atrás.

E tudo isso me traz lágrimas aos olhos, porque meu sogro também se apaixonou por Malba Tahan alguns anos atrás, quando lhe emprestei O homem que calculava, mas infelizmente ele não se encontra mais entre nós há alguns meses. Lágrimas secas, prossigamos.

Aproveito para notar que até hoje mantenho contato com a Tia Leila, e até aprendi a gostar da Álgebra, embora, definitivamente, ela não goste de mim. Também essas relações, tão pessoais, com a Tia Leila, com Tio Taje, com minha mãe, com meu sogro, de algum modo, acabaram se intrometendo na cerâmica, no momento mesmo em que escrevo esse texto.

3º movimento
Algumas horas atrás... cerâmica... lascas... irreparável, etc. Catei a cerâmica com vassoura e pá de lixo. Para não machucar o gari, resolvi embrulhar os cacos numa caixa de pizza que acabara de consumir, semelhante a essa aqui:

 


Como você pode ver, a caixa (e a pizza) eram da franquia Domino's, uma das maiores redes de fat, digo, fast food do mundo (globalizado, please). É no mínimo irônico que, no fim das contas, os cacos de cerâmica palestina tenham ido parar dentro de uma embalagem que representa o poderio econômico dos Estados Unidos da América, o principal antagonista do mundo islâmico na atualidade e, pior ainda, o maior aliado do Estado de Israel que tanto vem oprimindo os palestinos - inclusive os artesãos que produziram o artefato em questão. Veja bem: uma peça de cerâmica que, como vimos, representa tanto a arte quanto a religião islâmica, com versos corânicos pintados em sua superfície! Uma ironia nada banal, inclusive porquê reúne vários opostos: o refinamento artístico e a mais que mundana junk food; o Islã que tanto preza o jejum e a glutonaria capitalista; o tabu islâmico quanto à carne de porco e as rodelas de pepperoni; a singularidade do artesanato manual e a embalagem produzida em massa; o sagrado, artístico e religioso, contra o profano, capitalista e pequeno-burguês; coração contra estômago.

Ainda aqui há espaço para outro desvio. Eu e minha esposa não nos tornamos clientes da Domino's no Brasil, mas em Paris, onde boa parte dos entregadores que nos atendiam eram de origem magrebina. Um deles, por sinal, muito simpático, vendo que o aparelho de cobrança em débito automático não conseguia sinal para executar a operação financeira, me ensinou um grigri, forma de magia simpática popular do Magreb, que, segundo ele, era infalível para remediar o funcionamento de aparelhos eletrônicos teimosos. Servia até, me disse, para interferir magicamente no resultado do jogo de futebol do time do coração transmitido pela TV, bastando executar o grigri bem próximo da tela! Tudo isso é ainda mais interessante porque con-juga, de novo, sob outros ângulos, capitalismo e Islã, magia e tecnologia, sagrado e profano. E, não nos esqueçamos, em Paris, atual epicentro desse conflito que se desenrola há pouco mais de uma década em diversos pontos do mundo.

Voltemos à caixa da Domino's. Ao lado da logomarca da franquia, vemos a silhueta do Cristo Redentor, mobilizando a imagem do ponto turístico carioca para promover a marca americana. Mas não é apenas isso. Se trata do Cristo, outra imagem religiosa, constituindo assim outra con-jugação inesperada, quiçá indesejável, entre sagrado e profano. Aliás, o Cristo Redentor foi originalmente construído, 84 anos atrás, pela comunidade católica do Rio de Janeiro, não como obra decorativa ou potencial atração turística, mas como símbolo da fé católica no Rio, então capital do Brasil. Naquela época, o estado no Brasil era ainda menos laico que nos dias atuais, e assim o Cristo nos remete a ainda outra dimensão do conflito entre sagrado e profano que perpassa toda essa reflexão. Por fim, a representação figurada de Jesus Cristo certamente se choca com a religiosidade islâmica, muitas vezes refratária à representação da figura humana, e ainda mais das figuras sagradas - lembrando que Jesus também é reverenciado pelo Islã, como último profeta anterior a Maomé. Temos então a tensa proximidade entre duas representações artísticas do sagrado (a caligrafia islâmica e a imagem cristã), amplificada pelo choque entre ambas e a profanidade comercial do delivery do fast food.

Outro parêntese interessante, dessa vez sobre o Brasil e  o Islã. Outro encontro inusitado. Em Granada, ao pé da Alhambra, eu minha esposa conhecemos um curioso comerciante marroquino, figura ímpar, que nos confidenciou ser apaixonado pelo infame Casos de Família, programa popularesco produzido pelo SBT e exibido em algum canal espanhol. A conversa se prolongou de modo animado e caloroso, e no fim das contas, com genuína hospitalidade e liberalidade muçulmana, ele nos presenteou com diversos brindes, inclusive um blend artesanal de ervas para um chá poderosíssimo para a fertilidade. Outras tantas convergências inesperadas entre os mundos da magia e das onipresentes tecnologias que movem esse mundo globalizado, onde a devoção islâmica e o barraco à brasileira convivem lado a lado.

Sim, caro leitor, você já está cansado de ler e eu, confesso, cansado de escrever; façamos, porém, ainda um esforço. A cerâmica se quebrou e os cacos foram embalados na caixa de papelão da pizzaria. Mas isso ainda poderia provocar um acidente com o gari, caso a caixa se abrisse. Tomei, então, uma precaução extra: embalei a caixa (e os estilhaços) em duas sacolas plásticas de supermercado; o embrulho se encontra agora no chão de minha cozinha, ao lado de algumas garrafas pet vazias de Coca-Cola (outros símbolos da cultura capitalista, mas já explorei esse ponto à exaustão). Eu poderia aprofundar o fato de que tanto as sacolas quanto as garrafas são derivados de petróleo, que, por sua vez, é constituído por vestígios de cadáveres de dinossauros e outras espécies pré-históricas há muito tempo em decomposição, lembrando o quanto isso remete ao debate entre criacionismo e evolucionismo, mas vou deixar essa para algum paleontólogo de plantão. Fiquemos apenas com o petróleo, matéria-prima fetiche de nossa época, motor de conflitos muito mais sérios que a infindável litania sobre criacionismo e evolucionismo (que me perdoem ateus e evangélicos, que adoram essa discussão já tão puída). Para resumir, a cerâmica palestina e a caixa da Domino's se encontram agora dentro de duas sacolas produzidas com petróleo, o próprio combustível dos amargos conflitos do Oriente Médio, conflitos esses que estilhaçaram o estado iraquiano, permitindo a emergência do EI, que tanto ultraja a herança islâmica e, para início de conversa, instigou a presente reflexão.

4º movimento
Daqui a algumas horas esses cacos de cerâmica, caixa de papelão e sacolas plásticas estarão em algum caminhão da COMLURB, a caminho de algum lixão situado na Baixada Fluminense, imagino eu. Pelo que conheço sobre degradação de materiais, é provável que a caixa de pizza seja a primeira a desaparecer, seguida pelas sacolas plásticas, enquanto a cerâmica certamente perdurará ainda por milhares de anos. Paradoxalmente, a cerâmica é extremamente vulnerável a choques, mas seus cacos são muito resistentes à degradação pelo tempo - é por isso, aliás, que elas nos ajudam a descobrir tanta coisa sobre as culturas pré-históricas. Resumindo, é perfeitamente plausível que daqui a milhares de anos um arqueólogo encontre alguns vestígios de cerâmica palestina, compondo um itinerário multissecular que nos conduz de Meca à Baixada Fluminense, passando por Bagdá, testemunhando parte da complexidade cultural tramada em nosso mundo globalizado. Me consola imaginar que quando o tempo, esse inexorável carrasco, finalmente tiver aberto todas as camadas dessa imprevisível boneca russa, o que sobrará finalmente será a melhor parte, um testemunho da busca humana pelo sublime, através da arte e da espiritualidade. Como diria a romancista Lian Hearn, "a rede do Céu é vasta, mas sua trama é sutil".

Mesmo esse texto, registrado através de milhões de impulsos elétricos codificados através de placas de circuitos integrados e de linguagem HTML constitui mais um dos giros absurdos e inusitados da espiral do tempo. De um texto a outro, separados por mais de mil anos: do Alcorão registrado pelo ilustre Profeta Maomé a esse exercício de malabarismo historiográfico garatujado por um obscuro professor de História, das ruas da Meca pré-islâmica aos subúrbios do Rio de Janeiro. Tenho apenas  frágeis rudimentos em árabe e em HTML. Por via das dúvidas, apelo para um grigri, que pode, quem sabe, conciliar esses mundos e linguagens tão diferentes, como me ensinou um jovem parisiense de ascendência magrebina a serviço de uma grande corporação americana. Desejo profundamente, por sinal, que ele não venha a sucumbir à bárbara sedução do EI e nem se torne um dos jovens treinados nesses supostos campos em solo europeu, de onde saem para um triste encontro com a morte.

Tudo isso me faz pensar no filósofo Henri Bergson, que venho lendo recentemente, e em sua noção de duração, que ainda não entendi direito; estou com sono demais para farejar mais essa pista. Pois se trata exatamente de uma caçada - como diriam os franceses, de chasses croisées, "caças cruzadas", caminhos que se encontram inesperadamente no meio do bosque selvagem - encontros como aqueles que surpreendem o viajante nos contos de fadas, nos romances de cavalaria ou nas 1001 noites. No fundo, contrariando minhas reflexões de adolescente, talvez não haja nada nos objetos, apenas aquilo que o historiador deseja caçar neles: dizia Marc Bloch, o historiador precisa ser como um ogro, sempre farejando carne humana.  Também precisa ser, creio, como Sherazade, cativando o ouvinte para sobreviver pelo menos mais uma noite, ou como Mozart, reunindo vozes e instrumentos para que, em meio à balbúrdia, sejamos enfim capazes de captar o doce trinado da flauta mágica. No final das contas, permanecendo no universo dos contos de fadas e das 1001 noites, tudo isso exige que nos tornemos fadas ou magos, capazes de conjugar e conjurar vestígios e fragmentos, como um caco de cerâmica, uma caixa de papelão ou uma sacola plástica, para transformá-los em fontes históricas - uma transmutação alquímica, outra palavrinha de raízes árabes.

Como finalizaria Malba Tahan, Alá seja louvado!

Dedico esse texto ao Seu Paulo, que me ensinou tantas lições de vida, à Tia Leila, que tentou me ensinar Álgebra, mas me tornou um escritor e à minha mãe, que me apresentou Malba Tahan

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Legados

Extrato do livro L`Anthropologie face aux problèmes du monde moderne, de Claude Lévi-Strauss

"Há dois ou três séculos, a civilização ocidental se dedicou principalmente ao conhecimento científico e suas aplicações. Se adotarmos esse critério, faremos da quantidade de energia disponível per capita o índice do grau de desenvolvimento das sociedades humanas. Se o critério fosse a aptidão para triunfar sobre meios geográficos particularmente hostis, os Esquimós e os Beduínos levariam os louros. A Índia soube melhor que nenhuma outra civilização elaborar um sistema filosófico e religioso capaz de reduzir os riscos psicológicos de um desequilíbrio demográfico. O Islã formulou uma teoria da solidariedade de todas as formas de atividade humana: técnica, econômica, social e espiritual, e sabem que lugar proeminente essa visão do homem e do mundo permitiu aos árabes ocupar na vida intelectual da Idade Média. O Oriente e o Extremo-Oriente possuem sobre o Ocidente uma dianteira de vários milênios em tudo que diz respeito às relações entre o físico e o moral, e à utilização dos recursos dessa suprema máquina que é o corpo humano. Atrasados nos planos técnico e econômico, os [aborígenes] Australianos elaboraram sistemas sociais e familiares de tão grande complexidade que para compreendê-los é necessário apelar a certas formas da matemática moderna. Podemos neles reconhecer os primeiros teóricos do parentesco.

A contribuição da África é mais complexa, mas também mais obscura, pois nós apenas começamos a compreender o papel de melting pot que ela desenvolveu no Mundo Antigo. A civilização egípcia é inteligível apenas como obra comum da Ásia e da África. E os grandes sistemas políticos da África antiga, suas contribuições jurídicas, seu pensamento filosófico durante muito tempo oculto aos ocidentais, suas artes plásticas e sua música são outros tantos aspectos de um passado muito fértil. Pensemos enfim nas múltiplas contribuições da América precolombiana à cultura material do Velho Mundo. Em primeiro lugar, a batata, a borracha, o tabaco [sic] e a coca (base da anestesia moderna), que, a diversos títulos, constituem quatro pilares da civilização ocidental; o milho e o amendoim, que revolucionaram a economia africana antes mesmo de serem conhecidos na Europa e, para o milho, de lá se espalhar; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o abacaxi, a pimenta, várias espécies de feijões, algodões e cucurbitáceas. Enfim, o zero, base da aritmética e, indiretamente, da matemática moderna, era conhecido e utilizado pelos maias ao menos meio milênio antes de sua descoberta pelos índios que o transmitiram à Europa por intermediação dos árabes. Por essa razão, talvez, o calendário maia era, em época igual, mais exato que aquele do Velho Mundo".

domingo, 31 de maio de 2015

Leituras - "Bloodlust", de Russell Jacoby

Acabo de ler Bloodlust - On the roots of violence from Cain and Abel to the present, do historiador Russell Jacoby. Trata-se de obra instigante, provocativa, e um tanto perturbadora.

Composto por quatro ensaios, o livro discute uma curiosa teoria, a de que a violência humana se canaliza principalmente para aqueles que estão mais próximos, em termos culturais, ideológicos, religiosos, etc. Segundo Jacoby, as "pequenas diferenças" causam mais ódio e violência que as "grandes diferenças". Seu ponto de partida são os mitos de Caim e Abel e dos gêmeos Rômulo e Remo, exemplos arquetípicos de disputa e assassinato entre irmãos. Ao longo dos ensaios, o historiador nos conduz através de diversos conflitos fratricidas, desde as Guerras de Religião na França quinhentista aos recentes conflitos nos Bálcãs, passando por inúmeras guerras civis e genocídios.

O argumento é muito bem desenvolvido, através de inúmeros exemplos. Como salienta Jacoby, o massacre de São Bartolomeu não foi promovido por pessoas estranhas, mas por vizinhos e parentes, gente que se conhecia e convivia cotidianamente. Da mesma forma, as comunidades judaicas na Alemanha antes do Holocausto não constituíam um povo distante e extremamente diferenciado; pelo contrário, os judeus alemães eram bem integrados, tendo desde o século XVIII assimilado os valores da cultura alemã, em relação à qual nutriam sentimentos de pertença. Por sinal, alguns dos mais virulentos antissemitas vinham de famílias judaicas convertidas mais ou menos recentemente. Outro caso curioso é o de Mohamed Atta, um dos participantes dos atentados de 11 de Setembro. Atta não era um completo estranho à cultura ocidental: era formado em Engenharia e Arquitetura, tendo defendido tese de mestrado na Alemanha. Seu ódio ao Ocidente vinha da ameaçadora proximidade, não da distância.

Mas como explicar esse perturbador paradoxo?

Jacoby propõe algumas soluções, recorrendo ao diálogo interdisciplinar, especialmente com a Antropologia e a Psicanálise. O historiador lança mão da noção de "desejo mimético", proposta pelo pensador René Girard: a proximidade cultural instigaria desejos semelhantes, promovendo e acirrando conflitos e rivalidades.

Bloodlust propõe uma reflexão curiosa, ao mesmo tempo que nos deixa questionamentos inquietantes. Um livro fascinante.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Charlie Hébdo: heróis, vilões ou vítimas?

Toda liberdade implica responsabilidade; liberdade política implica responsabilidade moral. Liberdade de expressão requer responsabilidade no uso dos meios de expressão.

Por outro lado, o humor muitas vezes é agressivo, e por vezes ofende. Como dizia o filósofo Bergson, o riso, muitas vezes, é usado como forma de violência, de ordem moral. A pessoa ou o grupo que é objeto do riso pode se sentir agredido em sua integridade moral. Quem vê as charges do Charlie Hébdo - que não terei o mau gosto de reproduzir - percebe que elas constituem uma violência moral contra todos os muçulmanos, fundamentalistas ou não, residentes na França ou em outros países.

Infelizmente, violência gera violência. Isso não justifica - ou seja, não torna justo - o assassinato dos cartunistas. Qualquer assassinato é injustificável. Qualquer violência, física ou moral, também é lamentável. No entanto, é difícil negar a relação de causa e consequência no caso em questão. Tem gente que "perde o amigo, mas não perde a piada"; a redação de Charlie Hébdo cultivava inimizades para não perder a piada - grosseira. Também são infelizmente previsíveis as consequências do caso para o aumento da islamofobia, como o cartunista Latuff sintetizou magistralmente:



Algumas pessoas querem transformar os cartunistas de Charlie Hébdo em heróis, mártires da "liberdade de expressão"; outras querem transformá-los em vilões, racistas e imperialistas. Acho que os dois lados estão errados. Na minha modesta opinião, o periódico tinha uma linha editorial moralmente irresponsável, de mau gosto e medíocre, usando o tipo de humor mais baixo e virulento a pretexto de crítica. Para mim, o atentado dessa semana não torna esse tipo de humor menos condenável; é arte de péssimo gosto - gosto de sangue.

Note-se também que, em momento algum, o semanário foi censurado pelo Estado francês - caso em que seriam, de fato e de direito, mártires da "liberdade de expressão". Charlie Hébdo usava dessa liberdade de modo abusivo, assim como os assassinos fundamentalistas usaram seu livre-arbítrio de modo abusivo.

Heróis ou vilões? Nem uma coisa, nem outra. O atentado à redação de Charlie Hébdo foi um crime grave e fez muitas vítimas, mas, por favor, não queiram transformar esses cartunistas em mártires.

Em tempo: parece que andam se esquecendo dos 2 policiais e do funcionário de manutenção mortos no tiroteio; esse são apenas vítimas, ninguém se dispondo a fazê-los mártires.

Em tempo 2: mesquitas na França estão sofrendo atos de vandalismo. É o círculo vicioso da violência.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Futebol, canibais, terroristas e nuvens

Dedicado a meu sogro e minha esposa

Por que algumas pessoas matam por futebol? Porque têm fortes laços de identidade com seus respectivos clubes, passaram e passam por um radical processo de identificação (no sentido psicológico do termo). No entanto, outros torcedores – a maioria, felizmente – não seriam capazes de fazer a mesma coisa, pois não se identificam com seus respectivos clubes de modo tão extremo. Alguns torcedores, eventualmente, perdem até seus interesse pelo esporte ao longo do tempo, num processo de tendencial desidentificação – mais uma vez, no sentido psicológico.

Em cada um desses casos, temos perspectivas específicas e diferenciadas em jogo. Algumas dessas perspectivas são mais próximas ou mais distantes entre si. Mas como se forjam tais perspectivas? A partir de trajetórias específicas, tanto pessoais quanto coletivas, formuladas no tempo e no espaço – históricas, portanto. Essas trajetórias podem apontar em sentido convergente (identificação crescente) ou divergente (desidentificação crescente). Assim, a experiência de torcer (e matar) se configura a partir da trajetória pessoal e individual de cada torcedor quanto de uma trajetória coletiva e social – a história do esporte, a história do clube, a história da região, do país, do mundo, etc. Existe hoje uma Copa do Mundo e campeonatos nacionais porque a partir do século XIX tivemos tanto a emergência do esporte e do Estado-nação como os conhecemos. Assim, o torcedor assassino chega a tal perspectiva homicida através de uma trajetória que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Temos então identidade e perspectiva como processo desenvolvido no tempo e no espaço.

Nesse processo se forjam conexões mais ou menos fortes, convergentes ou divergentes, no âmbito de cada grupo. Essas identidades e alteridades se formulam em redes, de modo complementar, interdependente e dinâmico, por retroalimentação. Como uma dança complexa, onde os participantes se movimentam, determinando suas perspectivas a partir de suas posições e distâncias respectivas, sua dêixis, em perpétua mutação, às vezes imperceptível. As trajetórias se cruzam e interferem umas nas outras, momento a momento. Os ritmos da dança se alternam sem cessar. Alguns dançarinos saem, e entram outros, continuando a dança como a encontraram. Temos aí uma dimensão mereológica, fractal, onde cada dançarino é parte da dança e interfere na dança inteira. Um simples tropeço repercutirá de modo mais ou menos intenso em todo o conjunto. Como diria Sonmi-451, do filme Cloud Atlas,

“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.

Tais dinâmicas se aplicam à torcida de futebol, mas também às religiões, aos gêneros, às nações – em suma, a quaisquer identidades. Mas como se elabora no tempo uma linguagem do “nós”? Como se forma um “nós” vascaínos? Como surge um “nós” tupinambá? Como se elabora um “eles” flamenguistas ou margaiá? Por que algumas pessoas soltam pipa e outras, nascidas no mesmo bairro, fazem pós-doutorado?

No fundo, cada identidade se formula em “nuvens de probabilidades”, emergindo de situações específicas, reconfiguradas a cada compasso na melodia do tempo. Possibilidades e probabilidades se entrecruzam o tempo inteiro, gerando novas realidades potenciais, mudando trajetórias a cada interação. Esse texto mesmo emerge de vários encontros. Ele não existiria se os tupinambá não comessem carne humana, se Hans Staden não tivesse escapado da morte, se eu não fosse casado com minha esposa, se ela não fosse filha de meu sogro, se meu sogro não fosse vascaíno, se não tivessem inventado e popularizado o futebol, se não existisse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, se eu não tivesse preguiça de ir a Niterói, se eu nunca tivesse morado em Paris, se David Mitchell não tivesse escrito Cloud Atlas, se esse livro não fosse adaptado para as telas, se eu não tivesse sido covardemente reprovado em um concurso, se eu não desejasse praticar yoga, se não houvessem brigas de torcida nem atentados em Paris, se eu não sofresse de TOC. Mas esse texto emergiu dessa improvável “nuvem de probabilidades”.

Seriam todos os fatos e atos humanos o produto de uma imensa e improvável “nuvem de probabilidades” em “eterna recorrência” e mutação no tempo e no espaço, uma grandiosa e mal-coordenada coreografia de moléculas, átomos e partículas, talvez conduzidas por um regente invisível? Seria possível reunir História, Antropologia, Física, Meteorologia e Filosofia para resolver todas essas questões, para desenhar um atlas dessas nuvens?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eles

Eu tenho medo. Muito medo.


Eles são muito perigosos. Eles são violentos e cruéis. Eles odeiam nossa civilização, Eles odeiam nossos valores. Eles querem destroçar, esmagar e queimar tudo que amamos. Eles desejam matar nossos anciãos, estuprar nossas mulheres, escravizar nossas crianças. Eles sonham em dançar sobre nossos túmulos.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.


De dia, Eles perturbam meus pensamentos. À noite, Eles povoam meus pesadelos. Eu sei, eles estão lá, em seus esconderijos, planejando dia e noite como acabar conosco. Eles tramam suas teias como aranhas famintas e maldosas. Eu sei, eu sei. De dia, Eles pensam em nossa destruição; à noite, Eles sonham com nossa ruína.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.



Precisamos fazer alguma coisa, antes que Eles nos destruam. Temos que agir mais rápido que Eles, temos que atacar primeiro. É a única maneira de sobreviver, de evitar nosso fim, de preservar nossa civilização, nossas crenças, nossos valores. A guerra é a única solução contra Eles. É lamentável, eu sei, mas Eles não deixam outra escolha. Não é possível dialogar com Eles. Eles são irracionais, perversos, traiçoeiros. Alguns entre nós discordam... Cegos... Sonhadores... Traidores! A guerra é terrível, mas necessária. Quem não está conosco, está com Eles, está contra nós. Contra Nós!


Por que Eles nos odeiam tanto?

Imagens: Detonação da bomba de Hiroshima (1945); Massacre de São Bartolomeu (Paris, 1572); Holocausto; Cruzadas; Perdas territoriais palestinas; Atentados do 11 de Setembro (2001)

sábado, 6 de julho de 2013

"Não há tormento maior do que ser cego em Granada"

Texto de Carlos Fuentes em O espelho enterrado



"Ao se iniciar o declínio do poder árabe na Espanha, depois da derrota de Navas de Tolosa em 1212, e depois da queda de Sevilha ante o ataque de Fernando III de Sevilha - são Fernando - em 1247, apenas uma terceira grande cidade sobreviveu para conservar esta herança: Granada. Foi este o reino final, que presidiu o crepúsculo da Espanha árabe, entre 1248 e 1492. Mas quando, hoje, nos aproximamos da cidade, devemos imaginar que um dia, ali, não houve nada além do vale, do rio e das montanhas da Serra Nevada. Ali encontraram repouso os povos errantes do deserto, e ali decidiram construir um jardim cuja beleza não pudesse comparar-se com nada deste mundo. É como se houvessem ouvido a voz de Deus, lhes ordenando: construí aqui, à luz das tochas, um palácio, e chamai-o Alhambra, que significa 'a cidadela vermelha'.






Talvez somente um povo que houvesse conhecido a sede do deserto pudesse ter inventado esse extraordinário oásis de água e sombra: uma sucessão de portas e torres, salas e pátios conferem à Alhambra um sentido tanto de recolhimento como de recreio, como se todos os prazeres do mundo pudessem estar ali representados, ao alcance da mão. Rodeada por um cinturão de muralhas - muro da Justiça, muro do Vinho - e vigiada pelas torres da Cativa e da Homenagem, de Comares e de Alcazaba, a Alhambra é um labirinto de nobres aposentos, onde até as sombras são douradas. A sala de audiências do Mexuar, com seu desenho de azulejos que parece seguir a assombrosa regularidade, harmonia e surpresa de uma fuga de Bach; o sentido íntimo alcançado pelo luxo na graça da alcova das duas irmãs; a perspectiva cinzelada do salão dos embaixadores; a sensação de estar preso num cárcere doce como um favo de mel, de onde ninguém quereria fugir - ali há tanto um harém como um serralho - subitamente se defrontam com sua própria essência num dos poemas escritos nos arcos do mirante, o belvedere que dá para os jardins do palácio: "Creio que a lua cheia tem aqui seu lar..."











Finalmente, chega-se à conclusão de que esta rede de filigrana, estuque, favos dourados, azulejos e inacreditáveis perspectivas  tem somente um propósito, que é o de proteger a água, capturar um sorvo de líquido na palma da mão, rodear o elemento da vida com uma defesa acariciante, protetora e, no entanto, aberta. Os pátios incomparáveis da Alhambra são como templos da água: as esbeltas colunas do pátio de murtas são tão protetoras quanto os 12 leões que circulam nele; mas, durante o dia, e mesmo de noite, chega-se a compreender que é a fusão e a coexistência constante de todas as gradações do tempo e da natureza - luz, sombra, ar, terra, sol, lua - o que realmente protege o coração da Alhambra: seus lagos, suas fontes, seus desaguadouros.










Não apenas a água murmura nos jardins da Alhambra. Uma vez que o Corão desaprova a representação do corpo humano, a Alhambra se converteu num edifício escrito, um corpo revestido de literatura, contando suas histórias e recitando seus poemas conforme as inscrições de suas paredes. Uma espécie de grafite celestial, em que a voz de Deus volta a ser líquida e onde os prazeres da arte, da inteligência e do amor podem ser desfrutados. Não é de admirar que um poema do escritor mexicano Francisco de Icaza haja penetrado no mundo anônimo dos provérbios que descrevem esta cidade: 'Não há tormento maior do que ser cego em Granada'".