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Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Armadilhas da interpretação

Comentário adaptado de uma discussão com amigos acerca de um texto atribuído a Richard Wagner por um antigo periódico brasileiro

Sobre o (suposto) pensamento de Wagner, convém cautela com os anacronismos e juízos de valor na análise das fontes. Antes de tudo, me chama atenção o fato de que o texto em questão é sobre a música, não sobre a mulher. Acho complicado pensar essa passagem desconsiderando o contexto mais amplo da "mística" wagneriana - tema controverso entre os próprios especialistas na obra wagneriana, segundo suas respectivas vertentes. 

A produção operística de Wagner é uma das mais complicadas, em termos de interpretação, tendo em vista a variedade de camadas de significados e simbolismos que o compositor atribuiu a suas obras ao longo da carreira, bem como o emaranhado constituído por suas concepções quase religiosas em torno da Arte, como bem explora o historiador Karl Schorske em magnífico ensaio onde coteja as respectivas trajetórias do compositor alemão e do artista visual William Morris.

Às vezes nos concentramos em frases e trechos mais escandalosos e perdemos de vista o resto - e isso me parece arriscado em termos de hermenêutica. No caso em apreço ainda entrariam em questão a seleção operada pelo periódico brasileiro, e as especificidades da tradução. Enfim, ranzinzices metodológicas - todavia, sempre necessárias
. 
Convém ainda considerar a questão da recepção - como uma leitora brasileira de 1907 interpretaria o texto?


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Zauberflöte

 Toda síntese envolve alguma medida de conciliação. Dialética é alquimia. Apenas ouvidos atentos conduzem a conflagrada orquestra à convergência sublimada. A flauta mágica aceita apenas o sopro do coração.



quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Bad taste

BART - Pai, desliga esse rádio ou muda de estação!
HOMER - Mas, Bart, esses são os grandes clássicos do Rock!
BART - Pai, nós somos a geração com o PIOR GOSTO MUSICAL DA HISTÓRIA!!!

Sem falar na cafonice dos figurinos.

domingo, 21 de junho de 2020

Fantásticos mundinhos



Parecem colinas nevadas na Patagônia, mas é apenas o congelador do meu freezer.

Quando eu era criança ficava imaginando que existia um povo "selvagem" vivendo nos buraquinhos da máquina de lavar da minha avó. Meu sonho era encolher para visitá-los. 

Era uma daquelas máquinas antigas, com tampa fechada de aço, então eu ficava imaginando que eles se escondiam quando a gente abria a tampa e saíam quando a gente fechava. Às vezes eu abria a tampa de supetão para flagrá-los. 

A imaginação infantil é uma coisa extraordinária. E minha criança interior segue bem viva, felizmente. 

Talvez por isso eu goste tanto de "Toujours", da cantora Zaz:

J's 'rai toujours la môme des chemins
La meilleure copine des lapins
La petite fille des herbes folles
Qui s'casse la gueule et qui rigole

J's 'rai toujours la môme des fougères
La gamine qui joue dans la terre
La petite fille aux papillons
Qui s'pique aux pics des hérissons

J's 'rai toujours la môme des sauterelles
La bonne copine des coccinelles
La petite fille des chants d'oiseaux
Qui s'cache au milieu des roseaux

J's 'rai toujours la môme qui courait
Dans les champs jusqu'à la forêt
Dans les rangées de tournesols
Qui s'casse la gueule et qui rigole

Au milieu d'une foule compacte
Des bousculades et des carrefours
De la fenêtre de mon appart'
Et à l'horizon des tours

Dans les heures de pointe du métro
Des secousses et des aiguillages
Dans le miroir d'un rétro
Au milieu des embouteillages

Dans le sérieux des opinions
Des arguments et stratégies
D'emploi du temps en réunion
Si c'est de ça qu'il s'agit

Des sacs à refaire mes affaires
De mes bagages enregistrés
Entre les décalages horaires,
De mes départs, mes arrivées

J's 'rai toujours la môme des chemins
La meilleure copine des lapins
La petite fille des herbes folles
Qui s'casse la gueule et qui rigole

J's 'rai toujours la môme des fougères
La gamine qui joue dans la terre
La petite fille aux papillons
Qui s'pique aux pics des hérissons

J's 'rai toujours la môme des sauterelles
La bonne copine des coccinelles
La petite fille des chants d'oiseaux
Qui s'cache au milieu des roseaux

J's 'rai toujours la môme qui courait
Dans les champs jusqu'à la forêt
Dans les rangées de tournesols
Qui s'casse la gueule et qui rigole

Sur les trottoirs d'un autre monde
Au pied des mêmes quartiers d'affaires
Des bouts de couloirs qui se confondent
À la mémoire de mes passages éclairs

De mes chambres d'hôtels trop chics
Des taxis jusqu'aux halls de gares
Des longs tunnels périphériques
Des avenues et des boulevards

Au bord des vertiges et des gratte-ciels
Des rendez vous, des bavardages
Dans les grandes villes, sans l'essentiel
Quand le béton me met en cage

De mes jours à côte de la plaque
Comme étrangère et sans repère
À me réfugier dans les parcs
Pour faire semblant de prendre l'air

J's 'rai toujours la môme des chemins
La meilleure copine des lapins
La petite fille des herbes folles
Qui s'casse la gueule et qui rigole

J's 'rai toujours la môme des fougères
La gamine qui joue dans la terre
La petite fille aux papillons
Qui s'pique aux pics des hérissons

J's 'rai toujours la môme des sauterelles
La bonne copine des coccinelles
La petite fille des chants d'oiseaux
Qui s'cache au milieu des roseaux

J's 'rai toujours la môme qui courait
Dans les champs jusqu'à la forêt
Dans les rangées de tournesols
Qui s'casse la gueule et qui rigole

J's 'rai toujours la môme des chemins
La meilleure copine des lapins
La petite fille des herbes folles
Qui s'casse la gueule et qui rigole

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Sou Mestre, não és nada

"Mein ist das Wort und das Wort ist das Wissen.
Das Wissen ist Macht und Macht ist entrissenes Recht...

Denn ich bin dein Meister
Denn ich bin dein Meister
Ja, ich bin dein Meister
Und du bist nichts
Denn ich bin dein Meister
Denn ich bin dein Meister
Ja, ich bin dein Meister
Und du bist nichts
Nichts als mein Knecht!"

Trecho da canção Denn ich bin der Meister, do álbum Zaubererbruder, da banda ASP, baseado no encantador clássico infanto-juvenil Krabat, de Ottfried Preussler. Seguem minha vexaminosa tradução e a canção propriamente dita: 

"Minha é a palavra e a palavra é saber.  Saber é poder e poder é direito usurpado.../Então sou teu Mestre/Então sou teu Mestre/Sim, sou teu Mestre/ E não és nada/.../Nada senão meu servo".


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

-Eu não curto muito música clássica [sic], só para relaxar quando estou estressado...
-Você não estaria confundindo Ravel com Rivotril?

terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame: Eternidade em chamas

Notre-Dame é a estrela mais brilhante da Cidade Luz. Que tristeza vê-la fulgurando à infernal luz das chamas!

Notre-Dame é um universo inteiro, povoado de santos, anjos, demônios, gárgulas e quimeras. De suas torres, parece que o próprio Céu, capturado pelos construtores, é apenas um pano de fundo para suas magníficas formas - o Infinito reduzido a detalhe arquitetônico.

Suas rosáceas eram verdadeiros tratados de teologia medieval, dizia Roy Wagner. Victor Hugo considerava a catedral inteira um livro escrito a muitas mãos.

Dentro da nave, a luz filtrada pelas janelas e vitrais criava um ambiente difícil de descrever: aconchegante, misterioso e um tanto claustrofóbico. Um espaço gigante, ínfimo e paradoxal. Na nave de Notre-Dame me sentia respirando num Outro Mundo ou, quem sabe, num Mundo Outro.

Como um ser vivo, aquela catedral tinha uma voz. Respirava, cantava e orava através de seu órgão, um dos melhores e mais antigos do mundo.

Notre-Dame de Paris não parecia uma obra medieval. Eu acreditaria se me dissessem que estava ali desde o princípio dos tempos, construída por anjos ou demônios, descida inteira do mais alto dos céus ou emersa dos mais profundos infernos. Sua beleza fascinante e terrível, certamente, não é deste mundo.

Ainda não se sabe ao certo o que sobreviveu ao incêndio de hoje. Os vitrais certamente estão perdidos. A espectral luz de sua nave nunca mais será a mesma. Talvez seja igualmente espectral e fascinante, mas será outra. O órgão, ora mudo, talvez seja restaurado, mas sua voz será outra, sua acústica foi irremediavelmente perdida.

Notre-Dame persistirá, bela mesmo em sua catástrofe, como mater dolorosa. Mas o mundo perdeu hoje um pedaço de Eternidade...


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Ser música

"People are obscenities. Would rather be music than be a mass of tubes squeezing semisolids around itself for a few decades before becoming so dribblesome it'll no longer function".
Robert Frobisher [David Mitchell, Cloud Atlas]

Eu me sentiria provavelmente contente em ser Crisantemi, de Puccini...


quarta-feira, 1 de março de 2017

Sonoridade, movimento e identidades indígenas

Extrato de Warfare and shamanism in Amazonia, de Carlos Fausto:

Um das impressões mais fortes que retenho da relação entre o velho e o novo é o contraste entre o visual e o auditivo. Logo depois do contato [nos anos 70 e 80], os Parakanã abandonaram suas marcas corporais distintivas (corte de cabelo e adorno labial), substituindo-os com roupas e bonés. Eles também adotaram novos objetos: rifles e panelas de alumínio, sem falar em machados e facões. Eles pararam de construir uma casa comunal única e levaram anos tentando persuadir a Funai a construir para eles casas retangulares com paredes de tábua, chão de cimento e telhados de compensado. No entanto, quando a noite cai e apenas as silhuetas das pessoas podem ser distinguidas, palavras faladas ou cantadas preenchem um espaço antes inimaginável. Foi então que alimentei meu desejo de ver um mundo diferente de minha própria realidade cotidiana.

Muitos daqueles que trabalharam com povos Tupi-Guarani provavelmente tiveram essa experiência. Sua resiliência cultural não é investida em marcas espaciais ou corporais, mas principalmente na fala, música e dança. A valorização do universo auditivo contrasta com certa desatenção pelo visual. As formas através das quais pessoas e coisas são mostradas não são objeto de nenhum forte investimento emocional ou prazer estético. Isso frequentemente aborrece visitantes brancos, esperando um encantado mundo visual e comunicação fácil em português, duas coisas que os Parakanã não podem oferecer. Consciente disso, me esforcei para aprender a língua e as canções e para participar de rituais sempre que possível. Esse foi meu ponto de entrada na vida Parakanã: dançando e cantando para homens, mulheres e crianças. Embora minhas performances não fossem mais que toleráveis, as pessoas sempre eram generosas em seus julgamentos.

sábado, 19 de setembro de 2015

O paraíso por R$ 15,00

Essa semana, ouvindo o primeiro livro de Prelúdios de Débussy, me veio a vívida recordação de um dos momentos mais felizes da minha vida.

Era setembro ou outubro de 2001. Por apenas R$ 15,00 comprei entradas para um recital de piano no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.  Execução integral do primeiro livro de Prelúdios: La fille aux cheveux de lin, Des pas sur la neige, Ce qu`a vu le vent d`ouest, Les collines d`Anacapri, La sérénade interrompue etc. Não lembro quem era o pianista (só caçando o programa no meio da minha bagunça), mas era excelente, daqueles que não apenas executa, mas interpreta.

Era um fim de tarde primaveril. A luz crepuscular atravessava os vitrais do foyer, compondo uma espectral penumbra luminosa. Uma catedral profana. As peças seguiam, me transportando para todos aqueles lugares mágicos sonhados por Débussy. Um desses momentos estranhos em que todos os detalhes casuais parecem delicadamente arranjados.

Me sentia ligeiramente sonolento, entregue, no sentido mais profundo, à fruição da música. Uma experiência única de êxtase contemplativo. O tipo de experiência tão única que não se repete outra vez na vida. Nunca. O gênero de vivência cuja descrição será sempre superficial, e cujo significado profundo será sempre impossível de comunicar. Algo que transcende a expressividade dos poemas, a eloquência das imagens e mesmo, paradoxalmente, o próprio êxtase musical. Naquele dia, eu escutava algo além da música, algo que transcendia e atravessava o próprio Débussy que compusera aquelas peças....

Nenhuma outra execução dos Prelúdios, em qualquer outra luz crepuscular, fosse mesmo um lindo crepúsculo veneziano, me levaria da mesma maneira ao encontro da moça de cabelos de linho, sentir aquele cansaço de um andarilho na neve ou a força arrebatadora do vento do oeste.

Tudo isso por R$ 15,00...

sábado, 12 de setembro de 2015

Livros queimados e outros atos de barbárie

Extrato do discurso do Capitão Beatty no visionário Fahrenheit 451, clássico de Ray Bradbury, que em 1953 imaginava um futuro onde a função dos bombeiros (firemen) não seria apagar incêndios, mas queimar livros...

"Todo bombeiro, cedo ou tarde, passa por isso. Eles só precisam compreender, saber como as rodas giram. Precisam conhecer a história de nosso ofício. Essa história não é contada para os recrutas, como costumavam fazer. Uma grande lástima. [...] Hoje, só os bombeiros-chefes se lembram disso. [...]

Você pergunta: quando tudo começou, esse nosso trabalho, como surgiu, onde, quando? Bem, eu diria que ele realmente começou por volta de uma coisa chamada Guerra Civil, embora nosso livro de regras afirme que foi mais cedo. O fato é que não tivemos muito papel a desempenhar até a fotografia chegar à maioridade. Depois, veio o cinema, no início do século vinte. O rádio. A televisão. As coisas começaram a possuir massa. [...]

E porque tinham massa, ficaram mais simples. [...] Antigamente, os livros atraíam algumas pessoas, aqui, ali, por toda parte. Elas podiam se dar ao luxo de ser diferentes. O mundo era espaçoso. Entretanto, o mundo se encheu de olhos, cotovelos e bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. O cinema e o rádio, as revistas e os livros, tudo isso foi nivelado por baixo, está me acompanhando? [...]

Imagine o quadro. O homem do século dezenove com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século vinte, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tablóides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante. [...]

Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você finalmente pode ler todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta até o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais. [...]

Acelere o filme, Montag, rápido. Clique, Fotografe, Olhe, Observe, Filme, Aqui, Ali, Depressa, Passe, Suba, Desça, Entre, Saia, Por Quê, Como, Quem, O Quê, Onde, Hein?, Ui! Bum! Tchan! Póin, Pim, Pam, Pum! Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo! [...]

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas? [...] O zíper substituiu o botão e o homem não tem muito tempo para pensar ao se vestir pela manhã; uma hora filosófica e, por isso, melancólica. [...] A vida se torna um grande tombo de bunda no chão, Montag; tudo é pum, rá e uau! [...]

Tirar tudo dos teatros, exceto os palhaços, e instalar nas salas paredes de vidro e nelas fazer passar muitas cores alegres, como confetes, sangue, vinho tinto ou branco. Você gosta de beisebol, não gosta, Montag? [...] Mais esporte para todos, espírito de grupo, diversão, e não se tem de pensar, não é? Organizar, tornar a organizar e superorganizar super-superesportes. Mais ilustrações nos livros. Mais figuras. A mente bebe cada vez menos. Impaciência. Rodovias cheias de multidões que vão pra cá, pra lá, a toda parte, a parte alguma. Os refugiados da gasolina. Cidades se tornam motéis, as populações em surtos nômades, de um lugar para o outro, acompanhando as fases da lua, vivendo esta noite no quarto onde você dormiu hoje até o meio-dia e eu a noite passada. [...]

Agora tomemos as minorias de nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos, dos médicos, advogados, comerciantes, patrões, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, gente do Brooklyn, irlandeses, imigrantes do Oregon ou do México. Os personagens desse livro, dessa peça, desse seriado de tevê não pretendem representar pintores, cartógrafos, engenheiros reais. Lembre-se, Montag, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos. Autores cheios de maus pensamentos, tranquem suas máquinas de escrever! Eles o fizeram. As revistas se tornaram uma mistura insossa. Os livros, assim diziam os malditos críticos esnobes, eram água de louça suja. Não admira que parassem de ser vendidos, disseram os críticos. Mas o público, sabendo o que queria, com a cabeça no ar, deixou que as histórias em quadrinhos sobrevivessem. E as revistas de sexo em 3D, é claro. Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profisssionais.

-Sim, mas onde entras os bombeiros nisso tudo? - perguntou Montag.

-Ah - Beatty inclinou-se, varando a rala névoa de fumaça de seu cachimbo. - Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra "intelectual", é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente "brilhante", era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles, nem por um minuto. E assim, quando as casas finalmente se tornam à prova de fogo, no mundo inteiro [...], já não há mais necessidade de bombeiros para os velhos fins. Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação de nosso compreensível e legítimo senso de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu. [...]

Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: O que queremos nesse país, acima de tudo? As pessoas querem ser felizes, não é certo? Não foi o que você ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que diz todo mundo. Bem, elas não são? Não cuidamos para que sempre estejam em movimento, sempre se divertindo? É para isso que vivemos, não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão. [...]

Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do Pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo. [...]

Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com "fatos" que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente "brilhantes" quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido".

sábado, 10 de janeiro de 2015

Futebol, canibais, terroristas e nuvens

Dedicado a meu sogro e minha esposa

Por que algumas pessoas matam por futebol? Porque têm fortes laços de identidade com seus respectivos clubes, passaram e passam por um radical processo de identificação (no sentido psicológico do termo). No entanto, outros torcedores – a maioria, felizmente – não seriam capazes de fazer a mesma coisa, pois não se identificam com seus respectivos clubes de modo tão extremo. Alguns torcedores, eventualmente, perdem até seus interesse pelo esporte ao longo do tempo, num processo de tendencial desidentificação – mais uma vez, no sentido psicológico.

Em cada um desses casos, temos perspectivas específicas e diferenciadas em jogo. Algumas dessas perspectivas são mais próximas ou mais distantes entre si. Mas como se forjam tais perspectivas? A partir de trajetórias específicas, tanto pessoais quanto coletivas, formuladas no tempo e no espaço – históricas, portanto. Essas trajetórias podem apontar em sentido convergente (identificação crescente) ou divergente (desidentificação crescente). Assim, a experiência de torcer (e matar) se configura a partir da trajetória pessoal e individual de cada torcedor quanto de uma trajetória coletiva e social – a história do esporte, a história do clube, a história da região, do país, do mundo, etc. Existe hoje uma Copa do Mundo e campeonatos nacionais porque a partir do século XIX tivemos tanto a emergência do esporte e do Estado-nação como os conhecemos. Assim, o torcedor assassino chega a tal perspectiva homicida através de uma trajetória que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Temos então identidade e perspectiva como processo desenvolvido no tempo e no espaço.

Nesse processo se forjam conexões mais ou menos fortes, convergentes ou divergentes, no âmbito de cada grupo. Essas identidades e alteridades se formulam em redes, de modo complementar, interdependente e dinâmico, por retroalimentação. Como uma dança complexa, onde os participantes se movimentam, determinando suas perspectivas a partir de suas posições e distâncias respectivas, sua dêixis, em perpétua mutação, às vezes imperceptível. As trajetórias se cruzam e interferem umas nas outras, momento a momento. Os ritmos da dança se alternam sem cessar. Alguns dançarinos saem, e entram outros, continuando a dança como a encontraram. Temos aí uma dimensão mereológica, fractal, onde cada dançarino é parte da dança e interfere na dança inteira. Um simples tropeço repercutirá de modo mais ou menos intenso em todo o conjunto. Como diria Sonmi-451, do filme Cloud Atlas,

“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.

Tais dinâmicas se aplicam à torcida de futebol, mas também às religiões, aos gêneros, às nações – em suma, a quaisquer identidades. Mas como se elabora no tempo uma linguagem do “nós”? Como se forma um “nós” vascaínos? Como surge um “nós” tupinambá? Como se elabora um “eles” flamenguistas ou margaiá? Por que algumas pessoas soltam pipa e outras, nascidas no mesmo bairro, fazem pós-doutorado?

No fundo, cada identidade se formula em “nuvens de probabilidades”, emergindo de situações específicas, reconfiguradas a cada compasso na melodia do tempo. Possibilidades e probabilidades se entrecruzam o tempo inteiro, gerando novas realidades potenciais, mudando trajetórias a cada interação. Esse texto mesmo emerge de vários encontros. Ele não existiria se os tupinambá não comessem carne humana, se Hans Staden não tivesse escapado da morte, se eu não fosse casado com minha esposa, se ela não fosse filha de meu sogro, se meu sogro não fosse vascaíno, se não tivessem inventado e popularizado o futebol, se não existisse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, se eu não tivesse preguiça de ir a Niterói, se eu nunca tivesse morado em Paris, se David Mitchell não tivesse escrito Cloud Atlas, se esse livro não fosse adaptado para as telas, se eu não tivesse sido covardemente reprovado em um concurso, se eu não desejasse praticar yoga, se não houvessem brigas de torcida nem atentados em Paris, se eu não sofresse de TOC. Mas esse texto emergiu dessa improvável “nuvem de probabilidades”.

Seriam todos os fatos e atos humanos o produto de uma imensa e improvável “nuvem de probabilidades” em “eterna recorrência” e mutação no tempo e no espaço, uma grandiosa e mal-coordenada coreografia de moléculas, átomos e partículas, talvez conduzidas por um regente invisível? Seria possível reunir História, Antropologia, Física, Meteorologia e Filosofia para resolver todas essas questões, para desenhar um atlas dessas nuvens?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Peps, Fips e Wagner

Extrato de Os cães sonham?, de Stanley Coren

"Richard Wilhelm Wagner, mais conhecido como o compositor das quatro óperas que compõem O anel do Nibelungo, valorizava bastante o gosto musical dos cães. Em seu estúdio havia um banco especial para Peps, seu cavalier King Charles spaniel. Enquanto compunha, Wagner tocava piano ou cantava passagens nas quais estava trabalhando. O compositor ficava de olho no cão e modificava frases musicais de acordo com sua reação. Wagner reparou que Peps reagia de modo diferenciado às melodias, de acordo com os tons musicais. Certas passagens em um tom poderiam provocar um suave balanço da cauda, enquanto passagens em outros tons poderiam causar uma reação agitada. Esse fenômeno semeou na mente de Wagner o germe da ideia que o levaria a adotar o "motivo musical" [leitmotiv].

Os motivos associam tons musicais específicos a determinadas emoções ou estados de espírito no drama operístico. Na ópera Tannhäuser, por exemplo, o tom do mi bemol maior está ligado ao conceito de amor sagrado e salvação, enquanto o mi maior está ligado à notação de amor sensual e devassidão. Em todas as suas óperas posteriores, Wagner fez uso de motivos musicais para identificar personagens importantes e outros aspectos do drama. Quando Peps morreu, Wagner ficou arrasado e teve dificuldade para se concentrar na composição até conseguir outro cão da mesma raça. Fips logo ocupou seu lugar em um banquinho especialmente estofado próximo do piano de Wagner, de onde podia colaborar com seu conhecimento musical e crítico sempre que necessário".