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Mostrando postagens com marcador História da Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História da Ciência. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Como o Capitalismo "funciona"?

Hoje presenciei uma cena de cortar o coração. Em uma farmácia, uma senhora diabética, acompanhada da filha, escolhia quais remédios deixaria de levar para poder fechar a conta. As duas faziam piada da situação - às vezes o riso é o último recurso para nos protegermos diante das tragédias da vida. 

Minha esposa é diabética e usa alguns dos medicamentos em questão - realmente são muito caros, pois são fabricados na Europa e, como se sabe, nossa situação cambial tem sido catastrófica nos últimos anos.

Quando um diabético, especialmente idoso, se vê privado de medicamentos prescritos há um provável impacto em sua qualidade de vida e mesmo de sua expectativa de vida. Não há palavras capazes de expressar devidamente quão perversa é uma situação como essas. 

Vivemos em um modelo econômico em que pessoas recebem milhões para chutar uma bola, em que valores estratosféricos são empregados para a realização de um efêmero evento esportivo e mulheres idosas não conseguem comprar medicamentos essenciais - simplesmente porque uma empresa europeia detém o monopólio sobre certos medicamentos e a moeda brasileira se encontra desvalorizada.

Vivemos em um mundo em que milhões de dólares são gastos para a produção de uma patética cena de ação em uma franquia cinematográfica que produz e reproduz há quase três décadas filmes que são quase fotocópias cada vez mais imbecilizadas uns dos outros, estreladas por um galã que em breve precisará de fraldas geriátricas - que constituem também uma pesada despesa no orçamento de milhões de famílias.

Não se trata de argumento utilitarista. Esportes e cultura (inclusive o lixo hollywoodiano) fazem parte da trama da sociedade e da vida e são importantes para a coletividade. O problema é quando atletas e atores voam de balada em balada em jatinhos e hotéis de luxo e diabéticos não conseguem adquirir medicamentos essenciais; é quando bilionários queimam dinheiro com todo tipo de extravagância enquanto a muitos idosos falta dinheiro para aquisição de absorventes geriátricos.

Há quem diga que a grande virtude do capitalismo, guiado pela sabedoria de Mamon, é "funcionar". De minha parte, me recuso a acreditar que uma sociedade em que uns poucos tratam o luxo como necessidade e bilhões de pessoas precisem lidar com a necessidade como se luxo fosse é uma sociedade que "funciona". Se assim é, "funciona" para quem? Para a senhora cujo drama testemunhei hoje, certamente o capitalismo vem "funcionando" de mal a pior. 

"Meritocracia", responderão alguns. A estes pergunto que falta para que a senhora "mereça" seus remédios. Que fazem o "menino Neymar", as estrelas de Hollywood, os magnatas do Vale do Silício, banqueiros, especuladores de toda espécie e tantos outros para "merecer" uma vida de luxo nauseabundo em meio a tanta miséria?

De que adianta uma indústria farmacêutica que desenvolve medicamentos "milagrosos", mas cujos preços excluem desses benefícios bilhões de pacientes, crônicos ou não? Pior ainda, onde milhões de pessoas não conseguem sequer o acesso a um médico que lhes prescreva a medicação? 

"Ciência sem consciência é apenas ruína da alma", dizia Rabelais há quase meio milênio. 

Ciência não nos falta; a consciência, por outro lado, não "funciona".

Se nossa sociedade capitalista realmente funciona é apenas como um satânico moinho de triturar gente, como sugeria Karl Polaniy nos anos seguintes à infame Crise de 1929 - e haja gente para triturar nesse planeta...



quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Humanos, cobaias e cientistas

"Meu caro Ido... Neste mundo existem apenas dois tipos de seres humanos... As cobaias e os cientistas que têm o direito de dissecá-las".
Dr. Desty Nova [Battle Angel Alita]

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A NASA realmente descobriu um "universo paralelo"?!

Nos últimos dias viralizou a notícia de que o físico Peter Gorham, da Universidade do Havaí, teria descoberto evidências da existência  de um "universo paralelo" através do experimento ANITA (Antarctic Impulsive Transient Antenna), conduzido na Antártida empregando um balão com equipamentos de radioastronomia.

O assunto vem sendo veiculado em matérias mal redigidas, confusas e sensacionalistas, típicas de jornalismo "científico". Fui pesquisar melhor sobre o assunto, inclusive no site da própria universidade.

Pelo que pude entender e inferir, como leigo curioso, na verdade teria algo a ver com o Teorema de Göddel (que vem recebendo tímidas e ambíguas corroborações empíricas desde os anos 90) - basicamente supondo que o que convencionamos chamar "tempo" seria reversível para partículas subatômicas (como um fenômeno natural e frequente, acontecendo o tempo inteiro).

A notícia parece remeter também a uma discussão recente no campo da cosmologia. A astrofísica sempre trabalhou com a premissa de que o universo seria homogêneo e isotrópico, mas hipóteses e dados recentes sugerem que não só essa premissa é arbitrária como é possível, quiçá provável, que o universo seja heterogêneo e anisotrópico e que a física tal qual a conhecemos nesse cantinho do cosmos talvez não se aplique a todo o universo observável - com muita ênfase na complexa noção de "universo observável", que remete tanto às capacidades quanto às limitações das tecnologias de pesquisa atualmente disponíveis.

Alguns desses paradoxos supostamente obrigariam a uma profunda revisão do corrente modelo-padrão da física e dos dados empíricos coletados ao longo do século XX. O "cenário Big Bang", por sinal, está em vias de cair. Em suma, estamos (ou talvez não) às portas de uma nova revolução copernicana - o que é fascinante.

As menções a "universos paralelos" só figuram na imprensa leiga, remetendo sempre a uma breve e confusa reportagem de 8 de abril do magazine New Scientist (semelhante à brasileira Superinteressante). Ao que tudo indica, o assunto começou a reverberar do nada na imprensa indiana nos últimos dias e viralizou mundo afora.

De concreto, só há sinais de rádio inesperados, que podem ser indícios de um tipo de partículas nunca detectado antes - o que já é, por si, suficientemente instigante. Daí a universos paralelos vai um abismo.

Me lembra o próprio Edwin Hubble, que nunca endossou a teoria do Big Bang, embora originalmente fundamentada em observações dele. Cauteloso, ele sempre enfatizou: "a única coisa que detectei foram desvios para o vermelho".

A pesquisa científica de ponta hoje envolve grandes projetos, com experimentos caríssimos, grandes equipes transdisciplinares e, por vezes, muitos anos de análise meticulosa de dados coletados em um único experimento - mas para o grande público ainda prevalece a imagem do gênio solitário gritando "Eureka!" em seu laboratório

A grande verdade é que somos formiguinhas tentando copreender coisas que nos ultrapassam imensamente.

Para piorar, temos uma educação científica pífia, com pouca ênfase nos complexos aspectos metodológicos da pesquisa, um público ávido por sensacionalismo e mal preparado para digerir esse tipo de informação e uma cobertura jornalística igualmente rasteira.

Não espanta que em plena pandemia se veja gente tão mal informada, acreditando em mil boatos e panaceias.

Entre outras coisas, o COVID-19 veio nos lembrar que Educação científica e jornalismo de qualidade não são luxos, mas questões, literalmente, de vida ou morte.

Finalizo citando a milenar sabedoria do Tao Te Ching:

"Quanto mais falamos no universo,
Menos o compreendemos.
O melhor é auscultá-lo em silêncio".

Ou ainda, como teria dito Sócrates:

"Tudo que sei é que nada sei".

Balão empregado no experimento ANITA.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Códigos: genético ou postal?

-Preparado para um mundo onde um teste de DNA de US$ 50 pode prever suas chances de obter um doutorado ou que criancinha* vai entrar em uma pré-escola seletiva?
-Já se pode fazer isso com um CEP.

*O termo "toddler" é difícil de traduzir em português; significa algo como criança na fase em que começa a andar. 

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Tem cabimento gastar dinheiro dando bolsa pra quem faz doutorado sobre centopeia?

(por Wagner Ricardo, farmacêutico)
TEM SIM! E Muito!!!

Foi o motorista do Uber que me perguntou, depois de levar a mãe de um pós-graduando que estuda centopeia. Mas além de explicar só pra ele, achei legal explicar pra todo mundo.

Eu não sei o que ele estuda na centopeia, mas posso começar dizendo que se elas não existissem nossas casas poderiam estar cheias de baratas e formigas. Assim como representam um belo modelo de engenharia mecânica. Olha que ser mais articulado. Sabiam que existem animais que já foram usados como modelo para desenvolvimento de veículos, civis e militares?

Sabiam que tem grupos que estudam detalhadamente os órgãos emissores de sons das baleias pra fazer sonares e coisas do tipo?

Hoje temos um arsenal de anticoagulantes pra tratar pessoas que sofrem tromboses ou preveni-las, por exemplo, porque algum dia algum pesquisador resolveu estudar a saliva da sanguessuga e descobriu uma molécula legal que depois deu ideia pra se buscar outras que faziam a mesma coisa e hoje temos a dabigatrana (Pradaxa). E também temos anticoagulantes porque um dia um outro pessoal resolveu estudar porque algumas vacas da América do Norte morriam sangrando pelas ventas ao comer uns matos lá que descobriram estavam contaminados com um fungo que produzia uma molécula que competia com a vitamina K. Esse pessoal era da universidade do Wisconsin (Wisconsin Alumni Research Foundation - WARF) e por isso deram o nome ao medicamento de WARFarina. Alguém do seu entorno toma ou tomou warfarina. Certeza.

Temos alguns remédios para controlar a pressão, muito usados no mundo todo, porque um dia um brasileiro resolveu estudar o que tinha no veneno da nossa jararaca. Não é sua colega da firma, mas a cobrona mesmo e daí saiu o captopril (Capoten), por exemplo.

Da saliva do monstro-de-gila, um lagartão antipático que nós brasileiros nem conhecemos, saiu medicamento pra diabéticos, a exenatida (Byetta).

Alguns quimioterápicos para câncer muito importantes existem porque alguém resolveu estudar os microorganismos que viviam na terra perto do próprio laboratório e descobriu que esses bichinhos produziam uma substância capaz de matar células tumorais. Esse laboratório ficava na Itália, na costa do Adriático e o medicamento é por isso chamado de Adriamicina, que quem tem alguns tipos de câncer ou é próximo de quem tem, conhece. Assim como tem um quimioterápico usado mundialmente que foi desenvolvido estudando o teixo, Taxus brevifolia, um arvorão grande assim ó!, lá das banda do Canadá.

São infinitos exemplos de estudos descritivos assim que resultaram em grandes descobertas. Eu sou farmacêutico e logo meus exemplos foram de medicamentos, mas tem taaaanta coisa além de medicamentos. Ninguém sabia o que descobriria na maioria das vezes e todos estes projetos causariam estranheza no motorista do uber, no açougue, no escritório de advocacia e por ai vai.

Quando falam da biodiversidade da Amazônia, a maioria pensa nas plantinhas e alguns até dão de ombro, porque e daí se tiver um tipo de árvore a menos no mundo? Eu só penso nas moléculas que essas plantas muito loucas que só existem por lá têm. Deve ter molécula lá que cura até burrice. Se você é religioso pode até entender que foi a salvação que Deus nos deu, mas precisa procurar. Se você não é, não muda nada. A biodiversidade continua sendo fundamental porque olha, tem cada molécula irada nessas plantas que NUNCA nenhum químico ou farmacêutico teria ideia de desenhar e sintetizar. A gente precisa ver mesmo na natureza pra depois copiar, melhorar, ajustar.

A gente não usa chá nem garrafada não. Observa na natureza, descobre as moléculas e depois sintetiza no laboratório e transforma em medicamento, estudadíssimo antes de ser usado. Não me sai comendo planta por ai, que você pode cair de quatro e ficar, intoxicado. Esse assunto é sério e melhor deixar para os especialistas.

Eu vou falar mais sobre como surgem estes estudos e porque a maioria deles parece muito sem sentido e motivo de piada para a população, mas não são. Em um próximo post porque esse já ficou muito grande.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Brasil Combustível

Hoje a maior catástrofe cultural da história brasileira completa um ano. Primeiro ano de muitos outros sem Museu Nacional. Primeiro ano privados de um patrimônio irremediavelmente perdido para os séculos dos séculos de toda a eternidade.

Museu ou floresta, índio e mendigo, por crime ou negligência, tudo queima no Brasil. Todo dia é Dia do Fogo. Uma pulsão autodestrutiva nos move. Gargalhamos dançando insanamente sobre as brasas de nossa própria casa, como dervixes suicidas acometidos por um transe febril.

Agonizamos como loucos alegres, idiotas satisfeitos, rindo de nossa própria ruína...


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

domingo, 1 de janeiro de 2017

Luz: entre pintores e cientistas

"Antes dos trabalhos de Newton, os pintores ignoravam certas propriedades da luz, o que não os impedira de desenvolver um savoir-faire espantoso. [...] os dados obtidos [pela arqueologia molecular] sublinham a que ponto o artista [Nicolas Poussin] realizou cada uma de suas obras segundo uma unidade de conjunto com uma precisão notável que o conduziu a se tornar teórico da cor e das práticas pictóricas. [...] O procedimento de Nicolas Poussin certamente não foi muito distante daquele que conduziu Isaac Newton a arranjar um prisma e decompor a luz branca: um procedimento que associa observação e experiência, seguidos de raciocínio".

Philippe Walter

A tempestade (c. 1651), Nicolas Poussin, óleo sobre tela

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O mundo "como ele é"...?!

O designer japonês Hajime Narukawa foi recentemente premiado por elaborar uma engenhosa e inovadora projeção cartográfica, que preserva com elegância as proporções entre as superfícies de oceanos e continentes.

Desenvolver qualquer projeção cartográfica original, especialmente depois de tantos séculos de experimentos é uma gigantesca proeza criativa e técnica. Palmas para Hajime Narukawa! Muitas palmas!!!

No entanto, como vivemos num mundo sensacionalista, diversos meios de comunicação divulgaram o mapa como uma imagem "real" do mundo. Algumas mídias, inclusive, deram conotação política à notícia.

Convém, todavia, lembrar que NENHUM mapa representa o mundo "como realmente é". Nosso planeta é aproximadamente esférico, e é impossível retratá-lo de modo absolutamente fiel numa superfície plana. Assim sendo, TODO mapa (inclusive esse, obviamente) é uma projeção; toda projeção cartográfica implica alguma escolha: certas informações são deformadas, para que outras sejam preservadas. Sempre há algum ganho e alguma perda. Lost in mapping: todo cartógrafo, assim como todo tradutor, é um traidor...

Resumindo: existem inúmeras projeções, e todas elas são "verdadeiras" em algum sentido, mas nenhuma delas é 100% verdadeira... A "tradicional" projeção de Mercator é apenas um artifício matemático, que pode ser empregado de diversas maneiras (inclusive botando a Europa num cantinho ou na parte "de baixo", conforme o gosto do freguês) - NÃO é uma projeção hegemônica-eurocêntrica-capitalista-do-mal... ok?!

sábado, 26 de setembro de 2015

O carpinteiro e as bombas atômicas

Extratos de O visconde partido ao meio, de Italo Calvino:

"Mestre Pedroprego, albardeiro e carpinteiro, foi encarregado de construir a forca: era um trabalhador sério e inteligente, que se empenhava com firmeza em toda obra. Com grande dor, porque dois dos condenados eram parentes dele, construiu uma forca ramificada feito uma árvore, cujas cordas subiam juntas acionadas por um único guindaste; era uma engrenagem tão grande e engenhosa que dava para enforcar de uma só vez mais gente que o grupo condenado, tanto que o visconde aproveitou para enforcar dez gatos alternando com dois réus. Os cadáveres mirrados e as carcaças de gato balançaram durante três dias e no início ninguém aguentava olhar para eles. Mas logo nos demos conta da visão imponente que ofereciam, e até o nosso julgamento se dividia em sentimentos díspares, a ponto de causar desagrado a decisão de retirá-los e desmontar a grande máquina.

[...]

Nessa trágica conjuntura, mestre Pedroprego havia aperfeiçoado bem a sua arte de construir forcas. Tinham se tornado verdadeiras obras-primas de carpintaria e de mecânica, e não só as forcas, mas também os cavaletes, os guindastes e os demais instrumentos de tortura com os quais o visconde Medardo arrancava as confissões dos acusados. Eu ia frequentemente à oficina de Pedroprego, pois era um grande prazer vê-lo trabalhar com tanta habilidade e paixão. Mas uma aflição pesava sempre no coração do albardeiro. O que ele construía eram patíbulos para inocentes. 'Como posso', pensava, 'aceitar construir algo tão engenhoso mas que tenha um objetivo diferente? E quais poderão ser os novos mecanismos que construirei com mais boa vontade?' Mas não obtendo respostas para tais questões, tratava de expulsá-las da mente, esforçando-se em fazer as instalações mais bonitas e engenhosas que podia.

-Tem de esquecer o fim para o qual servirão - dizia também a mim. - Olhe-os só como mecanismos. Vê como são bonitos?

Eu olhava para aquelas arquiteturas de traves, aquele sobe e desce de cordas, aquelas ligações de guindastes e de roldanas, e me esforçava para não ver em cima delas os corpos dilacerados, porém quanto mais me esforçava mais era obrigado a pensar, e dizia a Pedroprego:

-Como posso?

-E eu então, rapaz - replicava ele -, como eu posso?

[...]

E o carpinteiro era assaltado pela dúvida sobre se construir máquinas boas não estaria além das possibilidades humanas, ao passo que as únicas que de fato podiam funcionar com eficácia e exatidão seriam os patíbulos e as torturas.

[...]

O mestre se angustiava:
-Quem sabe esteja em minha alma esta maldade que só me deixa produzir máquinas cruéis? - Entretanto, continuava a inventar, com zelo e habilidade, novos tormentos".

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Legados

Extrato do livro L`Anthropologie face aux problèmes du monde moderne, de Claude Lévi-Strauss

"Há dois ou três séculos, a civilização ocidental se dedicou principalmente ao conhecimento científico e suas aplicações. Se adotarmos esse critério, faremos da quantidade de energia disponível per capita o índice do grau de desenvolvimento das sociedades humanas. Se o critério fosse a aptidão para triunfar sobre meios geográficos particularmente hostis, os Esquimós e os Beduínos levariam os louros. A Índia soube melhor que nenhuma outra civilização elaborar um sistema filosófico e religioso capaz de reduzir os riscos psicológicos de um desequilíbrio demográfico. O Islã formulou uma teoria da solidariedade de todas as formas de atividade humana: técnica, econômica, social e espiritual, e sabem que lugar proeminente essa visão do homem e do mundo permitiu aos árabes ocupar na vida intelectual da Idade Média. O Oriente e o Extremo-Oriente possuem sobre o Ocidente uma dianteira de vários milênios em tudo que diz respeito às relações entre o físico e o moral, e à utilização dos recursos dessa suprema máquina que é o corpo humano. Atrasados nos planos técnico e econômico, os [aborígenes] Australianos elaboraram sistemas sociais e familiares de tão grande complexidade que para compreendê-los é necessário apelar a certas formas da matemática moderna. Podemos neles reconhecer os primeiros teóricos do parentesco.

A contribuição da África é mais complexa, mas também mais obscura, pois nós apenas começamos a compreender o papel de melting pot que ela desenvolveu no Mundo Antigo. A civilização egípcia é inteligível apenas como obra comum da Ásia e da África. E os grandes sistemas políticos da África antiga, suas contribuições jurídicas, seu pensamento filosófico durante muito tempo oculto aos ocidentais, suas artes plásticas e sua música são outros tantos aspectos de um passado muito fértil. Pensemos enfim nas múltiplas contribuições da América precolombiana à cultura material do Velho Mundo. Em primeiro lugar, a batata, a borracha, o tabaco [sic] e a coca (base da anestesia moderna), que, a diversos títulos, constituem quatro pilares da civilização ocidental; o milho e o amendoim, que revolucionaram a economia africana antes mesmo de serem conhecidos na Europa e, para o milho, de lá se espalhar; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o abacaxi, a pimenta, várias espécies de feijões, algodões e cucurbitáceas. Enfim, o zero, base da aritmética e, indiretamente, da matemática moderna, era conhecido e utilizado pelos maias ao menos meio milênio antes de sua descoberta pelos índios que o transmitiram à Europa por intermediação dos árabes. Por essa razão, talvez, o calendário maia era, em época igual, mais exato que aquele do Velho Mundo".

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Estrelas e concursos públicos

Venho estudando para dois concursos públicos; um na semana que vem, o outro em março. Às vezes me sinto angustiado, ansioso, oprimido.

Eis que venho a minha varanda. Na noite quente e desanuviada brilha uma miríade de estrelas. De repente, tudo parece tão minúsculo: a Terra, os concursos, eu...

Essas estrelas brilham há milhares, milhões de anos. A luz de algumas delas, que hoje nos chega, foi emitida quando os mesopotâmios ainda ensaiavam seus primeiros caracteres...

"Há muito mais céus do que suspeita nossa vã filosofia"!

Os concursos passarão. Eu passarei, meus filhos, meus netos, também. E daí? As estrelas continuarão brilhando; estavam "aqui" antes de mim, continuarão depois.

Por que ficar ansioso?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Escalas de observação: tempo, espaço, sujeitos e objetos

Dedicado a meu orientador, Rodrigo Bentes Monteiro

Levei cerca de 4 anos produzindo minha tese de doutorado. Meu objeto de pesquisa (a presença francesa na América e no Atlântico) teve por corte cronológico cerca de um século, entre os reinados de Francisco I e Luís XIII. Grosseiramente falando, temos uma relação temporal de 1:25, ou 1 ano de pesquisa para 25 anos de período pesquisado, permitindo que 100 anos de experiências "coubessem" em 4 anos de doutorado e 400 páginas de tese. Tal operação intelectual implica um drástico processo de "compressão de informação". Foi necessário selecionar, cortar e recortar fontes, dados, personagens, temas, problemáticas, conexões... A contragosto, precisei deixar muita coisa de lado - com as devidas "tesouradas" de meu orientador e da banca de qualificação. É preciso muito esforço e alguma dor para "comprimir" todo um mundo de experiências - um século, dois continentes, um oceano - em poucas centenas de páginas.

Mas não é problema apenas de historiadores; existem outros ofícios, com outras escalas. Pensemos no microbiologista: em suas pesquisas, ele lida com organismos infinitamente menores que ele mesmo, seres de vida dramaticamente efêmera. De certo modo, ele opera uma "descompressão de informação", tentando tornar experiências microscópicas no tempo e no espaço inteligíveis para seres macroscópicos - nós. Por sinal, as brevíssimas dimensões temporais com que lida tornam tanto possível quanto necessário repetir experimentos ad nauseam, de modo a montar os quebra-cabeças do infinitamente pequeno. Tais questões também servem para inúmeros cientistas, como os físicos dedicados às dinâmicas quânticas ou à física de partículas, entre tantos outros.

Creio que o extremo oposto esteja nos ramos da astronomia, da astrofísica, da cosmologia e afins. Saltamos do ínfimo ao infinito, às temporalidades e distâncias que em tudo extrapolam as dimensões humanas e terrestres. Considerando que a astronomia metodicamente científica conta cerca de 400 anos, como dar conta de fenômenos estimados na ordem dos bilhões de anos? Quantas existências de astrônomos seriam necessárias para acompanhar a vida e a morte de uma única estrela? Aqui é a observação simultânea de fenômenos similares - às vezes escassos - que busca resolver os enigmas do infindável. É o supremo esforço de "compressão de informação", tentando reduzir os mistérios do cosmo à nossa limitada ciência...

Concluindo, creio que toda operação científica precise passar por operações semelhantes, no sentido de mediar as diferentes escalas e dimensões espaço-temporais que separam sujeito e objeto, de algum modo tentando estabelecer relações, equivalências e correspondências entre as diversas experiências e perspectivas possíveis acerca da realidade. Vale lembrar, segundo as teorias da computação, que toda operação de "compressão" e "descompressão" implicam na perda ou simplificação de informações, levando a reduções de nitidez e precisão.

O conhecimento é uma eterna tentativa de abraço entre sujeito e objeto, uma superação de distâncias nunca realizada por completo, mas sempre aprofundada.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O braçal trabalho dos cientistas

Em meu primeiro semestre de graduação tive de ler "Que é História?", de E. H. Carr. O autor comentava que na Idade Moderna o trabalho dos primeiros cientistas era frequentemente visto com desdém, por ser associado aos ofícios manuais, atribuídos à plebe. Essa informação me causou grande estranhamento na época, não devido ao menosprezo pelos manopera comum ao Antigo Regime, que já me era familiar. O que então me pareceu surpreendente foi essa associação entre a pesquisa científica e o trabalho braçal, tão diferente da concepção que temos hoje do cientista, enquanto intelectual, pioneiro do conhecimento. Desde então, me tornei mais familiar à ideia, através de leituras realizadas nesses últimos anos. Contudo, essa semana, pude finalmente compreender com toda a clareza!

A noite estava estrelada, ostentando uma belíssima Lua. Me lancei às atividades de astrônomo amador. Foi então que percebi o quanto necessitava me deslocar, movimentar o telescópio para um lado e outro, mexer daqui, dali e dacolá, puxar e empilhar cadeiras, sentar no chão ou me acocorar... Tudo isso para conseguir focalizar devidamente os corpos celestes que pretendia observar. De fato, por mais intelectual que tal atividade possa parecer, me dei conta da quantidade de trabalho braçal que ela envolve!

Comecei a pensar em outros casos, imaginando os primeiros anatomistas abrindo cadáveres... Que pensaria um aristocrata vendo Vesalius com um avental imundo de sangue, como um açougueiro? Ou os primeiros microbiologistas? Certamente a figura de Spalanzani fervendo caldos para cultura de bactérias, suando esbraseado pelo calor de um fogareiro não devia parecer muito lisonjeira a um fidalgo penteado, perfumado e bem vestido! Enfim, a própria imagem de um laboratório dessa época devia parecer aos nobres uma desagradável mistura de oficina, cozinha e açougue...

A questão é ainda mais marcante se pensarmos nas concepções sobre essência e aparência comuns ao imaginário do período. Como vários historiadores apontam, para a cultura de Antigo Regime, a aparência de algo deveria expressar de modo claro e inequívoco a sua essência. Um cientista suado, sujo, esfalfado seria, naturalmente, um trabalhador braçal, com toda a carga pejorativa associada aos ofícios mecânicos.

Parece-me elucidativo citar uma curiosa passagem escrita por Da Vinci, proclamando a superioridade do pintor sobre o escultor. Embora as ideias se refiram ao campo da Arte, parecem-me facilmente transponíveis ao das Ciências, mesmo porque as artes também eram consideradas ofícios manuais.

Segundo resume a historiadora da Arte Elisa Byington no livro O projeto do Renascimento, Leonardo afirmava que a escultura seria inferior porque "fazia suar, gerava mais cansaço físico e exigia menos esforço mental na sua realização". Descrevia ainda o escultor vivendo "em uma casa suja com a cabeça coberta por pó de mármore 'feito um padeiro'" (grifo meu). O pintor, ao contrário, "podia realizar seu trabalho bem trajado e sentado com grande conforto, segurando um pincel leve e usando cores agradáveis" (grifo meu). Não é difícil imaginar o que ele diria de Galileu Galilei fazendo ginástica ao telescópio...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Devaneios histórico-astronômicos

Depois de longuíssimas semanas de espera, finalmente chegou meu ansiosamente aguardado telescópio e comecei minhas atividades de astrônomo amador. Trata-se, obviamente, de um aparato para principiantes. Mas apenas para os padrões atuais, pois é superior aos primeiros telescópios empregados no século XVII pelos pioneiros da astronomia moderna. O fascínio da observação astronômica é indescritível. E, além de uma janela para o céu, também me fez ver com novos olhos a história da ciência.

Um dos aspectos que me chamou a atenção nesse sentido é a dificuldade do manuseio do instrumento; apontar o telescópio para a estrela que se quer observar (ou mesmo a Lua) não é tarefa tão fácil quanto parece... Pelo contrário, minhas primeiras tentativas de observar estrelas foram tão frustrantes que cheguei a pensar que seria impossível. Fiquei imaginando o quanto deve ter sido difícil para Galileu, Kepler e outros de sua época, afinal, ao contrário de mim, eles eram pioneiros que criaram ex nihil a arte da observação celeste. Quanta perseverança, fadiga, talvez mesmo fé, não lhes teria sido necessário? Difícil saber, difícil mesmo imaginar... Por outro lado, eles não precisavam enfrentar metade da poluição luminosa que temos hoje em dia!

Outra questão curiosa é a fragilidade dos dados empíricos obtidos através de um telescópio como esse. As interferências são inúmeras: um vento mais forte pode fazer as estrelas bailarem no céu ou água correr sobre a Lua, devido a efeitos de refração! É fácil corrigir mentalmente esses desvios, tendo uma base teórica prévia. Mas como fazê-lo sem ela? Igualmente, não é difícil perceber que uma estrela é um distante Sol, sabendo disso de antemão; sem esse conhecimento, todavia, parece muito questionável. Era exatamente nesse solo movediço, nesse terreno incerto, que os primeiros astrônomos se aventuravam. Não é à toa que muitos se mostravam resistentes ou reticentes em relação às revelações propostas pela astronomia. Não era meramente questão de fanatismo religioso. Ao contrário do que costumamos pensar na era Hubble, esses primeiros telescópios deixavam larga margem para as dúvidas.

Essa experiência só tem tornado mais evidente para mim o quanto a grande revolução do conhecimento da natureza na modernidade deve à abordagem matemática capaz de tornar inteligíveis esses dados empíricos. Mais revolucionário que o telescópio foi o olhar projetado através dele...