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Mostrando postagens com marcador Paris. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Mais uma pequena tragédia parisiense

No breve período em que minha esposa e eu moramos em Paris, as livrarias Gibert Joseph e Gibert Jeune estavam entre nossos refúgios preferidos, constituindo paradas obrigatórias em muitas de nossas andanças.

Depois de devidamente instalados, impossível esquecer de nosso primeiro passeio. Uma visita a Notre Dame, oportunamente concomitante a uma feira de gastronomia. Almocei um delicioso sanduíche "jambon-beurre", e um sanduíche de creme de cereja por sobremesa. 

Após as subidas e descidas pela catedral que tanto me encantava, atravessando o Sena, passando pela monumental fonte de São Miguel, penetramoa no mágico mundo de Gibert Jeune, com seus muitos andares. Saímos de lá carregados de livros (dois dos quais tenho diante de mim enquanto escrevo), especialmente os dois últimos volumes de "Nausicaa do Vale do Vento", de Hayao Miyazaki, cuja publicação brasileira fora interrompida anos antes pela Conrad. Passei a noite lendo a tão aguardada conclusão da magnífica obra de Miyazaki.

Atendidos por Sévérine...


Nos tornamos assíduos frequentadores de Gibert Jeune e dos primosoncorrentes, Gibert Joseph - com sua magnífica papelaria, onde compramos boa parte dos materiais de desenho e pintura que ainda hoje usamos. Excetuando o banheiro e a cozinha, não há cômodo em nossa casa sem algum butim dos Gibert.

Me recordo de nossa última visita a Gibert Jeune, quando deixei de comprar um livro de Roland Mousnier, cujo preço me pareceu à época exagerado, mas que depois muito me arrependi de não ter adquirido.

Hoje leio, com muita tristeza, a notícia de que Gibert Jeune fecha as portas - uma catástrofe afetiva comparável ao incêndio de Notre Dame, sendo a catedral e a livraria tão intimamente vinculadas em minha memória emocional.

Posso suportar a ideia de jamais rever Paris, mas é intolerável pensar que, visitando Paris, não poderei mais subir as escadarias de Gibert Jeune.

Cada livraria que fecha é uma luz que se extingue e deixa o mundo um pouco mais frio e sombrio.

Perder a velha e gloriosa Leonardo Da Vinci, a efêmera Livraria Cultura da Senador Dantas, a antiga Casa Mattos do Méier, a FNAC do Barra Shopping e agora Gibert Jeune são duros golpes em minha vida de leitor e bibliomaníaco, disposto a devaneios em qualquer lugar, brega ou chique, onde se vendam livros.

Uma das coisas que mais me entristecia em Paris era passar pelo Palais Royal, outrora ninho fulgurante das melhores livrarias da Europa, frequentado por grandes figuras literárias dos séculos XVIII e XIX e constatar que ali não se vendem mais livros, sendo necessário atravessar a rua para visitar a discreta e simpática livraria Dellamain - se é que ela ainda existe. 

Hoje só se encontram no Palais Royal antiquários hiper-sofisticados, lojas de grifes internacionais e uns poucos restaurantes careiros "au nez en l'air" (exceção feita ao velho restaurante outrora frequentado por ninguém menos que Voltaire, "sans trôp de chichi").

Vivemos em um século bárbaro, em que se fecham tantas livrarias. Sunt lacrimae rerum.



sábado, 1 de fevereiro de 2020

Avó exorcizada, Tio excomungado, Amigo ateu

Minha avó nasceu em 1926, em Agostinho Porto (então distrito de Nova Iguaçu), com o tremendo azar de ser canhota. Como sugerem as neurociências, a condição de canhoto pode derivar de inúmeros fatores genéticos ou epigenéticos, desenvolvimento fetal e até experiências durante a primeira infância.

Para azar da pequena Nair, no entanto, sua avó materna (minha trisavó), não entendia nada de neurociências, mas entendia muito da religiosidade popular. Canhotos, a velha senhora de ascendência açoriana bem sabia, tinham parte com Satanás - por sinal, entre muitos apelidos interessantes, como Lúcifer, Coisa Ruim, Capa Verde, Capiroto e Capeta, o bom e velho Satã também costuma ser referido, no linguajar popular como "O Canhoto".

Não espanta. Canhotos são um grupo minoritário (cerca de 10% da população mundial) e não é raro, em diversas culturas, que traços minoritários e desviantes recebam conotação negativa. Na tradição cristã, o polo negativo por excelência era Satanás e, portanto, um comportamento aberrante como o uso predominante da mão esquerda só podia ser obra do Senhor dos Infernos, assim como sucedia a pessoas que nasciam com o azar de serem ruivas ou albinas. De pessoas com certos "defeitos físicos" também se dizia que "Deus marcou para não perder de vista".

Vale lembrar que (como tudo) a figura de Satanás no imaginário cristão tem uma História, como bem assinalam Robert Muchembled e Jean Delumeau, entre tantos outros. Nos primeiros séculos do Cristianismo as interpretações sobre os "espíritos imundos" permaneceram bastante ambíguas; a imagem do demônio como Mal Absoluto é uma invenção tardia, que começou a emergir na Baixa Idade Média, por volta do século XII e se consolidou com força crescente na Idade Moderna, era dourada dos "estudos" demonológicos e das caças às bruxas.

Não se imagine, todavia, que, nos albores do esclarecido século XX, tal pavor fosse exclusivo da gente iletrada de Agostinho Porto, periferia da periferia do mundo. Poucas décadas antes, em Paris, cidade tão emblemática da modernidade, centro produtor e difusor de tantas nouvautés a homilia de certo padre Janvier ressoava na nave da encantadora catedral de Notre-Dame de Paris, na quaresma de 1907:


Imagina muita gente que o demônio não é mais que um símbolo, uma figura literária que não corresponde a coisa alguma na Criação, uma ficção poética, uma palavra que serve para designar o mal e as paixões: é um erro. O demônio, na doutrina católica, é um ser perfeitamente real, uma personalidade distinta do resto da natureza, tendo vida, ação e domínio próprios. O que, porém, é infinitamente mais temível é a ação ordinária, contínua, exercida por Satanás na Criação, a intervenção real e oculta que tem no curso dos sucessos e das estações, na germinação das plantas, no desencadear dos ventos e das tempestades (grifos meus).


Como se nota, o imaginário do padre Janvier, embora reagindo às críticas da modernidade, estava ainda muito longe do "desencantamento do mundo" assinalado por Weber. A bem dizer, nessa breve citação se encontram inúmeros estratos da história das culturas popular e erudita. O demônio do padre Janvier soa quase pré-tridentino, mesclando um pouco da figura do Demiurgo, senhor do mundo material, tão proeminente entre os maniqueístas e gnósticos da Antiguidade, quanto nas tradições populares do campesinato europeu. É um demônio que, senhor da vegetação e dos fenômenos atmosféricos, não deixava espaço ao saber dos botânicos ou dos meteorologistas. A homilia parisiense e o pensamento de minha iletrada trisavó habitavam a mesma morada.

Para todos os efeitos, assim que a pequena Nair começou a mostrar suspeita destreza com a mão esquerda (note-se, por favor, o trocadilho), sua avó iniciou um processo caseiro de "exorcismo" - bastante comum, pelo que já ouvi falar. Daí em diante, minha avó passou a receber frequentes palmadas com colher-de-pau na mão esquerda, para que a dor a forçasse a privilegiar a destra, como se esperava de uma boa menina católica, devidamente desencapetada.

Para alívio de minha trisavó, o exorcismo da jovem Nair foi bem sucedido. No entanto, o resultado final foi a formação de uma destra frustrada! Minha pobre avó nunca chegou a desenvolver a contento a coordenação motora fina da mão direita, o que se revelava particularmente em sua vacilante caligrafia, bastante legível, mas, definitivamente, feia.

Dona Nair se sentia ligeiramente embaraçada por sua caligrafia e reclamava constantemente da ignorância de sua avó, que reprimira seu desenvolvimento natural como canhota. Acredito que tal vergonha fosse acentuada pela elegantíssima caligrafia de meu avô. Minha avó tinha verdadeira ojeriza a todo tipo de "superstição" e veio a se tornar uma católica pouco praticante; muito mais tarde, se tornou espírita convicta e entusiástica - o que, calculo, causaria grande desgosto à minha trisavó e talvez confirmasse suas suspeitas de que, desde o início, havia uma semente diabólica naquela  menina.

Não posso afirmar com certeza, mas suspeito que tais sessões de exorcismo doméstico tenham contribuído para que minha avó se tornasse uma católica pouco ortodoxa e, principalmente, para o horror que ela sempre manifestava quanto às "superstições". Talvez fosse também por isso que ela se tornou a mais atenta vigilante de minha caligrafia e fiscal preferencial dos cadernos de caligrafia que eu preenchia quase diariamente até meus 12 ou 13 anos de idade. Me censurava constantemente por segurar o lápis com pouca firmeza, afirmando que o lápis dançava como uma bailarina em minha mão. Finalmente, em seus últimos anos de vida, ela mesma se dedicava a preencher cadernos de caligrafia, não tanto para aperfeiçoar a letra, mas para exercitar o cérebro, dizia ela.

Por sinal, a única informação que minha avó me comunicou (muito mais que uma vez) sobre sua própria avó era essa anedota. Em minha imaginação se sedimentou a imagem de minha trisavó como uma tirana rabugenta e fanática - espero que a realidade fosse distante disso, mas fica a impressão de que ela não deixou muitas recordações agradáveis para a neta. Nunca havia parado até agora para me perguntar, mas a memória familiar me sugere que ela faleceu cedo, quando minha avó ainda era pequena.

Assim calculo porque minha bisavó faleceu precocemente, durante o parto de meu tio-avô Manoel - ou, familiarmente, "Tio Manel". Minha avó, com seus 10 anos de idade, largou os estudos e, como irmã mais velha, assumiu a responsabilidade pelos menores, o que me leva a crer que a matrona exorcista já não se encontrava entre eles.

Minha avó e Tio Manel desenvolveram uma relação que era mais característica de mãe e filho que de irmãos. Mesmo meu avô, que conheceu Tio Manel já adolescente, também o considerava "como um filho", mais que como cunhado. Já bem velhinhos, o irmão caçula ia todo sábado, religiosamente, visitar a maternal irmã; jamais esquecerei quão devastado Tio Manel parecia nos funerais de minha avó.

Tive convívio muito próximo com Tio Manel ao longo da vida. Ele era um homem muito irreverente, em todos os sentidos do termo. Apesar de pouca escolaridade, questionador como ninguém, sempre suspeitoso de todo tipo de autoridade religiosa, política ou científica. Era o tipo de pessoa que só dava crédito ao que conseguia entender, deixando a dúvida pairar sobre todo o resto. Sempre tinha um comentário irônico na ponta da língua.

Uma anedota dá bem a dimensão da figura. Durante o longo conclave para eleição do sucessor de João Paulo II a mídia dava grande cobertura à vaticana liturgia e ao código da fumaça negra e da fumaça branca com que se comunicavam os resultados das sessões diárias. Em certa ocasião, assistindo o telejornal, Tio Manel ridicularizava o rito eclesiástico, que considerava anacrônico e patético. Numa das tiradas "politicamente incorretas" que lhe eram peculiares, se questionava se o código não devia ser aperfeiçoado: se o papa fosse branco, fumaça branca; se fosse negro, fumaça negra; se fosse gay, fumaça rosa... Comentário tão irreverente sobre Sua Santidade seria digno de um herege - o que, de fato, ele era.

Lá pelos anos 40, o menino Manel, como toda criança católica, foi encaminhado à catequese na paróquia local, para a preparação necessária para sua primeira Eurcaristia. O problema era que o garoto questionava tudo que a catequista dizia! Ao fim e ao cabo, a maternal irmã foi convocada à igreja. Segundo minha avó, a catequista afirmava que Tio Manel "não levava jeito para a coisa" e gentilmente convidou que ele fosse retirado da turma de catequese. Assim foi feito, e o jovem Manel nunca tomou parte na teofagia eucarística; mais que excomungado, pode-se dizer que ele era algo como um "acomungado".

Nada disso impediu Tio Manel de se tornar um católico à moda dele - vale dizer, um herege. Em algum momento de sua juventude se tornou devoto de São Jorge, e dizem que era devoto muito fervoroso, o que não cheguei a ver com meus próprios olhos. Quando nasci, sua devoção já era mais moderada, mas sempre levou no pescoço sua medalhinha de São Jorge.

Tio Manel era um homem de fé, mas tinha horror às religiões organizadas e às hierarquias eclesiásticas. Nas últimas décadas era crítico ferrenho das "igrejas empresariais" que vinham surgindo e desde então se fortalecendo. Tinha sempre algum comentário ferino a fazer contra os pastores caça-níqueis que andam pelos canais de televisão; de vez em quando gostava de assistir às tele-igrejas, sempre fazendo troça do que via.

Mas que esperar de um menino educado por uma jovem canhota?!

As desventuras de minha avó e seu irmão se deram lá pelos anos 30 e 40, mas conheço um recente caso de interessante ressonância. Certo amigo meu, questionador como Tio Manel, lá pelos anos 80, calculo, também ingressou na catequese. Em certa ocasião, quando a catequista instava os pequenos catecúmenos a ser como cordeiros, meu amigo reclamou que preferia ser uma águia ou um leão, e nada o convencia do contrário. Suas insistentes perguntas costumavam ser respondidas por um "Jesus quer assim" ou fórmulas do gênero. Certo dia, a já exasperada catequista respondeu que Jesus não gostava de crianças que perguntam muito, ao que meu amigo retrucou que "Esse Jesus é um cara muito chato!". Assim como se passara quase meio século antes com Tio Manel, a família de meu amigo foi convocada e mais um menino se viu escorraçado pela Santa Madre Igreja - Católica, Apostólica e, principalmente, Romana.

Meu amigo, hoje ateu, é canhoto como a menina Nair... Que diriam padre Janvier e minha trisavó?!

Dedico este texto a minha avó, ao Tio Manel, ao canhotíssimo amigo Vinícius e ao Professor Guilherme Pereira das Neves, que inspirou toda essa reflexão.

Ned Flanders - canhoto, carola e personificação do Diabo em vários episódios de Halloween dos Simpsons; note-se, todavia, que nesse frame ele segura o tridente com a destra...

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ecos da Revolução Francesa

Lembranças do filósofo dinamarquês Henrik Steffens sobre a chegada em Copenhague das primeiras notícias da tomada da Bastilha, em Paris, em 1789.

Eu tinha dezesseis anos. Meu pai retorna ao lar fora de si; ele chama seus filhos: "Meus filhos, vocês têm sorte! - grita ele - Que dias felizes e brilhantes se levantam para vocês! Agora, se cada um de vocês não criar uma posição independente, reclamem apenas de si mesmos. Todas as barreiras do nascimento e da pobreza cairão; doravante, o último entre vocês poderá lutar contra o mais poderoso com armas iguais e no mesmo terreno!" Ele parou, vencido pela emoção, e se pôs a chorar por alguns instantes. Depois ele nos contou como a Bastilha fora tomada e as vítimas do despotismo libertadas. Não era apenas na França que uma revolução começava, era em toda a Europa. Ela deitava suas raízes em milhões de almas.

Folheto da época com gravura da tomada da Bastilha, acompanhada de narrativa e versos.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame: Eternidade em chamas

Notre-Dame é a estrela mais brilhante da Cidade Luz. Que tristeza vê-la fulgurando à infernal luz das chamas!

Notre-Dame é um universo inteiro, povoado de santos, anjos, demônios, gárgulas e quimeras. De suas torres, parece que o próprio Céu, capturado pelos construtores, é apenas um pano de fundo para suas magníficas formas - o Infinito reduzido a detalhe arquitetônico.

Suas rosáceas eram verdadeiros tratados de teologia medieval, dizia Roy Wagner. Victor Hugo considerava a catedral inteira um livro escrito a muitas mãos.

Dentro da nave, a luz filtrada pelas janelas e vitrais criava um ambiente difícil de descrever: aconchegante, misterioso e um tanto claustrofóbico. Um espaço gigante, ínfimo e paradoxal. Na nave de Notre-Dame me sentia respirando num Outro Mundo ou, quem sabe, num Mundo Outro.

Como um ser vivo, aquela catedral tinha uma voz. Respirava, cantava e orava através de seu órgão, um dos melhores e mais antigos do mundo.

Notre-Dame de Paris não parecia uma obra medieval. Eu acreditaria se me dissessem que estava ali desde o princípio dos tempos, construída por anjos ou demônios, descida inteira do mais alto dos céus ou emersa dos mais profundos infernos. Sua beleza fascinante e terrível, certamente, não é deste mundo.

Ainda não se sabe ao certo o que sobreviveu ao incêndio de hoje. Os vitrais certamente estão perdidos. A espectral luz de sua nave nunca mais será a mesma. Talvez seja igualmente espectral e fascinante, mas será outra. O órgão, ora mudo, talvez seja restaurado, mas sua voz será outra, sua acústica foi irremediavelmente perdida.

Notre-Dame persistirá, bela mesmo em sua catástrofe, como mater dolorosa. Mas o mundo perdeu hoje um pedaço de Eternidade...


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ecos de Paris

Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.

A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.

Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.

Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.

O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.

Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.

O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...

domingo, 11 de janeiro de 2015

Charlie Hébdo: heróis, vilões ou vítimas?

Toda liberdade implica responsabilidade; liberdade política implica responsabilidade moral. Liberdade de expressão requer responsabilidade no uso dos meios de expressão.

Por outro lado, o humor muitas vezes é agressivo, e por vezes ofende. Como dizia o filósofo Bergson, o riso, muitas vezes, é usado como forma de violência, de ordem moral. A pessoa ou o grupo que é objeto do riso pode se sentir agredido em sua integridade moral. Quem vê as charges do Charlie Hébdo - que não terei o mau gosto de reproduzir - percebe que elas constituem uma violência moral contra todos os muçulmanos, fundamentalistas ou não, residentes na França ou em outros países.

Infelizmente, violência gera violência. Isso não justifica - ou seja, não torna justo - o assassinato dos cartunistas. Qualquer assassinato é injustificável. Qualquer violência, física ou moral, também é lamentável. No entanto, é difícil negar a relação de causa e consequência no caso em questão. Tem gente que "perde o amigo, mas não perde a piada"; a redação de Charlie Hébdo cultivava inimizades para não perder a piada - grosseira. Também são infelizmente previsíveis as consequências do caso para o aumento da islamofobia, como o cartunista Latuff sintetizou magistralmente:



Algumas pessoas querem transformar os cartunistas de Charlie Hébdo em heróis, mártires da "liberdade de expressão"; outras querem transformá-los em vilões, racistas e imperialistas. Acho que os dois lados estão errados. Na minha modesta opinião, o periódico tinha uma linha editorial moralmente irresponsável, de mau gosto e medíocre, usando o tipo de humor mais baixo e virulento a pretexto de crítica. Para mim, o atentado dessa semana não torna esse tipo de humor menos condenável; é arte de péssimo gosto - gosto de sangue.

Note-se também que, em momento algum, o semanário foi censurado pelo Estado francês - caso em que seriam, de fato e de direito, mártires da "liberdade de expressão". Charlie Hébdo usava dessa liberdade de modo abusivo, assim como os assassinos fundamentalistas usaram seu livre-arbítrio de modo abusivo.

Heróis ou vilões? Nem uma coisa, nem outra. O atentado à redação de Charlie Hébdo foi um crime grave e fez muitas vítimas, mas, por favor, não queiram transformar esses cartunistas em mártires.

Em tempo: parece que andam se esquecendo dos 2 policiais e do funcionário de manutenção mortos no tiroteio; esse são apenas vítimas, ninguém se dispondo a fazê-los mártires.

Em tempo 2: mesquitas na França estão sofrendo atos de vandalismo. É o círculo vicioso da violência.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Futebol, canibais, terroristas e nuvens

Dedicado a meu sogro e minha esposa

Por que algumas pessoas matam por futebol? Porque têm fortes laços de identidade com seus respectivos clubes, passaram e passam por um radical processo de identificação (no sentido psicológico do termo). No entanto, outros torcedores – a maioria, felizmente – não seriam capazes de fazer a mesma coisa, pois não se identificam com seus respectivos clubes de modo tão extremo. Alguns torcedores, eventualmente, perdem até seus interesse pelo esporte ao longo do tempo, num processo de tendencial desidentificação – mais uma vez, no sentido psicológico.

Em cada um desses casos, temos perspectivas específicas e diferenciadas em jogo. Algumas dessas perspectivas são mais próximas ou mais distantes entre si. Mas como se forjam tais perspectivas? A partir de trajetórias específicas, tanto pessoais quanto coletivas, formuladas no tempo e no espaço – históricas, portanto. Essas trajetórias podem apontar em sentido convergente (identificação crescente) ou divergente (desidentificação crescente). Assim, a experiência de torcer (e matar) se configura a partir da trajetória pessoal e individual de cada torcedor quanto de uma trajetória coletiva e social – a história do esporte, a história do clube, a história da região, do país, do mundo, etc. Existe hoje uma Copa do Mundo e campeonatos nacionais porque a partir do século XIX tivemos tanto a emergência do esporte e do Estado-nação como os conhecemos. Assim, o torcedor assassino chega a tal perspectiva homicida através de uma trajetória que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Temos então identidade e perspectiva como processo desenvolvido no tempo e no espaço.

Nesse processo se forjam conexões mais ou menos fortes, convergentes ou divergentes, no âmbito de cada grupo. Essas identidades e alteridades se formulam em redes, de modo complementar, interdependente e dinâmico, por retroalimentação. Como uma dança complexa, onde os participantes se movimentam, determinando suas perspectivas a partir de suas posições e distâncias respectivas, sua dêixis, em perpétua mutação, às vezes imperceptível. As trajetórias se cruzam e interferem umas nas outras, momento a momento. Os ritmos da dança se alternam sem cessar. Alguns dançarinos saem, e entram outros, continuando a dança como a encontraram. Temos aí uma dimensão mereológica, fractal, onde cada dançarino é parte da dança e interfere na dança inteira. Um simples tropeço repercutirá de modo mais ou menos intenso em todo o conjunto. Como diria Sonmi-451, do filme Cloud Atlas,

“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.

Tais dinâmicas se aplicam à torcida de futebol, mas também às religiões, aos gêneros, às nações – em suma, a quaisquer identidades. Mas como se elabora no tempo uma linguagem do “nós”? Como se forma um “nós” vascaínos? Como surge um “nós” tupinambá? Como se elabora um “eles” flamenguistas ou margaiá? Por que algumas pessoas soltam pipa e outras, nascidas no mesmo bairro, fazem pós-doutorado?

No fundo, cada identidade se formula em “nuvens de probabilidades”, emergindo de situações específicas, reconfiguradas a cada compasso na melodia do tempo. Possibilidades e probabilidades se entrecruzam o tempo inteiro, gerando novas realidades potenciais, mudando trajetórias a cada interação. Esse texto mesmo emerge de vários encontros. Ele não existiria se os tupinambá não comessem carne humana, se Hans Staden não tivesse escapado da morte, se eu não fosse casado com minha esposa, se ela não fosse filha de meu sogro, se meu sogro não fosse vascaíno, se não tivessem inventado e popularizado o futebol, se não existisse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, se eu não tivesse preguiça de ir a Niterói, se eu nunca tivesse morado em Paris, se David Mitchell não tivesse escrito Cloud Atlas, se esse livro não fosse adaptado para as telas, se eu não tivesse sido covardemente reprovado em um concurso, se eu não desejasse praticar yoga, se não houvessem brigas de torcida nem atentados em Paris, se eu não sofresse de TOC. Mas esse texto emergiu dessa improvável “nuvem de probabilidades”.

Seriam todos os fatos e atos humanos o produto de uma imensa e improvável “nuvem de probabilidades” em “eterna recorrência” e mutação no tempo e no espaço, uma grandiosa e mal-coordenada coreografia de moléculas, átomos e partículas, talvez conduzidas por um regente invisível? Seria possível reunir História, Antropologia, Física, Meteorologia e Filosofia para resolver todas essas questões, para desenhar um atlas dessas nuvens?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eles

Eu tenho medo. Muito medo.


Eles são muito perigosos. Eles são violentos e cruéis. Eles odeiam nossa civilização, Eles odeiam nossos valores. Eles querem destroçar, esmagar e queimar tudo que amamos. Eles desejam matar nossos anciãos, estuprar nossas mulheres, escravizar nossas crianças. Eles sonham em dançar sobre nossos túmulos.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.


De dia, Eles perturbam meus pensamentos. À noite, Eles povoam meus pesadelos. Eu sei, eles estão lá, em seus esconderijos, planejando dia e noite como acabar conosco. Eles tramam suas teias como aranhas famintas e maldosas. Eu sei, eu sei. De dia, Eles pensam em nossa destruição; à noite, Eles sonham com nossa ruína.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.



Precisamos fazer alguma coisa, antes que Eles nos destruam. Temos que agir mais rápido que Eles, temos que atacar primeiro. É a única maneira de sobreviver, de evitar nosso fim, de preservar nossa civilização, nossas crenças, nossos valores. A guerra é a única solução contra Eles. É lamentável, eu sei, mas Eles não deixam outra escolha. Não é possível dialogar com Eles. Eles são irracionais, perversos, traiçoeiros. Alguns entre nós discordam... Cegos... Sonhadores... Traidores! A guerra é terrível, mas necessária. Quem não está conosco, está com Eles, está contra nós. Contra Nós!


Por que Eles nos odeiam tanto?

Imagens: Detonação da bomba de Hiroshima (1945); Massacre de São Bartolomeu (Paris, 1572); Holocausto; Cruzadas; Perdas territoriais palestinas; Atentados do 11 de Setembro (2001)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Olhares congelados

Tenho pensado muito sobre janelas.

Sempre fui fanático por elas, devo dizer. Sempre que chego a um ambiente novo, boa parte de minha atenção vai para o que se pode ver através da janela. No entanto, subindo as escadarias de Notre Dame, comecei a me dar conta de algo muito interessante: de certo modo, uma janela é um olhar congelado no tempo...

Precisamente ao ver essa janela, comecei a me perguntar: o que alguém via dessa janela, na Idade Média? De lá para cá, quantas pessoas já pararam aqui para olhar o panorama da cidade de Paris? Mas esse foi apenas o começo de uma reflexão, aprofundada visitando o Chateau de Vincennes.
Bom exemplo são as janelas do "chemin de ronde" (acima), o caminho percorrido pelas sentinelas para vigilância do castelo. Comecei a me questionar não apenas a experiência daqueles que estiveram à janela olhando, mas do processo criativo que produziu a janela a ser olhada. Essas janelas foram originalmente concebidas como postos privilegiados para a defesa do castelo, sendo testemunhos de uma concepção estratégica do terreno circundante. Construir uma janela é também dirigir olhares para algo que está em determinada direção. Toda janela traz embutida uma especificidade do olhar, uma perspectiva própria.

Por exemplo, Raymond du Temple, arquiteto do Chateau de Vincennes, construído para o rei Carlos V, foi habilíssimo programador de espaços. Sua grande cartada foi, certamente, a escada do rei, dando acesso aos visitantes.
O projeto era brilhante, correspondendo perfeitamente ao momento de consolidação da monarquia francesa. Essa escada de aparato convidava o visitante a subir lentamente, contemplando através de seus balcões a magnífica e grandiosa fachada do castelo, preparando sutilmente o encontro com o rei. Talvez, por um contágio do olhar, o monarca parecesse tão admirável quanto sua bela fortaleza. Ao mesmo tempo, quão diferentes os modos de ver incitados pelas grandes janelas da escada e as pequenas vigias do "chemin de ronde"! Raymond du Temple era também um exímio construtor de olhares...

Enfim, a janela é frequentemente portadora de uma intencionalidade, seja ela militar, pragmática, estética, religiosa ou mesmo política. Nesse sentido, a janela é testemunho de uma determinada perspectiva, de uma específica interpretação do espaço circundante e do olhar que se quer projetar sobre esse mesmo espaço.

No entanto, é essencial lembrar algo banal: que não se trata obviamente uma imagem congelada, afinal de contas o espaço muda constantemente ao redor da janela. Também é desnecessário dizer que me parece muito difícil (e provavelmente pouco útil) realizar uma "historiografia das janelas"... Ainda assim, vale a pena debruçar-se sobre uma janela antiga, qualquer janela, e imaginar, se perguntar o que seria possível ver dali em outros tempos e, principalmente, por que ela foi construída sob esse ponto de vista. Em suma, tentar enxergar a realidade através desse "olhar congelado"...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A densidade da ausência

Na última semana estive na Place de la Bastille. Como se sabe, a fortaleza foi destruída durante a Revolução Francesa. Hoje restam apenas as pedras que marcam o contorno da construção. Apenas uma placa comemorativa explicita esses vestígios, por sinal difíceis de distinguir com todo o trânsito da praça. Não fossem essas lembranças, pareceriam apenas pedras comuns no chão...

 Ao lado, outra placa, em agradecimento "a nossos pais de 1789", dedicada pelos "estudantes de 1880".
É difícil definir a sensação de estranheza experimentada num lugar que ao mesmo tempo foi, simbolicamente, o epicentro da contemporaneidade, o ponto de partida do estranho mundo em que vivemos hoje, mas que não guarda muitas lembranças visíveis do que era a Bastilha em 1789, à ocasião daquele fatídico 14 de julho.

Por estranho que pareça, o que se sente ali é uma ausência incomensuravelmente densa, como um objeto invisível mas poderoso, um centro gravitacional que só pode ser percebido por seus efeitos; como um buraco negro, talvez, ou como uma radiação de fundo. É como se a Bastilha destroçada nunca tivesse deixado de estar ali; mais complexo ainda, é como se ela só exista significativamente exatamente porque deixou de existir. Um paradoxo: ela só está ali porque não está ali.

Como uma espécie de "matéria escura", uma massa colossal de simbolismo invisível, que faz gravitacionar a seu redor inúmeros outros monumentos significativamente ligados direta ou indiretamente à própria Revolução, como a Torre Eiffel (comemorativa do centenário), o Arco do Triunfo (marcando as vitórias do exército revolucionário), entre tantos outros (Invalides, Conciergerie, etc).

De fato, talvez seja tão importante porque sua ausência represente a posteriori a própria "destruição" do Antigo Regime. De qualquer forma, me parece inevitável que a Bastilha perdeu sua existência material apenas para adquirir um outro tipo de existência muito mais poderosa, onipresente e incontornável: a existência simbólica. Tornou-se um monumento tecido de ausência.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Notre Dame de Paris, 2012


Hoje realizei um velho sonho: visitar Notre Dame! Justamente Notre Dame de Paris, 1482 foi o primeiro livro de Victor Hugo que li, o início de uma grande paixão literária. Em grande parte devo a essa leitura boa parte dos desenvolvimentos posteriores de minha formação como historiador. Particularmente emocionante foi o encontro com as famosas gárgulas. O telhado de Notre Dame é um lugar para se sonhar...


O olhar sonhador dessa gárgula simiesca me parece muito curioso... Que panorama ele teria descortinado do alto da catedral na Paris medieval? Ele "viu", em seu posto de sentinela imóvel, a Île de la Cité e as duas margens do Sena se transformando ao longo de quase 850 anos de história. Debruçada no parapeito de Notre Dame, essa gárgula "assistiu" ao massacre de São Bartolomeu, a Revolução francesa e tantos e tantos outros acontecimentos centrais à história da França e do Ocidente...

Não resisti à tentação de um bate-papo ao melhor "estilo Quasímodo"... Por sinal, Victor Hugo é um personagem central da história de Notre Dame, à medida em que precipitou a formação de novos significados em torno do edifício e do patrimônio histórico francês em geral. Recomendo a todos a leitura do magnífico capítulo "Paris à vol d`oiseau", verdadeira obra-prima historiográfica. Escrevendo sobre Notre Dame, Hugo se tornou parte importantíssima da história da própria catedral. Que mais poderia desejar um escritor?




 É impressionante pensar que essas esculturas estão lá há quase um milênio, e continuam tão vivas e fascinantes quanto à época em que sofreram os primeiros golpes do cinzel... Por sinal, o camarada aí em cima saiu de Hogwarts ou da Terra Média?
No entanto, é interessante observar que Notre Dame é mais que uma obra medieval: é um edifício vivo que encontrou sua evolução ao longo de séculos da história da França e de Paris. Por exemplo, que dizer dessa magnífica imagem de Joana d`Arc? Esculpida no ínício do século XX, a imagem remete também a um período da história francesa posterior à construção da catedral. Desde seu princípio, Notre Dame tem sido capaz de atrair e integrar transformações constantes. Talvez seja por isso mesmo a mais importante construção da Île de la Cité, resistindo aos séculos, enquanto todo o resto se desmanchava ao seu redor...

Contudo, a peça mais interessante para mim foi essa Nossa Senhora de Guadalupe, incorporada à catedral em 1685, sob encomenda de um aristocrata da alta nobreza francesa (esqueci seu nome!). Uma imagem originária do Novo Mundo, elaborada no seio das culturas ameríndias do México, conseguiu abrir caminho e encontrar seu espaço numa catedral construída no coração do Velho Mundo. Como são complexas as relações e mediações culturais que tornaram isso possível! Faz pensar na Guerra das Imagens, obra magistral de Gruzinski onde justamente a Virgem de Guadalupe ocupa papel central; lembra também o magistral Inferno atlântico de Laura de Melo e Souza: a América também moldou a Europa na Idade Moderna...
 E como estará Notre Dame de Paris em 2112? Só as gárgulas saberão...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Primeiras impressões parisienses

Paris é linda. Isso não quer dizer muita coisa, mas é verdade. Mas não exatamente pela cidade em si, por suas construções belíssimas. Há algo aqui que é muito, muito especial. Hoje, andando nos corredores da Sorbonne, tive uma pista do que pode ser isso. Tudo aqui é História, mas não história encapsulada, isolada numa bolha. Ao contrário do Rio, onde os espaços arquitetônicos percebidos como "do passado" ou "do presente" são muito claramente demarcados, a relação entre passado e presente na tessitura urbana parisiense parece muito mais fluida. As construções são muitas vezes uma bricolagem de usos diversos. O prédio da Sorbonne é quase milenar, mas é um edifício vivo, cheio de adaptações para os usos do presente. É um tanto como se os homens de hoje pedissem licença aos seus ancestrais para se apropriarem de sua construção para novos usos. Também é curioso observar o quanto essa atitude parece natural para os estudantes que estão lá.

Mas seria possível ser de outra maneira? Sobrevoar a França é uma experiência única, não tanto pela beleza da paisagem, mas pela inevitável comparação à América do Sul. Aqui, as terras parecem ter sido plenamente domesticadas pelo homem, após milênios de ocupação intensiva do solo. Uma linda colcha de retalhos de campos sucedendo a campos, pontilhada aqui e ali por alguns bosques, que são muito mais fruto da iniciativa humana, vestígios de antigas reservas de caça, repositórios de lenha, que propriamente uma floresta primária. Sobrevoar a França torna visível, perceptível "a olho nu", digamos assim, o quanto nós somos realmente uma força da natureza, enquanto coletividade humana. Muito bonito, mas um tanto melancólico. Por outro lado, nossa América do Sul, permanece em grande parte indomada, apesar dos milênios de ocupação indígena. Visto de cima, o Novo Mundo parece mais pujante, parece guardar uma força juvenil, uma energia vital mais poderosa, não sei...

Ao mesmo tempo, passar pela Península Ibérica parece muito evocativo, ou talvez esclarecedor. Apesar da curta distância, é um outro mundo. A natureza é muito mais agreste, rude, difícil, em comparação à fertilidade das planícies francesa... Fica mais fácil entender porque a aventura marítima sempre foi tão atraente aos ibéricos, enquanto os franceses só começaram a tê-la por necessária muito mais tarde, em meados do século XVII.

Continuo viajando com Clio; novidades em breves posts!