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Mostrando postagens com marcador Imaginação. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 3 de outubro de 2023

Guarani Taradão - Literatura pelo método confuso

-O Guarani era taradão, né, Professor?

-O Guarani...?!

-O professor de Literatura é que disse; o Guarani só pensava em sexo!

- Será que você não está falando do Macunaíma, de Mário de Andrade?

-Ah, é! Acho que era esse aí...

Errou o índio, mas pelo menos estava atento à aula de Literatura...

"Ceci n'est pas Peri".





sábado, 30 de setembro de 2023

Brasil - Distopia da distopia

Ficções distópicas costumam imaginar regimes políticos opressivos onde a alta tecnologia é posta a serviço da vigilância da população sob os mais variados aspectos, estabelecendo intoleráveis sistemas de controle social.

Em uma autêntica distopia à brasileira os avançados sistemas de vigilância seriam adquiridos a preços superfaturados e apenas parcialmente instalados (fora do prazo, de preferência). O equipamento instalado seria parcamente supervisionado, por falta de pessoal, empregando mão-de-obra precarizada. Finalmente, o custoso equipamento logo deixaria de funcionar, por falta de manutenção. De resto, as autoridades em nossa distopia brasileira estariam mais interessadas em coletar propinas que em realmente vigiar a população...

Gambiarra panóptica


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

MCU - Mega Circo Unificado

Me surpreendi hoje ao constatar que o tão badalado "Universo Marvel" (MCU para os íntimos) já tem trinta e um (!) filmes lançados e mais uns oito (!) agendados - fora os seriados e especiais de TV e streaming (!!!).

Gosto de super-heróis, gosto de (alguns) filmes de super-herois, mas... Para tudo há um limite. 

Excluindo algumas obras mais inspiradas, o grosso dessa produção poderia receber o rótulo de "entretenimento barato" - não fosse o orçamento milionário desses filmes e sua extraordinária arrecadação - sem mencionar a vasta gama de produtos derivados.

Se essas "maravilhas" não ocupassem quase todas as salas e horários de cinema o ano inteiro, não seria o maior dos problemas. Filmes de super-heróis (não apenas Marvel) ocupam uma porção cada vez maior de sessões de cinema, deixando menos e menos espaço para outros gêneros cinematográficos.

Como se não bastasse essa quase usurpação das sessões de cinema, o fenômeno se espalha também pelas prateleiras de livrarias, lojas de brinquedos e milhares e milhares (literalmente) de sites, canais e vídeos em plataformas digitais - em sua maior parte, material de qualidade e relevância duvidosas.

Essa verdadeira monomania é prejudicial inclusive às próprias obras de super-herois, visto que a quantidade cada vez maior de produtos compromete sua qualidade, resultando em trabalhos cada vez menos criativos, mais repetitivos e esvaziados de significado - inclusive devido ao status de propriedade intelectual de grandes conglomerados de mídia; à medida que os paladinos mascarados, encapuzados e coloridos se tornam investimentos milionários, a liberdade de criação dos artistas envolvidos com essa indústria se torna mais e mais limitada, devendo se conformar a um cânone cada vez mais padronizado e enrijecido. De certa maneira, quem viu um filme Marvel, viu todos. 

Os anos 60 e 70 foram quase uma Nova Gênese para os quadrinhos de super-herois, pela contribuição de criadores como Stan Lee, Dennis O'Neal, Jack Kirby, Neal Adams e muitos outros (apesar do papel vagabundo e da limitada paleta de cores); os anos 80 e 90 viram uma vibrante explosão criativa, encabeça por figuras como Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, John Byrne, Grant Morrison e outras mentes talentosas - foi o período em que emergiram as ambiciosas "graphic novels", com maiores pretensões artísticas e recursos editoriais mais vastos. O mesmo não pode ser dito das primeiras décadas do século XXI, marcadas por uma assombrosa estagnação, produzindo poucas obras dignas de nota, apesar dos notáveis avanços técnicos que viabilizam edições belas, caras e artisticamente pobres - décadas estéreis como Apokolips...

Tal excesso de oferta, que beira a imposição,  a meu ver, já está se tornando um fator de alienação cultural para grande parte do público, especialmente dos mais jovens. A diversidade é essencial para o cultivo do ser humano em plenitude. Há que se explorar outros horizontes, navegar e mergulhar em outros mares.

Em sua maioria, filmes de super-herois são divertidos, mas tremendamente superficiais. Diversão é importante, mas não pode ser tudo na vida. Um ser humano que se cultive apenas com obras divertidas perde a oportunidade de explorar outras facetas da vida, do mundo, e de si mesmo. O próprio mundo dos quadrinhos, por sinal, não pode ser resumidos a franquias de super-herois - há muitos outros gêneros de "gibis", cada qual com suas riquezas. 

Até a diversão demasiada termina por saturar, enfastiar; deixa de ser um prazer para se tornar uma compulsão - sacia, mas não alimenta. E haja circo para pouco pão...

Viraremos todos "zumbis Marvel"?


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Professor, o que é personalidade?"

Encerro perplexo o dia de hoje.

Venho trabalhando imaginário e mitologia com minhas turmas de 6° e 7°ano e propus uma atividade para que meus alunos criem um monstro e um herói, orientados por uma ficha, visando a posterior elaboração de uma narrativa ficcional. 

A pergunta que mais ouvi ao longo do dia foi: "Professor, o que é personalidade?" 

Encontrei extrema dificuldade para me fazer entender por alguns estudantes. Não conseguiam perceber a diferença entre uma característica física, como "forte" e outra de ordem psíquica, como "corajoso". A maneira que melhor encontrei para tornar a diferença mais inteligível foi opondo "características do corpo" a "características do coração ou da alma".  Alguns pareciam confusos com a própria definição de "característica". 

Em dezesseis anos de magistério já vi muita coisa espantosa, mas o episódio de hoje me pareceu particularmente perturbador. 

Me pergunto quanto deve ser difícil para um ser humano conquistar o mínimo de autoconhecimento, de capacidade de reflexão sobre si mesmo e sua vida, sem dominar palavras e noções tão essenciais para isso, como "personalidade" ou "característica". 

Me parece extraodinariamente difícil avaliar o impacto de semelhante empobrecimento de vocabulário não apenas sobre os estudantes propriamente ditos, mas também sobre o ambiente social em que vivem. Soa como algo quase orwelliano.

Nos últimos meses o mundo vem se mostrando perplexo com o chatbot ChatGPT, capaz de gerar textos complexos (embora superficiais) cosendo retalhos textuais extraídos de sua imensa base de dados.

É inquietante viver em uma época em que máquinas absolutamente inconscientes sejam capazes de "redigir" textos por inteligência artificial (simulacro que sempre tem muito mais artifício que inteligência) e, ao mesmo tempo, jovens humanos mostrem tamanha dificuldade para compreender palavras e noções não apenas corriqueiras, mas imprescindíveis ao desenvolvimento de suas consciências, em suas múltiplas dimensões. Alienados de ferramentas cognitivas tão poderosas, se alienam de si mesmos e, consequentemente, do mundo. 

Mais espanto que os avanços da inteligência artificial deveriam causar as graves perdas culturais coletivas, que minam nossa capacidade de expressão, comunicação e convívio. 

Um dos grandes desafios de nossa época, mais que nunca, parece ser o de reconhecer, resgatar e cultivar nossa maravilhosa capacidade de nos fazermos plenamente humanos. Nesse tempo em  que as máquinas parecem permear tantos aspectos da experiência humana, os apelos de Erasmo de Roterdã e Pico Della Mirandola se mostram não apenas atuais, mas urgentíssimos. Precisamos humanizar nosso presente, para que o futuro valha a pena ser vivido; para que não nos tornemos pessoas controladas por máquinas controladas por outras pessoas, como diria Frank Herbert - pois é exatamente disso que se trata. 

Dentro de cada um de nós dorme um potencial tremendo; que não nos faltem a sabedoria e a coragem para desperta-lo.



domingo, 5 de fevereiro de 2023

Riddle me this

Can a bat fly twice at the same city? Bat and city are never the same. Sameness is in the eye of the beholder - but does the same eye see the bat twice?



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Japamala

Cada lágrima derramada é semente plantada no solo da alma, aguardando oportunidade para germinar. Bem-aventurados os que choram. 



segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Torii

Mil portais

Mil degraus

Mil travessias

Mil barreiras superadas

Mil passos mais perto da Verdade

Mil passos de cada vez, sempre longe

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Jair e Inácio no Purgatório

 De queda em queda, ferozmente atracados, Jair e Inácio despencaram no Purgatório. 

"Sou o Povo"! - gritava um.

"Sou a Ordem"! - berrava outro.

Com olhos injetados de sangue se evisceravam, às gargalhadas, os dois marotos, como anões gigantes sob o céu crepuscular, rodeados por silhuetas de papelão. 

"Vencerei"!

"Perderás"!

 Espumavam saliva em seus lábios, como cadelas raivosas em cio perverso. Sulfurosas gotas de sangue queimavan e esterilizavam o solo onde caíam, tudo matando em odor putrefato - terra arrasada!

Estrela decadente e capitão das trevas, lutavam por lutar, pelo prazer soturno da hedionda disputa, sedentos de glórias vazias, famintos de realidade.

Sob aplausos histéricos se entremordiam, perante uma plateia de sombras esquecidas de si mesmas, bestialmente entorpecidas, fascinadas pelo espetáculo. 

"Pega!"

"Mata!"

"Esfola!"

A turba clamava, delirante, aspergida pelo fétido sangue dos contendores.

Conforme lutavam, suas carnes e ossos se fundiam, como galhos e raízes que se entrelaçam e sufocam.

Uma força irresistível arrastava a multidão ao combate. Não havia mais lutadores, apenas uma massa amorfa, com milhares de olhos cegos, ouvidos surdos e bocas peçonhentas. Uma miríade de braços e pernas se contorcia em grotescas convulsões. 

A colossal massa de carne purulenta e ossos retorcidos rolava sobre pedras pontiagudas, escalavrada, sofrida, murmurando um coro incerto de gemidos aterradores.

Ao cabo de infinitos momentos o corpanzil disforme agonizava em espasmos frenéticos. 

O silêncio reinava no Abismo, exalando odor de penumbra.

A multidão de almas repousava na obscena paz dos corpos em decomposição. 

CAPÍTULO PRIMEIRO DO LIVRO DOS CONDENADOS 

"The great red dragon and the woman clothed in sun" - Wiliam Blake



segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Fabricantes de Mitos

"Nós criamos nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Ele não precisa ser uma realidade. Ele é uma realidade no sentido de que é um estímulo, é esperança, é fé, é coragem. Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação! E a esse mito, essa grandeza, que queremos traduzir em uma realidade total, nós subordinamos todo o resto. [...] No fundo, [o Fascismo] é um nacionalismo apaixonado".

Benito Mussolini, 1924



terça-feira, 2 de novembro de 2021

O "Eu" que não fala de mim

Dedicado a minha prima Leilane

Semana passada completei 38 anos de idade. No dia de meu aniversário recebi por WhatsApp a fotografia abaixo, enviada por minha prima Leilane e acompanhada de um meigo comentário: "Para aquecer seu coração, diretamente do túnel do tempo, o Luiz do passado vem saudar o Luiz do presente".

Nesta foto eu tinha cerca de um ano de idade (minha prima sequer era nascida). Não sei dizer se o local da fotografia era a varanda da casa de minha avó ou de seu irmão - ambos moravam na mesma vila e as fachadas das respectivas casas ainda permaneciam como originalmente construídas, em meados dos anos 50. A ausência de vasos de plantas, todavia, sugere que se trate da casa de meu tio-avô. Ao fundo da foto se percebem os contornos de dois adultos da família. Quem seria? Impossível identificar. A julgar por minha roupa, era uma ocasião festiva.

Mais que pela fotografia, em um primeiro momento me senti muito tocado pelo comentário de minha prima sobre o encontro entre o "Luiz do passado" e o "Luiz do presente". Um encontro entre eu e eu mesmo.

Olhando para o menino na foto e pensando na fala de Leilane, me peguei meditando sobre uma indagação de Derrida em uma antiga entrevista: "qui est ce 'Moi' qui parle de moi-même"? Embora não seja apreciador da obra de Derrida, assistindo a entrevista, a formulação do questionamento, um tanto perdida na algaravia costumeira ao filósofo, me pareceu muito feliz: quem é o "Eu" que fala de mim mesmo? 

Evocando o questionamento de Derrida, a singela fotografia me pareceu a um só tempo extraordinariamente familiar e curiosamente estranha. Quem era esse "Luiz do passado", com o indicador na boca, como a cutucar um dente, contemplado pelo "Luiz do presente"?

À época da foto eu já caminhava e, segundo fontes fidedignas, falava pelos cotovelos. A crer nas pessoas de minha família, fui muito precoce no desenvolvimento da fala. Em pouco tempo usava um vocabulário considerável e falava com uma articulação e desenvoltura incomuns para minha idade.

E, no entanto, que falava esse menino da fotografia? Mais ainda, que pensava ele? Com o dedo na boca e a encarar a lente da câmera, que pensava ele? Ou ainda, como pensava ele? Que tortuosos processos cognitivos se arranjavam na mente daquele ser falante? Quem era aquele "Eu" que não sou mais? Impossível saber.

Apesar da linguagem supostamente desenvolta, aquela mente pensante deixou poucas memórias nítidas. E, no entanto, a mente que redige essas linhas necessariamente partilha de muita coisa pensada por esse "Luiz do passado". Ao distinguir esta e aquela mente penso como Heráclito - a mente em devir nunca é igual a si mesma; talvez o próprio fato de pensar em si mesma já a faça diferente, gerando cada vez mais instâncias de metacognição, como uma imagem refletida por infinitos espelhos ou como uma gravura de Escher.

Qual era exatamente a extensão do vocabulário dessa criança seria impossível dizer, mas foi certamente nessa época que aprendi muitas das palavras que ainda hoje emprego. Esse núcleo mais primário da linguagem, alguns verbos, substantivos, advérbios faz parte do patrimônio que compartilhamos - mais ainda, do patrimônio cognitivo a mim legado por esse "Luiz do passado".

Duas palavras que certamente já deviam integrar meu vocabulário a essa altura eram os advérbios "sim" e "não". Mas que significavam essas palavras para esse "Luiz do passado"? Antes de tudo, suponho, instrumentos para manifestar ao mundo sua vontade. No "sim" e no "não" há uma consciência que emerge para a vida, um aceitar e um recusar certos modos de se relacionar com o mundo ao redor.

Segundo minha mãe, ao começar a falar, passei a rejeitar sistematicamente certos alimentos que antes consumia passivamente (entre os quais peixe e banana, aos quais voltarei). Como toda criança, descobria e formava meu paladar. A descoberta, ou mais propriamente revelação, dos alimentos que nos agradam ou não talvez seja um de nossos primeiros passos rumo ao autoconhecimento e à consciência de nós mesmos. Mas, muito antes da consciência de nós mesmos, um gesto de recusa ativa ao que o mundo - aí manifesto pela família - nos oferece e impõe. 

Um gesto primordial em que começamos o lento, incessante e interminável movimento pelo qual demarcamos um espaço entre o "eu" e os "outros". Obviamente permanecemos na condição de dependentes e comensais daqueles que nos alimentam. No entanto, deixamos gradativamente nossa posição de receptores passivos. 

A recusa é também um gesto de seleção. Uma seleção intuitiva, mas um vago despertar do "eu" que se demarca do "outro" através de uma vontade que ainda não se sabe vontade, mas que já se manifesta - mesmo sem palavras, muito antes das palavras. Na primeira vez que cada um de nós cospe um alimento desagradável se esboça instintivamente uma reação contra uma vontade que se impõe a nós - uma vontade à qual provavelmente antes cedíamos incondicionalmente, inconscientes de nossa capacidade recusar.

O cuspir do alimento tem algo de qualitativamente distinto do choro do recém-nascido. Nesse primeiro chorar se manifesta um vago descontentamento de sede, fome ou dor, mas que não reconhece bem o objeto de sua desdita. O alimento que cuspimos, todavia, é algo muito concreto, um corpo estranho cujo contato nossa língua repudia. 

Assim como o Atoun de certa cosmogonia egípcia criava Geb, Nut e Rá - Terra, Céu e Sol - através de uma cusparada no "tempo da primeira vez", nessa cusparada a um tempo instintiva e voluntária iniciamos o parto de nós mesmos, sempre incompleto e provisório. Eis a maiêutica primordial, incessantemente repetida pela maioria dos seres humanos desde o alvorecer da humanidade - e provavelmente antes, por incontáveis hominídeos, mamíferos e sabe mais quantas categorias de seres que habitam esse mundo. 

Quando meu cão cospe ou afasta o focinho de um alimento que o desagrada estamos unidos por algo muito profundo, entrelaçado talvez em nosso DNA - possivelmente uma aquisição evolutiva para evitar a ingestão de substâncias potencialmente tóxicas. Em todo caso, o cuspir do bebê humano tem algo de filogenético e ontogenético - muito individual, mas que, em muitos sentidos, transcende nossa individualidade e mesmo nossa espécie.

Nessa rejeição se manifesta o "Não", mas se inscreve também o "Sim" - "não" e "sim" que a poética taoísta tantas vezes associa ao yang e ao yin. Talvez aceitação e rejeição constituam nosso mais visceral modelo de relacionamento com a realidade, possivelmente as forças que mais nos movem em nosso cotidiano e pelas quais se tramam as redes de nossa sociedade. Em mim há alguma consciência tanto daquilo que aceito quanto do que recuso. Atração e repulsa constituem boa parte do que somos. Quando não gostamos de algo, há indubitavelmente parte desse algo em nós.

"Sim" e "Não" são as bases de nossas escolhas, o próprio caminho de nossas vidas, desde seus primeiros estágios. Mas é superando tanto o "sim" quanto o "não" que somos mais plenamente livres. Bergson diferenciava liberdade e livre-arbítrio de modo muito curioso. Segundo ele, o livre-arbítrio seria meramente nossa capacidade de escolher entre opções que a vida nos oferece. A  liberdade em sentido mais pleno só emergiria realmente nos raros momentos em que criamos algo, nas situações em que entrevemos algo além das possibilidades que a vida põe diante de nós.

De certo modo é o que temos feito ao longo de toda nossa história. O ser humano é um ser que cria todo tipo de coisas novas, de artefatos a canções - homo faber; mas esse gesto de criar livremente é também um modo de driblar as limitações que a realidade nos impõe, um jogar no qual somos também homo ludens. O brincar é certamente um de nossos primeiros modos de interagir com o mundo e com nossos semelhantes, sempre anterior à fala. E também o brincar, ressaltava Huizinga, é algo que partilhamos com boa parte dos animais. Em seu magistral "Homo ludens", Huizinga sustenta que o jogar é onde nos fazemos mais plenamente humanos - "spielen", "jouer", "to play" são verbos que as línguas alemã, francesa e inglesa relacionam às mais diversas atividades - o jogo propriamente dito, mas também a música, o teatro, a adivinhação, o ritual - atividades em que nos sentimos quase sempre absortos, distanciados das atividades ordinárias da subsistência, em que nossas mentes se sentem libertas e envolvidas pela imaginação. Durante o momento do jogo, o que mais importa é o próprio folguedo, que nos absorve e envolve. 

Esse "Luiz do passado" que encontro na fotografia era já um ser brincante. Como brincava? Não sei, mas brincava.  Brincadeiras e brinquedos constituem as memórias mais vividas e intensas de minha infância - e suponho que se dê o mesmo para maioria de nós. No brincar nos fazemos plenamente livres, no sentido bergsoniano. Para a criança que brinca, a realidade se faz trampolim para a imaginação. Tudo pode ser qualquer coisa - uma vassoura se faz cavalo, um balde se faz cachorro, uma pedra pode ser uma motocicleta...

Com efeito, uma das memórias mais vívidas de minha primeira infância remete a uma viagem ao município fluminense de Santo Antônio de Pádua. Ao entardecer eu costumava brincar em uma pracinha onde uma pedra achatada, em minha imaginação, se transformava em uma potente moto - perfeitamente estática, mas ainda assim em intenso movimento, veloz como um meteoro. A pedra-moto e eu nos movíamos imaginariamente - e não tão imaginariamente, sincronizados que estávamos com os movimentos de rotação e translação planetária. 

Coisa estranha, uma moto-pedra! Como nossos ancestrais pré-históricos eu via uma pedra, e naquela pedra imaginava algo mais. E quantas coisas somos capazes de ver no perfil de pedras, montanhas, sombras, objetos e reflexos. Em nossa imaginação podemos sempre ver e criar um "algo mais". Com sua criatividade incendiada e flamejante, o homo ludens vislumbra um potencial que, com muito esforço, o homo faber faz emergir como algo concreto. Talvez naquela pracinha de Santo Antônio de Pádua, minha mente realizasse processos não muito diferentes daqueles de nossos ancestrais na Garganta de Olduvai.

Talvez a tal pedra ainda esteja por lá até hoje. Quantas outras crianças antes e depois de mim não projetaram sobre aquela pedra seus mais acalentados desejos? 

Em minha casa, no Rio, eu tinha meu velocípede, que em minha imaginação também se transformava em motocicleta. E, no entanto, as limitações do velocípede ficavam sempre evidentes, por mais vigorosas que fossem minhas pedaladas. A ilusão talvez se tornasse um pouco mais palpável quando descia a ladeira da vila, freando com os chinelos. Ladeira abaixo, o velocípede corria velozmente e sem esforço, mas a descida era breve, e a realidade logo se impunha. Qual pequeno Sísifo, precisava de novo e de novo puxar o velocípede ladeira acima para gozar daqueles vertiginosos segundos.

A moto-pedra, pelo contrário, por sua própria condição física, só podia se mover por virtude da imaginação, que desconhece limites. Em seu contorno achatado, vagamente reminiscente de uma motocicleta, a pedra se tornava suporte para o exercício ilimitado da imaginação.

Mas o "Luiz do passado" que desvairadamente passeava em sua moto-pedra era um outro "Luiz do passado", não o mesmo da fotografia. E, no entanto, o "Luiz do presente" consegue ao menos se recordar das sensações evocadas pelos passeios em moto-pedra - o sentar-me no "assento", o inclinar-me para frente, o agarrar os guidões imaginários, o estático acelerar, as onomatopeias emitidas, o balançar-me de um lado para outro, ao sabor das curvas fantasiadas... Sensações que, mesmo sentado diante do computador, meu corpo adulto consegue, de certa maneira, emular.

Em sua moto-pedra, aquele "Luiz do passado", sem o saber, era também ator e plateia, tudo de uma vez - um tanto como o "Luiz do presente" com os videogames que não consegue abandonar. Homo semper ludens. Do berço ao túmulo, de certo modo, o viver em sociedade é um perpétuo role playing game - daí talvez boa parte do fascínio que os RPGs, em suas mais diversas modalidades, exercem sobre os jogadores.

Mas, para além do patrimônio mental partilhado, que mais nos une, "Luiz do passado" e "do presente"? Luzes olhares.

No momento, contemplo não apenas uma fotografia, mas uma fotografia de uma fotografia - mais precisamente, uma fotografia digital de uma fotografia analógica. Jogo de luzes a se perpetuar por quase quatro décadas. Em algum momento, por volta de 1984 alguém apontou uma câmera para o "Luiz do passado" e, com um clique, fez com que o filme dentro do aparelho fosse impressionado pela luz que penetrava pela lente, tendo antes "tocado" o corpo daquele menino, assim como o espaço e as pessoas ao redor. Em um laboratório, por procedimentos químicos, a frágil imagem formada no filme foi transposta para papel fotográfico, guardando o registro daquela criança naquele efêmero instante.

Guardada por anos, a fotografia foi novamente fotografada, desta vez por minha prima que sequer era nascida na época em que o retrato original fora feito, provavelmente através da câmera de seu smartphone, desta vez impressionando um delicado "fotorreceptor" capaz de registrar a luz como pixels, codificados eles mesmos através do código binário, usando o padrão .jpeg, elaborado e convencionado pela indústria do software. Enquanto escrevo, visualizo essa imagem como luz projetada pela tela de meu notebook. 

Mas em cada etapa desse processo, ao longe de tantos anos, luz, sempre luz, impressionando tanto esses engenhosos artefatos humanos quanto, mais importante, nossas retinas e mobilizando nosso aparato cerebral, para que nossas mentes atribuam significado essa imagem de um menino. Convertida e reconvertida, sempre luz.

Mais importante que a luz, no entanto, é o olhar, menos como potência fisiológica que como modo de interação com o mundo. Através dessa imagem, como em um espelho mágico, o "Luiz do presente" contempla o "Luiz do passado". No entanto, alguém em 1984 olhou para aquele menino, apontou a câmera em sua direção e, com um clique, registrou aquele instante preciso, naquele exato ângulo. Quem era exatamente o fotógrafo? Difícil dizer; em todo caso, era alguém que tinha interesse e carinho por aquela criança, uma das inúmeras pessoas com as quais cresci e convivi.

E, naquele exato momento, o "Luiz do passado" olhava para aquela pessoa que fotografava, com um misto de atenção e curiosidade, como quem é repentinamente chamado, como se faz normalmente para fotografar crianças pequenas. A posição dos pés esquerdo e direito, apontando em direções ligeiramente diferentes sugere a interrupção do caminhar. Provavelmente ele não tinha muita consciência de que naquele exato momento se formava uma imagem dele mesmo em um filme fotográfico. Nos anos que se seguiriam, por sinal, câmeras fotográficas permaneceram para mim objetos muito cobiçados aos quais, todavia, os adultos me negavam acesso; só muito mais tarde me foi permitido e manusear câmeras - um objeto frágil e caro, assim como relativamente caro era o próprio filme que registrava as imagens; nenhuma pose devia ser desperdiçada, algo inimaginável nesse tempo em que podemos produzir milhares de fotografias por dia a custo irrisório, fotografias cuja proliferação quase descontrolada, pulsional até, parece tornar menos e menos preciosas.

O menino fotografado ainda permitia que seus cabelos fossem penteados, e estes eram muito mais claros do que se tornaram ao longo dos anos, acompanhando as mudanças de seu metabolismo. O "Luiz do presente" começa a ter fios brancos un peu partout e uma calvície que começa a se mostrar com mais veemência. Ao longo dos anos fez as pazes com as bananas, mas continua muito reticente e seletivo no que diz respeito ao consumo de peixes. Algumas das barreiras que erguemos entre nós e o mundo ao longo da vida são mais duradouras que as outras. É através das pequenas e grandes aquiescências e desobediências que, ao longo da vida, tecemos nossa alma em sua singularidade. A cada "sim" e a cada "não" negociamos nossas fronteiras, sempre imaginárias, com o mundo e a vida.

Como a simbolizar essas barreiras e fronteiras, a emoldurar e separar o antes do agora, é possível perceber nas partes superior e inferior da imagem a superfície sobre a qual a antiga fotografia foi pousada para ser novamente fotografada. "Ceci n'est pas cela".

Há muita coisa que me aproxima e distancia deste "Luiz do passado" capturado pela fotografia. E é nesse constante movimento de aproximação e distanciamento que emerge "o 'Eu' que fala de mim mesmo", o pensamento que pensa a si mesmo. No entanto, todo esse pensamento se elabora a partir de um olhar composto por afetos sobrepostos - do misterioso fotógrafo, da prima carinhosa, do próprio "Luiz do presente". Olhar sempre portador de pensamentos, muitas vezes inconscientes, que não pensam a si mesmos - em certo sentido, o Eu que não fala de mim e, para bem ou para mal, permanece alheio a si mesmo... Virando a indagação de Derrida de ponta-cabeça, quem é o Eu-mesmo que permanece sempre além de mim?

quarta-feira, 31 de março de 2021

sábado, 27 de março de 2021

sábado, 20 de fevereiro de 2021

"É na escuridão que mais claramente vemos" - entrevista com o escritor Rodrigo Watzl

Entre as obras de ficção científica que li nos últimos anos, uma das mais instigantes e surpreendentes é Herdeiros da Eternidade, de Rodrigo Watzl. Tive a oportunidade - e o imenso prazer - de ler o romance ainda no manuscrito, mas o livro já se encontra publicado, pela Editora Gana. Nesta entrevista, o criador permite entrever o que há de tão fascinante na criatura...


Um dos aspectos literários mais fascinantes de Herdeiros da Eternidade - ao menos para mim - é o modo complementar e paralelo com que a trama política e aquela de ficção científica se desenrolam. A meu ver, o romance é quase um híbrido de sci-fi e thriller político. Como você desenvolveu essa simbiose temática? Era algo previsto desde a concepção ou foi emergindo com o desenvolvimento da obra?

Luiz, em primeiro lugar, obrigado pela oportunidade que você está me oferecendo. De verdade. Bem, a coisa toda foi a seguinte: eu estava em uma festa de ano novo (isso foi em 2005/2006) e houve um momento em que o céu capturou a minha atenção. Ali, veio a ideia inicial que tem relação com a parte da ficção científica propriamente dita, embora de uma forma ainda muito superficial. Embora não fosse tão novo nessa época (eu tinha vinte e sete anos), minhas preocupações tinham outra natureza (principalmente trabalho e estudos). Mas o tempo prosseguiu em sua marcha e, é claro, ninguém passa por isso impunemente. Meu pensamento foi mudando, fui dedicando mais atenção a aspectos mais mundanos do ambiente social. E os primeiros capítulos, ou melhor, seus primeiros esboços, foram rabiscados em 2009. Eu entendo esse processo como um início de "fermentação" da ideia no "caldo" do inconsciente. E o protagonista era um alto funcionário de Estado em um país fictício. Quando se pensa em escrever uma história assim, é natural (ou pelo menos esperado) que o desenvolvimento exija essa abordagem em um cenário correspondente. Não fazer isso seria, acredito, escrever uma história com, vamos dizer assim, "pouca densidade". Afinal, indivíduos e contextos se afetam reciprocamente, seja na ficção, seja no mundo real. Ainda assim, a ideia estava a quatro mil anos luz do que foi se tornando. E a referência à distância, você deve entender, foi intencional.

Fascinante - como diria o Sr. Spock. Pelo que você diz, o processo criativo foi, em boa medida, "dialético". Suponho que isso tenha em alguma medida ajudado o desenvolvimento das dimensões filosóficas da obra, que ficam mais evidentes na relação entre os personagens Vera e João Paulo. Mas você mesmo tem um grande interesse por filosofia. Indagar se esse interesse influenciou a obra seria, talvez, trivial. Me sinto mais curioso para saber se, de alguma maneira, o processo de criação do romance afetou a sua maneira de encarar a filosofia. E ainda: qual foi a maior dificuldade que você enfrentou ao escrever os diálogos entre Vera e João Paulo?

Sim, foi. E acredito que essa dialética tenha uma relação bastante próxima com uma tentativa de compreensão do ambiente, enquanto autor. Algo como encaixar a realidade em uma moldura teórica, sem precisar sucumbir a um preciosismo filosófico que tornaria a narrativa provavelmente muito cansativa. Nesse sentido, e respondendo à sua primeira pergunta, acredito que sim. Há ali uma intenção ontológica, porque se trata de uma tentativa de compreender o real, o ser. É, portanto, uma exposição da apreciação da realidade de uma forma que preserva a "superfície", e mesmo a materialidade, do ser enquanto tal, mas que procura entender sua essência sob um ponto de vista um pouco... diferente. Como indivíduo, eu carrego uma bagagem de crenças e algumas destas foram consideravelmente reformuladas com o objetivo de usar a história para transmitir a mensagem que me interessava. É curioso pensar que não apenas os livros que lemos, mas os que escrevemos também têm a propriedade de nos modificar.

Respondendo à sua segunda pergunta, as dificuldades foram consideráveis. Aliás, eu levei anos para concluir o livro não apenas porque havia aperfeiçoamentos a serem feitos, detalhes para "amarrar", contradições para corrigir, etc., mas também porque, em se tratando dos diálogos entre João Paulo e Vera, estamos falando aqui de uma conversa entre um humano e a criatura mais poderosa do universo. Alguém dotada de um conhecimento absoluto. Mas também é justo e honesto dizer que o trabalho somente foi possível, porque passou por um longo processo de "fermentação" no caldo do inconsciente, como respondi antes.

Seu comentário sobre as modificações que um livro pode suscitar em seu leitor me fazem pensar em minha própria experiência ao ler Herdeiros. Como já conversamos em outra ocasião, a leitura não apenas me ofereceu temas para semanas de ruminação como me parece ser o tipo de livro que exige ao menos uma segunda leitura para ser plenamente fruído. Que tipo de reações, como autor, você espera que Herdeiros suscite entre os leitores?

Eu costumo criar aforismos. Não é algo como um trabalho programado, que me exija o pensamento e a atenção direcionados a um assunto específico. É um processo bem diferente e que, um dia, eu tive a sorte de perceber acontecendo. Funciona da seguinte maneira: alguma coisa banal desperta minha atenção. Pode ser um idoso na rua com dificuldade para andar, uma criança se comportando mal, alguém que maltrate um garçom, etc. Enfim, você terá compreendido a ideia da banalidade a que eu me refiro. Pois bem, essa situação trivial captura minha atenção e dispara, sabe-se lá o motivo, alguns processos mentais: lembranças, ideias e conceitos que aprendi, conclusões anteriores (minhas ou de outros). Tudo vai se combinando na minha cabeça. É como a "fermentação" de que falei outras vezes. Finda a etapa, eu enuncio um aforismo.

Então, respondendo a sua pergunta, acho que vale a pena pensar nos papeis que a filosofia e a arte exercem nas vidas das pessoas. A arte, assim entendo, exerce uma papel profilático: ela nos impede de sucumbir às pressões, oferecendo-nos a sensação de encantamento. É como dizer: "amigo, você está vivo e isso é extraordinário". Ao mesmo tempo, veja que interessante, a razão, instrumento cardeal da filosofia, exerce um papel diametralmente oposto. Dialeticamente, e parece impossível evitá-la, sob este ponto de vista, é a antítese do encantamento.

E é aqui que começa a fazer sentido a razão pela qual mencionei os aforismos. Um deles, foi este aqui: "a razão existe como remédio diante do espanto, como antídoto para o encantamento. O que, se você pensar bem, é espantoso e a torna encantadora".

É esta síntese aquilo que eu desejo ao leitor.

Adorei sua reflexão sobre o processo de alquimia aforismática; daria que pensar até a La Rochefoucauld. Eu diria que essa resposta me pôs em xeque. Assim sendo, meu lance final é perguntar sobre o engenhoso uso de epígrafes em cada capítulo do romance, cujo efeito narrativo me impressionou vivamente. Aqui passo a você a responsabilidade de realizar o xeque-mate para finalizar essa entrevista.

Quero novamente agradecer pela oportunidade, Luiz, de me fazer conhecido dos leitores do seu blog. Você foi muito generoso.

Respondendo a pergunta, eu entendo o cenário não apenas como uma parte do romance no qual a ação se desenvolve, mas como um personagem em si. Não sei se é uma abordagem muito original da minha parte, mas é a ideia fundamental e foi com base nela que as epígrafes foram concebidas. É, entretanto, a razão mais superficial, por assim dizer. Nesse sentido, acho que posso afirmar que o recurso foi utilizado com o objetivo de situar o leitor no ambiente sujo, degradado, cínico, mesquinho e calhorda da história, sem que, para isso, eu precisasse me estender no desenvolvimento dos outros personagens pelo narrador.

Aqueles canalhas são o que são e, nas epígrafes, mostram bem por que são.

Seja como for, o entendimento do cenário como personagem também está imbuído de uma razão filosófica mais profunda e que estaria arruinada se eu a explicasse aqui em detalhes. Perceba que eu me refiro à razão, não exatamente ao romance. É que, embora este, em larga medida, dependa daquela, seria uma pena privar o leitor da possibilidade de aproveitar esta oportunidade. Para compreendê-la, e aqui está a intenção do autor, o leitor deve apreciar a obra. Talvez encontre lá muito mais do que eu, o autor, entendo que esteja dito.

É este o meu convite.

Com efeito, as epígrafes cumprem essa tarefa com perfeição. Excelente artimanha literária. Como trickster existencial que sou, e genjutsushi amador, fingirei que não houve xeque-mate e prolongarei um pouco mais nossa entrevista. Como seu comentário anterior deixou claro, a ambientação da trama é sórdida e alguns personagens - Sérgio e Magno, particularmente - chegam a ser mais que canalhas. No entanto, de tanta sordidez, você tira, como um mago do chapéu, coisas sublimes - como o leitor terá o prazer de descobrir. Essa mistura entre o sórdido e o sublime, na medida certa, era o que almejava Victor Hugo em sua prosa e sua dramaturgia - bem como, evidentemente, em sua obra poética. Hugo, em boa medida, encontrou esse caminho pelas vias da dor e da compaixão. Como você diria que esse processo se dá para você? Como você olha para tanta coisa vil e mesquinha e encontra ali matéria para a busca do excelso?

Como estamos usando metáforas do xadrez, essa pergunta se assemelha ao famoso, e poderoso, "Cavalo do Kasparov". No xadrez, fala-se em temas: o "garfo" (quando o adversário ataca duas peças ao mesmo tempo), as colunas abertas para as torres, o xeque duplo, o xeque a descoberto, etc. Eu acho que, quanto ao livro e ao processo para escrevê-lo, trata-se do tema do "alívio". Como te falei antes, minhas ideias foram sofrendo modificações muito profundas com o passar dos anos. Eu costumava me definir como um otimista, um "entusiasta da raça humana". Pobre de mim... Passei, porém, e por razões que não consigo compreender, tampouco lhe explicar, a dedicar muita atenção aos vícios, à maldade. Só que é preciso levar a sério a lição de Nietzsche e tomar cuidado com isso. Então, voltando ao tema do "alívio", a ideia foi, primeiro, pintar o cenário e seus atores com as piores e, entendo, as mais realistas tintas possíveis para poder, depois, sentir o prazer visceral de respirar ar puro. E acho que é um processo natural, na verdade. É preciso ver a beleza do devir, a impermanência do mal, ou, pelo menos, acreditar nisso. Porque, no fundo, se você pensar bem, talvez concorde comigo que o pessimista não passa de um otimista amargo.

Muito bem. Me dou por vencido e convencido. Agradeço a agradável entrevista. Que tal um aforismo para encerrar a conversa?

Quem agradece sou eu, Luiz. Gostaria de dizer algumas palavras finais e que se relacionam com o aforismo que você me pediu. É que boa parte de Herdeiros, como o leitor talvez perceba, é sobre o conhecimento. No sentido mais amplo possível. E o conhecimento tem como condições o que percebemos e o que sabemos de antemão, ainda que este saber também tenha dependido, antes, da percepção. É, em última análise, algo que se fundamenta na dualidade do “ser”: sujeito e objeto. Isso em um sentido hegeliano, por assim dizer. Não pretendo, com isso, antecipar nada, embora, provavelmente esteja fracassando miseravelmente neste propósito. Espero que o leitor me compreenda e me perdoe.

Dito isso, encerro com o seguinte aforismo: “é na escuridão que mais claramente vemos”.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Mente x Máquina - Vitória impossível?

 John Henry, well, he told his captain

“Captain, a man, he ain’t nothing but a man

Before I let your steam drill

beat me down

I’m gonna die with a hammer

in my hand, Lord, Lord

I’ll die with a hammer in my hand


A lenda do bravo trabalhador John Henry sempre me encantou desde a primeira vez em que ouvi falar dela em um gibi do Supernan, com meus 10 anos de idade. O fascinante personagem folclórico é um trabalhador negro que não aceita a supremacia da máquina e morre vitorioso em uma competição contra uma perfuratriz a vapor, usando apenas seu martelo.

Na última semana travei meu próprio duelo à la mort, com uma máquina e realizei mais de uma vez algo que sempre julgara impossível: vencer um jogo eletrônico em modo "gauntlet".

Como se sabe, o modo "gauntlet" consiste em lutar contra sucessivas ondas de adversários, com poucos recursos (ou nenhum) para recuperar os danos da batalha: o que significa um árduo confronto até a derrota, sem a menor chance de vitória - exceto uma,  como me dei conta ontem.

Embora já tivesse jogado inúmeros games em "gauntlet", me tornei um aficcionado pela modalidade com meus 13 ou 14 anos,  jogando o arquiclássico Golden Axe em meu então poderoso Pentium 166. Em minha ignorância, eu imaginava que após determinado número de ondas inimigas derrotadas, haveria algo como um final surpreendente ou um prêmio. Após inúmeras tentativas descobri que estava terrivelmente equivocado. Quanto mais longe prosseguia, mais adversários enfrentava, até a inevitável "morte" no campo de honra. Essa constatação me deixou imensamente frustrado,  especialmente após todo o esforço que dedicara à empreitada guerreira.

Nunca mais retornei a Golden Axe (exceto em exposições de games antigos), mas o modo gauntlet permaneceu em minha vida. Durante alguns anos, apenas como um passa-tempo bônus após a conclusão de algum game. No entanto, amadurecendo, percebi que enfrentar gauntlets significava enfrentar a mim mesmo e superar meus próprios limites.

Para se manter de pé onda após onda, cada vez mais longe, são necessários foco e determinação a resistir "sobrevivendo" até a derrota. O momento crucial de um gauntlet é o final da partida, em que a barra de energia (ou o que o valha) se encontra praticamente esgotada e qualquer golpe adversário significa o fim da daquela batalha. Nesse momento prevalece a clareza mental de que a derrota está próxima, mas emerge a firme determinação de resistir por quantas ondas ainda for possível. A iminência da destruição e a resolução de resistir, combinadas, levam a um paradoxal estado de espírito, serenamente tenso, em que conta apenas fazer o melhor possível pelo tempo possível. Quando o "golpe mortal" finalmente chega, é recebido com a tranquiliidade de quem fez o melhor a seu alcance em uma luta onde nunca houve a mínima chance de vitória. Chegou-se tão longe quanto possível em uma jornada infinita.

Com o passar do tempo, comecei a ver os gauntlets como uma alegoria da própria vida: um combate incessante onde o que conta é a determinação de enfrentar reoluta e graciosamente cada nova onda de desafios que chega. Cada onda vencida sem danos, ou com danos mínimos, pode ser considerada, em si, uma vitória. E, com efeito, um gauntlet consiste em uma longa sucessão de vitórias contra dezenas,  até centenas de adversários, até a queda. O mais importante é tirar o máximo proveito dos limitados recursos oferecidos no início da jornada para superar os desafios encontrados.

No entanto, para minha imensa surpresa, na última semana, após tantos anos, consegui o impossível - venci o modo gauntlet.

Em minha postagem anterior, "Acidentalmente épico", registrei o momento em que, pela primeira vez, atingira a 75ª onda de atacantes no modo gauntlet do jogo Thor - God of Thunder, um excelente "beat'em-up" retrô produzido pela Wayforward para o Nintendo DS. Adquiri o jogo em dezembro de 2012 e, desde então, tenho jogado muitas vezes, tanto no no modo "story" quanto no modo "gauntlet" (ou "survival", na terminologia própria do jogo). No entanto, no preciso momento em que superava  meus limites, a máquina encontrava os seus, e travou - o que frustrou minhas expectativas de lutar "até a morte", muito embora deixando uma bela imagem residual.

No entanto, encorajado por meus progressos e determinado a vencer ao menos 100 ondas, nos dias seguintes vim jogando e, quanto mais ondas de adversários eu conseguia superar, mais ocorriam problemas técnicos. Por mais duas ou três vezes o jogo travou e, em outras ocasiões o áudio experimentou falhas cumulativas - em geral, os efeitos sonoros de ataque e feedbacks diversos iam desaparecendo, até que sobrava apenas a trilha sonora de fundo.

Somente ontem, no mais árduo dos confrontos, me dei conta de algo: nos últimos dias eu vinha derrotando não apenas o software Thor - God of Thunder em seu modo gauntlet, mas também o próprio hardware do sistema Nintendo 3 DS - especialmente, imagino eu, sua memória RAM.

A partida de ontem foi aquela onde não apenas alcancei, mas superei minha meta, derrotando 104 ondas e sendo abatido na seguinte. Durante o confronto os efeitos sonoros se foram completamente e, em minha imaginação, comparei a situação à de um combatente ensurdecido pelo ruídos do campo de batalha. A analogia tem lá seu fundamento, uma vez que a perda do feedback sonoro durante a partida causa certo desconforto e desorientação, pela perda das costumeiras pistas auditivas.

Por volta da nonagésima onda me questionei se valia a pena seguir adiante, temeroso de que o sistema de meu DS, com seus mais de 8 anos de operação não resistisse ao esforço. Ainda assim, achei que valia a pena experimentar e a partida veio a bom termo, com minha derrota no centésimo quinto round.

Mas que pensar, efetivamente, de minha "vitória" sobre a máquina? Certamente há que se pensar em suas condicionantes. A principal delas, creio eu, é que o sistema, com oito anos de uso,  já não opera mais em sua máxima potência - afinal de contas,  cedo ou tarde a entropia se faz sentir. Nesse sentido, há que se pensar mais em derrota do sistema que em vitória do usuário.

No entanto, ainda aqui há uma curiosidade: meu "hardware", por assim dizer, tem 28 anos de "uso".a mais que meu Nintendo. Não obstante, em nossas respectivas capacidades de processamento de informação, via interface de jogo, eu permaneci funcional,  enquanto o console entrou em colapso sistêmico.

Por banal que seja esse episódio,  me parece quase alentador "vencer a máquina" em tempos em que muitos advogam a substituição do humano em tantas tarefas demasiadamente humanas. Certo contemporâneo de Ford dizia que eram necessários trabalhadores baratos para operar máquinas caras. Infelizmente notamos que a mentalidade industrial pouco mudou nesses últimos 100 anos.

Apenas tardiamente me dou conta de que tanto Thor quanto John Henry travam suas respectivas batalhas usando martelos - uma das mais arcaicas, simples e eficientes ferramentas humanas. 

Não estranha que os antigos escandinavos e os trabalhadores dos EUA tenham associado o martelo a seus heróis míticos e folclóricos - afinal de contas, há pouco de heroico nas aventuras de uma perfuratriz a vapor, mas um humano com um martelo apela à imaginação, ainda que se trate apenas do Chapolim Colorado com sua marreta biônica. Não contavam com nossa astúcia!




domingo, 14 de fevereiro de 2021

Acidentalmente épico

Após 75 ondas de atacantes, o game resolveu travar em um enquadramento épico. Thor levando uma flechada certeira na nuca. Um troll com o arco retesado para a flechada seguinte. Dois trolls caídos no chão e um terceiro em pleno impacto contra o solo. Ao fundo, o impávido perfil da cidadela de Asgard. Acima, dois astros misteriosos no céu sombrio. Uma cena digna de tapeçaria medieval ou dos pinceis de William Blake. Já vi capturas de tela publicitárias menos dinâmicas e interessantes.



domingo, 7 de fevereiro de 2021

Essência de um mau roteiro - "The Force is confuse with this one..."

Um dos casos em que uma imagem explica três películas totalizando quase oito horas de duração no relógio (e uma eternidade na poltrona do cinema). Seria melhor ver o filme do Pelé. Tragam George Lucas de volta!





quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Ambitopias

Toda distopia é a utopia de alguém... Meu maior sonho pode ser seu pior pesadelo. Seu Paraíso pode ser meu Purgatório. O "bem comum" é sempre evasivo, como uma miragem que se perde na distância. Desejos são criações insidiosas da mente, maçãs de casca lustrosa cujas entranhas permanecem imprevisíveis e indecifráveis. Platão era excelente filósofo, mas péssimo político. Toda idealização do melhor dos mundos, da sociedade ideal ou da mais perfeita república pode conter traiçoeiras sementes de tirania. Prefiro o diálogo e a dialética, com todas as imperfeições, dúvidas e ambiguidades do mundo real e das pessoas reais aos grandiosos delírios de ingênuos visionários.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"The mirror lied" and "Bandersnatch" - Do those works have a meaning?

I just played the intriguing "The mirror lied", a short and strange RPG game developed by Kan Gao, from Freebird Games. As a developer, myself, I can praise it's charming graphics, it's enjoyable gameplay and it's smoothly bumpy flow, reminiscent of old-school point-and-click games (but never the boring ones). Gao accomplished an atmospheric and involving game, which takes the player to a dreamlike experience, following Leah, the lonely protagonist.

The game takes roughly 20 minutes to end. Although set in a very common and even cozy house, "The mirror lied" is weird, to say the least, and, as I just found, has been the subject of many debates on it's meaning. Someone nicknamed "Katthecat" wrote a very good and comprehensive essay about it.

Gao took himself a part on this debates, to "explain" the game in a short video - all he does is shrugg his shoulders to the viewers, showing an ammused expression.

I guess the best answer on the "meaning" of the game is advanced by a short review on the site "Grinding Down". The work is just "an experiment intently too vague":

However, here, in The Mirror Lied, it all felt like an exercise in simply trying out mechanics and puzzles–nothing more, nothing less. A half-hearted attempt at a narrative to connect everything was provided with Leah, Birdy, and the phone calls, but the rest is left on the back-burner, because it doesn’t matter if you understand what is happening by the end, only that you got there, by figuring out how to unlock drawers, access a computer’s email network, and fill up a bucket with reddish liquid to water your ladder to freedom.

And I would add something more: Gao was probably trying to stir a buzz among indie gamers, in order to promote his masterpiece, "To the moon" (that I did not yet play). And it is fine to be so.

"The mirror lied" makes me think about "Bandersnatch", the interactive episode of the cult Netflix series "Black Mirror". The series itself is too grim, bleak and gloomy to me, but this interactive experiment left me curious. There are many endings, and people around the Internet kept endlessly discussing them and their supposed "meanings". There are many complex and even confuse flowcharts available on Google trying to outline "Bandersnatch".

I must confess the interactive episode felt exciting at first, but the chase for it's differente endings, through many repeated and looping paths soon became boring to me. As to the "meaning" of "Bandersnatch", I think the only way to "win" the challenge is just turning the smartphone off and moving on to some good book. 

"Bandersnatch", as I see it, is something like a practical joke or a prank on the viewers, intended to drag as much attention as possible and potential followers for the series. After all, attention is the most precious merchandise in our overconnected world. I must confess that I was only interested in that interactive experience by the overexcited chat about it among my high-school pupils.

Returning to the ingenious and enjoyable game developed by Kan Gao, I can say it made a very good work at creating a vague narrative exquisitely tailored to left the players puzzled after just half an hour (or even less) of gameplay. Quite an accomplishment, for an indie game.

To make my point, I guess both "Bandersnatch" and "The mirror lied" are purposefully "disturbing" and made to leave the public wondering about their respective "meanings" - that can be many or none. In both cases, I dare to say, the mean is the meaning. We, humans, are inclined to search for meaning everywhere - and I believe there are many meaningful thing in this world we live in.

However, many human endeavours are meaningless, by accident or by purpose - which I particularly believe is the case of Mr. Gao intriguing game. Such "meaningless" works of art may feel boring or disturbing just because we want to find not only a meaning but THE meaning, the true, final and unambiguous one. Our questions crave for answers, even if the answers are shoddy or far-fetched.

It is striking that all the interpretations about "The mirror lied" available on the web tend to be allegorical, concerning specially the main features of the game: the characters Leah and Birdy and the constantly watered plant. But are they truly allegories? Can they not be just a girl, a bird and an overgrown potted plant in some bizarre and lonel setting?

As a bad poet, I am fond of allegories and, generally, figurative language, but as a historian, I tend to be very cautious about them. And so, to conclude this reflexion, I quote Tolkien, scholar and novelist,  whose point of view about allegories is very keen, accurate and sound:

I cordially dislike allegory in all its manifestations, and always have done so since I grew old and wary enough to detect its presence. I much prefer history, true or feigned, with its varied applicability to the thought and experience of the readers. I think that many confuse applicabiliy with allegory; but the one resides in the freedom of the reader, and the other in the domination of the author.

In an interview about "The Lord of the Rings", the author was even more straight: "It has no allegorical intentions, general, particular, or topical, moral, religious, or political". 

And thus I must yet congratulate Mr. Gao as, mischievously shrugging his shoulders to the audience, he abdicates the "domination" of the artist for the sake of the "freedom" (and joy) of the players. "The mirror lied" is a dreamlike game, and, as it goes for dreams, find it's meaning might just ruin it's oniric atmosphere.

And to properly close, "Mischief managed!"